Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

......................................................................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï...... Benevides de Barros........................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost.............................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy...................................................................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez...........................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.................................................................. 237 6 .......... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D..............

A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. reais. Desde a primeira edição. Por tudo isso. cada vez mais utilizada. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. sociólogos e um economista. por meio da “intervenção psicossociológica”. este livro. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. a economia. a psicanálise. tal como no momento da primeira edição. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. o campo da psicossociologia cresceu. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. esclarecedoras dos processos de criação do social. a educação. a sociologia. o direito. da organização e do funcionamento social. Junho de 2001 Os organizadores 7 . A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. prático e metodológico. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. fruto do trabalho de psicólogos. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. À metodologia de intervenções/pesquisas. a administração e a política. bem conhecida e divulgada no Brasil. Assim. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. tornou-se ainda mais importante. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. hoje. dispositivo de consulta e pesquisa. quanto para os que praticam a psicologia. cuja história é nele revista e avaliada.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

empregando para tanto. das organizações e das comunidades. Por meio dessa abordagem. igualmente. organizações e comunidades. são o objeto de pesquisa. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. Portanto. grupos. no quadro da vida cotidiana. com as instâncias de mudança. organizações e comunidades. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. A partir dos anos 50. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. até então desconhecidas. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. freqüentemente através de experimentos. reflexão e análise dessa disciplina. se revelassem. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. inicialmente. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. Passaram a se preocupar. isto é. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. geridos e transformados. 9 . as condutas concretas dos indivíduos. a metodologia de pesquisa-ação. que condutas. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. fez aparecerem certos problemas. em seus grupos.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. Atuando diretamente na vida dos grupos. em especial. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. por sua presença. o pesquisador-prático. Em conseqüência. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos.

torna visível a presença do sujeito social. de onde e como surge a dinâmica social. que 10 . de transformações nos sistemas sociais (A. ENRIQUEZ. por um ato de decisão. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. do trabalho da pulsão de morte. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. da organização e do funcionamento social. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. mesmo que involuntariamente. que é também um ato de palavra. contra esse pano de fundo. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. é formulada uma teoria. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. LÉVY). mobilizados por ilusões e crenças. DUBOST). pois a teorização é fruto da reflexão que. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. dos desejos de onipotência e dominação. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. 60 e 70. aptos a um “imaginário motor”. pouco a pouco tecido. Porém. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. adquire um sabor de novidade. sujeitos capazes de serem autônomos. nos termos de E. e serem criadores da história. do socius. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). Paulatinamente. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. sempre inacabada. a mudança social (A. hoje ela se renova. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. sujeitos que. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. Ora. idealizando e buscando destruir seus chefes. NICOLAÏ).Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. e do processo de criação institucional. com suas mudanças e rupturas. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica.

S. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. 11 . Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. são apresentados nesse livro por Marília N. CASTRO. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. de suas fantasias de onipotência. A. ARAÚJO. de suas demandas de amor e proteção. Sociologia. LÉVY. o desenvolvimento de um processo organizacional. está presente em quase todos os textos. Assim. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. ROEDEL). autopoieses. práticas de intervenção mitificadas. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. Eliana de Moura CASTRO. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. Os autores – Jean DUBOST. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. como sistemas dinâmicos. Eugène ENRIQUEZ. CARRETEIRO. E. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. Sonia ROEDEL. aqui e ali. relações de poder e autoridade. são analisadas novas ideologias. André LÉVY e André NICOLAÏ –. Política. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. J. formadoras das sociedades atuais e futuras. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. nestas páginas. o pensamento filosófico de C. BARROS. de BARROS. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. da MATA-MACHADO. MATA-MACHADO). entretanto. assim como novos sagrados e certezas. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. estruturas dissipativas. é analisada. CASTORIADIS. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. enfim. DUBOST. mas também de outras referências. de ARAÚJO. Psicologia Clínica (J. TOURAINE que. assim como. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. T. B. a condição de construção da vida social. formuladora de grandes quadros teóricos mas. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. José Newton G. M. auto-organização e complexificação a partir do ruído.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. Assim. a respeito das suas representações historicamente constituídas.

especialmente. na França. a disciplina que os congrega. BARROS. Além desse território de pesquisa. a Psicossociologia. 1990-1. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores).Em segundo lugar. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. MATA-MACHADO – Psicologia Social). Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. MATA-MACHADO e S. . ENRIQUEZ). com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. a partir do exame de uma centena de textos. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. textos recentes. 1990-1. ROEDEL). Assim. em função do mencionado convênio. LÉVY. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. cobrindo questões atuais. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J.). “Rupturas. T. T. distribuídos em três partes. CARRETEIRO). Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. mutações e complexificação em economia” – A. na empresa. CASTRO. 1991. NICOLAÏ (mimeogr. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. ENRIQUEZ) e Economia (A. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . LÉVY). ARAÚJO. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. Paris X (J. Paris XIII: M. ROEDEL.Foram escolhidos. ENRIQUEZ.). Paris XIII (A. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. NICOLAÏ. sofreu modificações. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. NICOLAÏ). ARAÚJO. de um projeto pessoal e familiar. Inicialmente. LÉVY (mimeogr. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. ENRIQUEZ. resultando em treze textos. MATAMACHADO). 1990. ENRIQUEZ. NICOLAÏ) – mas. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. DUBOST. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. feita em novembro de 1991: . M. Essa primeira proposta. no Brasil. “O fanatismo religioso e político” – E. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). CASTRO – Psicanálise. 1989. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. primeiramente. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. E. A. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. “A interioridade está acabando? – E. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado.

ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. LÉVY. algumas aterrorizantes. para designar 13 . em maior ou menor grau. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. 1987). na primeira nota de rodapé. Buscou-se uma certa uniformização. 1976. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. Por exemplo. Mais de uma dificuldade de tradução. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). 1980. o grupo e a questão da mudança. através da análise etimológica. mantendo-se a tradução utilizada por T. finalmente. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. à Psicossociologia e à Psicanálise.Em terceiro lugar. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. editado por Jorge Zahar. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. mantiveram-se termos como “fantasmático”. respectivamente. E. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. DUBOST. contudo. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. CARRETEIRO e J. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. Seus nomes aparecem. NASCIUTTI para o livro de E. ARAÚJO. . Psicanálise do vínculo social. apresenta a intervenção. preferiu-se “fantasia”. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. ENRIQUEZ. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. a última tradução foi preferida. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir.Prefácio desejo” (A. foi objeto de discussão e comparação. As traduções foram revistas por J. “Intervenção como processo” – A. a apreensão de seu sentido original. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. Por exemplo. “forclusão” ou “preclusão”. de atividades e produções criadoras. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. MATA-MACHADO. DUBOST. em cada texto. CASTRO e M.

a critério do tradutor. para a palavra enquête. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. essa foi a escolha. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. Finalmente. entretanto. expressão bastante usada em português. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . nosso primeiro leitor. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. na expressão méthodes d’investigation.“relativo a narciso”. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. a palavra investigation. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. Cabe. à sua maneira. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. a idéia de um “eu”. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. no entanto. O sujeito que não “morreu” A. Mas não poderia ser diferente. No entanto. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. desde o início. Eles descartam. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. LÉVY e E.1 Pois bem. como quiseram algumas correntes das ciências humanas.2 .ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. no enfoque psicossociológico. Ao apresentar tais artigos. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . visto que todo leitor recebe. aquilo que lhe cai nas mãos. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. preenche ou interpreta. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito.

notadamente através da teoria lacaniana. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. a empresa-família é anterior ao sujeito. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. não estariam restritas. por exemplo. o da Psicanálise. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. convém observar que. ela é 18 . as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. no conjunto das discussões sobre o sujeito. LÉVY. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. entre outras coisas. os autores caminham numa direção que. já na virada dos anos setenta.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). No texto de A. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. ligada a uma prática clínica. vemos que o “indivíduo” é. por exemplo.”. mesmo na França. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. nas décadas anteriores. Assim. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. o ofício ou o produto. antes de tudo. a família. suas relações próximas e regulares. E. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. a chamada “sociologia do cotidiano”.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. nos parece em parte negligenciada. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. A esse respeito. um átomo talvez. nos artigos aqui apresentados.6 Isso é claro para os autores... entre nós. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. um ponto de passagem.

Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. LÉVY nos lembra. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. mas que reenvia. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. segundo os autores. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. sua constituição “plural” ou coletiva. enfim. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. Assim sendo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. narcisismo grupal. antes de mais nada. identidade coletiva.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. A. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. narcisismo social. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. ENRIQUEZ retoma essa posição. além de desempenhar. “às vezes sem sabê-lo. “no momento em que falamos. Importante ainda. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. as relações sociais. fanatismo de empresa etc. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. daí a ilusão da identidade pessoal. através de FREUD. um papel essencial nas transformações sociais”. num crescente alienar-se. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial.” De outro lado. as significações das ações”. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. pois este. por exemplo. Ele destaca ainda. sempre imprevisível. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. tenta transformar “o mundo. isto é. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. O primeiro é aquele que se agarra. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. Desse modo. 19 . Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. espírito de empresa.

cabem algumas observações..8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. O grupo não suporta nenhuma outra verdade.. como a intolerância e o fanatismo.) deve ser eliminada.9 composto por militantes islâmicos negros que. A essa altura. árida novidade. ilusão e crença. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. estamos falando de mecanismos inconscientes). além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. mas exemplar. os nordestinos. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. como um fenômeno “periférico”. religioso.. Assim. científico ou outro qualquer). amor (ou cumplicidade?) mútuo. pois ela se torna uma ameaça. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil.” 20 . esportivo. xenofobia. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. tentando eliminar dele os negros. religiosas. outras idéias. em diversos momentos. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. como se tinha notícia até pouco tempo. Basta lembrar. mas que tentam ainda se expandir. os judeus e. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. no início de 1993. outras propostas políticas. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. além da sua. mas sim os processos de idealização. algum tempo após as notícias. científicas etc.. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos.

nosso grupo body-building. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. num clima onde toda crítica está ausente. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras.Análise social e subjetividade Aliás. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. já de início. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. ele desconhece também. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). em níveis talvez menos contundentes. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. seja num grupo intolerante. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. nossa “seita” de comedores vegetarianos. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. ela deve ser doadora de sentido. resvala necessariamente para a intolerância. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. Enfim. nosso time de futebol. seja num grupo democrático. a eterna questão do sentido. Em outras palavras. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. nosso partido de direita ou de esquerda etc. contrapor as noções de sujeito e interioridade. rapidamente. a ação grupal deve cobrir um vazio. O que se torna problemático. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. no Sul do Brasil. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. sejam elas brancas ou negras. cada sujeito está perseguindo. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. isolada e coletivamente. infantilizando os “fiéis”. Gostaríamos de lembrar. Poderíamos. E. por analogia. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . noção de origem literária e filosófica. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. às vezes. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”.

num certo sentido. em se pensar espacialmente. Aliás. que não é recente. vítima de ataques. A compreensão da interioridade é. o que é pura duração. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. ele existe atualmente e está. Só o ser existe e ele é cheio. A questão do espaço. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. segundo o autor. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. pois. por ser da ordem da especialização.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. quase que imediatamente. parece haver uma tendência. Se esse sentimento nem sempre existiu. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. Por outro lado. os dados imediatos da consciência são pura qualidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. ameaçado de extinção. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. 22 . PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. íntima. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. questionamentos. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. alegria. para ela. é ‘uma terra estrangeira’”. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. em oposição ao vazio: trata-se. na Filosofia antiga. interrogações e que. Para ele. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. é numa relação espacial que ela se inscreve. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. BERGSON. foi discutida em termos do cheio. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. pois. A interioridade remete. onde ninguém tem o direito de penetrar. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. Talvez seja. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). à alternativa interior x exterior. na esfera psicossocial. a não ser por arrombamento. A interioridade.

Um corpo dinâmico (isto é. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. a pele se liga à formação do eu. Limite e superfície privilegiada de estimulações. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. As idéias de permanência. A percepção do espaço remete à visão. eu não sou. meio de se situar no mundo. foram abaladas pela Psicanálise. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. separada. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. considerando o 23 . isto é. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. ao que marca a diferença. denotadas pelo termo identidade. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. refletindo a si mesmo). só permitindo a percepção de pequenas quantidades. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. na época atual. Há. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. a identidade própria. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. ela é capaz de dizer: eu tenho. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. porque especular. o que se vê por fora é um reflexo do interior. Já a identidade marca a diferença. O culto exagerado do corpo. saturada de comunicação. depois da perda do objeto. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. bonito. diz FREUD. unidade e similaridade. isto é. temos de falar nos órgãos dos sentidos. diferenciando o interno do externo. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. O ter é ulterior.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. Assim. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. capta os estímulos exteriores e também os internos. Dito de outro modo. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. Existe. que pode ser descrito como um narcisismo de morte.

É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. francesa Grasset. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. em sua obra Lector in Fabula (trad. Afinal. em outros termos. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. e como bem captou ENRIQUEZ. por ser essencialmente espacial. feitas pela religião. nenhuma leitura é um ato neutro. do outro que eu sou. O oculto. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. entre outras coisas. se tornam assim mais claras. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. Ele diz. quer como conceito psicológico. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. Por isso. já dissemos. E o mais importante. de outro lado. pela empresa ou pela sociedade. ARAÚJO. Finalmente. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Assim. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. a interioridade considerada. naquilo em que ele é diferente do outro. que todo texto é um tecido de espaços em branco. 2 24 . As propostas absolutizantes. ao eu e muito menos ao sujeito). isto é. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. pois. só podendo. no campo da argumentação psicossociológica. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. é certamente desprovida de energia ou. isto é. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. quer como sentimento pessoal. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. Em outras palavras. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. Notas 1 Humberto ECO. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. oferecer uma resistência passiva. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. é passiva.

p. p. em seu número de 1º/12/93. Paris: Gallimard. por Jean-Marie LE PEN. 1984. Paris: Dunod. uma editora de propaganda nazista. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. Cf: ANZIEU. BALANDIER. nessa mudança. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. 1970. como um instrumento terapêutico. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. 29-31) afirma que. De outro lado. senhor de si e do universo e como se. P. soberano. 5-12. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. mais perto de nós. 13). encontrando aí as condições de gratificação narcísica. P.. Cf. n. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. fez reaparecer o sujeito. 50-53. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. P. 445-449). vol. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. na América Latina e mesmo na Europa. Assim. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. além de serem historicamente contestáveis. O autor evoca J. principalmente após as recentes eleições da Rússia. Observação semelhante já fora feita. In: Bulletin de Psychologie. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. reportagem da revista Isto É. “Essai d’identification du quotidien”. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). por isso mesmo. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. p. em nível individual. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. Paris: Gallimard. face às estruturas e aos sistemas”. em seus níveis mais profundos. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. 322.. 1983. de 28/04/93. desembocam na idéia central de uma conexo fechada.. Paris. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. Para ele. tomo XXIX. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. JIRINOWSKI saiu vitorioso. líder da extrema-direita francesa. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. cit. Lembremos. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. (Cf: ANSART. p. alguns anos atrás. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. SELLIER (cf: Le mythe du héros. Conseqüentemente. na Biblioteca Nacional de Paris. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. não passavam de “mero detalhe”. LXXIV. G. D. Paris: Bordas. o culto à figura de GUEVARA. p. 1975-1976. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. Essa mesma revista.Análise social e subjetividade 3 Cf. nas quais o Sr.

ver: FREUD. 68. Além do princípio do prazer (1920). 1967.) 14 Cf: BERGSON. Buenos Aires: Editorial Vancu. 120 ed. Le moi-peau. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. 1977. 1976. XVIII vol. 15 16 26 . H. (Cf: FONTANA (A) et al. ANZIEU. El tiempo y los grupos. 1985. ss. p. Entre outras alusões a essa questão. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. S. 42. D. Paris: PUF. Paris: Dunod. semelhante à vivência intra-uterina. Rio de Janeiro: Imago. Essai sur les données immédiates de la conscience.

do sujeito. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. por outro lado. mesmo sem dizê-lo. 27 . um determinismo absoluto dos processos sociais.2 A razão é simples: como muitos outros autores. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. um ser falado. em grupos e organizações. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. LAGACHE. Com efeito. No entanto. assim. que decidi me manifestar. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. É contra essa tendência reducionista. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. O indivíduo torna-se. ALTHUSSER). sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. do aumento do individualismo. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. Seguindo essas abordagens. No momento atual. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. só se fala do indivíduo. em maior ou menor grau.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. por um lado. pois. ao invés. De minha parte. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. que nega a interrogação de D. sua classe ou sua raça. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. um ser agido. como psique. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L.

