Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

................................................ 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost.. 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez................................................................................................ 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost...................................................................................................................... 237 6 ...............................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.......................................................................................................................................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï........................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy............... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D.......... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï.............................................................................................................. Benevides de Barros......

a administração e a política. a economia. fruto do trabalho de psicólogos. por meio da “intervenção psicossociológica”. cuja história é nele revista e avaliada. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. quanto para os que praticam a psicologia. Por tudo isso. Junho de 2001 Os organizadores 7 . O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. prático e metodológico. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. a sociologia. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. sociólogos e um economista. o campo da psicossociologia cresceu. a psicanálise. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. bem conhecida e divulgada no Brasil. reais. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. tornou-se ainda mais importante. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. este livro. Desde a primeira edição. a educação. cada vez mais utilizada. dispositivo de consulta e pesquisa. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. esclarecedoras dos processos de criação do social.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. o direito. À metodologia de intervenções/pesquisas. da organização e do funcionamento social. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. hoje. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. tal como no momento da primeira edição. Assim.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

inicialmente. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. que condutas. Em conseqüência. em seus grupos. em especial. até então desconhecidas. com as instâncias de mudança. freqüentemente através de experimentos. Atuando diretamente na vida dos grupos. fez aparecerem certos problemas. geridos e transformados. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. igualmente. empregando para tanto. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. grupos. a metodologia de pesquisa-ação. Por meio dessa abordagem. isto é. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. o pesquisador-prático. organizações e comunidades. as condutas concretas dos indivíduos. A partir dos anos 50. organizações e comunidades. por sua presença. são o objeto de pesquisa. Portanto. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. Passaram a se preocupar. das organizações e das comunidades. se revelassem. reflexão e análise dessa disciplina.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. no quadro da vida cotidiana. 9 .

com suas mudanças e rupturas. torna visível a presença do sujeito social. adquire um sabor de novidade. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. por um ato de decisão. da organização e do funcionamento social. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. hoje ela se renova. dos desejos de onipotência e dominação. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. a mudança social (A. sempre inacabada. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. que é também um ato de palavra. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. que 10 . A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. mesmo que involuntariamente. e serem criadores da história. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. ENRIQUEZ. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. é formulada uma teoria. LÉVY). Ora. mobilizados por ilusões e crenças. pouco a pouco tecido. do socius. de transformações nos sistemas sociais (A. contra esse pano de fundo. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. e do processo de criação institucional. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. DUBOST). da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. Porém. Paulatinamente. pois a teorização é fruto da reflexão que. NICOLAÏ). a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. idealizando e buscando destruir seus chefes. 60 e 70. sujeitos que. nos termos de E. do trabalho da pulsão de morte. de onde e como surge a dinâmica social. aptos a um “imaginário motor”. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. sujeitos capazes de serem autônomos.

ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. aqui e ali. autopoieses. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. formuladora de grandes quadros teóricos mas. T. relações de poder e autoridade. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. de suas fantasias de onipotência. ROEDEL). convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. Sonia ROEDEL. são analisadas novas ideologias. CASTRO. a respeito das suas representações historicamente constituídas. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. DUBOST. o desenvolvimento de um processo organizacional. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. MATA-MACHADO). Política. está presente em quase todos os textos. de ARAÚJO. BARROS. da MATA-MACHADO. como sistemas dinâmicos. de suas demandas de amor e proteção. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. A. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. Os autores – Jean DUBOST. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. S. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. práticas de intervenção mitificadas. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. o pensamento filosófico de C. a condição de construção da vida social. B. Assim. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. André LÉVY e André NICOLAÏ –. Psicologia Clínica (J. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. Assim. LÉVY. M. E. nestas páginas. J. é analisada. 11 . formadoras das sociedades atuais e futuras. assim como novos sagrados e certezas. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. TOURAINE que. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. Eliana de Moura CASTRO. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. José Newton G. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. CARRETEIRO. Eugène ENRIQUEZ. mas também de outras referências. assim como. são apresentados nesse livro por Marília N. entretanto. auto-organização e complexificação a partir do ruído. estruturas dissipativas. CASTORIADIS. de BARROS. ARAÚJO. enfim. Sociologia.

BARROS. na França. mutações e complexificação em economia” – A. ENRIQUEZ.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. Além desse território de pesquisa. T. DUBOST. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. em função do mencionado convênio. NICOLAÏ). Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. ARAÚJO. ROEDEL.). FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. Paris XIII: M. ENRIQUEZ.Em segundo lugar. “A interioridade está acabando? – E. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. LÉVY. de um projeto pessoal e familiar. 1990. 1990-1. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. . ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). “O fanatismo religioso e político” – E. Paris XIII (A. ENRIQUEZ). textos recentes. ENRIQUEZ) e Economia (A. LÉVY). CARRETEIRO). Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. MATA-MACHADO e S. a partir do exame de uma centena de textos. LÉVY (mimeogr. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. especialmente. cobrindo questões atuais. ENRIQUEZ. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. a Psicossociologia. ARAÚJO. NICOLAÏ) – mas. CASTRO. T. resultando em treze textos. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. 1991. na empresa. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. MATAMACHADO). M. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. distribuídos em três partes. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. A. NICOLAÏ (mimeogr. no Brasil. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). 1989. a disciplina que os congrega. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A.Foram escolhidos. sofreu modificações. Paris X (J. feita em novembro de 1991: . ROEDEL). Inicialmente. Assim. “Rupturas. primeiramente.). E. CASTRO – Psicanálise. 1990-1. MATA-MACHADO – Psicologia Social). a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. NICOLAÏ. Essa primeira proposta.

1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. preferiu-se “fantasia”. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. E.Em terceiro lugar. ENRIQUEZ. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. de atividades e produções criadoras. CASTRO e M. a apreensão de seu sentido original. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS).Prefácio desejo” (A. Psicanálise do vínculo social. DUBOST. algumas aterrorizantes. . NASCIUTTI para o livro de E. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. Mais de uma dificuldade de tradução. ARAÚJO. mantiveram-se termos como “fantasmático”. Por exemplo. mantendo-se a tradução utilizada por T. contudo. através da análise etimológica. à Psicossociologia e à Psicanálise. respectivamente. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. 1980. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. finalmente. na primeira nota de rodapé. o grupo e a questão da mudança. Seus nomes aparecem. LÉVY. MATA-MACHADO. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. editado por Jorge Zahar. 1987). LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. As traduções foram revistas por J. 1976. DUBOST. “forclusão” ou “preclusão”. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. Por exemplo. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. foi objeto de discussão e comparação. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. em maior ou menor grau. Buscou-se uma certa uniformização. “Intervenção como processo” – A. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. a última tradução foi preferida. em cada texto. CARRETEIRO e J. apresenta a intervenção. para designar 13 .

na expressão méthodes d’investigation.“relativo a narciso”. Finalmente. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. essa foi a escolha. a critério do tradutor. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. para a palavra enquête. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. expressão bastante usada em português. nosso primeiro leitor. a palavra investigation. entretanto. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

desde o início. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. Eles descartam. O sujeito que não “morreu” A. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. a idéia de um “eu”. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. visto que todo leitor recebe. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito.1 Pois bem. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. LÉVY e E. No entanto. Cabe. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. aquilo que lhe cai nas mãos. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . preenche ou interpreta.2 . no entanto. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. à sua maneira. Ao apresentar tais artigos. no enfoque psicossociológico. Mas não poderia ser diferente.

notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. por exemplo. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. já na virada dos anos setenta. mesmo na França. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. ligada a uma prática clínica. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. os autores caminham numa direção que.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. o ofício ou o produto. No texto de A. no conjunto das discussões sobre o sujeito. um átomo talvez. entre outras coisas. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. LÉVY. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. a empresa-família é anterior ao sujeito. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. um ponto de passagem. suas relações próximas e regulares. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. Assim. vemos que o “indivíduo” é. o da Psicanálise. nas décadas anteriores.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”.. A esse respeito. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. convém observar que. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. por exemplo.”. antes de tudo. a chamada “sociologia do cotidiano”. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). notadamente através da teoria lacaniana.. entre nós. nos artigos aqui apresentados. nos parece em parte negligenciada. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. não estariam restritas. E. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”.6 Isso é claro para os autores. a família. ela é 18 .

já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. O primeiro é aquele que se agarra. tenta transformar “o mundo. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. Desse modo. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. pois este. fanatismo de empresa etc. isto é. Importante ainda. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. Assim sendo. as significações das ações”. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. Ele destaca ainda.” De outro lado. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. espírito de empresa. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. “às vezes sem sabê-lo. A. além de desempenhar. ENRIQUEZ retoma essa posição. identidade coletiva. mas que reenvia. enfim. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. num crescente alienar-se. sua constituição “plural” ou coletiva.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. 19 . “no momento em que falamos. por exemplo. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. sempre imprevisível. as relações sociais. narcisismo social. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. através de FREUD. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. daí a ilusão da identidade pessoal. narcisismo grupal. segundo os autores. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. LÉVY nos lembra. antes de mais nada. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. um papel essencial nas transformações sociais”. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento.

E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos.. além da sua. em diversos momentos. Assim. A essa altura. Basta lembrar. científico ou outro qualquer).. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. como a intolerância e o fanatismo.) deve ser eliminada. religiosas. esportivo.. outras propostas políticas. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. ilusão e crença. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. pois ela se torna uma ameaça. amor (ou cumplicidade?) mútuo. mas que tentam ainda se expandir. científicas etc. mas exemplar. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. mas sim os processos de idealização. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. os nordestinos. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância.. cabem algumas observações. no início de 1993. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. algum tempo após as notícias. os judeus e. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. como um fenômeno “periférico”. árida novidade.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. religioso. como se tinha notícia até pouco tempo. estamos falando de mecanismos inconscientes). tentando eliminar dele os negros. outras idéias. Assim. xenofobia. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros.9 composto por militantes islâmicos negros que.” 20 . A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal.

principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . cada sujeito está perseguindo. em níveis talvez menos contundentes. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. num clima onde toda crítica está ausente. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. Enfim. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. a eterna questão do sentido. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. Gostaríamos de lembrar. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. resvala necessariamente para a intolerância.Análise social e subjetividade Aliás. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. nosso partido de direita ou de esquerda etc. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. nosso time de futebol. sejam elas brancas ou negras. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. contrapor as noções de sujeito e interioridade. rapidamente. ela deve ser doadora de sentido. Poderíamos. a ação grupal deve cobrir um vazio. seja num grupo intolerante. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. isolada e coletivamente. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. às vezes. nosso grupo body-building. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. Em outras palavras. nossa “seita” de comedores vegetarianos. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. seja num grupo democrático. ele desconhece também. O que se torna problemático. por analogia. E. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). já de início. no Sul do Brasil. infantilizando os “fiéis”. noção de origem literária e filosófica.

foi discutida em termos do cheio. Talvez seja. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. a não ser por arrombamento. Aliás. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. em se pensar espacialmente. questionamentos. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. Por outro lado. Se esse sentimento nem sempre existiu. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. na esfera psicossocial. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. íntima. ameaçado de extinção. é numa relação espacial que ela se inscreve. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. Para ele. à alternativa interior x exterior. 22 . mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. A questão do espaço. pois. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. pois. A compreensão da interioridade é. Só o ser existe e ele é cheio. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. que não é recente. segundo o autor. em oposição ao vazio: trata-se. interrogações e que. por ser da ordem da especialização. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. A interioridade remete. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. vítima de ataques. é ‘uma terra estrangeira’”. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. ele existe atualmente e está. onde ninguém tem o direito de penetrar. alegria. o que é pura duração. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. BERGSON. A interioridade. quase que imediatamente. na Filosofia antiga. num certo sentido. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. parece haver uma tendência. para ela. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo.

ao que marca a diferença. a pele se liga à formação do eu. o que se vê por fora é um reflexo do interior. ela é capaz de dizer: eu tenho. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. unidade e similaridade. isto é. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. Assim. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. A percepção do espaço remete à visão. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. diferenciando o interno do externo. porque especular. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. Um corpo dinâmico (isto é. Limite e superfície privilegiada de estimulações. na época atual. As idéias de permanência. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. bonito. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. Há. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. capta os estímulos exteriores e também os internos. Existe. denotadas pelo termo identidade. depois da perda do objeto. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. O ter é ulterior. meio de se situar no mundo. Dito de outro modo. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. Já a identidade marca a diferença. diz FREUD. eu não sou. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. saturada de comunicação. foram abaladas pela Psicanálise. isto é. separada. refletindo a si mesmo). temos de falar nos órgãos dos sentidos. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. a identidade própria. O culto exagerado do corpo. considerando o 23 .

o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. e como bem captou ENRIQUEZ. francesa Grasset. é certamente desprovida de energia ou. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. entre outras coisas. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). ao eu e muito menos ao sujeito). a interioridade considerada. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Em outras palavras. só podendo. E o mais importante. no campo da argumentação psicossociológica. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. isto é. pois. Notas 1 Humberto ECO. oferecer uma resistência passiva. isto é. é passiva. em sua obra Lector in Fabula (trad. de outro lado. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. do outro que eu sou. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. ARAÚJO.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. já dissemos. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. por ser essencialmente espacial. que todo texto é um tecido de espaços em branco. As propostas absolutizantes. Por isso. quer como conceito psicológico. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. Assim. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. em outros termos. 2 24 . quer como sentimento pessoal. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. Afinal. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. O oculto. pela empresa ou pela sociedade. naquilo em que ele é diferente do outro. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. Finalmente. feitas pela religião. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. nenhuma leitura é um ato neutro. Ele diz. se tornam assim mais claras. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G.

que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. na América Latina e mesmo na Europa. líder da extrema-direita francesa. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 .. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. p. mais perto de nós. 50-53. Assim. SELLIER (cf: Le mythe du héros. 322. p. cit. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. 13). na Biblioteca Nacional de Paris. JIRINOWSKI saiu vitorioso. por Jean-Marie LE PEN. face às estruturas e aos sistemas”. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. 1983. p. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. principalmente após as recentes eleições da Rússia. 445-449). p. em nível individual. reportagem da revista Isto É. Observação semelhante já fora feita. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. alguns anos atrás. vol. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. p. Essa mesma revista. De outro lado. não passavam de “mero detalhe”. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. Paris: Bordas. (Cf: ANSART. 29-31) afirma que. Paris. 5-12. Conseqüentemente. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Para ele. 1970. “Essai d’identification du quotidien”. LXXIV. Cf: ANZIEU. P. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. tomo XXIX.. Paris: Gallimard. BALANDIER. G. uma editora de propaganda nazista. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”.. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). em seus níveis mais profundos. Paris: Dunod. em seu número de 1º/12/93. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. P. D. nessa mudança. 1975-1976. O autor evoca J. soberano. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. Cf. Lembremos. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. o culto à figura de GUEVARA. Paris: Gallimard.Análise social e subjetividade 3 Cf. fez reaparecer o sujeito. 1984. n. senhor de si e do universo e como se. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. nas quais o Sr. como um instrumento terapêutico. além de serem historicamente contestáveis. In: Bulletin de Psychologie. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. por isso mesmo. P. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. de 28/04/93.

Entre outras alusões a essa questão. semelhante à vivência intra-uterina. ANZIEU. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. 42. Paris: PUF. 1985. p. 120 ed. Essai sur les données immédiates de la conscience. Rio de Janeiro: Imago. 1976. S. Buenos Aires: Editorial Vancu. XVIII vol.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. Le moi-peau. D. 1967. p.) 14 Cf: BERGSON. El tiempo y los grupos. ss. H. 15 16 26 . Além do princípio do prazer (1920). Paris: Dunod. (Cf: FONTANA (A) et al. ver: FREUD. 1977. 68.

27 . do sujeito. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. No entanto. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. um ser falado. pois. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. um ser agido. Seguindo essas abordagens. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. que decidi me manifestar. De minha parte. mesmo sem dizê-lo. só se fala do indivíduo. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. sua classe ou sua raça. No momento atual. em maior ou menor grau. por outro lado. ALTHUSSER). o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. É contra essa tendência reducionista. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. Com efeito. que nega a interrogação de D. ao invés. do aumento do individualismo. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). por um lado. LAGACHE.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. como psique.2 A razão é simples: como muitos outros autores. em grupos e organizações. O indivíduo torna-se. assim. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. um determinismo absoluto dos processos sociais.

a cada homem. em uma classe. sua conduta. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. em uma etnia. isto é. BURKE. para retomar a terminologia de C.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. CASTORIADIS. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. Nessas condições. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. mas deixassem também. ao mesmo tempo. que pode tomar a forma de totens. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. portanto. ir muito longe nesse sentido. já que nascemos sempre em um grupo. num lugar-tela. em parte inconscientemente. Não é necessário. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. ou de um Deus único. em parte. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. numa sociedade que é. no entanto. “a possibilidade de saber que alhures. DE MAISTRE –. logicamente. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). Uma tal sociedade heterônima tem. conduta estruturada social e culturalmente. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. em uma nação etc. que lhe deu direito à existência. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. zonas inexploradas. de antepassados e de Deuses. De fato. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. a anterioridade dos processos sociais. porque toda sociedade comporta falhas. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. quer seja por Deus – BOSSUET. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. além disso. uma cultura. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. Freqüentemente. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. Em outras palavras. conformados a seus votos e a seus ideais. é preciso pressupor.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. portadoras de 28 . Nessas condições. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. ela própria. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. Essa emergência acontece. em parte voluntariamente.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. heterônima.

uma “parcela de originalidade e de autonomia”. sem sabê-lo. como dizem FRITSCH e PASSERON. mesmo sem percebê-lo.8 Enfim. Mas. se põem a acumular riquezas. pelo menos de imediato e. a médio ou a longo prazo. em pessoas e grupos sempre diferentes. Deve-se. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. um papel essencial nas transformações sociais. Embora exista. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. contra a vontade da massa. em certos casos. como evocava FREUD. ele também só é parcialmente heterônimo. não se pode esquecer que o discurso. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. fanático. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. desde a Renascença e. Elas se tornaram. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. apoiando-se nas funções corporais. às vezes. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. sobretudo. por mais totalitário que seja. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. de maneira invisível. a trocar sua natureza pela de um térmita. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. seja lá por que modo. não a um contra-discurso organizado mas.7 Quanto ao indivíduo humano. até mesmo se choca. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. Alguém inventa uma máquina a vapor. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. um discurso dominante. Além disso. outro um novo tear. em toda sociedade. Reis continuam a se 29 . desde a Revolução Francesa. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. Notemos que as sociedades modernas. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. ignorando soberanamente a ideologia dominante.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. portanto. às vezes.

do seu serviço.9 Assim. De fato. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. mais freqüentemente. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. objeto de tantas preocupações. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. os processos sociais. “matadores frios”. é. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. Assim. cada um deve ser criativo à sua maneira. sempre imprevisível. vencedores que querem ir até o fim. então. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. apenas um elemento do processo de massificação. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). performance sempre a recomeçar. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. No entanto. se os processos psicogenéticos pressupõem. Assim. da sua organização. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Nessa ética. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. a individualização.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. seu tempo. O winner sempre pode se tornar o looser. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Ele deve gozar com essa renúncia. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. ela pode ser bem efêmera. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. o elemento esportivo predomina. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. a vitória nunca sendo definitiva. Se cada um deve manifestar sua singularidade. Ao contrário. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. mas é o homem da performance mensurável. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. em nossa época. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. como sublinha CASTORIADIS. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . sua família) pela organização da qual ele veste a camisa.

um novo ritual. nas universidades. o que lhe confere. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. a busca da riqueza. posições de poder. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. Ele atinge. hoje em dia. O “zé-ninguém” está sempre. tende. designava por “zé-ninguém”. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. em geral. aqueles a quem chamamos vencedores. atrás da força e da grandeza de outros homens.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. em vez de admirar o que ele concebeu. assim. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. a se associar a paixões puramente agonísticas. nos hospitais. Nos Estados Unidos. os que W. financeiras ou de prestígio. o indivíduo renuncia. igualmente. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. quando se fala do indivíduo. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. além disso. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. mas não se orgulha de si mesmo. o “culto da empresa”. desvestida de seu sentido ético-religioso. naquele tempo. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. onde seu paroxismo predomina.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. na maioria das vezes. mas que. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. a justificá-lo”. 31 . para depositar seu destino nas mãos dos outros. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade.10 Assim. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. REICH. características de um esporte. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. igualmente. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. ou ainda. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. Admira o pensamento que ele não concebeu. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”.

A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. nós próprios nos tornamos admiráveis. é. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. sempre ameaçador). é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. Além disso. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. A idealização é. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. ser um agente ativo desses processos de recalque. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. médios ou pequenos homens. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. então. depois de descrever esse fenômeno. Em outras palavras. aderir profundamente às injunções sociais e. assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. de repressão e de adesão. portanto. correndo um mínimo possível de riscos. agora bem conhecido. às vezes. Resta-me. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. reprimir suas pulsões. para existirem. apresentando-se como objeto maravilhoso. apoiado 32 . o que devemos fazer e como seremos recompensados. o mundo criado não é contestável. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo.

DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. A identidade coletiva favorece ainda. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. que sentido pode ter ganhar por ganhar. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. 33 .13 Reencontrar a coesão. o narcisismo social. de fato. como mostrou FREUD. é se voltar ao grupo de pertinência. da sedução ou da obrigação]. dificilmente. contraditórios. Se somos apenas um espartano. ideais vazios e desprovidos de sentido. está cheia de perigos. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. eles suscitam a aceitação ou a identificação. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. um proletário. um budista. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. produzir por produzir. tem como futuro possível a xenofobia. o fanatismo. G. de simplesmente não ser. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. graças a identidades coletivas fortes. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. estamos divididos e angustiados. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. o racismo.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. (Com efeito. portanto. os ideais são múltiplos. estamos perto de não ser absolutamente nada e.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). que tem como efeito “unir uns aos outros. De fato. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. ao nosso “nós”. graças a esse jogo identificatório. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). consumir por consumir?) Ora. Vivemos em sociedades nas quais. sem se dar conta de que. uma massa maior de homens. é imputar os problemas ao outro. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. É necessário precisar esse último ponto. A identidade coletiva. freqüentemente. um capitalista. nas quais. através desse processo.

em suas relações sociais de todos os dias. o indivíduo singular. Para definir criatividade. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. a sua conversão. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. 34 . bem entendido. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. ao menos. portanto. Vê-se. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. reproduzir. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. no entanto. Tal indivíduo só sabe repetir. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. O indivíduo individualizado (e não individuado. a respeito de qualquer tipo de problema. portanto. seres a eliminar. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. criança. Não podemos. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. quanto mais uma cultura se quer unificada. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. as significações das ações. Com efeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. nos lugares da vida cotidiana. por mínima que seja. em sua vida de trabalho. Quero simplesmente dizer que cada um. as relações sociais. quanto mais a identidade coletiva existe. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). O sujeito é um ser criativo. daí. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. bem como da tranqüilização narcísica. não pode ser considerado como sujeito humano. tem como projeto voluntário. que. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte.

adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. em lugar de uma imagem da natureza. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. levo a sério. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. ela está presente em quem faz. é ainda pior. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . o primeiro movimento indistinto da matéria. respirando a plenos pulmões um ar salubre. homem portanto de sabedoria e loucura. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. não ao charco das alegrias imortais. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. uma novidade irredutível. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. O sujeito é.. aqui e agora. voluntariamente. E mais se imprime.. portanto. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. aquela única que conta – a criação enquanto gênese.. Os artistas não se enganaram a esse respeito. é a formação. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. demens (objeto da hybris). de repente. imobilizada. antes que ela se fixe em natureza morta.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. o nascimento. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). quanto na inspiração do arquiteto que. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. do jogo e da vagabundagem. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada.. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. e que o mundo possa testemunhá-la. em compensação. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. um ser capaz. meu amigo. a gestação. em seus Conselhos a um viajante. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. não na escola!. que sente prazer em respirar. ludens e viator. chegarás. ao mesmo tempo sapiens.

identificado a seu pai. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. os sedutores ocupando uma posição histérica. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. depois da guerra de 1914-1918. atualmente. a esse respeito. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. para realizar uma missão salvadora. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). preso na ganga dos ideais. para lavar o mundo de sua sujeira. 36 . Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. a sua própria alteridade). fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. de seus medos. os manipuladores ocupando uma posição perversa. um pouco paranóico. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. Michel SERRES. O megalômano. Assim. cientificamente. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. entre os grandes homens. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. é preciso parar um momento. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. pela natureza. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. sente-se eleito por Deus. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. portanto. Essa desagregação da Europa Central tem ainda.17 Porém. assegurando-lhe a redenção. aliás.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. Com efeito. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. em particular o grande homem. No entanto. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra.

caso bem conhecido e. O teatro é também para ele um terreno de esportes. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. ou capacidades manipulatórias. para isso. os tecnocratas. inventando complôs. só pensa em termos de estratégia. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. é um bom exemplo desses chefes perversos. Quanto ao manipulador perverso. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. a um nível mais irrisório. só considera o mundo sob o ângulo econômico. o povo judeu. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. por sua vez. nem uma força de pensamento e de ação. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. 37 .21 Assim também HITLER. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. que toma a si mesmo por ideal). ao contrário. quis fazer do alemão o povo eleito e. que queria dobrar o mundo à sua vontade. LENIN. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. tem gosto pelo instantâneo. basta o de STALIN. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. reduz as relações humanas a relações de objetos.20 do homem que declarava. ele se proíbe de ser excepcional. ao mesmo tempo. denega a realidade). complexo demais para ser evocado em poucas linhas. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). como já indiquei anteriormente. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. recém-saídos das grandes escolas. obcecado com a força pela força. como LENIN: ao contrário. que tomou o poder contra os mencheviques. esse está. crê falar a linguagem da verdade. que não tinha interesse algum pelos outros. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. como WILSON ou HITLER. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. segundo FREUD e BULLITT.

como indivíduos perfeitamente normais. com a condição de ser corajoso. os outros escapam a essa denominação. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. a seus olhos. como GORBATCHEV. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Tentarei em outra ocasião.. Mesmo assim. Em outras palavras. um indivíduo sem fantasias. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. ao contrário. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. sem dúvida. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. talvez. Em contrapartida. uma demonstração do possível (. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . mas uma duração realista. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo.. Em todo caso. Se elas tomarem um grande patrão italiano. O grande patrão italiano C. não se torna.). A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. porque sou. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. não tenho dúvidas morais”.. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. de uma normalidade esmagadora. AGNELLI a gente nasce. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). M. nem mesmo na imaginação. Mas. sem interrogação.. se tiver tanta coragem quanto eu”.) são as pessoas comuns. pois ele promete a qualquer um. AGNELLI por exemplo. Eles se apresentam. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. é possível tornar-se DE BENEDETTI. meus aliados (. ele perdeu alguma coisa. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho.

Teríamos. favorecer a tomada de consciência de situações reais. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. em sua linhagem. São desprovidos da aptidão à transgressão. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. o caráter irrevogável de sua escolha e. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. Um ser consistente pode ter dúvidas. em FREUD. de se lançar no desconhecido. em MARX. por outro. 39 . outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar.23 Em certo sentido. só sabem repetir. conforme McDOUGALL. de tudo desarrumar. dos outros. Mas não são verdadeiros criadores de história. E. FAUCHEUX. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). Um ser coerente tem uma personalidade compacta. Mas ele conserva o mesmo projeto. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. de tudo realizar” (McDOUGALL). de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. mesmo se nada descobre. criar seja lá que novidade for. mais ainda. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. reproduzir. sem falhas. fazer advir o sujeito coletivo. pois falta a ambos. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. no sentido que dou a esse termo. ao inusitado. fazer advir o sujeito individual. “que significa. a recusa de compromisso sobre o essencial. S. insiste sobre essa noção. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. por um lado. Corre pela vida como em uma auto-estrada. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. É também um homem que demonstra consistência. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. MOSCOVICI.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. ele o faz em sua linha. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. assim. Eles têm uma influência social inegável. assim. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. São portadores da pulsão de morte. Se o sujeito evolui. tomar caminhos transversais. Ele não tem projeto.

a ocasião. Ele é.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. quando ela se apresenta. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. o exilado. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. no momento atual. pessoas vindas de outros países. diante da exigência do todo. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. no entanto. como também a provocá-los. é que. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. porque a dispersão. interdita a tentação da Unidade-Identidade. visível e. em seguida. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. um grupo ou um Estado. à dispersão. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. Para SEGALEN. Aqui não se trata de manipulação. consistência e astúcia andam juntas. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). criar e sustentar um conflito com a maioria. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. o que não é nada fácil. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). provenientes 40 . em vista dos movimentos de migração que se intensificam. SEGALEN. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. portanto. segundo a expressão de V. isto é. souberam conciliar furor. recentemente republicado. consistência e astúcia. O que é interessante. Consistência e furor. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. MOSCOVICI. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. Ao mesmo tempo. delimita também. a uma identidade coletiva. a um Estado. uma outra exigência e. para fazer triunfar suas idéias. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. finalmente.” O sujeito não é homem de comprometimentos. igualmente.24 O “exota”. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). não pode jamais estar colado a uma organização.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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de considerar os problemas em sua frieza. seus valores e seu processo de socialização. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. aos que dela participam. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. L. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . aos outros. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. sem o saber (e de consciência tranqüila). mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. A cultura de empresa ou de organização. com personalidades “as if” (H. sobretudo. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. o homem capaz de ultrapassar seus limites. capaz de se adaptar a todas as situações. sobretudo. . para fazê-lo. se só pensa através dela. dando. no sentido sadiano do termo. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. então. SERVAN-SCHREIBER). Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. do vencedor. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. de sonhos e de interrogações. de ter modos de “comunicação afirmativa”. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. portanto. do combatente. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. em demasia. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. ao propor. Minha contribuição será. Para obter tais resultados. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. Se o indivíduo se identifica com a organização. ele entrará. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. então. desembaraçado de compromissos. sejam quais forem. de colocá-los. assim. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista.

ao contrário. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. desde DURKHEIM e FREUD. E.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. 47 . quando as igrejas não são suficientemente atraentes. de perda e de sofrimento. em nome da verdadeira fé. uma causa a defender. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. mas. Sabe-se muito bem. o renovar de uma igreja dogmática. mais próximos do integrismo. no mundo medieval. segura de estar em seus direitos. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. atualmente. pronta a punir os blasfemadores. injustamente martirizado. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. encarnar a “instituição divina”. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. Basta ter em mente: a renovação do Islã. que uma sociedade não pode existir sem religião. Então. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. gurus. um ideal a realizar. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. xamãs. exige a idealização. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. através de um projeto a concretizar.

o jogging. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. as ginásticas suaves. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. mesmo os mais repreensíveis. cuja meta é a homogeneização do “interior”. afastar a dor. falado e falante. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. 48 . esbelto. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. que aqui apenas menciono. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. “Estar bem em sua pele”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. Mas as religiões. as medicinas naturais. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. como a expressão da graça que lhe cabe. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. “tornar-se saudável”. submetê-la a ídolos não contestáveis. competitivo ou não (por exemplo. os estágios off limits. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. portanto. Voltarei adiante aos métodos empregados. sofredor. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. a aeróbica. continuamente desejável. animado) é o nosso bem mais precioso. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. a expressão corporal. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. as maratonas de Paris ou de Nova York). As técnicas de body-building. pelo menos. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. o desenvolvimento do esporte de massa. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. o “grito primal”. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. O fanatismo político. todas as religiões.

de intervenção psicossociológica ou institucional. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. a “qualidade total”. na medida em que não se trata. assim. de autoridade. processo de ligação com os outros. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. ao menos. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. “a paixão pela excelência”. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. Ora. Basta querer. mudança sempre difícil pois traz. A explicação é simples: todos os métodos de formação. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Os próprios indivíduos. na qual fatalmente se perderá. cada qual se mira em seu próprio espelho. de evolução pessoal ou grupal. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. de criar uma cultura. que o indivíduo. interrogação do ser. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. membro de um conjunto que tem suas coerções. na qual ele tem que desempenhar um papel social. O narcisismo mais total está na ordem do dia. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. confronto com o sofrimento. GREEN. 1983). No narcisismo de morte. de fato. Por outro lado. sinais de uma fantasia de domínio total. Quer se tenha nascido rico ou pobre. para se tornar um sujeito falante e atuante. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. a busca do “erro zero”. nas organizações sociais. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). mas de edificar novos cultos. grupal e coletiva. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. embora alienados no mais profundo de sua psique. únicos responsáveis (se eles fracassam. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. Elas anunciam. necessariamente. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra.

Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. Por isso. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. a astrólogos. com os pés amarrados a um elástico. ao contrário. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. O reconhecimento da psique como força operante tem. para viver e se desenvolver. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. a sua submissão. perfeitamente interiorizadas. como resultado a sua destruição ou. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. quer dizer. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. únicos a prometerem resultados tangíveis. uma psique sem conflitos. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. não do desenvolvimento da racionalidade. pelo menos. do aumento dos métodos mais bizarros. portanto. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). nas organizações e nos indivíduos. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. a implicação. a mobilização total de todos. uma psique a serviço da organização. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . Cada “conjunto humano”. como a simples lógica o exigiria. necessariamente. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. mas. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. na sociedade. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. em reação. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). faz-se apelo a leitores de tarô. para a seleção de dirigentes.

(c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. Cada indivíduo. uma unidade. por minha vez. Mas. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. portanto. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. permite que se possa situá-lo em uma classe. que se liga a uma tradição. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. através dessas diversas experiências. ou vinte anos? BARTHES.A constância não existe. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. portanto. de ser um sujeito que tem uma história. em uma espécie). ou o status social a que chegaram. Cada um sente. que participa de uma memória coletiva. quer dizer. escreveu belíssimas páginas. portanto. ela revela características um pouco suspeitas. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. não vivo mais. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. isto é. em uma palavra. Os indivíduos evoluem. Ora. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. GREEN (1985). Além disso. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). credo. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. Caso se retome a análise de A. de constância: (b) idéia de objeto separado. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. ele é capaz de ser um “Si”. classe. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. se examinarmos mais de perto essa noção. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. de referências seguras. não creio mais como esse ser que leva meu nome. – podendo 51 . eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. em um gênero. animado por uma coesão totalizante tendo. nacionalidade etc. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. a necessidade de ter uma certa identidade.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a.

necessita do trabalho do tempo. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”.5 Certamente. cada uma. TOROK. com WINNICOTT (1966). 1976). a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. Se. então. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. ABRAHAM e M. No entanto.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. o eu etc. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. Mas ele insiste.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. Eu é um outro. Nunca sabemos de maneira precisa. a idéia de permanência e de constância. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. então.Quanto ao reconhecimento do mesmo. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. 1982). Assim. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. no momento em que falamos. no entanto. assim. em sua pureza. admitir. ilusória. já dizia RIMBAUD. quem está falando e por que falamos dessa maneira.) que visam. quando sei tão pouco o que sou. pois toda construção. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. a sua própria finalidade. de MIJOLLA. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. Precisamos. b. que processos de clivagem. por definição. sob certos aspectos. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. a partir de um estado não integrado. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. então é possível questionar. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. cairmos na irresponsabilidade. de preclusão e de denegação estão operando em nós. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. não podemos abandonar essa idéia. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. que. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. mas que mantém um certo grau de 52 . além disso. c. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo.

Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. de um narcisismo a toda prova. e tanto mais porque se parecem conosco. o remorso. Apenas um exemplo: numa grande empresa. para o indivíduo. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. portanto sedução. sobretudo. de seus desejos. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. como também um amor consciente por si. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros.A interioridade está acabando? coerência. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. quaisquer que sejam. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. o trabalho sobre si. de suas faltas. a interrogação. problemáticas. de “maioria compacta”. a dúvida. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. muito pelo contrário). que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. São. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. Um deles explicita suas dúvidas. a aceitação dos processos de clivagem. portanto. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. é ouvido um momento. Porém. escolhendo as máscaras sociais que precisam. os diretores participam de um grupo. da “inquietante estranheza” e. portanto. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. tão apreciada por FREUD. assim como as instituições e organizações que a compõem. contraditórias. Os outros. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . trazendo “temor e tremor”. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. O que nossa sociedade reclama. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. de sua centralização no sucesso de seu trabalho.

vinda da boa burguesia. não quero saber nada de seus problemas porque. Nesse momento. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. Além disso. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. 36). Esse exemplo (que. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. filho de um grande industrial. Nessas condições. tendo uma identidade compacta. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. reedição de 1986. Ora. Ele se tornaria o fraco. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. seja de novo como nós. 270). formam uma nova maioria compacta. seu simbólico. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. quando os indivíduos estão nessa situação. p. Transformam o mundo no qual estão. em substância: “Não continue. é interrompido por um de seus colegas. p. quer dizer. nem mesmo à sua esposa. por um processo de contra-investimento. 54 . ele tem úlceras constantes. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. ENRIQUEZ. Apenas. seu imaginário enganoso. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. 1984. em termos mais gerais. Com efeito. serei obrigado a falar disso a meu pai e. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. Domine-se. O “homem com problemas” aprendeu a lição. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Pôde obter o posto desejado. se você continua. SEGALEN). um grupo que tem uma cultura própria. até que ponto evitam-se a si mesmos. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. eles questionam sua identidade. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. que detestam. desde então. que lhe diz. naturalmente. até que ponto estão presos na apatia (SADE). como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. diante dessas revelações. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava.

Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. “fazer correr sangue”. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos.. se evitam a si próprios. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. todos os “marginais”. todas as “minorias ativas”. reedição de 1961. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. que todos aqueles que buscam articular sentidos. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. “Apagar. colocar em lugares criados especialmente para eles). sem emoção.. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. pelo menos. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. O “matador frio”.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. todos os “exotas”. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. para SADE. AULAIGNER. “em demasia”. no dizer dos racistas. ainda mais. por si próprios. guerreiro e sedutor. doentes de AIDS. Quem não se amolda deve ser liquidado. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. como escreve P. num mundo a priori hostil ou indiferente. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. soropositivos e. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. 55 . o homem dinâmico. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. um piolho a ser eliminado. do outro. 1835. Compreende-se. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. os que não se assemelham aos indivíduos que. assim. p. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. Como dizia um chefe de empresa. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. De um lado estão os vencedores. em seu corpo como em seu espírito. 103-104). “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. ENRIQUEZ). então. quer dizer. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. possam se tornar objeto de ódio ou. pelo menos. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”.

1988). Ora. em O crisântemo e a espada (1946). a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. a luta. além do reconhecimento dessa luta. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. Todo ato repreensível. a vergonha se abate sobre o autor da ação. se sinta culpável. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. utilizando-se produtos proibidos. um estudo sobre a sociedade japonesa. no interior de si. ir além de seus limites. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). aos outros. SERVAN-SCHREIBER. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). pode ser perpetrado. infeliz de quem trapacear. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. vemos proliferar.). ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. fracassar. Se não for descoberto. em sua aparência. No entanto. em condições normais. Basta que não seja descoberto. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. Essa distinção é. Se um ato corajoso – ou. Mas. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. seja ele qual for. mas o toca em seu ser social. escalar um paredão com as mãos nuas. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. as práticas que permitem ganhar. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. a honra e o dinheiro serão seus sem que. mas pela vergonha. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. simplesmente. é preciso que seja conhecido por todos. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. sem dúvida. Assim. Se ele for conhecido.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. por isso. Ela supõe. 56 . da agressividade. da inveja e do amor. Tudo está no ato e em sua visibilidade. Essa última seria uma cultura da vergonha. Da mesma forma. L. portanto. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. voar em asa delta etc. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa.

apesar de suas imperfeições – normais. Com efeito. o fanatismo. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. postos de lado. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. Porém. (c) que os ideais fortes. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. o corpo se encarrega de fazê-lo. lendo as reflexões precedentes. nascem a cada dia sob nossos olhos e. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. nas sombras. necessariamente. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. necessários à vida humana. pelo jogo de aparências. privilegiando a aparência. Não se deveria pensar. atos dos mais contrários à moral comum. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. com um único passe de mágica. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). já começa a ser profundamente criticado. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. quando não é possível falar-se a si mesmo. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. felizmente -. sem culpabilidade. contra o racismo. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. contra a pobreza etc. são suspeitos. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. podem ser criados sem que daí decorra.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. as notas frias. que o jogo está feito. a lavagem dos narco-dólares. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas.

governa seus discursos e seus atos. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). Nesse momento. não desapareceu e não está 58 . pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. poderão. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. de afirmação ou de identificação. pela alegria. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. na doença da idealidade. por isso. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. de crédito. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. esses “esquecidos” da sociedade. com sua carga enigmática.). pelo sofrimento. a delinqüência. a droga. evitando o Charybde da exterioridade. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. encontram-se na mesma situação todos os que. assim como pela capacidade de sublimação. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. os animadores socioculturais etc. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. necessariamente. de espaços. Mais ainda. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. tal como tentei delineá-la. mesmo se a interioridade. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. começam a se fazer perguntas. Sem dúvida. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. de indústrias. aceitando as regras do novo jogo. veladamente. entretanto. deverão se precaver. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. sem dúvida. as perguntas. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. ser tratadas “na interioridade”. trabalhadores incapazes de se readaptar. eles ainda as fazem “na exterioridade”. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. Na realidade. busca de identidade. Esses “excluídos”. Eles não se dão conta. Sendo assim. Esses sujeitos. Entretanto. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. os ferroviários.

). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. do culto do inconsciente e dos instintos. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. Entre la marionnette et Dieu. p. involuntariamente. p. a Bildung do homem alemão. Topique. Paris: Aubier. 1976. da salvação e da justificação da vida pura. 34. na qual o mundo objetivo. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. ENRIQUEZ. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. Paris: Aubier. 37. por Sonia Roedel. como diz Lutero. 1962. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. com suas difusões amplas). com a formação.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Referências ABRAHAM. p. XVIII. em suas constituições. citado por L.Topique. o mundo político. Quanto a KLEIST. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. da T. E. 59 . N. tão diversos quanto GOETHE. com o aprofundamento do eu puro ou. da poetização do universo. 1989-2. e TOROK. assim. ENRIQUEZ. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). então. 1987. Le Verbier de l’homme aux loups.). 1976. é a inquietação com o cuidado. espírito racional e humanista por excelência. Segundo o Larousse. assim. seu oposto. (N. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. v. 3 Cf. 1976. Paris: Seuil. 2 Grandes escritores alemães. GOETHE. S. Cf. p. é uma consciência cultural individualista. Considérations d’un apolitique. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. em termos religiosos. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. Individualisme apolitique. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. Eugène. M. pela emoção. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. (N. as autobiografias. os “diários de bordo”. Rio de Janeiro: Imago. 5 FREUD. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. NOVALIS. Inácio de Loyola. 89-112. N. In: Sur l’individu. ABRAHAM. L’écorce et le noyau. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. é a absorção em si ou introspeção. da T. o romantismo. “expressão pela qual Sto. DUMONT. 1985. é. p. o homem dos Hinos à noite. 61-76. 38-53. 4 Como um cadáver (em latim no original). reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. 163. o gosto pelo mórbido. sobre KLEIST: E. 135.

narcissisme de mort. L.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. A. 1961. 1984. Le retour du courage. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. n. Aux carrefours de la haine. In: Essais de Psychanalyse. 1965. 1982. 11. Paris: Les Belles Lettres. 1975. E. J. 1942. R. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. nova. 1985. R. 1986. La chambre claire. Paris: Payot. Les visiteurs du moi. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. L’identité. Topique. 1983. p. Biblio-Essais. Le sabre et le chrysanthème. 60 . “Condamné à investir”. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. DEUSTCH. BARTHES. Paris: Seuil. C. 1981. L. 1987. GREEN. 34: 89112. VERNANT. BENEDICT. SERVAN-SCHREIBER. Barthes par lui-même. MIJOLLA. retomado em Nevroses and character types. Psychoanalitic quaterly. W. FOUCAULT. V. SEGALEN. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. S. DUMONT. ENRIQUEZ. Paris: Ed. p. GREEN. Trad. Paris: Seuil. Paris: Gallimard. H. EPI. FREUD. franc. Trad. 1982. Topique. In: LEVI-STRAUSS. 1962. reedição. ENRIQUEZ. 1980. Paris: Gallimard/Seuil. E. 1946. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Paris: Grasset. 1987. Hogarth Press. BARTHES. “Individualisme apolitique”. “L’Individu dans la cité”. de Minuit. 1985. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. Nouvelle Revue de Psychanalyse. ps. R. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. Paris: Gallimard. 25. Paris: Payot. de. Trad. A. Tomo I. M. In: Sur l’Individu. R. J. Notes sur l’exotisme (1908). Narcissisme de vie. P. 309-330. In: Sur l’individu. M. 311-321. Picquier. 1984. A. D. 1970. P. 20-37. Paris: Seuil. 1987. 37. ENRIQUEZ. WINNICOT.

um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. pois pode-se. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). no entanto. de início. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . sem dúvida.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. Vamos um pouco adiante. Ora. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. então. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. Todos sabem e reconhecem isso. neste texto. as análises dos grupos em estado nascente. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. esse problema é capital. para existir. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. em um imaginário social comum. à primeira vista. no entanto. Tal sistema de valores. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. Um projeto comum significa. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. São mais raras. O que parece. mas não se está à altura de compreender.

correndo esse risco intelectual e social. Para serem operantes. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. Ora.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). ele pode nos atrair. Todo grupo funciona à base da idealização. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. aquilo que queremos vir a ser. sagrado. ele se apresente sob um aspecto religioso. nela. Da ilusão à crença. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. motor de nossa conduta. consciente e inconscientemente. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. num grau maior ou menor. da ilusão e da crença. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. trata-se de sentir coletivamente. transforma-se logo em um sistema de crença. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. nos inspirar. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. todo trabalho de interrogação sobre si. mas afetivamente sentidas. é necessário que. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. Mas esse sentimento. A ilusão deixa igualmente sua marca. Não se trata unicamente de querer coletivamente. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. pois ela é o elemento que dá consistência. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. com uma força particularmente viva. inatacável: assim. vigor e “aura” excepcional. a nossos próprios olhos. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . a passagem é rápida. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas.

de maneira mais ou menos forte.O vínculo grupal (deve. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. missão a cumprir. abusivamente sem dúvida. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. Embora um grupo. Todo membro de um grupo é. verdadeiramente. em certa medida. Todo militante político pensa do mesmo jeito. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. na formação de todo grupo. possa perder parte de suas ilusões. consequentemente. assimilando. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. idealização. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. Causa a defender. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. 63 . Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência.). bem à vontade. existente há muito tempo. esse não é o problema. grandiosa ou pueril. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. a revolução etc. para se desenvolver. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. E isso não acontece gratuitamente. sobre a possibilidade de sua impotência. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. A causa pode ser sublime ou irrisória. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. Idealização. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. pois. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. suas práticas à da Psicanálise como um todo). Assim. FREUD já pensava que a Psicanálise. deveria ser defendida como uma causa. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). o militante político arrisca. sua vida).

antes de tudo e contra tudo. mais modestamente. para se reforçar. queira triunfar. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. um dia. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. algumas vezes de uma só3 . acreditar que está com a razão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. isto é. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. caso uma minoria. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. de uma profissão ou de uma disciplina). o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . ela deve. Pouco importa. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. Toda minoria tem. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. sem exceção. Essas pessoas sabem que. geralmente. se tornar a dissidência de muitos. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. Do contrário. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. triunfar. nós o sabemos. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. A maioria não tem jamais uma causa a defender. imperativamente. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. antes de chegar a seus fins. As idéias novas. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). Eu serei menos afirmativo. sua luta não terá alma nem razão de ser. talvez mesmo. isso significa que ele se pensa. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. ela deve primeiro. membros do grupo. vocação majoritária: mas. pois. propagar-se como uma mancha de óleo e. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. Para isso. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. no caso de sucesso. A maioria não tem jamais um grande propósito. progressivamente. mas direi que.

mas pela luta. sob certos aspectos.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). com efeito. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. Assim fazendo. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. 65 . ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. A Psicanálise. desmistificando-o e desmitificando-o. E na maior parte das vezes ele o é. mas propõe novas idéias. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. contra um exterior percebido como tão obscuro. visando à repetição. deram certo. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. enquanto elemento da regulação social. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. vista como pulsão agressiva). A contestação. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. Como essas representam a ordem paterna. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. pois se funda em instituições sólidas. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. ela é. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. mas à sua transgressão. explicitando o implícito dos comportamentos. no passado. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. Toda instituição. Para que a vitória seja possível. ao contrário. o grupo vai tentar destruir as instituições. novas maneiras de ser ou de se conduzir. tem por objetivo questionar o sistema vigente. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. Assim. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. enfim. visando não à contestação da ordem existente. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. maneiras inovadoras de ser. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. mas que um novo saber apareceu. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. Ela não visa a propor outra coisa. por exemplo. A transgressão. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto.

Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. isto é. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. deve criar um acontecimento irreversível. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. violência fundadora de um novo mundo. a não ser entre irmãos. não obstante. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. Se ele faz parte do grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. todo grupo. porém sem sucesso. Sem essa vontade de destruição. graças a esse imaginário comum e não a outro. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. a priori estranhos ou rivais entre si. em outras palavras. amor ao grupo enquanto grupo. aliás. Não há complô verdadeiro. O reconhecimento do desejo Em um grupo. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. irmãos uns dos outros. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. ao menos. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. não ser rejeitado. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). amor mútuo. Ódio ao exterior. tornar seus sonhos reais. fazer-se aceito em sua 66 . seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. FREUD. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas.

inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. em seu ser insubstituível. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. quer. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. querendo formar uma comunidade. não teria podido fazer parte da conjuração. ser reconhecido como um de seus membros. O único problema é a mais estrita identificação. igualmente. às quais cada um deverá se submeter. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. eles devem se identificar uns aos outros. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. De todo jeito. Essa semelhança buscada. Assim sendo. em maior ou menor grau. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. homogêneos. Aliás. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. é o desejo de reconhecimento que predomina. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. Assim. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. não devem ser muito diferentes uns dos outros. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. O grupo. eles se tornarão semelhantes.O vínculo grupal diferença irredutível. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. se não o desejasse. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. para que possam se amar. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). em um grupo. nesse caso. um corpo social completo. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . diferenciação A MASSA Num tal caso.

3. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. O grupo. de indivíduos os mais emocionais. avança cego. Aliás. abismo. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. Ao contrário. tomam um vigor particular. face a um grupo “sorvedouro. no grupo. por ser o mais forte e o mais belo. delação. Ocorrerão comportamentos regressivos. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. 68 . O grupo se torna objeto de todos os investimentos. Assim como. à primeira vista. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). não parecem defensivas. a partir de MARX. progressivamente. Que ele se guarde da desilusão. desenvolver condutas que. tomando as características de um corpo todo-poderoso.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1.5 2. sentimento de um meio hostil. igualmente. coberto de certezas. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. com efeito. angústias de explosão. LEFORT).A compacidade do corpo formado vai.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. que será particularmente dura de suportar. então. mas que. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. de tipo defensivo: suspeita mútua. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. sem que se perceba.A falta de diferenças provoca. a degradação da reflexão e da inventividade. influência. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. portador da “verdade” (!). Estamos.A semelhança pode. senão os mais perturbados. sem-fundo”. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. 4. a falta de inovação e.

Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. No limite. A tolerância existe. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. Em tal caso. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. ao contrário. “níveis insuportáveis” (FREUD). encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. os educadores. Os membros do grupo são. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. então. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. por acaso. em um centro de jovens inadaptados. serão excluídos do grupo. tive a surpresa de 69 . No entanto. Todo mundo. como frouxos ou traidores. cada qual acreditando deter a verdade. (Assim.O vínculo grupal 5. então. de negociações rigorosas. como a cooperação idílica não existe mas. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. Se não se trata de questionar o projeto comum. em certos momentos. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. em seu interior. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. a administração. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. O grupo se centrará em si mesmo. de argumentações contraditórias. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. ao contrário.Se. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos.

insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). uma influência que vem do domínio das idéias. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. Entretanto. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. Para não chegar a esse ponto. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. Esse. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. eu deveria ter ficado menos surpreso. será tentado a achar um bode expiatório. repetição da palavra do mestre. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. assim transformado. 70 . acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. Nesse caso. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. por isso. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. ao contrário. nos países ocidentais. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. Em qualquer caso. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. mestre do pensamento e da ação). os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. “personalização do poder”.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. É raro ouvir professores falarem de estudantes. Fenômenos regressivos do tipo submissão. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. se torna um grupo edipiano. é freqüente. enquanto professor.

querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. sendo bem sucedidos ou não. tornar-se majoritário. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. Com efeito. os grupos não podem se esquivar. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. o campo social. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. os membros do grupo estão condenados ao amor. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. podem. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. Assim. transformado muitas vezes em processo de erotização. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. 71 . se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. Ora. inscrever seu sonho na realidade. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. para existir. a única digna de ser respeitada. Se o grupo é bem sucedido. se consegue impor os seus ideais ou transformar. Essas questões não podem ser elucidadas. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. pois um grupo minoritário. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor.O vínculo grupal Mas. o grupo corre o risco do fracasso. de todo modo. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. se somos suficientemente amados. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. em maior ou menor grau. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. O amor desemboca no ódio. igualmente. isto é. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. para afirmar a primazia de sua posição fálica. mas quem são os amados e os rejeitados. o grupo minoritário que. Correlativamente. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. do mesmo modo que estão condenados à crença. como já constatamos. mas também os fracos.

Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. educadores. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. para dizer que ele ainda subsiste. isto é. além disso. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. Se. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. isto é. no entanto. por exemplo. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. se ele não provoca impacto social. mas outro que está ainda para ser encontrado. o organizador do grupo. Com efeito. de outro lado. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. psiquiatras. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. os marginais. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. É preciso. Ela representa uma tentação constante. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. mas não é um resultado inelutável. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. Com efeito. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. De fato. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. é o contrário que seria de espantar. o grupo fracassa. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. serão inventados segundo as necessidades e. ele vai procurar as causas de seu fracasso. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. em um processo de análise: 1.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. Muitos observadores se espantam. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. 72 . Ora.

arriscar-se a ser amado. serão feitas análises superficiais. 73 . que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. em vez de favorecer o seu esclarecimento. Aí também há muita ilusão. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. Se.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. assim. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. em certos casos. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. e o disse muito bem. É importante não nos esquecermos. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. no entanto. de crença e de ilusão. Ela pode levar à dissolução do grupo. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. Deveríamos. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. De fato. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. a tomada de consciência se produz. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. Além disso. 2. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. em muitas circunstâncias. FREUD disse isso. de maneira recorrente. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). às custas do mal que nutrem com gosto. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. Outras vezes. há muito tempo atrás. o grupo levantará as mesmas questões durante anos.

631-637. P. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. fui o único a me ocupar dela e. ao mesmo tempo. Cf. “L’illusion mantenue”. PONTALIS. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Por dez anos. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. suas relações de poder. Ma vie et la psychanalyse. Eugène.U. LEFORT.F. mas é preciso não querer ir muito longe. J. Seuil. no 360. Um homme en trop. 2 3 4 5 6 74 . MOSCOVICI. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. C. Psychologie des minorités actives. p. S. “Le lien groupal”. por José Newton Garcia de Araújo. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. n.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. por dez anos. 4. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. suas angústias e. uma solução. Segundo os termos de C. Nouvelle Revue de Psychanalyse.” (FREUD. CASTORIADIS. 1983. em caso algum. S. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. Bulletin de Psychologie. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. B. Tomo XXXVI. seus antagonismos. Gallimard).

OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. não deve. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. é porque me parece que essa tendência. Devo acrescentar. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. se me detive a explicitar tal proposição. 1985). Entretanto. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. na verdade. atualmente. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. então. tanto no Leste da Europa. Espero. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. Com efeito. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. 75 . 1983. convincente e inquietante. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. os acontecimentos que se produzem atualmente. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. de modo algum. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. em Grenoble.

pode-se dizer que. A referência dura se exprime para mim. a Deus o que era de Deus. 1989). está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. além de nos sentir para sempre em dívida. A religião produz então o “ser-junto”. um ritual compartilhado que é preciso defender. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. sem deuses ou sem Deus único). *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. sustentadas por rituais 76 . As crenças. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. no renascimento do (ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. o papel que lhes estava destinado. ou seja. ela nos religa uns aos outros. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. necessariamente. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. de maneira privilegiada. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. sem totens. seja como ser coletivo). apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). isso não a obriga. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. Pois bem. No conjunto. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). se depurando. elas não colocavam mais problemas particulares. Ao contrário. ao longo do tempo. A César o que era de César. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. o fanatismo religioso – isto é. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. as grandes religiões monoteístas foram. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. sem lhe outorgar. igualmente ENRIQUEZ. um dogma. Assim. com relação a ele. sob pena de exclusão da comunidade. no entanto. às vezes com reticência. a crença exacerbada em um mito. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos.

aspirando assim. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. dos padres operários. mas foram se laicizando. na França. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. como desejava DURKHEIM. ENRIQUEZ). um estado psíquico onde o conflito não aparece. a longo prazo. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). sem se dar conta disso na maior parte do tempo. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). Todos os homens. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. ARON. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. Algumas religiões. o Estado como aparelho separado. laicas (E. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. não assistimos. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. ao “desencantamento do mundo”. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). J. O episódio. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. STOETZEL). a qualquer preço. passam a se desenvolver. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. a longo prazo.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. Entretanto. porque é 77 . Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. do declínio de uma fé sincera e manifesta. como medida de todas as coisas. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. profanas (MOSCOVICI). mas à criação de religiões substitutas. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas.

É. quer sejam os pais. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. de ideologias totais (LYPSET. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. de votos etc. por ENGELS e. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. sob a IIIa República. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. pois. A ideologia pode. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. não como uma ideologia (quer dizer. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. na França. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. 1976). a boa forma da obediência aos que detêm o saber. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). da ideologia de granito (LEFORT. tal como a ideologia republicana. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. Quando falo de religiões substitutas. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. mais ou menos fortemente. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. 1963).). racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. conscientemente ou não. depois. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. pois. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. após a morte de MARX. os mestres. de serviços. de fato. (mesmo se. então. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 .

jacente em todo ser humano. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. que produzem uma cultura própria. Ela então regula essa questão central da alteridade. constituindo-se. que já mencionei. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. em maior ou menor grau. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. a negar. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. Mas é preciso observar que. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. heréticos ou descrentes. vão se impor como lei. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. a converter ou a destruir. pelo sacrifício de seus mártires. representaram um papel menor na dinâmica social. conseguiu se desenvolver. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. por seu caráter absolutista. 79 . como as religiões. quando as religiões se enfraquecem. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. que ela assegura sua identidade. então. na época moderna. ideologias “compactas” que.O fanatismo religioso e político (colonização). estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. substituindo-os por outros que. não pode estar na origem de nenhuma religião. indica que a seita. É assim que ela pode formar uma cultura. Uma religião. 1979). no cerne mesmo da sociedade. pelo ferro e pelo fogo. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. projetando-o nos outros. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. antes mesmo que seja colocada. devem estabelecer com o Sagrado. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. por sua força de convicção. como uma Igreja com seus templos. As ideologias que eu evoco são. sozinhos. reunidos em comunidade. Um grupo minoritário.

Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. desenvolveu uma política de conversão). “poetas”. 80 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. É verdade que os grandes místicos. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. (Entretanto. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. no “sentimento oceânico” (R. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. Em outras palavras. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. porque a morte santifica e promete o paraíso. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. ao contrário. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. como heróis (no sentido freudiano do termo). Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. apesar de tudo. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. de seu lado. é porque os judeus. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena.

nossas sociedades ocidentais contemporâneas. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. sem emblemas. 1971). as liberais e as “socialistas”. ideologia sem porta-voz. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. é conveniente fazer algumas observações. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. 81 . segundo a terminologia weberiana). Entretanto. ser totalmente dissociados. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. entretanto. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. que são religiões da revelação. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). intensificação da produção não somente de objetos úteis. além disso. por conseguinte. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. mas somente possível e previsível. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. São sociedades: a.Elas se enriquecem. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. eles não podem. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. 2. PALMADE). (Não existe. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. na verdade. o texto de J.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. Ora. de novas características. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). tudo se vende”. segundo o axioma de WALRAS).O fanatismo religioso e político Concluindo. como a ideologia republicana. 1. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. se certas condições são preenchidas.

concebê-lo como um inimigo ideal. de imortalidade. Assim também. LAPLANCHE. seu valor se corrói. 1967). não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. Nesse momento.sociedades que. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. d. assim. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. o trabalho perde seu significado.sociedades que. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. (Assim. c. por isso mesmo. “mãe das cloacas e dos brejos. 1989). pensar e querer o apocalipse) e. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. 82 . b. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. se desembaraçar. sua legitimidade desaparece. da qual é necessário. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. enquanto criação e distribuição das riquezas. no fim das contas. ao mesmo tempo. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). 1967.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. Sociedades sem pais e.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. realizáveis. já havia observado isso). para os homens e para as mulheres. além do furor de não poder satisfazê-los. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora.

os “desgarrados”. só há salvação na paranóia partilhada. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. no Ocidente. Mas as religiões. uma causa a defender. no limite. da corrupção). os excluídos. os esquecidos. permanecer na certeza e. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. da miséria. Contra o mundo perverso. de um capitalista. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. Eles querem se tornar um “Nós”. não oferecem mais interesse. (FREUD.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. 1930) 83 . os irmãos e os adversários. O que desejam os deserdados. O indivíduo desaparece. Daí se seguem três conseqüências. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. formar uma cultura. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. se sacrificar. da apatia. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. Essa citação dispensa comentário. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. um projeto a sustentar. da loucura. Se não somos nada além de um espartano. aquela que cria uma identidade coletiva. da exclusão. aquela que designa claramente os aliados. da ausência de um fundamento. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. A religião reclamada é a religião absolutista. do desaparecimento de referência a toda transcendência. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. de um proletário. em particular. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. de um budista.

ENRIQUEZ. a criar um mundo novo. Não esqueçamos. O fanatismo visa. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. o espanhol despreza o português”. É certo que. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. no entanto. tais como as descrevi acima. pelo menos. para ela é uma impureza?”. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . ou seja. além disso. o que é um alimento. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. então. uma imensa massa de homens. para isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. O desenvolvimento do fanatismo. da sedução ou da coerção). Quanto mais uma cultura quer se unificar. livre do mal. 1984). com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. nos diversos países. elas exigem a super-identificação à causa. liberado finalmente do mal. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. sua conversão. anunciador de um mundo novo. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. como seres a eliminar. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. o super-investimento no projeto. o inglês fala tudo de ruim do escocês. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade.

O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. É preciso. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. mas. Ou seja. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. primeiro e antes de tudo. assim. por sua vez. O fanatismo religioso é. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. no máximo. O fanatismo religioso. o Irã). sem dúvida. o sinal de seu enfraquecimento. para unificar os corações e os espíritos. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . E nós tocamos. sozinho. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. ainda. fundamentalista. resulta. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. na hora atual. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. É por essa razão que meu texto tem esse título. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. Retomemos esses dois pontos: 1. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. São Estados.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. um instrumento a serviço do fanatismo político. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. é preciso lembrar que. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. Síria). Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. o Azerbadjão. o essencial: a dimensão política. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. a se tornar dominantes (por exemplo. para que o fanatismo se fortaleça. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor.

se ela se extingue. Alemanha do Leste. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. lepenistas. Nesse caso. o convite a alguns líderes protestantes. judias). a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. b. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. Loja P2. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. nos quais não existe senão um fraco consenso.redourar o brasão das religiões tradicionais. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 .fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. judia. Se a aliança persiste. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. em nossos dias. do qual eles não saberiam o que fazer. c. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. protestante. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. ela pode ter como papel: a. que querem fazer valer sua palavra. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. Países Bálticos. Communione e Liberazione. ela designará os vencedores e os vencidos.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Eglise de Scientologie). Irlanda do Norte. certos grupos religiosos em Israel). destruição cultural. na regulação dos Estados modernos. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica.A religião não se apresenta. das comunidades islâmicas. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). sob uma forma fanática. muçulmana) na vida cotidiana da França. forçosamente. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. 2. interdição de pensar (Polônia. na França. cristãs.

a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. o Estado leigo faz apelo. mas que. o caos e o abismo. a falta de sentido. paralisar a atividade de mentalização. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. sem recorrer a referências seguras –. sem fim. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. ele tenta.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. o religioso. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. nascida desse trabalho árduo. Mas. com a ajuda de seu Deus –. de precisar meu objetivo. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. suas dúvidas. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. prontos a afrontar o absurdo. De fato. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. antes de tudo. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. 1. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. finalmente. como no exemplo de KHOMEINY). desde o início dos tempos modernos. ao contrário. não é o caso de superestimá-la. cada vez mais freqüentemente. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. Eu gostaria. 87 . às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. Se essas são capazes de inventar novos projetos. nesse caso. de reflexão e de reflexividade. laborioso. para terminar. Os homens aprenderiam. ao invés de processos de sublimação.

em si mesmo. a ideologia. Por outro lado. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. p. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. Os valores religiosos. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. na América do Sul). Eu não quis dizer.) 2 88 . tão fácil e prazerosamente. por Leila de Melo Franco S. ela lhes permite tomar iniciativas. “Le fanatisme religieux et politique”. Eugène.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. 55. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. Connexions. Ela assume então o papel de desalienação. “A última tentação de Cristo”. 1990-1. efetivamente. 137-149. Ora. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. Araújo. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. que a religião. nos seus interlocutores e. se ele não faz esse trabalho. nos fenômenos sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. Ela lhes é consubstancial. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. Se. n. na armadilha que denuncia. quando o religioso se põe a serviço do político.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. uma vez que elas são. sob pena de cair. devem ser levados em consideração. em nenhum momento. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. naturalmente. 3. antes de tudo. no outro. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. do fato nacional. quando a ideologia dura impede o livre pensar. ideológicos e nacionais. T. a perversão ou a paranóia triunfam. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. do fato ideológico. tanto quanto outros tipos de valores. (N. então a reflexão desaparece.

G. M. S. 1987. L’homme et la politique. ENRIQUEZ. LEFORT. PUG. 1985. ENRIQUEZ. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Épi. Eres.(1930) Malaise dans la civilisation. “Malaises dans les identifications”. Psychologie des minorités atives. 1976. E. 1973. LAPLANCHE. S.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 89 . 1979. PUF. DEVEREUX. 1971. PUG. Un homme en trop. S. Connexions. J. KLOSSOWSKI. G. DELEUZE. janeiro. Seuil. n. “Notations sur le racisme”. (org. LYPSET. FREUD. La monnaie vivante. . E. 1985. Présentation de Sacher-Masoch. Y.). Connexions. 1989. Epi. 1971. 1967. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. Cl. “La défense et l’Interdit”. In: La NEF. In: Autonomie sociale. sobre o fanatismo hoje. 54. Editions de Minuit. 1989. ENRIQUEZ. Seuil. 1984. CASTORIADIS. L’autonomie sociale. PUF. 1963. P. ENRIQUEZ. E. MOSCOVICI. 1967. n. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. Au carrefour de la haine. C. 48.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. de outro lado. vestuário. vividas pelos dirigentes. e o conservadorismo social e cultural da região. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. são exportados para todo o mundo (iates. individual e coletivo. sobretudo. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. Esse texto trata das instituições – como elas se criam.. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. que 91 . DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. seus produtos. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. em plena Vendée. calçados etc. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada.CONJUNÇÃO. como elas podem morrer. NA EMPRESA. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. alimentação. como elas se desenvolvem. por exemplo).2 Tais reflexões mostram. uns nos outros. já havia sido notado por vários pesquisadores. de um lado. incessante. A escolha da região do Cholet.

mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. isto é. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. de suas dúvidas. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. Em outras palavras. sobre aquilo que a empresa. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. desde sua origem até o momento atual. convidados a falar a respeito. depois. era. para si próprios. suas dificuldades. Uma tal aventura. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. que tais entrevistas. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. mas a empresa como objeto psicossocial. ao produto. à antigüidade. de seus projetos. entretanto. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. é. a partir de suas lembranças. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. Ou seja. evocava neles. seu futuro. 92 . sua história.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. diferenciações. num primeiro momento e. ainda que solicitadas por nós. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. segundo um método comparativo. para nós. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. Não se trata. Assim. ou ainda. entretanto. Tendo analisado esses depoimentos. como objeto no discurso dos dirigentes. caso a caso (empresa a empresa). clivagens. com efeito. pudemos pôr em evidência certas constantes. a partir de sua criação. o qual é vivido como o fundamento da empresa. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. que são ao mesmo tempo seu principal tema.

conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada.a terra ou a região. . na origem. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. quer dizer. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. quer se exprima pela relação com o solo. também.o ofício ou o produto. de Bocage. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. de maneira mais extensa. locais e regionais. . histórica e sociológica. com a região (no caso. na empresa. quer dizer. a terra ou a região. sua cultura. argila. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas).) que se trabalha ou. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. podem ser resumidas da seguinte maneira: . quer dizer. com o território (nome das cidades. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. de maneira mais abstrata. conceitos verbais. cuja combinação constitui o sistema de sustentação.Conjunção. geográficos. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. suas tradições e a 93 . nota-se que. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. de um projeto pessoal e familiar. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. ou ainda. De maneira mais geral. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e.a família. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. quer dizer. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. com freqüência até mesmo joint families. Nesse último sentido. a partir do qual elas podem se desenvolver. aquilo que é ligado aos locais físicos. embora todas tenham dependido. a regiões de Mauges. Essas três entidades. grão etc. A terra Essa referência é onipresente. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto.

o lugar dessa é aí dominante. de empresas familiares. em nome de uma certa ética. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). contribuindo para o renome da cidade ou da região. “não ficar falando abobrinhas. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). mas também um sentimento de segurança. físicas e morais. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. nas relações e atitudes: assim. na maior parte dos casos. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. Desse ponto de vista. tanto no imaginário quanto no real. um conjunto de obrigações e de restrições. eis nosso jeito fazendeirão”. em caso de dificuldade. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. a empresa é um projeto de família. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. no sentido concreto. “a terra”.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. A família Tratando-se. vira tudo uma máfia”). 94 . A “região”. bem como uma fonte de riquezas. mas também no metafórico. atividades e lucros organizam-se em torno dela. não se pode fingir”. simultaneamente. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. constituem então. Antes de ser um projeto pessoal. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. assim que ultrapassamos a fronteira. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações.

