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TEXTOS O olhar selvagem Radmila Zygouts Uma hist6ria quase sem palavras, um medo esmagador, a itritacdo surda da analista, um colar misterioso, uma estdtua no consultério.. "A cada instante, um ‘acaso! modifica, uma lembranca encadeia.” Paul Valery assei quatro anos sob alta vigilancia. Duas vezes por semana, com hora marcada, ela vinha e me fae mpecia de me mover, de falar, de pensar. Um dia, eu me revoltei. Gostaria de contar 0 mo- ‘mento dessa revolta e suas conseqiiéncias. Nesse texto, “Bie” € uma psicanalista, “ela” uma paciente, a hist6ria ‘um fragmento de tratamento. O “parti pris” de no fazer comentarios cientficos exige essa explicagio mas, na verdade, eu e ela nao fomos sempre tio nitidamente distintas quanto seria necessirio segundo a I6gica da narragio. Embora © Grande Costume do Ocidente exija que cada protagonista de uma hist6ria seja 0 tinico sujeito de sua enunciaglo, h4 histérias onde um diz 0 Elementos para uma andlise? Vejamos. que 0 outro nao pode proferir, e até mesmo algo que ‘um terceiro, no nomeado e ausente, 0 faz dizer ou fazer. Confio na sagacidade do leitor para efetuar as permuta- ‘Ges necessirias, sem Ihe infligit as costumeiras excur- s0es te6ricas, produtos pereciveis que tém o dom de envelhecer mais depressa do que as hist6rias que pre- tendem esclarecer. Quando me pediram para escrever uma histéria clinica, foi sua imagem que se apresentou de imediato. Percurso a* 11 -2/1993 TEXTOS io sei por que. Por muito tempo, nfo havia mais pensado nela. Mais de dez anos apés o fim dessa andlise, resta-me a lembranga de um filme mudo. Certas imagens dela, de suas roupas, de seus gestos hesitantes, de minha imobilidade. Uma espécie de meméria visual boba, crua, novelo de lembrangas que vou tentar desenro- Jar com minhas patavras de agora. ‘ que me surpreende € a pro- liferagao de imagens e a raridade do verbo. Retomo minhas notas da €poca. S40 pobres ¢ confirmam mi- nha memoria atual: poucas transcri- Ges de frases ditas, mais a descri- Go de coisas vistas, de sitaces vvividas, e algumas reflexdes sobre meu mal-estar. Filme mudo. ae Peete ae ae * No entanto, ela falava, No en- tanto, tinhamos seguido escrupulo- samente o ritual da Epoca. Apés algumas “enirevistas” preliminares, ela se deitou no diva. Sem divida, ela se deitou um pouco rapido de- mais; sem diivida, aliviava-me nto estar exposta a seu olhat inquieto, talvez até inquisidor. Eu queria so- bretudo escutar, nido ser mais vigia- da, nao olhar mais, Nada mucou por ela estar deitada. A nao set que ela se pds a escutar, € a espiar com ‘© ouvido, o menor de meus movi- mentos. Se eu me inclinasse alguns centimetros em direcdo ao diva, ela pparava de respirar, tomada de pani- co. Dizia: “Tenho medo, vocé est ‘muito proima” Se eu me inclinas- se um pouco para o outro lado, também era demais: “Eu a sinto tao Jonge, estou to sozinha, nao tem ninguém aqui, tenbo medo.” Eu de- via ficar eta, nem muito perto, nem muito longe - questio de centime- tros - imével, como uma estitua. Seu pinico, se eu no obedecesse imediatamente, era imenso. Tudo the dava medo, um medo de cortar a sespiracho. © menor barulho a fazia sobressaltar,a menor mudanca no espago do meu consuliério a inquictava ¢ a mergulhava num si- lencio pesado. A menor mudanga, © seu universo oscilava. Tudo se tomava, sempre de novo, estranho. ‘A ameaga efa