CASTORIADIS. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. numa sociedade que é. logicamente. num lugar-tela. Em outras palavras. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. é preciso pressupor. ela própria. Uma tal sociedade heterônima tem. em parte. ir muito longe nesse sentido. em uma etnia. sua conduta. para retomar a terminologia de C. que lhe deu direito à existência. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. que pode tomar a forma de totens. quer seja por Deus – BOSSUET. em parte inconscientemente. ao mesmo tempo. portadoras de 28 . gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. mas deixassem também. De fato. além disso. ou de um Deus único. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. isto é. conduta estruturada social e culturalmente. uma cultura. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. no entanto. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). tendência a só produzir indivíduos heterônimos. porque toda sociedade comporta falhas. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. já que nascemos sempre em um grupo. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. zonas inexploradas. a cada homem. Nessas condições. Essa emergência acontece. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. “a possibilidade de saber que alhures. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. a anterioridade dos processos sociais. de antepassados e de Deuses. conformados a seus votos e a seus ideais. Não é necessário. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. em uma classe. em uma nação etc. Nessas condições. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. BURKE. DE MAISTRE –. heterônima. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. Freqüentemente.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. em parte voluntariamente.

souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. em pessoas e grupos sempre diferentes. mesmo sem percebê-lo. apoiando-se nas funções corporais. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. a médio ou a longo prazo.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. Elas se tornaram. Notemos que as sociedades modernas. sem sabê-lo. Embora exista. contra a vontade da massa. até mesmo se choca. pelo menos de imediato e. Mas. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. ele também só é parcialmente heterônimo. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. se põem a acumular riquezas. um papel essencial nas transformações sociais. desde a Revolução Francesa. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. como dizem FRITSCH e PASSERON. em certos casos. sobretudo. um discurso dominante. às vezes. Além disso. como evocava FREUD. portanto.7 Quanto ao indivíduo humano. a trocar sua natureza pela de um térmita.8 Enfim. Reis continuam a se 29 . uma “parcela de originalidade e de autonomia”. outro um novo tear. não a um contra-discurso organizado mas. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. não se pode esquecer que o discurso. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. por mais totalitário que seja. às vezes. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. fanático. de maneira invisível. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. seja lá por que modo. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. Deve-se. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. ignorando soberanamente a ideologia dominante. desde a Renascença e. em toda sociedade. Alguém inventa uma máquina a vapor. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos.

do seu serviço. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. os processos sociais. cada um deve ser criativo à sua maneira. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. ela pode ser bem efêmera. No entanto. é. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. a vitória nunca sendo definitiva. a individualização. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). vencedores que querem ir até o fim. em nossa época. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. mas é o homem da performance mensurável. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. Assim. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. então. da sua organização. mais freqüentemente. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. o elemento esportivo predomina. Ele deve gozar com essa renúncia. performance sempre a recomeçar. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). sempre imprevisível. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. se os processos psicogenéticos pressupõem. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. seu tempo. objeto de tantas preocupações. Ao contrário. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . O winner sempre pode se tornar o looser. Se cada um deve manifestar sua singularidade. “matadores frios”. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. apenas um elemento do processo de massificação. Assim. como sublinha CASTORIADIS. Nessa ética. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco.9 Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. De fato. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios.

que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. mas que. a se associar a paixões puramente agonísticas. mas não se orgulha de si mesmo. em geral. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. igualmente. em vez de admirar o que ele concebeu. REICH. hoje em dia.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. os que W. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. posições de poder. financeiras ou de prestígio. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. designava por “zé-ninguém”.10 Assim. assim. na maioria das vezes. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. tende. Admira o pensamento que ele não concebeu. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. desvestida de seu sentido ético-religioso. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. o “culto da empresa”. O “zé-ninguém” está sempre. o indivíduo renuncia. igualmente. quando se fala do indivíduo. nas universidades. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. a busca da riqueza. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. onde seu paroxismo predomina. 31 . É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. Nos Estados Unidos. um novo ritual. ou ainda. a justificá-lo”. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. o que lhe confere. Ele atinge.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. nos hospitais. para depositar seu destino nas mãos dos outros. além disso. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. aqueles a quem chamamos vencedores. atrás da força e da grandeza de outros homens. características de um esporte. naquele tempo.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio.

rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. então. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. ser um agente ativo desses processos de recalque. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. depois de descrever esse fenômeno. Em outras palavras. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. Além disso. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. A idealização é. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. o mundo criado não é contestável. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. reprimir suas pulsões. correndo um mínimo possível de riscos. aderir profundamente às injunções sociais e. às vezes. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. de repressão e de adesão. portanto. apresentando-se como objeto maravilhoso. assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. nós próprios nos tornamos admiráveis. apoiado 32 . tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. Resta-me. o que devemos fazer e como seremos recompensados. agora bem conhecido. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. sempre ameaçador). para existirem. é. médios ou pequenos homens. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada.

graças a esse jogo identificatório. nas quais. uma massa maior de homens. A identidade coletiva favorece ainda. sem se dar conta de que. um proletário. da sedução ou da obrigação]. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. o fanatismo. o racismo. é se voltar ao grupo de pertinência. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. um budista. estamos divididos e angustiados. ao nosso “nós”. de simplesmente não ser.13 Reencontrar a coesão. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. de fato. produzir por produzir. A identidade coletiva. que sentido pode ter ganhar por ganhar. como mostrou FREUD. contraditórios. É necessário precisar esse último ponto. é imputar os problemas ao outro. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. Vivemos em sociedades nas quais. portanto. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. (Com efeito. Se somos apenas um espartano. está cheia de perigos. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. ideais vazios e desprovidos de sentido. que tem como efeito “unir uns aos outros. 33 . G. graças a identidades coletivas fortes. o narcisismo social. os ideais são múltiplos. De fato. eles suscitam a aceitação ou a identificação. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. freqüentemente. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). tem como futuro possível a xenofobia.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). estamos perto de não ser absolutamente nada e.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. consumir por consumir?) Ora. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. através desse processo. dificilmente. um capitalista.

a respeito de qualquer tipo de problema. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). as relações sociais. Tal indivíduo só sabe repetir. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. reproduzir. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. tem como projeto voluntário. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. O sujeito é um ser criativo. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. bem como da tranqüilização narcísica. Quero simplesmente dizer que cada um. seres a eliminar. daí. em sua vida de trabalho. O indivíduo individualizado (e não individuado. quanto mais a identidade coletiva existe. no entanto. não pode ser considerado como sujeito humano. o indivíduo singular. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. bem entendido. que. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. Vê-se. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. por mínima que seja. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. 34 . para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. ao menos. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. a sua conversão. as significações das ações. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. criança. Não podemos. nos lugares da vida cotidiana. portanto. portanto. em suas relações sociais de todos os dias. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. Para definir criatividade. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. quanto mais uma cultura se quer unificada. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). Com efeito. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma.

a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. em compensação. não na escola!. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. E mais se imprime. o nascimento. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . é a formação.. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). e que o mundo possa testemunhá-la. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. respirando a plenos pulmões um ar salubre. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. demens (objeto da hybris). portanto. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. homem portanto de sabedoria e loucura. voluntariamente. a gestação. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista.. que sente prazer em respirar. uma novidade irredutível. não ao charco das alegrias imortais. de repente. do jogo e da vagabundagem. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. é ainda pior. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias.. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. ao mesmo tempo sapiens.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. quanto na inspiração do arquiteto que. antes que ela se fixe em natureza morta. imobilizada.. ludens e viator. em lugar de uma imagem da natureza. aqui e agora. em seus Conselhos a um viajante. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. um ser capaz. chegarás. ela está presente em quem faz. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. levo a sério. Os artistas não se enganaram a esse respeito. O sujeito é. o primeiro movimento indistinto da matéria. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. meu amigo.

um pouco paranóico. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). Com efeito. atualmente. portanto. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. assegurando-lhe a redenção. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. cientificamente. os sedutores ocupando uma posição histérica. a sua própria alteridade). freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. em particular o grande homem. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. entre os grandes homens. Assim. depois da guerra de 1914-1918. para realizar uma missão salvadora. sente-se eleito por Deus. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. os manipuladores ocupando uma posição perversa. identificado a seu pai. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria.17 Porém. preso na ganga dos ideais. pela natureza. a esse respeito. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. para lavar o mundo de sua sujeira.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. Michel SERRES. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. de seus medos. No entanto. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. 36 .18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. aliás. é preciso parar um momento. O megalômano.

onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. segundo FREUD e BULLITT. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. ou capacidades manipulatórias. como LENIN: ao contrário. LENIN. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. que queria dobrar o mundo à sua vontade. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais.20 do homem que declarava. como WILSON ou HITLER. ele se proíbe de ser excepcional. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. 37 . quis fazer do alemão o povo eleito e. esse está. só considera o mundo sob o ângulo econômico. denega a realidade). os tecnocratas. obcecado com a força pela força. como já indiquei anteriormente. que não tinha interesse algum pelos outros. para isso. o povo judeu. ao contrário. a um nível mais irrisório. que tomou o poder contra os mencheviques. por sua vez. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. ao mesmo tempo. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. nem uma força de pensamento e de ação. Quanto ao manipulador perverso.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). que toma a si mesmo por ideal). durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. tem gosto pelo instantâneo. é um bom exemplo desses chefes perversos. inventando complôs. reduz as relações humanas a relações de objetos. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. O teatro é também para ele um terreno de esportes. crê falar a linguagem da verdade. basta o de STALIN. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas.21 Assim também HITLER. caso bem conhecido e. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. recém-saídos das grandes escolas. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. só pensa em termos de estratégia. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais.

) são as pessoas comuns. uma demonstração do possível (. um indivíduo sem fantasias. O grande patrão italiano C. Mesmo assim. meus aliados (. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais.. os outros escapam a essa denominação.. ao contrário. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. de uma normalidade esmagadora. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Eles se apresentam. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Mas. M. com a condição de ser corajoso. porque sou. sem dúvida.. como indivíduos perfeitamente normais. se tiver tanta coragem quanto eu”. não tenho dúvidas morais”. AGNELLI a gente nasce.. sem interrogação. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. Tentarei em outra ocasião. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica.). de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. Se elas tomarem um grande patrão italiano. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 .Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. nem mesmo na imaginação. pois ele promete a qualquer um. Em todo caso. Em outras palavras. ele perdeu alguma coisa. não se torna. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. a seus olhos. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. AGNELLI por exemplo. talvez. Em contrapartida. mas uma duração realista. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. é possível tornar-se DE BENEDETTI. como GORBATCHEV.

de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. Um ser consistente pode ter dúvidas. tomar caminhos transversais. É também um homem que demonstra consistência. só sabem repetir. Eles têm uma influência social inegável. assim. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. sem falhas. 39 . A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. mais ainda. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. dos outros. em sua linhagem.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. no sentido que dou a esse termo. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. MOSCOVICI. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Mas não são verdadeiros criadores de história. de se lançar no desconhecido.23 Em certo sentido. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. Ele não tem projeto. criar seja lá que novidade for. E. reproduzir. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. favorecer a tomada de consciência de situações reais. de tudo desarrumar. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. FAUCHEUX. fazer advir o sujeito individual. conforme McDOUGALL. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. Se o sujeito evolui. por um lado. assim. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. mesmo se nada descobre. fazer advir o sujeito coletivo. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). pois falta a ambos. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. ao inusitado. São desprovidos da aptidão à transgressão. S. Corre pela vida como em uma auto-estrada. São portadores da pulsão de morte. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Mas ele conserva o mesmo projeto. Teríamos. o caráter irrevogável de sua escolha e. insiste sobre essa noção. de tudo realizar” (McDOUGALL). Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. em FREUD. em MARX. ele o faz em sua linha. “que significa. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. a recusa de compromisso sobre o essencial. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. por outro.

da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. SEGALEN. como também a provocá-los. visível e. interdita a tentação da Unidade-Identidade. Ele é. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. a uma identidade coletiva. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. delimita também. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. a ocasião. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”.” O sujeito não é homem de comprometimentos. MOSCOVICI. à dispersão. criar e sustentar um conflito com a maioria. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. quando ela se apresenta. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. finalmente. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. consistência e astúcia andam juntas. portanto.24 O “exota”. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. para fazer triunfar suas idéias. porque a dispersão. pessoas vindas de outros países. em seguida.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. diante da exigência do todo. segundo a expressão de V. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. é que. O que é interessante. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. Ao mesmo tempo. um grupo ou um Estado. a um Estado. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Para SEGALEN. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. o exilado. não pode jamais estar colado a uma organização. Aqui não se trata de manipulação. igualmente. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. o que não é nada fácil. souberam conciliar furor. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). provenientes 40 . no entanto. consistência e astúcia. uma outra exigência e. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. isto é. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). recentemente republicado. no momento atual. Consistência e furor. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). se outros não podem se identificar a ele e com sua causa.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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de considerar os problemas em sua frieza. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. Se o indivíduo se identifica com a organização. sobretudo. ao propor. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. do combatente. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. de sonhos e de interrogações. seus valores e seu processo de socialização. aos que dela participam. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. sem o saber (e de consciência tranqüila). de ter modos de “comunicação afirmativa”. para fazê-lo. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. A cultura de empresa ou de organização. Para obter tais resultados. então. Minha contribuição será. SERVAN-SCHREIBER). do vencedor. dando. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. assim. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. se só pensa através dela. sejam quais forem. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. aos outros. desembaraçado de compromissos. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. . no sentido sadiano do termo. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. então. com personalidades “as if” (H. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. L. em demasia. o homem capaz de ultrapassar seus limites. portanto. capaz de se adaptar a todas as situações. sobretudo. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. ele entrará.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. de colocá-los.

uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. um ideal a realizar. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. segura de estar em seus direitos. que uma sociedade não pode existir sem religião. uma causa a defender. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. desde DURKHEIM e FREUD. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. exige a idealização. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. atualmente. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. pronta a punir os blasfemadores. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. xamãs. o renovar de uma igreja dogmática. encarnar a “instituição divina”. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). em nome da verdadeira fé.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. E. Basta ter em mente: a renovação do Islã. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. Então. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. 47 . esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). gurus. Sabe-se muito bem. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. de perda e de sofrimento. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. mais próximos do integrismo. injustamente martirizado. mas. ao contrário. no mundo medieval. através de um projeto a concretizar.

continuamente desejável. cuja meta é a homogeneização do “interior”. mesmo os mais repreensíveis. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. animado) é o nosso bem mais precioso. competitivo ou não (por exemplo. que aqui apenas menciono. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. As técnicas de body-building. sofredor. as maratonas de Paris ou de Nova York). Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. esbelto. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. pelo menos. Mas as religiões. submetê-la a ídolos não contestáveis. os estágios off limits. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. O fanatismo político. o “grito primal”. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. “tornar-se saudável”. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. a aeróbica. todas as religiões. falado e falante. o jogging. portanto. 48 . Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. as ginásticas suaves. o desenvolvimento do esporte de massa. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. as medicinas naturais. afastar a dor. a expressão corporal. Voltarei adiante aos métodos empregados. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. “Estar bem em sua pele”. como a expressão da graça que lhe cabe.

grupal e coletiva. mudança sempre difícil pois traz. Basta querer. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . de intervenção psicossociológica ou institucional. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Os próprios indivíduos. A explicação é simples: todos os métodos de formação. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. de fato. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. de evolução pessoal ou grupal. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. No narcisismo de morte. nas organizações sociais. na qual fatalmente se perderá. na medida em que não se trata. necessariamente. Ora. de autoridade. a busca do “erro zero”. “a paixão pela excelência”. 1983). que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. sinais de uma fantasia de domínio total. confronto com o sofrimento. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. membro de um conjunto que tem suas coerções. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). Elas anunciam. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. interrogação do ser. únicos responsáveis (se eles fracassam. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. GREEN. ao menos. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. a “qualidade total”. cada qual se mira em seu próprio espelho. que o indivíduo. Quer se tenha nascido rico ou pobre. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. processo de ligação com os outros. para se tornar um sujeito falante e atuante. de criar uma cultura. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. mas de edificar novos cultos. Por outro lado. O narcisismo mais total está na ordem do dia. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. assim. embora alienados no mais profundo de sua psique. na qual ele tem que desempenhar um papel social.

para a seleção de dirigentes. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. ao contrário. a sua submissão. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. a mobilização total de todos. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. faz-se apelo a leitores de tarô. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). pelo menos. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. perfeitamente interiorizadas. quer dizer. O reconhecimento da psique como força operante tem. Por isso. uma psique a serviço da organização. não do desenvolvimento da racionalidade. portanto. com os pés amarrados a um elástico. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. para viver e se desenvolver. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. nas organizações e nos indivíduos. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. a astrólogos. Assim. como a simples lógica o exigiria. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. em reação. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. como resultado a sua destruição ou. únicos a prometerem resultados tangíveis. a implicação. do aumento dos métodos mais bizarros. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. Cada “conjunto humano”.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. uma psique sem conflitos. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. mas. necessariamente. na sociedade. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta.

caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. em uma palavra. em um gênero. quer dizer. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. escreveu belíssimas páginas. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. animado por uma coesão totalizante tendo.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. uma unidade. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. Caso se retome a análise de A. de constância: (b) idéia de objeto separado. ou o status social a que chegaram. que se liga a uma tradição. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). de ser um sujeito que tem uma história. portanto. permite que se possa situá-lo em uma classe. ela revela características um pouco suspeitas. não creio mais como esse ser que leva meu nome. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. ele é capaz de ser um “Si”. nacionalidade etc. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. ou vinte anos? BARTHES. se examinarmos mais de perto essa noção. através dessas diversas experiências. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. por minha vez. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. Além disso. Ora. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. de referências seguras. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. – podendo 51 . portanto. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. portanto. credo. em uma espécie). Cada um sente. não vivo mais. GREEN (1985). Cada indivíduo. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. Os indivíduos evoluem. isto é. Mas. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse.A constância não existe. classe. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. a necessidade de ter uma certa identidade. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. que participa de uma memória coletiva.

cada uma. que. com WINNICOTT (1966). Precisamos. necessita do trabalho do tempo.Quanto ao reconhecimento do mesmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. então é possível questionar. 1982). de preclusão e de denegação estão operando em nós. de MIJOLLA. c. ilusória. cairmos na irresponsabilidade. Nunca sabemos de maneira precisa. além disso. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. admitir. então. quem está falando e por que falamos dessa maneira. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. Mas ele insiste. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. a sua própria finalidade. o eu etc. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Se. mas que mantém um certo grau de 52 . 1976). b. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. TOROK. sob certos aspectos. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. Assim. não podemos abandonar essa idéia. pois toda construção.5 Certamente. que processos de clivagem. no entanto. Eu é um outro. por definição. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. quando sei tão pouco o que sou. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. No entanto. já dizia RIMBAUD.) que visam. então. a idéia de permanência e de constância.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. assim. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. no momento em que falamos. a partir de um estado não integrado. em sua pureza. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. ABRAHAM e M.

de “maioria compacta”. O que nossa sociedade reclama. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. Um deles explicita suas dúvidas. a dúvida. tão apreciada por FREUD. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. Porém. os diretores participam de um grupo. da “inquietante estranheza” e. de suas faltas. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. e tanto mais porque se parecem conosco. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. para o indivíduo. quaisquer que sejam. problemáticas. portanto sedução. contraditórias.A interioridade está acabando? coerência. de seus desejos. muito pelo contrário). de suas capacidades de comunicação e de persuasão. como também um amor consciente por si. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. assim como as instituições e organizações que a compõem. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. de um narcisismo a toda prova. a interrogação. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . trazendo “temor e tremor”. escolhendo as máscaras sociais que precisam. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. o trabalho sobre si. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. a aceitação dos processos de clivagem. o remorso. Os outros. sobretudo. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. São. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. é ouvido um momento. portanto. portanto. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. Apenas um exemplo: numa grande empresa.

eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. eles questionam sua identidade. que lhe diz. Transformam o mundo no qual estão. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. Com efeito. desde então. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. Além disso. p. serei obrigado a falar disso a meu pai e. quando os indivíduos estão nessa situação. Ora. seu imaginário enganoso. em termos mais gerais. diante dessas revelações. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. por um processo de contra-investimento. que detestam. Domine-se. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. seu simbólico. é interrompido por um de seus colegas. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). vinda da boa burguesia. Nessas condições. ENRIQUEZ. até que ponto estão presos na apatia (SADE). ele tem úlceras constantes. Pôde obter o posto desejado. Ele se tornaria o fraco. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. não quero saber nada de seus problemas porque. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). O “homem com problemas” aprendeu a lição. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. filho de um grande industrial. reedição de 1986. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. 36). um grupo que tem uma cultura própria. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. Apenas. Esse exemplo (que. 1984. seja de novo como nós. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. quer dizer. formam uma nova maioria compacta. Nesse momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. SEGALEN). 54 . se você continua. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. 270). Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. em substância: “Não continue. até que ponto evitam-se a si mesmos. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. nem mesmo à sua esposa. tendo uma identidade compacta. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. p. naturalmente.

AULAIGNER. ainda mais. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. possam se tornar objeto de ódio ou. sem emoção. quer dizer. De um lado estão os vencedores. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. Quem não se amolda deve ser liquidado. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. todos os “marginais”. “fazer correr sangue”. pelo menos. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que.. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. 55 . todas as “minorias ativas”. guerreiro e sedutor. Compreende-se. por si próprios.. “Apagar. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. doentes de AIDS. reedição de 1961. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. o homem dinâmico. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. todos os “exotas”. “em demasia”. soropositivos e. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. os que não se assemelham aos indivíduos que. Como dizia um chefe de empresa. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. O “matador frio”. assim. ENRIQUEZ). “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. do outro. 103-104). p. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. em seu corpo como em seu espírito. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. pelo menos. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. então. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. para SADE. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. colocar em lugares criados especialmente para eles). 1835. como escreve P. que todos aqueles que buscam articular sentidos. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. um piolho a ser eliminado. se evitam a si próprios. num mundo a priori hostil ou indiferente. no dizer dos racistas. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos.

