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Artigo
Cascavel, foi Alzheimer que te deu?
Gente que enriqueceu, formou-se,
passou momentos felizes numa cidade
chamada Cascavel poderia ter a memória
um pouco mais esperta.
As lideranças cascavelenses não
festejam o aniversário da cidade (28 de
março) e vivem batendo cabeça com a
data de aniversário do Município (será 15
de novembro ou 15 de dezembro?).
Diante do orgulho e entusiasmo com
que os irmãos paraguaios festejaram o
aniversário de sua Assunção, no
domingo, é intrigante porque aqui não
existem manifestações semelhantes de
Marcos Cláudio Schuster apreço à cidade.
(1922–1984)

Mas ao menos a comunidade universitária deveria ter presente


que o dia 16 de agosto é uma das datas mais importantes para o
ensino superior no Oeste paranaense. Em 16 de agosto de 1972 a
Fecivel (hoje Unioeste) iniciou atividades. E em 16 de agosto de
1975 a primeira turma de alunos do ensino superior oestino colou
grau.
Para chegar a esses momentos tão significativos, que representam
os primeiro marcos vitoriosos do terceiro grau na região, foi preciso
o esforço de pessoas que as novas gerações sequer souberam ter
existido, devido à agressiva perda de memória de seus pais e avós,
prefeitos, deputados e líderes em geral.
Enquanto no mundo todo os estudantes promoviam grandes
manifestações de rebeldia, os jovens de Cascavel canalizavam sua
força na luta pela criação do ensino superior.
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Foram intensas manifestações. Algumas importantes comunitárias


se destacaram ali: Heitor Jorge, José das Graças Araújo, o Astorga, e
Tânia Lancini, entre os estudantes. Os professores Marcos Cláudio
Schuster e Juarez Fernandes. Os vereadores Luiz Picoli e Elisa
Vieira Simioni. O prefeito Octacílio Mion pôs a Prefeitura toda a
serviço do projeto.
Obviamente podemos também mencionar os que não foram
esquecidos, como o professor Ivo Oss Emer, uma referência
acadêmica eterna no que se refere ao ensino superior. Recordei
apenas alguns dos muitos esquecidos para que, com tantos outros
que participaram dessa luta, passem a ser lembrados.
As manifestações de 1968 deram na eleição do maior líder
estudantil da época, Luiz Picoli, para a vereança. Foi assim que a
mobilização estudantil alcançou de pleno a Câmara Municipal, que
em 10 de julho de 1969 forma uma comissão legislativa para
reivindicar às autoridades da área educacional a criação de uma
faculdade.
A comissão legislativa, formada pelos vereadores Luiz Picoli,
José de Oliveira e Elisa Vieira Simioni, elabora um documento que
reúne dados sobre a realidade social e econômica de Cascavel.
Marcos Schuster, Elio Wílly Fauth, Tânia Lancini e outros
professores e alunos participaram da tarefa de levantamento de
subsídios.
Esse documento passa às mãos do secretário da Educação e
Cultura, Cândido Martins de Oliveira, a 13 de junho de 1969, data
da inauguração oficial do Colégio Estadual Wilson Joffre.
Dez dias depois, a Secretaria da Educação acolhe a proposta de
criação de uma faculdade e a 29 de novembro daquele mesmo ano
decide-se que a primeira faculdade será de Filosofia, Ciências e
Letras.
Como de hábito, as pessoas vão muito na conversa dos castelos de
Curitiba e ao ter dois papéis oficiais aceitando a criação da
faculdade o movimento se perdeu – reconheço que também por
temor da ditadura, que piorou com o AI-5, no final de 1968.
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Mas o movimento foi reavivado por um corajoso professor em 24


de abril de 1971: Marcos Claudio Schuster já não estava mais
satisfeito com a promessa de criar a faculdade, que não saía, e
lançou a palavra de ordem pela criação da Universidade do Oeste.
Aí o barco andou. Neste mesmo ano, com a lei municipal 885/71,
de 27 de novembro, foi criada a Fundação Universidade Oeste do
Paraná (FUOP), regulamentada a 27 de outubro e autorizada a
funcionar pelo Decreto Federal 70.551, de 15 de maio de 1972.
Tinha a finalidade de criar, instalar e manter a Universidade do
Oeste do Paraná.
Também o sonho de Schuster foi atropelado pelos castelos de
Curitiba e Brasília, onde o poder da força não permitia
reivindicações populares. Pelo menos veio em lugar da universidade,
em 16 de agosto de 1972, a Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras de Cascavel (Fecivel), que ocupava as instalações do Colégio
Nossa Senhora Auxiliadora. O que veio depois é consequência, mas
foi assim que as coisas começaram.
Que tipo de remédio ou terapia está faltando às nossas lideranças
para dar mais valor à história da cidade onde tanto enriquecem e
churrasqueiam?
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Alceu A. Sperança – escritor
alceusperanca@ig.com.br