Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

................................................................................................................................................. 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez.....................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS........................................................................................................................ 237 6 ............................................................. 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy..................................... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D................................................................................................................................................. 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï............................... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost........................................................... Benevides de Barros......... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï..

tornou-se ainda mais importante. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. este livro. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. Junho de 2001 Os organizadores 7 . quanto para os que praticam a psicologia. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. da organização e do funcionamento social. bem conhecida e divulgada no Brasil. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. prático e metodológico. dispositivo de consulta e pesquisa.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. À metodologia de intervenções/pesquisas. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. reais. hoje. Por tudo isso. cuja história é nele revista e avaliada. por meio da “intervenção psicossociológica”. sociólogos e um economista. o campo da psicossociologia cresceu. Assim. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. tal como no momento da primeira edição. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. a administração e a política. o direito. esclarecedoras dos processos de criação do social. a economia. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. Desde a primeira edição. fruto do trabalho de psicólogos. cada vez mais utilizada. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. a sociologia. a educação. a psicanálise.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. o pesquisador-prático. reflexão e análise dessa disciplina. as condutas concretas dos indivíduos. que condutas. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. empregando para tanto. Passaram a se preocupar. organizações e comunidades. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. por sua presença. a metodologia de pesquisa-ação. no quadro da vida cotidiana. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. das organizações e das comunidades. se revelassem. até então desconhecidas. Atuando diretamente na vida dos grupos. freqüentemente através de experimentos. Portanto. em seus grupos. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. Por meio dessa abordagem. geridos e transformados. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. com as instâncias de mudança. igualmente. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. A partir dos anos 50. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. inicialmente. 9 . fez aparecerem certos problemas. são o objeto de pesquisa. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. grupos. organizações e comunidades. isto é. Em conseqüência. em especial.

Porém. que 10 . LÉVY). NICOLAÏ). buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. de transformações nos sistemas sociais (A. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. aptos a um “imaginário motor”. mesmo que involuntariamente. mobilizados por ilusões e crenças. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. e serem criadores da história. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. adquire um sabor de novidade. do trabalho da pulsão de morte. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. com suas mudanças e rupturas. idealizando e buscando destruir seus chefes. nos termos de E. pouco a pouco tecido. sujeitos capazes de serem autônomos. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. torna visível a presença do sujeito social. do socius. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. contra esse pano de fundo. sempre inacabada. a mudança social (A. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. da organização e do funcionamento social. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. dos desejos de onipotência e dominação. pois a teorização é fruto da reflexão que. por um ato de decisão. DUBOST). e do processo de criação institucional. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. de onde e como surge a dinâmica social. é formulada uma teoria. Ora. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. Paulatinamente. hoje ela se renova. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. ENRIQUEZ. que é também um ato de palavra. sujeitos que. 60 e 70. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50.

entretanto. J. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. José Newton G. são apresentados nesse livro por Marília N. relações de poder e autoridade. Psicologia Clínica (J. Política. M. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. mas também de outras referências. A. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. CASTRO. a respeito das suas representações historicamente constituídas. E. de suas fantasias de onipotência. nestas páginas. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. enfim. aqui e ali. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. Assim. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. BARROS. formuladora de grandes quadros teóricos mas. Assim. T. estruturas dissipativas. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. LÉVY. está presente em quase todos os textos. da MATA-MACHADO. MATA-MACHADO). são analisadas novas ideologias. práticas de intervenção mitificadas. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. o pensamento filosófico de C. é analisada. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. de BARROS. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. B. a condição de construção da vida social. de ARAÚJO. Sonia ROEDEL. Sociologia. o desenvolvimento de um processo organizacional. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. TOURAINE que. auto-organização e complexificação a partir do ruído. CASTORIADIS. Eliana de Moura CASTRO. ROEDEL). e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. ARAÚJO. de suas demandas de amor e proteção. 11 . autopoieses. DUBOST. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. Eugène ENRIQUEZ. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. formadoras das sociedades atuais e futuras. S. assim como novos sagrados e certezas. André LÉVY e André NICOLAÏ –. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. Os autores – Jean DUBOST. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. assim como.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. como sistemas dinâmicos. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. CARRETEIRO. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento.

textos recentes. CARRETEIRO). mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. CASTRO – Psicanálise. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. 1990.). ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . BARROS. 1990-1. ROEDEL). ENRIQUEZ. M. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. Inicialmente. cobrindo questões atuais. ROEDEL.Em segundo lugar. 1989. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. Essa primeira proposta. resultando em treze textos. 1991.Foram escolhidos. especialmente. em função do mencionado convênio. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. ARAÚJO. NICOLAÏ. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). feita em novembro de 1991: . ENRIQUEZ) e Economia (A. 1990-1. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. MATA-MACHADO – Psicologia Social). distribuídos em três partes. a partir do exame de uma centena de textos. Além desse território de pesquisa. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. LÉVY). Assim. ENRIQUEZ. Paris X (J. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. a Psicossociologia. NICOLAÏ). E. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. LÉVY (mimeogr. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes.). A. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. . T. ENRIQUEZ). LÉVY. CASTRO. ARAÚJO. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. NICOLAÏ) – mas. “A interioridade está acabando? – E. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. no Brasil. Paris XIII: M. MATAMACHADO). a disciplina que os congrega. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. Paris XIII (A. primeiramente. na empresa. “O fanatismo religioso e político” – E. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. “Rupturas. sofreu modificações. DUBOST.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. T. mutações e complexificação em economia” – A. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. ENRIQUEZ. de um projeto pessoal e familiar. MATA-MACHADO e S. NICOLAÏ (mimeogr. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). na França.

respectivamente. o grupo e a questão da mudança. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. Mais de uma dificuldade de tradução. DUBOST. As traduções foram revistas por J. ENRIQUEZ. para designar 13 . LÉVY. a apreensão de seu sentido original. em maior ou menor grau. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. na primeira nota de rodapé. “Intervenção como processo” – A. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. 1987). ARAÚJO. 1980. Por exemplo. mantendo-se a tradução utilizada por T. Seus nomes aparecem. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. NASCIUTTI para o livro de E. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. MATA-MACHADO. à Psicossociologia e à Psicanálise. . apresenta a intervenção. 1976. DUBOST. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. contudo. mantiveram-se termos como “fantasmático”. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. além de ser uma parte de retrospectiva histórica.Prefácio desejo” (A. CARRETEIRO e J. foi objeto de discussão e comparação. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. Psicanálise do vínculo social. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. finalmente. através da análise etimológica. CASTRO e M. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. editado por Jorge Zahar. preferiu-se “fantasia”.Em terceiro lugar. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. de atividades e produções criadoras. E. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. algumas aterrorizantes. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. a última tradução foi preferida. “forclusão” ou “preclusão”. Buscou-se uma certa uniformização. Por exemplo. em cada texto.

Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. na expressão méthodes d’investigation. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes.“relativo a narciso”. para a palavra enquête. a critério do tradutor. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. expressão bastante usada em português. Finalmente. a palavra investigation. essa foi a escolha. entretanto. nosso primeiro leitor. que procedeu a uma cuidadosa revisão final.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

desde o início. Mas não poderia ser diferente. no enfoque psicossociológico. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. LÉVY e E. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. à sua maneira. aquilo que lhe cai nas mãos. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. a idéia de um “eu”. Cabe. O sujeito que não “morreu” A. Ao apresentar tais artigos. no entanto. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 .ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. visto que todo leitor recebe. Eles descartam. preenche ou interpreta. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. No entanto.1 Pois bem.2 . A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade.

por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. suas relações próximas e regulares. a família. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. E. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica.. um átomo talvez. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. por exemplo. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. vemos que o “indivíduo” é. Assim. o ofício ou o produto. mesmo na França. a chamada “sociologia do cotidiano”. entre outras coisas. convém observar que. já na virada dos anos setenta. LÉVY.”. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. nos artigos aqui apresentados. notadamente através da teoria lacaniana. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. nos parece em parte negligenciada. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. ela é 18 ..6 Isso é claro para os autores. no conjunto das discussões sobre o sujeito. nas décadas anteriores. um ponto de passagem. A esse respeito. antes de tudo. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. não estariam restritas. os autores caminham numa direção que. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. a empresa-família é anterior ao sujeito. o da Psicanálise. ligada a uma prática clínica.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. No texto de A. entre nós. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo.

LÉVY nos lembra. num crescente alienar-se. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. através de FREUD. as significações das ações”. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. O primeiro é aquele que se agarra. identidade coletiva. por exemplo. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. pois este. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. ENRIQUEZ retoma essa posição.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados.” De outro lado. “no momento em que falamos. Ele destaca ainda. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. mas que reenvia. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. A. narcisismo grupal. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. “às vezes sem sabê-lo. Desse modo. um papel essencial nas transformações sociais”. Importante ainda. espírito de empresa. sempre imprevisível. enfim. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. segundo os autores. narcisismo social. fanatismo de empresa etc. as relações sociais. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. isto é. sua constituição “plural” ou coletiva. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. antes de mais nada. além de desempenhar. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. daí a ilusão da identidade pessoal. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. tenta transformar “o mundo. Assim sendo. 19 . a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário.

amor (ou cumplicidade?) mútuo. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade.” 20 . A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. os nordestinos. como se tinha notícia até pouco tempo. científico ou outro qualquer). que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. outras idéias. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc.) deve ser eliminada.9 composto por militantes islâmicos negros que. A essa altura.. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. religioso. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país.. outras propostas políticas. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. em diversos momentos. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. ilusão e crença.. os judeus e. estamos falando de mecanismos inconscientes). mas sim os processos de idealização. xenofobia.. cabem algumas observações. no início de 1993. como um fenômeno “periférico”. Assim. pois ela se torna uma ameaça. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. científicas etc. como a intolerância e o fanatismo. Assim. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. árida novidade. mas exemplar.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. esportivo. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. religiosas. tentando eliminar dele os negros. Basta lembrar. mas que tentam ainda se expandir.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. além da sua. algum tempo após as notícias. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior.

Enfim. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. num clima onde toda crítica está ausente. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. E. seja num grupo intolerante. noção de origem literária e filosófica. isolada e coletivamente. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. por analogia. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. nosso partido de direita ou de esquerda etc. nosso grupo body-building. ele desconhece também. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. ela deve ser doadora de sentido. sejam elas brancas ou negras. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. cada sujeito está perseguindo. em níveis talvez menos contundentes.Análise social e subjetividade Aliás. no Sul do Brasil. infantilizando os “fiéis”. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. Em outras palavras. Poderíamos. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. nosso time de futebol. já de início. resvala necessariamente para a intolerância. a ação grupal deve cobrir um vazio. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). rapidamente. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. seja num grupo democrático. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . O que se torna problemático. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. a eterna questão do sentido. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. nossa “seita” de comedores vegetarianos. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. às vezes. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. Gostaríamos de lembrar. contrapor as noções de sujeito e interioridade.

parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. é numa relação espacial que ela se inscreve. questionamentos. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. alegria. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. Só o ser existe e ele é cheio. ele existe atualmente e está. vítima de ataques. íntima. Se esse sentimento nem sempre existiu. Aliás. BERGSON. a não ser por arrombamento. A compreensão da interioridade é. onde ninguém tem o direito de penetrar. o que é pura duração. parece haver uma tendência. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. por ser da ordem da especialização. em oposição ao vazio: trata-se. ameaçado de extinção. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. para ela.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. quase que imediatamente. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. foi discutida em termos do cheio. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. à alternativa interior x exterior. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). segundo o autor. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. pois. na Filosofia antiga. A interioridade remete. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. interrogações e que. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. A questão do espaço. em se pensar espacialmente. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. A interioridade. Para ele. é ‘uma terra estrangeira’”. pois. num certo sentido. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. na esfera psicossocial. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. Por outro lado. 22 . que não é recente. Talvez seja.

Um corpo dinâmico (isto é. diz FREUD. meio de se situar no mundo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. ao que marca a diferença. A percepção do espaço remete à visão. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. Já a identidade marca a diferença. refletindo a si mesmo). O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. Há.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. depois da perda do objeto. Dito de outro modo. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. O culto exagerado do corpo. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. porque especular. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. saturada de comunicação. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. isto é. foram abaladas pela Psicanálise. separada. ela é capaz de dizer: eu tenho. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. O ter é ulterior. capta os estímulos exteriores e também os internos. diferenciando o interno do externo. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. a pele se liga à formação do eu. considerando o 23 . Existe. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. a identidade própria. unidade e similaridade.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. na época atual. eu não sou. o que se vê por fora é um reflexo do interior. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. bonito. Assim. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. isto é. denotadas pelo termo identidade. Limite e superfície privilegiada de estimulações. temos de falar nos órgãos dos sentidos. As idéias de permanência.

do outro que eu sou. ao eu e muito menos ao sujeito). Em outras palavras. e como bem captou ENRIQUEZ. é passiva. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. só podendo. que todo texto é um tecido de espaços em branco. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. Ele diz. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. Afinal. Finalmente. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. E o mais importante. entre outras coisas. Assim. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. quer como conceito psicológico. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. no campo da argumentação psicossociológica. As propostas absolutizantes. francesa Grasset. é certamente desprovida de energia ou. feitas pela religião. ARAÚJO. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. de outro lado. em sua obra Lector in Fabula (trad. isto é. oferecer uma resistência passiva. se tornam assim mais claras. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). por ser essencialmente espacial. 2 24 . nenhuma leitura é um ato neutro. Por isso. O oculto. em outros termos. já dissemos. a interioridade considerada. pela empresa ou pela sociedade. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Notas 1 Humberto ECO. quer como sentimento pessoal. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. pois. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. isto é. naquilo em que ele é diferente do outro.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito.

à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. Paris: Bordas. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. 1970. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. 445-449). nessa mudança. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . SELLIER (cf: Le mythe du héros. soberano. Paris: Gallimard. p. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). de 28/04/93. alguns anos atrás. por isso mesmo. o culto à figura de GUEVARA. 1975-1976. em seu número de 1º/12/93. em seus níveis mais profundos. além de serem historicamente contestáveis. p. nas quais o Sr. P. 29-31) afirma que. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. Essa mesma revista. não passavam de “mero detalhe”. Paris. Paris: Gallimard. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. tomo XXIX. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. 322. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. p. Lembremos. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. por Jean-Marie LE PEN. (Cf: ANSART. 50-53. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. principalmente após as recentes eleições da Rússia. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. In: Bulletin de Psychologie. p. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. 5-12. G. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. Cf: ANZIEU. uma editora de propaganda nazista. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. cit. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. Conseqüentemente. em nível individual. vol. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. 13). De outro lado.. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. BALANDIER. P. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. P. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. “Essai d’identification du quotidien”. reportagem da revista Isto É. LXXIV. 1984. Cf. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. Observação semelhante já fora feita. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. O autor evoca J. senhor de si e do universo e como se. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. 1983. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. p. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. n. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. como um instrumento terapêutico. Paris: Dunod. face às estruturas e aos sistemas”. fez reaparecer o sujeito. na América Latina e mesmo na Europa. na Biblioteca Nacional de Paris. JIRINOWSKI saiu vitorioso. D... mais perto de nós. Para ele.Análise social e subjetividade 3 Cf. Assim. líder da extrema-direita francesa. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. encontrando aí as condições de gratificação narcísica.

120 ed. 15 16 26 . H. p. 1967. (Cf: FONTANA (A) et al. Entre outras alusões a essa questão. Rio de Janeiro: Imago. semelhante à vivência intra-uterina. 1977. ver: FREUD. 1976. Buenos Aires: Editorial Vancu. 1985. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. 42. ANZIEU. El tiempo y los grupos. Paris: PUF.) 14 Cf: BERGSON. Essai sur les données immédiates de la conscience. S. ss. Além do princípio do prazer (1920). XVIII vol. Le moi-peau.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. D. 68. p. Paris: Dunod.

que nega a interrogação de D. 27 . meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. No momento atual. só se fala do indivíduo. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. que decidi me manifestar. LAGACHE. em maior ou menor grau. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos).OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. Seguindo essas abordagens. do sujeito. mesmo sem dizê-lo. ALTHUSSER). pois. um ser falado. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. como psique. assim. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e.2 A razão é simples: como muitos outros autores. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. O indivíduo torna-se. um ser agido. por outro lado. ao invés. em grupos e organizações. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. É contra essa tendência reducionista. do aumento do individualismo. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. um determinismo absoluto dos processos sociais. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. sua classe ou sua raça. Com efeito. por um lado. De minha parte. No entanto.

mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. portanto. ir muito longe nesse sentido. BURKE. Nessas condições. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. num lugar-tela. além disso. ou de um Deus único. é preciso pressupor. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. no entanto. sua conduta. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. Essa emergência acontece. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. De fato. a cada homem. logicamente. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. em uma classe. heterônima. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. porque toda sociedade comporta falhas. DE MAISTRE –. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. em parte. mas deixassem também. Uma tal sociedade heterônima tem. que pode tomar a forma de totens.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. portadoras de 28 . mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). Em outras palavras. uma cultura. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. “a possibilidade de saber que alhures. de antepassados e de Deuses. Nessas condições. CASTORIADIS. Freqüentemente. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. numa sociedade que é. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. conduta estruturada social e culturalmente. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. zonas inexploradas. já que nascemos sempre em um grupo. a anterioridade dos processos sociais. em parte inconscientemente. em uma nação etc. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. para retomar a terminologia de C. ao mesmo tempo. em uma etnia. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. quer seja por Deus – BOSSUET. em parte voluntariamente. ela própria. isto é. Não é necessário. conformados a seus votos e a seus ideais. que lhe deu direito à existência.

desde a Renascença e. portanto. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. ignorando soberanamente a ideologia dominante. seja lá por que modo. em pessoas e grupos sempre diferentes. sem sabê-lo. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. fanático. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. se põem a acumular riquezas. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. Notemos que as sociedades modernas. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. sobretudo. ele também só é parcialmente heterônimo. Reis continuam a se 29 . não se pode esquecer que o discurso. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. às vezes. Além disso. às vezes. em certos casos. até mesmo se choca. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. Elas se tornaram. de maneira invisível. Alguém inventa uma máquina a vapor. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. como evocava FREUD. por mais totalitário que seja. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. contra a vontade da massa. um papel essencial nas transformações sociais.7 Quanto ao indivíduo humano. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. a trocar sua natureza pela de um térmita. outro um novo tear. apoiando-se nas funções corporais. a médio ou a longo prazo. desde a Revolução Francesa. como dizem FRITSCH e PASSERON. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. pelo menos de imediato e.8 Enfim. um discurso dominante. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. Embora exista. Mas. não a um contra-discurso organizado mas. em toda sociedade.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. Deve-se. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. mesmo sem percebê-lo.

ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. mas é o homem da performance mensurável. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. objeto de tantas preocupações. De fato. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. Ao contrário. Se cada um deve manifestar sua singularidade. “matadores frios”. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. sempre imprevisível. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. a vitória nunca sendo definitiva. vencedores que querem ir até o fim. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. Assim. seu tempo. Assim. No entanto. a individualização. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. como sublinha CASTORIADIS. é. ela pode ser bem efêmera. então. Ele deve gozar com essa renúncia. Nessa ética. o elemento esportivo predomina. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. apenas um elemento do processo de massificação. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. do seu serviço. performance sempre a recomeçar. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). mais freqüentemente.9 Assim. se os processos psicogenéticos pressupõem. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. em nossa época. O winner sempre pode se tornar o looser. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. os processos sociais. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. cada um deve ser criativo à sua maneira. da sua organização.

um novo ritual.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. designava por “zé-ninguém”. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. aqueles a quem chamamos vencedores. o indivíduo renuncia. em geral. características de um esporte. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. a justificá-lo”. atrás da força e da grandeza de outros homens. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. 31 . O “zé-ninguém” está sempre. para depositar seu destino nas mãos dos outros. a busca da riqueza. financeiras ou de prestígio. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. na maioria das vezes. além disso. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. naquele tempo.10 Assim. posições de poder. o que lhe confere. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. onde seu paroxismo predomina. REICH. os que W. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. tende. assim.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. desvestida de seu sentido ético-religioso. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. ou ainda. a se associar a paixões puramente agonísticas. o “culto da empresa”. Ele atinge. igualmente. hoje em dia. em vez de admirar o que ele concebeu. mas não se orgulha de si mesmo. nas universidades. nos hospitais. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. Nos Estados Unidos. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. mas que. Admira o pensamento que ele não concebeu. igualmente. quando se fala do indivíduo.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade.

Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. aderir profundamente às injunções sociais e. médios ou pequenos homens. reprimir suas pulsões. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. o que devemos fazer e como seremos recompensados. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. portanto. então. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. às vezes. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. ser um agente ativo desses processos de recalque. é. correndo um mínimo possível de riscos. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. para existirem. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. agora bem conhecido. nós próprios nos tornamos admiráveis. A idealização é. apresentando-se como objeto maravilhoso. Além disso. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. apoiado 32 . Resta-me. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Em outras palavras. de repressão e de adesão. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. o mundo criado não é contestável. sempre ameaçador). assim. depois de descrever esse fenômeno. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos.

Se somos apenas um espartano. o racismo. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. é se voltar ao grupo de pertinência.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). que tem como efeito “unir uns aos outros. um capitalista. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. é imputar os problemas ao outro. estamos divididos e angustiados. de fato. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. freqüentemente. ao nosso “nós”. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. tem como futuro possível a xenofobia. nas quais. uma massa maior de homens. dificilmente. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). graças a esse jogo identificatório. É necessário precisar esse último ponto. está cheia de perigos. que sentido pode ter ganhar por ganhar. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. como mostrou FREUD.13 Reencontrar a coesão. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. através desse processo. ideais vazios e desprovidos de sentido. os ideais são múltiplos. produzir por produzir. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. A identidade coletiva. G. portanto. sem se dar conta de que. de simplesmente não ser. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. graças a identidades coletivas fortes. um budista. De fato. o narcisismo social. o fanatismo. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. consumir por consumir?) Ora.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. A identidade coletiva favorece ainda. da sedução ou da obrigação]. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. um proletário. (Com efeito. Vivemos em sociedades nas quais. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. contraditórios. eles suscitam a aceitação ou a identificação. estamos perto de não ser absolutamente nada e. 33 .