1988). L. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. utilizando-se produtos proibidos. fracassar. um estudo sobre a sociedade japonesa. as práticas que permitem ganhar. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. simplesmente. pode ser perpetrado. sem dúvida. é preciso que seja conhecido por todos. Todo ato repreensível. em condições normais. ir além de seus limites. voar em asa delta etc. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. SERVAN-SCHREIBER. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Essa distinção é. escalar um paredão com as mãos nuas. 56 . A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. infeliz de quem trapacear. da agressividade. se sinta culpável. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. da inveja e do amor.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. a honra e o dinheiro serão seus sem que.). ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. Basta que não seja descoberto. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. mas o toca em seu ser social. Tudo está no ato e em sua visibilidade. seja ele qual for. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. além do reconhecimento dessa luta. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. mas pela vergonha. Da mesma forma. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). por isso. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Ela supõe. aos outros. a luta. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. No entanto. Se um ato corajoso – ou. Se não for descoberto. no interior de si. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. Mas. a vergonha se abate sobre o autor da ação. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. Ora. Essa última seria uma cultura da vergonha. Assim. vemos proliferar. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. Se ele for conhecido. em sua aparência. em O crisântemo e a espada (1946). portanto. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?).

Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. que o jogo está feito. nascem a cada dia sob nossos olhos e. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. felizmente -. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. o corpo se encarrega de fazê-lo. Porém. lendo as reflexões precedentes. Com efeito. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. postos de lado. já começa a ser profundamente criticado. sem culpabilidade. as notas frias. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). necessários à vida humana. contra a pobreza etc. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. são suspeitos. (c) que os ideais fortes. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. atos dos mais contrários à moral comum. com um único passe de mágica. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. pelo jogo de aparências. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . o fanatismo. necessariamente. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. quando não é possível falar-se a si mesmo. Não se deveria pensar. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. apesar de suas imperfeições – normais. a lavagem dos narco-dólares. privilegiando a aparência. podem ser criados sem que daí decorra. nas sombras. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. contra o racismo.

Entretanto. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. Eles não se dão conta. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. Esses sujeitos. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. busca de identidade. entretanto. governa seus discursos e seus atos. de afirmação ou de identificação. mesmo se a interioridade. os ferroviários. Sem dúvida. Nesse momento. trabalhadores incapazes de se readaptar. tal como tentei delineá-la. aceitando as regras do novo jogo. de indústrias. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. os animadores socioculturais etc. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. de crédito. poderão. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. veladamente. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. necessariamente. assim como pela capacidade de sublimação. Esses “excluídos”. pelo sofrimento. por isso. com sua carga enigmática. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. começam a se fazer perguntas.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. encontram-se na mesma situação todos os que. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. deverão se precaver. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. esses “esquecidos” da sociedade.). as perguntas. ser tratadas “na interioridade”. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. eles ainda as fazem “na exterioridade”. Sendo assim. evitando o Charybde da exterioridade. Na realidade. não desapareceu e não está 58 . pela alegria. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. sem dúvida. na doença da idealidade. a droga. a delinqüência. Mais ainda. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. de espaços.

59 . Referências ABRAHAM. 163. Rio de Janeiro: Imago. na qual o mundo objetivo. citado por L. p. Quanto a KLEIST. da poetização do universo. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. “expressão pela qual Sto. 1962. ABRAHAM. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. DUMONT.Topique. ENRIQUEZ. os “diários de bordo”. GOETHE. pela emoção. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. 135. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. L’écorce et le noyau. 34. ENRIQUEZ. Paris: Aubier. 2 Grandes escritores alemães. p. é a inquietação com o cuidado. com a formação. 1987. p. Eugène. Segundo o Larousse. N. o homem dos Hinos à noite. assim. Inácio de Loyola. NOVALIS. Paris: Seuil. por Sonia Roedel. o mundo político. 5 FREUD. 38-53. é a absorção em si ou introspeção. 61-76. 1989-2. o romantismo. então. Individualisme apolitique. XVIII. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. S. 1976. em suas constituições. assim.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. da salvação e da justificação da vida pura. 1976. (N. v. é uma consciência cultural individualista. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. as autobiografias. sobre KLEIST: E. 89-112. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. tão diversos quanto GOETHE. p. espírito racional e humanista por excelência. com o aprofundamento do eu puro ou. (N. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Cf. N. Le Verbier de l’homme aux loups. p. involuntariamente. da T. E.). é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 4 Como um cadáver (em latim no original). sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. Topique. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. M. Entre la marionnette et Dieu. do culto do inconsciente e dos instintos. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. 1985. com suas difusões amplas).). em termos religiosos. é. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. Paris: Aubier. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. como diz Lutero. a Bildung do homem alemão. 3 Cf. seu oposto. da T. 37. Considérations d’un apolitique. o gosto pelo mórbido. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. e TOROK. In: Sur l’individu. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. 1976.

“L’Individu dans la cité”. Topique. GREEN. Notes sur l’exotisme (1908). Paris: Ed. Paris: Gallimard. franc. 1987. V. SERVAN-SCHREIBER. L. E. M. Paris: Les Belles Lettres. FOUCAULT. L’identité. Paris: Seuil. In: Sur l’individu. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. 1980. S. p. ENRIQUEZ. 1985. “Individualisme apolitique”. La chambre claire. narcissisme de mort. EPI. MIJOLLA. 1946. 1965. W. VERNANT. Tomo I. 309-330. Paris: Payot. BARTHES. 1987. de Minuit. M. 311-321. Paris: Grasset. 1942. nova. 1975. 1970. “Condamné à investir”. Le retour du courage. Trad. H. Trad. 11. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. 20-37. p. 1961. 1984. 1982. Le sabre et le chrysanthème. Narcissisme de vie. 25. 1984. In: Sur l’Individu. A. 1987. WINNICOT. BENEDICT. Psychoanalitic quaterly. Barthes par lui-même. DUMONT. 34: 89112. Aux carrefours de la haine. A. 60 . Paris: Seuil. de. L. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. 1962. E. 1986. retomado em Nevroses and character types. P. n. J. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. SEGALEN. 1981. D. GREEN. Trad. FREUD. Les visiteurs du moi. 1982. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. In: Essais de Psychanalyse. 1985. Paris: Payot. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. R. 37. BARTHES. ps. Topique. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. reedição. J. ENRIQUEZ. Nouvelle Revue de Psychanalyse. ENRIQUEZ. DEUSTCH. 1983. Paris: Gallimard/Seuil. In: LEVI-STRAUSS. Picquier. Biblio-Essais. Paris: Seuil. R. R. C. A. P. Hogarth Press. R. Paris: Gallimard.

a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. sem dúvida. São mais raras. então. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. O que parece. no entanto. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. no entanto. Tal sistema de valores. pois pode-se. Ora. Um projeto comum significa. para existir. esse problema é capital. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. em um imaginário social comum. mas não se está à altura de compreender. neste texto. Vamos um pouco adiante. à primeira vista. as análises dos grupos em estado nascente. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. Todos sabem e reconhecem isso.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. de início.

vigor e “aura” excepcional. Mas esse sentimento. ele pode nos atrair. ele se apresente sob um aspecto religioso. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). Para serem operantes. inatacável: assim. com uma força particularmente viva. aquilo que queremos vir a ser. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. a nossos próprios olhos. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. nos inspirar. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. Não se trata unicamente de querer coletivamente. todo trabalho de interrogação sobre si. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Todo grupo funciona à base da idealização. trata-se de sentir coletivamente. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. mas afetivamente sentidas. Da ilusão à crença. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. a passagem é rápida. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. é necessário que.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. sagrado. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. motor de nossa conduta. num grau maior ou menor. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. nela. transforma-se logo em um sistema de crença. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. pois ela é o elemento que dá consistência. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. Ora. da ilusão e da crença. correndo esse risco intelectual e social. consciente e inconscientemente. A ilusão deixa igualmente sua marca. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo.

FREUD já pensava que a Psicanálise. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). que eles exerciam o militantismo psicossociológico). em certa medida. de maneira mais ou menos forte. possa perder parte de suas ilusões. esse não é o problema. idealização.). Assim. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. Todo membro de um grupo é. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. na formação de todo grupo. suas práticas à da Psicanálise como um todo). Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. 63 . missão a cumprir. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. verdadeiramente. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. deveria ser defendida como uma causa. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. o militante político arrisca. pois. E isso não acontece gratuitamente. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. A causa pode ser sublime ou irrisória.O vínculo grupal (deve. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. Embora um grupo. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. Idealização. sua vida). consequentemente. sobre a possibilidade de sua impotência. a revolução etc. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. para se desenvolver. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. grandiosa ou pueril. Todo militante político pensa do mesmo jeito. existente há muito tempo. bem à vontade. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. abusivamente sem dúvida. assimilando. Causa a defender.

isto é. talvez mesmo. vocação majoritária: mas. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. caso uma minoria. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. geralmente. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . a proclamar uma visão nova do mundo (ou. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Toda minoria tem. queira triunfar. progressivamente. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. propagar-se como uma mancha de óleo e. imperativamente. A maioria não tem jamais uma causa a defender. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. Para isso. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. isso significa que ele se pensa. sem exceção. ela deve primeiro. acreditar que está com a razão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. Do contrário. As idéias novas. algumas vezes de uma só3 . se tornar a dissidência de muitos. pois. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. mas direi que. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. antes de chegar a seus fins. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. triunfar. no caso de sucesso. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. mais modestamente. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. um dia. Eu serei menos afirmativo. Pouco importa. sua luta não terá alma nem razão de ser. nós o sabemos. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. membros do grupo. antes de tudo e contra tudo. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. de uma profissão ou de uma disciplina). se representa e quer se definir como uma minoria atuante. A maioria não tem jamais um grande propósito. ela deve. Essas pessoas sabem que. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. para se reforçar.

Como essas representam a ordem paterna. explicitando o implícito dos comportamentos. contra um exterior percebido como tão obscuro. maneiras inovadoras de ser. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. A transgressão. mas à sua transgressão. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. Toda instituição. sob certos aspectos. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. visando à repetição. desmistificando-o e desmitificando-o. com efeito. novas maneiras de ser ou de se conduzir.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). 65 . deram certo. o grupo vai tentar destruir as instituições. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. ao contrário. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. mas que um novo saber apareceu. no passado. mas pela luta. visando não à contestação da ordem existente. A contestação. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. Assim fazendo. vista como pulsão agressiva). Para que a vitória seja possível. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. enfim. ela é. mas propõe novas idéias. Assim. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. por exemplo. enquanto elemento da regulação social. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. tem por objetivo questionar o sistema vigente. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. Ela não visa a propor outra coisa. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. E na maior parte das vezes ele o é. pois se funda em instituições sólidas. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. A Psicanálise.

Sem essa vontade de destruição. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. a não ser entre irmãos. aliás. amor mútuo.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. Se ele faz parte do grupo. porém sem sucesso. Não há complô verdadeiro. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. ao menos. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). em outras palavras. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. graças a esse imaginário comum e não a outro. irmãos uns dos outros. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. todo grupo. O reconhecimento do desejo Em um grupo. a priori estranhos ou rivais entre si. fazer-se aceito em sua 66 . entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. deve criar um acontecimento irreversível. Ódio ao exterior. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. não ser rejeitado. violência fundadora de um novo mundo. tornar seus sonhos reais. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. isto é. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. amor ao grupo enquanto grupo. não obstante. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. FREUD.

eles devem se identificar uns aos outros. O grupo. para que possam se amar. em um grupo. De todo jeito. é o desejo de reconhecimento que predomina. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. nesse caso. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. em seu ser insubstituível. querendo formar uma comunidade. às quais cada um deverá se submeter. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. ser reconhecido como um de seus membros. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. quer. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). diferenciação A MASSA Num tal caso.O vínculo grupal diferença irredutível. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Assim. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Aliás. um corpo social completo. não devem ser muito diferentes uns dos outros. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. eles se tornarão semelhantes. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. igualmente. Assim sendo. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. O único problema é a mais estrita identificação. não teria podido fazer parte da conjuração. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. homogêneos. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. em maior ou menor grau. Essa semelhança buscada. se não o desejasse.

à primeira vista. de indivíduos os mais emocionais. tomam um vigor particular. portador da “verdade” (!). crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. Ao contrário. igualmente.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. influência. Estamos. Assim como. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. desenvolver condutas que. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. mas que. 4. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. face a um grupo “sorvedouro. angústias de explosão. avança cego. a degradação da reflexão e da inventividade. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. que será particularmente dura de suportar.5 2.A semelhança pode. de tipo defensivo: suspeita mútua. senão os mais perturbados. 3. Ocorrerão comportamentos regressivos. então. a falta de inovação e. com efeito. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. 68 .A falta de diferenças provoca. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. delação. abismo. a partir de MARX.A compacidade do corpo formado vai. progressivamente. O grupo. LEFORT).Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. sem que se perceba. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. Que ele se guarde da desilusão. Aliás. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. sentimento de um meio hostil. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. tomando as características de um corpo todo-poderoso. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. sem-fundo”. coberto de certezas. no grupo. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). não parecem defensivas. por ser o mais forte e o mais belo.

A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. A tolerância existe. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. (Assim. como frouxos ou traidores. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. No entanto.O vínculo grupal 5. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. Todo mundo. No limite. por acaso. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. em um centro de jovens inadaptados. Em tal caso. “níveis insuportáveis” (FREUD). A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. tive a surpresa de 69 . como a cooperação idílica não existe mas.Se. então. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. então. os educadores. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. em certos momentos. serão excluídos do grupo. em seu interior. O grupo se centrará em si mesmo. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. a administração. de argumentações contraditórias. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. ao contrário. de negociações rigorosas. cada qual acreditando deter a verdade. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. ao contrário. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. Os membros do grupo são. Se não se trata de questionar o projeto comum. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim.

ao contrário. enquanto professor. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. “personalização do poder”. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. é freqüente. Para não chegar a esse ponto. Nesse caso. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. 70 . crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. será tentado a achar um bode expiatório. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. repetição da palavra do mestre. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. por isso. eu deveria ter ficado menos surpreso. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. mestre do pensamento e da ação). Em qualquer caso. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. se torna um grupo edipiano. Fenômenos regressivos do tipo submissão. assim transformado. Esse. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. uma influência que vem do domínio das idéias. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. nos países ocidentais. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. Entretanto. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. É raro ouvir professores falarem de estudantes.

os grupos não podem se esquivar. sendo bem sucedidos ou não. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. mas quem são os amados e os rejeitados. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. para existir. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. Se o grupo é bem sucedido. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. a única digna de ser respeitada. Assim. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum.O vínculo grupal Mas. mas também os fracos. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. para afirmar a primazia de sua posição fálica. Correlativamente. Ora. em maior ou menor grau. 71 . pois um grupo minoritário. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. os membros do grupo estão condenados ao amor. igualmente. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. podem. isto é. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Com efeito. transformado muitas vezes em processo de erotização. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. O amor desemboca no ódio. o grupo minoritário que. como já constatamos. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. o campo social. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. inscrever seu sonho na realidade. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). se consegue impor os seus ideais ou transformar. tornar-se majoritário. de todo modo. se somos suficientemente amados. do mesmo modo que estão condenados à crença. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. Essas questões não podem ser elucidadas. o grupo corre o risco do fracasso.

Com efeito. o organizador do grupo. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Com efeito. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. no entanto. Se.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. serão inventados segundo as necessidades e. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. além disso. psiquiatras. os marginais. isto é. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. 72 . deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. De fato. ele vai procurar as causas de seu fracasso. é o contrário que seria de espantar. Ela representa uma tentação constante. Ora. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. em um processo de análise: 1. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. mas não é um resultado inelutável. de outro lado.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. É preciso. para dizer que ele ainda subsiste. se ele não provoca impacto social. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. mas outro que está ainda para ser encontrado. Muitos observadores se espantam. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. educadores. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. o grupo fracassa. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. isto é. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. por exemplo.

Ficar-se-á perplexo ao constatar que. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. FREUD disse isso. em vez de favorecer o seu esclarecimento. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. 2. de maneira recorrente. arriscar-se a ser amado. Se. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. Deveríamos. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. há muito tempo atrás. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. às custas do mal que nutrem com gosto. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. a tomada de consciência se produz. serão feitas análises superficiais. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. Outras vezes.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. de crença e de ilusão. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. no entanto. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. Além disso. assim. e o disse muito bem. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. 73 . É importante não nos esquecermos. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. Aí também há muita ilusão. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. em muitas circunstâncias. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. De fato. em certos casos. Ela pode levar à dissolução do grupo.

P. 4. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. PONTALIS. S. Segundo os termos de C. no 360. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. 631-637. C. por dez anos. LEFORT. B.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. ao mesmo tempo. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Seuil. Gallimard). foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. uma solução. suas relações de poder. Bulletin de Psychologie. Um homme en trop. suas angústias e. p. “L’illusion mantenue”. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. 2 3 4 5 6 74 . Por dez anos. MOSCOVICI. seus antagonismos. J. Psychologie des minorités actives. Cf. por José Newton Garcia de Araújo. Tomo XXXVI. “Le lien groupal”. CASTORIADIS. fui o único a me ocupar dela e. se dar conta de que tal tarefa é limitada. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. em caso algum.F. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Eugène. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência.” (FREUD. mas é preciso não querer ir muito longe. 1983. Ma vie et la psychanalyse. n.U. S.

que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. Com efeito. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. Devo acrescentar. não deve. é porque me parece que essa tendência. em Grenoble. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. Entretanto. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. na verdade. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. convincente e inquietante. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. 75 . Espero. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. 1985). 1983. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. de modo algum. atualmente. então. se me detive a explicitar tal proposição. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. os acontecimentos que se produzem atualmente. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. tanto no Leste da Europa.

sustentadas por rituais 76 . como o pensavam DURKHEIM e FREUD. no entanto. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. com relação a ele. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. sob pena de exclusão da comunidade. necessariamente. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. ela nos religa uns aos outros. 1989). A referência dura se exprime para mim. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). A religião produz então o “ser-junto”. sem totens. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). o papel que lhes estava destinado. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. ou seja. se depurando. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. As crenças. sem deuses ou sem Deus único). o fanatismo religioso – isto é. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. no renascimento do (ou. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. isso não a obriga. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. Assim. de maneira privilegiada. Pois bem. ao longo do tempo. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. as grandes religiões monoteístas foram. pode-se dizer que. um ritual compartilhado que é preciso defender. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. No conjunto. sem lhe outorgar. igualmente ENRIQUEZ. Ao contrário. elas não colocavam mais problemas particulares. A César o que era de César. às vezes com reticência. além de nos sentir para sempre em dívida. seja como ser coletivo). um dogma. a crença exacerbada em um mito. a Deus o que era de Deus.

mas à criação de religiões substitutas. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. profanas (MOSCOVICI).O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). ENRIQUEZ). como medida de todas as coisas. dos padres operários. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. do declínio de uma fé sincera e manifesta. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. Todos os homens. como desejava DURKHEIM. passam a se desenvolver. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). Algumas religiões. a longo prazo. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. Entretanto. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. não assistimos. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. J. a qualquer preço. ao “desencantamento do mundo”. o Estado como aparelho separado. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. mas foram se laicizando. porque é 77 . tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. aspirando assim. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. O episódio. um estado psíquico onde o conflito não aparece. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. laicas (E. STOETZEL). na França. ARON. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. a longo prazo. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados.

É. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. (mesmo se. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). sob a IIIa República. de votos etc. pois. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. mais ou menos fortemente. A ideologia pode. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. então. na França. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). quer sejam os pais. conscientemente ou não.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. os mestres. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . de ideologias totais (LYPSET. Quando falo de religiões substitutas.). porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. pois. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. de serviços. da ideologia de granito (LEFORT. de fato. 1976). 1963). não como uma ideologia (quer dizer. depois. após a morte de MARX. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). por ENGELS e. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. tal como a ideologia republicana. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada.

quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. que já mencionei. representaram um papel menor na dinâmica social. É assim que ela pode formar uma cultura. 79 . devem estabelecer com o Sagrado. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. no cerne mesmo da sociedade. pelo ferro e pelo fogo. 1979). Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. projetando-o nos outros. ideologias “compactas” que. constituindo-se. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. reunidos em comunidade. por seu caráter absolutista. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. a negar. que produzem uma cultura própria. conseguiu se desenvolver. Mas é preciso observar que. então. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). heréticos ou descrentes. pelo sacrifício de seus mártires. jacente em todo ser humano. antes mesmo que seja colocada. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –.O fanatismo religioso e político (colonização). não pode estar na origem de nenhuma religião. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Um grupo minoritário. por sua força de convicção. que ela assegura sua identidade. As ideologias que eu evoco são. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. como as religiões. quando as religiões se enfraquecem. Uma religião. a converter ou a destruir. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. substituindo-os por outros que. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. Ela então regula essa questão central da alteridade. como uma Igreja com seus templos. indica que a seita. na época moderna. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. em maior ou menor grau. sozinhos. vão se impor como lei.

enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). desenvolveu uma política de conversão). os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. ao contrário. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. como heróis (no sentido freudiano do termo). A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. (Entretanto. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. 80 . no “sentimento oceânico” (R. é porque os judeus. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. “poetas”. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. porque a morte santifica e promete o paraíso. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. É verdade que os grandes místicos. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. Em outras palavras. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição).Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. apesar de tudo. de seu lado. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo.

substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. que são religiões da revelação.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. se certas condições são preenchidas. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. entretanto. eles não podem. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI.Elas se enriquecem. mas somente possível e previsível. por conseguinte. PALMADE). 1971). segundo o axioma de WALRAS).O fanatismo religioso e político Concluindo. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. São sociedades: a. tudo se vende”. ideologia sem porta-voz. é conveniente fazer algumas observações. 1. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. Entretanto. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. 81 . de novas características. ser totalmente dissociados. o texto de J. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. 2. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. as liberais e as “socialistas”. segundo a terminologia weberiana). idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). nossas sociedades ocidentais contemporâneas. (Não existe. intensificação da produção não somente de objetos úteis. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. na verdade. sem emblemas. além disso. Ora. como a ideologia republicana.

LAPLANCHE. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. ao mesmo tempo. “mãe das cloacas e dos brejos. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). c. de imortalidade. 1967.sociedades que. no fim das contas. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. 1967). o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. o trabalho perde seu significado. Assim também. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. 82 . pensar e querer o apocalipse) e.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. (Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. Sociedades sem pais e. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. da qual é necessário. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. 1989). além do furor de não poder satisfazê-los. por isso mesmo. realizáveis. Nesse momento. para os homens e para as mulheres. sua legitimidade desaparece. já havia observado isso).sociedades que. enquanto criação e distribuição das riquezas. d. seu valor se corrói. concebê-lo como um inimigo ideal. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. se desembaraçar. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. b. assim.

nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. os irmãos e os adversários. da exclusão. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. da miséria. O que desejam os deserdados. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. aquela que cria uma identidade coletiva. uma causa a defender. da corrupção). O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. de um proletário. em particular. (FREUD. não oferecem mais interesse. um projeto a sustentar. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. Contra o mundo perverso. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. formar uma cultura. Eles querem se tornar um “Nós”. da ausência de um fundamento. 1930) 83 . só há salvação na paranóia partilhada. da apatia. da loucura. no limite. Essa citação dispensa comentário. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. no Ocidente. os excluídos. de um capitalista. do desaparecimento de referência a toda transcendência. os “desgarrados”. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. Se não somos nada além de um espartano. de um budista. Daí se seguem três conseqüências. os esquecidos. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. O indivíduo desaparece. A religião reclamada é a religião absolutista. permanecer na certeza e. Mas as religiões. se sacrificar. aquela que designa claramente os aliados.

que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. pelo menos. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. anunciador de um mundo novo. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. liberado finalmente do mal. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. 1984). ENRIQUEZ. além disso. Quanto mais uma cultura quer se unificar. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. o espanhol despreza o português”. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. nos diversos países. então. para isso. O fanatismo visa. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. O desenvolvimento do fanatismo. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. da sedução ou da coerção). Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. como seres a eliminar. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. a criar um mundo novo. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. uma imensa massa de homens. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. sua conversão. Não esqueçamos. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. elas exigem a super-identificação à causa. o super-investimento no projeto. É certo que. no entanto. livre do mal. o inglês fala tudo de ruim do escocês. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. tais como as descrevi acima. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. para ela é uma impureza?”. o que é um alimento. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. ou seja.

em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. assim. O fanatismo religioso é. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. no máximo. É por essa razão que meu texto tem esse título. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. para que o fanatismo se fortaleça. o Azerbadjão. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . sem dúvida. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. Síria). simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. o essencial: a dimensão política. São Estados. Ou seja. na hora atual. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). O fanatismo religioso. E nós tocamos. para unificar os corações e os espíritos. mas. um instrumento a serviço do fanatismo político. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. fundamentalista. por sua vez. sozinho. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. É preciso. o Irã). onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. Retomemos esses dois pontos: 1. primeiro e antes de tudo. resulta. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. a se tornar dominantes (por exemplo. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. o sinal de seu enfraquecimento. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. ainda. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. é preciso lembrar que. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente.

coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. destruição cultural. Eglise de Scientologie). ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. das comunidades islâmicas. na regulação dos Estados modernos.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade).A religião não se apresenta. b. que querem fazer valer sua palavra. na França. c. do qual eles não saberiam o que fazer. ela pode ter como papel: a. o convite a alguns líderes protestantes. sob uma forma fanática. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. muçulmana) na vida cotidiana da França. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. ela designará os vencedores e os vencidos. Irlanda do Norte. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos).redourar o brasão das religiões tradicionais. lepenistas. nos quais não existe senão um fraco consenso. judia.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. Alemanha do Leste. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . Nesse caso. interdição de pensar (Polônia. Loja P2. Communione e Liberazione. Se a aliança persiste. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . forçosamente. em nossos dias. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. certos grupos religiosos em Israel).fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. se ela se extingue. 2. protestante. judias). cristãs. Países Bálticos.

não é o caso de superestimá-la. Se essas são capazes de inventar novos projetos. 87 . o Estado leigo faz apelo. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. desde o início dos tempos modernos. paralisar a atividade de mentalização. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. a falta de sentido. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. sem fim. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. antes de tudo. Mas. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. como no exemplo de KHOMEINY). mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. o religioso. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. de precisar meu objetivo. finalmente. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. prontos a afrontar o absurdo. Eu gostaria. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. mas que. cada vez mais freqüentemente. sem recorrer a referências seguras –. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. para terminar. 1. de reflexão e de reflexividade.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. De fato. nesse caso. nascida desse trabalho árduo. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. o caos e o abismo. ele tenta. Os homens aprenderiam. ao contrário.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. ao invés de processos de sublimação. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. suas dúvidas. laborioso. com a ajuda de seu Deus –.

o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. Ela lhes é consubstancial. Por outro lado. em nenhum momento. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. então a reflexão desaparece. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. (N. T. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento.) 2 88 . Ela assume então o papel de desalienação. devem ser levados em consideração. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. no outro. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. nos seus interlocutores e. antes de tudo. tão fácil e prazerosamente. 3. que a religião. Eugène. naturalmente. a ideologia. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. na América do Sul). sob pena de cair. na armadilha que denuncia. por Leila de Melo Franco S. quando a ideologia dura impede o livre pensar. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. efetivamente. 137-149. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. a perversão ou a paranóia triunfam. Se. n. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. em si mesmo. 1990-1. uma vez que elas são.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. quando o religioso se põe a serviço do político. “Le fanatisme religieux et politique”. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. tanto quanto outros tipos de valores. p. Araújo. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. do fato nacional. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. “A última tentação de Cristo”. se ele não faz esse trabalho. nos fenômenos sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. do fato ideológico. Connexions. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. ela lhes permite tomar iniciativas. Eu não quis dizer. 55. Os valores religiosos. ideológicos e nacionais. Ora.

1976. Essais d’ethnopsychiatrie générale. 1984. ENRIQUEZ. G. 1979. Seuil. ENRIQUEZ. 48. LAPLANCHE. PUG. 1973. 54. S. Connexions. Connexions.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. Au carrefour de la haine. Cl. Un homme en trop. G. P. sobre o fanatismo hoje. C. E. PUF. J. Psychologie des minorités atives. n. 1967. 1989. DELEUZE. n. janeiro. In: Autonomie sociale. 1987. “Notations sur le racisme”. 1971. La monnaie vivante. . FREUD. 1963. 1985. PUG. M. Seuil. S. E. MOSCOVICI. Eres. Présentation de Sacher-Masoch. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. CASTORIADIS. PUF. LYPSET. KLOSSOWSKI. Epi. E. L’homme et la politique. Y. In: La NEF. 1971. (org. S. ENRIQUEZ. LEFORT. “La défense et l’Interdit”. 1989. Editions de Minuit. 89 . Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. 1967. Épi. ENRIQUEZ. 1985. “Malaises dans les identifications”.). DEVEREUX. L’autonomie sociale.(1930) Malaise dans la civilisation.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. e o conservadorismo social e cultural da região. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. vividas pelos dirigentes. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. já havia sido notado por vários pesquisadores. por exemplo). seus produtos. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira.CONJUNÇÃO. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. calçados etc. NA EMPRESA. uns nos outros. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. A escolha da região do Cholet. que 91 . para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs.. de outro lado. são exportados para todo o mundo (iates. incessante. sobretudo. de um lado. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. em plena Vendée. individual e coletivo. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. vestuário. alimentação. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. como elas se desenvolvem.2 Tais reflexões mostram. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. como elas podem morrer.

clivagens. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. como objeto no discurso dos dirigentes. suas dificuldades. Uma tal aventura. o qual é vivido como o fundamento da empresa. mas a empresa como objeto psicossocial. evocava neles. a partir de suas lembranças. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. convidados a falar a respeito. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. Em outras palavras. é. de suas dúvidas. pudemos pôr em evidência certas constantes. à antigüidade. segundo um método comparativo. sua história. era. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. a partir de sua criação. num primeiro momento e. que tais entrevistas. 92 . ao produto. seu futuro. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. Não se trata. entretanto. depois.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. de seus projetos. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. para nós. sobre aquilo que a empresa. Tendo analisado esses depoimentos. diferenciações. com efeito. ainda que solicitadas por nós. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. caso a caso (empresa a empresa). desde sua origem até o momento atual. Ou seja. Assim. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. isto é. que são ao mesmo tempo seu principal tema. entretanto. ou ainda. para si próprios. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes.

geográficos. sua cultura.o ofício ou o produto. quer dizer. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). conceitos verbais.a família. a regiões de Mauges. embora todas tenham dependido. ou ainda. de maneira mais abstrata. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. Essas três entidades. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. com o território (nome das cidades. de Bocage. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança.Conjunção. grão etc. aquilo que é ligado aos locais físicos. quer dizer. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. também. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve.a terra ou a região. na origem. De maneira mais geral. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. suas tradições e a 93 . sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. quer se exprima pela relação com o solo. quer dizer. . Nesse último sentido. nota-se que. locais e regionais. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. podem ser resumidas da seguinte maneira: . A terra Essa referência é onipresente. argila. na empresa. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. quer dizer. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. com freqüência até mesmo joint families. . designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. a partir do qual elas podem se desenvolver. histórica e sociológica.) que se trabalha ou. com a região (no caso. de um projeto pessoal e familiar. a terra ou a região. de maneira mais extensa.

Antes de ser um projeto pessoal. A “região”. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. simultaneamente. na maior parte dos casos. no sentido concreto. a empresa é um projeto de família. Desse ponto de vista. contribuindo para o renome da cidade ou da região. vira tudo uma máfia”).Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. constituem então. eis nosso jeito fazendeirão”. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. em caso de dificuldade. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. mas também um sentimento de segurança. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. tanto no imaginário quanto no real. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. em nome de uma certa ética. de empresas familiares. bem como uma fonte de riquezas. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). um conjunto de obrigações e de restrições. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. o lugar dessa é aí dominante. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. “não ficar falando abobrinhas. A família Tratando-se. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). 94 . “a terra”. assim que ultrapassamos a fronteira. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. nas relações e atitudes: assim. mas também no metafórico. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. não se pode fingir”. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). físicas e morais. atividades e lucros organizam-se em torno dela. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns.

mas também nos fatos reais. Como se pode notar. na empresa. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. no início. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. num primeiro tempo. de um projeto pessoal e familiar. e o capital e os salários. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). sendo também imagem das relações de parentesco. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. quer dizer. seja pelos homens (os filhos). por um lado. “sociedade familiar” ou. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. SA. As estruturas e as relações de poder são. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). designada como “negócio de família”. inclusive com empregados. “empresa familiar”.Conjunção. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). descartado. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. então. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. geralmente. Assim. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. de papéis e de procedimentos formais. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. “sociedade de família”. 95 . de fato. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). Compreende-se. é certo. fortemente personalizadas. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. A presença da família e de seu passado se traduz. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). então. como “a realização de seus antepassados”. Da mesma maneira. ainda. Naturalmente. de outro. inclusive para outras aglomerações. as relações de autoridade. na sua origem. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. onde empregados e patrões podem comer juntos. entre os bens e os dividendos pessoais. sendo um dos dois sexos. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados.

transmitidos de geração em geração. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. Está diretamente associado às mãos do artesão. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. a maior parte das vezes. o produto Em função de sua origem artesanal. freqüentemente. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. –. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Assim como para a referência à região. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. da receita ou do jeitinho de fazer. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. com os acontecimentos familiares – mortes. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. O ofício. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . um elemento de coesão e também uma limitação. casamentos. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. Apalpar essa matéria.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. uma fonte de problemas e de conflitos. A história da empresa é assim. Nessas condições. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. couro etc. seus vizinhos.. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. lenços da região do Cholet. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. os sindicatos independentes são mal tolerados. rupturas. uma inspiração. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso.

estão imbricadas umas nas outras. Consiste. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. encarnada na pessoa do fundador. em desligar aquilo que estava ligado. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. De fato. transmitido de geração em geração. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. para garantir as evoluções indispensáveis. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. ele supõe a adoção de atos concretos. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. com efeito. cujas partes. pelo menos em parte. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. de um projeto pessoal e familiar. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. Juntos. o marketing etc. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. não em negar. essas três bases – ou instituições primárias –. à terra. profissionais. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. o ofício. na empresa.Conjunção. para o dirigente. Esse processo não se realiza sem problemas. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. trata-se de um conjunto extremamente coerente. –. vêse então que. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. constatou-se. não são entidades independentes. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. Entretanto. Sua história. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. que asseguram sua identidade e a base da empresa. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. sangue ou mãos). eles formam então como um bloco compacto.

de produções. isto é. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. PARSONS: do particular ao universal. investimentos em máquinas e em locais especializados. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. de estruturas de necessidades e de motivações.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. do pessoal ao impessoal. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. Esses três movimentos resumem. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. consiste em passar de um sistema social a um outro. elaboração de uma organização e.o deslocamento. da afetividade à separação. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. c. a transferência física da empresa para outros locais. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. isto é.a industrialização. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. essencialmente. com efeito. Nos termos de T. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. da proximidade ao distanciamento. do herdado (ou do dado) ao adquirido. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. PARSONS. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. principalmente. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. b. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. portanto. seu objetivo. O ponto de chegada de tal processo. de valores ou modos e redes relacionais. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. 98 . de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. ao longo de toda a história da empresa. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. De maneira mais precisa. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. exigindo.

bem como na composição do Conselho de Administração. então. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. a partir de então. a entrada em cena de um contador. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família.. regidas segundo técnicas e métodos importados. de um projeto pessoal e familiar. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. se 99 . segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. na empresa. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. com efeito. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. bem como uma administração capaz de a gerenciar. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. ou ainda: “das famílias na sociedade. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. sua principal razão de ser – ele deve. ele não pode assumi-las todas e é. obrigado a repartir o poder com outros. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. que põe as contas em ordem. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. Enfim. freqüentemente. O envolvimento da família é. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. adquirir as competências ligadas à gestão –. de acordo com regras precisas que excluem. em contrapartida. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente.Conjunção. máximo.. pode-se dizer (.

Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. portanto. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. Progressivamente. o que permite. pois. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. colocados numa situação extremamente conflitiva. como para qualquer chefe de empresa. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. mas. a estrutura de pessoal (mais jovens. ela se baseia em competências que eles adquiriram. mostra-se assim sempre indispensável. Eles são. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. É. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. freqüentemente. geralmente fora da empresa. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. sócios etc. Esses estão. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. pela definição de papéis e critérios decisórios. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . –. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. portanto. transformando as relações de poder e os modos de pensar. com efeito. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. podendo implicar até em falência. principalmente entre os (jovens) dirigentes. Esse processo não se realiza de uma só vez. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). pela instauração de regras explícitas e. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. por conseguinte. melhor formados) e a da clientela.

Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. isto é. o solo no qual a empresa se situa. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. para si próprio como para o ambiente é. Para essa questão. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. encontramos respostas extremamente diversas. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. Em todos os casos. Outros se orientam para soluções. nesse caso. Trata-se. é importante para reduzir. outras aspirações. de um projeto pessoal e familiar. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. Se o deslocamento para outra região. como uma espécie de traição. outros modos de relação. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. – e o questionamento de vínculos anteriores. além disso. permitindo administrar as contradições. Se. E. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. manter uma qualidade de vida e de trabalho. considerado preferível a uma expansão sem significado. ou mesmo para o estrangeiro. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. uma tomada de distância em relação à terra natal. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. a empresa adotar uma estratégia de exportação. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. por exemplo. bancos etc. pois. 101 . na empresa.Conjunção. no entanto. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. mas permitindo a sobrevivência da empresa. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. preservar uma base local. renunciando a uma expansão possível. necessariamente. outras exigências. portanto. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes.

SEU ofício que dá corpo a ele.). traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. face a face. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. entretanto. admitindo divisões e separações. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. Quanto mais eles se ampliam. Seria. taxa de crescimento. as pessoas ou os hábitos de pensar. produtividade. a rachar. por exemplo. mais eles se autonomizam. é SUA família. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. mercados.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. que manifestam um crescimento sensível. ao mesmo tempo. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. que supõem prazos e contatos (redes etc. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . ou ainda. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. no entanto. evitando. ou ainda. SUA terra. criar vínculos de dependência com eles. no entanto. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. com efeito. então. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. emerge assim uma organização. assimilado a um trabalho de luto. é pois. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. são substituídas por relações secundárias. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. é ele. indiretas. desenvolver uma rede de sub-contratantes. As relações diretas. por exemplo). portanto nitidamente diferenciados e interligados. no sentido pleno do termo. uns em relação aos outros. situadas em regiões economicamente mais propícias. margem de lucro. algumas das quais podendo se situar alhures. Todas as empresas. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. e de rupturas que essas provocam com o lugar. Um tal processo pode ser. mais ou menos importantes. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. uns sobre os outros. etc). Como conseqüência de decisões. por regras ou por técnicas.