“sociedade de família”. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. de papéis e de procedimentos formais. então. “sociedade familiar” ou. geralmente. ainda. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. de fato. é certo. SA. “empresa familiar”. sendo um dos dois sexos. inclusive com empregados. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. Da mesma maneira. por um lado. na sua origem. Compreende-se. de um projeto pessoal e familiar. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. como “a realização de seus antepassados”. na empresa. e o capital e os salários. A presença da família e de seu passado se traduz. Naturalmente. 95 . Como se pode notar. no início. de outro. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). descartado. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. designada como “negócio de família”. mas também nos fatos reais. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. num primeiro tempo. Assim. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). As estruturas e as relações de poder são. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). inclusive para outras aglomerações.Conjunção. onde empregados e patrões podem comer juntos. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. quer dizer. entre os bens e os dividendos pessoais. fortemente personalizadas. seja pelos homens (os filhos). Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. sendo também imagem das relações de parentesco. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. as relações de autoridade. então. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos).

lenços da região do Cholet. Apalpar essa matéria. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. –. uma fonte de problemas e de conflitos. Assim como para a referência à região. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. O ofício. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. da receita ou do jeitinho de fazer. Está diretamente associado às mãos do artesão. casamentos. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. um elemento de coesão e também uma limitação. transmitidos de geração em geração. o produto Em função de sua origem artesanal. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. uma inspiração. couro etc. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. freqüentemente. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. A história da empresa é assim. a maior parte das vezes. rupturas. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. os sindicatos independentes são mal tolerados. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. Nessas condições.. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. seus vizinhos. com os acontecimentos familiares – mortes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida.

Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. em desligar aquilo que estava ligado. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. para garantir as evoluções indispensáveis. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. profissionais. o ofício. transmitido de geração em geração. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. eles formam então como um bloco compacto. –. Sua história. pelo menos em parte. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. constatou-se. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. de um projeto pessoal e familiar.Conjunção. Entretanto. estão imbricadas umas nas outras. não são entidades independentes. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. encarnada na pessoa do fundador. à terra. vêse então que. para o dirigente. trata-se de um conjunto extremamente coerente. ele supõe a adoção de atos concretos. não em negar. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. De fato. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. na empresa. cujas partes. que asseguram sua identidade e a base da empresa. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. Esse processo não se realiza sem problemas. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. Consiste. essas três bases – ou instituições primárias –. com efeito. Juntos. o marketing etc. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. sangue ou mãos). elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 .

o deslocamento. da afetividade à separação. portanto. Nos termos de T. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. O ponto de chegada de tal processo. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. isto é. isto é. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. PARSONS: do particular ao universal. essencialmente. c. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. ao longo de toda a história da empresa. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. Esses três movimentos resumem. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. exigindo. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. principalmente.a industrialização. a transferência física da empresa para outros locais. do herdado (ou do dado) ao adquirido. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. do pessoal ao impessoal. consiste em passar de um sistema social a um outro. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. PARSONS. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. de produções. com efeito. seu objetivo. De maneira mais precisa. de estruturas de necessidades e de motivações. b. 98 . da proximidade ao distanciamento. elaboração de uma organização e. investimentos em máquinas e em locais especializados. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. de valores ou modos e redes relacionais.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a.

Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. Enfim. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. máximo. de acordo com regras precisas que excluem. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. ou ainda: “das famílias na sociedade. adquirir as competências ligadas à gestão –. obrigado a repartir o poder com outros. em contrapartida. de um projeto pessoal e familiar. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. bem como uma administração capaz de a gerenciar.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. então. que põe as contas em ordem. se 99 . pode-se dizer (.. sua principal razão de ser – ele deve.Conjunção. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. a partir de então. ele não pode assumi-las todas e é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. regidas segundo técnicas e métodos importados. com efeito. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. na empresa. bem como na composição do Conselho de Administração. O envolvimento da família é. a entrada em cena de um contador. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. freqüentemente.. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma.

no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. pela definição de papéis e critérios decisórios. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families).Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. Eles são. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. pois. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . ela se baseia em competências que eles adquiriram. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. mostra-se assim sempre indispensável. podendo implicar até em falência. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. sócios etc. Progressivamente. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. o que permite. Esses estão. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. geralmente fora da empresa. transformando as relações de poder e os modos de pensar. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. portanto. melhor formados) e a da clientela. principalmente entre os (jovens) dirigentes. Esse processo não se realiza de uma só vez. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. portanto. com efeito. a estrutura de pessoal (mais jovens. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. freqüentemente. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. colocados numa situação extremamente conflitiva. mas. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). –. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. pela instauração de regras explícitas e. É. por conseguinte. como para qualquer chefe de empresa.

preservar uma base local. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. isto é. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. outras aspirações. permitindo administrar as contradições. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. 101 . no entanto. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. – e o questionamento de vínculos anteriores. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. Em todos os casos. encontramos respostas extremamente diversas. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. manter uma qualidade de vida e de trabalho. para si próprio como para o ambiente é. considerado preferível a uma expansão sem significado. Se o deslocamento para outra região. E. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. uma tomada de distância em relação à terra natal. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. necessariamente. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. o solo no qual a empresa se situa. é importante para reduzir. outros modos de relação. a empresa adotar uma estratégia de exportação. Se. Outros se orientam para soluções. por exemplo. Trata-se. Para essa questão. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo.Conjunção. nesse caso. além disso. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. outras exigências. como uma espécie de traição. mas permitindo a sobrevivência da empresa. na empresa. pois. de um projeto pessoal e familiar. ou mesmo para o estrangeiro. bancos etc. portanto. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. renunciando a uma expansão possível.

algumas das quais podendo se situar alhures. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . margem de lucro. Um tal processo pode ser. que supõem prazos e contatos (redes etc. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. por exemplo. Todas as empresas. indiretas. ou ainda. mais ou menos importantes. face a face. entretanto. então. Seria. Como conseqüência de decisões. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. desenvolver uma rede de sub-contratantes. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. é ele. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. situadas em regiões economicamente mais propícias.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. SEU ofício que dá corpo a ele. Quanto mais eles se ampliam. produtividade. no entanto. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado.). traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. uns em relação aos outros. emerge assim uma organização. no sentido pleno do termo. as pessoas ou os hábitos de pensar. admitindo divisões e separações. é pois. por exemplo). uns sobre os outros. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. portanto nitidamente diferenciados e interligados. ao mesmo tempo. criar vínculos de dependência com eles. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. assimilado a um trabalho de luto. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. etc). onde as relações são mediatizadas pelos saberes. e de rupturas que essas provocam com o lugar. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. no entanto. por regras ou por técnicas. taxa de crescimento. evitando. são substituídas por relações secundárias. ou ainda. a rachar. mercados. As relações diretas. mais eles se autonomizam. com efeito. que manifestam um crescimento sensível. é SUA família. SUA terra.

Região situada no oeste da França. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. collectif).(mimeogr.) 2 103 . (N. ficando na ilusão de sua existência. uma tensão permanente. de um projeto pessoal e familiar.). constitutivo do sujeito. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. por Júlio M. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. sua ancoragem biológica. de sua unidade. André. do clã. sob pena de perder o contato com o real biológico. que é o seu fundamento. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. 1991. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. Mourão. de negar aquilo que é. de sua consistência. com o título Inconscient. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. organisation sociale. na empresa. no entanto.Conjunção.T. Se. existindo para e por si mesma. A instituição é um processo. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. Paris. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. 1990. é impossível. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. ele deve sempre compor com o nível primário. despregar-se. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. desprender-se inteiramente. Toulouse. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. sua fonte energética.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

pois. NICOLAÏ. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. um trabalho de tal monta é necessário e. NICOLAÏ). grupos religiosos etc. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. aparentemente. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. Essas transformações devem. No espaço até então ocupado por ela. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). finalmente. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. sobretudo. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. os “intermináveis adolescentes” citados por A. o triunfo da racionalidade experimental. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. as mudanças essenciais 107 . No momento atual. de forma responsável.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. quais são os problemas realmente essenciais. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. a fim de que as sociedades possam. LÉVY. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. mais eficazes e mais rápidos. possível. com o seu corolário. etnias. Todavia. como o evidencia Nicolaï. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. Entretanto. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. verdadeiramente. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. LÉVY e A. então. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais.

e não a nível global e em regiões centrais. pelas interações entre sujeitos. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. como o fez Touraine. com freqüência.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. desde a sua criação. LÉVY: as verdadeiras mudanças. também. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. quando anunciaram. sujeito). assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. 108 . na prática social. Ao contrário. Ela poderá. No entanto. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). Será. na atual crise pela qual passa o Brasil. para tanto. prováveis de ocorrerem na sociedade. portanto. não surgirão de tomadas de decisões formais. igualmente. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. ritualizadas. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. levantada por A. É importante ainda mencionar outra questão. antes de mais nada. seja para a sua involução. Mas. o “retorno do ator”. Essa disciplina deverá. realizando um genuíno trabalho psíquico. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. capazes de contribuir. Os sociólogos não se enganaram. suas instituições e seus diversos grupos sociais. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. Seguindo essa via. seja para a evolução social. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Esse processo é longo. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. na relação e pela relação. Nesse sentido. dar atenção especial à conversação e ao debate. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. LÉVY). faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. como têm sido feitas. interessar-se mais pelos movimentos sociais. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem.

na acepção forte do termo. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. com efeito. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. E isso se traduz em um interesse. nem sempre bem sucedido. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. malgrado as aparências. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. no modo de compreender as organizações e as instituições e. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. ainda. presente em muitos meios. a receptividade reduzida das produções escritas recentes.2 o envelhecimento. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. – tudo isso parece indicar. e observando-se toda uma série de sinais. seríamos tentados a pensar que. Se me decidi a escrever esse texto. no início dos anos 60. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. forçosamente. é porque me parece que. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu.

elas têm em comum o fato de terem pretendido.. em um determinado momento. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. É certo que a maior parte delas não desapareceu. senão a única. Essa enumeração. que evidentemente não é exaustiva. para os atores sociais e para muitos práticos. mas a vontade de inovar. elas tenham podido ser a referência principal. Mas importa. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. os métodos centrados na expressão corporal. enfim.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. Parece-me igualmente que. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. uma após outra. 110 . uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. a análise organizacional.. mais recentemente. como todo fenômeno de moda. ou. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. a análise transacional e. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. o que tem como conseqüência que. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. pode-se citar a análise institucional. Entretanto. primeiro. para os atores engajados na ação. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. desde o início dos anos 70. Embora durante alguns anos. por exemplo). uma após outra. constituem. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. em seu conjunto. de viver de outra forma. ENRIQUEZ. retomando termos de E. não apenas a inquietude e a interrogação. de ter prazer. em função do que lhes parece ser necessário. Em outras palavras.

Dessa forma. efeitos espetaculares em uma instituição. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. com vantagens. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. ROGERS (resolução de conflitos sociais. por não lhe deixar escolha. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. É praticamente certo que a análise institucional. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. fazendo assim. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. ao mesmo tempo.). meios que ele controla. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. Em outras palavras. auto-realização... eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. 111 . à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. por exemplo. eles se comparam.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. com ambições mais limitadas e incertas. incertos e custosos. intenções que. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. pelo menos – desses métodos: a. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. Certamente. LEWIN e C. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). então. na verdade. a outros métodos mais longos. desse ponto de vista.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado.

concomitantemente. então. Nessa perspectiva. Tal fascinação pelo que “funciona”. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. tudo isso é. e que. então. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. 112 . o sistema de ação concreto de M. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. mas também nas orientações cognitivas. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. aparecendo em utensílios. reduzido. especialmente a necessidade de tempo. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. dominada por relações mercadológicas e seus valores.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. a um “ator” ou a um “agente”. Essa tendência já estava presente. há que se lembrar. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. condenado a ser rejeitado. se possível. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. não garante nem assegura nada. Embora ocorram desvios. “enquadramentos”.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. automaticamente a problemas delimitados. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. “sistemas” (por exemplo. evidentemente.

demanda de encomenda – LOURAU. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. retira-lhe. Se.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. um objeto. progressivamente. ao contrário. mais ou menos explícitas. é eco de acontecimentos sociais. Assemelha-se. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. necessariamente. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. uma 113 . O conceito de demanda social Com efeito. assim como uma relação de troca. então. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. reciprocamente. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. No que nos diz respeito. no sentido de ordenar ou encomendar. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. especialmente. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. uma grande parte de sua riqueza. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). combinada então a pressões mais ou menos fortes. a demanda é. implicando um bem. inscritos em uma história coletiva que. no registro econômico. tal distinção não nos parece desejável pois. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. reciprocamente. podem-se percorrer todos os graus. uma demanda de objeto. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. assimilá-la a uma encomenda. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. Nesse sentido. endereçada a um outro. nesse caso. entre a demanda e a encomenda. a demandas por respostas e soluções. sem risco. no limite. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. Assim. que podem. com efeito. toda história singular. está próxima à noção de encomenda. há quem quis diferenciar. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. por isso mesmo. A demanda expressa. isto é. Entretanto. Primeiramente.

de uma falta. na Psicossociologia. uma certa relação de poder e de dominação. seu tratamento – é. necessário indagar a respeito de seu significado. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. seja em um quadro terapêutico. em contrapartida. mas como social. a questão da demanda – sua escuta. Por essa razão. inversamente. na acepção própria do termo. Ela se torna real por essa e nessa relação. É.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). Se. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. Ele não é evidente. Enquanto é apelo ao outro. é que. a demanda é facilmente interpretável. não é uma demanda de objeto. pois o qualificativo “social” tende. explicitada pelo objeto que designa. ajuda. freqüentemente ou sempre. disfarçando-se. a “demanda” só tem sentido e só existe. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. precisamente. no primeiro registro. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. No limite. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. inclusive e sobretudo por quem a formula. a demanda é considerada não como individual. em demanda de outra coisa – conselho. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. tudo isso não é específico da Psicossociologia. seja de reconhecimento ou de amor. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. objeto material etc. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. trata-se de uma demanda de amor. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. solução. marido e mulher etc. então. aí. sua interpretação. o que lhe dá riqueza e complexidade. sua interpretação é sempre problemática. Nesse caso. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. pelo menos em um segundo plano. dificilmente é formulada como tal. Entretanto.. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. principalmente. 114 . a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. durante um processo de consulta ou de intervenção. Certamente. no segundo. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. mas a expressão de um desejo.

há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. não há nada em comum com a posição de simples espelho. mesmo que seja de maneira difusa. transformadas em atos. mobilizadas. é necessário que ele tenha se manifestado. testemunhado através de seus escritos. reflexo interpretante. eventualmente. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. a solicitou. compreendidas e interpretadas. Assim.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. as quais. que sua prática não é aplicação de uma 115 . manifestações agressivas ou angustiantes etc. Porém. de uma maneira ou de outra. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. meios de resolver um conflito etc. podem ter efeitos nas situações que as originaram.). por sua vez. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. às quais é difícil resistir. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. nas quais elas podem ser avaliadas. Como conseqüência. exprimem-se sob formas coletivas (greves. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. das quais resultam vivências compartilhadas que. de dependência ou de submissão. De um lado. atos e palavras. mas também de permitir interpretá-las. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. quis ou “demandou”. de outro. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Ao contrário. Em outras palavras. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que.

entretanto. Entretanto.. a noção de sistema é bastante útil. mas através de princípios regendo procedimentos. individuais e coletivos. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. enigma. consequentemente. mas que traduzem um desejo. parece-nos ser uma ética. Esse ponto. no espaço desse artigo. uma empresa. da mesma forma. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. ao contrário. alguns pontos nos parecem determinantes: 1.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. na falta de outro termo.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. com a condição. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. Evidentemente. Assim. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras.6 como oportunamente evocado por J. Trata-se. independentemente das outras com as quais ela se articula. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. um serviço administrativo. uma perspectiva – que. desde LEWIN. um grupo. interagindo entre eles. afirmar que elas são. Desse ponto de vista. confessáveis e tratáveis. Tal representação exclui. uma classe de atores etc. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. principalmente. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. DUBOST. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. uma concepção da sociedade e das relações humanas. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. não é possível. uma ética. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). toda análise em termos de relações bipolares. ao mesmo tempo. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. tudo isso expressa bem o que.

FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. antecipadamente.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. a fortiori. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. desde o início da ação de intervenção. o interventor-pesquisador contra o risco de. ao mesmo tempo. sem o perceber. J. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. LEWIN.7 Porém. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). em uma relação de colaboração. igualmente. Em suma. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. 3. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. em especial. por exemplo –. então. A introdução. Sem dúvida. Evidentemente. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. identificar os dados.Por outro lado. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. Assim. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. e sendo breve. dessa forma. instrumental. é importante que todo ator e. Desse ponto de vista. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. por K. em especial. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. trata-se de tentar definir. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. aplica-se também à Psicanálise.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. 2. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e.

“o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. “saber como se foi apreendido”. da sociedade e das ciências do homem. 118 . Da mesma forma.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. então. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. brevemente. Igualmente. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. Entretanto. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. em seguida. assim como observar. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. é impossível. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. elas expressam antes uma perspectiva. uma orientação. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. FAVRET-SAADA. consideráveis nas últimas décadas. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. então. É indispensável. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. reafirmar essa posição e manter-se nela. parafraseando J. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. Embora seu enunciado seja necessário. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. de qualquer jeito. embora não suficiente. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. tentando identificar. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. nos termos de J. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. FAVRET-SAADA.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. questionar. investigar. algumas tendências atuais. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis.

de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. etnometodologia. no início do texto. por perspectivas lewinianas.10 Mais recentemente.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. Em todo caso. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. é impossível. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. certas correntes de Sociologia Clínica. cada vez mais evidentes. de uma forma diferente. convergências. hoje. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. Mostram. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. rogerianas e morenianas. assim. desde os anos 60. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. talvez rapidamente demais. de ordem geral. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. análise conversacional. impõe-se: qualquer que seja o domínio. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. não é mais aceitável. até então. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. há alguns anos. Assim. Finalmente. Por outro lado. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. de análise de grupo. dedicaram-se. a problemas de mudança social. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. com uma perspectiva bem global. dominados principalmente.

1979. 6 8 9 FAVRET-SAADA. La voix et le regard. e LÉVY. responsáveis políticos locais. sindicalistas. 2 4 5 WATZLAWICK et al. J. 1978. 1987. “Connexions”. A. 1987. JAQUES. Le sujet social. 3 ENRIQUEZ. L’Harmattan. 11 TOURAINE. ATLAN. Paris X. Tese de Doutorado.. Minuit. Dunod. E. Façons de parler. 12 BORZEIX. DUBOST. PUF. CHABROL. Como exemplos: BARUS. DUBOST. 7. paradoxes et psychothérapies.N. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. Paris: Seuil. e CAMUS-MALAVERGNE. 1985. André. Intervention et changement dans l’entreprise. 1987. 9-18. J. Y. A. FLAHAULT. O problema da mudança individual. A. L’observation de l’homme. la mort. 1987. In: ARDOINO et al. 1979. Entre le cristal et la fumée. E. O. In: Du discours à l’action. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. PUF. E. L’intervention psychosociologique. LÉVY. 1978. “L’analyse sociale”. 1989. 1965. 1977. 43. 1973. Sociologie du Travail. Dunod. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. G.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. RAPOPORT. 10 120 . Seuil. A. D. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. nos anos 60 e 70. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Por exemplo: ANZIEU. 53. e JOULE. 1984. Changements. J. Seuil. p. “Coopération et analyse des conversations”. L. TROGNON. J. 7 Cf. R. Recherches sur les petits groupes. La société du vide. les sorts. Seuil. J. J. “Ce que parler peut faire”. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. muitos outros atores apareceram: formadores. PUG. “Eloge de la psychosociologie”. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. L’intervention institutionnelle. 1983. DUBOST. Situations de groupe et relations langagières. La parole intermédiaire. 1990. H. Gallimard. Connexions. Paris: Seuil. Payot. BION. Em especial. LECLERC. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. 1972. Les mots. GOFFMAN. arquitetos etc. trabalhadores sociais. 1981. BEAUVOIS. e de representações específicas de objeto. C. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. 17. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. e BAREL. 1975. 1980. Dunod. 2:87. 1984. Connexions. Le groupe et l’inconscient. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. R. A. W. por vezes fundamentais. Connexions. 42.

essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. em contrapartida. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. retorno a uma problemática do indeterminismo. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições.3 sobretudo nas Ciências Humanas.2 Mas. o segundo 121 . em nenhuma das duas. também. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. mais do que como fenômeno excepcional. certamente. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. no campo que nos interessa.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. de forma mais ou menos clara. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. Entretanto. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. depois de LEWIN. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. tendência.4 Essas evoluções. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações.

mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. porém algumas observações prévias: a. para as constatar. com efeito. deslocamento. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. aquém ou além. por isso. mas que ela poderia se realizar. Nesse terreno. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. dirigir ou combater. definitivamente. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. isto é. de súbito. do interior e não de um ponto de vista exterior. hoje. muito fecundo.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. Antes. iria reificá-lo.5 Além disso. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. Assim. parece-nos possível. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. prever. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. 122 . no grupo (na relação e pela relação. aqui. com efeito.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. necessitando ser aprofundada. participando delas diretamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. como demonstramos num texto anterior). por definição. recristalização). O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. de uma leitura psicológica. ele permite. LEWIN. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. compreendê-la como tal. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. K. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. necessariamente.

reorientações bruscas. mutações.). Ele se traduz. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.. físico. entretanto. a um processo de mudança. redirecionamentos. econômico. não se reduz a esse processo evolutivo. Com efeito.. que é a morte) – reprodução das espécies. freqüentemente não isentos de violência.. No entanto.. “exceto do corpo que se usa”. ela é um acontecimento subjetivo. O termo mudança poderia.8 Com efeito.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. reprodução das instituições.). ao risco (.. assim. é acontecer. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. designar tudo o que está vivo.9 a mudança. seja a de um indivíduo ou de um grupo. escrevia Paul VALÉRY. é se abrir a uma história. Como já dissemos. nem todo processo discursivo se identifica.. a mudança é um acontecimento psíquico. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. tal definição é geral demais para ser útil. pois.. porém.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. como observou Paul VALÉRY. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. A teoria dos sistemas distingue. Com efeito. o desenrolar de uma existência. é o espírito que.. também. Toda vida é “repetição de ciclos”. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. lento e ininterrupto. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. (. tecnológico –. como ruptura. é sobre essa segunda significação de mudança. legitimamente. A mudança é um trabalho do espírito.. que queremos nos centrar aqui. reprodução das idéias. eles não podem ser previamente enunciados. desse ponto de vista.. à aventura. Antes de ser um acontecimento objetivo. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.

representações ou intenções e os que estimam. dos modos de pensamento. ao nível de suas significações. ao contrário. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. 124 . A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. ao contrário. Fazemos. isto é. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. por excelência. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. por um trabalho do espírito. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. Por exemplo. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. se o ato é fundador. ainda. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. As condições materiais. Para entender bem essa proposição. Ou. das instituições.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. os psicossociólogos. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. a liberdade”. então. antes de tudo. um trabalho de pensamento. depois de LEWIN. de organização ou de poder do que como um problema psicológico.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. ele o é apenas se fizer sentido. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. objetivas. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. em todos os níveis. o lugar da mudança. A decisão: momento.

do feminino. em um trabalho anterior. a divisão. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. da continuidade sem hiatos. LEWIN. por exemplo). com o risco de sua própria desagregação”.12 A decisão seria. a organização social. Os processos de decisão analisados por LEWIN. para chegar ao processo secundário e criar o real. o tempo. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. por si própria. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. 125 .13 acentuamos o ato arbitrário. uma situação nova e envolve inteiramente. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. um salto para o desconhecido. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. o psicanalista W. necessariamente. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. renunciando. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. Somente a decisão pode fundá-lo”. por si. o “golpe de força” na origem de toda organização social. só pode ocultá-lo. inicialmente. então.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. “operando uma disjunção violenta. em sua época. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. Por isso. em suas opções e em seus desejos fundamentais. da duração (bergsoniana). quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. ao mesmo tempo. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. da ordem do real-concreto-sensível.

pois. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. de forma mais importante ainda.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. que uma decisão necessariamente modifica. pois ele pode sempre ser desmentido. Toda decisão é. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. quer sejam. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). nem que a palavra seja onipotente. por seu conteúdo informativo e prescritivo. qualquer que ela seja. Isso não significa.. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida.. é o mesmo sujeito da enunciação. em si mesmo. apenas por seu enunciado. tomados como testemunhas. Um ato. ao mesmo tempo. isso significa que uma escolha. assim. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. Mas. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. explicitamente designado.” é um ato “ilocucionário explícito”. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. Mas. O sujeito de tal enunciado. manifestação da vontade de produzir. a decisão é. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. econômicas ou sociais. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. assim. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. simplesmente. modificações na realidade. as situações institucionais. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. mas porque é um ato público. Se o sujeito que 126 . esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. simplesmente. como que por mágica. não muda nada. retomado ou reinterpretado. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. não pode significar uma mudança. evidentemente. um ato de palavra.