Quando digo que o sujeito transforma o mundo. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). reproduzir. a sua conversão. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. bem entendido. bem como da tranqüilização narcísica. tem como projeto voluntário. ao menos. em sua vida de trabalho. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. Tal indivíduo só sabe repetir. daí. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. 34 . em suas relações sociais de todos os dias. O indivíduo individualizado (e não individuado. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. o indivíduo singular. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. Para definir criatividade. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. as relações sociais. nos lugares da vida cotidiana. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. Vê-se. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. criança. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. Quero simplesmente dizer que cada um. as significações das ações. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. Não podemos. quanto mais a identidade coletiva existe. portanto. portanto. a respeito de qualquer tipo de problema. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. seres a eliminar. por mínima que seja. no entanto. Com efeito. quanto mais uma cultura se quer unificada. que.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. O sujeito é um ser criativo. não pode ser considerado como sujeito humano.

aquela única que conta – a criação enquanto gênese. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. aqui e agora. do jogo e da vagabundagem. E mais se imprime. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). respirando a plenos pulmões um ar salubre. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. imobilizada. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. levo a sério.. em seus Conselhos a um viajante. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. um ser capaz. não ao charco das alegrias imortais. em lugar de uma imagem da natureza. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. chegarás. a gestação. e que o mundo possa testemunhá-la. Os artistas não se enganaram a esse respeito. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. é ainda pior. demens (objeto da hybris). adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. ludens e viator. em compensação. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . O sujeito é. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. homem portanto de sabedoria e loucura. o nascimento. quanto na inspiração do arquiteto que. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. ela está presente em quem faz. voluntariamente. ao mesmo tempo sapiens.. portanto. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. uma novidade irredutível. é a formação. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. que sente prazer em respirar.. de repente. antes que ela se fixe em natureza morta.. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”).O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. não na escola!. o primeiro movimento indistinto da matéria. meu amigo. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade.

cientificamente. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. assegurando-lhe a redenção. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. para lavar o mundo de sua sujeira. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. 36 . os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. de seus medos.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. um pouco paranóico. aliás. os sedutores ocupando uma posição histérica. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON.17 Porém. atualmente. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. a esse respeito. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. Michel SERRES. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. pela natureza. sente-se eleito por Deus. O megalômano. é preciso parar um momento. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. preso na ganga dos ideais. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. para realizar uma missão salvadora. identificado a seu pai. Assim. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. entre os grandes homens. portanto. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. depois da guerra de 1914-1918. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. a sua própria alteridade). Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. os manipuladores ocupando uma posição perversa. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. Com efeito. No entanto. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. em particular o grande homem.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). Caracterizemos rapidamente esses três tipos.

que tomou o poder contra os mencheviques. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. é um bom exemplo desses chefes perversos. que toma a si mesmo por ideal). ao mesmo tempo. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. como LENIN: ao contrário. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. como já indiquei anteriormente. reduz as relações humanas a relações de objetos. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. denega a realidade). Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. ao contrário. Quanto ao manipulador perverso.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). esse está. segundo FREUD e BULLITT. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. só considera o mundo sob o ângulo econômico. que queria dobrar o mundo à sua vontade. caso bem conhecido e. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. ele se proíbe de ser excepcional. inventando complôs. a um nível mais irrisório. nem uma força de pensamento e de ação. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. O teatro é também para ele um terreno de esportes. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. 37 . que não tinha interesse algum pelos outros. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. crê falar a linguagem da verdade. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). basta o de STALIN. só pensa em termos de estratégia. por sua vez. tem gosto pelo instantâneo. o povo judeu.21 Assim também HITLER. obcecado com a força pela força. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. LENIN. como WILSON ou HITLER. para isso. os tecnocratas. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. recém-saídos das grandes escolas. ou capacidades manipulatórias. quis fazer do alemão o povo eleito e.20 do homem que declarava. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações.

) são as pessoas comuns. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. é possível tornar-se DE BENEDETTI. um indivíduo sem fantasias. pois ele promete a qualquer um. se tiver tanta coragem quanto eu”. O grande patrão italiano C..). mas uma duração realista. Mesmo assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu.. Se elas tomarem um grande patrão italiano. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. ao contrário. M. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. a seus olhos. como GORBATCHEV. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. como indivíduos perfeitamente normais. nem mesmo na imaginação. uma demonstração do possível (. meus aliados (. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. AGNELLI por exemplo. Em contrapartida. Em outras palavras. com a condição de ser corajoso. sem interrogação. ele perdeu alguma coisa. de uma normalidade esmagadora. não tenho dúvidas morais”. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). os outros escapam a essa denominação. talvez. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. AGNELLI a gente nasce. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . sem dúvida.. Tentarei em outra ocasião. Eles se apresentam. Em todo caso. não se torna. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. porque sou. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. Mas..

outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. criar seja lá que novidade for. ele o faz em sua linha. Um ser consistente pode ter dúvidas. fazer advir o sujeito individual. São portadores da pulsão de morte. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. no sentido que dou a esse termo. insiste sobre essa noção. fazer advir o sujeito coletivo. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. reproduzir. o caráter irrevogável de sua escolha e. Teríamos. E. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. a recusa de compromisso sobre o essencial. Ele não tem projeto. Mas ele conserva o mesmo projeto. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Um ser coerente tem uma personalidade compacta.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. mais ainda. em sua linhagem. dos outros. sem falhas. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. favorecer a tomada de consciência de situações reais. “que significa. só sabem repetir. de tudo desarrumar. FAUCHEUX. É também um homem que demonstra consistência. São desprovidos da aptidão à transgressão. assim. mesmo se nada descobre. assim. por outro. de se lançar no desconhecido.23 Em certo sentido. Corre pela vida como em uma auto-estrada. em MARX. tomar caminhos transversais. ao inusitado. pois falta a ambos. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. MOSCOVICI. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. conforme McDOUGALL. Se o sujeito evolui. S. Mas não são verdadeiros criadores de história. de tudo realizar” (McDOUGALL). por um lado. 39 . em FREUD. Eles têm uma influência social inegável. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo.

pessoas vindas de outros países. consistência e astúcia. igualmente.” O sujeito não é homem de comprometimentos. Consistência e furor. no momento atual. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. recentemente republicado. porque a dispersão. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. Aqui não se trata de manipulação. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. a uma identidade coletiva. a um Estado. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. à dispersão. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. provenientes 40 . é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. é que. MOSCOVICI.24 O “exota”. Para SEGALEN. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. uma outra exigência e. finalmente. interdita a tentação da Unidade-Identidade. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. o que não é nada fácil. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. souberam conciliar furor. visível e. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. consistência e astúcia andam juntas. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. diante da exigência do todo. para fazer triunfar suas idéias. Ele é. O que é interessante. delimita também. o exilado. em seguida. SEGALEN. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. portanto. não pode jamais estar colado a uma organização. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. segundo a expressão de V. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. no entanto. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Ao mesmo tempo. um grupo ou um Estado. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). como também a provocá-los. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. a ocasião. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. isto é. criar e sustentar um conflito com a maioria. quando ela se apresenta. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris).

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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sobretudo. do combatente. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. sobretudo. então. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. desembaraçado de compromissos. para fazê-lo. no sentido sadiano do termo. SERVAN-SCHREIBER). mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. assim. então. L. Para obter tais resultados. do vencedor. o homem capaz de ultrapassar seus limites. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. de sonhos e de interrogações. Se o indivíduo se identifica com a organização. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. sem o saber (e de consciência tranqüila). aos que dela participam. A cultura de empresa ou de organização. capaz de se adaptar a todas as situações. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. aos outros. portanto. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. seus valores e seu processo de socialização. de colocá-los. ele entrará. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. dando.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. em demasia. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. sejam quais forem. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. . com personalidades “as if” (H. ao propor. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. de considerar os problemas em sua frieza. de ter modos de “comunicação afirmativa”. Minha contribuição será. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. se só pensa através dela.

o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. um ideal a realizar. uma causa a defender. segura de estar em seus direitos. 47 . exige a idealização. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). quando as igrejas não são suficientemente atraentes. injustamente martirizado. xamãs. atualmente. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. desde DURKHEIM e FREUD. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. gurus. no mundo medieval. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. Então. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). o renovar de uma igreja dogmática. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. mas. encarnar a “instituição divina”. mais próximos do integrismo. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). E. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. Sabe-se muito bem. em nome da verdadeira fé. através de um projeto a concretizar. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. Basta ter em mente: a renovação do Islã. de perda e de sofrimento. pronta a punir os blasfemadores. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. ao contrário. que uma sociedade não pode existir sem religião. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. A empresa (ou qualquer outra organização) quer.

de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. que aqui apenas menciono. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. os estágios off limits. As técnicas de body-building. sofredor. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. o “grito primal”. 48 . Voltarei adiante aos métodos empregados. continuamente desejável. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. esbelto. o desenvolvimento do esporte de massa. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. as maratonas de Paris ou de Nova York). falado e falante. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. a expressão corporal. as medicinas naturais. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. o jogging. todas as religiões. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. portanto. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. Mas as religiões. mesmo os mais repreensíveis. afastar a dor. competitivo ou não (por exemplo. O fanatismo político. pelo menos. a aeróbica. animado) é o nosso bem mais precioso. as ginásticas suaves. cuja meta é a homogeneização do “interior”. “tornar-se saudável”. “Estar bem em sua pele”. como a expressão da graça que lhe cabe. submetê-la a ídolos não contestáveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e.

de fato. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. O narcisismo mais total está na ordem do dia. grupal e coletiva. A explicação é simples: todos os métodos de formação. Quer se tenha nascido rico ou pobre. No narcisismo de morte. a “qualidade total”. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . embora alienados no mais profundo de sua psique. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. Por outro lado. interrogação do ser. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. únicos responsáveis (se eles fracassam. mudança sempre difícil pois traz. Elas anunciam. Basta querer. de evolução pessoal ou grupal. necessariamente. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. de criar uma cultura. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. GREEN. nas organizações sociais. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. para se tornar um sujeito falante e atuante. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. processo de ligação com os outros. mas de edificar novos cultos. confronto com o sofrimento. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. que o indivíduo. Os próprios indivíduos. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. Ora. na medida em que não se trata. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. ao menos. na qual ele tem que desempenhar um papel social. sinais de uma fantasia de domínio total. na qual fatalmente se perderá. assim. a busca do “erro zero”. membro de um conjunto que tem suas coerções. 1983). quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. de intervenção psicossociológica ou institucional. “a paixão pela excelência”. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. cada qual se mira em seu próprio espelho. de autoridade. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda.

instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. nas organizações e nos indivíduos.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). perfeitamente interiorizadas. em reação. únicos a prometerem resultados tangíveis. não do desenvolvimento da racionalidade. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . na sociedade. uma psique a serviço da organização. uma psique sem conflitos. ao contrário. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. necessariamente. como resultado a sua destruição ou. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). Cada “conjunto humano”. portanto. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. a sua submissão. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. O reconhecimento da psique como força operante tem. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. faz-se apelo a leitores de tarô. a mobilização total de todos. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. com os pés amarrados a um elástico. para a seleção de dirigentes. Por isso. a implicação. pelo menos. para viver e se desenvolver. a astrólogos. como a simples lógica o exigiria. quer dizer. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. Assim. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. mas. do aumento dos métodos mais bizarros. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão.

Os indivíduos evoluem. de constância: (b) idéia de objeto separado. permite que se possa situá-lo em uma classe. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. GREEN (1985). que participa de uma memória coletiva. Cada um sente. de referências seguras. portanto. nacionalidade etc. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). não vivo mais. ele é capaz de ser um “Si”. em uma palavra. animado por uma coesão totalizante tendo. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. ou o status social a que chegaram. quer dizer. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. Ora. credo. em um gênero. Cada indivíduo. a necessidade de ter uma certa identidade. de ser um sujeito que tem uma história. – podendo 51 . por minha vez. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. ela revela características um pouco suspeitas. que se liga a uma tradição. através dessas diversas experiências. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. ou vinte anos? BARTHES. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. uma unidade. se examinarmos mais de perto essa noção. Mas. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. não creio mais como esse ser que leva meu nome. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. Caso se retome a análise de A. portanto.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. portanto. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. isto é. em uma espécie).A constância não existe. escreveu belíssimas páginas. classe. Além disso.

FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. Eu é um outro. quem está falando e por que falamos dessa maneira. ABRAHAM e M. a sua própria finalidade. a partir de um estado não integrado. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. por definição. além disso. 1982). b. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”.) que visam. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. então é possível questionar. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. em sua pureza. já dizia RIMBAUD. Assim. ilusória. admitir. então. No entanto. necessita do trabalho do tempo. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. Precisamos. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. 1976). com WINNICOTT (1966). a idéia de permanência e de constância. então. o eu etc. não podemos abandonar essa idéia.Quanto ao reconhecimento do mesmo. assim. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. Nunca sabemos de maneira precisa. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. cada uma. de MIJOLLA. Mas ele insiste. c.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. TOROK. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. que. no momento em que falamos. Se. quando sei tão pouco o que sou. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. cairmos na irresponsabilidade. mas que mantém um certo grau de 52 . de preclusão e de denegação estão operando em nós. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. que processos de clivagem. pois toda construção. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. sob certos aspectos.5 Certamente. no entanto.

Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. São. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. Um deles explicita suas dúvidas. sobretudo. como também um amor consciente por si. Porém. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. contraditórias. muito pelo contrário). a dúvida. de seus desejos. a aceitação dos processos de clivagem. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . de suas faltas. de um narcisismo a toda prova. o trabalho sobre si. para o indivíduo. da “inquietante estranheza” e. de “maioria compacta”. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. portanto. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. assim como as instituições e organizações que a compõem. os diretores participam de um grupo. O que nossa sociedade reclama. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. a interrogação. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. é ouvido um momento. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. tão apreciada por FREUD. portanto. o remorso. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente.A interioridade está acabando? coerência. e tanto mais porque se parecem conosco. portanto sedução. escolhendo as máscaras sociais que precisam. quaisquer que sejam. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. problemáticas. trazendo “temor e tremor”. Os outros.

vinda da boa burguesia. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. nem mesmo à sua esposa. um grupo que tem uma cultura própria. seu imaginário enganoso. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. desde então. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Ele se tornaria o fraco. não quero saber nada de seus problemas porque. seu simbólico. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. em termos mais gerais. 36). 270). até que ponto evitam-se a si mesmos. em substância: “Não continue. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. que lhe diz. ENRIQUEZ. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. até que ponto estão presos na apatia (SADE). que detestam. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. quando os indivíduos estão nessa situação.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. SEGALEN). Nesse momento. diante dessas revelações. Esse exemplo (que. Pôde obter o posto desejado. Com efeito. tendo uma identidade compacta. Apenas. Domine-se. filho de um grande industrial. p. serei obrigado a falar disso a meu pai e. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. Transformam o mundo no qual estão. 54 . Além disso. seja de novo como nós. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. é interrompido por um de seus colegas. formam uma nova maioria compacta. ele tem úlceras constantes. eles questionam sua identidade. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. se você continua. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. quer dizer. Ora. por um processo de contra-investimento. 1984. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. reedição de 1986. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. naturalmente. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. p. O “homem com problemas” aprendeu a lição. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. Nessas condições.

todos os “marginais”. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. os que não se assemelham aos indivíduos que. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. p. pelo menos. possam se tornar objeto de ódio ou. do outro. colocar em lugares criados especialmente para eles). destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. pelo menos. assim. “Apagar. Como dizia um chefe de empresa. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. se evitam a si próprios. 55 . De um lado estão os vencedores. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. que todos aqueles que buscam articular sentidos. num mundo a priori hostil ou indiferente. 1835. Quem não se amolda deve ser liquidado. um piolho a ser eliminado. quer dizer. AULAIGNER.. “fazer correr sangue”. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. então. todas as “minorias ativas”. reedição de 1961. em seu corpo como em seu espírito. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. no dizer dos racistas. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. “em demasia”. para SADE. ENRIQUEZ). ainda mais. Compreende-se. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. soropositivos e. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. doentes de AIDS. o homem dinâmico. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra.. como escreve P. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. por si próprios. 103-104). sem emoção. todos os “exotas”. O “matador frio”. guerreiro e sedutor. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”.

). Basta que não seja descoberto. da agressividade. da inveja e do amor. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. SERVAN-SCHREIBER. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. mas o toca em seu ser social. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. portanto. simplesmente. Tudo está no ato e em sua visibilidade. Se não for descoberto. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). é preciso que seja conhecido por todos. ir além de seus limites. Todo ato repreensível. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. se sinta culpável. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. Assim. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. por isso. L. Se ele for conhecido. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. em condições normais. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. pode ser perpetrado. Mas. as práticas que permitem ganhar. Ela supõe. voar em asa delta etc. Essa distinção é. a honra e o dinheiro serão seus sem que.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. vemos proliferar. No entanto. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. 56 . utilizando-se produtos proibidos. fracassar. escalar um paredão com as mãos nuas. mas pela vergonha. em sua aparência. Da mesma forma. 1988). um estudo sobre a sociedade japonesa. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. a luta. Essa última seria uma cultura da vergonha. Se um ato corajoso – ou. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. no interior de si. Ora. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. em O crisântemo e a espada (1946). aos outros. sem dúvida. seja ele qual for. infeliz de quem trapacear. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. além do reconhecimento dessa luta. a vergonha se abate sobre o autor da ação.

que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . atos dos mais contrários à moral comum. necessariamente. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. sem culpabilidade. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. Não se deveria pensar. nascem a cada dia sob nossos olhos e. podem ser criados sem que daí decorra. felizmente -.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. (c) que os ideais fortes. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. já começa a ser profundamente criticado. privilegiando a aparência. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. a lavagem dos narco-dólares. apesar de suas imperfeições – normais. nas sombras. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. necessários à vida humana. o corpo se encarrega de fazê-lo. são suspeitos. postos de lado. pelo jogo de aparências. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. quando não é possível falar-se a si mesmo. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. Porém. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. Com efeito. lendo as reflexões precedentes. contra o racismo. o fanatismo. contra a pobreza etc. com um único passe de mágica. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). as notas frias. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). que o jogo está feito.

Sendo assim. evitando o Charybde da exterioridade. busca de identidade. começam a se fazer perguntas. Entretanto. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. encontram-se na mesma situação todos os que. de crédito. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. sem dúvida. trabalhadores incapazes de se readaptar. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. Eles não se dão conta. veladamente. entretanto. com sua carga enigmática. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. deverão se precaver. de espaços. os animadores socioculturais etc. esses “esquecidos” da sociedade. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. eles ainda as fazem “na exterioridade”. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Sem dúvida. por isso. Esses “excluídos”. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. tal como tentei delineá-la.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos.). assim como pela capacidade de sublimação. de afirmação ou de identificação. mesmo se a interioridade. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. pelo sofrimento. não desapareceu e não está 58 . Mais ainda. necessariamente. na doença da idealidade. os ferroviários. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. governa seus discursos e seus atos. a delinqüência. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. de indústrias. aceitando as regras do novo jogo. as perguntas. a droga. Esses sujeitos. ser tratadas “na interioridade”. pela alegria. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. poderão. Nesse momento. Na realidade.

com suas difusões amplas). prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. da T. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. e TOROK. o homem dos Hinos à noite. 3 Cf. p. 1962. 1976. Paris: Aubier. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. p. Referências ABRAHAM. 1976. 89-112. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. por Sonia Roedel. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). Notas Traduzido de ENRIQUEZ. Paris: Seuil. GOETHE. M. como diz Lutero. as autobiografias. com o aprofundamento do eu puro ou. 4 Como um cadáver (em latim no original). v. NOVALIS. sobre KLEIST: E. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. é. (N. 1987. Individualisme apolitique. o romantismo. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. com a formação. Paris: Aubier. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Inácio de Loyola. é uma consciência cultural individualista. tão diversos quanto GOETHE. é a absorção em si ou introspeção. XVIII. em suas constituições. pela emoção. E. ABRAHAM. “expressão pela qual Sto.Topique. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. 2 Grandes escritores alemães.). (N. Segundo o Larousse. N.). DUMONT. é a inquietação com o cuidado. 135. In: Sur l’individu. 5 FREUD. 1985. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. da T. involuntariamente. Eugène. Quanto a KLEIST. da salvação e da justificação da vida pura. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. citado por L. p. 1989-2. do culto do inconsciente e dos instintos. Considérations d’un apolitique. 59 . é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. 61-76. ENRIQUEZ. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. assim. na qual o mundo objetivo. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. Rio de Janeiro: Imago. ENRIQUEZ. Entre la marionnette et Dieu. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. S. 37. seu oposto. p. 38-53. Le Verbier de l’homme aux loups. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. L’écorce et le noyau. 34. espírito racional e humanista por excelência. p. N. o gosto pelo mórbido. Cf. da poetização do universo. a Bildung do homem alemão. os “diários de bordo”. Topique. 1976. assim. o mundo político. 163. então.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. em termos religiosos.

GREEN. L’identité. 1980. Trad. Trad. Notes sur l’exotisme (1908). 1987. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. 1987. reedição. Paris: Seuil. DEUSTCH. In: Sur l’Individu. C. “L’Individu dans la cité”. FREUD. EPI. narcissisme de mort. WINNICOT. 1984. Topique. Paris: Seuil. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. Paris: Gallimard. ps. Trad.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. 1986. Les visiteurs du moi. D. 1985. 1946. Paris: Seuil. nova. 309-330. H. 34: 89112. 1987. VERNANT. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. E. SEGALEN. 311-321. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Paris: Payot. J. 1985. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 1942. p. de Minuit. n. 20-37. R. La chambre claire. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. Picquier. 11. Biblio-Essais. ENRIQUEZ. BARTHES. “Individualisme apolitique”. Le sabre et le chrysanthème. In: Sur l’individu. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. E. L. W. R. In: Essais de Psychanalyse. 37. MIJOLLA. “Condamné à investir”. 1975. Topique. Hogarth Press. Le retour du courage. Paris: Grasset. 1982. A. Barthes par lui-même. ENRIQUEZ. p. Paris: Gallimard/Seuil. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. 1965. J. Paris: Payot. 1983. V. 1961. Paris: Gallimard. ENRIQUEZ. Tomo I. R. retomado em Nevroses and character types. BENEDICT. Paris: Ed. BARTHES. M. P. Aux carrefours de la haine. Paris: Les Belles Lettres. In: LEVI-STRAUSS. 60 . R. Narcissisme de vie. DUMONT. SERVAN-SCHREIBER. de. FOUCAULT. 1984. A. 25. GREEN. Psychoanalitic quaterly. franc. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. P. 1982. L. 1970. 1981. A. 1962. M. S.

OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. as análises dos grupos em estado nascente. à primeira vista. neste texto. no entanto. esse problema é capital. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. então. de início. pois pode-se. para existir. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). Vamos um pouco adiante. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . Todos sabem e reconhecem isso. em um imaginário social comum. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. São mais raras. O que parece. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. Ora. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. no entanto. Um projeto comum significa. mas não se está à altura de compreender. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. Tal sistema de valores. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. sem dúvida.

da ilusão e da crença. todo trabalho de interrogação sobre si. com uma força particularmente viva. Todo grupo funciona à base da idealização. mas afetivamente sentidas. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. nela. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. é necessário que. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. nos inspirar. a nossos próprios olhos. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. consciente e inconscientemente. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. a passagem é rápida. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Não se trata unicamente de querer coletivamente. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. Mas esse sentimento. motor de nossa conduta. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. transforma-se logo em um sistema de crença. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. pois ela é o elemento que dá consistência. inatacável: assim. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. vigor e “aura” excepcional. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). trata-se de sentir coletivamente. ele pode nos atrair. A ilusão deixa igualmente sua marca. aquilo que queremos vir a ser. sagrado.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. Da ilusão à crença. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. ele se apresente sob um aspecto religioso. Para serem operantes. Ora. num grau maior ou menor. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . correndo esse risco intelectual e social.

bem à vontade. suas práticas à da Psicanálise como um todo). ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. esse não é o problema. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. Todo militante político pensa do mesmo jeito. missão a cumprir. verdadeiramente. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. Todo membro de um grupo é. FREUD já pensava que a Psicanálise. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. idealização. pois. sobre a possibilidade de sua impotência. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. para se desenvolver. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. possa perder parte de suas ilusões. grandiosa ou pueril. Idealização.). é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. A causa pode ser sublime ou irrisória. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. em certa medida. 63 . o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. de maneira mais ou menos forte. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). Embora um grupo. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). E isso não acontece gratuitamente. existente há muito tempo. consequentemente. assimilando. a revolução etc. o militante político arrisca. na formação de todo grupo. Causa a defender. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. abusivamente sem dúvida. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar.O vínculo grupal (deve. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. sua vida). Assim. deveria ser defendida como uma causa.

são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. sua luta não terá alma nem razão de ser. Para isso. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. Do contrário. sem exceção. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. mas direi que. algumas vezes de uma só3 . um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). isto é. caso uma minoria. antes de chegar a seus fins. Toda minoria tem. mais modestamente. vocação majoritária: mas. progressivamente. A maioria não tem jamais um grande propósito. ela deve primeiro. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. Pouco importa. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. As idéias novas. geralmente. imperativamente. antes de tudo e contra tudo. triunfar. talvez mesmo. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. propagar-se como uma mancha de óleo e. no caso de sucesso. se tornar a dissidência de muitos. um dia. pois. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. A maioria não tem jamais uma causa a defender. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. nós o sabemos. queira triunfar. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . se representa e quer se definir como uma minoria atuante. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. para se reforçar. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. membros do grupo. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). ela deve. Essas pessoas sabem que. isso significa que ele se pensa. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. acreditar que está com a razão. Eu serei menos afirmativo. de uma profissão ou de uma disciplina). a proclamar uma visão nova do mundo (ou. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos.