é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. de sua consistência. de um projeto pessoal e familiar. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. desprender-se inteiramente. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. André. de negar aquilo que é. sua fonte energética. 1991. na empresa. Paris. com o título Inconscient. organisation sociale. do clã. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. A instituição é um processo. 1990. (N. Se. é impossível. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. despregar-se. Mourão. existindo para e por si mesma. por Júlio M. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro.T. ele deve sempre compor com o nível primário.Conjunção. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. sua ancoragem biológica.) 2 103 . constitutivo do sujeito. Região situada no oeste da França.(mimeogr.). collectif). O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. de sua unidade. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. uma tensão permanente. Toulouse. que é o seu fundamento. no entanto. sob pena de perder o contato com o real biológico. ficando na ilusão de sua existência. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). finalmente. pois. então. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. Entretanto. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. o triunfo da racionalidade experimental. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. NICOLAÏ). na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. No momento atual. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. a fim de que as sociedades possam. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. Essas transformações devem. quais são os problemas realmente essenciais. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. possível. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. etnias. LÉVY. Todavia. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). como o evidencia Nicolaï. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. sobretudo.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. com o seu corolário. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. mais eficazes e mais rápidos. No espaço até então ocupado por ela. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. de forma responsável. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. NICOLAÏ. as mudanças essenciais 107 . LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. os “intermináveis adolescentes” citados por A. grupos religiosos etc. LÉVY e A. um trabalho de tal monta é necessário e. verdadeiramente. aparentemente.

sujeito). além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. para tanto. Os sociólogos não se enganaram. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. Nesse sentido. como o fez Touraine. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. Esse processo é longo. na atual crise pela qual passa o Brasil. pelas interações entre sujeitos. Seguindo essa via. Ao contrário. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. na relação e pela relação. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. Será. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. LÉVY). atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. capazes de contribuir. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. Essa disciplina deverá. Ela poderá. na prática social. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). 108 . os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. portanto. Mas. quando anunciaram. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. desde a sua criação. realizando um genuíno trabalho psíquico. seja para a sua involução. prováveis de ocorrerem na sociedade. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. No entanto. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. como têm sido feitas. É importante ainda mencionar outra questão. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. antes de mais nada. interessar-se mais pelos movimentos sociais. LÉVY: as verdadeiras mudanças. ritualizadas. suas instituições e seus diversos grupos sociais. e não a nível global e em regiões centrais. seja para a evolução social. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. igualmente. não surgirão de tomadas de decisões formais. dar atenção especial à conversação e ao debate. com freqüência. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. levantada por A. também.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. o “retorno do ator”.

que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. com efeito. Se me decidi a escrever esse texto. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. malgrado as aparências. seríamos tentados a pensar que. – tudo isso parece indicar.2 o envelhecimento. é porque me parece que. presente em muitos meios.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. E isso se traduz em um interesse. e observando-se toda uma série de sinais. no modo de compreender as organizações e as instituições e. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. forçosamente. na acepção forte do termo. no início dos anos 60. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . nem sempre bem sucedido. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. ainda. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito.

enfim. pode-se citar a análise institucional. senão a única. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. elas têm em comum o fato de terem pretendido. Essa enumeração. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. por exemplo). Entretanto. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. não apenas a inquietude e a interrogação. ou. retomando termos de E. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. uma após outra. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. que evidentemente não é exaustiva. É certo que a maior parte delas não desapareceu. Embora durante alguns anos. Mas importa. de viver de outra forma. primeiro. a análise transacional e.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. desde o início dos anos 70. Parece-me igualmente que. para os atores sociais e para muitos práticos. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. os métodos centrados na expressão corporal. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. elas tenham podido ser a referência principal. mas a vontade de inovar. em função do que lhes parece ser necessário. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. a análise organizacional. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. para os atores engajados na ação. Em outras palavras. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher... em um determinado momento. uma após outra. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. o que tem como conseqüência que. constituem. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. 110 .Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. de ter prazer. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. em seu conjunto. como todo fenômeno de moda. mais recentemente. ENRIQUEZ.

dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo).. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. ROGERS (resolução de conflitos sociais. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. por exemplo.. com vantagens. eles se comparam. com ambições mais limitadas e incertas. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. fazendo assim. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. É praticamente certo que a análise institucional. desse ponto de vista. Em outras palavras.). a outros métodos mais longos. intenções que. então. incertos e custosos. na verdade.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. ao mesmo tempo.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. meios que ele controla. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. LEWIN e C. 111 . elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. pelo menos – desses métodos: a. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. auto-realização. Certamente. Dessa forma. efeitos espetaculares em uma instituição.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. por não lhe deixar escolha. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade.

a um “ator” ou a um “agente”. se possível. 112 . instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. especialmente a necessidade de tempo. Embora ocorram desvios.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. automaticamente a problemas delimitados. mas também nas orientações cognitivas. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. reduzido. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. aparecendo em utensílios. então. o sistema de ação concreto de M. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. dominada por relações mercadológicas e seus valores. não garante nem assegura nada. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. tudo isso é. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. evidentemente. e que. Essa tendência já estava presente. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. Nessa perspectiva. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. “sistemas” (por exemplo. condenado a ser rejeitado. “enquadramentos”. então. concomitantemente. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. há que se lembrar. Tal fascinação pelo que “funciona”.

uma 113 . é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. especialmente. com efeito. combinada então a pressões mais ou menos fortes. O conceito de demanda social Com efeito. toda história singular. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. no registro econômico. entre a demanda e a encomenda. Assemelha-se. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a demandas por respostas e soluções. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. progressivamente. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. por isso mesmo. Assim. inscritos em uma história coletiva que. podem-se percorrer todos os graus. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. a demanda é. então. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. A demanda expressa. assimilá-la a uma encomenda. isto é. está próxima à noção de encomenda. No que nos diz respeito. sem risco. no sentido de ordenar ou encomendar. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. assim como uma relação de troca. que podem. demanda de encomenda – LOURAU. reciprocamente. Nesse sentido. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). uma grande parte de sua riqueza. Primeiramente. uma demanda de objeto. há quem quis diferenciar. nesse caso. retira-lhe.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. Entretanto. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. Se. ao contrário. implicando um bem. um objeto. endereçada a um outro. reciprocamente. é eco de acontecimentos sociais. necessariamente. mais ou menos explícitas. no limite. tal distinção não nos parece desejável pois.

Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. explicitada pelo objeto que designa. seja de reconhecimento ou de amor. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. objeto material etc. necessário indagar a respeito de seu significado. mas a expressão de um desejo. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. o que lhe dá riqueza e complexidade. inclusive e sobretudo por quem a formula. a demanda é facilmente interpretável. não é uma demanda de objeto. aí. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. na acepção própria do termo. inversamente. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. seu tratamento – é. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. pelo menos em um segundo plano. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele.. mas como social. a “demanda” só tem sentido e só existe. precisamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). sua interpretação é sempre problemática. pois o qualificativo “social” tende. disfarçando-se. na Psicossociologia. dificilmente é formulada como tal. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. no primeiro registro. em demanda de outra coisa – conselho. No limite. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. Nesse caso. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. É. em contrapartida. 114 . então. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. solução. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. sua interpretação. Enquanto é apelo ao outro. freqüentemente ou sempre. Por essa razão. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. trata-se de uma demanda de amor. Ele não é evidente. a demanda é considerada não como individual. Ela se torna real por essa e nessa relação. uma certa relação de poder e de dominação. ajuda. é que. principalmente. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. Se. Certamente. seja em um quadro terapêutico. marido e mulher etc. de uma falta. tudo isso não é específico da Psicossociologia. a questão da demanda – sua escuta. durante um processo de consulta ou de intervenção. Entretanto. no segundo.

É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. das quais resultam vivências compartilhadas que. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém.). Porém. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. Assim. não há nada em comum com a posição de simples espelho. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. quis ou “demandou”. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. manifestações agressivas ou angustiantes etc. Em outras palavras. as quais. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. compreendidas e interpretadas. que sua prática não é aplicação de uma 115 . mobilizadas. testemunhado através de seus escritos. atos e palavras. meios de resolver um conflito etc. transformadas em atos. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. reflexo interpretante. às quais é difícil resistir. De um lado. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). de dependência ou de submissão. mas também de permitir interpretá-las. eventualmente. mesmo que seja de maneira difusa.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. de outro. por sua vez. nas quais elas podem ser avaliadas. é necessário que ele tenha se manifestado. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. Como conseqüência. a solicitou. de uma maneira ou de outra. podem ter efeitos nas situações que as originaram. exprimem-se sob formas coletivas (greves. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. Ao contrário.

na falta de outro termo. confessáveis e tratáveis. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). ao contrário. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. enigma. Trata-se. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. uma perspectiva – que. Tal representação exclui. principalmente. da mesma forma. no espaço desse artigo.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. mas através de princípios regendo procedimentos. com a condição. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. interagindo entre eles. a noção de sistema é bastante útil. uma empresa. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. desde LEWIN. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. mas que traduzem um desejo. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. um grupo. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. individuais e coletivos. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST.6 como oportunamente evocado por J. Assim. uma ética. Entretanto. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. entretanto. não é possível. Esse ponto. tudo isso expressa bem o que. independentemente das outras com as quais ela se articula. toda análise em termos de relações bipolares. Desse ponto de vista. uma classe de atores etc. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária.. DUBOST. afirmar que elas são. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. consequentemente. ao mesmo tempo. uma concepção da sociedade e das relações humanas. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. Evidentemente. um serviço administrativo. parece-nos ser uma ética.

Por outro lado. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. dessa forma. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. o interventor-pesquisador contra o risco de.7 Porém. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. 3. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. Desse ponto de vista.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. A introdução. Assim. Evidentemente. J. por exemplo –. sem o perceber. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. antecipadamente. Em suma. igualmente.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. é importante que todo ator e. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. 2. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. desde o início da ação de intervenção. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. trata-se de tentar definir. então. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . instrumental. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. em especial. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. ao mesmo tempo. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. identificar os dados. a fortiori. por K. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. e sendo breve. LEWIN. em uma relação de colaboração. Sem dúvida. em especial. aplica-se também à Psicanálise. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica).

“o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. elas expressam antes uma perspectiva. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. É indispensável. da sociedade e das ciências do homem. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. FAVRET-SAADA. consideráveis nas últimas décadas. em seguida.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. nos termos de J. Entretanto. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. questionar. tentando identificar. embora não suficiente. assim como observar. Da mesma forma. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. brevemente. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. Igualmente. então. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. é impossível. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. 118 . dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. FAVRET-SAADA. uma orientação. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. algumas tendências atuais. então. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. parafraseando J. investigar. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. Embora seu enunciado seja necessário. reafirmar essa posição e manter-se nela. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. de qualquer jeito. “saber como se foi apreendido”.

assim. Por outro lado. talvez rapidamente demais. por perspectivas lewinianas. cada vez mais evidentes. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. não é mais aceitável. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. Finalmente. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. rogerianas e morenianas. de uma forma diferente. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. desde os anos 60. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. dominados principalmente. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. Mostram. a problemas de mudança social. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . hoje. dedicaram-se. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. no início do texto. de ordem geral. análise conversacional. de análise de grupo.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. convergências. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. impõe-se: qualquer que seja o domínio. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. etnometodologia. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. com uma perspectiva bem global. é impossível. há alguns anos. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. Em todo caso. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. Assim.10 Mais recentemente. até então. certas correntes de Sociologia Clínica. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo.

Connexions. La parole intermédiaire. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. e LÉVY. J. André. E. 1980. 1979. Les mots. LECLERC. PUG. Dunod. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. por vezes fundamentais. 1978. 1978. ATLAN.N. LÉVY. 7 Cf. Connexions. Paris: Seuil. 1987. 1987. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. arquitetos etc. 1989. La société du vide. 1987. Gallimard. PUF. Changements. 1965. Por exemplo: ANZIEU. O problema da mudança individual. Y. “Ce que parler peut faire”.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. Situations de groupe et relations langagières. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. p. E. O. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. 1984. A. G. trabalhadores sociais. A. Seuil. RAPOPORT. Payot. Como exemplos: BARUS. e JOULE. 1990. paradoxes et psychothérapies. 1985. J. DUBOST. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. In: ARDOINO et al. E. C. muitos outros atores apareceram: formadores. D. L’Harmattan. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. Seuil. BION. H. 1987. Connexions. 1983. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Façons de parler. responsáveis políticos locais. J. GOFFMAN. La voix et le regard. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. L’observation de l’homme. Dunod. R. Dunod. R. Minuit. Entre le cristal et la fumée. L’intervention institutionnelle. la mort. 1981. 1975. FLAHAULT. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. e BAREL. Em especial. 2:87. Le sujet social. CHABROL. “L’analyse sociale”. 1972. A. BEAUVOIS. 17. PUF. L. Sociologie du Travail. nos anos 60 e 70. J. “Coopération et analyse des conversations”. les sorts. J. 1977. Le groupe et l’inconscient. 3 ENRIQUEZ. A. 2 4 5 WATZLAWICK et al. A.. 53. Recherches sur les petits groupes. 9-18. DUBOST. DUBOST. e de representações específicas de objeto. 1979. 10 120 . 11 TOURAINE. 7. Paris X. Paris: Seuil. W. JAQUES. 6 8 9 FAVRET-SAADA. 1973. e CAMUS-MALAVERGNE. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. Seuil. 42. Tese de Doutorado. “Connexions”. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. sindicalistas. J. TROGNON. “Eloge de la psychosociologie”. L’intervention psychosociologique. In: Du discours à l’action. 12 BORZEIX. 43. 1984. Intervention et changement dans l’entreprise.

retorno a uma problemática do indeterminismo. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. Entretanto.2 Mas. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. também. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. mais do que como fenômeno excepcional. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. em contrapartida. em nenhuma das duas. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. no campo que nos interessa. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. o segundo 121 . desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. depois de LEWIN. certamente. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. tendência.4 Essas evoluções. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições.3 sobretudo nas Ciências Humanas. de forma mais ou menos clara.

O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. aqui. aquém ou além. de súbito. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. iria reificá-lo. K. isto é. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. parece-nos possível. Antes. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada.5 Além disso. prever. muito fecundo. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. compreendê-la como tal. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. com efeito. porém algumas observações prévias: a. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. mas que ela poderia se realizar. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. do interior e não de um ponto de vista exterior.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. participando delas diretamente. por isso. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. dirigir ou combater. por definição. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. como demonstramos num texto anterior).Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. LEWIN. 122 . necessariamente. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. Nesse terreno. hoje. deslocamento. de uma leitura psicológica. com efeito. no grupo (na relação e pela relação. recristalização). ele permite. definitivamente. para as constatar. Assim. necessitando ser aprofundada. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer.

econômico. redirecionamentos. assim.). tecnológico –. A mudança é um trabalho do espírito. que queremos nos centrar aqui.9 a mudança. ela é um acontecimento subjetivo.. lento e ininterrupto. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . ao risco (.. também. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. Ele se traduz. que é a morte) – reprodução das espécies. legitimamente.. designar tudo o que está vivo. é sobre essa segunda significação de mudança. reprodução das idéias. a um processo de mudança. Antes de ser um acontecimento objetivo. a mudança é um acontecimento psíquico. “exceto do corpo que se usa”. seja a de um indivíduo ou de um grupo. pois. escrevia Paul VALÉRY.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. reorientações bruscas.. é acontecer.. é se abrir a uma história. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. reprodução das instituições. como observou Paul VALÉRY. Toda vida é “repetição de ciclos”.. (. desse ponto de vista.. entretanto. porém.. tal definição é geral demais para ser útil.8 Com efeito. Como já dissemos. não se reduz a esse processo evolutivo. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. é o espírito que.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. à aventura. nem todo processo discursivo se identifica. No entanto. A teoria dos sistemas distingue.. como ruptura.). eles não podem ser previamente enunciados. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. o desenrolar de uma existência. Com efeito.. O termo mudança poderia. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. mutações. Com efeito. físico. freqüentemente não isentos de violência. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b.

então. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. A decisão: momento. 124 . tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. representações ou intenções e os que estimam. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. um trabalho de pensamento. objetivas. Ou. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. o lugar da mudança. das instituições. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. Fazemos. em todos os níveis. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. ao contrário. por excelência. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. Para entender bem essa proposição. ao nível de suas significações.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. os psicossociólogos. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. dos modos de pensamento. por um trabalho do espírito. ele o é apenas se fizer sentido.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. isto é. a liberdade”. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. As condições materiais. depois de LEWIN. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. se o ato é fundador. ao contrário. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. Por exemplo. ainda. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. antes de tudo.

uma situação nova e envolve inteiramente. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. em suas opções e em seus desejos fundamentais. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). da continuidade sem hiatos. LEWIN. então.12 A decisão seria. da duração (bergsoniana). a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. por si própria. Os processos de decisão analisados por LEWIN. a divisão. inicialmente. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica.13 acentuamos o ato arbitrário. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. 125 . A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. Por isso. por exemplo). o psicanalista W. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. ao mesmo tempo. um salto para o desconhecido. para chegar ao processo secundário e criar o real. o “golpe de força” na origem de toda organização social. necessariamente. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. a organização social.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. “operando uma disjunção violenta. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. Somente a decisão pode fundá-lo”. com o risco de sua própria desagregação”. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). em sua época. por si. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. renunciando. só pode ocultá-lo. da ordem do real-concreto-sensível. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. do feminino. em um trabalho anterior. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. o tempo.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real.

pois. ao mesmo tempo.. quer sejam. as situações institucionais. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. manifestação da vontade de produzir. tomados como testemunhas. O sujeito de tal enunciado. assim. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. isso significa que uma escolha. Mas. de forma mais importante ainda. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. explicitamente designado. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. mas porque é um ato público. simplesmente. pois ele pode sempre ser desmentido. Toda decisão é. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. Mas.. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. como que por mágica. nem que a palavra seja onipotente. um ato de palavra. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. é o mesmo sujeito da enunciação. que uma decisão necessariamente modifica. simplesmente. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. a decisão é.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. econômicas ou sociais. retomado ou reinterpretado. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). em si mesmo. evidentemente. modificações na realidade. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. não pode significar uma mudança. Isso não significa. qualquer que ela seja. assim. Se o sujeito que 126 . apenas por seu enunciado.” é um ato “ilocucionário explícito”. Um ato. não muda nada. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. por seu conteúdo informativo e prescritivo.

em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. o jogo de hipóteses. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. inelutável. sem apreender o real? 127 . interpretação e prática de análise social No entanto. eles próprios. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. vazios de sentido e sem conseqüências. efetivamente. a respeito do herói. do imaginário. rituais ou emblemáticos. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. para fundar o real. entre as possibilidades. Então. Nesse sentido. sob a má fé dos argumentos. como diante da morte –. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. para um processo de mudança. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. Decisão. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. igualmente. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. não se reduzindo. bem antes do livro sobre Moisés. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. conscientes ou inconscientes. e de abandonar o terreno do possível. formal e. como muitas vezes ocorre. Aqui. os desafia.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. talvez mais do que em qualquer outro momento. esconde mal. a uma atividade lúdica ou de encantamento.