Decisão. a uma atividade lúdica ou de encantamento. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. para fundar o real. Nesse sentido. bem antes do livro sobre Moisés. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. como diante da morte –. formal e. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. a respeito do herói. não se reduzindo. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. entre as possibilidades. conscientes ou inconscientes. eles próprios. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. Aqui. do imaginário. os desafia. Então. como muitas vezes ocorre. vazios de sentido e sem conseqüências. para um processo de mudança. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. e de abandonar o terreno do possível. sem apreender o real? 127 . talvez mais do que em qualquer outro momento. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. sob a má fé dos argumentos. inelutável. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. interpretação e prática de análise social No entanto. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. esconde mal. efetivamente. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. o jogo de hipóteses. rituais ou emblemáticos. igualmente. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI.

termo que. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. certamente. Seria importante. para fazer a história. certamente. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. sendo difícil. ela é necessariamente parcial e partidária. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. feita pelos psicossociólogos. igualmente. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. Mas ele pode. como toda decisão. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. como observa FAYE. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. FAYE15 as analisou. senão impossível. Certamente. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. implica um risco e um custo. P. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. Assim. com efeito. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. incontestavelmente. escapar dessa eventualidade. possuem as características do relato histórico. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. ao mesmo tempo. Esses sistemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. mas. tais como J. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. ainda que não tenham conhecimento disso. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. 128 . O trabalho sobre as resistências.

atuem diretamente no real. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. justificando. mais ainda. então. mas sua coerência. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. pois. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. contentando-se em esclarecê-los e. uma parte da verdade comum. ao contrário.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. não podendo ser traduzidos em decisões. É aqui que uma concepção por demais rígida. sobretudo. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 .A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. bem claramente. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. em um processo de reificação de enunciados fechados. longe de se fundamentarem no “real”. práticas contestadas ou abordadas. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. mas tende a afastá-las. no inconsciente dos sujeitos. assim. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. visto que essas. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. do risco de uma interpretação verdadeira. o texto. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. ideológico. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. diz-nos LEGENDRE. que preserva o analista social da decisão. das condutas às quais elas se referem. contribui para reforçar seu caráter dogmático. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. mas complementares. “nascendo. essas diferentes visões e o que elas ocultam. de uma mesma “realidade”. muitas vezes. cada um. subtraído do tempo”. que eles constituem visões diferentes.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. então. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. literalmente. oriundos de outras áreas. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). as crises econômicas foram. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. como crises momentâneas de coerência. mas abertos ao seu meio ambiente e. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. os atores. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). mutações e complexificação em economia tais quais formulados. Nesses períodos. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. o que não é o caso dos elementos físicos. são simultaneamente (cf. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema.Os conceitos de auto-organização. por isso. atores e autores do seu sistema. inicialmente. supra) agidos. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. *** Quais são. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. químicos ou biológicos. colocam outros problemas. em 1900. face a “ruídos” provenientes do exterior. autogeração etc. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. autocriação. 2. autopoieses. Assim. isto é. não restavam mais que 10 000). em 1950. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes.Rupturas. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são.Inicialmente. cujos elementos. capazes de se auto-regularem. constituindo-se. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. pois. os novos conceitos e hipóteses. Eles se referem a sistemas autônomos. isto é. a partir do século XIX. ou seja.

que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. na França. Nesse ínterim. encontramos poucas reflexões (na França. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. de um lado. Mas.I. de outro lado. logo não previsível. No entanto. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise.. em especial. sob a égide do Estado. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. de inovadores potenciais. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. É certo que essa escolha é aleatória. por conseguinte. na sociedade ou numa área econômica dada. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.P. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. nesse momento. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos.2 por exemplo). embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. Sua presença é vista como consolidada. entre os economistas. sob o protecionismo de MÉLINE. Essas crises-ruptura. mas isso deixa de lado os fatores 136 . amplia a margem de manobra dos inovadores que. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. o compromisso fordista empresários-assalariados. segundo CROZIER) e.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES).

Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. entre a mão invisível e o punho de ferro. a difusão ou não – de suas inovações. assim como aos fatores culturais. ao nível dos detalhes. uma teoria do fracasso. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. inerente ao sistema. Mesmo se essas teorizações existissem. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand.Rupturas. Em épocas de crises-ruptura. nesse quadro. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. nessas mutações estruturais.. CASTORIADIS).P. em cinqüenta anos. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. ele se torna o ordálio. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. ou seja. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. da designação. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. da predestinação do mais forte.I. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N.000 sociedades. 137 . Há outro problema não estudado. por conseguinte. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). tornando possível viver em perspectiva (C. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Mas ainda continua faltando. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis.

aumento do número dos agentes aí implicados. mesmo que saibamos. às vezes. o sagrado e. desde BRAUDEL.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. polimorfismo das intervenções do Estado. ENRIQUEZ): nacionalismos. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). o lúdico. 138 . à extensão do capitalismo (os N. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. devido à extensão atual do mercado e.fenômenos de regressão a formas mais simples. Ela se define (P. . BOYER.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. . despolitização.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). . .aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados.enfim.). . GROU.). embora ainda não totalmente.P. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). integrismos.outras referências. 3 . homogeneização da linguagem. poderes oligopolíticos em escala internacional. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. após dessacralização. a família e a escola).fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. ao mesmo tempo. que o Centro se desloca.I. Mas. após a solução eventual da ruptura. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. des-sindicalização e mesmo des-identificações. 3. por exemplo). da cultura. por exemplo): concorrência. . podemos constatar: .

a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. por um lado. E esses. regras ou convenções para lhe dar suporte. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). biológicos e mesmo etnológicos. mecânicos. para poderem inovar. É preciso. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. pois. 1. Essa adesão. D. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). tão caro aos marxistas de outrora.Rupturas. as sociedades animais). para cada grupo de agentes. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. REYNAUD). completamente fechado. 139 . introduzir normas. para serem fecundas. quando da sua transgressão e. por um lado. informáticos. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. Contrariamente.Nos sistemas sociais. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. por outro lado. por outro.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. das conexões) e do “salto qualitativo”. Do mesmo modo. devem inicialmente ser especificadas. o leque dos comportamentos não é. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. químicos. por seu lado. além das imposições do mercado e dos demais poderes. Ela supõe. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores).). uma interiorização das normas e uma culpabilização. como afirma o individualismo antropológico. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos.

enquanto que. em período de crise. No primeiro caso. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). Existe então. os outsiders e os parvenus substituem.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. de se expandir e. sem esquecermos ainda as marginalizações. Por outro lado – apesar de KEYNES –. a modificação do tipo de conjuntura. por isso mesmo. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. inovações.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. acumulação. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. No total.Quando há ruptura. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. seria preciso distinguir. da sedentarização ao nomandismo). O imaginário da destruição pode. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. pelos golpes das OPA.5 o pessoal patronal). então. por fim. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. no segundo. 140 . mais nitidamente. por exemplo). devendo encontrar. dos fatos de regressão (por exemplo. em seguida. 2. de sua unicidade histórica. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. as ocasiões de experimentar. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. 3.

representações. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema.). existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. por exemplo. Cf. n. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes.Rupturas. a aquisição de conhecimentos e de representações.T. então. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. então. por conseguinte.). uma mutação estrutural. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais).As estruturas (as relações de complementaridade e.T. Paris: ERES. 2. Revue Économique. 40. por conseguinte. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. N. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. 1990. um esquema ideal típico. 2. n. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). por Teresa Cristina Carreteiro. normas. A continuação do funcionamento implica. Ruptures. Connexions. tal como: 1. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. mutations et complexification en économie (mimeogr. V. 3. Cf. 55. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. André.Mas a adaptabilidade do sistema. “L’économie des conventions”. 141 . março 1989.). a adesão às normas e. portanto. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. para experimentar as inovações. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. “esgotamento da relação salarial fordista”). “Malaise dans l’identification”.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

a qual. de criança o reinado. Atualmente. porém robusta. precedeu uma crise política. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. então. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. (Hobbes) Tempo é criança brincando. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. talvez anuncie o fim delas. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. MARADONA. por sua vez. por exemplo. Do mesmo modo.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). MITTERAND. ROCCARD. (Heráclito. quando não destroem a sociedade em questão. 3. de algum modo. Assim. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. BRANDT. precedeu uma crise econômica.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. nos anos 60. condições de “saída da crise”: l. no 52) A crise das identificações. a introdução de novas referências. João Paulo II. E. e os transforma em autores das mudanças. “desfusão das pulsões”. 143 . 2. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. criam. 4. de incertezas). jogando. não se trata mais de crises (isto é. TAPIE e outros). Fragmentos. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. Pois essas “perturbações”. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. No Ocidente. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é.Ela mobiliza atores em potencial.

Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. de assimilação e de inovação. reativados ou mesmo imaginados). inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. angústias de identidade. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. com todas as posições intermediárias possíveis. ao contrário. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. para todos. O resultado é que. diz FREUD. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. a categorias socioprofissionais e. desses imaginários de projeto. não apenas a realidade parece incerta.Ela libera. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. assim. tentativas de reconstrução. o individualismo ilusório ou de oportunismo. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. as “intermináveis adolescências” que. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. 6. localizadas e transitórias. a grupos étnicos. pode-se reciclar também a identidade. levados pela incerteza das situações e do futuro. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. a tipos de personalidade diferentes. ao mesmo tempo. por um lado.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. de modos diferentes.No final de contas. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . por outro. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. é claro. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. O “mal-estar na identificação” traduz. assimilam e transformam. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros.

E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. Fenômeno que ilustra 145 . da empresa etc. Assim. Por exemplo. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. gorros cristãos etc.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. é paralela à involução identificatória de seus membros. a regra e as sublimações. da igreja. organizacionais etc. e a aparência NAP) pelo simbólico. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. solidéus – kipas – hebraicos.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. finalmente.3 A família. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. em vista da emancipação para o societário e a individuação. é claro. a. regionais.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. de classe. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). nacionais. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. profissionais. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. c. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. do racismo. nos dois sentidos do termo. as reativações religiosas atuais no Irã. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. A identificação que não se desvencilha do partido.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. b. religiosas. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir).

Psicossociologia – Análise social e intervenção bem.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. é. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. “tem necessidade dos homens”. o narcisismo individual. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. Quer dizer que o narcísico. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. às avessas. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. entre 1983 e 1988. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). isto é. justamente porque mais na moda.Mais interessantes. especialmente na França. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. exatamente como Deus. por sua vez.Do primeiro diremos pouca coisa. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. Ela é. com o dinheiro. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . fortalece as exigências da necessidade econômica. primeiramente. O retorno pode ir ainda mais longe. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. além disso. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. b. E isso. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. a. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. sendo aliás esse que permite aquele. principalmente. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. ipso facto.

se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. induz não ao 147 . Por enquanto. o prestígio etc. notemos que o modelo do sucesso individual. simultaneamente. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. manter ou criar os meios de aumentá-la. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. em substituição ao “Mudar de vida”). o mercado. mais tranqüilizadora. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. em prêmio de Schadenfreude. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). é mais simples escolher a binaridade. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. numa androgeneidade fecunda. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. Isso é talvez patológico. o sucesso dos outsiders permite também e. de junho de 68. “Criem sua própria empresa”. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. essa acumulação pecuniária permite. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. Além disso. o festivo. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. caso se propagasse a todos os agentes. Na verdade. Assim. se ela for realizada. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. O dinheiro. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES).Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. A monetarização. talvez.) permite. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. se autodestruiria. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. Enfim. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. Entre a binaridade e a injunção contraditória.

daí resulta. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. passa-se rapidamente. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. esse narcisismo manipulador. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. adolescência e pós-adolescência -. em contrapartida. um cavaleiro solitário. nas três etapas – puberdade. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. entretanto. Acrescentaremos apenas algumas observações. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. cada um será. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. Intermináveis adolescências. a nítida binaridade do mercado. 1. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. No caso de fraqueza delas.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. a individualização extrema dos novos modelos. (T. necessariamente. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. a programação dos computadores das Bolsas) que. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. ao insolúvel. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. na época atual. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. logo. a partir de elementos de vestuário comuns.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. pois. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. por historiadores como BRAUDEL ou I. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). no que tange à história do capitalismo. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. como. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. em certas regiões. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. não podem ser reorganizadas e reorientadas. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. 154 . antigamente atrasadas. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. pois. uma vez instaladas. conjugada com a manutenção dos objetivos. Além disso. Além disso. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. pelo menos em muitos jovens. Assim. produzem-se onde não se espera e constituem. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. por exemplo. “surpresas”. É por isso que as revoluções. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. Com a condição. mesmo que sejam minúsculas. Nesse caso. inclusive jovens executivos12. Pode-se. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. fora do controle exercido pelo Centro. entretanto. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo.

substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. a personalidade arrisca-se a desmoronar). do espaço. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. Assim.). política etc. GODALIER). logo. Paralelamente... O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. no adulto não é a repetição mas. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). E como se sabe. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. jogo de empresas. unicamente confirmadoras da identidade.. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. as identificações são. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. a captação do lúdico (jogo de papéis. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. idealmente. Mas. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. dos prazeres. cujas identificações seriam. Em contrapartida. ao contrário. dos valores. das idéias. por sua superação. no início. aí. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). mas existem. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. ainda mais.) pelas outras. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. a conformidade e. em seguida. das coisas. MC DOUGALL)..Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. diz WININICOTT). numa situação de mal-estar. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. constitutivas da personalidade e. podemos contrapor. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. mas é também uma dimensão de todas as outras (M.

a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. Essa é.experimentam-se. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. como vimos. então.a dificuldade está. por exemplo).Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). em identificações hierárquicas.13 Fundamentalmente. então. . tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. . A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes.tentam-se. em transformar as identificações laterais. então. entre esses tipos extremos e opostos. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. representadas e transicionais. ao mesmo tempo que se escreve. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. DUPUY. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. Desse modo. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. Mas. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. sem dúvida. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. imprecisas e transitórias. . . com o 156 .

aliás. da maioria dos marxistas. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. Essas apropriações podem. no fim de contas. outsiders ou reciclados. das utopias (“mudar a vida”. Daí a multiplicidade. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. Há. das coordenações pelos sindicatos etc. pois. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. de bandeiras. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. Algumas conseqüências 1. às vezes. em concorrência). Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. Chegando à encruzilhada. dos indivíduos e da identificações 157 . podem entrar em conflito. Enquanto isso. que apesar de HEGEL. (O que prova.. e das intermináveis adolescências. em 1981). Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. como na tectônica as placas entram em fricção.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. tanto para os autores das mudanças. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. o fim da história só concerne a cada indivíduo). por isso. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. o mal-estar subsiste. quanto para aqueles que o desemprego.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. com a eliminação das organizações. de passagem. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. de fetos ou de liberdade de viajar. na Colômbia ou alhures. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente.. apesar de tudo. 2.

das normas e das formas. então. por um momento denegadas (entre os sexos. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. Talvez.Mas sabe-se também que o vínculo social e. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. O barroco societário atual é. os espaços. as gerações. Por isso. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. como alguns dizem. amanhã. Os signos (o sol. 3. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. um momento dessa ascensão.). Ora. ENRIQUEZ. pedidores de emprego. as únicas referências ainda fidedignas. encontramo-nos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. os tempos. necessariamente. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. ao mesmo tempo agradável e funcional. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. E a que corresponderia. portanto. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. talvez. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. 158 . sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. a estrela polar) são. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. principalmente). e a complexidade progressiva do sistema. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. as culturas etc. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA.

no adulto que eles se tornariam. n. Hoje ele teria. Tomo 1. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. a receita das identificações complementares novas (e. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. Pléiade. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. Estaria a saída. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. 61-78. 1990-1. Temos assim uma alternância de interpretações.]. por Eliana de Moura Castro. sociedade e personalidades”. edição de 1963. NAP: Neuilly. os atores (Individualismo). para outros? Mas. O problema: em época de “destruição criativa”. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Mais dura foi a queda. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. As épocas de crise e reconstrução valorizam. C. É por isso que. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. 29. Connexions.. 239.T.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). RUBEL. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). “L’économie des conventions”. simultaneamente. logo. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. do econômico ao sagrado. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. 159 . sem dúvida. das coesões) não parece ainda inventada. 2 de março. ao contrário. 55. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. no mal-estar. Auteuil. “Zur Kritik. André. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. Revue Economique. Petit Larousse. 40. p.. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. p. MARX. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. N. Oeuvres: Économie. Gallimard. 1981.” In: M. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. Passy. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. na formação de ninho familiar. 1989. naturalmente). nas diferentes esferas do social. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. então. W.

BELL). D. Freud et l’éducation. 1960. BELL. M. J. The end of ideology. Paris: Epi. 1984. Autrement. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. 1976. BALANDIER. 51. P. E. Paris: Seuil. 29. M. 160 . Paris: PUF. BAREL. Paris: Flammarion: 1974. 1988. n. Paris: Seuil. Connexions. 1987. mobilidade. L’individualisme. 1988.. J. Y. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. 1950. L’acteur et le système. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. Les révolutions minuscules. 1977. 1979. Toujours plus. Paris: Grasset. Tese. De la horde à l’Etat. DE CLOSETS. ANREP. n. LECA. ELKAIM. 1982. Paris: Gallimard. G. Paris: PUF. VERNANT.. oportunismo. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Uma mudança social. Aux carrefours de la haine. CASTORIADIS.] uma não-imitação de exemplos paternais”. por outro lado. F. 1989. L’homme et le sacré. 1988. 1975. Le désordre.. 45. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Les destins du plaisir. DUPUY. M. Le lien social. La distinction. “Les représentations sociales”. Cujas. n. Paris: Cerf. J. E.-P. L’institution imaginaire de la société. Les contradictions culturelles du capitalisme. D. 1985. J. “Le changement en question”. Si tu m’aimes. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Grenoble: PUG. CROZIER. Les deux arbres du jardin. Paris: Seuil.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. Paris. New York: Collier. Paris: Fayard. 1981. FRIEDBERG. P. DENOYELLE. Bulletin de l’AISLF. Paris: ESF. Paris: Gallimard. 4. Paris: Seuil. ARMANDO.. A. L’auto-organisation. P. BELL. n. Cf. Ordres et désordres. Paris: Minuit. R. 1979. T. Le paradoxe et le système. Paris X. Connexions. 1989. 1989. M. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. Autonomie et systèmes économiques. AULAGNIER. 1982. C. 1983. Paris: des Femmes. J. CAILLOIS. 1988. 1974. para TARDE. 1982. ne m’aime pas. ENRIQUEZ.. Paris: PFNSP. 1988. CHASSEGUET-SMIRGEL. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. P. ENRIQUEZ. Winnicott en pratique. BOURDIEU. DETIENNE. Paris: Seuil. 1979. BIRNBAUM. Interminables adolescences. CERISY (Actes du Colloque de).

1989. n. D. “L’économie des conventions”. 25 de out. A. nov. Mc DOUGALL. J. A. 1988. Paris: CNRS. “La fin de l’histoire?” Commentaire. 1989. n. Freud et le problème du changement. Le Monde. nov.. Paris: Gallimard. OLIVIER. Vers la société sans père. E. NICOLAÏ. Paris: Denoël. 1979. NICOLAÏ.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion.” Connexions. Le Monde. Ressources. 1973.1974. S. Cl. Les lois de l’imitation. SIBONY. 38-39. MOSCOVICI. Ch. 1989. SIBONY. L’empire de l’éphémere. Les enfants de Jocaste. LIPOVETSKY. Paris: PUF.. Traverses. Revue française de psychanalyse. Cl. 1980. Revue Economique. 51-54.. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. 1970. FREUD. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. Paris: Payot.” L’homme et la société. Névrose. n. A. 1977. FREUD. Paris: PUF. “Les Français et l’argent”. symptôme. Pour décoloniser l’enfant. 1958. Anthropologie structurale I. Paris: Seuil. Cl. 1980. L’effort pour rendre l’autre fou. Paris: PUF. LE GENDRE. In: Essais. Paris: Plon. A. A. S. Le complexe de Narcisse. D. FREUD. “Et mourir de plaisir. Paris: Gallimard. 1978. “Penser le chômage”. Rationalité et irracionalité en économie. G. 1979. S. Le déclin du complice d’Oedipe. Les rites d’interaction. KRISTEVA. W. angoisse. 1966. 1989. Paris: PUF. 161 . MITSCHERLICH. G. Paris: Laffont. Paris: RFP. 1980. LASH. 1989. 1971. TARDE. M. 1971.. 26 jan. La pensée sauvage. n. FREUD. “La nation disparaît au profis des tribus”. 3. 1951. FINKIELKRAUT. n. 1981. Le Monde. LÉVI-STRAUSS. Pouvoirs de l’horreur. 18 mai/7 jun. 1989. D. B. de la vertu et de plaisir.” Peuples méditerranéens. H. Forum de Delphes. 2 de março. MENAHEM. TOURAINE. J. Paris: Minuit. NICOLAÏ. 1981. 15 nov. Paris: PUF. SEGALEN. FREUD. GODELIER. 40.. 1934. 1989. FUKUYAMA. L’autre et le semblable. S. et al. Paris: Maspéro. Idéaux. 1984. 1987. LÉVI-STRAUSS. 1989. F. junho 1987. “La politique en apesanteur”. out. Reedição GEX. M. G. Paris: Plon. “Les mutations de la famille. Jeu et réalité. outono. Paris: Gallimard. Paris: Payot. WIDLOCHER. n. S. 18 julho. Nauplie. Paris: Fayard. Malaise dans la civilisation. Paris: Gallimard.. “La voix écoute”. Paris: Gallimard.. Playdoyer pour ume certaine anormalité. GOFFMAN. “Et le poussent jusqu’au bout.. 1983. 10. Psychologie des minorités actives. A. 1980. S. G. MENDEL. n. 1982. Inhibition. WINNICOTT. 1974. “Psychologie des foules et analyse du moi”. Le retour de l’acteur. D. 27.. psychose et perversion. SEARLES. 47. 1971. 20. n.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

1980) e de E. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. Pelo que eles mesmos nos contam. No Brasil. em fins de 50/início de 60. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. na maioria das vezes. Assim. desembocando. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. também. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. ela tomará formas próprias. entretanto. em uma espécie de “crise das instituições”. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. LÉVY (“Intervenção como processo”. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. mais tarde. sem dúvida. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. 1987). 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. 1980. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. essa parece ter sido. contribuir. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. nas décadas de 60/70. a partir da divisão não-saber x saber. os textos de J.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. que essa “crise” também eclode em vários países e que. É bem verdade. por exemplo. em cada lugar. instrumentalizada então. criando em nós uma vontade de entrar no debate. Benevides de Barros É. Poderíamos dizer. sem vê-lo como algo já dado. pelas Comunidades 165 . de A. lançar um olhar novo sobre o mundo.