onipresente, conta- sgiosa, Nada em particular lhe dava ure : Birnie ete Pivearer ature eat: medo, mas tudo, a qualquer mo- mento, podia despertar este medo que ela dizia antigo. Ela tinha vivido assim até os 35 anos. Fazia esforgos cotidianos, 2s vyezes hora a hora, para viver nor- malmente apesar disto; mas aqui, em minha presenca, concentrados sobre meu espago, seus esforgos se multiplicavam, No entanto, sua es- colaridade havia sido normal, ela havia feito estudos, havia se casado, tivera dois filhos. Eu me perguntava como ela pudera fazer tudo isso com tanta angiistia. ‘Quando 0s filhos cresceram € comegaram a sair sozinhos, seu medo aumentou mais ainda. Mas ‘mo era um medo particular de que 8 Ihes acontecesse alguma coisa. Era seu medo, o de sempre, porém mais forte. Tomava entiio medicamentos, sem outro resultado que ficar dopa- da. Mais abaixo o medo continuava. 1H4 muito tempo ela tinha pensado na andlise, mas nao tinha ousado falar disso a seu marido. Foi ele que, finalmente - niio aguentando mais vé-la tio mal-terminou por sugeri-a. Desde nosso primeiro encon- to, tive a impressio de que ela estava fantasiada. Fantasiada como pequena senhora bem comportada, vestida como convidada eterna para um jantar na casa do vice-delegado. ra cutioso a que ponto sua aparén- cia, no entanto discreta ¢ insignifi- cante, tinha o dam de me irritar. E mais particularmente, desde nossa primeira entrevista, o colar de péro- las que ela usava sempre. Naturais on cultivadas, essas pérolas me ins- piravam a cada vez pensamentos arasitas que me defxavam perple- xa. E quanto mais o tempo passava, ‘mais eu me fixava neste pobre colar, que simbolizava a meus olhos tada a sua infelicidade, sem que eu pu- dese me explicar em nada esta impressio. A cada encontro, subia em mim uma onda de intolerancia, frases estipidas me vinham 20 cespirito, assim como: “Quando vocé inéio usar mais essas infames perole- tas, as coisas melborardo para vocé, ‘minha filbal” Ow entao: “Ainda vou arranci-las de voce!” Bu no dizia palavra, claro, de meus impulsos, mas eles me consternavam. Peque- no delitio intimo, induzido pelo ‘mais insignificante dos objetos. Bu ansiava pelo dia em que ela viria sem. Ela vinha sempre Com. Isso me inritava; eu me achava bem louca. Ela propria no o mencionava nun- ca, Hle fazia parte de seu traje habi- tual, como a alianga ou um outro anel, Certamente, na vida comum, eu as vezes fazia alguma coisa em telacio a esses emblemas burgue- 85 que so os famosos colares de pérolas; a essas insignias da femnini- lidade bem conveniente. Mas daf a ‘me irritar a esse ponto, e com tama- nha veeméncia? Muitas outras pa- cientes se apresentavam no consul- {6rio com esse tipo de colar - jéia, em suma, bastante comum - sem ‘que isso me incomodasse. Nela, eu niio suportava... Assim que ela en trava, eu 56 via 0 colar. ‘Minha irritagao silenciosa, suas injungdes para que eu permaneces- se imével, sua vigilancia de todo o ‘meu espaco, me impediam de pen- sar € me tormavam totalmente inefi- az... Era como se eu estivesse pre~ sa numa armadilha, da qual nao sabia como sair. As idéias me falta- vam, amargamente. Mas eu tinha uma, € me agatrava a ela. Ha muito tempo os pensamen- tos parasitas me fascinam. Sei que ilo se deve expulsé-los muito ripi- do. Eles s0 a “chamada” da raz0 dos sonhos, estranhos & razio do dia. Eu sei, © jé 0 pressentia na €poci, que se trata de cruzamentos onde pisca um saber