com efeito. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). FAYE15 as analisou. igualmente. Esses sistemas. Assim. ao mesmo tempo. como toda decisão. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. incontestavelmente. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. sendo difícil. feita pelos psicossociólogos. Mas ele pode. certamente. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. certamente. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. mas. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. possuem as características do relato histórico. senão impossível. ainda que não tenham conhecimento disso. termo que. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. O trabalho sobre as resistências. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. para fazer a história. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. tais como J. ela é necessariamente parcial e partidária. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. Certamente. escapar dessa eventualidade. Seria importante. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. P. implica um risco e um custo. 128 . como observa FAYE.

longe de se fundamentarem no “real”.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. que preserva o analista social da decisão. em um processo de reificação de enunciados fechados. justificando. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. práticas contestadas ou abordadas. contribui para reforçar seu caráter dogmático. mas tende a afastá-las. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. cada um. “nascendo.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. ao contrário. pois. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. mais ainda. então. das condutas às quais elas se referem. que eles constituem visões diferentes. mas complementares. o texto. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. no inconsciente dos sujeitos. não podendo ser traduzidos em decisões. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. É aqui que uma concepção por demais rígida. muitas vezes. mas sua coerência. uma parte da verdade comum. de uma mesma “realidade”. subtraído do tempo”. contentando-se em esclarecê-los e. atuem diretamente no real. sobretudo. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. essas diferentes visões e o que elas ocultam. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. ideológico. visto que essas. bem claramente. assim. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . do risco de uma interpretação verdadeira. diz-nos LEGENDRE. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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face a “ruídos” provenientes do exterior. em 1950. são simultaneamente (cf.Inicialmente. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. os atores. Nesses períodos. como crises momentâneas de coerência. atores e autores do seu sistema. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. autogeração etc. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). por isso. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. autopoieses. não restavam mais que 10 000). colocam outros problemas. químicos ou biológicos. oriundos de outras áreas. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. então. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. capazes de se auto-regularem. isto é. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes.Os conceitos de auto-organização. 2. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. mas abertos ao seu meio ambiente e. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. Eles se referem a sistemas autônomos. a partir do século XIX.Rupturas. literalmente. inicialmente. constituindo-se. pois. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. supra) agidos. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. em 1900. autocriação. isto é. Assim. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). o que não é o caso dos elementos físicos. ou seja. cujos elementos. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. as crises econômicas foram. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . os novos conceitos e hipóteses. *** Quais são.

que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e.I.2 por exemplo). Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). na França. encontramos poucas reflexões (na França. entre os economistas.P. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. No entanto. Mas. o compromisso fordista empresários-assalariados. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. em especial. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). logo não previsível. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. Sua presença é vista como consolidada. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. nesse momento. segundo CROZIER) e. sob o protecionismo de MÉLINE. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. mas isso deixa de lado os fatores 136 . experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. sob a égide do Estado. por conseguinte. Nesse ínterim. na sociedade ou numa área econômica dada. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. de um lado.. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. de outro lado.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. amplia a margem de manobra dos inovadores que. de inovadores potenciais. É certo que essa escolha é aleatória. Essas crises-ruptura.

000 sociedades. a difusão ou não – de suas inovações. Há outro problema não estudado. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. ao nível dos detalhes. em cinqüenta anos. nessas mutações estruturais. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. Em épocas de crises-ruptura. CASTORIADIS). inerente ao sistema. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. Mesmo se essas teorizações existissem. entre a mão invisível e o punho de ferro. nesse quadro. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N.Rupturas. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. tornando possível viver em perspectiva (C. da designação. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. uma teoria do fracasso. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes.P. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. por conseguinte. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. 137 .. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. da predestinação do mais forte.I. assim como aos fatores culturais. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). ele se torna o ordálio. ou seja. Mas ainda continua faltando.

mesmo que saibamos.outras referências. embora ainda não totalmente. despolitização.I. polimorfismo das intervenções do Estado. após a solução eventual da ruptura. . devido à extensão atual do mercado e. podemos constatar: . des-sindicalização e mesmo des-identificações. 3. GROU. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. 3 . . integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. que o Centro se desloca. . da cultura. integrismos. por exemplo).Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. à extensão do capitalismo (os N. . a família e a escola).).). Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . desde BRAUDEL. homogeneização da linguagem. ENRIQUEZ): nacionalismos. por exemplo): concorrência. Mas.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. Ela se define (P. BOYER. 138 . por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”.aumento do número dos agentes aí implicados.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). após dessacralização. às vezes.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. .fenômenos de regressão a formas mais simples. o sagrado e. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. poderes oligopolíticos em escala internacional. . o lúdico.enfim.P.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. ao mesmo tempo.

pois. REYNAUD). mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). das conexões) e do “salto qualitativo”. as sociedades animais). objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. Do mesmo modo. Ela supõe. o leque dos comportamentos não é. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. para cada grupo de agentes. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. quando da sua transgressão e. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”.Nos sistemas sociais. por seu lado. para poderem inovar. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. além das imposições do mercado e dos demais poderes. 139 . um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. por outro. Contrariamente. É preciso. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. por outro lado. uma interiorização das normas e uma culpabilização. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. para serem fecundas. mecânicos. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. regras ou convenções para lhe dar suporte. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. Essa adesão. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). por um lado.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J.Rupturas. D. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. tão caro aos marxistas de outrora.). por um lado. introduzir normas. devem inicialmente ser especificadas. informáticos. completamente fechado. químicos. como afirma o individualismo antropológico. E esses. biológicos e mesmo etnológicos. 1.

no segundo. 3. No primeiro caso. No total. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. acumulação. por fim. inovações. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. 2. pelos golpes das OPA. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. Por outro lado – apesar de KEYNES –. dos fatos de regressão (por exemplo. de sua unicidade histórica.5 o pessoal patronal). há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. da sedentarização ao nomandismo). mais nitidamente. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. os outsiders e os parvenus substituem. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. por isso mesmo. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. 140 . Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. enquanto que. então. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. sem esquecermos ainda as marginalizações. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. em seguida. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. seria preciso distinguir.Quando há ruptura. Existe então. O imaginário da destruição pode. a modificação do tipo de conjuntura. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. de se expandir e. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. por exemplo). em período de crise.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. as ocasiões de experimentar. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. devendo encontrar.

um esquema ideal típico.T. 55. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. V. por conseguinte. a adesão às normas e. Paris: ERES. então. então. a aquisição de conhecimentos e de representações. normas. Revue Économique. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. A continuação do funcionamento implica. 40. 141 . n. mutations et complexification en économie (mimeogr. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes.T. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. para experimentar as inovações. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. “Malaise dans l’identification”. Connexions. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema.). 3. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). 1990. por Teresa Cristina Carreteiro.As estruturas (as relações de complementaridade e. Cf. representações. tal como: 1. por conseguinte. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. por exemplo. N. “L’économie des conventions”.Mas a adaptabilidade do sistema.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer).Rupturas. 2. 2. Cf. uma mutação estrutural. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. março 1989. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. “esgotamento da relação salarial fordista”). portanto. Ruptures. André. de coerência) + a cultura (os conhecimentos.). Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.). n.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. de criança o reinado. talvez anuncie o fim delas. de incertezas).IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. e os transforma em autores das mudanças. (Heráclito. Fragmentos. Pois essas “perturbações”. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. de algum modo. BRANDT. por exemplo.Ela mobiliza atores em potencial. MARADONA. condições de “saída da crise”: l. a qual.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. 143 . 3. precedeu uma crise política. 4. Assim. nos anos 60.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. TAPIE e outros). GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. Do mesmo modo. “desfusão das pulsões”. jogando. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. E. não se trata mais de crises (isto é. quando não destroem a sociedade em questão. criam. no 52) A crise das identificações. porém robusta. (Hobbes) Tempo é criança brincando. precedeu uma crise econômica. então. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. 2. por sua vez.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. No Ocidente. MITTERAND. João Paulo II. ROCCARD. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. a introdução de novas referências. Atualmente.

os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 .Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. assim. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. pode-se reciclar também a identidade. 6. desses imaginários de projeto. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação.No final de contas. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. O resultado é que. não apenas a realidade parece incerta. é claro. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. O “mal-estar na identificação” traduz. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. por um lado. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. a categorias socioprofissionais e. diz FREUD. as “intermináveis adolescências” que. assimilam e transformam. tentativas de reconstrução. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade.Ela libera. levados pela incerteza das situações e do futuro. localizadas e transitórias. reativados ou mesmo imaginados). com todas as posições intermediárias possíveis. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. para todos. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. ao mesmo tempo. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. angústias de identidade. por outro. a grupos étnicos. a tipos de personalidade diferentes. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. de modos diferentes. ao contrário. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. de assimilação e de inovação. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. o individualismo ilusório ou de oportunismo.

à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos).Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. a. e a aparência NAP) pelo simbólico. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. regionais. da empresa etc. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. Por exemplo. organizacionais etc.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. de classe. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. do racismo. a regra e as sublimações. é paralela à involução identificatória de seus membros. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. solidéus – kipas – hebraicos. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). c. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. da igreja. as reativações religiosas atuais no Irã. nacionais. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. gorros cristãos etc.3 A família.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. A identificação que não se desvencilha do partido. em vista da emancipação para o societário e a individuação. Assim. profissionais.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. Fenômeno que ilustra 145 . finalmente. b. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. é claro. religiosas. nos dois sentidos do termo.

ipso facto. o narcisismo individual. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. por sua vez. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. além disso.Do primeiro diremos pouca coisa. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. sendo aliás esse que permite aquele. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual.Mais interessantes. “tem necessidade dos homens”. especialmente na França. fortalece as exigências da necessidade econômica. E isso. entre 1983 e 1988. b. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. Ela é. é. justamente porque mais na moda. às avessas. Quer dizer que o narcísico. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. a. com o dinheiro. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. primeiramente.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). principalmente. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. O retorno pode ir ainda mais longe. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. isto é. exatamente como Deus.

Enfim. mais tranqüilizadora. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). em prêmio de Schadenfreude. A monetarização. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). simultaneamente. em substituição ao “Mudar de vida”). assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. se autodestruiria. de junho de 68. notemos que o modelo do sucesso individual. numa androgeneidade fecunda. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. o festivo. manter ou criar os meios de aumentá-la. o prestígio etc. O dinheiro. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. “Criem sua própria empresa”. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. Na verdade. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. Assim. caso se propagasse a todos os agentes. Por enquanto.) permite. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. Entre a binaridade e a injunção contraditória. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. o mercado. Além disso. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. Isso é talvez patológico. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. se ela for realizada. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. é mais simples escolher a binaridade. talvez. induz não ao 147 . o sucesso dos outsiders permite também e. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. essa acumulação pecuniária permite.

na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. a partir de elementos de vestuário comuns. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. 1. em contrapartida. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. (T. Intermináveis adolescências. nas três etapas – puberdade. a programação dos computadores das Bolsas) que. passa-se rapidamente. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. um cavaleiro solitário. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. daí resulta. ao insolúvel. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. No caso de fraqueza delas. logo.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . a nítida binaridade do mercado. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. necessariamente. adolescência e pós-adolescência -. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. cada um será. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. esse narcisismo manipulador. a individualização extrema dos novos modelos. na época atual. Acrescentaremos apenas algumas observações. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. entretanto.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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pois. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. no que tange à história do capitalismo. conjugada com a manutenção dos objetivos.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. Com a condição. Nesse caso. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. em certas regiões. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. Pode-se. produzem-se onde não se espera e constituem. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. fora do controle exercido pelo Centro. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. mesmo que sejam minúsculas. não podem ser reorganizadas e reorientadas. “surpresas”. uma vez instaladas. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). por historiadores como BRAUDEL ou I. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. antigamente atrasadas. 154 . como. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. Além disso. inclusive jovens executivos12. entretanto. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. É por isso que as revoluções. por exemplo. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. Além disso. pois. pelo menos em muitos jovens. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. Assim. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação.

no adulto não é a repetição mas.). logo. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. jogo de empresas.. Em contrapartida. diz WININICOTT). cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. a personalidade arrisca-se a desmoronar). Assim. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. MC DOUGALL). idealmente. das coisas. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. dos prazeres. GODALIER). ainda mais. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. em seguida. numa situação de mal-estar. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. a conformidade e. política etc. aí. mas existem. E como se sabe. do espaço. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. a captação do lúdico (jogo de papéis. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. podemos contrapor. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft).) pelas outras. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. Paralelamente. no início.. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). ao contrário. por sua superação. cujas identificações seriam. das idéias. as identificações são. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente.. constitutivas da personalidade e. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. dos valores. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. Mas.. unicamente confirmadoras da identidade.

por exemplo). Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. ao mesmo tempo que se escreve. como vimos. então. com o 156 . sem dúvida. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD).experimentam-se. entre esses tipos extremos e opostos. . em transformar as identificações laterais.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. . imprecisas e transitórias. então. Desse modo. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. em identificações hierárquicas. então. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. DUPUY.a dificuldade está.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes.tentam-se. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas.13 Fundamentalmente. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. Essa é. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. representadas e transicionais. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. . Mas. .

de fetos ou de liberdade de viajar. tanto para os autores das mudanças. apesar de tudo. Enquanto isso. dos indivíduos e da identificações 157 . Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. Há. Essas apropriações podem. em 1981). (O que prova. outsiders ou reciclados. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho..O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. quanto para aqueles que o desemprego. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. da maioria dos marxistas. com a eliminação das organizações. de passagem. pois. no fim de contas. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. como na tectônica as placas entram em fricção. às vezes. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. 2. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. Algumas conseqüências 1. aliás. Chegando à encruzilhada. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. o fim da história só concerne a cada indivíduo). Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. de bandeiras. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. na Colômbia ou alhures. e das intermináveis adolescências. o mal-estar subsiste. das utopias (“mudar a vida”.. em concorrência). podem entrar em conflito. que apesar de HEGEL. das coordenações pelos sindicatos etc. por isso. Daí a multiplicidade.

Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. por um momento denegadas (entre os sexos. como alguns dizem. as culturas etc. ao mesmo tempo agradável e funcional. a estrela polar) são. Ora. Os signos (o sol. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). necessariamente. O barroco societário atual é. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. as gerações. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. ENRIQUEZ. das normas e das formas. os espaços. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. e a complexidade progressiva do sistema. um momento dessa ascensão. portanto. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. Talvez. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. pedidores de emprego. 3. Por isso. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos.Mas sabe-se também que o vínculo social e. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. principalmente). mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. E a que corresponderia. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. talvez. encontramo-nos. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. 158 . todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes.). amanhã. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. os tempos. as únicas referências ainda fidedignas.

assim como os signos da diferença pelo dinheiro. para outros? Mas. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. a receita das identificações complementares novas (e.. das coesões) não parece ainda inventada. MARX. p. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. logo.]. ao contrário. W. Hoje ele teria. Petit Larousse. Revue Economique. na formação de ninho familiar. naturalmente). 61-78. Gallimard. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. no mal-estar. André. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. 2 de março. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. 1989. Mais dura foi a queda. Temos assim uma alternância de interpretações. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. Tomo 1. 40. “Zur Kritik. 159 . então. N. 29. 239. As épocas de crise e reconstrução valorizam. n. Connexions. RUBEL. simultaneamente. C. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. O problema: em época de “destruição criativa”. no adulto que eles se tornariam. “L’économie des conventions”. p. Auteuil. Passy. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. sociedade e personalidades”. É por isso que. nas diferentes esferas do social. edição de 1963.. Pléiade. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. os atores (Individualismo). Estaria a saída. 1990-1. do econômico ao sagrado. por Eliana de Moura Castro. NAP: Neuilly. Oeuvres: Économie. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes).” In: M. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 55. sem dúvida. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). 1981. “Identifications expérimentales et innovations sociales”.T.

Les destins du plaisir. J. 1981. Uma mudança social. F. La distinction. Paris: Minuit. Paris: PUF. 45. D. n. Paris: PUF. BOURDIEU. 1988. Paris: Seuil. 1985. 1975. 160 . n. 1989. Ordres et désordres. Connexions. n.-P. oportunismo. Le désordre. 1979. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. ELKAIM. Paris: Seuil. Paris: Epi. A. Paris: Fayard. L’individualisme. DUPUY. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. 1960. Connexions. 1983. “Le changement en question”.. Paris X. Paris: Flammarion: 1974. FRIEDBERG. E. Grenoble: PUG. Tese. Toujours plus. Les révolutions minuscules. 1989. BIRNBAUM. 1950. J. 1988. Les deux arbres du jardin. Paris: Gallimard. 1982. Paris: des Femmes. Autonomie et systèmes économiques. Paris: Gallimard. n.] uma não-imitação de exemplos paternais”. “Les représentations sociales”. The end of ideology. Le paradoxe et le système. 4. P. ENRIQUEZ. por outro lado. Paris: Seuil.. M. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. Autrement. BALANDIER. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. 1989. New York: Collier. BELL. Bulletin de l’AISLF. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. P. BELL). 1974. M. Cujas. 1979.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. BELL. P.. Paris: PFNSP. Paris: Seuil. De la horde à l’Etat. 1988. Paris: Cerf. Y.. 1988. CASTORIADIS. L’homme et le sacré. Paris: Seuil. L’acteur et le système. 1987. CAILLOIS. Cf. mobilidade. Paris: ESF. ARMANDO. 1984. 1977. ENRIQUEZ. CERISY (Actes du Colloque de). 1976. 1982. M. J. 1979. Paris: Grasset. CROZIER. CHASSEGUET-SMIRGEL.. D. G. VERNANT. T. Freud et l’éducation. R. ne m’aime pas. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. P. Interminables adolescences. 1982. 29. Le lien social. DE CLOSETS. L’auto-organisation. L’institution imaginaire de la société. DENOYELLE. LECA. E. M. para TARDE. AULAGNIER. Aux carrefours de la haine. 1988. BAREL. Winnicott en pratique. ANREP. Les contradictions culturelles du capitalisme. J. 51. Paris. Si tu m’aimes. C. J. Les ruses de l’intelligence: la Métis. DETIENNE. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai.

