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NA OITAVA CASA DA VIDA - Parte 1

Eu e minha família, mesmo depois de termos mudado de Formiga há tanto tempo (e lá se vão
34 anos!), ainda guardamos muitas lembranças agradáveis da cidade. Os “amigos do peito”
também desapareceram da terrinha, mas mantemos contato com muitos deles. O fato é que,
atualmente, nos sentimos estranhos quando lá aportamos porque quem ocupa a cidade é
justamente a geração posterior à nossa, ou seja, os filhos dos amigos. Mesmo assim, os ares
de antigamente ainda sopram em nossas almas nostálgicas e saudosas de tempos tão sadios
(não me canso de bater nesta tecla, mas coisa boa tem que ser repetida incansavelmente).
Assim, é oportuno rememorar uma história ocorrida com um desses amigos de outrora, o Oto.
Passo-lhe, pois, o teclado para que o seu relato fique ainda mais autêntico: “Tive um amigo
singularmente estranho. A fim de preservar-lhe a identidade real, vou chamá-lo de Saulo. A
nossa amizade fortaleceu durante uma viagem que fizemos juntos até Campinas, terra das
flores, onde eu fora estudar sobre a cultura de algumas roseiras que brotam naquela região
como água na mina. Sempre me interessei por jardinagem e, por isso, fiz questão de me
especializar no assunto. E não errei ao admitir, desde quando soube que o Saulo colecionava
rosas que ele tinha os mesmos gostos que eu, pois também sempre gostou de jogar xadrez que
sempre foi uma outra mania minha. Sempre tive por ele uma predileção especial. Era como
um pai para mim, pois sempre me dava conselhos, cuja simbologia fazia com que ficassem
para sempre marcados em minha memória. Na verdade, sua alma sempre foi muito
esclarecida. Ele era um autêntico filósofo oriental. Sua maneira de falar era clara, persuasiva
e, como disse, suas imagens, imprevistas às vezes, sempre abriam jardins de serenidade em
meus mais profundos pensamentos.Até hoje, conservo na lembrança daqui do lugar onde me
encontro agora, algumas passagens pitorescamente divertidas desse querido e culto amigo.
Assim, com a chegada da estação das flores, aconteceu o tradicional Baile da Primavera no
Clube Centenário, evento portentoso que com a chegada do mês de setembro todos os
formiguenses começam a aguardar. Engravatei-me, penteei parcos cabelos, afivelei o cinto de
minha calça de terno e fui ao baile. Chegando lá, resolvi, antes de entrar no salão de danças,
dar uma chegada até o salão de jogos. Aquele ambiente de jogatina sempre me atraiu. Se não
era pôquer, era xadrez, e vice-versa. Deparei-me com o baixinho, porém elegante Oto e o
cumprimentei efusivamente como de hábito. Em tom sarcástico, dando a sua típica risadinha,
denotando, como sempre, amistoso interesse, perguntou-me: ‘E aí, Saulinho! Que está
fazendo aqui? Na sua idade, eu já estaria dançando com uma bela formiguense, pois a dança
está animada lá no salão de cima!’. Sem esperar resposta, fez-me um convite: ‘Pensando bem,
você está a fim de jogar uma partida de xadrez?’Aceitei sem hesitar. Nada mais agradável
para desanuviar o espírito e energizar o cérebro, mesmo sendo durante um baile! No
momento em que íamos arrumar as peças e dar início à primeira partida, Oto fitou-me muito
sério e indagou: ‘Ah! Antes que me esqueça! Soube que você esteve hoje com o importante
advogado Carlos a fim de reclamar uma causa trabalhista. Foi bem-sucedido em sua
entrevista?’, ao que lhe respondi: ‘Nada! Não fui nem um pouco feliz. Sei que a justiça está
do meu lado, mas o advogado não quis me ouvir as alegações que tentei lhe formular e nem
concedeu a menor atenção aos documentos que apresentei. Recebeu-me mal, até com certa
grosseria. Ficou desatento e às vezes foi ríspido comigo. Por pouco não o agredi. Como
sempre, contive-me para evitar o escândalo.’. Oto franziu a testa e disse: ‘Teve ele algum
motivo para proceder dessa forma indelicada?’. ‘Pelo que eu saiba entre nós jamais houve o
menor ressentimento. Ao contrário, sempre fomos bons amigos na infância. Várias vezes o
ajudei nas tarefas escolares e até cedi-lhe alguns livros de minha biblioteca, quando lutava
com dificuldades para estudar. E agora, depois que virou profissional de renome, recebe-me
com insolente desprezo e tenta me humilhar...’Realmente, Saulinho. Suas queixas procedem.
A atitude arrogante desse advogado, não devia surpreender a um homem que tivesse mediana
experiência da vida...” (continua)