Ela não visa a propor outra coisa. com efeito. A Psicanálise. visando não à contestação da ordem existente. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. contra um exterior percebido como tão obscuro. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. por exemplo. A contestação. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. A transgressão. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. Assim fazendo. no passado. Para que a vitória seja possível. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. visando à repetição. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. pois se funda em instituições sólidas. enfim. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. E na maior parte das vezes ele o é. vista como pulsão agressiva). mas pela luta. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. Toda instituição. Assim. ao contrário. mas propõe novas idéias. Como essas representam a ordem paterna. sob certos aspectos. mas à sua transgressão. maneiras inovadoras de ser. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. explicitando o implícito dos comportamentos. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. mas que um novo saber apareceu. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. enquanto elemento da regulação social. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. tem por objetivo questionar o sistema vigente. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. o grupo vai tentar destruir as instituições. 65 . ela é. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. desmistificando-o e desmitificando-o. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. deram certo. novas maneiras de ser ou de se conduzir.

todo grupo. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. FREUD. isto é. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. Se ele faz parte do grupo. a não ser entre irmãos. em outras palavras. irmãos uns dos outros. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. violência fundadora de um novo mundo. O reconhecimento do desejo Em um grupo. Sem essa vontade de destruição. porém sem sucesso. deve criar um acontecimento irreversível. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. não ser rejeitado. Ódio ao exterior. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. amor mútuo. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. graças a esse imaginário comum e não a outro. são essas as condições de constituição do vínculo grupal.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. amor ao grupo enquanto grupo. tornar seus sonhos reais. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. Não há complô verdadeiro. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. aliás. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. não obstante. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. a priori estranhos ou rivais entre si. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. fazer-se aceito em sua 66 . ao menos. Ele quer se fazer amado pelo que é ou.

uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). nesse caso. igualmente. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . Aliás. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. em seu ser insubstituível. não devem ser muito diferentes uns dos outros. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. ser reconhecido como um de seus membros. homogêneos. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. eles se tornarão semelhantes. quer. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. diferenciação A MASSA Num tal caso. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. é o desejo de reconhecimento que predomina. Assim sendo. De todo jeito. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. se não o desejasse. para que possam se amar. um corpo social completo. às quais cada um deverá se submeter. em maior ou menor grau. querendo formar uma comunidade. não teria podido fazer parte da conjuração. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. Essa semelhança buscada. O grupo. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. Assim. em um grupo. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas.O vínculo grupal diferença irredutível. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. eles devem se identificar uns aos outros. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. O único problema é a mais estrita identificação.

sentimento de um meio hostil.5 2. portador da “verdade” (!).A semelhança pode. com efeito. senão os mais perturbados. Ocorrerão comportamentos regressivos.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. no grupo. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. angústias de explosão. não parecem defensivas. coberto de certezas. Aliás. O grupo. de indivíduos os mais emocionais. de tipo defensivo: suspeita mútua. desenvolver condutas que. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas).A falta de diferenças provoca. Que ele se guarde da desilusão. face a um grupo “sorvedouro. mas que. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. delação. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. 3. avança cego. tomam um vigor particular.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. à primeira vista. Assim como. igualmente. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. LEFORT).Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. Ao contrário. sem que se perceba. a falta de inovação e. então. influência. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. a partir de MARX. progressivamente. 68 . por ser o mais forte e o mais belo. a degradação da reflexão e da inventividade. tomando as características de um corpo todo-poderoso. que será particularmente dura de suportar. abismo.A compacidade do corpo formado vai. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. sem-fundo”. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. 4. Estamos.

chegando ao abandono de toda identidade pessoal. como a cooperação idílica não existe mas. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir.Se. Os membros do grupo são. a administração. em certos momentos. tive a surpresa de 69 . alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. de argumentações contraditórias. em um centro de jovens inadaptados. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. de negociações rigorosas. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim.O vínculo grupal 5. Se não se trata de questionar o projeto comum. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. A tolerância existe. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. O grupo se centrará em si mesmo. “níveis insuportáveis” (FREUD). cada qual acreditando deter a verdade. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. os educadores. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. No limite. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. Todo mundo. ao contrário. Em tal caso. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. então. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. No entanto. então. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. ao contrário. serão excluídos do grupo. (Assim. por acaso. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. como frouxos ou traidores. em seu interior.

encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. é freqüente. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. eu deveria ter ficado menos surpreso. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. por isso. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. repetição da palavra do mestre. mestre do pensamento e da ação). A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. 70 . Fenômenos regressivos do tipo submissão. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. se torna um grupo edipiano. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. Para não chegar a esse ponto. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. assim transformado. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. enquanto professor. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. É raro ouvir professores falarem de estudantes. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. nos países ocidentais. será tentado a achar um bode expiatório.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. Entretanto. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. Em qualquer caso. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. uma influência que vem do domínio das idéias. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. “personalização do poder”. Nesse caso. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. Esse. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. ao contrário.

O vínculo grupal Mas. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. se consegue impor os seus ideais ou transformar. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). Correlativamente. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. mas quem são os amados e os rejeitados. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. Com efeito. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. Se o grupo é bem sucedido. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. os grupos não podem se esquivar. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. para existir. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. os membros do grupo estão condenados ao amor. sendo bem sucedidos ou não. pois um grupo minoritário. de todo modo. podem. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. como já constatamos. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. para afirmar a primazia de sua posição fálica. Essas questões não podem ser elucidadas. igualmente. se somos suficientemente amados. tornar-se majoritário. mas também os fracos. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. o grupo corre o risco do fracasso. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. Ora. o campo social. O amor desemboca no ódio. inscrever seu sonho na realidade. a única digna de ser respeitada. transformado muitas vezes em processo de erotização. isto é. 71 . ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. do mesmo modo que estão condenados à crença. em maior ou menor grau. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. o grupo minoritário que. Assim. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional.

particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Muitos observadores se espantam. De fato. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. de outro lado. se ele não provoca impacto social. educadores. o organizador do grupo. Se. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. os marginais. isto é. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. é o contrário que seria de espantar. serão inventados segundo as necessidades e. Ela representa uma tentação constante. É preciso. Ora. psiquiatras. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. por exemplo. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. Com efeito. o grupo fracassa. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). além disso. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. para dizer que ele ainda subsiste. isto é. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. mas não é um resultado inelutável.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. ele vai procurar as causas de seu fracasso. 72 . mas outro que está ainda para ser encontrado. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. em um processo de análise: 1. no entanto. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. Com efeito.

ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. em muitas circunstâncias. há muito tempo atrás. É importante não nos esquecermos. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. Aí também há muita ilusão.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Outras vezes.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. de maneira recorrente. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. às custas do mal que nutrem com gosto. FREUD disse isso. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. assim. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. de crença e de ilusão. em vez de favorecer o seu esclarecimento. 2. Ela pode levar à dissolução do grupo. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. 73 . a tomada de consciência se produz. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. serão feitas análises superficiais. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. e o disse muito bem. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. em certos casos. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. De fato. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. Além disso. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Se. Deveríamos. arriscar-se a ser amado. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. no entanto.

S. 1983. Eugène. uma solução. Seuil. Ma vie et la psychanalyse.” (FREUD. Por dez anos. Tomo XXXVI. seus antagonismos. PONTALIS.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer.U. Cf. S. no 360. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Segundo os termos de C. Gallimard). pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. em caso algum. LEFORT. P. 631-637. 2 3 4 5 6 74 . ao mesmo tempo. “Le lien groupal”. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. mas é preciso não querer ir muito longe. por José Newton Garcia de Araújo. Um homme en trop. “L’illusion mantenue”. Psychologie des minorités actives. suas angústias e. 4. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. fui o único a me ocupar dela e. suas relações de poder. por dez anos. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. CASTORIADIS. B. J. p. n. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. Bulletin de Psychologie.F. C. MOSCOVICI. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. Nouvelle Revue de Psychanalyse.

1985). quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. Devo acrescentar. os acontecimentos que se produzem atualmente. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. convincente e inquietante. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. então. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. na verdade. Com efeito. Entretanto. em Grenoble. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. 75 .OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. se me detive a explicitar tal proposição. de modo algum. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. atualmente. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. é porque me parece que essa tendência. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). Espero. tanto no Leste da Europa. não deve. 1983. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente.

sem deuses ou sem Deus único). como o pensavam DURKHEIM e FREUD. além de nos sentir para sempre em dívida. Assim. um dogma. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. 1989). A religião produz então o “ser-junto”. no renascimento do (ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. sem lhe outorgar. de maneira privilegiada. ao longo do tempo. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). pode-se dizer que. Pois bem. Ao contrário. necessariamente. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). As crenças. o fanatismo religioso – isto é. No conjunto. sustentadas por rituais 76 . a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. igualmente ENRIQUEZ. A César o que era de César. no entanto. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. um ritual compartilhado que é preciso defender. elas não colocavam mais problemas particulares. ela nos religa uns aos outros. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. com relação a ele. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. o papel que lhes estava destinado. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. isso não a obriga. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. a Deus o que era de Deus. a crença exacerbada em um mito. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. sob pena de exclusão da comunidade. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. A referência dura se exprime para mim. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. sem totens. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. ou seja. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. se depurando. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. as grandes religiões monoteístas foram. às vezes com reticência. seja como ser coletivo).

ao “desencantamento do mundo”. a longo prazo. mas foram se laicizando. Algumas religiões. dos padres operários. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. Entretanto. STOETZEL). uma sociedade da transparência e da reciprocidade. ENRIQUEZ). tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. ARON. na França. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. passam a se desenvolver. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. O episódio. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. do declínio de uma fé sincera e manifesta. profanas (MOSCOVICI). que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. Todos os homens. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. laicas (E. J. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. porque é 77 . um estado psíquico onde o conflito não aparece. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). como desejava DURKHEIM. a longo prazo. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. aspirando assim. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. como medida de todas as coisas. o Estado como aparelho separado. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). mas à criação de religiões substitutas. a qualquer preço. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. não assistimos.

tal como a ideologia republicana. A ideologia pode.). pois. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. então. da ideologia de granito (LEFORT. sob a IIIa República. mais ou menos fortemente. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. quer sejam os pais. Quando falo de religiões substitutas. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. 1976). A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. os mestres. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. 1963). por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. pois. de votos etc. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. de ideologias totais (LYPSET. É. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). os chefes de guerra ou os chefes de Estado. por ENGELS e. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. na França. de serviços. não como uma ideologia (quer dizer. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. após a morte de MARX.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. conscientemente ou não. depois. (mesmo se. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. de fato. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus).

ideologias “compactas” que. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. É assim que ela pode formar uma cultura. pelo ferro e pelo fogo. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. substituindo-os por outros que. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. representaram um papel menor na dinâmica social. Uma religião. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. na época moderna. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. indica que a seita. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. sozinhos. conseguiu se desenvolver. constituindo-se. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. então. Ela então regula essa questão central da alteridade. pelo sacrifício de seus mártires. no cerne mesmo da sociedade. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. vão se impor como lei. em maior ou menor grau. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. não pode estar na origem de nenhuma religião. heréticos ou descrentes. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. antes mesmo que seja colocada. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. 79 . devem estabelecer com o Sagrado. como as religiões. reunidos em comunidade. Um grupo minoritário. por seu caráter absolutista. As ideologias que eu evoco são. 1979).O fanatismo religioso e político (colonização). quando as religiões se enfraquecem. que produzem uma cultura própria. por sua força de convicção. jacente em todo ser humano. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. a negar. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. projetando-o nos outros. como uma Igreja com seus templos. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. que ela assegura sua identidade. que já mencionei. a converter ou a destruir. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. Mas é preciso observar que.

Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. como heróis (no sentido freudiano do termo). É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. porque a morte santifica e promete o paraíso. no “sentimento oceânico” (R. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. É verdade que os grandes místicos. (Entretanto. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. 80 . enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). Eles não vivem sua crença como uma ilusão. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. de seu lado. é porque os judeus.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. desenvolveu uma política de conversão). Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. ao contrário. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). apesar de tudo. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. “poetas”. Em outras palavras. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia.

substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. eles não podem. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. intensificação da produção não somente de objetos úteis.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. por conseguinte. como a ideologia republicana. que são religiões da revelação. Entretanto. entretanto. Ora. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante.Elas se enriquecem. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. tudo se vende”. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). 2. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. é conveniente fazer algumas observações. as liberais e as “socialistas”. 1971). ideologia sem porta-voz. (Não existe. segundo a terminologia weberiana). de novas características. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. mas somente possível e previsível. na verdade. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. 1. PALMADE). sem emblemas. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. ser totalmente dissociados. além disso. segundo o axioma de WALRAS). se certas condições são preenchidas. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. São sociedades: a. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). 81 .O fanatismo religioso e político Concluindo. o texto de J. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência.

Nesse momento. (Assim. pensar e querer o apocalipse) e.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. LAPLANCHE. sua legitimidade desaparece. enquanto criação e distribuição das riquezas. no fim das contas. se desembaraçar. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. além do furor de não poder satisfazê-los. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. já havia observado isso). sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. b. para os homens e para as mulheres. realizáveis. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. 1967. de imortalidade. 1989). Sociedades sem pais e. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. seu valor se corrói. por isso mesmo. Assim também. d. assim. 82 . da qual é necessário. c. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. o trabalho perde seu significado. ao mesmo tempo.sociedades que. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. 1967). os valores são intercambiáveis ou desaparecem. “mãe das cloacas e dos brejos.sociedades que. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. concebê-lo como um inimigo ideal.

em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. da loucura. não oferecem mais interesse.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. Essa citação dispensa comentário. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. Se não somos nada além de um espartano. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. 1930) 83 . formar uma cultura. Mas as religiões. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. do desaparecimento de referência a toda transcendência. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. no Ocidente. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. os “desgarrados”. os esquecidos. um projeto a sustentar. só há salvação na paranóia partilhada. de um budista. Eles querem se tornar um “Nós”. os irmãos e os adversários. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. em particular. da miséria. da corrupção). os excluídos. (FREUD. O indivíduo desaparece. aquela que designa claramente os aliados. aquela que cria uma identidade coletiva. Daí se seguem três conseqüências. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. Contra o mundo perverso. de um proletário. de um capitalista. no limite. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. da exclusão. se sacrificar. O que desejam os deserdados. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. A religião reclamada é a religião absolutista. da apatia. da ausência de um fundamento. permanecer na certeza e. uma causa a defender.

pelo menos. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. O desenvolvimento do fanatismo. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. para ela é uma impureza?”. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. livre do mal. então. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. liberado finalmente do mal. ou seja.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. além disso. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. sua conversão. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. como seres a eliminar. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. anunciador de um mundo novo. elas exigem a super-identificação à causa. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. ENRIQUEZ. o super-investimento no projeto. É certo que. Quanto mais uma cultura quer se unificar. o que é um alimento. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. a criar um mundo novo. O fanatismo visa. o inglês fala tudo de ruim do escocês. uma imensa massa de homens. no entanto. nos diversos países. tais como as descrevi acima. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. o espanhol despreza o português”. Não esqueçamos. 1984). com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. da sedução ou da coerção). as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. para isso. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso.

O fanatismo religioso. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. o Azerbadjão. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. São Estados. o sinal de seu enfraquecimento. um instrumento a serviço do fanatismo político. ainda. assim. O fanatismo religioso é. fundamentalista. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. Ou seja. na hora atual. E nós tocamos. mas. o essencial: a dimensão política. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. primeiro e antes de tudo. a se tornar dominantes (por exemplo. resulta. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. é preciso lembrar que. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. Retomemos esses dois pontos: 1. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. É por essa razão que meu texto tem esse título. Síria). em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. É preciso. sem dúvida. sozinho. o Irã). em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. no máximo. para que o fanatismo se fortaleça. para unificar os corações e os espíritos. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. por sua vez.

destruição cultural.A religião não se apresenta. ela designará os vencedores e os vencidos. Se a aliança persiste. Nesse caso. lepenistas. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. em nossos dias. judias). seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. cristãs. na França. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . se ela se extingue. sob uma forma fanática. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). c. interdição de pensar (Polônia. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. judia. certos grupos religiosos em Israel). Alemanha do Leste. forçosamente. b. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. muçulmana) na vida cotidiana da França. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . Eglise de Scientologie). protestante. Irlanda do Norte.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Loja P2. das comunidades islâmicas. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder.redourar o brasão das religiões tradicionais.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. Communione e Liberazione. o convite a alguns líderes protestantes. Países Bálticos. do qual eles não saberiam o que fazer. 2. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. ela pode ter como papel: a. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. na regulação dos Estados modernos. nos quais não existe senão um fraco consenso. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. que querem fazer valer sua palavra.

laborioso. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. finalmente. a falta de sentido. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. suas dúvidas. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. ao contrário. prontos a afrontar o absurdo. antes de tudo. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. Mas. cada vez mais freqüentemente. como no exemplo de KHOMEINY). Os homens aprenderiam. para terminar. 87 . ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. de reflexão e de reflexividade. sem recorrer a referências seguras –. sem fim.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. com a ajuda de seu Deus –. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. o caos e o abismo. mas que. 1. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. Se essas são capazes de inventar novos projetos. De fato. nascida desse trabalho árduo. paralisar a atividade de mentalização. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. o Estado leigo faz apelo. de precisar meu objetivo. não é o caso de superestimá-la. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. Eu gostaria. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. desde o início dos tempos modernos. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. ele tenta. ao invés de processos de sublimação. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. nesse caso.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. o religioso. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática.

Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. uma vez que elas são. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. (N. Eugène. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. na América do Sul). T. Os valores religiosos. em nenhum momento. por Leila de Melo Franco S. sob pena de cair.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. “A última tentação de Cristo”. em si mesmo. nos seus interlocutores e. Araújo. na armadilha que denuncia. Eu não quis dizer. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Se. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. efetivamente. antes de tudo. quando o religioso se põe a serviço do político. ela lhes permite tomar iniciativas. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. Connexions. que a religião. tão fácil e prazerosamente. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. 137-149. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. Ora. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. do fato nacional. n. p. quando a ideologia dura impede o livre pensar. a ideologia. a perversão ou a paranóia triunfam.) 2 88 .O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. tanto quanto outros tipos de valores. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. 3. se ele não faz esse trabalho. Ela lhes é consubstancial. Por outro lado. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. ideológicos e nacionais. 1990-1. Ela assume então o papel de desalienação. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. 55. nos fenômenos sociais. devem ser levados em consideração. “Le fanatisme religieux et politique”. então a reflexão desaparece. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. do fato ideológico. no outro. naturalmente. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento.

E.). 1989. S. Au carrefour de la haine. janeiro. FREUD. 1985. L’autonomie sociale. Essais d’ethnopsychiatrie générale. 1984. (org. Un homme en trop. L’homme et la politique. M. Cl. 1989. Eres. . Épi. ENRIQUEZ. LEFORT. 89 . PUF. ENRIQUEZ. Epi. J. G. sobre o fanatismo hoje. ENRIQUEZ. DELEUZE. n. PUG.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 1987. Présentation de Sacher-Masoch. Seuil.(1930) Malaise dans la civilisation. Connexions. 1985. “Notations sur le racisme”. 1967. PUF. 1971. Seuil. Y. LYPSET. CASTORIADIS. KLOSSOWSKI. In: Autonomie sociale. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. C. MOSCOVICI. Psychologie des minorités atives. Editions de Minuit. 1976. PUG. G. Connexions. E. “La défense et l’Interdit”. 1967. “Malaises dans les identifications”. 1971. LAPLANCHE. La monnaie vivante. P. ENRIQUEZ. DEVEREUX. In: La NEF. n. E. 1973. 1979. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. 1963. 54. S. S. 48.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

e o conservadorismo social e cultural da região. NA EMPRESA. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. individual e coletivo. em plena Vendée. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. que 91 . calçados etc.. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. já havia sido notado por vários pesquisadores. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. incessante. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. sobretudo. vestuário.2 Tais reflexões mostram. A escolha da região do Cholet. de outro lado. alimentação. por exemplo). vividas pelos dirigentes. como elas podem morrer. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. uns nos outros. são exportados para todo o mundo (iates. como elas se desenvolvem. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial.CONJUNÇÃO. de um lado. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. seus produtos. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs.

que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. entretanto. seu futuro. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. de suas dúvidas. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. isto é. Assim. diferenciações. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. Não se trata. desde sua origem até o momento atual. Ou seja. que são ao mesmo tempo seu principal tema. para nós. convidados a falar a respeito. o qual é vivido como o fundamento da empresa. entretanto. segundo um método comparativo. Em outras palavras. de seus projetos. clivagens.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. pudemos pôr em evidência certas constantes. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. era. 92 . suas dificuldades. sua história. é. Uma tal aventura. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. ou ainda. a partir de sua criação. depois. sobre aquilo que a empresa. Tendo analisado esses depoimentos. como objeto no discurso dos dirigentes. ao produto. que tais entrevistas. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. caso a caso (empresa a empresa). com efeito. num primeiro momento e. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. para si próprios. a partir de suas lembranças. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. à antigüidade. evocava neles. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. mas a empresa como objeto psicossocial. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. ainda que solicitadas por nós.

de maneira mais extensa.a família. nota-se que. ou ainda. quer se exprima pela relação com o solo. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. com o território (nome das cidades. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. De maneira mais geral. na origem. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual.o ofício ou o produto. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes.) que se trabalha ou. locais e regionais. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. a regiões de Mauges. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. . de maneira mais abstrata. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). com freqüência até mesmo joint families. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. de um projeto pessoal e familiar. a terra ou a região. embora todas tenham dependido. na empresa. geográficos. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto.a terra ou a região. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. podem ser resumidas da seguinte maneira: . ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. de Bocage. Essas três entidades. quer dizer. a partir do qual elas podem se desenvolver. histórica e sociológica.Conjunção. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. argila. Nesse último sentido. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. suas tradições e a 93 . quer dizer. também. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. com a região (no caso. . quer dizer. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. grão etc. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. A terra Essa referência é onipresente. aquilo que é ligado aos locais físicos. conceitos verbais. sua cultura. quer dizer.

como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. o lugar dessa é aí dominante. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. eis nosso jeito fazendeirão”. Antes de ser um projeto pessoal. 94 . “não ficar falando abobrinhas. constituem então. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). A família Tratando-se. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. mas também um sentimento de segurança. contribuindo para o renome da cidade ou da região. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. mas também no metafórico. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). A “região”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. vira tudo uma máfia”). na maior parte dos casos. em caso de dificuldade. a empresa é um projeto de família. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. em nome de uma certa ética. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). “a terra”. no sentido concreto. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. Desse ponto de vista. bem como uma fonte de riquezas. simultaneamente. um conjunto de obrigações e de restrições. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. nas relações e atitudes: assim. de empresas familiares. não se pode fingir”. atividades e lucros organizam-se em torno dela. assim que ultrapassamos a fronteira.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. tanto no imaginário quanto no real. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. físicas e morais.

inclusive com empregados. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. Assim. na sua origem. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. inclusive para outras aglomerações. no início. fortemente personalizadas. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. sendo um dos dois sexos. As estruturas e as relações de poder são. onde empregados e patrões podem comer juntos. entre os bens e os dividendos pessoais. ainda. Compreende-se. num primeiro tempo. por um lado. Da mesma maneira. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. Como se pode notar. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. sendo também imagem das relações de parentesco. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). SA. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. geralmente. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. e o capital e os salários. de um projeto pessoal e familiar. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). de fato. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. de outro. designada como “negócio de família”. como “a realização de seus antepassados”. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). então. é certo. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). descartado. seja pelos homens (os filhos). mas também nos fatos reais. de papéis e de procedimentos formais. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. A presença da família e de seu passado se traduz. as relações de autoridade. na empresa. “sociedade de família”. então.Conjunção. quer dizer. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. “sociedade familiar” ou. Naturalmente. 95 . ainda que apenas para atender a exigências do fisco. “empresa familiar”.