Forum de Delphes. “Penser le chômage”. 15 nov. 2 de março. Paris: Gallimard. G.” Peuples méditerranéens. A. Psychologie des minorités actives. 1979. 18 julho. Paris: Gallimard. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. 18 mai/7 jun. J. FREUD. Paris: RFP. Paris: PUF. Le Monde. OLIVIER. S.. LÉVI-STRAUSS. KRISTEVA. Paris: CNRS. “La voix écoute”. nov. NICOLAÏ. S. B. n. A. 1987. 1980. n. Reedição GEX.. MOSCOVICI. 1989. L’effort pour rendre l’autre fou. “Psychologie des foules et analyse du moi”. “Et mourir de plaisir. LIPOVETSKY. FUKUYAMA. Paris: Payot. Paris: Plon. 27. A. “L’économie des conventions”. Paris: Payot. M. Paris: PUF. de la vertu et de plaisir. 1981. Paris: Gallimard. n. 1971. 1951. NICOLAÏ. “Et le poussent jusqu’au bout. 1980. 1958. Cl. Névrose. Vers la société sans père. “La fin de l’histoire?” Commentaire. Traverses. Les enfants de Jocaste. S. MENAHEM. 10. et al. Paris: Gallimard. SIBONY. W. FREUD. GOFFMAN. 1989.. GODELIER. Le retour de l’acteur. Mc DOUGALL. Les lois de l’imitation. G. 1973.. FREUD. n. D. out. SEGALEN. L’autre et le semblable. Paris: Denoël. 161 . Jeu et réalité. Paris: Seuil. Paris: Minuit. Paris: PUF. 1970. 1989. n. 38-39. 1979. D. 1977. 1966. 1974. 47. Anthropologie structurale I. G. nov. Paris: Plon. S. 40. LÉVI-STRAUSS. Freud et le problème du changement. F. TOURAINE. M. Ressources. 1989. FREUD. “Les Français et l’argent”. psychose et perversion. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 1989. Revue Economique. Le complexe de Narcisse. Le Monde. 1980.. Pour décoloniser l’enfant. NICOLAÏ. 1982.. outono.. Paris: PUF. G. Revue française de psychanalyse. Rationalité et irracionalité en économie. Les rites d’interaction.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. 25 de out. WINNICOTT. In: Essais. S. J. 1989. A. 3. Ch. n. Le déclin du complice d’Oedipe. n. Paris: Maspéro. A. “La nation disparaît au profis des tribus”. Inhibition. WIDLOCHER. D. MITSCHERLICH. D. 1971. Paris: Gallimard. LASH. Nauplie. 26 jan. H. Paris: Fayard. Paris: PUF. 1934. FINKIELKRAUT. SEARLES. 1983. 1978. Idéaux. Paris: Laffont. A. 1984. angoisse. n. Malaise dans la civilisation.1974. TARDE. Pouvoirs de l’horreur. MENDEL. 1981. Cl. symptôme. SIBONY. “Les mutations de la famille. 51-54.” L’homme et la société. FREUD. 1971. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde.. La pensée sauvage.. 20. 1989. 1988. 1989. L’empire de l’éphémere. LE GENDRE. junho 1987. E. Cl. S. 1980. Le Monde. “La politique en apesanteur”.” Connexions.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

também. os textos de J. 1980) e de E. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. instrumentalizada então. ela tomará formas próprias. de A. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. em cada lugar. entretanto. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. pelas Comunidades 165 . 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. desembocando. nas décadas de 60/70. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. 1987). em uma espécie de “crise das instituições”.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. sem dúvida. em fins de 50/início de 60. LÉVY (“Intervenção como processo”. criando em nós uma vontade de entrar no debate. que essa “crise” também eclode em vários países e que. Poderíamos dizer. lançar um olhar novo sobre o mundo. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. por exemplo. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. a partir da divisão não-saber x saber. É bem verdade. No Brasil. Assim. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. mais tarde. sem vê-lo como algo já dado. contribuir. essa parece ter sido. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. Pelo que eles mesmos nos contam. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. Benevides de Barros É. na maioria das vezes. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. 1980.

ainda. então. analisador histórico do status quo vigente. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. da burocracia partidária. político e social. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. na interseção dos campos filosófico. DUBOST. fica claro que “Movimento Institucionalista”. à Socioanálise (R. palco de uma produção expressiva. A. As instituições são analisadas. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. Em meados de 60. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. questionamento de seus modos de instrumentalização. quando tomado em seu sentido amplo. 166 . ENRIQUEZ). convulsionado pelo golpe militar. No campo da Psicologia. Os fins do anos 60/década de 70 serão. PAGES. colocou em cheque. R. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. E. do conservadorismo universitário. de um lado. LAPASSADE. principalmente. Ainda que marcados por grandes diferenças. No Brasil. J. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. crítica das experiências instituídas. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. LOURAU. ARDOINO) ou. Vemos. chegar também até nós o eco dessas produções. desde essa época. como à Argentina. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. designa a crítica à naturalização das instituições. ao Chile e ao Uruguai. inserem-se. então. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. por outro. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. presenciamos. o país. através do contato com os “institucionalistas” franceses. GUATTARI e G. uma certa psicossociologia se faz intervenção. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. DELEUZE). LÉVY. de modo generalizado. O mês de maio de 68 francês. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. Por aí. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. G. J. HESS.

. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE.). Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. além de seus próprios escritos.R. (MATA-MACHADO. a influência do pensamento institucionalista francês.P. 1992. portanto. a partir de 1968. através do Curso de Psicologia. A entrada se dá.I.. de Rouchy e.. É marcante.. 1992. mas há algumas produções importantes que já apontam. Lapassade (. 2).. Junto com René Lourau (. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. sobretudo. O recente trabalho de M.. mantinha. mais especialmente. MATA-MACHADO. 167 . Em 1967.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. 1992. que congregou pesquisadores práticos (.) Em 1971...)”. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). os professores Max PAGÈS e André LÉVY... em 1959. como grupo. segundo a autora. Se no início a orientação era claramente norte-americana. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. com a qual logo rompemos (.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (.).. p. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. segundo M. “(. p. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. da formação da A. tivemos entre nós. Lévy apresentou-nos... a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.. 3-4). voltado à pesquisa e à prática. sob a liderança de Garcia.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. Com PAGES.(. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. Ambos haviam participado. cuja prática foi denominada Socioanálise”. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. de forma mais pontual. via Universidade e. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques).).. 2) O pensamento institucionalista atravessa. respectivamente. alguns de Enriquez. (MATA-MACHADO. p.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.

LEITÃO e BARROS. O pensamento pichoniano. pedagogos. DUBOST e E. F. menos desejosas de mudar o mundo (. 1986). são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. mas estendendo-se até hoje. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. 1987). na Europa. 4). que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. Encontramos. somou-se a influência do pensamento de outros (M. assim. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. entretanto. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. G. p. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. entre outros). além dos autores já citados. Ao mesmo tempo. 168 . Digo isso porque chama a atenção o fato de que. R. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. É também na década de 80. FOUCAULT. 6). LÉVY. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. DELEUZE. GUATTARI.. segundo a autora. cujos interlocutores privilegiados são A. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. G. CASTEL. mais tarde. Essa perspectiva é. em fins de 70/início de 80. 1992). passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. MENDEL). ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. O que se percebe é que. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. psiquiatras e psicólogos. construindo-se práticas singulares. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. p. no Brasil.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. enquanto que. no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro. J. a partir de então.. por um certo tempo.)” (MATA-MACHADO. o movimento institucionalista inclui sociólogos. ENRIQUEZ. atentas às características da realidade brasileira. 1992. 1992. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. G. LOURAU. Hoje. “parcialmente abandonada. LAPASSADE. Na década de 80. fez com que. há alguns projetos em andamento.

O inconsciente institucional. Rio de Janeiro: Vozes. A década de 60: seus efeitos no pensamento. incluindo.). a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. hoje. Vida R. ROLNIK. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. já toma contornos bastante diferenciados. RODRIGUES. 1992. 327p. (mimeogr. Regina D. (coord. o “pensamento institucionalista”. História do Movimento Institucionalista. KAMKHAGI. Heliana B. à instituição de formação e à de pesquisa. 1986. desembocando em algumas traduções e publicações. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. 1986. Regina D. Cartografias do desejo. Intervenção psicossociológica. Especialmente através dos trabalhos de S. LEITÃO. 1992. 22p. em São Paulo. e BARROS. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. Heliana B. 164p. Félix e ROLNIK. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. Rio de Janeiro. difundiram-se os pensamentos de F. DELEUZE. (mimeogr. GUATTARI. Petrópolis: Vozes. Análise institucional no Brasil. Atualmente. nas intervenções e práticas sociais. Referências bibliográficas BAREMBLITT. M. Grupos e instituições em Análise. Gregório F. Suely.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. C. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. RODRIGUES. B. e BARROS. de obras desses autores.). 1987. (orgs). as contribuições da socioanálise. Mas. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. C. Belo Horizonte. bem como na entrada. 175p. na universidade – PUC/SP –. B. Osvaldo (orgs). o Núcleo de Estudos da Subjetividade. GUATTARI e de G. sobretudo. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. 169 . em suas várias vertentes. Marília N. Micropolítica. e SAIDON. MATA-MACHADO. em alguns casos. pesquisas e intervenções. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. 1984. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam.). sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. mais tarde.. tendo incluído outras influências teórico-práticas.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

aqui. a algumas observações. Por mais banais que sejam.I. b.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. a interação entre essas variáveis. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. Limitamo-nos entretanto. finalmente. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. mais ou menos livremente. em uma determinada situação. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. as dificuldades sentidas por um ator social. c. além dos desejos de terceiros. os princípios e as modalidades de sua intervenção. principalmente.as condições gerais que engendram. implicando opções e esforços de imaginação e que.P. de variáveis como: a. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. a natureza do “saber-fazer”. em primeiro lugar. Mas creio.R. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . o status e a posição social.a formação. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história.

freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. pelo problema da reconstrução. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. missões de produtividade. inflação. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. do 172 . comportava. entre 1945 e 1959. nos mesmos organismos3). ênfase a métodos estatísticos. de estruturas de direção. simultaneamente. em períodos diferentes. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. econômica e social. Muitos dentre nós trabalharam. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise.. o funcionalismo etc. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. do recrutamento de pessoal. suas aplicações no domínio da economia. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia.). comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. de gestão. evidentemente. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. O período imediatamente após-guerra foi dominado. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. Na Sorbonne. estabelecidos na capital. da conjuntura. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. de reeducação. o Marxismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. a busca de participação. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. então. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. da formação em habilitações. Nesse contexto. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL.

a relação crítica e complexa que G. pouco conhecidas na França. na França. da demografia. lembremos. em seguida. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. estudos de mercado –. as obras de G. no plano das práticas.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. MORENO e depois ROGERS). Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. então. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. o movimento que iria ser denominado “institucional”. especialmente. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. Em relação a esse último ponto. em 1961. separam-se em duas tendências. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. por exemplo. onde milito durante esse período. nessa época. desenvolvendo uma abordagem mais global. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. André BRETON. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . da gestão etc. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. a partir de 1952. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. é o momento também no qual G. a partir dos anos 40. o movimento trotskista. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. pela Dunod). marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. se as tentativas de Reich são. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –.

mas elas permanecem muito próximas. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. durante a ocupação. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. desde sua origem.G. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. a C. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência.O. WILLIAMS. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. sobre a “moral” da empresa.S. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. Entre essas últimas. Igualmente um outro. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?).E. 174 . por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. LEFORT. dirigido por C. Antes de sua volta aos Estados Unidos. em 1947-1948. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C.5 retém. separa-se da IVa Internacional. Entretanto. R. em função do problema da burocracia operária. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. Perret. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. no qual se encontra B. servem. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. com o restante do relatório. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. CASTORIADIS4 e Cl. na relação que elas estabelecem com o cliente. em 1949. um dos colaboradores dessa equipe.

e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. da mesma forma que a direção. as que são conduzidas por equipes francesas. junto a pessoal assalariado de uma empresa. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. porém. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. apoiando-se nos resultados. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados.I. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. se abrem a uma abordagem mais clínica.W. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. elas colocam. em empresas maiores. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. Da mesma forma. passando pelas reformulações européias do T. depois eventualmente coletivas –. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. de início. em última análise.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). 175 . Ao contrário. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. e eles devem ter acesso aos resultados. parece cada vez mais interessante.

os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. feita pelos encarregados da pesquisa. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. ou aos que decidem – Direção Geral. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. turn-over. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. higiene. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. Em outros termos. as disfunções. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. absenteísmo. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. Enfim. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. algumas vezes antigos. pirâmide de idade. as relações intercategorias e as microculturas da organização. segurança etc. Ele faz da relação de consulta um problema em si. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. Direção de Pessoal –. as crises. que habitualmente não têm a possibilidade de falar.). Ajudando todas as pessoas. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. modos de remuneração. para uma orientação mais clínica. ele se pergunta se os bloqueios. e tenta inventar. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. sua natureza real. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. de pagar o preço por sua solução. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. no interior desse quadro de atitudes. pelos sentimentos coletivos. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . cujos conflitos. grupos de mais velhos. ainda marcam representações e atitudes para com a direção.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. a se expressarem. que fala sobre seu campo e suas intervenções. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. e essa não sendo a conseqüência menos importante. Por outro lado. um objeto de trabalho. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões.

se aceita. gestão ou organização. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. ele próprio contribui. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. acaba totalmente reforçada. 177 . dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. mesmo desejando o contrário. a idéia de que a intervenção. de perceber direções de solução. sem dar conselho. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. sem dúvida. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. os sistemas de comunicação na empresa. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. mais tarde. do especialista em uma técnica de produção. além dos arranjos menores concedidos. ajuda as categorias vítimas da repressão. em especial dos inconscientes. permitindo a expressão do reprimido. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. isto é. de fato. Nessa perspectiva. ele crê que. Porém. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. mesmo nesse caso. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. de fato. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. os processos de preparação e tomada de decisões. isto é. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. ele exerce uma pressão que. à medida que esses são identificados.

em uma empresa nacional. do psicodrama analítico etc. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. Os anos sessenta No momento de criação da A. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver.. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. (1959).P. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. nessa época. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. Da mesma forma.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. A outra continuava a realizar. mais do que acelerar tal processo. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. O caráter clínico do novo grupo. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais.R. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel.I. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. então. mas também em uma transformação cultural profunda. Tenho a impressão de que. No momento da criação. os limites das ações de intervenção. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. das formas de autoridade. a 178 .

Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. de metodologia psicossocial. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). uma longa intervenção em uma empresa implanta. dominou os primeiros anos de funcionamento. outras vezes apenas três psicossociólogos. HERBERT. A organização e a condução de seminários representa. se podemos dizê-lo. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. a metade já era. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. grupos abertos de análise etc. de inspiração rogeriana.R. atuando diretamente no campo.7 Paralelamente. dez anos depois. terapeutas ou analistas. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. até 1966 (marcado pela vinda de C. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. e ainda agora.6 No começo dos anos sessenta. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. reunindo às vezes toda a equipe.-C. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. era de um terço. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . neles. algumas vezes mesmo de introdução à economia. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. ROUCHY). de sociologia das organizações. a metade das atividades da A. do sócio-técnico e mesmo do econômico. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. ou iria finalmente se tornar. a continuidade no tempo. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e.I. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. A orientação não diretiva.P. de formação de adultos. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. a proporção era aproximadamente de nove décimos. durante todo esse período.). nesses. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos.

desenvolvimento organizacional). Entretanto. de atendentes.I. Ao mesmo tempo. a demanda se estende a associações. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. de trabalhadores sociais. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. junto a um Centro de Produtividade. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.E. diversos membros da A. então. em 1961. durante vários anos. de maneira ainda mais geral. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc.P. por volta de 1965.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. é uma intervenção no México. na equipe. as condições ideológicas próprias da França.F. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. É sobretudo na França. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). para explicá-lo. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. Psicossociologia e Política etc. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. de psiquiatras e de psicoterapeutas. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua.R. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. junto a organizações com função econômica. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. em Paris.N. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. Mas creio que é necessário evocar também. 180 . embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. a integração. por exemplo. a guerra da Algéria. de padres e religiosos.). movimentos educativos.

no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. não desembocou no político. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal.P. uma evolução global do sistema educativo. com os quais a A. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”.O. dentro de certo prazo. centrando-se na evolução das pessoas.10 .E. nas ações de movimentos como a F.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). As instituições não se analisam.R.N.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.. antes de 68.V.E.I. por parte da instituição. de uma audácia espantosa. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . mesmo que modesta.elaboração de projetos de pesquisa-ação. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. ao contrário. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. . que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. simultaneamente política e cultural. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. Embora alguns dentre nós víssemos. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . uma direção susceptível de provocar. ao considerarem suas relações e vida psicológica. que dava uma direção totalmente imprevista. como o fazem os indivíduos ou os grupos. trabalhava desde 1964. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). o período que se seguiu a maio mostra. por exemplo. como muitos outros. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. através do desenvolvimento de ações locais. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição.

sob a influência do pensamento psicanalítico. sem dúvida. ou melhor. parece-me que. ele deve ser buscado em outro nível. . ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. 1967. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. Esse último aspecto leva à questão mais geral. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . “agente de mudança”. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. no plano das idéias. O modelo do analista pareceu sempre. a “socioanálise” ilustra. ou “indutor de mudança”. tal opção. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. no último período.nos anos que se seguem à Liberação e. mesmo quando. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. na prática. mas também de seu objeto de trabalho. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. no campo social. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. bem problemático.A partir dos anos 60. tende a se ver como um analista com funções de elucidação.Porém. devendo ser afastado ou suspenso. Como o mostra André LÉVY. quando as referências à pedagogia ativa. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. em especial lacaniano. benefício a mais).Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. até o começo dos anos 60.11 Estudando (por três vezes: 1963. progressivamente. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. afastando-se dela em seguida. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo.12 . 182 .

uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. nem a se considerar parte da ação. Simetricamente. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . por exemplo. sobretudo. na referência ao próprio lugar ocupado. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. Se ele se encontra em uma posição menos central. a esse respeito. por exemplo. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. A expressão pesquisa-ação. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. é certamente oposta à acepção lewiniana. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. Toda intervenção psicossociológica. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. e. nunca é independente. no campo. tendo em vista sua própria história. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. pertencente ao campo estudado. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. como pesquisador ou consultor social. cedendo a pressões de que se é objeto. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. ou que se tenta ocupar. presente nele. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. lugar onde se está. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. porque ocupa. com todos os riscos que isso comporta.

Sociologie du Travail. 1972. la Mort. LACAN. 8 Cf. Jean e LÉVY. o capítulo “Variantes de la cure-type”. n. de forma mais livre. Intervention et changement dans l’entreprise. n. Paris: Epi. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. não se pode. les Sorts. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 1977.E. In: Fondation Royaumont. Épi. 2 3 184 . que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. Connexions. n. A C. 1963.”.-março.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. por Marília Novais da Mata Machado. “L’Analyse social”. quatro anos depois. 1971. n. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo.P. seu vice-presidente. J. 806. secretário geral da associação. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques.O. Jean-Claude ROUCHY. Ecrits (por exemplo. por exemplo o artigo de J. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. Paris: Dunod. 1972.S. 1969. presidido por Jean STOETZEL e. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. In: ARDOINO et al. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. n. 5 Compagnie Générale d’Organisation. 11 Cf. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. contra. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. 9 Cf. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). evidentemente. 1303. 10 Cf. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. 13 Les Mots. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. L’intervention institutionnelle. 1331. sobre esse último ponto. 1304. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”.O. e de A. Psychosociologies. Gallimard. 50-68. jan. Connexions. 1967.T. “Dire la loi. André. Le psychosociologue dans la cité. 29 de Connexions. 1978. 4 Cf. 857. André. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie.. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. LÉVY. 1980. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. a partida de Max PAGES.). no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. ou mesmo depois de terminar. 1332 etc. 3.) e dos de Cl. p. desde sua criação. de PERETTI. sobre. Continuando. 1980.. responder a essa questão. de 1955). 17. 825. Paris: Payot.F.G. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. com universitários como Georges FRIEDMANN. “Une intervention psychosociologique”.-C. 7 Max PAGÈS. 12 Cf. Droz. ROUCHY em Connexions. 2.. mais recentemente.

há muito tempo. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. porém. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. através das contradições de suas condutas profissionais. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. quando é apenas verbal. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. Parafraseando HEGEL. Esclarecer sua posição em relação às situações. além disso. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. 185 . mostrar seu itinerário3 sinuoso e. Tal afirmação. entretanto. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. No que me diz respeito. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. mesmo que artificial. Porém. tem qualquer coisa de suspeita. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. sobredeterminado por uma profunda lógica. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. Porém. permitindo esclarecimentos progressivos. esses ainda são muito relativos. à crença em sua positividade fundamental e. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. bem ou mal resolvidos.

no mínimo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. ou mesmo a um nihilismo. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. Ela repousa. Durante muito tempo e. As práticas de intervenção. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. ao contrário. diferentemente lúcida. na França. As tomadas de consciência. junto aos grupos envolvidos.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. em relações diretas. sem dúvida. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. leva-me. Toda a minha experiência. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . ainda hoje. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. científica. diretamente. ela é. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. ela desconhece 186 . diferentemente das ações de formação e de pesquisa. longe de chegar a um ceticismo. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. face a face. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. instituindo.6 por esse rótulo. fundamentalmente. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. com freqüência. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. reciprocamente. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. cada vez mais claramente. mais lúcida ou. a reconhecer. dizem respeito. desapaixonada. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo.