de uma outra espécie, aquele que s6 se aprende de si mesmo. Os pensamentos pa- rasitas contam a outra bistoria, aquela que eu no posso ou nao devo conhecer. ‘Mas, contrariamente 2 outras vyeres, onde de modo mais ou me- nos rapido eu acabava por ligé-los face diuma das coisas, neste caso preciso no conseguia emendé-los a0 que quer que fosse. Terminéi por aceiti-los como se aceita uma gripe Nao tinha escolha. Bla vinha regularmente &s ses- sbes. Narrava seus dias, suas Jem- brancas..., quando minhas posturas Ihe pareciam déceis 0 suficiente para que o medo nio a submergis- se. Mas também. ai, nada retinha minha atengio, nada se deixava agarrar. No enianto, sua infancia estava presente. Eu no desconfiava ‘2 que ponto. Sua infancia se resu- ‘mia a algumas cenas. Sempre as mesmas. Sua mie safa para traba- Ihar, voltava tarde. Hla ficava muitas vezes sozinha. Quando pequena, fora cuidada por uma baba de quem ‘gostava. Sem mais. O pai s6 aparecia verdadeira- ‘mente nas suas lembrancas a partir dos seis anos. Atingido entio por uma “doenga” (nito nomeada), ele vivia deitado 0 dia inteiro e Ihe era proibido ir vélo no seu quarto. Ficava fechada no quarto ao lado, As vezes em companhia da mulher que cuidava dela, mais tarde sozi- ha; no devia fazer barulho; seu pai nao devia saber que ela estava presente. Ela ignorava por que; ‘movimentava-se -pouco; brincava em siléncio. Nao se lembrava nem de ter sido feliz, nem de ter sido infeliz; no se lembrava de nenhum sent ‘mento, Tinha sido boa aluna, mas na verdade nao tinha tido amigas. ‘Nunca acontecia nada que mereces- se ser contac. Toclos os dias eram iguais. Fonmo esse relato a partir de imagens que me ficaram dela crian- ca. Hla contava isso “en passant’. Contava tudo “en passant”. O medo jf estava If quando era pequena; desde sempre estivera 16, dizia ela Nao tinha lembrangas sem o medo. ‘Adolescente, ela acabou por colocar a palavra “medio” neste sen- timento assustador que a torturava. Ela dizia “medo", nao “angiistia”. Medo de ser observada, medo de fazer barulho. Medo de seu pai; mas ele nao era assustador, era somente doente. Seus pais eram bons pais, dizia ela também. Nao se queixava. Nao lhes falava de seu medo, niio ppodia, era muito estranho. Era mui- to sem razao. Um acontecimento a marcou neste perfodo de sua inffncia: uma noite seu pai grita, a mle se agita, cchama uma vizinha, uma ambulin- a vem, € o leva. Ela vé seu pai partir vé que ele est4 chorando. Nenhuma palavra € trocada, Ele ‘moreu pouco depois, sem que ela ottivesse visto. Com essa lembranca ela se emociona. Ea tinica vez. Nas ‘minhas notas escrevi: “Enfim uma verdadeira sesstio.” Para mim, era entio necessirio dor fresca? Ela contava outras cenas, Fram sempre cenas mudas. Descrigdes. Nos seus relatos, 0s protagonistas nao sio dotados da palavra, Sua vida atual é regracia como um pentagrama. Sem misica. Ela faz tudo 0 melhor possivel, quer dizer bem. Seu marido € bom ma- rido. Ora, ele € engenheiro... Ela acredita que ele a ama. Ele tam- bém acredita que a ama. S6 eu desconfio. Nao me enganava. Mas bico. Ela nfio sabe muito se o ama. Opa! uma esperanga, pensava eu... Em vio, Esta pista nao leva a nada. Eu sou uma ingénua. E in- crivel, as besteiras que se pode calar. © dogma tinha algo bom... Ela se preocupa com seus filhos, teme por eles. Na realidade, teme por ela mesma, perante eles, © sobretudo perante sua filha. Nao sabe por que.