– e de lhe imprimir uma marca pessoal. A história da empresa é assim. da receita ou do jeitinho de fazer. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. a maior parte das vezes. seus vizinhos. uma fonte de problemas e de conflitos. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. com os acontecimentos familiares – mortes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. Apalpar essa matéria. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. couro etc. Assim como para a referência à região. lenços da região do Cholet.. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. casamentos. uma inspiração. transmitidos de geração em geração. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. rupturas. os sindicatos independentes são mal tolerados. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. Está diretamente associado às mãos do artesão. O ofício. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. o produto Em função de sua origem artesanal. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. Nessas condições. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. freqüentemente. um elemento de coesão e também uma limitação. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. –.

–. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . constatou-se. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. o ofício.Conjunção. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. na empresa. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. Entretanto. Juntos. estão imbricadas umas nas outras. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. Sua história. eles formam então como um bloco compacto. ele supõe a adoção de atos concretos. em desligar aquilo que estava ligado. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. encarnada na pessoa do fundador. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. vêse então que. não são entidades independentes. com efeito. essas três bases – ou instituições primárias –. de um projeto pessoal e familiar. que asseguram sua identidade e a base da empresa. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. não em negar. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. o marketing etc. trata-se de um conjunto extremamente coerente. para o dirigente. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. à terra. pelo menos em parte. sangue ou mãos). e a convicção de que deve se desembaraçar deles. profissionais. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. De fato. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. Esse processo não se realiza sem problemas. transmitido de geração em geração. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. Consiste. para garantir as evoluções indispensáveis. cujas partes.

é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. b. seu objetivo. essencialmente. de produções. do pessoal ao impessoal. da proximidade ao distanciamento. de estruturas de necessidades e de motivações. do herdado (ou do dado) ao adquirido. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. O ponto de chegada de tal processo. principalmente. com efeito. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. da afetividade à separação. portanto. investimentos em máquinas e em locais especializados.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. PARSONS. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. Nos termos de T. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. De maneira mais precisa. elaboração de uma organização e. c. a transferência física da empresa para outros locais.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. Esses três movimentos resumem. isto é.o deslocamento. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. de valores ou modos e redes relacionais. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. exigindo. ao longo de toda a história da empresa. isto é. consiste em passar de um sistema social a um outro. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis.a industrialização. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. 98 . PARSONS: do particular ao universal.

se 99 . pode-se dizer (. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. a partir de então. Enfim. regidas segundo técnicas e métodos importados. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. adquirir as competências ligadas à gestão –.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. ou ainda: “das famílias na sociedade. bem como na composição do Conselho de Administração. em contrapartida. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. que põe as contas em ordem. freqüentemente. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. a entrada em cena de um contador. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. sua principal razão de ser – ele deve. na empresa. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família.. O envolvimento da família é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou.Conjunção. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita.. de um projeto pessoal e familiar. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. de acordo com regras precisas que excluem. obrigado a repartir o poder com outros. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. bem como uma administração capaz de a gerenciar. ele não pode assumi-las todas e é. com efeito. máximo. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. então. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais.

quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). colocados numa situação extremamente conflitiva. principalmente entre os (jovens) dirigentes. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. com efeito. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). pela instauração de regras explícitas e. Progressivamente. a estrutura de pessoal (mais jovens. podendo implicar até em falência. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. geralmente fora da empresa. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. sócios etc. mostra-se assim sempre indispensável. Esse processo não se realiza de uma só vez. como para qualquer chefe de empresa. pela definição de papéis e critérios decisórios. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. mas. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. –. ela se baseia em competências que eles adquiriram. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. É. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. o que permite. Eles são. transformando as relações de poder e os modos de pensar. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. portanto. melhor formados) e a da clientela. freqüentemente. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. pois. portanto. Esses estão. por conseguinte. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos.

Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. Outros se orientam para soluções. como uma espécie de traição. outras exigências. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. Trata-se. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. renunciando a uma expansão possível. isto é. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. no entanto. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. Em todos os casos. mas permitindo a sobrevivência da empresa. portanto. pois. – e o questionamento de vínculos anteriores. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. Se o deslocamento para outra região. manter uma qualidade de vida e de trabalho. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. E. o solo no qual a empresa se situa. além disso. preservar uma base local. é importante para reduzir. considerado preferível a uma expansão sem significado. a empresa adotar uma estratégia de exportação. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. encontramos respostas extremamente diversas. ou mesmo para o estrangeiro. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. para si próprio como para o ambiente é. Para essa questão. por exemplo. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. Se. nesse caso. outros modos de relação. uma tomada de distância em relação à terra natal. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. necessariamente. de um projeto pessoal e familiar. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência.Conjunção. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. bancos etc. permitindo administrar as contradições. na empresa. outras aspirações. 101 .

e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. ou ainda. é SUA família.). entretanto. ou ainda. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. evitando. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. as pessoas ou os hábitos de pensar. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. com efeito. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. face a face. portanto nitidamente diferenciados e interligados. por exemplo). Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. algumas das quais podendo se situar alhures. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. por regras ou por técnicas. indiretas. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. é ele. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. desenvolver uma rede de sub-contratantes. Um tal processo pode ser. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. então. assimilado a um trabalho de luto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. a rachar. ao mesmo tempo. que manifestam um crescimento sensível. mercados. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. no sentido pleno do termo. admitindo divisões e separações. margem de lucro. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. no entanto. e de rupturas que essas provocam com o lugar. uns em relação aos outros. criar vínculos de dependência com eles. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. produtividade. etc). que supõem prazos e contatos (redes etc. mais eles se autonomizam. SUA terra. Seria. emerge assim uma organização. Todas as empresas. As relações diretas. situadas em regiões economicamente mais propícias. SEU ofício que dá corpo a ele. uns sobre os outros. são substituídas por relações secundárias. é pois. no entanto. mais ou menos importantes. por exemplo. taxa de crescimento. Quanto mais eles se ampliam. Como conseqüência de decisões. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste.

por Júlio M.(mimeogr. de um projeto pessoal e familiar.Conjunção. do clã.) 2 103 . collectif). Região situada no oeste da França. Paris. 1990. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. no entanto. Toulouse. Se. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida.T. (N. A instituição é um processo. desprender-se inteiramente. de negar aquilo que é. de sua unidade. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real.). é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. ficando na ilusão de sua existência. com o título Inconscient. que é o seu fundamento. na empresa. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. é impossível. 1991. sua ancoragem biológica. organisation sociale. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. existindo para e por si mesma. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. ele deve sempre compor com o nível primário. sob pena de perder o contato com o real biológico. despregar-se. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. constitutivo do sujeito. de sua consistência. uma tensão permanente. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. Mourão. sua fonte energética. André. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. o triunfo da racionalidade experimental. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. pois. quais são os problemas realmente essenciais. Todavia. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. grupos religiosos etc. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. NICOLAÏ). No espaço até então ocupado por ela. possível. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). aparentemente. mais eficazes e mais rápidos. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. como o evidencia Nicolaï.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. No momento atual. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. NICOLAÏ. a fim de que as sociedades possam. Entretanto. os “intermináveis adolescentes” citados por A. de forma responsável. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. LÉVY. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. então. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. etnias. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. as mudanças essenciais 107 . Essas transformações devem. um trabalho de tal monta é necessário e. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. sobretudo. finalmente. verdadeiramente. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. LÉVY e A. com o seu corolário.

que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. na prática social. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. suas instituições e seus diversos grupos sociais. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. e não a nível global e em regiões centrais. como o fez Touraine. pelas interações entre sujeitos. Ao contrário. sujeito). quando anunciaram. Essa disciplina deverá. realizando um genuíno trabalho psíquico. ritualizadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Nesse sentido. Seguindo essa via. portanto. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. dar atenção especial à conversação e ao debate. na relação e pela relação. No entanto. LÉVY). capazes de contribuir. 108 . ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. Ela poderá. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. na atual crise pela qual passa o Brasil. seja para a evolução social. seja para a sua involução. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. interessar-se mais pelos movimentos sociais. para tanto. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. desde a sua criação. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. Esse processo é longo. Mas. igualmente. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. prováveis de ocorrerem na sociedade. Os sociólogos não se enganaram. como têm sido feitas. Será. É importante ainda mencionar outra questão. não surgirão de tomadas de decisões formais. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). levantada por A. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. o “retorno do ator”. também. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. LÉVY: as verdadeiras mudanças. com freqüência. antes de mais nada.

nem sempre bem sucedido. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. no modo de compreender as organizações e as instituições e. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. forçosamente. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. presente em muitos meios. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . no início dos anos 60. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. – tudo isso parece indicar.2 o envelhecimento. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. E isso se traduz em um interesse. na acepção forte do termo. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. malgrado as aparências. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. ainda. com efeito. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. e observando-se toda uma série de sinais. Se me decidi a escrever esse texto. é porque me parece que. seríamos tentados a pensar que.

o que tem como conseqüência que. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. em seu conjunto. de viver de outra forma. a análise transacional e. mas a vontade de inovar.. enfim. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. em função do que lhes parece ser necessário. Em outras palavras. ENRIQUEZ. Parece-me igualmente que. não apenas a inquietude e a interrogação. mais recentemente. para os atores sociais e para muitos práticos. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. constituem.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. os métodos centrados na expressão corporal. uma após outra.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. como todo fenômeno de moda. de ter prazer. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. É certo que a maior parte delas não desapareceu.. pode-se citar a análise institucional. elas têm em comum o fato de terem pretendido. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. uma após outra. retomando termos de E. senão a única. Mas importa. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. primeiro. para os atores engajados na ação. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. por exemplo). ou. elas tenham podido ser a referência principal. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. Embora durante alguns anos. que evidentemente não é exaustiva. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. desde o início dos anos 70. em um determinado momento. 110 . Entretanto. Essa enumeração. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. a análise organizacional.

por não lhe deixar escolha. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. intenções que. desse ponto de vista. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. Em outras palavras. incertos e custosos. efeitos espetaculares em uma instituição. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. auto-realização. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. 111 . eles se comparam. na verdade. com vantagens. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. ao mesmo tempo. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. por exemplo.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. com ambições mais limitadas e incertas.. É praticamente certo que a análise institucional. ROGERS (resolução de conflitos sociais. fazendo assim. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. LEWIN e C. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K.. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). então. Certamente.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. a outros métodos mais longos. Dessa forma. meios que ele controla. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. pelo menos – desses métodos: a. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar.).

pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. tudo isso é. aparecendo em utensílios. Tal fascinação pelo que “funciona”. dominada por relações mercadológicas e seus valores. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. a um “ator” ou a um “agente”. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). o sistema de ação concreto de M.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. especialmente a necessidade de tempo. automaticamente a problemas delimitados. reduzido. condenado a ser rejeitado. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. Essa tendência já estava presente. há que se lembrar. evidentemente. “enquadramentos”. “sistemas” (por exemplo. então. então. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. Embora ocorram desvios. se possível. e que. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. não garante nem assegura nada.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. concomitantemente. 112 . tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. mas também nas orientações cognitivas. Nessa perspectiva.

com efeito. Se. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. Assim. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. a demanda é. assim como uma relação de troca. está próxima à noção de encomenda. há quem quis diferenciar. a demandas por respostas e soluções. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. entre a demanda e a encomenda. nesse caso. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. implicando um bem. endereçada a um outro. Assemelha-se. retira-lhe. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. No que nos diz respeito. toda história singular. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. assimilá-la a uma encomenda. mais ou menos explícitas. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. especialmente. no limite. tal distinção não nos parece desejável pois. Nesse sentido. que podem. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. progressivamente. inscritos em uma história coletiva que. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. reciprocamente. uma grande parte de sua riqueza. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. então. podem-se percorrer todos os graus. reciprocamente. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. uma 113 . no registro econômico. um objeto. sem risco. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. Primeiramente. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. O conceito de demanda social Com efeito. demanda de encomenda – LOURAU. combinada então a pressões mais ou menos fortes. por isso mesmo. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. uma demanda de objeto. isto é. é eco de acontecimentos sociais. Entretanto. A demanda expressa. no sentido de ordenar ou encomendar. necessariamente. ao contrário. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica.

. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. É. inversamente. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. inclusive e sobretudo por quem a formula. sua interpretação. em demanda de outra coisa – conselho. durante um processo de consulta ou de intervenção. tudo isso não é específico da Psicossociologia. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. uma certa relação de poder e de dominação. solução. de uma falta. pelo menos em um segundo plano. Entretanto. trata-se de uma demanda de amor. Ele não é evidente. necessário indagar a respeito de seu significado. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. principalmente. Por essa razão. seja em um quadro terapêutico. então. é que. disfarçando-se. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. a demanda é considerada não como individual. não é uma demanda de objeto. no segundo. dificilmente é formulada como tal. Se. explicitada pelo objeto que designa. Certamente. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. objeto material etc. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. 114 . o que lhe dá riqueza e complexidade. marido e mulher etc. seu tratamento – é. mas como social. sua interpretação é sempre problemática. Enquanto é apelo ao outro. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. pois o qualificativo “social” tende. freqüentemente ou sempre. seja de reconhecimento ou de amor. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. a questão da demanda – sua escuta. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. a “demanda” só tem sentido e só existe. No limite. a demanda é facilmente interpretável. na Psicossociologia.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). em contrapartida. Ela se torna real por essa e nessa relação. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. mas a expressão de um desejo. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. na acepção própria do termo. aí. precisamente. Nesse caso. ajuda. no primeiro registro.

atos e palavras. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. meios de resolver um conflito etc. de outro.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. mas também de permitir interpretá-las. eventualmente. quis ou “demandou”. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. é necessário que ele tenha se manifestado. Porém. testemunhado através de seus escritos. reflexo interpretante. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. exprimem-se sob formas coletivas (greves. que sua prática não é aplicação de uma 115 . às quais é difícil resistir.). das quais resultam vivências compartilhadas que. Ao contrário. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. a solicitou.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. de uma maneira ou de outra. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). as quais. manifestações agressivas ou angustiantes etc. Como conseqüência. mobilizadas. transformadas em atos. não há nada em comum com a posição de simples espelho. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. compreendidas e interpretadas. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. podem ter efeitos nas situações que as originaram. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Em outras palavras. de dependência ou de submissão. De um lado. nas quais elas podem ser avaliadas. Assim. por sua vez. mesmo que seja de maneira difusa. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples.

enigma. um grupo. no espaço desse artigo. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. Esse ponto. ao contrário. individuais e coletivos. uma ética. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. uma concepção da sociedade e das relações humanas. Trata-se.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. DUBOST. principalmente. parece-nos ser uma ética. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. entretanto. ao mesmo tempo. na falta de outro termo. uma empresa. afirmar que elas são. Entretanto. tudo isso expressa bem o que. com a condição. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. da mesma forma. a noção de sistema é bastante útil. uma classe de atores etc. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. mas que traduzem um desejo. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras.. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. desde LEWIN. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação.6 como oportunamente evocado por J. confessáveis e tratáveis. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. interagindo entre eles.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). Desse ponto de vista. independentemente das outras com as quais ela se articula. mas através de princípios regendo procedimentos. um serviço administrativo. consequentemente. Tal representação exclui. não é possível. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. uma perspectiva – que. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. Evidentemente. Assim. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. toda análise em termos de relações bipolares.

incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. desde o início da ação de intervenção.Por outro lado. a fortiori. é importante que todo ator e. igualmente. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. e sendo breve. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. A introdução. em uma relação de colaboração. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . instrumental. então. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. identificar os dados. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. por K. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. Assim. em especial.7 Porém. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). 2. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. ao mesmo tempo. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. trata-se de tentar definir. 3. J.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. Desse ponto de vista. em especial. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. por exemplo –. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. dessa forma. sem o perceber. aplica-se também à Psicanálise. Evidentemente. Em suma. antecipadamente. Sem dúvida. o interventor-pesquisador contra o risco de. LEWIN.

consideráveis nas últimas décadas. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. parafraseando J. da sociedade e das ciências do homem. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. então. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. FAVRET-SAADA. Embora seu enunciado seja necessário. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. algumas tendências atuais. questionar. Da mesma forma. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. de qualquer jeito. então. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. brevemente. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. reafirmar essa posição e manter-se nela. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. É indispensável. Igualmente. nos termos de J. em seguida. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. FAVRET-SAADA. investigar. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. Entretanto. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. 118 . embora não suficiente. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. uma orientação. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. assim como observar. tentando identificar. elas expressam antes uma perspectiva. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. “saber como se foi apreendido”. é impossível. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar.

de análise de grupo. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. convergências. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. no início do texto. Por outro lado.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. Finalmente. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. Em todo caso. rogerianas e morenianas. por perspectivas lewinianas. há alguns anos. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. talvez rapidamente demais. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. etnometodologia. impõe-se: qualquer que seja o domínio. de uma forma diferente. certas correntes de Sociologia Clínica. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. hoje. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. é impossível. análise conversacional. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. Mostram. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. desde os anos 60. até então. de ordem geral.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. Assim. não é mais aceitável. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais.10 Mais recentemente. a problemas de mudança social.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. dominados principalmente. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . cada vez mais evidentes. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. com uma perspectiva bem global. dedicaram-se. assim.

A. PUG. 1987. 10 120 . L. 1972. 42. 1979. e BAREL. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Changements. La société du vide. 43. J. La voix et le regard. e de representações específicas de objeto. 1978. Dunod. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. O problema da mudança individual. 1989. Dunod. GOFFMAN. E. trabalhadores sociais. CHABROL. W. JAQUES. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. “Eloge de la psychosociologie”. 1985. 3 ENRIQUEZ. 1987. E. J. 6 8 9 FAVRET-SAADA. PUF. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. Entre le cristal et la fumée. Por exemplo: ANZIEU. J. Gallimard. muitos outros atores apareceram: formadores. 7. e LÉVY. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. Connexions. C. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. responsáveis políticos locais. Dunod. DUBOST. In: Du discours à l’action. A. Seuil. Façons de parler. Minuit. 2:87. J. Les mots. RAPOPORT. “L’analyse sociale”. ATLAN. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. L’intervention psychosociologique. Em especial. Le groupe et l’inconscient. 9-18. Paris: Seuil. J. Seuil. Le sujet social. Payot. BION. les sorts. A. 7 Cf. 1987. In: ARDOINO et al. Connexions. la mort. L’intervention institutionnelle. La parole intermédiaire. Y. 1979. e JOULE. 1984. H. “Coopération et analyse des conversations”. Sociologie du Travail. 12 BORZEIX.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. FLAHAULT. 1984. 1983. 1990. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. 2 4 5 WATZLAWICK et al. 1980. 1981. G. “Connexions”. por vezes fundamentais.N. sindicalistas. André. paradoxes et psychothérapies. 1987. L’Harmattan. E. e CAMUS-MALAVERGNE. “Ce que parler peut faire”. 1973. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. 11 TOURAINE. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. A. Tese de Doutorado.. L’observation de l’homme. Seuil. DUBOST. 1965. Connexions. BEAUVOIS. D. Paris X. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. A. 1978. O. DUBOST. LÉVY. R. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. Situations de groupe et relations langagières. Recherches sur les petits groupes. Intervention et changement dans l’entreprise. TROGNON. PUF. 17. 1977. 1975. LECLERC. Paris: Seuil. 53. arquitetos etc. J. nos anos 60 e 70. R. p. Como exemplos: BARUS.

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações.4 Essas evoluções.2 Mas. depois de LEWIN. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. também. Entretanto. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. tendência. certamente. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. em contrapartida. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. no campo que nos interessa. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. de forma mais ou menos clara.3 sobretudo nas Ciências Humanas. em nenhuma das duas. mais do que como fenômeno excepcional. retorno a uma problemática do indeterminismo. o segundo 121 .

aquém ou além. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. mas que ela poderia se realizar. como demonstramos num texto anterior). que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. por definição. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. recristalização). de súbito. parece-nos possível.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. no grupo (na relação e pela relação. de uma leitura psicológica. Antes.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. com efeito. isto é. por isso. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. muito fecundo. com efeito. necessariamente. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. ele permite. definitivamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. K. compreendê-la como tal. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. para as constatar. do interior e não de um ponto de vista exterior. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. prever. porém algumas observações prévias: a. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. hoje. dirigir ou combater. iria reificá-lo. LEWIN. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações.5 Além disso. participando delas diretamente. Nesse terreno. deslocamento. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. aqui. necessitando ser aprofundada. 122 . e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. Assim.

No entanto. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. Antes de ser um acontecimento objetivo.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. seja a de um indivíduo ou de um grupo. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. a mudança é um acontecimento psíquico.). reprodução das idéias. O termo mudança poderia.. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico.. que queremos nos centrar aqui. desse ponto de vista. legitimamente. redirecionamentos. a um processo de mudança. “exceto do corpo que se usa”. físico. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. mutações. eles não podem ser previamente enunciados... econômico.. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. também. não se reduz a esse processo evolutivo. freqüentemente não isentos de violência.. designar tudo o que está vivo. ao risco (.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. é acontecer. ela é um acontecimento subjetivo. tal definição é geral demais para ser útil. assim. A mudança é um trabalho do espírito. é sobre essa segunda significação de mudança. entretanto. porém.. A teoria dos sistemas distingue. Com efeito. Com efeito. Como já dissemos. que é a morte) – reprodução das espécies. é o espírito que. tecnológico –. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino.).Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. (.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. Ele se traduz... reorientações bruscas. reprodução das instituições. o desenrolar de uma existência. à aventura.8 Com efeito. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis.. é se abrir a uma história. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . escrevia Paul VALÉRY. como observou Paul VALÉRY. pois. Toda vida é “repetição de ciclos”. nem todo processo discursivo se identifica. como ruptura. lento e ininterrupto.9 a mudança.

As condições materiais. em todos os níveis. representações ou intenções e os que estimam. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. ainda. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. ao contrário. Por exemplo. das instituições. Ou. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. a liberdade”. ao contrário. o lugar da mudança. depois de LEWIN. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. se o ato é fundador. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. um trabalho de pensamento. por excelência. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. dos modos de pensamento. Fazemos. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. A decisão: momento. Para entender bem essa proposição. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. por um trabalho do espírito. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. isto é. ao nível de suas significações. objetivas. os psicossociólogos. antes de tudo. ele o é apenas se fizer sentido. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. então. 124 . tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas.

Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. um salto para o desconhecido. 125 .11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. da ordem do real-concreto-sensível. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. o “golpe de força” na origem de toda organização social. Os processos de decisão analisados por LEWIN. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). da continuidade sem hiatos.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. então. em suas opções e em seus desejos fundamentais. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. Por isso. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). do feminino. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. por si própria. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. com o risco de sua própria desagregação”. uma situação nova e envolve inteiramente. só pode ocultá-lo. o psicanalista W. Somente a decisão pode fundá-lo”. ao mesmo tempo. por exemplo). “operando uma disjunção violenta. necessariamente. da duração (bergsoniana). por si. em sua época. em um trabalho anterior. inicialmente. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. o tempo. LEWIN. para chegar ao processo secundário e criar o real.13 acentuamos o ato arbitrário. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria.12 A decisão seria. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. a organização social. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. renunciando. a divisão.

a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. O sujeito de tal enunciado. um ato de palavra. não muda nada.” é um ato “ilocucionário explícito”. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. que uma decisão necessariamente modifica. nem que a palavra seja onipotente. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. Mas. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. quer sejam. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. é o mesmo sujeito da enunciação. Um ato. de forma mais importante ainda. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. qualquer que ela seja. ao mesmo tempo. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. Se o sujeito que 126 . por seu conteúdo informativo e prescritivo. Mas. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. simplesmente. Isso não significa. mas porque é um ato público. manifestação da vontade de produzir. não pode significar uma mudança. isso significa que uma escolha.. assim. a decisão é. em si mesmo. evidentemente. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. tomados como testemunhas. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). pois ele pode sempre ser desmentido. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. como que por mágica. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. pois. apenas por seu enunciado.. modificações na realidade. simplesmente. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. explicitamente designado. Toda decisão é.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. econômicas ou sociais. retomado ou reinterpretado. assim. as situações institucionais.

Nesse sentido. Então. bem antes do livro sobre Moisés. eles próprios. formal e. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. interpretação e prática de análise social No entanto. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. a uma atividade lúdica ou de encantamento. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. e de abandonar o terreno do possível. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. para um processo de mudança. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. conscientes ou inconscientes. rituais ou emblemáticos. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. como muitas vezes ocorre. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. igualmente. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. a respeito do herói. como diante da morte –.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. o jogo de hipóteses. sem apreender o real? 127 . Decisão. do imaginário. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. não se reduzindo. Aqui. talvez mais do que em qualquer outro momento. efetivamente. sob a má fé dos argumentos. vazios de sentido e sem conseqüências. para fundar o real. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. entre as possibilidades. esconde mal. inelutável. os desafia.

128 . eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. Mas ele pode. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. Certamente. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. Seria importante. tais como J. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. certamente. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. escapar dessa eventualidade. FAYE15 as analisou. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. Assim. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. implica um risco e um custo. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. sendo difícil. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. possuem as características do relato histórico. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. feita pelos psicossociólogos. incontestavelmente. com efeito. como toda decisão. como observa FAYE. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. O trabalho sobre as resistências. igualmente. termo que. ao mesmo tempo. Esses sistemas. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. ainda que não tenham conhecimento disso. senão impossível. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. certamente. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. ela é necessariamente parcial e partidária. P. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. para fazer a história.

o texto. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. em um processo de reificação de enunciados fechados. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. assim. mas complementares. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . subtraído do tempo”. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. mas tende a afastá-las. das condutas às quais elas se referem. pois. uma parte da verdade comum. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. longe de se fundamentarem no “real”.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. mais ainda.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. ao contrário. no inconsciente dos sujeitos. que eles constituem visões diferentes. É aqui que uma concepção por demais rígida. bem claramente. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. contentando-se em esclarecê-los e. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. de uma mesma “realidade”. contribui para reforçar seu caráter dogmático. essas diferentes visões e o que elas ocultam. “nascendo. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. atuem diretamente no real. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. mas sua coerência. ideológico. sobretudo. justificando. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. do risco de uma interpretação verdadeira. que preserva o analista social da decisão. visto que essas. então. muitas vezes. cada um. não podendo ser traduzidos em decisões.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. práticas contestadas ou abordadas. diz-nos LEGENDRE.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. em 1900. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). mas abertos ao seu meio ambiente e. capazes de se auto-regularem. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. supra) agidos. a partir do século XIX. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). oriundos de outras áreas. não restavam mais que 10 000). são simultaneamente (cf. ou seja. atores e autores do seu sistema. por isso. isto é.Rupturas. Eles se referem a sistemas autônomos. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. inicialmente. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. os atores. colocam outros problemas. face a “ruídos” provenientes do exterior. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções.Inicialmente. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. em 1950. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . Nesses períodos. isto é. o que não é o caso dos elementos físicos. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. químicos ou biológicos. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. cujos elementos. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. então. como crises momentâneas de coerência. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). autopoieses. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. Assim. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. as crises econômicas foram. *** Quais são. pois. os novos conceitos e hipóteses. autocriação.Os conceitos de auto-organização. constituindo-se. literalmente. 2. autogeração etc.

A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. Mas. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. encontramos poucas reflexões (na França. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. Essas crises-ruptura. Nesse ínterim. No entanto. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES).P. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. em especial. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.2 por exemplo). por conseguinte. É certo que essa escolha é aleatória. entre os economistas. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. de um lado. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. logo não previsível. de inovadores potenciais. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. na sociedade ou numa área econômica dada. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. sob o protecionismo de MÉLINE. mas isso deixa de lado os fatores 136 . de outro lado. amplia a margem de manobra dos inovadores que. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. sob a égide do Estado. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos).. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. segundo CROZIER) e. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. Sua presença é vista como consolidada. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. o compromisso fordista empresários-assalariados. nesse momento.I. na França. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera).

inerente ao sistema. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. Há outro problema não estudado. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. ele se torna o ordálio. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER.P. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). da predestinação do mais forte. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno.. a difusão ou não – de suas inovações. em cinqüenta anos. Mas ainda continua faltando. CASTORIADIS). uma teoria do fracasso. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. assim como aos fatores culturais. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. 137 . Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. por conseguinte. nessas mutações estruturais.I. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. ou seja. nesse quadro. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”.000 sociedades. entre a mão invisível e o punho de ferro. Mesmo se essas teorizações existissem.Rupturas. da designação. ao nível dos detalhes. tornando possível viver em perspectiva (C. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. Em épocas de crises-ruptura. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão.

à extensão do capitalismo (os N.P. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. integrismos. devido à extensão atual do mercado e. às vezes. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. despolitização.). 3 . o sagrado e. mesmo que saibamos.enfim. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. Ela se define (P. polimorfismo das intervenções do Estado.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. ENRIQUEZ): nacionalismos. podemos constatar: .outras referências. . após a solução eventual da ruptura. que o Centro se desloca. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. . por exemplo): concorrência. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. Mas. . poderes oligopolíticos em escala internacional.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. da cultura. BOYER. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). embora ainda não totalmente. por exemplo).aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. 138 . desde BRAUDEL.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. . .Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. ao mesmo tempo.I.fenômenos de regressão a formas mais simples.aumento do número dos agentes aí implicados. a família e a escola). 3. . o lúdico. homogeneização da linguagem. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). des-sindicalização e mesmo des-identificações. GROU. após dessacralização.).

por outro lado. tão caro aos marxistas de outrora. por um lado. para cada grupo de agentes. por outro. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. Ela supõe. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. o leque dos comportamentos não é. as sociedades animais). mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. 1. Do mesmo modo. Essa adesão. por seu lado. E esses. das conexões) e do “salto qualitativo”. D. regras ou convenções para lhe dar suporte. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta.Rupturas. 139 . ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). mecânicos. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia).4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. biológicos e mesmo etnológicos. introduzir normas. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. Contrariamente. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos.).Nos sistemas sociais. para poderem inovar. É preciso. REYNAUD). informáticos. para serem fecundas. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. químicos. uma interiorização das normas e uma culpabilização. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. devem inicialmente ser especificadas. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). pois. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. por um lado. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. além das imposições do mercado e dos demais poderes. quando da sua transgressão e. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. completamente fechado. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. como afirma o individualismo antropológico.

acumulação. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. as ocasiões de experimentar. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. por fim. devendo encontrar. seria preciso distinguir.5 o pessoal patronal). Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. por isso mesmo.Quando há ruptura. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. enquanto que. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. O imaginário da destruição pode. então. por exemplo). No primeiro caso. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. os outsiders e os parvenus substituem. inovações. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). de se expandir e.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. em período de crise. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. em seguida.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. 3. dos fatos de regressão (por exemplo. sem esquecermos ainda as marginalizações. 2. pelos golpes das OPA. da sedentarização ao nomandismo). esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. a modificação do tipo de conjuntura. Existe então. No total. mais nitidamente. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. de sua unicidade histórica. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. Por outro lado – apesar de KEYNES –. no segundo. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. 140 .

Ruptures. então.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. uma mutação estrutural. 2.As estruturas (as relações de complementaridade e. por exemplo. Revue Économique. representações. Cf. 141 . OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. março 1989. 1990. n. por conseguinte. André. normas. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. 3. 55. então. de coerência) + a cultura (os conhecimentos.T. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. Connexions.Mas a adaptabilidade do sistema. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. um esquema ideal típico. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. “Malaise dans l’identification”. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). 2. para experimentar as inovações. n. por conseguinte.). Cf. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.). “L’économie des conventions”.Rupturas. tal como: 1. a aquisição de conhecimentos e de representações. a adesão às normas e. mutations et complexification en économie (mimeogr. “esgotamento da relação salarial fordista”).). Paris: ERES. por Teresa Cristina Carreteiro. A continuação do funcionamento implica. V. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. N. 40.T. portanto. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

precedeu uma crise política. de algum modo. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. de incertezas). nos anos 60. MITTERAND. ROCCARD. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. no 52) A crise das identificações. BRANDT.Ela mobiliza atores em potencial. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. 4. “desfusão das pulsões”. quando não destroem a sociedade em questão. João Paulo II. precedeu uma crise econômica. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. e os transforma em autores das mudanças. Assim. MARADONA. Fragmentos. Atualmente. talvez anuncie o fim delas. jogando. Do mesmo modo. 143 . No Ocidente. a introdução de novas referências. então. não se trata mais de crises (isto é. Pois essas “perturbações”.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). (Heráclito. E. criam. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. (Hobbes) Tempo é criança brincando.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. de criança o reinado. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. por exemplo. porém robusta. por sua vez. condições de “saída da crise”: l. 2. TAPIE e outros). a qual.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. 3.

Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. assimilam e transformam. assim.No final de contas. a grupos étnicos. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. a categorias socioprofissionais e. por outro. a tipos de personalidade diferentes. O resultado é que. localizadas e transitórias. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. por um lado. desses imaginários de projeto. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. de assimilação e de inovação. diz FREUD. para todos. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. é claro. o individualismo ilusório ou de oportunismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5.Ela libera. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . ao mesmo tempo. pode-se reciclar também a identidade. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. ao contrário. as “intermináveis adolescências” que. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. O “mal-estar na identificação” traduz. 6. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. de modos diferentes. angústias de identidade. não apenas a realidade parece incerta. tentativas de reconstrução. com todas as posições intermediárias possíveis. reativados ou mesmo imaginados). que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. levados pela incerteza das situações e do futuro.

O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. religiosas. gorros cristãos etc. nacionais. A identificação que não se desvencilha do partido. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos).Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. e a aparência NAP) pelo simbólico. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. c. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. profissionais. a regra e as sublimações. Fenômeno que ilustra 145 . podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. é paralela à involução identificatória de seus membros. b. da igreja. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. é claro. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. as reativações religiosas atuais no Irã. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. Assim.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. a. de classe. do racismo. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. Por exemplo.3 A família. regionais.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. finalmente. em vista da emancipação para o societário e a individuação. organizacionais etc. da empresa etc. solidéus – kipas – hebraicos.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. nos dois sentidos do termo.

não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. exatamente como Deus. justamente porque mais na moda. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. além disso. a. primeiramente. ipso facto. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. E isso. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. por sua vez.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. fortalece as exigências da necessidade econômica. b. Quer dizer que o narcísico. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. O retorno pode ir ainda mais longe. entre 1983 e 1988.Mais interessantes. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. principalmente. com o dinheiro. às avessas. especialmente na França. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. “tem necessidade dos homens”. o narcisismo individual. Ela é. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. é.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. isto é. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais.Do primeiro diremos pouca coisa. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). sendo aliás esse que permite aquele.

as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. o prestígio etc. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. notemos que o modelo do sucesso individual. Assim. Isso é talvez patológico. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. “Criem sua própria empresa”. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. essa acumulação pecuniária permite. Entre a binaridade e a injunção contraditória. mais tranqüilizadora. em substituição ao “Mudar de vida”). O dinheiro. caso se propagasse a todos os agentes. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. em prêmio de Schadenfreude.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. numa androgeneidade fecunda. Além disso. o sucesso dos outsiders permite também e. de junho de 68. manter ou criar os meios de aumentá-la. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. Por enquanto. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). o festivo.) permite. Enfim. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. talvez. o mercado. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. é mais simples escolher a binaridade. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. A monetarização. se autodestruiria. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. se ela for realizada. Na verdade. simultaneamente. induz não ao 147 . os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES).

É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . nas três etapas – puberdade. cada um será. adolescência e pós-adolescência -. Intermináveis adolescências. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. esse narcisismo manipulador. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. passa-se rapidamente. Acrescentaremos apenas algumas observações. ao insolúvel. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. a partir de elementos de vestuário comuns. um cavaleiro solitário. na época atual. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. a individualização extrema dos novos modelos. 1. a nítida binaridade do mercado. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. daí resulta. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. a programação dos computadores das Bolsas) que. logo. No caso de fraqueza delas. em contrapartida. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. (T. entretanto. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. necessariamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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pois. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. Pode-se. pois. produzem-se onde não se espera e constituem. “surpresas”. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. fora do controle exercido pelo Centro. no que tange à história do capitalismo. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. conjugada com a manutenção dos objetivos. uma vez instaladas. 154 . em certas regiões. Além disso. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). inclusive jovens executivos12. por historiadores como BRAUDEL ou I. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. Com a condição. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. É por isso que as revoluções. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. mesmo que sejam minúsculas. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. por exemplo. Nesse caso. pelo menos em muitos jovens. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. como. antigamente atrasadas. não podem ser reorganizadas e reorientadas. entretanto. Assim. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. Além disso. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante.

do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e.) pelas outras. no início. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. a conformidade e. jogo de empresas. GODALIER). substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. as identificações são. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo.. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). MC DOUGALL). Paralelamente. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). Assim. ao contrário. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. aí. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. diz WININICOTT). numa situação de mal-estar. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. dos prazeres. mas existem. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J.. no adulto não é a repetição mas. Mas. ainda mais. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. política etc. unicamente confirmadoras da identidade. constitutivas da personalidade e. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. das idéias. E como se sabe. das coisas. idealmente. logo. cujas identificações seriam.. a personalidade arrisca-se a desmoronar). colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. em seguida. a captação do lúdico (jogo de papéis. do espaço. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. por sua superação.. Em contrapartida.). podemos contrapor. dos valores. mas é também uma dimensão de todas as outras (M.

é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). por exemplo). em identificações hierárquicas. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . . então. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. . Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. ao mesmo tempo que se escreve. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. DUPUY. Mas. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. Desse modo. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. representadas e transicionais. com o 156 . entre esses tipos extremos e opostos. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. então. em transformar as identificações laterais.experimentam-se. . E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai.tentam-se. . a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. então. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. Essa é. como vimos.13 Fundamentalmente. sem dúvida. imprecisas e transitórias.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos.a dificuldade está.

o fim da história só concerne a cada indivíduo).. dos indivíduos e da identificações 157 . em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. como na tectônica as placas entram em fricção. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). pois. Chegando à encruzilhada. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. (O que prova. Daí a multiplicidade.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. por isso. tanto para os autores das mudanças. Algumas conseqüências 1. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. na Colômbia ou alhures. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. apesar de tudo. das coordenações pelos sindicatos etc.. podem entrar em conflito. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. outsiders ou reciclados. com a eliminação das organizações. que apesar de HEGEL. em 1981). Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. das utopias (“mudar a vida”. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. às vezes. da maioria dos marxistas. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. de bandeiras. no fim de contas. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. em concorrência). de fetos ou de liberdade de viajar. o mal-estar subsiste. de passagem.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. Essas apropriações podem. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. Enquanto isso. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. e das intermináveis adolescências. aliás. 2.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. quanto para aqueles que o desemprego. Há.

E a que corresponderia. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. as gerações. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). por um momento denegadas (entre os sexos. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. ENRIQUEZ. as únicas referências ainda fidedignas. como alguns dizem. O barroco societário atual é. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. talvez. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG.Mas sabe-se também que o vínculo social e. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. e a complexidade progressiva do sistema. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. os tempos. amanhã.). necessariamente. pedidores de emprego.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. principalmente). para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. Por isso. 3. Ora. Talvez. a estrela polar) são. um momento dessa ascensão. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. encontramo-nos. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. 158 . Os signos (o sol. das normas e das formas. ao mesmo tempo agradável e funcional. os espaços. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. as culturas etc. portanto. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. então. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais.

]. Mais dura foi a queda. simultaneamente. W. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. “L’économie des conventions”. a receita das identificações complementares novas (e. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 55. do econômico ao sagrado. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. Connexions. 1990-1. André. Tomo 1. Hoje ele teria. Estaria a saída. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. sem dúvida. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. das coesões) não parece ainda inventada. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. N. por Eliana de Moura Castro. na formação de ninho familiar.T. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. 61-78. NAP: Neuilly. Pléiade. ao contrário. 1981. Oeuvres: Économie. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Gallimard. MARX. p. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. 159 . Temos assim uma alternância de interpretações. 40. O problema: em época de “destruição criativa”. logo.” In: M. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. edição de 1963. os atores (Individualismo). As épocas de crise e reconstrução valorizam. Petit Larousse. Auteuil. nas diferentes esferas do social. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. RUBEL. para outros? Mas. C. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. 2 de março. então. Revue Economique. Passy. p. 239. naturalmente). no mal-estar.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). n. É por isso que. no adulto que eles se tornariam. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. “Zur Kritik. 1989. 29.. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. sociedade e personalidades”..

J. Connexions. M. BAREL. Cf. Winnicott en pratique. CAILLOIS. 1975. Les ruses de l’intelligence: la Métis. 1960.. D. E. L’auto-organisation. 1982. CERISY (Actes du Colloque de). ne m’aime pas. P. Paris: Fayard.. 1982. Paris: Epi. M. DENOYELLE. 1988. Y. Les contradictions culturelles du capitalisme. Uma mudança social. 1989. Paris: Cerf. 160 . n. P. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. P. DETIENNE. 1983. Aux carrefours de la haine. BELL. L’institution imaginaire de la société. ANREP. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. E. VERNANT. 1988. Paris X. 4. BIRNBAUM. Paris: PUF. Paris: PUF.. Tese. The end of ideology. Freud et l’éducation. M. Paris: Seuil. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. L’homme et le sacré. 1976. Le paradoxe et le système. DUPUY. CASTORIADIS. ENRIQUEZ. R. Toujours plus. BOURDIEU. 1987. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. New York: Collier. Cujas. “Le changement en question”. Paris: Minuit. AULAGNIER. CHASSEGUET-SMIRGEL. “Les représentations sociales”. CROZIER. Grenoble: PUG. La distinction. por outro lado. P. ARMANDO. 29. BALANDIER. Paris: ESF. Paris: Seuil. 1989. Paris: Grasset. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. 51. Les deux arbres du jardin. F. Paris: PFNSP. 1979. Autonomie et systèmes économiques. Si tu m’aimes.. Paris: Seuil.. Le lien social. oportunismo. Paris: Seuil. BELL). J. FRIEDBERG. BELL. L’individualisme. T. LECA. J.-P. Bulletin de l’AISLF. Les révolutions minuscules. 1988. A. 1979. J.] uma não-imitação de exemplos paternais”. ENRIQUEZ. 1985. mobilidade. 1974. 1977. M. DE CLOSETS. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Le désordre. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. J. ELKAIM. Paris. Autrement. Les destins du plaisir. n. n. C. 1981. 45. 1988. Connexions. 1989. Interminables adolescences.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. Ordres et désordres. Paris: des Femmes. 1950. G. D. Paris: Flammarion: 1974. Paris: Seuil. 1979. 1984. 1988. L’acteur et le système. para TARDE. 1982. n. Paris: Gallimard. Paris: Gallimard. De la horde à l’Etat.

WINNICOTT. Idéaux.. nov. 40.. “La nation disparaît au profis des tribus”. MOSCOVICI. Paris: Gallimard. Mc DOUGALL. n. 1989.” Connexions. OLIVIER. Le Monde. Paris: Payot. A. Paris: PUF. “La voix écoute”. Ressources. 1987. “Et le poussent jusqu’au bout. L’autre et le semblable. Paris: Gallimard. Les lois de l’imitation. “L’économie des conventions”. outono. 2 de março. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. S. Paris: Seuil. J. 10. LÉVI-STRAUSS. Le Monde. Forum de Delphes. psychose et perversion. FUKUYAMA. 1989. Psychologie des minorités actives. Paris: Payot. D. 25 de out. Paris: CNRS. D. LASH. 15 nov. 1934. Ch. L’empire de l’éphémere. 1989. 1982. n. 1983.. Cl. Reedição GEX. A. “Psychologie des foules et analyse du moi”. 1951. FREUD. 1966.1974. Revue Economique. D. “La politique en apesanteur”. 20. Inhibition. 1979. nov.. junho 1987. 1989. 1980. 1989. 1974. S. angoisse.. Paris: Denoël. 1971. Paris: Fayard. 26 jan. Pouvoirs de l’horreur. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. out. B. G. symptôme. GODELIER. n. 38-39. Malaise dans la civilisation. 1989. Freud et le problème du changement. W. 1989. 1970. S. F. 161 . MITSCHERLICH. Jeu et réalité. 1989. Rationalité et irracionalité en économie. M. 1984. Paris: Plon. Traverses. FREUD. NICOLAÏ. SEGALEN. 1977. n. n. Le Monde. Névrose. G. “La fin de l’histoire?” Commentaire. In: Essais. Nauplie. 27. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 1973. Paris: Gallimard. S.. H. GOFFMAN. 1971. n. Paris: PUF. SEARLES. n. FINKIELKRAUT. 18 julho. MENDEL. Paris: Plon. Paris: Gallimard. S. TOURAINE. NICOLAÏ. 1958.” Peuples méditerranéens. LIPOVETSKY. “Les Français et l’argent”. Les rites d’interaction. Pour décoloniser l’enfant. FREUD. “Penser le chômage”. 1979. La pensée sauvage. WIDLOCHER. TARDE. L’effort pour rendre l’autre fou.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. 1981.” L’homme et la société. A. Paris: Minuit. Les enfants de Jocaste. SIBONY. 1981. G. G. 51-54.. KRISTEVA. LE GENDRE. Paris: RFP. 1978. et al. Paris: Gallimard. MENAHEM. D. 1988. Paris: PUF. n. FREUD. 1980. 1980. Cl. de la vertu et de plaisir. FREUD. 47. Anthropologie structurale I. Revue française de psychanalyse. A. A. Le déclin du complice d’Oedipe. E. A. S. Paris: PUF. Paris: PUF. Le retour de l’acteur. Le complexe de Narcisse.. J. M. 18 mai/7 jun. NICOLAÏ. Paris: Maspéro. LÉVI-STRAUSS. 1971. Cl. Vers la société sans père. “Et mourir de plaisir. 1980. “Les mutations de la famille. 3. SIBONY. Paris: Laffont..