No campo da Psicologia. chegar também até nós o eco dessas produções. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. G. questionamento de seus modos de instrumentalização. ARDOINO) ou. analisador histórico do status quo vigente. Os fins do anos 60/década de 70 serão. à Socioanálise (R. político e social. As instituições são analisadas. ENRIQUEZ). ainda. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. na interseção dos campos filosófico. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. de modo generalizado. desde essa época. como à Argentina. da burocracia partidária. Por aí. uma certa psicossociologia se faz intervenção. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. ao Chile e ao Uruguai. convulsionado pelo golpe militar. R. No Brasil. PAGES. por outro. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. DUBOST. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. então. Ainda que marcados por grandes diferenças. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. palco de uma produção expressiva. o país. fica claro que “Movimento Institucionalista”. A. Vemos. presenciamos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. colocou em cheque. HESS. do conservadorismo universitário. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. LÉVY. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. de um lado. O mês de maio de 68 francês. então. Em meados de 60. J. quando tomado em seu sentido amplo. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. GUATTARI e G. J. inserem-se. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. através do contato com os “institucionalistas” franceses. crítica das experiências instituídas. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. E. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. 166 . DELEUZE). LOURAU. LAPASSADE. principalmente. designa a crítica à naturalização das instituições.

).). p. através do Curso de Psicologia.. voltado à pesquisa e à prática.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. 3-4). Se no início a orientação era claramente norte-americana.. mais especialmente. de Rouchy e. Em 1967..) Em 1971. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. da formação da A.)”. Ambos haviam participado.I. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. 2). “(. O recente trabalho de M. p. de forma mais pontual. que congregou pesquisadores práticos (.... Lévy apresentou-nos. com a qual logo rompemos (.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. 167 . sob a liderança de Garcia. mantinha. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. (MATA-MACHADO. p. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. (MATA-MACHADO. cuja prática foi denominada Socioanálise”. via Universidade e. fomos lançados numa perspectiva rogeriana.(.. segundo M.P. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. segundo a autora.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (... MATA-MACHADO. a partir de 1968.).. Junto com René Lourau (. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. portanto. respectivamente. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969... 1992..Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. tivemos entre nós. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. sobretudo. Lapassade (. 1992. 1992. como grupo. Com PAGES. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. 2) O pensamento institucionalista atravessa. A entrada se dá. a influência do pensamento institucionalista francês. mas há algumas produções importantes que já apontam.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. além de seus próprios escritos. alguns de Enriquez.R... em 1959. É marcante.

assim. p. menos desejosas de mudar o mundo (. O pensamento pichoniano. G. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. há alguns projetos em andamento. ENRIQUEZ. entretanto. GUATTARI. LÉVY. 1992.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. segundo a autora. 1992). O que se percebe é que. J. mais tarde. somou-se a influência do pensamento de outros (M. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. por um certo tempo. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. Ao mesmo tempo. Hoje. G. R. G. 4). 6). na Europa. psiquiatras e psicólogos. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. mas estendendo-se até hoje. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R.. no Rio de Janeiro. a partir de então. 168 . Na década de 80. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. cujos interlocutores privilegiados são A. entre outros). Essa perspectiva é. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. CASTEL. F. FOUCAULT. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. o movimento institucionalista inclui sociólogos.)” (MATA-MACHADO. atentas às características da realidade brasileira. É também na década de 80. 1986). trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. DUBOST e E. fez com que. em fins de 70/início de 80. Encontramos. LAPASSADE. enquanto que. p. 1992. além dos autores já citados. LOURAU. no Brasil. pedagogos. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. LEITÃO e BARROS. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e.. MENDEL). construindo-se práticas singulares. “parcialmente abandonada. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. No Rio de Janeiro. 1987). que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. DELEUZE.

M.). o Núcleo de Estudos da Subjetividade. e SAIDON. 169 . Belo Horizonte. bem como na entrada. Vida R. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. DELEUZE. desembocando em algumas traduções e publicações. o “pensamento institucionalista”. Mas. hoje. e BARROS. KAMKHAGI. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. em São Paulo. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. Heliana B. (orgs). pesquisas e intervenções. História do Movimento Institucionalista. difundiram-se os pensamentos de F. C. Rio de Janeiro. Petrópolis: Vozes. tendo incluído outras influências teórico-práticas. na universidade – PUC/SP –. 1987. Regina D. 1992. Heliana B. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. (mimeogr. (coord. e BARROS. O inconsciente institucional. Cartografias do desejo. 1986. nas intervenções e práticas sociais. Micropolítica. MATA-MACHADO. B. ROLNIK.). incluindo. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. A década de 60: seus efeitos no pensamento. Intervenção psicossociológica. RODRIGUES. (mimeogr. Regina D. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. 22p. B. 1984.. em suas várias vertentes. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. à instituição de formação e à de pesquisa. as contribuições da socioanálise. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. RODRIGUES. 175p.). 1986. Félix e ROLNIK. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Análise institucional no Brasil. sobretudo. Atualmente. 1992. Gregório F. Especialmente através dos trabalhos de S. já toma contornos bastante diferenciados. Osvaldo (orgs). Marília N. GUATTARI. Grupos e instituições em Análise. em alguns casos. LEITÃO. C.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Rio de Janeiro: Vozes. Suely. de obras desses autores. 164p. mais tarde. 327p. GUATTARI e de G.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

finalmente.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. os princípios e as modalidades de sua intervenção. Por mais banais que sejam.. as dificuldades sentidas por um ator social. principalmente. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . além dos desejos de terceiros.P. aqui.I. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa.as condições gerais que engendram. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. a algumas observações. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias.R. mais ou menos livremente. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. em primeiro lugar. b. a natureza do “saber-fazer”.a formação.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. a interação entre essas variáveis. c. em uma determinada situação. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. Limitamo-nos entretanto. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. de variáveis como: a. o status e a posição social. implicando opções e esforços de imaginação e que. Mas creio.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.

). evidentemente. econômica e social. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. missões de produtividade. nos mesmos organismos3). então. inflação. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. de gestão. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. estabelecidos na capital. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. entre 1945 e 1959.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. Na Sorbonne.. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. Muitos dentre nós trabalharam. Nesse contexto. ênfase a métodos estatísticos. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. do recrutamento de pessoal. de estruturas de direção. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. do 172 . o funcionalismo etc. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. da conjuntura. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. O período imediatamente após-guerra foi dominado. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. em períodos diferentes. da formação em habilitações. de reeducação. a busca de participação. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. simultaneamente. suas aplicações no domínio da economia. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. o Marxismo. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. pelo problema da reconstrução. comportava. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção.

é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. se as tentativas de Reich são. nessa época. MORENO e depois ROGERS). no plano das práticas. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. por exemplo. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. em seguida. desenvolvendo uma abordagem mais global. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. a partir de 1952. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. em 1961. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. Em relação a esse último ponto.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. pela Dunod). o movimento que iria ser denominado “institucional”. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. lembremos. as obras de G. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. o movimento trotskista. onde milito durante esse período. da demografia. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. a partir dos anos 40. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. então. especialmente. é o momento também no qual G. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. a relação crítica e complexa que G. da gestão etc. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. estudos de mercado –. André BRETON. na França. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. separam-se em duas tendências. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. pouco conhecidas na França.

ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). LEFORT.G. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. em 1947-1948.5 retém. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. sobre a “moral” da empresa. dirigido por C. em função do problema da burocracia operária. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. 174 . Perret. R.S. Igualmente um outro. a C. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção.O. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. um dos colaboradores dessa equipe. em 1949. durante a ocupação. Entre essas últimas. CASTORIADIS4 e Cl. servem. WILLIAMS. com o restante do relatório. separa-se da IVa Internacional. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. Antes de sua volta aos Estados Unidos.E. na relação que elas estabelecem com o cliente. Entretanto. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. desde sua origem. no qual se encontra B. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. mas elas permanecem muito próximas. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem.

são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. elas colocam. porém. de início. as que são conduzidas por equipes francesas. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). em última análise.W. em empresas maiores. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. passando pelas reformulações européias do T. Da mesma forma.I. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. parece cada vez mais interessante. Ao contrário. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. apoiando-se nos resultados. junto a pessoal assalariado de uma empresa. 175 . As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. da mesma forma que a direção. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. se abrem a uma abordagem mais clínica. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. e eles devem ter acesso aos resultados. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. depois eventualmente coletivas –.

de pagar o preço por sua solução. Enfim. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. sua natureza real. e tenta inventar. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . ainda marcam representações e atitudes para com a direção. modos de remuneração. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. para uma orientação mais clínica. Ajudando todas as pessoas. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. as relações intercategorias e as microculturas da organização. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. e essa não sendo a conseqüência menos importante. Em outros termos. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. cujos conflitos. ou aos que decidem – Direção Geral. higiene. Por outro lado. algumas vezes antigos. a se expressarem. segurança etc. um objeto de trabalho. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. grupos de mais velhos. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. Ele faz da relação de consulta um problema em si. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. turn-over. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. as disfunções. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. pirâmide de idade. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. absenteísmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. retomando as palavras usuais do consultor organizacional.). relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. feita pelos encarregados da pesquisa. que fala sobre seu campo e suas intervenções. Direção de Pessoal –. pelos sentimentos coletivos. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. no interior desse quadro de atitudes. as crises. ele se pergunta se os bloqueios.

Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. mesmo nesse caso. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. ele crê que. do especialista em uma técnica de produção. ele próprio contribui. de fato. sem dar conselho. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. de perceber direções de solução. mais tarde. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. à medida que esses são identificados. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. de fato. gestão ou organização. a idéia de que a intervenção. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. Porém. ajuda as categorias vítimas da repressão. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. Nessa perspectiva. os processos de preparação e tomada de decisões. isto é. 177 . não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. sem dúvida. os sistemas de comunicação na empresa. isto é. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. em especial dos inconscientes. se aceita. ele exerce uma pressão que. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. mesmo desejando o contrário. acaba totalmente reforçada. permitindo a expressão do reprimido. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. além dos arranjos menores concedidos. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos.

sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. a 178 . utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel.. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. Os anos sessenta No momento de criação da A. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. nessa época.R. A outra continuava a realizar. Tenho a impressão de que. então. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. os limites das ações de intervenção. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas.P. mais do que acelerar tal processo. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. (1959). do psicodrama analítico etc. em uma empresa nacional. mas também em uma transformação cultural profunda.I. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. Da mesma forma. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. O caráter clínico do novo grupo. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. No momento da criação. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. das formas de autoridade.

a metade das atividades da A. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e.).7 Paralelamente. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. era de um terço.-C. se podemos dizê-lo. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). a metade já era. ou iria finalmente se tornar. uma longa intervenção em uma empresa implanta. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. durante todo esse período. A organização e a condução de seminários representa. grupos abertos de análise etc. terapeutas ou analistas. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. reunindo às vezes toda a equipe. algumas vezes mesmo de introdução à economia. de sociologia das organizações. dez anos depois. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. de inspiração rogeriana. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. A orientação não diretiva. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. de metodologia psicossocial.R. de formação de adultos. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .P. atuando diretamente no campo. do sócio-técnico e mesmo do econômico. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos.I.6 No começo dos anos sessenta. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. nesses. até 1966 (marcado pela vinda de C. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. dominou os primeiros anos de funcionamento. outras vezes apenas três psicossociólogos. e ainda agora. neles. HERBERT. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. ROUCHY). antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. a proporção era aproximadamente de nove décimos. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). a continuidade no tempo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado.

a demanda se estende a associações.P. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. Mas creio que é necessário evocar também. em Paris. movimentos educativos. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. de psiquiatras e de psicoterapeutas. de padres e religiosos. junto a um Centro de Produtividade.). Entretanto. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. diversos membros da A. 180 .F. então. durante vários anos. Ao mesmo tempo. É sobretudo na França. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. as condições ideológicas próprias da França.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue.N. para explicá-lo. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. de maneira ainda mais geral. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. por exemplo. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável.R. por volta de 1965. desenvolvimento organizacional).I. a integração. de trabalhadores sociais.E. é uma intervenção no México. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. junto a organizações com função econômica. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. em 1961. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. de atendentes. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. a guerra da Algéria. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. na equipe.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. Psicossociologia e Política etc.

centrando-se na evolução das pessoas. como muitos outros.elaboração de projetos de pesquisa-ação. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). nas ações de movimentos como a F.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança.O. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. não desembocou no político.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto.E. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal.N. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”.10 .R. ao considerarem suas relações e vida psicológica. uma evolução global do sistema educativo.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . trabalhava desde 1964. uma direção susceptível de provocar.V. Embora alguns dentre nós víssemos. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. . por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. simultaneamente política e cultural. através do desenvolvimento de ações locais. o período que se seguiu a maio mostra. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica.I. ao contrário. como o fazem os indivíduos ou os grupos. de uma audácia espantosa.E. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. antes de 68. por exemplo. As instituições não se analisam. que dava uma direção totalmente imprevista.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. com os quais a A. por parte da instituição.P. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. dentro de certo prazo. mesmo que modesta.

mesmo quando. mas também de seu objeto de trabalho. progressivamente. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. ele deve ser buscado em outro nível. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. quando as referências à pedagogia ativa. . e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. no plano das idéias.nos anos que se seguem à Liberação e.12 .A partir dos anos 60. sem dúvida. 1967. tal opção. no último período. no campo social. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. bem problemático. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica.Porém. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. 182 . ou melhor. afastando-se dela em seguida. “agente de mudança”. Como o mostra André LÉVY. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. em especial lacaniano. parece-me que. sob a influência do pensamento psicanalítico. ou “indutor de mudança”. até o começo dos anos 60. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu.11 Estudando (por três vezes: 1963. devendo ser afastado ou suspenso. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. a “socioanálise” ilustra. Esse último aspecto leva à questão mais geral. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. na prática. benefício a mais). O modelo do analista pareceu sempre.

cedendo a pressões de que se é objeto. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. por exemplo. como pesquisador ou consultor social. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. A expressão pesquisa-ação.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. a esse respeito. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. na referência ao próprio lugar ocupado. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. lugar onde se está. presente nele. porque ocupa. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. e. nunca é independente. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. Simetricamente. no campo. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. tendo em vista sua própria história. sobretudo. nem a se considerar parte da ação. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. pertencente ao campo estudado. Se ele se encontra em uma posição menos central. é certamente oposta à acepção lewiniana. Toda intervenção psicossociológica. ou que se tenta ocupar. por exemplo. com todos os riscos que isso comporta.

n. secretário geral da associação. 4 Cf. com universitários como Georges FRIEDMANN. 1332 etc. a partida de Max PAGES.-C. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem.. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. A C. 50-68. Connexions. “Une intervention psychosociologique”. In: ARDOINO et al. 1980. In: Fondation Royaumont. “L’Analyse social”. Jean e LÉVY. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação.F. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo.). responder a essa questão.O. 1971. 8 Cf. por Marília Novais da Mata Machado. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. evidentemente. sobre esse último ponto. de PERETTI. Paris: Dunod.-março. mais recentemente.G. 1963. Épi. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. la Mort. ROUCHY em Connexions. de 1955). n. 7 Max PAGÈS. 9 Cf. Droz.”. seu vice-presidente. presidido por Jean STOETZEL e. sobre. 1977. Paris: Payot. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. André. 1969. 3. LÉVY. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. Connexions. 2 3 184 . 857. o capítulo “Variantes de la cure-type”. 13 Les Mots. Psychosociologies. 17. 2. André.. desde sua criação. Le psychosociologue dans la cité. Jean-Claude ROUCHY. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. Intervention et changement dans l’entreprise. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. 1978. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. J. e de A. contra. les Sorts. Ecrits (por exemplo. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. quatro anos depois. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. 10 Cf. “Dire la loi. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. de forma mais livre. Gallimard. n.T. 29 de Connexions. 1331. 1972. Continuando. 1967. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST.. 1972. ou mesmo depois de terminar. jan. 806. Paris: Epi. 5 Compagnie Générale d’Organisation. 1304. n. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique).P.) e dos de Cl.S. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de).E. 1980. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. 11 Cf. não se pode. Sociologie du Travail. 825. L’intervention institutionnelle. 12 Cf. n. por exemplo o artigo de J. 1303.O. LACAN. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. meu texto de introdução em Elliott JAQUES.

há muito tempo. bem ou mal resolvidos. esses ainda são muito relativos. Esclarecer sua posição em relação às situações. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. Parafraseando HEGEL. quando é apenas verbal. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. entretanto. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. através das contradições de suas condutas profissionais. permitindo esclarecimentos progressivos. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. tem qualquer coisa de suspeita. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. além disso. sobredeterminado por uma profunda lógica. porém. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. Tal afirmação.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. mesmo que artificial. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. Porém. 185 . sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. à crença em sua positividade fundamental e. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. No que me diz respeito. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. Porém.

o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. junto aos grupos envolvidos. diferentemente lúcida.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. As tomadas de consciência. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. ela é. ela desconhece 186 . com freqüência. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . na França. diretamente. longe de chegar a um ceticismo. ainda hoje. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. cada vez mais claramente. desapaixonada. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. em relações diretas. face a face.6 por esse rótulo. dizem respeito. mais lúcida ou. As práticas de intervenção. a reconhecer. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. sem dúvida. científica. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. Toda a minha experiência. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. leva-me. Durante muito tempo e. no mínimo. ao contrário. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. fundamentalmente. ou mesmo a um nihilismo. Ela repousa. reciprocamente. instituindo. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva.

supõe. implicitamente. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. cuidando. considerado como um diagnóstico e. em determinado momento. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. Tal metodologia induz. de quem dependia bastante. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. então. A reunião desses diferentes objetos na análise. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. sobretudo. que adotava aproximadamente esse modelo. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. 187 . tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. visto como ligado demais ao responsável comercial. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. quase narrativa. De toda forma é surpreendente que. data de 1972. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. de uma forma histórica. por sua vez. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. de outro lado. de forma alguma.7 A última intervenção da qual participei. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. caso contrário. mas. uma única vez. isto é. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. melhor coordenação administrativa. com vistas a decisões e ações. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. Porém. esclarecimento das funções.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. que. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. de um lado. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. seu amigo. os problemas atuais da empresa. com efeito. é apenas um simples instrumento ideológico.

uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. mas potencialmente articuláveis entre si. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. no limite. e. A perda da esperança acarretou. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. e sobretudo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. a coexistência desses diferentes discursos. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. traduzia também. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. expondo cada um com a mesma objetividade. Em outras palavras. em outras palavras. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. e de passar assim. complementares. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. particularmente por meio de nosso relatório oral. como se esperava de nós. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. um de cada vez. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. inevitavelmente. organizacional). para apreender a “realidade”. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . A pesquisa havia fortificado essa esperança. sobretudo. reconstituído graças a nossos cuidados. sem dificuldade. porém situados no mesmo plano. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. à medida que cada discurso. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). então. de um a outro. ideológico-afetiva.

o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. escutada ou recusada. perceber o quanto a prática da pesquisa. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. que não se reconhecem como um discurso. Essa crença conduz. de uma explicação geral. ações ou decisões (saber para). a pesquisa contribui. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. 189 . pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. associa-se necessariamente à busca de um sentido. qualquer que seja a maneira como é conduzida.Intervenção como processo (subjetiva demais. articulá-las. reduzidas a enunciados fechados. excessiva demais) e conservar. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. constrangidos. isto é. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. em contrapartida. não aceitamos seus pressupostos. sabemos. Mas se aceitamos. em seguida. o “real”. a partir de diversos “pontos de vista”. desconectados das condutas e estratégias. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. em discursos que as pessoas expressam. é a função das representações. no mínimo. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. para o recalque: primeiramente. assim. desejaríamos. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. embora imperfeitamente. ao contrário. o levantamento de dados. Longe de favorecer um processo de análise. assim. então. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). Essa experiência possibilitou-nos. legitimamente.

independentemente das maneiras como se atualizam. essa só pode. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. Porém. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. no sentido pleno do termo. sua posição de exterioridade é apenas relativa. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. pode ocorrer. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. então. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. 190 . Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. se articulam e se transformam. A não ser que se idealize o processo de análise social. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. com efeito. na enunciação. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. reciprocamente. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. ser feita em uma experiência de comunicação. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. mas. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. sob forma falada ou atuada. na qual uma resposta instantânea. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. moral ou corpórea. então. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. se há um resultado do qual estou seguro. Os grupos face a face aparecem. na qual o imediatismo do risco é sensível. instituídos. Só é possível. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações.

grupo do outro. mas relações de transferência. por exemplo). ele se insere no mesmo sistema de alianças. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. o respeito à regra de abstinência. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. em função de uma “demanda”. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. material ou simbólica. por parte do analista. estratégias. no próprio ato que o institui como analista. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. das quais necessariamente é parte.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. uma vez que. desde o início. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. essas relações implicariam particularmente. isolados de toda historicidade. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. Nas situações de intervenção. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. do não agir. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. 191 . no sentido preciso desse termo. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). isso é apenas uma petição de princípios. com a participação do analista-interventor. corpo a corpo. pressões. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico.

tendo que tomar decisões e executá-las. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. traduzia o desejo de tirar 192 . essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. fragmentada. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. isto é. assim. por meio de regras explícitas e implícitas. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. ele elimina. então. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. por antecipação. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. O interventor pode. do “aparelho psíquico grupal”. seu objeto. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. quanto para as relações internas. um serviço). preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. fora da situação de análise.12 e a legitimar sua interpretação. no mesmo ato. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. Um dos objetos de análise pode ser. não unificada.

que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. quando o interventor. essa modalidade se constituía. o que vale não só para a análise. paradoxal. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. do trabalho de análise. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . como o fazem certos psicanalistas. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. numa colocação em ato do desejo. a não ser provisoriamente. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. ele entra em conluio com as resistências. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. que continuaria submetido às regras administrativas. à medida em que o trabalho progride. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. e o grupo de suas restrições externas.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. o abandono de tabus. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. a composição do grupo pode evoluir. observações. Um dos resultados. Certamente. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis.). especialmente do médico-chefe. que a emergência dos conflitos latentes. com efeito. como. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. institui tal quadro. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. merece ao menos uma explicação. de uma terapêutica localizada. mas também para o gozo sexual ou estético. pesquisaação etc. Não se pode escapar disso dizendo. as resistências internas na organização tendem. por exemplo. Nessa perspectiva. assim. É por isso que. Se isso é em parte verdadeiro. a presença. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. a desmistificação de certas crenças.

a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. no mínimo. O novo que aparece não é. então. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. conseqüentemente. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. ao risco. as peças começam a circular. com noções e representações úteis à ação. Não é uma soma. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. antes de tudo. ou como o reconhecimento de clivagens internas. a da organização científica do trabalho. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. Com efeito. mas uma subtração. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. Graças a esse vazio repentinamente desvelado.. ao desconhecido. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . um acontecimento marcado pelo advento. um possível onde havia certeza. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. uma certeza a mais. inclusive nas pessoas. do menos ao mais. irredutíveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. isto é. centrada no sistema de regras etc. a da burocracia. centrada nos problemas de produção racional. uma questão onde havia uma afirmação. em face à eventualidade de uma ruptura. a mudança representa para nós. do pior ao melhor. de acordo com eixos orientados. à incerteza. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim.. Com efeito. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. toda teoria organizacional é relativa. um novo pleno. o acesso a uma história. uma certeza a menos. um jogo mais livre se torna possível. Em um texto anterior.

mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. Nesse sentido. o que dá no mesmo. ordenado. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. mas em apreendêlas como discursos incompletos. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. Pareceu-nos. Nessa perspectiva. as ações e as divisões. o processo de análise não pode. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). também ela. temporais. com a finalidade de construir referências. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. a análise não alcança objetivamente um real suposto. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. enfrentar e ocultar as contradições que vive. são discursos destinados a legitimar. com efeito. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. então. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. Assim. para os outros e para si próprios. permanecem divididos os discursos de representação. tenta explicar. hierarquizado. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. desde 195 . tendo sua própria pertinência. então. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. Entretanto.