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

essa parece ter sido. desembocando. Poderíamos dizer. sem vê-lo como algo já dado. No Brasil. LÉVY (“Intervenção como processo”. 1987). Pelo que eles mesmos nos contam. Assim. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. ela tomará formas próprias. pelas Comunidades 165 . DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. sem dúvida. também. na maioria das vezes. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. Benevides de Barros É. É bem verdade. os textos de J. 1980) e de E. a partir da divisão não-saber x saber. criando em nós uma vontade de entrar no debate. que essa “crise” também eclode em vários países e que. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. lançar um olhar novo sobre o mundo. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. mais tarde.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. de A. nas décadas de 60/70. entretanto. em cada lugar. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. por exemplo. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. em fins de 50/início de 60. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. contribuir. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. instrumentalizada então. em uma espécie de “crise das instituições”. 1980.

da burocracia partidária. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. palco de uma produção expressiva. de modo generalizado. DUBOST. do conservadorismo universitário. As instituições são analisadas. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. fica claro que “Movimento Institucionalista”. 166 . uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. E. presenciamos. ao Chile e ao Uruguai. PAGES. uma certa psicossociologia se faz intervenção. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. questionamento de seus modos de instrumentalização. ARDOINO) ou. principalmente. Vemos. ainda. então. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. de um lado. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. LOURAU. o país. DELEUZE). inserem-se. HESS. No campo da Psicologia. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. O mês de maio de 68 francês. LÉVY. desde essa época. colocou em cheque. por outro. No Brasil. R. político e social. Por aí. Os fins do anos 60/década de 70 serão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. J. G. através do contato com os “institucionalistas” franceses. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. A. LAPASSADE. crítica das experiências instituídas. quando tomado em seu sentido amplo. Ainda que marcados por grandes diferenças. Em meados de 60. à Socioanálise (R. ENRIQUEZ). então. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. GUATTARI e G. analisador histórico do status quo vigente. J. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. chegar também até nós o eco dessas produções. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. designa a crítica à naturalização das instituições. como à Argentina. convulsionado pelo golpe militar. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. na interseção dos campos filosófico.

Com PAGES.. É marcante..Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). respectivamente. Lapassade (. MATA-MACHADO.). Ambos haviam participado. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. mais especialmente. A entrada se dá. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. sobretudo. 167 . Em 1967. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.. alguns de Enriquez.)”.(. 1992. segundo M. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (... (MATA-MACHADO. (MATA-MACHADO. p. portanto.. cuja prática foi denominada Socioanálise”.. 2) O pensamento institucionalista atravessa... mantinha. a partir de 1968. além de seus próprios escritos.. a influência do pensamento institucionalista francês. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. via Universidade e.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. da formação da A.). 1992. Se no início a orientação era claramente norte-americana. os professores Max PAGÈS e André LÉVY.R. segundo a autora.. 1992. mas há algumas produções importantes que já apontam. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA)..) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. que congregou pesquisadores práticos (.. O recente trabalho de M.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.P. com a qual logo rompemos (. voltado à pesquisa e à prática.I.). tivemos entre nós. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. de forma mais pontual. sob a liderança de Garcia. Junto com René Lourau (. p. Lévy apresentou-nos..) Em 1971. “(. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. 3-4). p. de Rouchy e. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. 2). através do Curso de Psicologia. como grupo.. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França.. em 1959.

outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. mais tarde. DUBOST e E. além dos autores já citados. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. somou-se a influência do pensamento de outros (M. Encontramos. LAPASSADE. 6). “parcialmente abandonada. GUATTARI. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. É também na década de 80. no Brasil. cujos interlocutores privilegiados são A. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. p. construindo-se práticas singulares.)” (MATA-MACHADO. FOUCAULT. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. DELEUZE. 168 . 1986). o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. 1992). F. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. G. no Rio de Janeiro. menos desejosas de mudar o mundo (. O pensamento pichoniano.. na Europa. No Rio de Janeiro. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. R. mas estendendo-se até hoje. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. CASTEL. em fins de 70/início de 80. O que se percebe é que. 1992. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. p. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. 1992. entre outros). o movimento institucionalista inclui sociólogos. Essa perspectiva é. MENDEL). ENRIQUEZ. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. 4). em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. Hoje. G. Na década de 80. LÉVY. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. G. há alguns projetos em andamento.. segundo a autora. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. LOURAU. assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. 1987). enquanto que. LEITÃO e BARROS. atentas às características da realidade brasileira. psiquiatras e psicólogos. J. Ao mesmo tempo. fez com que. por um certo tempo. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. entretanto. a partir de então. pedagogos.

Marília N. 169 . em suas várias vertentes. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. Félix e ROLNIK. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. 1992. em alguns casos.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Petrópolis: Vozes. (orgs). Especialmente através dos trabalhos de S. mais tarde. M. História do Movimento Institucionalista. Heliana B. Grupos e instituições em Análise. O inconsciente institucional. Belo Horizonte. e SAIDON. Heliana B. RODRIGUES. e BARROS. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. tendo incluído outras influências teórico-práticas. Regina D. nas intervenções e práticas sociais. LEITÃO. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. RODRIGUES. (mimeogr. Suely.. Intervenção psicossociológica. GUATTARI. incluindo. 164p. (mimeogr. DELEUZE. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas.). hoje. Gregório F. Rio de Janeiro. Vida R. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. e BARROS. sobretudo.). KAMKHAGI. A década de 60: seus efeitos no pensamento. Osvaldo (orgs). 1986. Referências bibliográficas BAREMBLITT. C. ROLNIK. Atualmente. B. (coord. as contribuições da socioanálise. MATA-MACHADO. na universidade – PUC/SP –. B. Cartografias do desejo. Micropolítica. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. Mas. 1984. GUATTARI e de G. pesquisas e intervenções. difundiram-se os pensamentos de F. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. 1986. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. à instituição de formação e à de pesquisa. Regina D. 1992.). o “pensamento institucionalista”. 1987. em São Paulo. C. bem como na entrada. Análise institucional no Brasil. de obras desses autores. já toma contornos bastante diferenciados. 22p. 327p. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. Rio de Janeiro: Vozes. 175p. desembocando em algumas traduções e publicações.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

. Limitamo-nos entretanto. em uma determinada situação.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. os princípios e as modalidades de sua intervenção. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. finalmente. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. Mas creio.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. Por mais banais que sejam. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. o status e a posição social. em primeiro lugar. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. a interação entre essas variáveis. mais ou menos livremente.P. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . c. aqui.as condições gerais que engendram.I.R. de variáveis como: a. a algumas observações. b. a natureza do “saber-fazer”. as dificuldades sentidas por um ator social. implicando opções e esforços de imaginação e que. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. além dos desejos de terceiros.a formação. principalmente.

quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. da conjuntura.). inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. Nesse contexto. nos mesmos organismos3). o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. de reeducação. do recrutamento de pessoal. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. inflação. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. de estruturas de direção. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. Na Sorbonne. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. suas aplicações no domínio da economia. da formação em habilitações. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. estabelecidos na capital. missões de produtividade. pelo problema da reconstrução. entre 1945 e 1959. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. Muitos dentre nós trabalharam. simultaneamente. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. em períodos diferentes. de gestão. então. comportava. evidentemente. ênfase a métodos estatísticos.. econômica e social. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. a busca de participação. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. do 172 .Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. o funcionalismo etc. o Marxismo. O período imediatamente após-guerra foi dominado. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional.

estudos de mercado –. separam-se em duas tendências. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. desenvolvendo uma abordagem mais global. onde milito durante esse período. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. o movimento que iria ser denominado “institucional”. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. o movimento trotskista. Em relação a esse último ponto. em seguida. pela Dunod). guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. a partir de 1952. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. nessa época. em 1961. André BRETON. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. a partir dos anos 40. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. lembremos. é o momento também no qual G. por exemplo. pouco conhecidas na França. as obras de G. então. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . na França. da demografia. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. MORENO e depois ROGERS). no plano das práticas. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. especialmente. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. se as tentativas de Reich são. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. da gestão etc.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. a relação crítica e complexa que G.

como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?).O. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. a C. Entretanto. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. servem. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. Perret. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial.E. dirigido por C. em 1947-1948. desde sua origem. Entre essas últimas. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. WILLIAMS. R. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. CASTORIADIS4 e Cl. em 1949. em função do problema da burocracia operária. sobre a “moral” da empresa. na relação que elas estabelecem com o cliente. LEFORT. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo.5 retém. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. separa-se da IVa Internacional. Igualmente um outro. Antes de sua volta aos Estados Unidos. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica).Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. com o restante do relatório.S. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. durante a ocupação. 174 .G. um dos colaboradores dessa equipe. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. mas elas permanecem muito próximas. no qual se encontra B.

de início. porém. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. depois eventualmente coletivas –. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. 175 . sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. em empresas maiores. e eles devem ter acesso aos resultados. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. parece cada vez mais interessante.W. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. apoiando-se nos resultados.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). junto a pessoal assalariado de uma empresa. Da mesma forma. Ao contrário. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. passando pelas reformulações européias do T. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. em última análise. as que são conduzidas por equipes francesas. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. se abrem a uma abordagem mais clínica. da mesma forma que a direção. elas colocam.I. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa.

induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. ou aos que decidem – Direção Geral. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. as relações intercategorias e as microculturas da organização. algumas vezes antigos. Enfim. as crises. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. grupos de mais velhos. ele se pergunta se os bloqueios. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. a se expressarem. Direção de Pessoal –. cujos conflitos. e essa não sendo a conseqüência menos importante. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . higiene. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. sua natureza real. as disfunções.). segurança etc. de pagar o preço por sua solução.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. absenteísmo. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. um objeto de trabalho. e tenta inventar. Em outros termos. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. modos de remuneração. Por outro lado. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. Ajudando todas as pessoas. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. para uma orientação mais clínica. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. que fala sobre seu campo e suas intervenções. pelos sentimentos coletivos. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. pirâmide de idade. turn-over. feita pelos encarregados da pesquisa. no interior desse quadro de atitudes. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. Ele faz da relação de consulta um problema em si.

177 . a idéia de que a intervenção. de fato. ele crê que. Nessa perspectiva. isto é. gestão ou organização. à medida que esses são identificados. mesmo desejando o contrário. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. em especial dos inconscientes. os processos de preparação e tomada de decisões. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. permitindo a expressão do reprimido. de perceber direções de solução. Porém. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. ele exerce uma pressão que. ajuda as categorias vítimas da repressão. além dos arranjos menores concedidos. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. acaba totalmente reforçada. ele próprio contribui. sem dúvida. sem dar conselho. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. de fato. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. se aceita. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. mais tarde. os sistemas de comunicação na empresa. do especialista em uma técnica de produção. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. isto é. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. mesmo nesse caso. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção.

. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. a 178 .P. das formas de autoridade. Tenho a impressão de que. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. O caráter clínico do novo grupo. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. (1959). ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa.R. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. nessa época. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. mais do que acelerar tal processo. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas.I. mas também em uma transformação cultural profunda. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. os limites das ações de intervenção. em uma empresa nacional. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. então. A outra continuava a realizar. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. Os anos sessenta No momento de criação da A. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. do psicodrama analítico etc. Da mesma forma. No momento da criação.

A organização e a condução de seminários representa. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. durante todo esse período. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar.-C. e ainda agora. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). neles. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. até 1966 (marcado pela vinda de C.I.P. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. ou iria finalmente se tornar. HERBERT. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. nesses. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L.7 Paralelamente. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. se podemos dizê-lo.R. do sócio-técnico e mesmo do econômico. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. reunindo às vezes toda a equipe. dominou os primeiros anos de funcionamento. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. de inspiração rogeriana. ROUCHY). algumas vezes mesmo de introdução à economia. a metade já era. terapeutas ou analistas. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade.).6 No começo dos anos sessenta. atuando diretamente no campo. dez anos depois. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. uma longa intervenção em uma empresa implanta. a continuidade no tempo. outras vezes apenas três psicossociólogos. de metodologia psicossocial. era de um terço. grupos abertos de análise etc. a metade das atividades da A. a proporção era aproximadamente de nove décimos. A orientação não diretiva. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. de sociologia das organizações. de formação de adultos. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático).

na equipe. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. por volta de 1965. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. é uma intervenção no México. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. desenvolvimento organizacional). de atendentes. Ao mesmo tempo. Mas creio que é necessário evocar também.). de psiquiatras e de psicoterapeutas. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. de maneira ainda mais geral. durante vários anos.P. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. para explicá-lo. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro.I. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa.R. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). 180 . mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. de trabalhadores sociais.F. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada.N.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. a integração. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. a guerra da Algéria. em 1961. Psicossociologia e Política etc. a demanda se estende a associações. É sobretudo na França. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. de padres e religiosos. então. as condições ideológicas próprias da França. diversos membros da A. em Paris. junto a organizações com função econômica. por exemplo.E. Entretanto. movimentos educativos. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. junto a um Centro de Produtividade. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue.

I. não desembocou no político.O. ao considerarem suas relações e vida psicológica. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. uma direção susceptível de provocar. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. mesmo que modesta.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . como muitos outros. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. dentro de certo prazo.elaboração de projetos de pesquisa-ação. nas ações de movimentos como a F.N.R. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. Embora alguns dentre nós víssemos. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. centrando-se na evolução das pessoas. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação.E. trabalhava desde 1964. por parte da instituição. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula.E. uma evolução global do sistema educativo. de uma audácia espantosa. o período que se seguiu a maio mostra.10 . Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). ao contrário. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. como o fazem os indivíduos ou os grupos. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. simultaneamente política e cultural. com os quais a A. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e.P. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural.V. As instituições não se analisam. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. .. que dava uma direção totalmente imprevista.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. através do desenvolvimento de ações locais. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. antes de 68. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. por exemplo.

a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. Esse último aspecto leva à questão mais geral. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. devendo ser afastado ou suspenso. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. benefício a mais). ou “indutor de mudança”. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. até o começo dos anos 60. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora.nos anos que se seguem à Liberação e. ou melhor. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . a “socioanálise” ilustra. sob a influência do pensamento psicanalítico. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. sem dúvida. “agente de mudança”. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. quando as referências à pedagogia ativa. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. progressivamente. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. mas também de seu objeto de trabalho. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. Como o mostra André LÉVY. no plano das idéias. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos.11 Estudando (por três vezes: 1963. afastando-se dela em seguida. ele deve ser buscado em outro nível. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica.A partir dos anos 60. 1967. parece-me que. em especial lacaniano. na prática. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963).12 . relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. 182 . tal opção. no último período. bem problemático. no campo social. . mesmo quando. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. O modelo do analista pareceu sempre.Porém.

uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. por exemplo. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. e. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. na referência ao próprio lugar ocupado. por exemplo. Se ele se encontra em uma posição menos central. com todos os riscos que isso comporta. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. a esse respeito. no campo. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. presente nele. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. é certamente oposta à acepção lewiniana. ou que se tenta ocupar. Toda intervenção psicossociológica. Simetricamente. A expressão pesquisa-ação. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. cedendo a pressões de que se é objeto. porque ocupa. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. tendo em vista sua própria história. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. pertencente ao campo estudado. sobretudo. nunca é independente. lugar onde se está. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. nem a se considerar parte da ação. como pesquisador ou consultor social. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio.

1969. 1304.. e de A.. “Une intervention psychosociologique”. 17.. Droz.-março. Gallimard. Connexions. Paris: Epi. contra. LÉVY. Épi. 9 Cf. 12 Cf. Psychosociologies. J. In: Fondation Royaumont. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. a partida de Max PAGES. jan. André. n. 1331. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. Intervention et changement dans l’entreprise.). nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. 1980. 857. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. 825. p. 11 Cf. sobre esse último ponto. “L’Analyse social”. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. seu vice-presidente. Paris: Dunod. sobre. de 1955). L’intervention institutionnelle.O. LACAN. 2 3 184 .”. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. Ecrits (por exemplo. 1971. 5 Compagnie Générale d’Organisation. n.G. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. 1972. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. 1332 etc. 1972. ROUCHY em Connexions. 50-68. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). 1963. 1980. 4 Cf.P. Continuando. In: ARDOINO et al. secretário geral da associação. 13 Les Mots. quatro anos depois. “Dire la loi. Paris: Payot. Sociologie du Travail. 1977. por exemplo o artigo de J. 10 Cf. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. responder a essa questão. o capítulo “Variantes de la cure-type”. 1978. 29 de Connexions. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. por Marília Novais da Mata Machado. 2.-C. 1967. 1303. Connexions. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. A C. 8 Cf.O. André. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. n. Le psychosociologue dans la cité. de PERETTI. la Mort. não se pode. com universitários como Georges FRIEDMANN. les Sorts.T.) e dos de Cl. desde sua criação. presidido por Jean STOETZEL e. 806. de forma mais livre.S. n. Jean-Claude ROUCHY. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. Jean e LÉVY. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. 7 Max PAGÈS. 3.E.F. evidentemente. mais recentemente. n.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. ou mesmo depois de terminar.

No que me diz respeito. através das contradições de suas condutas profissionais. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. mesmo que artificial. esses ainda são muito relativos. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. Esclarecer sua posição em relação às situações. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. além disso. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. Porém. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. 185 . Porém. bem ou mal resolvidos. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. quando é apenas verbal. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. Parafraseando HEGEL. entretanto. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. Tal afirmação. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. sobredeterminado por uma profunda lógica. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. permitindo esclarecimentos progressivos. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. à crença em sua positividade fundamental e. porém. tem qualquer coisa de suspeita. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. há muito tempo.

visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. Ela repousa. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. ainda hoje. ela é. diferentemente lúcida. ela desconhece 186 . sem dúvida. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS.6 por esse rótulo. junto aos grupos envolvidos. científica. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. Durante muito tempo e. reciprocamente. fundamentalmente. leva-me. com freqüência. face a face. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. diretamente. dizem respeito. As tomadas de consciência. Toda a minha experiência. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. em relações diretas. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. no mínimo. ou mesmo a um nihilismo. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. a reconhecer.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. desapaixonada. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. longe de chegar a um ceticismo. cada vez mais claramente. mais lúcida ou. ao contrário. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. instituindo. As práticas de intervenção. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. na França. diferentemente das ações de formação e de pesquisa.

cuidando. visto como ligado demais ao responsável comercial. que adotava aproximadamente esse modelo. é apenas um simples instrumento ideológico. melhor coordenação administrativa. de forma alguma. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. esclarecimento das funções. por sua vez. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. considerado como um diagnóstico e. então. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. A reunião desses diferentes objetos na análise. seu amigo. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. com vistas a decisões e ações. que. com efeito. os problemas atuais da empresa. Porém. mas. de um lado. quase narrativa. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. 187 . implicitamente. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. sobretudo. em determinado momento.7 A última intervenção da qual participei. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. Tal metodologia induz. De toda forma é surpreendente que. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. de quem dependia bastante.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. supõe. isto é. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. de outro lado. caso contrário. data de 1972. de uma forma histórica. uma única vez.

e de passar assim. A pesquisa havia fortificado essa esperança. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. porém situados no mesmo plano. inevitavelmente. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. expondo cada um com a mesma objetividade. particularmente por meio de nosso relatório oral. sem dificuldade. em outras palavras. e sobretudo. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. sobretudo. Em outras palavras. traduzia também. complementares. e. então. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. mas potencialmente articuláveis entre si. um de cada vez. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. reconstituído graças a nossos cuidados. como se esperava de nós. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. a coexistência desses diferentes discursos. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. A perda da esperança acarretou. à medida que cada discurso. de um a outro. para apreender a “realidade”. organizacional). no limite. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. ideológico-afetiva. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem.

em discursos que as pessoas expressam. legitimamente. não aceitamos seus pressupostos. Longe de favorecer um processo de análise. articulá-las. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. a partir de diversos “pontos de vista”. desconectados das condutas e estratégias. o “real”. ao contrário. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. perceber o quanto a prática da pesquisa. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. embora imperfeitamente. sabemos. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. em contrapartida. a pesquisa contribui. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. para o recalque: primeiramente. no mínimo. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. constrangidos. reduzidas a enunciados fechados. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. assim. é a função das representações. o levantamento de dados. qualquer que seja a maneira como é conduzida. Essa experiência possibilitou-nos. assim. 189 . ações ou decisões (saber para). isto é. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. Essa crença conduz.Intervenção como processo (subjetiva demais. excessiva demais) e conservar. associa-se necessariamente à busca de um sentido. em seguida. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. Mas se aceitamos. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. desejaríamos. que não se reconhecem como um discurso. de uma explicação geral. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. então. escutada ou recusada.

no sentido pleno do termo. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. com efeito. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. se há um resultado do qual estou seguro. reciprocamente. moral ou corpórea. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. mas. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. Porém. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. essa só pode. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. 190 . de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. A não ser que se idealize o processo de análise social. sob forma falada ou atuada. sua posição de exterioridade é apenas relativa. então. pode ocorrer. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. na qual o imediatismo do risco é sensível. Só é possível. na qual uma resposta instantânea. ser feita em uma experiência de comunicação. então. instituídos. Os grupos face a face aparecem. na enunciação. independentemente das maneiras como se atualizam. se articulam e se transformam. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo.

no sentido preciso desse termo. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. ele se insere no mesmo sistema de alianças. do não agir. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. isso é apenas uma petição de princípios. pressões. Nas situações de intervenção. mas relações de transferência. corpo a corpo. grupo do outro. com a participação do analista-interventor. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. estratégias. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. por exemplo). cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. essas relações implicariam particularmente. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. material ou simbólica. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. isolados de toda historicidade. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. uma vez que. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. no próprio ato que o institui como analista. 191 . o respeito à regra de abstinência. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. por parte do analista. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. em função de uma “demanda”. das quais necessariamente é parte. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. desde o início. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar).

seu objeto. por antecipação. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. quanto para as relações internas. por exemplo. por meio de regras explícitas e implícitas. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. no mesmo ato. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. um serviço). O interventor pode. fragmentada. Um dos objetos de análise pode ser. tendo que tomar decisões e executá-las. ele elimina. do “aparelho psíquico grupal”. então. não unificada. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. isto é. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. fora da situação de análise. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. traduzia o desejo de tirar 192 . preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). assim.12 e a legitimar sua interpretação. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia.

a presença. pesquisaação etc. mas também para o gozo sexual ou estético. a não ser provisoriamente. a composição do grupo pode evoluir. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. a desmistificação de certas crenças. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. com efeito. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. paradoxal. observações. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. institui tal quadro. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. do trabalho de análise. de uma terapêutica localizada. como o fazem certos psicanalistas. Certamente. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. o que vale não só para a análise. por exemplo. ele entra em conluio com as resistências. que a emergência dos conflitos latentes. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. à medida em que o trabalho progride.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. especialmente do médico-chefe. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . essa modalidade se constituía. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. quando o interventor. numa colocação em ato do desejo. que continuaria submetido às regras administrativas. Não se pode escapar disso dizendo. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. as resistências internas na organização tendem. o abandono de tabus. Um dos resultados. Se isso é em parte verdadeiro. É por isso que. como. e o grupo de suas restrições externas. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. assim. merece ao menos uma explicação.). Nessa perspectiva. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica.

antes de tudo. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. Não é uma soma. do menos ao mais. Em um texto anterior. irredutíveis. então. as peças começam a circular. ou como o reconhecimento de clivagens internas. centrada nos problemas de produção racional. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. à incerteza. em face à eventualidade de uma ruptura. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. O novo que aparece não é. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . uma questão onde havia uma afirmação. uma certeza a mais. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. isto é. uma certeza a menos. a da organização científica do trabalho. no mínimo. inclusive nas pessoas. centrada no sistema de regras etc. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. a mudança representa para nós.. um acontecimento marcado pelo advento.. mas uma subtração. a da burocracia. ao desconhecido.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. Com efeito. do pior ao melhor. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. ao risco. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. toda teoria organizacional é relativa. um possível onde havia certeza. o acesso a uma história.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. de acordo com eixos orientados. um jogo mais livre se torna possível. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. conseqüentemente. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. com noções e representações úteis à ação. um novo pleno. Com efeito. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”.

com efeito. Assim. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. tenta explicar. desde 195 . mas em apreendêlas como discursos incompletos. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. o processo de análise não pode. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. então. são discursos destinados a legitimar. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. as ações e as divisões. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. com a finalidade de construir referências. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. hierarquizado. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. Nesse sentido. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. Nessa perspectiva. permanecem divididos os discursos de representação. para os outros e para si próprios. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). o que dá no mesmo. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. então. tendo sua própria pertinência. ordenado. Pareceu-nos. Entretanto. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. temporais. também ela. enfrentar e ocultar as contradições que vive.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. a análise não alcança objetivamente um real suposto.

pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. Para ilustrar o que precede. em especial. que deveria ser. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. talvez tivesse mesmo o inverso. por diversas vezes. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. pareceu-me simpática. mas a demanda. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. com interesse e prazer. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. Depois de uma breve hesitação. citarei o caso de uma intervenção muito breve. 196 . a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. ao contrário. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. como condição para aceitarem sua missão. em sua maior parte. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. era o sentimento de que não poderia. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. reificaria significados. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. destinadas a serem engavetadas. aceitei. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. endereçada agora a mim. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. aliás muito rapidamente. Esclarecemos. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. ela pretendia ser. A razão de minha determinação. Igualmente. Assim. isso não apenas não os inquietou mas. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Buscavam essencialmente um “técnico”. Embora eu tivesse trabalhado no passado. tanto quanto pude analisála. com pessoas pertencentes a esses meios. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. por sua vez. como ocorrera na assembléia anterior.

Como cheguei lá. de outro lado. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. e enfim. depois dos debates. Para isso. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. em relação à Comissão e. de um lado. pela Comissão) como um ponto de transição. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. vencimento dos prazos para decisões importantes). se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. Tratava-se então de um momento que. diversas sessões haviam sido previstas. o lugar deles. de fato. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. à noite. que não podia ser perdido. em seguida. era considerado por muitos (ou. Como já mostrei. uma Assembléia Geral extraordinária. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. pelo menos. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. Ela havia sido decidida no ano precedente. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. dois encontros no local da Assembléia Geral. cuja forma seria definida? 197 . na história da Comunidade. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. atendendo expressamente à sua demanda.

Espantei-me. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. eu próprio me sentia um estranho. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. esquivando-se dos conflitos e divergências. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. tomei conhecimento. Nessa ocasião. Apoiando-me no contrato que havíamos feito.R. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. as regras às quais se submetiam etc. a fim de levantar suas opiniões.P. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. O fato de que eu estava lá como um profissional.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. as relações entre elas. Eu era calorosamente acolhido. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos.). talvez também meu próprio sobrenome judaico. com a ajuda deles. Parecia-me. como um estranho mas não como um intruso. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas.I. de sair de um estilo de relações muito corteses. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. com amizade e com confiança. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. os textos definindo seu funcionamento. então. 198 . ao mesmo tempo. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. evitando toda aspereza. então. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. tendo em vista a Assembléia Geral. sem implicação com o grupo.

com bastante veemência. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. em nome de valores democráticos.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. periodicamente. em última análise. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. ao contrário. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. que eles deveriam. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. mas representavam também. O papel que tinham era não apenas técnico. com relativa facilidade. então. sem dúvida. declarei-lhes: 1. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. 2.Intervenção como processo No nível do conteúdo. assim. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. seu papel de porta-vozes puros. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . sem deixar de observar. Pareceu-me. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. demonstrei que.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. entretanto. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. a meu ponto de vista. pelas vontades expressas pela “base”. para a escolha dos temas que seriam então tratados. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. observei. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. Eles aderiram.

com o conhecimento e o acordo da Comunidade).Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. sem implicar posições táticas e políticas. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. Com efeito. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. eventualmente. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. No limite. ao contrário. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. Caso eu participasse da Assembléia Geral. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). com alguma hesitação). o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. Paradoxalmente. seria necessariamente confundido com a Comissão. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos.

R. membro da A. formalmente. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. isto é. a partir dessas diferenças em status 201 . ligado à Comissão.I. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. b.Intervenção como processo como observador. sem direito à palavra. mas no calor da discussão. entre nós e os membros da Comissão. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. c.quanto a mim.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. mas também de escolha de orientação política. Assim. através de minha inesperada implicação afetiva. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. até a eleição do próximo Conselho. uns em relação aos outros. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. nossa posição profissional e inserção institucional. durante um vazio de poder). ficou claro que: a. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente.P.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. durante o primeiro dia de trabalho.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. judeu) tinham para eles. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). não em trocas prévias. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. existente no real. Certamente. Deveria representar um tempo de análise coletiva.. sobretudo.

por sua vez. nossa alteridade. e sobre o que pôde ser produzido.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. em conseqüência. não se produz. como terceiro. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. relatórios de reuniões. assim. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. 202 . Esse efeito de sentido. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. às instituições ou às atividades). sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). como membros dessas comunidades regionais. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. particularmente. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. da importância atribuída às pessoas. o desenvolvimento de um certo trabalho. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. entre a Comissão e o Conselho. por exemplo. a partir desse primeiro dia. entre as comunidades regionais. Tudo isso. era “relativa”. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. a partir desses documentos. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. entre outros escalões – e. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. Foi preciso. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. lutar para tornar o trabalho mais lento. entretanto. Nesse sentido. destinados a serem comunicados à Comunidade. Na sua maior parte.

aparentemente menores. ou ainda. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. No curso desse processo. as questões a serem submetidas a voto etc. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. da idade. em contrapartida. refletindo situações particulares diferentes. seja o conjunto de atividades –.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. sobre palavras fetiches. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. 203 ..). a definição da pauta dos diferentes dias. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. na Assembléia Geral. sem dar muita importância. carregadas de subentendidos (por exemplo. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”).. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. em seguida.. por meio desse trabalho preparatório e. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. ou mesmo.”). as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. algumas vezes. seja a coabitação em um mesmo lugar. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. da segurança. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas.. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. segundo os quais as definições da Comunidade.Intervenção como processo considerando questões particulares. assim.

na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. isto é. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. criar uma situação nova. Para concluir. ela constitui uma terapêutica dessa última. facilitando a escolha de futuras estratégias. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. melhorar seu funcionamento. ao contrário. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. permitindo-lhe aumentar sua força. de outro. de comum acordo. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . de um lado. de um lado. de outro. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. reflexivo e crítico. a-organizacional? Bem entendido. o “serviço concreto do Homem”). visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. quando aplicado a um processo de intervenção. fazer uma sondagem. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. Nessa perspectiva. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo.

essas afirmações estão longe de serem verificadas. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. conseqüentemente. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. uma colocada a serviço da outra. “quanto mais houver saber. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. a ação de outro. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. Ora. necessariamente. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. com precisão. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. Com efeito. ela também não é.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. em uma modificação das relações de poder. Em um trabalho anterior. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. isto é. uma dose de desconhecimento. uma afirmação da identidade desses dois processos. como alguns às vezes pretenderam. mais a ação é eficaz e pertinente”. ela implica. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. senão de cegueira. 205 . como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. antes. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. longe de terem um valor geral ou intransitivo. melhor se fica”. ao contrário. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. tivemos a oportunidade de demonstrar. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. Assim.

um sistema de ação. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. entre o que pode ou não ser escutado. em um processo de escrita. 206 . entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. como experiência. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. uma escola). O saber. em uma organização ou em uma sociedade. sobre seu passado.19 Por isso. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. implica todo um trabalho sobre si. mas como um processo. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. Com efeito. a mais simbolizável. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. Assim. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. os transforma. com o mundo. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. tratando dos processos de pesquisa. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. por exemplo. é a parte que permite trocas e manipulações. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível.

O termo requer então as noções de lugar e de tempo. o desejo de tudo compreender e. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). clivagens e limites. já foi evocada anteriormente. o desejo de tudo controlar. contabilizável ou informática. que. a necessidade de dividir. Esse golpe de força. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. que não exclui nem dúvida nem incerteza. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. visam a introduzir. ao mesmo tempo. em uma negação do inconsciente. de limitar. 207 . Daí o hiato persistente entre. essa. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. é precisamente a impossibilidade. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. no nível do pensamento. de um lado. especialmente do desejo de onipotência. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. por exemplo. de uma racionalidade criadora. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. de separar. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. De alguma forma. dito de outra forma. é a condição de toda vida social. espiritual ou mesmo afetiva. As regras dividem e separam. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. de toda construção material. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. O processo organizacional funda-se. assim. que pretenderia circundar o sentido. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. mas. para essas representações – esses discursos de representações –. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. para perdurar. de realizarem sua meta de dar sentido. ao contrário.Intervenção como processo Tal concepção de organização. de outro. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização.

ela se choca assim. L’intervention institutionnelle. L’Analyse social. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. sobretudo. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. 69-100. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. Jean e LÉVY. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. 2 208 . Respondendo a uma demanda de palavra. a se desenvolver. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. mantendo vivo o passado. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. de ignorar as implicações dessa inversão. até então bloqueada ou proibida. fazendo isso. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. então. André. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. ao menos. In: ARDOINO et al. p. I/1980. por Marília Novais da Mata Machado. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. quanto da análise que a torna possível. assim. Porém.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. 29. 1980. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. uma palavra continua. é importante. em seu primeiro esforço. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. Dessa forma. Connexions. Paris: Payot. ou. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce.

KAES. de P. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. 1980. Connexions. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. 7. “L’interprétation de discours”. Gallimard. Sociologie du Travail.. “Dire la loi.3 4 5 Inspirado em G. em Topique. 21. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Paris: Payot. Connexions. Por exemplo: Max PAGES. I/1980. Seuil. inédita. introduzido por R. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. também “Le pouvoir et la mort”. “Dire la loi. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. Cf. de E. “L’Analyse social”. Connexions. Connexions. S. Como toda análise de conteúdo. LEGENDRE. Connexions. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. Nesse exemplo. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. Segundo o Petit Robert. Jean e LÉVY. “Sens et crise du sens dans les organisations”. 49-68. LAPASSADE. pp. André. op. Connexions. 21. Les Mots. LÉVY. ENRIQUEZ. 29.. Traduzido de: DUBOST. la Mort. trabalhando com a própria contratransferência. cit. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. 196l.. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. FREUD. In: ARDOINO et al. FAVRET-SAADA. Esse conceito. L’amour du censeur. Cf. CROZIER. Mal-estar na civilização. cf. Thèse d’Etat. L’intervention institutionnelle.”. “Le changement comme travail”. 1978. Paris: Seuil. “L’acteur et le système”. postula dois aparelhos psíquicos distintos.. um individual e outro grupal.”. Cf. Em termos mais sofisticados. les Sorts de J.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. uma dúvida me invade. 2. mais precisamente. ou. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. e mais violentamente. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. e. ainda. Entretanto. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. o procedimento de exclusão do real e.O que ocorre de essencial no ato formador.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. há casas para ela). Por isso.E também o que é o próprio sentido desse movimento. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Dizendo o mesmo com outras palavras. de toda atividade de formação. como a maior parte das indagações a respeito da formação. as práticas de formação. isto é. Esse número de revista testemunha bem o fato. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. nesse breve artigo. de forma concisa e injusta (mas. sem dúvida.

cada um à sua maneira. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. todo crescimento no domínio das informações. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. Certamente. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. O problema é unicamente operatório. ainda mais. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. então. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. advindo a necessidade. de investimento pensado. 2. Trata-se. Toda formação. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. então. a formação permanente torna-se indispensável. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. a todo momento. sua vontade e sua imaginação. o progresso dos conhecimentos. situando a prática que buscamos promover. Assim. 3.a dos sociólogos críticos. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. de outro. resistências. a fim de poder seguir as mudanças e. de reciclagem e. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. um efeito positivo para o formado. temores do formado e condicionamentos sociais. de tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. para um sistema onde. de um lado. de paciência. para desejá-las e provocá-las. mas também têm. toda aprendizagem de técnicas teria.a dos psicólogos. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados.a dos formadores e educadores. Orienta-se (e não apenas na China. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. 212 .

Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. portanto. que se torna assim excluído). cartesiano. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. sem sonho nem loucura”. na transformação e ele é. o do primitivo e. que a libido é turbulenta. ao umbigo dos sonhos. inesgotável. ele se revela na ação. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. do cálculo. através da ordem. o do outro. os blocos erráticos. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. hoje. além de toda interpretação. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. O real não está lá.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. que as causas determinantes não existem.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). as brechas repentinas. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. da medida. mestre das leis e da morte. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. além de anularem toda diferença e toda dispersão. sem paixão. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. sempre a serem melhoradas. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. que o homem está sempre por nascer. que as reconstituições são parciais. obtido apenas 213 . o real é o que escapa a toda definição. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem.3 referindo-se ao racional e ao controle. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. estritamente falando. é o que excede toda análise. da mesma forma. o do louco. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. Ora. O comportamento adulto é o comportamento refletido.

as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. Temos de um lado o conhecimento. as variações de temperatura. Ora. falando dos signos da 214 . Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). de hábito.5 Certamente. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. como diziam os alquimistas. do que tranqüiliza. 2. por isso. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. Como viver o desejo do pleno. como uma água calma. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. De outro lado. as provas de sua impossibilidade. Aliás. pois ele não pode sê-lo. a cada dia. a angústia de se perder no turbilhão de questões.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. imagens protetoras. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. se for atravessado pela ideologia do senhor. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. então. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social.4 isto é. o confronto com a finitude. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. Quando houver apenas Eus fortes.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. desenvolvendo-se progressivamente. a alegria da certeza e. do questionamento do saber obtido. não se trata aqui de uma simples metáfora. a humanidade estará. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. o seu contrário. E nunca esse programa foi mantido. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. ao mesmo tempo. a energia que se desprende. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. temos a bola de fogo. a opacidade.

Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. 2.. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. a despeito de suas diferenças. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas.Quanto ao segundo princípio. Os tecnocratas. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros.6 Ora. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram.. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. os psiquiatras aliados do poder. Igualmente. Conclusão: o que permanece são as certezas. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. Então. mas uma relação angustiada com o saber. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 .

então. ao qual muitos poderiam se subscrever. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. a mulher. Horizonte grande e enaltecedor. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. algumas vezes. É talvez por essa razão que. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. em um congresso de chefes de empresa. liberação corporal e sexual. ter um outro modo de relação com os outros. tendo recebido um certo tipo de educação. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. grupos de encontro. há alguns anos. impacto social menor (estamos. é que a pessoa. o cachorro ou com o estrangeiro que. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. Acrescentemos que. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. além do mais. o homem. Um importante dirigente internacional não dizia. que relações de poder ele pressupõe. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. esses mesmos estágios. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). com seu corpo e com seus desejos. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. mas de peso. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. não existe. aliás. é preciso. mas porque apresenta.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. assim como as experiências de bio-energética. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. gestalt-terapia. no qual se inscreve toda 216 . alienada na sociedade contemporânea. no momento.

LECLAIRE: Quando. durante um tempo determinado. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. num momento de estado de graça. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. não temos nada a dizer. que sofre e que ama. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. em técnicas e em posturas. a seu cheiro. à sua voz. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. por que falo dessa maneira. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Mas. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. Então. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. Em contrapartida. que podem ser atuados. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. que desejos elas retomam ou reprimem?. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. de uma luz na qual me banho. Entretanto. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. Como escreve S. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. por quem e por que sou falado. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. que instituições me sustentam. como tais. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. eles não se explicam. Sua beleza desencadeia esse prodígio. justamente. complementares ou antagônicos.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. que dá a cada parte de seu corpo. alguma coisa explode em mim. renasço. feito de uma explosão que me fascina. mesmo nesse último caso. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Trata-se unicamente de relações faladas e. Não se aprende o amor. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. testados no mundo. a quem falo. então.

Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. ao mesmo tempo. onde tudo era diferente. super-ativo. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). O lento trabalho do negativo. os tabus. e ele é um bom juiz. do aumento do grau de irrealidade da situação. analisando com toda a sua força. pelo menos. Uma vez de volta às suas instituições. como os weekends e as maratonas. questionará as instituições. Outro deixará se levar por suas emoções. única fonte de mudança. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. seu rigor. chorará (o próprio ROGERS. Eles. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. Mas o psicólogo está lá para as acossar. declarará sua paixão por uma estagiária. Mas. as proibições. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. no medo e tremor. certificando-se de que nada lhe escapa. o fazer ao dizer. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. tomar o lugar do líder. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). não pode ser feito. assim. vai querer se fazer amar por todos. as fantasias invasoras. definido como um lugar no qual se deve comunicar.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. ou. os choros e os gritos de alegria. tomar o grupo em seus desejos. essa explosão. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. arriscam tudo e nada arriscam. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. E talvez. pois as palavras trocadas. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. então. Ei-lo. estará pronto a largar mulher e filhos. as manifestações sem seqüências. a não ser que queiram ou possam. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. embora plenas. mostrando assim sua potência. o tempo ao momento. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). para que entrem em uma relação de transferência. esse irromper não ocorrerá. favorecendo os processos regressivos. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. na maior parte do tempo. para fazê-las sair de suas tocas. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). fazer triunfarem suas fantasias. não se entregam. um ato-falho. não porá nada em movimento. os mais narcíseos) podem. Ficará apenas a lembrança de um momento único. as transferências maciças. irromperá um lapso. esses discursos. seu “saber-fazer”. de tempos em tempos. a fim de viverem sentimentos intensos.

eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). Sem dúvida. A mensagem dada. Afinal. ele é chocante e desesperante. divulgá-la nas massas dominadas e. é essa troca de palavra. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. é a capacidade inventiva dos participantes. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. em sua aridez. então? Vemos que o que é dito é.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. ou atento e vivido como o dos psicólogos. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. é esse turbilhão do amor e da morte. DELEUZE e GUATTARI). assim. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. na formação. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. Além disso. mas científico. exato e periférico (não tocando no essencial). a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. como muito bem o diz J. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. Mas. simultaneamente. é o veículo privilegiado da dominação social. FOUCAULT). O único senão é que.-B. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. Igualmente. Quanto a seu conteúdo. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. PONTALIS. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. aquele que dita a norma (M. para expressá-las ou mesmo provocá-las. o que é essencial é o que se passa no campo formador. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. em muitos aspectos. seus métodos. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. Toda formação (qualquer que seja seu programa.

mesmo se. não de uma formação (a rigor. ao mesmo tempo. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. profissionalmente e socialmente se mexam. 220 . não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. em filigrana. os movimentos sociais emergentes. ela não chega a ser totalmente dominante. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. isto é. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. em uma palavra. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). depois de tê-los escutado. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. nas Questões propostas. isto é. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. de um trabalho de mudança. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. o que não se pode esperar dela. explicável por um único tipo de lei. Seus enunciados são tão gerais. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. tão sistemáticos. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. que só nos resta. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. a vida.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. se ela o fosse. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. o que ela esconde em seu próprio movimento. tenha sido possível ler. de um processo. a transformação das relações sociais. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. homogêneo.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. justamente. de constatação aguda e de desmobilização geral. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa.

um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. indicando. um encadeamento de Questões. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. ele oferece não um saber. um jogo de luz sobre certos pontos que. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. aliás. provocando a vontade de respirar. Por meio dessa ausência-presença. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). Ele está lá simplesmente como uma referência. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. suas idas e vindas. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. desse lugar desocupado e fugidio. suas interrogações e também suas paixões. mas uma problemática. assim. fazem surgir formas da sombra. ele deveria se calar?). políticas. suas descobertas e suas resistências. na situação. em suas diferentes dimensões: culturais. mas. mas sua relação com o saber. organizacionais. através dessa ausência. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. a criação de negentropia (isto é. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. Quando ele intervém. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. ele não é o portador do sucesso da experiência. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. 221 . resvalando. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. por isso mesmo. seus entusiasmos. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. dessa desordem-ordem. uma movimentação de energias. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. as correntes de informação. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. Ausente. suas falhas. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. Ele está lá vivendo. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem.

Como interpretar tal situação. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. Ora. Um outro participante manifestava. No caso contrário. uma atitude de deferência e de sedução. um dos membros do grupo era particularmente escutado. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. Não são pessoas ou seres desencarnados. o resto do grupo o seguiu em bloco. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. os conflitos não têm mais espessura social. as diferenças são apagadas. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. a resistência se deslocou.). as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. tal funcionamento é profundamente mistificador. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. de suas relações afetivas. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. com relação a esse personagem. 222 . Por isso o trabalho do grupo será centrado. para não falar de sua situação econômica. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. praticamente nunca era contradito e. tomando certos caminhos e não outros. de seus corpos e. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. entre cem. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. hoje. vivem em organizações específicas. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. projetos sociais. a relação com o saber é suspensa no vazio. formadores etc. não há muito tempo. tendo um passado. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. Um exemplo. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência).