citarei o caso de uma intervenção muito breve. ao contrário. Depois de uma breve hesitação. tanto quanto pude analisála. ela pretendia ser. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. mas a demanda. Esclarecemos. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. isso não apenas não os inquietou mas. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. A razão de minha determinação. Igualmente. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. em especial. como ocorrera na assembléia anterior. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. com interesse e prazer. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. aceitei. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. que deveria ser. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. talvez tivesse mesmo o inverso. Buscavam essencialmente um “técnico”. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. por diversas vezes. reificaria significados. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. endereçada agora a mim. 196 . nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. com pessoas pertencentes a esses meios. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. por sua vez. em sua maior parte. aliás muito rapidamente. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. destinadas a serem engavetadas. como condição para aceitarem sua missão. Para ilustrar o que precede. Assim. era o sentimento de que não poderia. pareceu-me simpática. Embora eu tivesse trabalhado no passado.

era considerado por muitos (ou. à noite. cuja forma seria definida? 197 . parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. na história da Comunidade. dois encontros no local da Assembléia Geral. Para isso. Ela havia sido decidida no ano precedente. Tratava-se então de um momento que. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. e enfim. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. Como já mostrei. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. atendendo expressamente à sua demanda. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. Como cheguei lá. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. pelo menos. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. de um lado. de outro lado. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. uma Assembléia Geral extraordinária. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. vencimento dos prazos para decisões importantes). a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. em seguida. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. diversas sessões haviam sido previstas. o lugar deles. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. de fato. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. depois dos debates. em relação à Comissão e. pela Comissão) como um ponto de transição. que não podia ser perdido.

esquivando-se dos conflitos e divergências. eu próprio me sentia um estranho. sem implicação com o grupo. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. de sair de um estilo de relações muito corteses. evitando toda aspereza. Espantei-me. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. talvez também meu próprio sobrenome judaico. as regras às quais se submetiam etc. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. com a ajuda deles. tomei conhecimento. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. tendo em vista a Assembléia Geral. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades.). como um estranho mas não como um intruso. Nessa ocasião. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. as relações entre elas. 198 . então. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. Eu era calorosamente acolhido. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento.I. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos.R. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. ao mesmo tempo. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. com amizade e com confiança. então. O fato de que eu estava lá como um profissional. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. a fim de levantar suas opiniões. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. os textos definindo seu funcionamento. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. Parecia-me.P. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –.

não eram apenas procuradores de votos e opiniões. periodicamente. Eles aderiram. entretanto. em última análise. seu papel de porta-vozes puros. sem deixar de observar. então. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. observei. 2. para a escolha dos temas que seriam então tratados. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. demonstrei que. com bastante veemência. declarei-lhes: 1. mas representavam também. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. assim. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. em nome de valores democráticos. pelas vontades expressas pela “base”. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . O papel que tinham era não apenas técnico. que eles deveriam. Pareceu-me.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. ao contrário.Intervenção como processo No nível do conteúdo. a meu ponto de vista. com relativa facilidade. sem dúvida. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição.

análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). seria necessariamente confundido com a Comissão. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. com alguma hesitação). à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). No limite. eventualmente. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Com efeito. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. sem implicar posições táticas e políticas. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. Caso eu participasse da Assembléia Geral. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. Paradoxalmente. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. ao contrário. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos.

até a eleição do próximo Conselho. sem direito à palavra.. isto é.Intervenção como processo como observador. durante um vazio de poder). sobretudo. membro da A. entre nós e os membros da Comissão. mas no calor da discussão. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. c. existente no real. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. ligado à Comissão. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. uns em relação aos outros. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. formalmente. Deveria representar um tempo de análise coletiva. judeu) tinham para eles.I. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. ficou claro que: a. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás.P. mas também de escolha de orientação política. Certamente. Assim. nossa posição profissional e inserção institucional. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo.R. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. não em trocas prévias. através de minha inesperada implicação afetiva. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). durante o primeiro dia de trabalho.quanto a mim. b. a partir dessas diferenças em status 201 .17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras.

a partir desses documentos. 202 . às instituições ou às atividades). que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. a partir desse primeiro dia. era “relativa”. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. entre a Comissão e o Conselho. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. Esse efeito de sentido. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. Nesse sentido. destinados a serem comunicados à Comunidade. entre outros escalões – e. nossa alteridade. particularmente. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. Na sua maior parte. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. como membros dessas comunidades regionais. como terceiro. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. Foi preciso. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. por exemplo. em conseqüência. por sua vez. o desenvolvimento de um certo trabalho. da importância atribuída às pessoas. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. não se produz. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. entre as comunidades regionais. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. Tudo isso. lutar para tornar o trabalho mais lento. assim. e sobre o que pôde ser produzido. entretanto. relatórios de reuniões.

sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. ou ainda. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.Intervenção como processo considerando questões particulares. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens.. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. carregadas de subentendidos (por exemplo. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. assim. da idade. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. seja o conjunto de atividades –.). antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. da segurança.. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. 203 . segundo os quais as definições da Comunidade. em contrapartida. ou mesmo. sobre palavras fetiches. a definição da pauta dos diferentes dias.. seja a coabitação em um mesmo lugar. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. refletindo situações particulares diferentes. No curso desse processo. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. em seguida. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. algumas vezes. as questões a serem submetidas a voto etc. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis.”). Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. por meio desse trabalho preparatório e. sem dar muita importância. aparentemente menores. na Assembléia Geral.. o que significava não considerá-los? O que se elaborava.

o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. fazer uma sondagem. facilitando a escolha de futuras estratégias. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. ao contrário. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. criar uma situação nova. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. de um lado. o “serviço concreto do Homem”). reflexivo e crítico. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. ela constitui uma terapêutica dessa última. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. Nessa perspectiva. quando aplicado a um processo de intervenção. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. de outro. isto é. de outro. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . de um lado. a-organizacional? Bem entendido. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. de comum acordo. Para concluir. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. permitindo-lhe aumentar sua força. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. melhorar seu funcionamento. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos.

isto é. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. tivemos a oportunidade de demonstrar. Com efeito. ela implica. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. Assim. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. a ação de outro. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. em uma modificação das relações de poder. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. senão de cegueira. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. longe de terem um valor geral ou intransitivo. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. como alguns às vezes pretenderam. necessariamente. antes. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. uma afirmação da identidade desses dois processos. Em um trabalho anterior. ela também não é. “quanto mais houver saber. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. uma colocada a serviço da outra. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. 205 . essas afirmações estão longe de serem verificadas.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. ao contrário. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. melhor se fica”. conseqüentemente. Ora. uma dose de desconhecimento. com precisão. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. mais a ação é eficaz e pertinente”.

entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. uma escola). em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. 206 . pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas.19 Por isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. tratando dos processos de pesquisa. O saber. por exemplo. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. a mais simbolizável. entre o que pode ou não ser escutado. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. ao mesmo tempo. sobre seu passado. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. como experiência. um sistema de ação. é a parte que permite trocas e manipulações. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. implica todo um trabalho sobre si. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. mas como um processo. os transforma. em uma organização ou em uma sociedade. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. Assim. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. Com efeito. com o mundo. em um processo de escrita.

O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. ao mesmo tempo. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. em uma negação do inconsciente. Daí o hiato persistente entre. de outro. que não exclui nem dúvida nem incerteza. de uma racionalidade criadora. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. contabilizável ou informática. As regras dividem e separam. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. espiritual ou mesmo afetiva. já foi evocada anteriormente. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. é a condição de toda vida social. mas. essa. de realizarem sua meta de dar sentido. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. visam a introduzir. ao contrário. O processo organizacional funda-se. para essas representações – esses discursos de representações –. a necessidade de dividir. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. De alguma forma. clivagens e limites. 207 . enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. que. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. de separar. especialmente do desejo de onipotência. de toda construção material. dito de outra forma. de limitar. o desejo de tudo controlar. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. por exemplo. o desejo de tudo compreender e. de um lado. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. para perdurar. que pretenderia circundar o sentido. no nível do pensamento. é precisamente a impossibilidade. assim. Esse golpe de força.Intervenção como processo Tal concepção de organização.

“Vers une psychosociologie psychanalytique”. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. ao menos. 2 208 . que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. em seu primeiro esforço. 1980. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. Dessa forma. é importante. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. até então bloqueada ou proibida. Porém. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. L’intervention institutionnelle. a se desenvolver. 29. Paris: Payot. de ignorar as implicações dessa inversão. L’Analyse social. Respondendo a uma demanda de palavra. assim. p. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. ela se choca assim. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. sobretudo. I/1980. ou. Connexions. quanto da análise que a torna possível. André. fazendo isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. então. por Marília Novais da Mata Machado. Jean e LÉVY. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. In: ARDOINO et al. mantendo vivo o passado. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. uma palavra continua. 69-100.

especialmente o capítulo sobre intervenção de M.. 21. “L’Analyse social”. cit. 21. “L’interprétation de discours”. KAES. S. Connexions. 7. “Dire la loi. L’intervention institutionnelle. Cf. de P. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. 1980. trabalhando com a própria contratransferência. In: ARDOINO et al. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Les Mots. Como toda análise de conteúdo. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. 29. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. L’amour du censeur. também “Le pouvoir et la mort”. LÉVY. FREUD. LAPASSADE. “Sens et crise du sens dans les organisations”. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. em Topique. “Dire la loi. Nesse exemplo. Traduzido de: DUBOST. Cf. I/1980. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso.. Seuil. Em termos mais sofisticados.”. Connexions. LEGENDRE. Mal-estar na civilização. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Sociologie du Travail. Jean e LÉVY. “Le changement comme travail”. introduzido por R. CROZIER. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . ENRIQUEZ.3 4 5 Inspirado em G. de E. 49-68. les Sorts de J.”. Paris: Payot. 196l. Thèse d’Etat. Connexions. André. Esse conceito. inédita. FAVRET-SAADA. la Mort. cf. um individual e outro grupal.. Cf.. Paris: Seuil. pp. Connexions. op. “L’acteur et le système”. Por exemplo: Max PAGES. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. postula dois aparelhos psíquicos distintos. Connexions. Segundo o Petit Robert. Gallimard. 1978.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

e mais violentamente. de toda atividade de formação. nesse breve artigo. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. uma dúvida me invade. sem dúvida. as práticas de formação. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. como a maior parte das indagações a respeito da formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. ou. possibilidade e multiplicidade das comunicações. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. de forma concisa e injusta (mas. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. e. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. o procedimento de exclusão do real e. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. Dizendo o mesmo com outras palavras. há casas para ela). assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l.O que ocorre de essencial no ato formador. mais precisamente.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. Por isso. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . ainda. Entretanto. Esse número de revista testemunha bem o fato.E também o que é o próprio sentido desse movimento. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. 2. isto é.

as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe.a dos psicólogos. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. de um lado. toda aprendizagem de técnicas teria. sua vontade e sua imaginação. 212 . Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. de paciência. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. ainda mais. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. de tempo. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. a todo momento. cada um à sua maneira. 2. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. a fim de poder seguir as mudanças e. então. advindo a necessidade. Orienta-se (e não apenas na China. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. para um sistema onde. a formação permanente torna-se indispensável. todo crescimento no domínio das informações. Trata-se.a dos sociólogos críticos. o progresso dos conhecimentos. Certamente. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. de reciclagem e. temores do formado e condicionamentos sociais. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados.a dos formadores e educadores. de investimento pensado. para desejá-las e provocá-las. O problema é unicamente operatório. mas também têm. 3. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. de outro. então. situando a prática que buscamos promover. Assim. Toda formação. resistências. um efeito positivo para o formado.

é o que excede toda análise. que se torna assim excluído). inesgotável. ele se revela na ação. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). as brechas repentinas. o real é o que escapa a toda definição. mestre das leis e da morte. sem paixão. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. portanto. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. da mesma forma. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. da medida. que as causas determinantes não existem.3 referindo-se ao racional e ao controle. além de toda interpretação. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. o do louco. ao umbigo dos sonhos. do cálculo. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. Ora. o do outro. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. O comportamento adulto é o comportamento refletido. o do primitivo e. que o homem está sempre por nascer. na transformação e ele é. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. os blocos erráticos. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. O real não está lá. obtido apenas 213 . como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. hoje. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. que a libido é turbulenta. sem sonho nem loucura”. que as reconstituições são parciais. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. além de anularem toda diferença e toda dispersão. cartesiano. através da ordem. sempre a serem melhoradas. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. estritamente falando. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”).2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido.

Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l.4 isto é. 2. como uma água calma. do que tranqüiliza. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. De outro lado. E nunca esse programa foi mantido. do questionamento do saber obtido. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. Ora. Temos de um lado o conhecimento.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. temos a bola de fogo.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. a alegria da certeza e. de hábito. o seu contrário. a opacidade. pois ele não pode sê-lo. então. Quando houver apenas Eus fortes. a humanidade estará. as variações de temperatura. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. a cada dia. Aliás. a angústia de se perder no turbilhão de questões.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. as provas de sua impossibilidade. falando dos signos da 214 .5 Certamente. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. se for atravessado pela ideologia do senhor. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. desenvolvendo-se progressivamente. imagens protetoras. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. a energia que se desprende. ao mesmo tempo. não se trata aqui de uma simples metáfora. por isso. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. como diziam os alquimistas. Como viver o desejo do pleno.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. o confronto com a finitude. “Que se exploda de carne humana e perfumada”.

os psiquiatras aliados do poder.6 Ora. mas uma relação angustiada com o saber. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. Então. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Igualmente. Os tecnocratas. 2.Quanto ao segundo princípio. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. Conclusão: o que permanece são as certezas. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais.. a despeito de suas diferenças. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho.

Um importante dirigente internacional não dizia. gestalt-terapia. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. em um congresso de chefes de empresa. há alguns anos. com seu corpo e com seus desejos. aliás. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. que relações de poder ele pressupõe. no qual se inscreve toda 216 . não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. o cachorro ou com o estrangeiro que. algumas vezes. alienada na sociedade contemporânea. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. grupos de encontro. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). é que a pessoa. tendo recebido um certo tipo de educação. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. É talvez por essa razão que. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. é preciso. não existe. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. além do mais. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. liberação corporal e sexual. esses mesmos estágios. então. assim como as experiências de bio-energética. Horizonte grande e enaltecedor. impacto social menor (estamos. Acrescentemos que.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. mas de peso. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). ao qual muitos poderiam se subscrever. a mulher. mas porque apresenta. no momento. o homem. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. ter um outro modo de relação com os outros.

sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. Não se aprende o amor. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. por quem e por que sou falado. eles não se explicam. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. Sua beleza desencadeia esse prodígio. a quem falo. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. que podem ser atuados.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. então. como tais. de uma luz na qual me banho. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Então. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. justamente.8 Pode-se apenas descrever tal estado. a seu cheiro. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. em técnicas e em posturas. alguma coisa explode em mim. Mas. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. num momento de estado de graça. Entretanto. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. renasço. feito de uma explosão que me fascina. LECLAIRE: Quando. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. à sua voz. durante um tempo determinado. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. que dá a cada parte de seu corpo. Trata-se unicamente de relações faladas e. Como escreve S. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Em contrapartida. mesmo nesse último caso. por que falo dessa maneira. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. que instituições me sustentam. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. que sofre e que ama. testados no mundo. complementares ou antagônicos. que desejos elas retomam ou reprimem?. não temos nada a dizer.

fazer triunfarem suas fantasias. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). o tempo ao momento. Ficará apenas a lembrança de um momento único. embora plenas. os choros e os gritos de alegria. ao mesmo tempo. ou. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. seu “saber-fazer”. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. única fonte de mudança. e ele é um bom juiz. certificando-se de que nada lhe escapa. para fazê-las sair de suas tocas. como os weekends e as maratonas. não pode ser feito. a fim de viverem sentimentos intensos. as manifestações sem seqüências. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. o fazer ao dizer. então. declarará sua paixão por uma estagiária. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. vai querer se fazer amar por todos. no medo e tremor. mostrando assim sua potência. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. um ato-falho. na maior parte do tempo. esses discursos. E talvez. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. arriscam tudo e nada arriscam. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. os mais narcíseos) podem. Mas o psicólogo está lá para as acossar. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. as fantasias invasoras. Ei-lo. questionará as instituições. os tabus. assim. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. Mas. do aumento do grau de irrealidade da situação. estará pronto a largar mulher e filhos. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. de tempos em tempos. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). essa explosão. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. favorecendo os processos regressivos. tomar o lugar do líder. pois as palavras trocadas. tomar o grupo em seus desejos. Uma vez de volta às suas instituições. para que entrem em uma relação de transferência. analisando com toda a sua força. Outro deixará se levar por suas emoções. as transferências maciças. irromperá um lapso. definido como um lugar no qual se deve comunicar. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. Eles. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). chorará (o próprio ROGERS. esse irromper não ocorrerá. super-ativo. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . onde tudo era diferente. seu rigor. a não ser que queiram ou possam. não se entregam. não porá nada em movimento. O lento trabalho do negativo. as proibições.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. pelo menos.

Toda formação (qualquer que seja seu programa. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. simultaneamente. FOUCAULT). O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. O único senão é que. PONTALIS. então? Vemos que o que é dito é. Igualmente. ele é chocante e desesperante. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. em muitos aspectos. exato e periférico (não tocando no essencial). é a capacidade inventiva dos participantes. em sua aridez. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. como muito bem o diz J. Afinal. mas científico. aquele que dita a norma (M. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. divulgá-la nas massas dominadas e. DELEUZE e GUATTARI). “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. é esse turbilhão do amor e da morte. Além disso. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos).-B. seus métodos. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. para expressá-las ou mesmo provocá-las. na formação. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. o que é essencial é o que se passa no campo formador. é essa troca de palavra. A mensagem dada. Sem dúvida. é o veículo privilegiado da dominação social. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. ou atento e vivido como o dos psicólogos. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Mas. Quanto a seu conteúdo. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. assim.

o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. mesmo se. em filigrana. os movimentos sociais emergentes. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. se ela o fosse. de um processo. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. ao mesmo tempo. tenha sido possível ler. profissionalmente e socialmente se mexam. em uma palavra. isto é. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. nas Questões propostas. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. Seus enunciados são tão gerais. de constatação aguda e de desmobilização geral. justamente. homogêneo. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. o que ela esconde em seu próprio movimento.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. 220 . isto é. a vida. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. o que não se pode esperar dela. de um trabalho de mudança. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. explicável por um único tipo de lei. depois de tê-los escutado. que só nos resta. a transformação das relações sociais. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. não de uma formação (a rigor. ela não chega a ser totalmente dominante. tão sistemáticos.

desse lugar desocupado e fugidio. as correntes de informação. assim. um jogo de luz sobre certos pontos que. mas sua relação com o saber. mas uma problemática. ele não é o portador do sucesso da experiência. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. por isso mesmo. na situação. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. a criação de negentropia (isto é. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. resvalando. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. seus entusiasmos. através dessa ausência. 221 . em suas diferentes dimensões: culturais. suas descobertas e suas resistências. políticas. Ele está lá simplesmente como uma referência. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. ele deveria se calar?). Quando ele intervém. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). ele oferece não um saber. um encadeamento de Questões. aliás. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. Por meio dessa ausência-presença. dessa desordem-ordem.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. organizacionais. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. mas. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. indicando. fazem surgir formas da sombra. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. uma movimentação de energias. provocando a vontade de respirar. Ele está lá vivendo. suas interrogações e também suas paixões. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. suas idas e vindas. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. Ausente. suas falhas. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá).

quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. de suas relações afetivas. No caso contrário. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. vivem em organizações específicas. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. entre cem. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. as diferenças são apagadas. para não falar de sua situação econômica. a relação com o saber é suspensa no vazio. de seus corpos e.). mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. Ora.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. Não são pessoas ou seres desencarnados. a resistência se deslocou. os conflitos não têm mais espessura social. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. projetos sociais. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. praticamente nunca era contradito e. hoje. não há muito tempo. Por isso o trabalho do grupo será centrado. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. um dos membros do grupo era particularmente escutado. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. Como interpretar tal situação. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. formadores etc. tal funcionamento é profundamente mistificador. 222 . na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). uma atitude de deferência e de sedução. o resto do grupo o seguiu em bloco. tomando certos caminhos e não outros. com relação a esse personagem. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. Um exemplo. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. tendo um passado. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. Um outro participante manifestava.

Em cada sessão. os participantes falam do que fizeram. outros atos sociais. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. intensivo. fecundarão novas atitudes. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. de breve duração. imaginam soluções. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. conduta e gesto. mais exatamente. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. não há mais dicotomia entre ato e palavra. A partir do momento em que o desejo circula. um ou dois anos). nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. imaginário instituinte. de seus sucessos. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. a 223 . outras palavras sociais. fazem propostas. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. Não estão lá como pura presença. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. de suas tentativas. construíram ou destruíram em seu meio real. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. aprofundadas. confrontadas. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. a imersão na vida aqui e agora. o foco em relações afetivas imediatas. O lugar fechado. lugar de análise. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. É por isso que somos partidários de estágios longos. ação real e ideologia. é aberto sobre o mundo exterior ou. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. mas como portadores de suas angústias. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. realizaram. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. retomadas. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. menos tal processo pode ocorrer. experimentaram.

Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. do excesso. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. Trata-se. ser protegidos. possa. a fim de que a energia livre. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. algumas vezes. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. irrupções vulcânicas. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor.. do gozo). de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. naturalmente. Não está. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. impossibilidades totais. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. uma angústia diante do desconhecido. em questão visar à dissolução pela dissolução. ter efeitos. com o saber) são descentradas. Momentos de mutismo e de temor. Não nos enganemos entretanto. todos juntos. momentos de embotamento. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. discursos ideológicos desenfreados. a loucura e o sonho possam ter. com o outro. nesse processo que. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. de necessidade de alimento. mesmo se ela pode se tornar criativa. se interrogue sobre si mesmo. expressão gráfica etc. Resistência vinda de indivíduos em formação.. por enquanto. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. viva paixões. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. Essa experiência da heterogeneidade. do fogo e mesmo do caos. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. ter caminhos balizados. do saber alegre. a precluir certos registros (da paixão. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. ao contrário. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. reencontra muitos obstáculos ou.. períodos de análise refletida. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. então. que o amor inexiste sem a experiência da morte. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. a periodicidade desses momentos. falar. Aqui. talvez. mais dinâmicos. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. de novo. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. depois de terem liquidado 224 . direito de atuarem.

seu modo de existência. mas a confusão. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. Intervenção psicossociológica. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. então. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. entre as sessões. é necessário que ele seja evocado. naturalmente. a dificuldade intransponível. para nós. a utopia e a inquietante finitude. da intervenção. Enfim. o que ela não poderá jamais realizar. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. as numerosas escolas. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. Naturalmente. quando retornam às suas organizações. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. de trabalhar 225 . eles reencontram a inércia das estruturas. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. avançando uma série de proposições. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. o espanto e o desprezo de seus colegas. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. sobretudo. tentar experimentar novas condutas. senão a violência simbólica da organização. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. E que. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. seu possível devir Não está em questão aqui. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. se transformará em um simples prestador de serviços. deliberadamente.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. mesmo se os participantes podem. Trata-se. o que ela busca induzir. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. provocar mudanças. Essa experiência da margem. Na intervenção. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. que deveria transformar o que está no centro.

uma situação irreal. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). toda a violência do cotidiano que. O que está presente não é. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). de melhoria de condições de trabalho.) e que desejam resolvê-los. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. mais exatamente. isto é. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. recusa a alguns o próprio direito de falar. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. Não por razões morais. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. uma certa fissura no organograma da organização. absenteísmo. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. desperdício. desordem nas salas. como submissos. ao contrário. então. que têm problemas concretos (de decisões. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. consciente ou inconsciente. no processo de trabalho. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. como na formação. mas. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. impede de ver e de sentir outra coisa.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. de definições de tarefas etc. numa primeira análise. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. assim. existissem como executantes da máquina. além do mais. durante muito tempo. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. mas. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. A intervenção. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. Essa recusa. antes de tudo. na hierarquia interna. A palavra reprimida. para se expressar.

Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). então. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. pelas relações codificadas. para que o olhar se desloque. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. para que possa interrogar o oculto. progressivamente. Colocá-la em causa seria um salto mental. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. Mas. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. pai-filho ou ele-outros.T. transformador do mundo. a aceitar sua parte de loucura. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível.D. pensamento-execução.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos.F. a deixar seus desejos serem expressos. “ruídos”. O que resulta. que faz surgir um real além do real percebido. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. Numa pesquisa efetuada pela C. ou que possa pensar de fora da fábrica. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. entre si e o outro. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . Não se trata de sonhar por sonhar. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. relações de poder e separações instituídas.

onde a lei. é o que permite a troca e a reciprocidade. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. dessa maneira. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. Assim. os psiquiatras. à sua maneira. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. ator e analista social. sua cronologia e suas articulações. ou. subvertidos ou. que o surgimento do imaginário. promete apenas. dessa ruidosa confusão. outras formas de relação e outros modos de estruturação. ao se deslocarem. pode sair a surpresa. Aliás. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. metafórico. sem análise. fazem da criança também um educador. uma nova forma de educação. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. é lei retomada. o inesperado.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. cada um se tornando. ele classifica. os educadores chefes e especialistas. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. numa análise em ato da organização. imaginativo. igualmente. é necessário que os modos de pensamento. decepção. os psicólogos. no mínimo. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. transformada e garantida por cada um. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. a própria idéia 228 . Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. então. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. interrogados. Ele distingue. analógico. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. pessoal de cozinha e de limpeza. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. O que significa. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. isto é. a médio prazo. As posições. mas em uma maior fluidez. ele exclui e. com seus argumentos e suas demonstrações. além das crianças. numa decodificação das relações. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor.

a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. então. As pessoas se submetem.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. o homo demens no homo sapiens. a língua. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. mas também da linguagem utilizada. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. Mas aí também sabemos que. na realidade. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho.11 Queremos dizer que a verdade. um elemento de mascaramento do sistema social. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. por sua vez. da Psicanálise uma arte de construção. na França. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. já não indica que as relações de cumplicidade. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. do bom estilo. de fazer. Não se trata apenas do modo de pensamento. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. colorida. isto é. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. é como o dinheiro. Quando. à língua (a parte social da linguagem) dominante. Ora. dissimula. antes. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. a invenção popular. submetem-se ao princípio do prazer. as “estórias de comadres”. da criatividade diária dos grupos sociais. Essa perspectiva não o impedirá. Buscamos. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. falarão. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. a verdadeira 229 . nas organizações. da ortografia necessária. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. para ser expressa ou reencontrada. Assim. Naturalmente. como ele próprio o diz. inversamente. divertida. de intimidade. A língua. atrás da imagem de falar bem. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. sob certos aspectos. Mas. isto é. pede que cada um pense e viva na contracorrente. o roubo da língua espontânea. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. pelo contrário. isto é.

os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. de seus mandamentos. Não apenas de autoridade. Há uma língua dominante. É por isso que atacar a língua dominante. A mesma coisa ocorre hoje. fazê-la viver. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. para se protegerem dos outros atores sociais. se dá conta disso.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. então. antes de mais nada. pode-se constatar que eles se protegem. a partir do Século XVII. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. que são os que podem traduzir. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. precisa e cifrada. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. fazendo-os aprender a falar. todo mundo. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. mais exatamente. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. mas de poder: da lei. argumentada. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. quando se escutam as palavras que eles utilizam. pois o 230 . dessa forma. Veja-se bem a dificuldade. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). não tendo mais nenhum elo com as esperanças. Mas os tradutores traem. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. de modalidade de comando. a dos tecnocratas. Por isso. reencontrar a língua perdida. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. reencontrar sua língua. em boa linguagem. as frases que inventam. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. confusamente. Eis que chegou o tempo dos tradutores. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. para obrigá-los. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. experimentar o seu calor. inventar um falar. Aliás. do mundo adulto (e o atacam). mas o da dominação que ela instaura. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. Se.

Mas. ao contrário. sendo. então. Assim. Entretanto.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. justamente. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. mas sim questionamento infinito. membros do comitê de empresa. sendo inauguração de uma palavra nova. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. De qualquer maneira. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. ele lhes permitiu. colocar-se em questão. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. quer que ele seja reforçado. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. mas também quando o poder está em jogo. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). Então. sua vontade instituinte e. chocase violentamente com as estruturas. as comunicações interpessoais e intergrupais. A intervenção. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. o interventor ultrapassou o limite. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. as resistências. os estilos de autoridade. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. assim. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . então. agradece-se ao interventor. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. quem quer que seja (dono de empresa. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. a intervenção pára. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. então. interminável. os hábitos. com uma outra linguagem. se uma demanda lhe foi feita. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. mas. quando estão no campo de análise não apenas as relações. dentro de certos limites. nem renunciar a seu poder. a se informarem.

aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). Porém. palavras a serem ditas. mas favorece o desejo de mudança. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. Quanto ao valor e à importância desse movimento. procedendo por deslocamentos e rodeios. Ele não analisa sozinho. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. Também não se pode dizer que ele fracassou. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). a tomada da palavra e outros modos de relações sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. que só poderá viver. Ele não realiza nenhuma mudança. eus a se abalarem. não lhe cabe questionar os poderes. colocando-se como um shaman ou um mártir. energias começaram a circular. Não sabe pelos outros. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. 232 . mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. Pois. das funções elucidativas. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. através de ações. os movimentos sociais. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. pólo de identificação ou bode expiatório. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. seu trabalho só pode ser lento. se ela se coloca. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. sendo alguém que incomoda. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. em contrapartida. então. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). dispersões a se operarem. O que ele sabe bem. Ele não transforma as estruturas. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. é aos atores sociais reais. que. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. é que. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. não os conduz em direção a nenhum resultado. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento.

Anteriormente. sua posição nada tem de confortável. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. Suspeito por todos.A falta de formação dos interventores.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. então. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. inclinar-se à rigidez ou.Em contraposição. traidor em potencial. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. ao contrário. Entretanto. 4. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. desde o início. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. mais sua ação será limitada a certos grupos. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. agricultores tendo interesses em comum. Pode. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. 3. mas que ele deve saber.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2.

que assim buscam empreender atos significativos. eles se preparam para uma vocação de mártir. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. 234 . já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. então. 3. Quem quer conhecer a dúvida. 2. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. ser retomado. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). em uma sociedade tecnocrática. por seus gestos. em um soberbo isolamento psicótico. Um dia. que já nem se permitem mais o autoquestionamento.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. Como escutar ainda uma palavra que cochicha.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. com outras relações. eles desabarão. o que nos parece mais importante. efetuado por eus fortes. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. sobretudo. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. comunicações melhores e. um maior controle consciente. a demanda acaba. não a desejam com freqüência para si mesmos. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. Isso é compreensível.Enfim. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. Aparentemente. do desejo da alienação etc. da mulher.

Topique. essa abertura profunda na superfície das continuidades. 17. Piera. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. “Imaginaire social. Em Lip. cf. p. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Connexions. Le Seuil. 1976. ENRIQUEZ. 1974. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. o Eu tudo destrói. recalcamento e repressão em organizações. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. FREUD. caracterizadas. Paz e Terra). mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. do sonho e do gênio maligno. E. FOUCAULT. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Serge. n. C. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . MORIN. 1972 (Imaginário social. Les mots et les choses. A. Connexions. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”.” Le sauvage et l’ordinateur. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Seuil. não caem nesse erro. CASTORIADIS. refoulemente et répression dans les organizations”. M. Pour la Sociologie. Gallimard. DOMENACH: “Para não ser destruído.-M. L’institution imaginaire de la société. On tue un enfant. Cinco lições de Psicanálise. TOURAINE. Na primeira meditação. Segundo J.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. 1977). “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. 1974). Le Seuil. 13. Epi. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. descritas. cujos signos. 1975 (Mata-se uma criança. 137-159. no 3. Eugène. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. repentinamente. Cf. CASTORIADIS-AULAGNIER. Rio de Janeiro: Zahar. Le Seuil. por Marília Novais da Mata Machado. LECLAIRE. La nature humaine. “Points”. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. enunciadas. Le paradigme perdu. Points. E.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. mas tomo iniciativas e faço propostas. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. Caso um apelo seja feito a mim. mas pode. hipóteses. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. a examinar princípios. a partir de um determinado momento. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. algumas vezes. os atores envolvidos. isso se dá. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. porém. não poder sê-lo. Ao mesmo tempo. regras. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. Ao mesmo tempo. também. perspectivas. abordando concomitantemente o sistema. dimensões ideológicas. mas. 242 . em excesso. Assim. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. justamente. que pode ser feito fora de um universo técnico. meus conhecimentos e habilitações. justamente. pode. além disso. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. sobre a maneira como se afastou do previsto. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. parece importante aos solicitadores. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). os fatores geradores do problema. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. firmemente. de preferência. sua participação no trabalho. numa dada situação concreta. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração.

as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. a seguir. Evocaremos. então. para tratá-lo. então. por exemplo. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. O modo de estruturação do processo pode se tornar. os recursos da equipe de consultores escolhidos. tentar. no final desse artigo. É nessa perspectiva que é preciso. princípios estratégicos. tal vantagem deve ser abandonada. ecologia etc. na determinação das técnicas. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). não apenas objeto de trabalho para os participantes. em função do campo no qual elas aparecem. rapidamente. tolerância à diferenciação. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. Poderíamos. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. um objeto de trabalho. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. então.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. formas de autoridade. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. Porém. em si mesmo. as funções externas almejadas pelos atores. constituindo. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. os custos etc. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. a natureza dos objetos. suas orientações teóricas. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. tamanho. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. 243 .). as propriedades do sistema (grau de centralização. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. tornar mais inteligível. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. tolerando apenas uma gama restrita de variações. os fenômenos de moda. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. Cada uma comporta pressupostos. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais.

de maneira bem menos acentuada. uma origem técnica importante. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. COCH e FRENCH). em especial. estão as técnicas de pesquisa de campo que. nas de TOURAINE. Entretanto. bem cedo. na maneira como J. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. Entre esses dois pólos. Quanto às estratégias de pesquisa. Em seguida. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. a observação participante. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. parece-me. a propensão dos práticos de intervenção. algumas vezes. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. 244 . B. GODIN. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. Algumas vezes. em algumas práticas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. por exemplo. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. isso se passa sobretudo porque. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. de devolução aos participantes e de interação dos atores. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. depois de LEWIN. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. a partir da prática psicanalítica. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados.

considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. quem reterá as soluções etc. Entretanto. ainda hoje.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. pela encomenda de um estudo “Retrato”. na França. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. produzindo dados válidos. que. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. como em outros lugares. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. freqüentemente. a natureza das resistências. a identificar os problemas. os limites desse modo 245 . Em todos os casos. de fato. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). em todos os casos. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. as razões dos bloqueios. quem conduzirá esse trabalho. atualmente. Em um campo bem diferente. a atuação dos conflitos. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. quem escolherá as opções. a escolher as variáveis de ação. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. Igualmente. por exemplo. é comum. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. é dessa maneira que elas se estruturam. a caracterizar melhor as situações. Pode-se observar que. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. a origem das disfunções. o significado das condutas etc. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. no começo. nas próprias operações das fases de estudo). a isolar os objetivos. no papel de especialistas. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. há muito tempo. a obra de G. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica.

de fato. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. o trabalho de recenseamento. ao menos. Se muitas intervenções. caso se decida reiniciá-lo. sobretudo. por exemplo. enterrá-lo. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. Não se sabe mais o que fazer. em especial. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. por exemplo. com a apresentação dos resultados. freqüentemente com espanto. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. são interrompidas. restaurando a coesão. um retrato eventualmente objetivo e fiel.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. O texto de André LÉVY. 1980). conseguindo uma solução de síntese ou. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. escolhe-se. de caráter mágico. a não ser esquecê-lo. apresentaremos rapidamente três observações: . nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. . iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. do exterior. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. desenvolve muito claramente esse aspecto. constróem. já citado. . o inventário. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. depressão etc. denegação. cólera. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. então. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial.

por categoria de ator etc. .preferir. os critérios de cientificidade: validade. . quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. o debate. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. eles me parecem. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. algumas vezes. o que provoca aumento dos temas de estudo. sobretudo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. então. 247 . De meu lado. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. em outras palavras. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. com o trabalho sobre os resultados. a uma solução que exige uma equipe e. pode-se tentar: . essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica.associar todos os parceiros envolvidos.fracionar a investigação (por tema. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. assim. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. adiamentos de realizações importantes. chega-se. e apesar das reservas expressas. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. mas repensar essa lógica (por exemplo. às relações elaboradas e conceituadas demais. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. durante o trabalho de análise da demanda. correspondentes a atuações mais modestas. como o próprio relatório. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. parece-me. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). pertinência. a perlaboração.

ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. apresentam-se como a aplicação simples. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. 1972). numa escala pequena. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . social analysis. nessa segunda categoria de origens técnicas. evoluiriam. JAQUES. Logo. é necessário lembrar que. assim. em seguida. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. TRIST. sobre a possibilidade de contorná-los. algumas vezes. de aperfeiçoamento e. porém. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. a fim de que elas mudem”. os grupos. a uma perspectiva de intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. Passar-se-ia. as práticas de formação. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. na Glacier Metal Company. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. de uma perspectiva de formação. traduzido para o no 3 de Connexions. De uma maneira geral. em diferentes lugares da sociedade). A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. o artigo de E. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. de 1948. com muita freqüência. em um plano concreto. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. a partir de 1964. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. na qual. adquiririam novas propriedades.

C. C. tecnicamente. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. das estruturas de organização. a fortiori. por exemplo. no 1 a 10. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. de se diversificarem em função da natureza das demandas. Mas se. ao mesmo tempo em que se reforçava. no plano teórico. se quiséssemos ser menos esquemáticos. conceberam diretamente. ao mesmo tempo. KAES). ANZIEU transpôs. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. essa evolução. na França e em países estrangeiros. jogos de simulação. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . Sociopsychanalyse. utilização da autóptica. na empresa Geigy. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. ENRIQUEZ consideram. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. especialmente. ROUCHY. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. no plano organizacional. o movimento de democracia industrial. passando pelos estudos de caso. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. em seguida. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. ROUCHY e E. inscrevendo-se. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. Payot). a importância da referência à Psicanálise. A. LÉVY e. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. ao contrário. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. as intervenções que se seguiram. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. em pedagogia do projeto. consistia em transpor. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. sua prática de psicodrama analítico. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. D. não pararam. o que representaria. Evidentemente. em pedagogia institucional. MENDEL e sua equipe. J. para o seio da cúpula. grupos de análise de prática profissional. nos quais a ARIP interveio. G. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. 1972).

o risco. é mais rápido. irrelevante. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. na medida em que instituir. localmente. mais racional e menos caro. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. freqüentemente. a palavra de ordem. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. desde há algum tempo. então. durante um tempo que pode ser apreciável. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. é a descentralização. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. 250 . de acompanhamento ou dinâmica). os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. Além disso. Enfim. a mudança social desejada. Com efeito. forçosamente. da facilitação e. Evidentemente. é que se engane sobre a causa das dificuldades. os meios de verificar a validade das hipóteses. as que se nutrem da formação surgiram. é necessário providenciar a formação do responsável local. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. estágios existentes fora dela. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. De uma maneira geral. da regulação (hetero – ou auto –. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. no espaço organizacional. ao mesmo tempo. em especial. entre os próprios serviços de uma organização. esperando-se que se aumentará assim.

aliás. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. Esse risco pode ser reduzido apenas se. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço.. de uma maneira progressiva. descobrir. Tal dispositivo técnico é insuficiente. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. os solicitadores. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. confrontá-la à dos outros atores. primeiro. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. entre os dirigentes. os voluntários para se associarem na preparação de decisões.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. manter essa dimensão presente durante todo o processo. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. tal risco. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. evidentemente. na elaboração dos programas. então. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. Um meio técnico (que. Ainda assim. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. de um lado e de outro. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. além disso. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. A competência de um interventor. do qual se espera a responsabilidade. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. ao desempenho eficaz da prática de formador. em assegurar “suas tarefas”. Paralelamente. os consultores.

com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. 252 .. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. é interessante observar que. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia.. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. Porém. o desenvolvimento técnico e científico. as estruturas internas das organizações se complexificam. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. um sistema e seu problema. e não em técnicas de ação formadora de diretores. em resposta ou não a um apelo. numa crítica aos limites do staff and line. afetando a estrutura e as instituições internas. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). de agentes de comando ou de pessoal de execução. Por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. Sem poder preparar aqui tal reflexão. a convicção de que as condutas das pessoas. Entretanto. um grupo. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. dois atores ou diversas instâncias em interação. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. Ela compartilha. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. em problemas de remuneração etc. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc.) –. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. em data. a emergir como práticas e como papéis diferenciados.

o sociodrama. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. a práticas de debate. em Nova Iorque. J. no fim dos anos 20. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. L. No campo das empresas de produção. renovando-as. como o sociólogo S. de defesa ou de negociação. nos conflitos entre direção e sindicatos. evidentemente. sistematicamente. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. progressivamente. Mais recentemente. assim. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. Em países como o Canadá. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. TOURAINE recorre também. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. Mesmo a história da intervenção de E. são chamados. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. os psicossociólogos. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. ALINSKY. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. por exemplo. eventualmente. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. Então. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. os “organizadores de comunidades”. enriquecendo-as. durante os motins do Harlem. vir a substituílas completamente. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. retomaram. freqüentemente. 253 . existem. mas.

o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. concurso de segurança) etc. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. e que. de sensibilização (por exemplo. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. as oportunidades. as prescrições) e funcional (no campo técnico. audiovisual. Parece-nos que. os dispositivos de proteção. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. para a primeira origem. Embora não ilustre especialmente esse risco. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. difusão das estatísticas de acidentes. para a segunda. de propaganda. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. há uma 254 . No começo. apenas. e renunciar. a toda especificidade. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. educativo. de organizar as ações de inspeção. em conseqüência. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. de fato. das lutas militantes etc. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. de estudar as instalações da fábrica. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. para a terceira. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. da polícia. Entretanto. social). sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. Da mesma forma que. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. de formação. de alguma forma. da magistratura. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. das relações pastorais. tanto no plano material quanto no legal. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas.

propor as medidas. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. de segurança e de condições de trabalho. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. Uma vez estabelecida a composição. De acordo com os resultados. No caso da intervenção psicossociológica. por exemplo. no começo. por uma intervenção psicossociológica. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. produzir os diagnósticos. evitase. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. algumas vezes desenvolvendo. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. Os confrontos entre atores (por exemplo. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . então. em outros países. No fim desses dois dias. pessoal de execução). Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. ou por uma intervenção apenas formadora. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. Uma abordagem mais recente. evidentemente. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. fundamenta-se também. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. geralmente. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. concomitantemente. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. contramestres. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. gerentes.

Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. a intensidade emocional mais forte. tal 256 . produz uma frustração muito forte no ator. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. ligada às diferenças de status e/ou de poder. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. Em relação ao processo das intervenções precedentes. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. Porém. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. em teoria. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. Como no caso anterior. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. entre outras coisas. A última negociação consiste. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. de múltiplas forças antagônicas). aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. decisivos. então. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. em especial. estende-se numa duração que se mede em meses. Ela permite. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. a ponto dele renunciar. para nós. instituídos pela lei Auroux.

Está claro também que. uma importância acentuada. entretanto. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. mas também em encontros do mesmo estrato. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). elas não dependem apenas da técnica. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. evidentemente. por exemplo. Em outros termos. Por isso. sempre pluridimensional. está. Escolher. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. Tais requisitos. ancorar. em todos os níveis. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. evidentemente. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. aqui. sem dúvida. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. mas têm. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. tecido com fios múltiplos. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. e. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). tal metáfora. Enfim. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. bem cedo. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. aliás. para guiar a análise. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. senão à primeira.

privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. para o pessoal de um estabelecimento. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. depois de dez ou vinte dias de intervenção. quer esteja empenhado. enquanto dispositivo de inserção. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. as escolhas iniciais arriscam. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). com o tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. no entanto. enquanto pesquisador. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. antes. Assim. ela me leva. Com efeito. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. do gerente ou do político. por si só. retomando a distinção de PALMADE (1977). o interventor é um clínico. em cada momento. Não é fácil. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. mas. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. sem chegar a lhe dar um molde. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. filtrar com segurança um objeto teórico. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. Nem ciência nem tecnologia. fundamentar tal distinção. elas seriam. capazes de contribuir em processos de pesquisa. permitindo isolar. do terapeuta. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. a mim.

no começo desse artigo. Porém. analítica. Enquanto atores sociais. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. para mim. sua identidade social e a natureza de seu projeto. A inserção na universidade. malgrado sua fragilidade no tempo. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. assim. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. importantes sob esse ponto de vista. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. tais acontecimentos podem inspirar outros e. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam.). o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. sem subterfúgios. adquirir um sentido menos restrito. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. para os atores. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. podem-se encontrar. Entretanto. pode-se observar que. os espaços urbanos. 259 . em função do campo social em que aparecem. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. por certos setores da sociedade. o comércio. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. a invenção de instituições locais (por exemplo. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. os setores de saúde. de maneira mais ou menos difusa. a administração.. analisar e experimentar as vias de democratização etc. o mesmo se passa.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. e se surgem conjunturas favoráveis. Por outro lado. os movimentos sociais ou culturais etc. Anunciamos. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. seria natural levantar tal hipótese. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. na literatura especializada.

-C. Connexions. evocando. até um determinado ponto. 7-28. sua própria experiência no campo da saúde. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. Jean.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. voluntária ou militante etc. Porém.). Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.T. . posição central ou periférica etc. . de dependência hierárquica. as conclusões às quais J. com o que se observaria em outros lugares. a divisão do trabalho. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. 1987-l. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. o espaço urbano). não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. não coincidiriam.).). ROUCHY chegou. Por exemplo. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. ainda.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. os resultados quantitativos estabelecidos por C. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. Notas 1 Traduzido de DUBOST. poder. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. por Marília Novais da Mata Machado.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. a estruturação dos papéis recíprocos. MARTIN em uma pesquisa recente. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. 2 260 . pode-se aplicá-la a outros campos. . DO – Desenvolvimento Organizacional (N. autoridade.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. .a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. p. nesse número. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. necessariamente. de colaboração profissional. 49.

3. Paris: Anthropos. 261 . G. Paris: LFEEP. 1987. 1972. A. J. LE BOTERF.-C. La Documentation française. G. C. 1986. 1980. In: L’intervention institutionnelle. Connexions. LÉVY. Théories et pratiques de l’éducation permanente. L’enquête participation en question. Paris: Payot. Les recherches-actions sociales. MARTIN. PALMADE. Interdisciplinarité et idéologies. 1981. Paris: PUF. “Une intervention psychosociologique”. J. L’intervention psychosociologique. 1977. ROUCHY.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

fax.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.autenticaeditora.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .com. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.com.

É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.autenticaeditora. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. o triunfo da racionalidade experimental.br 0800 2831322 . finalmente. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo.com. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. os ‘intemináveis adolescentes’. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. grupos religiosos etc.“Quais são os problemas realmente essenciais.

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