O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. é aberto sobre o mundo exterior ou. conduta e gesto. mais exatamente. de breve duração. imaginário instituinte.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. de suas tentativas. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. Em cada sessão. aprofundadas. não há mais dicotomia entre ato e palavra. fecundarão novas atitudes. imaginam soluções. a imersão na vida aqui e agora. experimentaram. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. confrontadas. o foco em relações afetivas imediatas. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. outras palavras sociais. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. outros atos sociais. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. um ou dois anos). menos tal processo pode ocorrer. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. ação real e ideologia. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. É por isso que somos partidários de estágios longos. intensivo. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. O lugar fechado. realizaram. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. A partir do momento em que o desejo circula. Não estão lá como pura presença. lugar de análise. retomadas. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. de seus sucessos. fazem propostas. mas como portadores de suas angústias. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. os participantes falam do que fizeram. construíram ou destruíram em seu meio real. a 223 .

viva paixões. reencontra muitos obstáculos ou. mesmo se ela pode se tornar criativa. impossibilidades totais. a periodicidade desses momentos. Momentos de mutismo e de temor. Não nos enganemos entretanto. de necessidade de alimento. algumas vezes. ser protegidos. expressão gráfica etc. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. com o saber) são descentradas. talvez. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. ter efeitos. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. todos juntos. Resistência vinda de indivíduos em formação. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. depois de terem liquidado 224 . O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. possa. Essa experiência da heterogeneidade. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. naturalmente. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. falar. em questão visar à dissolução pela dissolução. do excesso... ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. do gozo). do fogo e mesmo do caos. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. a precluir certos registros (da paixão. então. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. que o amor inexiste sem a experiência da morte. discursos ideológicos desenfreados. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. direito de atuarem. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. se interrogue sobre si mesmo. com o outro. uma angústia diante do desconhecido. mais dinâmicos. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. ter caminhos balizados. nesse processo que. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. a loucura e o sonho possam ter. de novo. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. Não está. por enquanto. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. ao contrário. momentos de embotamento. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. períodos de análise refletida. do saber alegre. Aqui. Trata-se. irrupções vulcânicas. a fim de que a energia livre.. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões.

tentar experimentar novas condutas. deliberadamente. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. é necessário que ele seja evocado. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. o espanto e o desprezo de seus colegas. sobretudo. o que ela não poderá jamais realizar. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. então. quando retornam às suas organizações. eles reencontram a inércia das estruturas. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. mas a confusão. E que. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. as numerosas escolas. Intervenção psicossociológica. Essa experiência da margem. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. Naturalmente. mesmo se os participantes podem. senão a violência simbólica da organização. para nós. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. naturalmente. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. seu possível devir Não está em questão aqui. avançando uma série de proposições. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. entre as sessões. Trata-se. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. a utopia e a inquietante finitude. Na intervenção. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. seu modo de existência.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. o que ela busca induzir. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. a dificuldade intransponível. provocar mudanças. Enfim. da intervenção. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. que deveria transformar o que está no centro. de trabalhar 225 . se transformará em um simples prestador de serviços. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser.

a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. como na formação. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. no processo de trabalho.) e que desejam resolvê-los. de definições de tarefas etc. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . A intervenção. consciente ou inconsciente. para se expressar. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). como submissos. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. na hierarquia interna. ao contrário. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. isto é. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. desordem nas salas. absenteísmo. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. A palavra reprimida. O que está presente não é. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. uma certa fissura no organograma da organização. então. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. mas. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. durante muito tempo. de melhoria de condições de trabalho. mas. uma situação irreal. além do mais.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. que têm problemas concretos (de decisões. existissem como executantes da máquina. desperdício. assim. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. antes de tudo. Essa recusa. numa primeira análise. impede de ver e de sentir outra coisa. Não por razões morais. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. recusa a alguns o próprio direito de falar. mais exatamente. toda a violência do cotidiano que. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou.

mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. entre si e o outro. Não se trata de sonhar por sonhar. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. a deixar seus desejos serem expressos. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. pai-filho ou ele-outros. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores.D.T. a aceitar sua parte de loucura. O que resulta. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. para que possa interrogar o oculto. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. ou que possa pensar de fora da fábrica. Mas. pensamento-execução.F. relações de poder e separações instituídas. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. progressivamente. então. transformador do mundo. Colocá-la em causa seria um salto mental. para que o olhar se desloque. Numa pesquisa efetuada pela C. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. pelas relações codificadas. que faz surgir um real além do real percebido. “ruídos”. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma.

uma nova forma de educação. pessoal de cozinha e de limpeza. O que significa. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. mas em uma maior fluidez. é o que permite a troca e a reciprocidade. onde a lei. a própria idéia 228 . ao se deslocarem. interrogados. fazem da criança também um educador. sem análise. promete apenas. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. imaginativo. além das crianças. isto é. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. Assim. metafórico. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. dessa ruidosa confusão. dessa maneira. ele exclui e. os psicólogos. decepção. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. que o surgimento do imaginário. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. sua cronologia e suas articulações. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. cada um se tornando. analógico. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. é lei retomada. pode sair a surpresa. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. Esses deslocamentos não desembocam na confusão.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. transformada e garantida por cada um. com seus argumentos e suas demonstrações. ator e analista social. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. o inesperado. no mínimo. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. a médio prazo. é necessário que os modos de pensamento. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. numa análise em ato da organização. os psiquiatras. igualmente. à sua maneira. ele classifica. subvertidos ou. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. outras formas de relação e outros modos de estruturação. então. os educadores chefes e especialistas. As posições. numa decodificação das relações. Ele distingue. ou. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. Aliás.

mas também da linguagem utilizada. já não indica que as relações de cumplicidade. sob certos aspectos. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. da ortografia necessária. dissimula. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. isto é. antes. na França. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. Não se trata apenas do modo de pensamento. Ora. isto é. como ele próprio o diz. da Psicanálise uma arte de construção. à língua (a parte social da linguagem) dominante. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. o roubo da língua espontânea. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. a língua. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. a invenção popular. então. Essa perspectiva não o impedirá. o homo demens no homo sapiens. para ser expressa ou reencontrada. Mas. pede que cada um pense e viva na contracorrente. Buscamos. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. A língua. Naturalmente. na realidade. submetem-se ao princípio do prazer. um elemento de mascaramento do sistema social. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. inversamente. Quando.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. é como o dinheiro. a verdadeira 229 . divertida. falarão. Assim. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. pelo contrário. de intimidade. atrás da imagem de falar bem. as “estórias de comadres”. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. do bom estilo. nas organizações. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. de fazer. isto é. da criatividade diária dos grupos sociais. Mas aí também sabemos que. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar.11 Queremos dizer que a verdade. por sua vez. As pessoas se submetem. colorida.

os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. Eis que chegou o tempo dos tradutores. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. Veja-se bem a dificuldade. mais exatamente. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. Há uma língua dominante.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. então. as frases que inventam. se dá conta disso. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). inventar um falar. para obrigá-los. confusamente. todo mundo. pois o 230 . reencontrar a língua perdida. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. A mesma coisa ocorre hoje. experimentar o seu calor. quando se escutam as palavras que eles utilizam. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. argumentada. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. pode-se constatar que eles se protegem. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. a partir do Século XVII. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . a dos tecnocratas. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. de modalidade de comando. reencontrar sua língua. precisa e cifrada. fazendo-os aprender a falar. em boa linguagem. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. que são os que podem traduzir. de seus mandamentos. dessa forma. Não apenas de autoridade. É por isso que atacar a língua dominante. do mundo adulto (e o atacam). Se. Aliás. mas de poder: da lei. mas o da dominação que ela instaura. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. fazê-la viver. para se protegerem dos outros atores sociais. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. antes de mais nada. Por isso. Mas os tradutores traem.

sua vontade instituinte e. colocar-se em questão. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. as resistências. Então. se uma demanda lhe foi feita. mas sim questionamento infinito. justamente. nunca é resposta a um problema (responder é controlar.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. ao contrário. agradece-se ao interventor. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. chocase violentamente com as estruturas. assim. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. os hábitos. De qualquer maneira. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. quem quer que seja (dono de empresa.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. ele lhes permitiu. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). então. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). introduzindo uma falha nos poderes constituídos. a intervenção pára. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. então. Mas. A intervenção. sendo. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. Assim. interminável. Entretanto. dentro de certos limites. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. com uma outra linguagem. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . mas. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. mas também quando o poder está em jogo. a se informarem. quer que ele seja reforçado. membros do comitê de empresa. nem renunciar a seu poder. quando estão no campo de análise não apenas as relações. as comunicações interpessoais e intergrupais. os estilos de autoridade. o interventor ultrapassou o limite. sendo inauguração de uma palavra nova. então.

através de ações. em contrapartida. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. colocando-se como um shaman ou um mártir. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. então. Ele não analisa sozinho. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). sendo alguém que incomoda. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. pólo de identificação ou bode expiatório. que. Porém. dispersões a se operarem. eus a se abalarem. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. não lhe cabe questionar os poderes. não os conduz em direção a nenhum resultado. mas favorece o desejo de mudança. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. se ela se coloca. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). Ele não transforma as estruturas. procedendo por deslocamentos e rodeios.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. é que. Ele não realiza nenhuma mudança. energias começaram a circular. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. 232 . das funções elucidativas. Quanto ao valor e à importância desse movimento. palavras a serem ditas. O que ele sabe bem. seu trabalho só pode ser lento. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. Pois. Também não se pode dizer que ele fracassou. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. que só poderá viver. é aos atores sociais reais. Não sabe pelos outros. os movimentos sociais.

ao contrário. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto.Em contraposição. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. então. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. inclinar-se à rigidez ou. mais nos aproximamos de um processo cumulativo.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2.A falta de formação dos interventores. desde o início. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. Suspeito por todos. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. sua posição nada tem de confortável. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. traidor em potencial.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Anteriormente. mas que ele deve saber. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. 4. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. Pode. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. Entretanto. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. agricultores tendo interesses em comum. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. 3.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. mais sua ação será limitada a certos grupos.

mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. 234 . quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. eles desabarão. em uma sociedade tecnocrática. então. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. um maior controle consciente. ser retomado. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. do desejo da alienação etc. Um dia. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. Aparentemente. a demanda acaba. o que nos parece mais importante. efetuado por eus fortes.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. eles se preparam para uma vocação de mártir. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. da mulher. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. comunicações melhores e. por seus gestos. que assim buscam empreender atos significativos. Quem quer conhecer a dúvida. Isso é compreensível. sobretudo.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. 2.Enfim. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. em um soberbo isolamento psicótico. não a desejam com freqüência para si mesmos. com outras relações. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. 3.

A. n. refoulemente et répression dans les organizations”. E. Le Seuil. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Na primeira meditação. M. Le paradigme perdu.-M. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. descritas. “Imaginaire social. 1972 (Imaginário social. Gallimard. eles disseram: “mas era apenas isso!”. caracterizadas. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. por Marília Novais da Mata Machado. 137-159. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . repentinamente. cf. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. C. Eugène. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. 13. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. MORIN. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. L’institution imaginaire de la société. “Points”. Segundo J.” Le sauvage et l’ordinateur. Seuil. ENRIQUEZ. Piera. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Connexions. Le Seuil. DOMENACH: “Para não ser destruído. Serge. FOUCAULT. no 3. Points. Cinco lições de Psicanálise. Les mots et les choses. 17. Cf. Paz e Terra). o Eu tudo destrói. On tue un enfant. FREUD. LECLAIRE. Le Seuil. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. 1977). 1974). Em Lip. Rio de Janeiro: Zahar. cujos signos. La nature humaine. Topique. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. essa abertura profunda na superfície das continuidades. p. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. 1976.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. não caem nesse erro. E. Pour la Sociologie. 1975 (Mata-se uma criança. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. TOURAINE. recalcamento e repressão em organizações. enunciadas. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. Epi. 1974. CASTORIADIS. do sonho e do gênio maligno. CASTORIADIS-AULAGNIER. Connexions.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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mas tomo iniciativas e faço propostas. meus conhecimentos e habilitações. sua participação no trabalho. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. parece importante aos solicitadores. não poder sê-lo. Caso um apelo seja feito a mim. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). em excesso. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. Ao mesmo tempo. que pode ser feito fora de um universo técnico. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. 242 . pode. dimensões ideológicas. a examinar princípios. além disso. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. firmemente. Ao mesmo tempo. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. sobre a maneira como se afastou do previsto. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. mas. Assim. algumas vezes. os fatores geradores do problema. isso se dá. abordando concomitantemente o sistema. também. hipóteses. mas pode. justamente. de preferência. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. numa dada situação concreta. os atores envolvidos. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. porém. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. perspectivas. a partir de um determinado momento. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. justamente. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. regras. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral.

em si mesmo. então. não apenas objeto de trabalho para os participantes. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. tolerando apenas uma gama restrita de variações. Porém. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. na determinação das técnicas. formas de autoridade. então. tolerância à diferenciação. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. rapidamente. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. os fenômenos de moda. tal vantagem deve ser abandonada. ecologia etc. então.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. em função do campo no qual elas aparecem. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. tentar. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. para tratá-lo.). É nessa perspectiva que é preciso. suas orientações teóricas. constituindo. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. Cada uma comporta pressupostos. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. um objeto de trabalho. O modo de estruturação do processo pode se tornar. os custos etc. tamanho. os recursos da equipe de consultores escolhidos. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. no final desse artigo. as funções externas almejadas pelos atores. 243 . a natureza dos objetos. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. Poderíamos. tornar mais inteligível. por exemplo. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. princípios estratégicos. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. Evocaremos. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. as propriedades do sistema (grau de centralização. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. a seguir.

estão as técnicas de pesquisa de campo que. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. a propensão dos práticos de intervenção. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. algumas vezes. Quanto às estratégias de pesquisa. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. Entre esses dois pólos. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. por exemplo. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. na maneira como J. COCH e FRENCH). GODIN. 244 . uma origem técnica importante. isso se passa sobretudo porque. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. nas de TOURAINE. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. Em seguida. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. Entretanto. B. em algumas práticas. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. Algumas vezes. de maneira bem menos acentuada. em especial. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. depois de LEWIN. de devolução aos participantes e de interação dos atores. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. parece-me. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. bem cedo. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. a observação participante. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. a partir da prática psicanalítica. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa.

Igualmente. atualmente. Em um campo bem diferente. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. há muito tempo. a identificar os problemas. produzindo dados válidos. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. Pode-se observar que. que. a natureza das resistências. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. pela encomenda de um estudo “Retrato”. quem escolherá as opções. como em outros lugares. a obra de G. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. é comum. é dessa maneira que elas se estruturam. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). em todos os casos. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. os limites desse modo 245 . a origem das disfunções. o significado das condutas etc. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. na França. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. Em todos os casos. no papel de especialistas. quem reterá as soluções etc. freqüentemente. Entretanto.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. por exemplo. a caracterizar melhor as situações. as razões dos bloqueios. ainda hoje. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. a escolher as variáveis de ação. a isolar os objetivos. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. no começo. nas próprias operações das fases de estudo). as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. quem conduzirá esse trabalho. a atuação dos conflitos. de fato.

Não se sabe mais o que fazer. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. denegação. Se muitas intervenções. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. ao menos. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. . de fato. um retrato eventualmente objetivo e fiel.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. com a apresentação dos resultados. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. cólera. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. conseguindo uma solução de síntese ou. 1980). a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). em especial. apresentaremos rapidamente três observações: . enterrá-lo. já citado. então. freqüentemente com espanto. caso se decida reiniciá-lo.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. de caráter mágico. do exterior. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. depressão etc. o inventário. sobretudo. a não ser esquecê-lo. desenvolve muito claramente esse aspecto. por exemplo. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. . o trabalho de recenseamento. são interrompidas. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . constróem. O texto de André LÉVY. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. por exemplo. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. escolhe-se. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. restaurando a coesão. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição.

parece-me. a perlaboração. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea.associar todos os parceiros envolvidos. como o próprio relatório. correspondentes a atuações mais modestas. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. De meu lado. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. com o trabalho sobre os resultados. em outras palavras. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. o debate. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. algumas vezes. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. eles me parecem. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. adiamentos de realizações importantes. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. 247 . Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. o que provoca aumento dos temas de estudo. durante o trabalho de análise da demanda. pode-se tentar: . da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). assim. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. . pertinência.preferir. por categoria de ator etc. sobretudo. então. os critérios de cientificidade: validade. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem.fracionar a investigação (por tema. mas repensar essa lógica (por exemplo. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. a uma solução que exige uma equipe e. . e apesar das reservas expressas. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. chega-se. às relações elaboradas e conceituadas demais.

traduzido para o no 3 de Connexions. sobre a possibilidade de contorná-los. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. porém. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. JAQUES. evoluiriam. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. assim. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. a uma perspectiva de intervenção. nessa segunda categoria de origens técnicas. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. em um plano concreto. Logo. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. 1972). cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. é necessário lembrar que. na Glacier Metal Company. de aperfeiçoamento e. social analysis. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. TRIST. na qual. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. apresentam-se como a aplicação simples. algumas vezes. de 1948. de uma perspectiva de formação. De uma maneira geral. a partir de 1964. com muita freqüência. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. em diferentes lugares da sociedade). ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. a fim de que elas mudem”. as práticas de formação. numa escala pequena. Passar-se-ia. em seguida. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. adquiririam novas propriedades. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. os grupos. o artigo de E.

especialmente. em seguida. C. para o seio da cúpula. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. inscrevendo-se. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. em pedagogia institucional.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. consistia em transpor. 1972). por exemplo. no 1 a 10. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. KAES). Payot). G. no plano teórico. a fortiori. D. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. ENRIQUEZ consideram. no plano organizacional. tecnicamente. na França e em países estrangeiros. não pararam. ANZIEU transpôs. o que representaria. ao mesmo tempo em que se reforçava. na empresa Geigy. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. Evidentemente. LÉVY e. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. Sociopsychanalyse. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. ROUCHY e E. Mas se. a importância da referência à Psicanálise. nos quais a ARIP interveio. de se diversificarem em função da natureza das demandas. jogos de simulação. conceberam diretamente. das estruturas de organização. ao mesmo tempo. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. grupos de análise de prática profissional. passando pelos estudos de caso. C. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. A. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. em pedagogia do projeto. MENDEL e sua equipe. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . as intervenções que se seguiram. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. ao contrário. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. se quiséssemos ser menos esquemáticos. o movimento de democracia industrial. utilização da autóptica. ROUCHY. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. essa evolução. sua prática de psicodrama analítico. J.

é necessário providenciar a formação do responsável local. durante um tempo que pode ser apreciável. estágios existentes fora dela. o risco. de acompanhamento ou dinâmica). os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. freqüentemente. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. Com efeito. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. é que se engane sobre a causa das dificuldades. esperando-se que se aumentará assim. ao mesmo tempo. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. Enfim. em especial. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. mais racional e menos caro. entre os próprios serviços de uma organização. irrelevante. da facilitação e. a mudança social desejada. na medida em que instituir. da regulação (hetero – ou auto –. os meios de verificar a validade das hipóteses. forçosamente. as que se nutrem da formação surgiram. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. Evidentemente. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. Além disso. localmente. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. é mais rápido. a palavra de ordem. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. desde há algum tempo. é a descentralização. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). então. 250 . De uma maneira geral. no espaço organizacional.

menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. Ainda assim. do qual se espera a responsabilidade. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. evidentemente. A competência de um interventor. Paralelamente. além disso. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. entre os dirigentes. confrontá-la à dos outros atores. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. manter essa dimensão presente durante todo o processo. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). os solicitadores.. na elaboração dos programas. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. Tal dispositivo técnico é insuficiente. então. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. ao desempenho eficaz da prática de formador. Esse risco pode ser reduzido apenas se. primeiro. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. de um lado e de outro. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. descobrir. Um meio técnico (que. em assegurar “suas tarefas”. aliás. os consultores. de uma maneira progressiva. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. tal risco.

negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. o desenvolvimento técnico e científico. as estruturas internas das organizações se complexificam. em problemas de remuneração etc. 252 . um sistema e seu problema.. em resposta ou não a um apelo. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas.. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. e não em técnicas de ação formadora de diretores. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. dois atores ou diversas instâncias em interação. Por exemplo. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado.) –. numa crítica aos limites do staff and line. afetando a estrutura e as instituições internas. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. é interessante observar que. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. Sem poder preparar aqui tal reflexão. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). de agentes de comando ou de pessoal de execução. Ela compartilha. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. um grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. Entretanto. em data. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. Porém. a convicção de que as condutas das pessoas. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização.

retomaram. durante os motins do Harlem. TOURAINE recorre também. Mesmo a história da intervenção de E. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. Em países como o Canadá. Mais recentemente. Então. no fim dos anos 20. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. progressivamente. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. 253 . de defesa ou de negociação. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. L. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. mas. eventualmente. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. J. como o sociólogo S. freqüentemente. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. sistematicamente. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. são chamados. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. o sociodrama. por exemplo. em Nova Iorque. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. evidentemente. existem. enriquecendo-as. vir a substituílas completamente. os psicossociólogos. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. nos conflitos entre direção e sindicatos. renovando-as. ALINSKY. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. os “organizadores de comunidades”. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. No campo das empresas de produção. assim. a práticas de debate.

o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. em conseqüência. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. tanto no plano material quanto no legal. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. das lutas militantes etc. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. para a primeira origem. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. audiovisual. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. No começo. as prescrições) e funcional (no campo técnico. concurso de segurança) etc. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. apenas. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. os dispositivos de proteção. de alguma forma. Parece-nos que. e que. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. de formação. as oportunidades. para a terceira. de organizar as ações de inspeção. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. Da mesma forma que. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. há uma 254 . difusão das estatísticas de acidentes. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. então. da magistratura. de estudar as instalações da fábrica. educativo. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. social). para a segunda. da polícia. de sensibilização (por exemplo. de propaganda. de fato. Embora não ilustre especialmente esse risco. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. a toda especificidade. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. e renunciar. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. das relações pastorais. Entretanto.

em outros países. algumas vezes desenvolvendo. por uma intervenção psicossociológica.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. evidentemente. de segurança e de condições de trabalho. fundamenta-se também. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. No caso da intervenção psicossociológica. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. De acordo com os resultados. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. por exemplo. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. então. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. No fim desses dois dias. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. Os confrontos entre atores (por exemplo. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. evitase. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . pessoal de execução). Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. contramestres. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. ou por uma intervenção apenas formadora. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. gerentes. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. geralmente. propor as medidas. concomitantemente. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. Uma abordagem mais recente. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. no começo. produzir os diagnósticos. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. Uma vez estabelecida a composição.

a ponto dele renunciar. instituídos pela lei Auroux.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. para nós. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. em teoria. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. decisivos. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. de múltiplas forças antagônicas). ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. entre outras coisas. A última negociação consiste. Ela permite. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. a intensidade emocional mais forte. produz uma frustração muito forte no ator. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. estende-se numa duração que se mede em meses. ligada às diferenças de status e/ou de poder. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. Como no caso anterior. tal 256 . Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. Porém. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. então. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. em especial. Em relação ao processo das intervenções precedentes. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela.

mas têm. aqui. elas não dependem apenas da técnica. Enfim. Tais requisitos. tal metáfora. sempre pluridimensional. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. ancorar. bem cedo. em todos os níveis. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. mas também em encontros do mesmo estrato. está. evidentemente. Está claro também que. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. Em outros termos. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. tecido com fios múltiplos. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. senão à primeira. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. sem dúvida. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. e. por exemplo. aliás. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. Escolher. uma importância acentuada. evidentemente. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). entretanto. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. para guiar a análise. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. Por isso.

a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. retomando a distinção de PALMADE (1977). uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 .Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. enquanto pesquisador. enquanto dispositivo de inserção. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. depois de dez ou vinte dias de intervenção. com o tempo. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. no entanto. permitindo isolar. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. o interventor é um clínico. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. mas. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. do gerente ou do político. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. Com efeito. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. por si só. filtrar com segurança um objeto teórico. Assim. as escolhas iniciais arriscam. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). sem chegar a lhe dar um molde. capazes de contribuir em processos de pesquisa. Não é fácil. para o pessoal de um estabelecimento. quer esteja empenhado. Nem ciência nem tecnologia. fundamentar tal distinção. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. elas seriam. antes. em cada momento. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. ela me leva. a mim. do terapeuta. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado).

adquirir um sentido menos restrito. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. os movimentos sociais ou culturais etc. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. Enquanto atores sociais. os setores de saúde. sem subterfúgios. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. a invenção de instituições locais (por exemplo. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. Porém. importantes sob esse ponto de vista. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. Entretanto. 259 . em função do campo social em que aparecem. A inserção na universidade. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. a administração. por certos setores da sociedade. malgrado sua fragilidade no tempo. podem-se encontrar. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. sua identidade social e a natureza de seu projeto. para os atores. pode-se observar que.). um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. os espaços urbanos. analítica. analisar e experimentar as vias de democratização etc. assim. o comércio. e se surgem conjunturas favoráveis. de maneira mais ou menos difusa. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. na literatura especializada. Anunciamos. seria natural levantar tal hipótese. tais acontecimentos podem inspirar outros e. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. no começo desse artigo.. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. Por outro lado. o mesmo se passa. para mim. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável.

). 1987-l. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. MARTIN em uma pesquisa recente. Jean. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. evocando. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. com o que se observaria em outros lugares. . . “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. pode-se aplicá-la a outros campos. os resultados quantitativos estabelecidos por C.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. nesse número.).-C. 2 260 . o espaço urbano). de dependência hierárquica. de colaboração profissional. Connexions. 7-28. 49. não coincidiriam. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). o grau de nossa capacidade de indentificá-los. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. até um determinado ponto. ROUCHY chegou. a estruturação dos papéis recíprocos. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. sua própria experiência no campo da saúde.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. por Marília Novais da Mata Machado. ainda. poder. autoridade. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. Por exemplo.T.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. posição central ou periférica etc. . . Porém. voluntária ou militante etc. Notas 1 Traduzido de DUBOST. a divisão do trabalho. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. necessariamente. as conclusões às quais J.). DO – Desenvolvimento Organizacional (N.

Les recherches-actions sociales. Théories et pratiques de l’éducation permanente. 1980. J. Paris: Anthropos. “Une intervention psychosociologique”. 1972. 3. In: L’intervention institutionnelle. Paris: PUF. Interdisciplinarité et idéologies. ROUCHY. LÉVY. Paris: Payot.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. L’intervention psychosociologique. 1986. 1981. J. Connexions. 1987. 1977. MARTIN. G. PALMADE. Paris: LFEEP. LE BOTERF. La Documentation française. 261 . L’enquête participation en question. C. G.-C. A.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.com. fax.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.com. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .autenticaeditora.

É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. os ‘intemináveis adolescentes’. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.“Quais são os problemas realmente essenciais. o triunfo da racionalidade experimental. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”.br 0800 2831322 . etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.autenticaeditora. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. grupos religiosos etc. finalmente.com.

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