35 ou 40 anos depois de LEWIN. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. de uma forma histórica. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. é apenas um simples instrumento ideológico. que. de um lado. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. melhor coordenação administrativa. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. Tal metodologia induz. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. considerado como um diagnóstico e. 187 .8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. por sua vez. com efeito. então. uma única vez. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. quase narrativa. em determinado momento. data de 1972. caso contrário. os problemas atuais da empresa. que adotava aproximadamente esse modelo. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. de quem dependia bastante. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. Porém. seu amigo. sobretudo. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. De toda forma é surpreendente que. de outro lado. A reunião desses diferentes objetos na análise. esclarecimento das funções. mas. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. com vistas a decisões e ações. isto é. cuidando. de forma alguma.7 A última intervenção da qual participei. supõe. implicitamente. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. visto como ligado demais ao responsável comercial. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva.

expondo cada um com a mesma objetividade. A perda da esperança acarretou. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. porém situados no mesmo plano. à medida que cada discurso. a coexistência desses diferentes discursos. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. inevitavelmente. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. e sobretudo. e. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. sem dificuldade. particularmente por meio de nosso relatório oral. de um a outro. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. para apreender a “realidade”. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. mas potencialmente articuláveis entre si. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. sobretudo. então. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. Em outras palavras. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. ideológico-afetiva. organizacional). complementares.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). traduzia também. reconstituído graças a nossos cuidados. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. em outras palavras. e de passar assim. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. no limite. um de cada vez. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). A pesquisa havia fortificado essa esperança. como se esperava de nós.

em seguida. Essa crença conduz. Mas se aceitamos. associa-se necessariamente à busca de um sentido. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. Essa experiência possibilitou-nos. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. constrangidos. reduzidas a enunciados fechados. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. então. Longe de favorecer um processo de análise. escutada ou recusada.Intervenção como processo (subjetiva demais. sabemos. assim. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. em contrapartida. qualquer que seja a maneira como é conduzida. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. no mínimo. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. o levantamento de dados. excessiva demais) e conservar. articulá-las. não aceitamos seus pressupostos. de uma explicação geral. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. perceber o quanto a prática da pesquisa. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. é a função das representações. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. isto é. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. desejaríamos. a pesquisa contribui. desconectados das condutas e estratégias. para o recalque: primeiramente. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. em discursos que as pessoas expressam. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. legitimamente. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o “real”. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. que não se reconhecem como um discurso. ações ou decisões (saber para). embora imperfeitamente. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. 189 . ao contrário. assim. a partir de diversos “pontos de vista”.

Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. Porém. independentemente das maneiras como se atualizam. pode ocorrer. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. essa só pode. ser feita em uma experiência de comunicação. mas. A não ser que se idealize o processo de análise social. Os grupos face a face aparecem. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. instituídos. no sentido pleno do termo. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. reciprocamente. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. então. Só é possível. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. na qual uma resposta instantânea. sob forma falada ou atuada. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. sua posição de exterioridade é apenas relativa. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. na qual o imediatismo do risco é sensível.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. se há um resultado do qual estou seguro. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. com efeito. então. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. 190 . só pode ter um resultado: o recalque da palavra. na enunciação. se articulam e se transformam. moral ou corpórea. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles.

uma vez que. corpo a corpo. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. em função de uma “demanda”. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. o respeito à regra de abstinência. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. 191 . O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. por parte do analista. pressões. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. estratégias. por exemplo). Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. mas relações de transferência. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. Nas situações de intervenção. com a participação do analista-interventor. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. essas relações implicariam particularmente. do não agir. ele se insere no mesmo sistema de alianças. grupo do outro. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. desde o início. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. no sentido preciso desse termo. no próprio ato que o institui como analista. isso é apenas uma petição de princípios. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. isolados de toda historicidade. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. das quais necessariamente é parte. material ou simbólica.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade.

feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. seu objeto. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). assim. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. ele elimina. quanto para as relações internas. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. por antecipação. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. fragmentada. de termos como o “grupo” ou a “demanda”).12 e a legitimar sua interpretação. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. do “aparelho psíquico grupal”. por meio de regras explícitas e implícitas. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. traduzia o desejo de tirar 192 . ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. tendo que tomar decisões e executá-las. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. então. não unificada. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. fora da situação de análise. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. O interventor pode. por exemplo. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. Um dos objetos de análise pode ser. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. um serviço).13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. no mesmo ato. isto é. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio.

a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. observações. de uma terapêutica localizada. como o fazem certos psicanalistas.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. as resistências internas na organização tendem. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. ele entra em conluio com as resistências. essa modalidade se constituía. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. Não se pode escapar disso dizendo. Nessa perspectiva. do trabalho de análise. Certamente. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. com efeito. assim. a presença. pesquisaação etc. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. o que vale não só para a análise. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. o abandono de tabus. Um dos resultados. institui tal quadro. quando o interventor. mas também para o gozo sexual ou estético. e o grupo de suas restrições externas. especialmente do médico-chefe. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. a desmistificação de certas crenças. à medida em que o trabalho progride. por exemplo. numa colocação em ato do desejo. É por isso que. a composição do grupo pode evoluir.). que continuaria submetido às regras administrativas. como. merece ao menos uma explicação. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. Se isso é em parte verdadeiro. que a emergência dos conflitos latentes. paradoxal. a não ser provisoriamente. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos.

de acordo com eixos orientados. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. centrada no sistema de regras etc. ao risco. do pior ao melhor. isto é. irredutíveis. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. mas uma subtração. um novo pleno. na vida de um sujeito ou de uma comunidade.. Com efeito. Não é uma soma. uma questão onde havia uma afirmação. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. ou como o reconhecimento de clivagens internas. ao desconhecido. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. antes de tudo. o acesso a uma história. as peças começam a circular. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. então. conseqüentemente. no mínimo.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. Com efeito. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. do menos ao mais. O novo que aparece não é. uma certeza a menos. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . centrada nos problemas de produção racional. a da organização científica do trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. em face à eventualidade de uma ruptura. a da burocracia.. inclusive nas pessoas. um acontecimento marcado pelo advento. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. à incerteza. uma certeza a mais. um possível onde havia certeza. a mudança representa para nós. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. um jogo mais livre se torna possível. Em um texto anterior. com noções e representações úteis à ação. toda teoria organizacional é relativa.

que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. as ações e as divisões. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). então. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. permanecem divididos os discursos de representação. desde 195 . somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. ordenado. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). enfrentar e ocultar as contradições que vive. para os outros e para si próprios. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. são discursos destinados a legitimar. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. então. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. a análise não alcança objetivamente um real suposto. Entretanto. também ela. o processo de análise não pode. Assim. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. mas em apreendêlas como discursos incompletos. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. Nesse sentido. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. Nessa perspectiva. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. Pareceu-nos. o que dá no mesmo. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. tenta explicar. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. com a finalidade de construir referências. com efeito. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. hierarquizado. tendo sua própria pertinência. temporais. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais.

apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. era o sentimento de que não poderia. aceitei. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. que deveria ser. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. isso não apenas não os inquietou mas. como condição para aceitarem sua missão. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. Embora eu tivesse trabalhado no passado. pareceu-me simpática. aliás muito rapidamente. em sua maior parte. talvez tivesse mesmo o inverso. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Igualmente. por sua vez. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. ao contrário. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. ela pretendia ser. A razão de minha determinação. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. citarei o caso de uma intervenção muito breve. tanto quanto pude analisála. Buscavam essencialmente um “técnico”. reificaria significados. com interesse e prazer. mas a demanda. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. 196 . centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. endereçada agora a mim. Esclarecemos. com pessoas pertencentes a esses meios. por diversas vezes. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. Depois de uma breve hesitação. como ocorrera na assembléia anterior. Para ilustrar o que precede. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. em especial. destinadas a serem engavetadas. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão.

cuja forma seria definida? 197 . na história da Comunidade. e enfim. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. em relação à Comissão e. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. que não podia ser perdido. o lugar deles. depois dos debates. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. Como já mostrei. Tratava-se então de um momento que.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. Como cheguei lá. era considerado por muitos (ou. uma Assembléia Geral extraordinária. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. à noite. pela Comissão) como um ponto de transição. de outro lado. em seguida. pelo menos. dois encontros no local da Assembléia Geral. de um lado. de fato. diversas sessões haviam sido previstas. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. Para isso. atendendo expressamente à sua demanda. vencimento dos prazos para decisões importantes). A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. Ela havia sido decidida no ano precedente.

O fato de que eu estava lá como um profissional. então. esquivando-se dos conflitos e divergências. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. sem implicação com o grupo. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. evitando toda aspereza. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis.R. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. como um estranho mas não como um intruso. ao mesmo tempo. talvez também meu próprio sobrenome judaico. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. com a ajuda deles. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. tomei conhecimento. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. Nessa ocasião. então. os textos definindo seu funcionamento. com amizade e com confiança. 198 . Espantei-me. Parecia-me. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles.P.I. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A.). pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. eu próprio me sentia um estranho. a fim de levantar suas opiniões. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. Eu era calorosamente acolhido. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. de sair de um estilo de relações muito corteses. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. as regras às quais se submetiam etc. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. as relações entre elas. tendo em vista a Assembléia Geral. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos.

sem deixar de observar.Intervenção como processo No nível do conteúdo.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. declarei-lhes: 1. O papel que tinham era não apenas técnico. ao contrário. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. 2. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. em nome de valores democráticos. Pareceu-me. entretanto. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. Eles aderiram. em última análise. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. periodicamente. pelas vontades expressas pela “base”. seu papel de porta-vozes puros. a meu ponto de vista. sem dúvida. que eles deveriam. observei. assim. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. então. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . com relativa facilidade. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. demonstrei que. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. mas representavam também. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. para a escolha dos temas que seriam então tratados. com bastante veemência.

tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. com o conhecimento e o acordo da Comunidade).Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. eventualmente. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. com alguma hesitação). Com efeito. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. Paradoxalmente. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). sem implicar posições táticas e políticas. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. No limite. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. ao contrário. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. seria necessariamente confundido com a Comissão. Caso eu participasse da Assembléia Geral. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto.

I. entre nós e os membros da Comissão. mas também de escolha de orientação política. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer.Intervenção como processo como observador. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. ficou claro que: a. formalmente. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. existente no real. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro.quanto a mim.. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. ligado à Comissão.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. sobretudo. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. judeu) tinham para eles. c. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido.R. não em trocas prévias. isto é.P. membro da A. através de minha inesperada implicação afetiva. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. durante um vazio de poder). sem direito à palavra. até a eleição do próximo Conselho.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. Assim. Deveria representar um tempo de análise coletiva. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. Certamente.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. mas no calor da discussão. b. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. a partir dessas diferenças em status 201 . durante o primeiro dia de trabalho. uns em relação aos outros. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. nossa posição profissional e inserção institucional.

suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. Na sua maior parte. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. assim. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. destinados a serem comunicados à Comunidade. como membros dessas comunidades regionais. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. Nesse sentido. entre outros escalões – e. relatórios de reuniões.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. às instituições ou às atividades). Tudo isso. Foi preciso. 202 . a partir desse primeiro dia. era “relativa”. em conseqüência. a partir desses documentos. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. o desenvolvimento de um certo trabalho. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. como terceiro. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. entre a Comissão e o Conselho. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. e sobre o que pôde ser produzido. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. entretanto. não se produz. por sua vez. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. da importância atribuída às pessoas. nossa alteridade. Esse efeito de sentido. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. particularmente. lutar para tornar o trabalho mais lento. por exemplo. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). entre as comunidades regionais.

era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. o que significava não considerá-los? O que se elaborava.. 203 . assim. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos.. seja a coabitação em um mesmo lugar. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). segundo os quais as definições da Comunidade. ou mesmo. da segurança. carregadas de subentendidos (por exemplo. da idade. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. No curso desse processo. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica.Intervenção como processo considerando questões particulares. aparentemente menores. na Assembléia Geral. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. refletindo situações particulares diferentes. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.). em seguida. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis.. em contrapartida. sobre palavras fetiches.”). a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. as questões a serem submetidas a voto etc. por meio desse trabalho preparatório e. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. ou ainda. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo.. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. seja o conjunto de atividades –. a definição da pauta dos diferentes dias. algumas vezes.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. sem dar muita importância.

justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. ao contrário. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. permitindo-lhe aumentar sua força. Nessa perspectiva. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. fazer uma sondagem. de outro. de um lado. de comum acordo. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. melhorar seu funcionamento. isto é. a-organizacional? Bem entendido. ela constitui uma terapêutica dessa última. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . criar uma situação nova. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. de um lado. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. facilitando a escolha de futuras estratégias. reflexivo e crítico. quando aplicado a um processo de intervenção. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. de outro. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. Para concluir. o “serviço concreto do Homem”). a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim.

podemos acentuar o fato de que a ação supõe. uma afirmação da identidade desses dois processos. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. ela implica. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. Em um trabalho anterior. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). Ora. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. ao contrário. como alguns às vezes pretenderam. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. longe de terem um valor geral ou intransitivo. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. antes. uma colocada a serviço da outra. Com efeito. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. uma dose de desconhecimento. melhor se fica”. conseqüentemente. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. necessariamente. a ação de outro. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. 205 . leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. senão de cegueira. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. Assim. “quanto mais houver saber. tivemos a oportunidade de demonstrar. isto é. em uma modificação das relações de poder. essas afirmações estão longe de serem verificadas. com precisão. ela também não é. mais a ação é eficaz e pertinente”.

sobre seu passado. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. um sistema de ação. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. ao mesmo tempo. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. em um processo de escrita. entre o que pode ou não ser escutado. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. 206 . O saber. Assim. é a parte que permite trocas e manipulações. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. uma escola). com o mundo. como experiência. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. a mais simbolizável. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. em uma organização ou em uma sociedade. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. implica todo um trabalho sobre si. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. tratando dos processos de pesquisa. por exemplo. os transforma.19 Por isso. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. Com efeito. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. mas como um processo. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo.

que não exclui nem dúvida nem incerteza. Esse golpe de força. espiritual ou mesmo afetiva. mas. é precisamente a impossibilidade. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. o desejo de tudo controlar. de outro. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. que pretenderia circundar o sentido. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. De alguma forma. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). Se a existência de regras e proibições funda uma organização. de uma racionalidade criadora. de toda construção material. visam a introduzir. 207 . de limitar. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. para essas representações – esses discursos de representações –. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. para perdurar. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. é a condição de toda vida social. essa. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente.Intervenção como processo Tal concepção de organização. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. por exemplo. O processo organizacional funda-se. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. no nível do pensamento. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. dito de outra forma. clivagens e limites. especialmente do desejo de onipotência. de um lado. contabilizável ou informática. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. assim. Daí o hiato persistente entre. ao contrário. o desejo de tudo compreender e. ao mesmo tempo. em uma negação do inconsciente. já foi evocada anteriormente. de realizarem sua meta de dar sentido. que. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. As regras dividem e separam. de separar. a necessidade de dividir.

já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. 2 208 . de ignorar as implicações dessa inversão. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. Connexions. Jean e LÉVY. fazendo isso. até então bloqueada ou proibida. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. 29. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. Porém. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. sobretudo. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. Respondendo a uma demanda de palavra. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. 1980. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. ao menos. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. 69-100. p. por Marília Novais da Mata Machado. ela se choca assim. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. é importante. André. Dessa forma. In: ARDOINO et al. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. quanto da análise que a torna possível. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. ou. assim. então. I/1980. L’Analyse social. L’intervention institutionnelle. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. uma palavra continua. Paris: Payot. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. mantendo vivo o passado. em seu primeiro esforço. a se desenvolver. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver.

ENRIQUEZ. la Mort. Seuil. Connexions. S. Em termos mais sofisticados. Cf.”. 21. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. L’intervention institutionnelle. KAES. inédita. “L’interprétation de discours”. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. FAVRET-SAADA.. Traduzido de: DUBOST. de P. Segundo o Petit Robert. les Sorts de J. Nesse exemplo. “L’Analyse social”. “Dire la loi. 196l. Mal-estar na civilização. Como toda análise de conteúdo. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. Thèse d’Etat. Gallimard. postula dois aparelhos psíquicos distintos. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. 21. Paris: Payot. em Topique. Paris: Seuil. Sociologie du Travail. Cf.. um individual e outro grupal. LEGENDRE. Connexions. 1978. Les Mots. Connexions. cf. também “Le pouvoir et la mort”. “Sens et crise du sens dans les organisations”. I/1980. FREUD. trabalhando com a própria contratransferência. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. de E. 49-68. Connexions. Esse conceito. LÉVY. introduzido por R. 29. L’amour du censeur. pp. Cf.3 4 5 Inspirado em G. CROZIER. Jean e LÉVY.. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. “L’acteur et le système”. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”.”. Por exemplo: Max PAGES.. 1980. “Le changement comme travail”. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. cit. op. LAPASSADE. Connexions. In: ARDOINO et al. “Dire la loi. 7. André.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

ou. nesse breve artigo. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. sem dúvida. uma dúvida me invade. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar.E também o que é o próprio sentido desse movimento. ainda. isto é. 2. possibilidade e multiplicidade das comunicações. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. Dizendo o mesmo com outras palavras. Esse número de revista testemunha bem o fato. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. Por isso. há casas para ela). como a maior parte das indagações a respeito da formação. e. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. de toda atividade de formação. e mais violentamente. mais precisamente. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. de forma concisa e injusta (mas. o procedimento de exclusão do real e.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. Entretanto. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 .O que ocorre de essencial no ato formador. as práticas de formação. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado.

a todo momento. de investimento pensado. de reciclagem e. o progresso dos conhecimentos. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. Certamente. Orienta-se (e não apenas na China. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. a fim de poder seguir as mudanças e. Assim. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. mas também têm. de paciência. para um sistema onde. um efeito positivo para o formado. toda aprendizagem de técnicas teria. resistências. para desejá-las e provocá-las. de outro. situando a prática que buscamos promover. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. de tempo. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. O problema é unicamente operatório. 3. então. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. 2. a formação permanente torna-se indispensável. Toda formação. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. 212 . então. de um lado. advindo a necessidade. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. sua vontade e sua imaginação. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. cada um à sua maneira. ainda mais. Trata-se.a dos formadores e educadores.a dos sociólogos críticos. todo crescimento no domínio das informações.a dos psicólogos. temores do formado e condicionamentos sociais. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos.

ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. o do louco. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. sem paixão. na transformação e ele é. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. da medida. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. além de anularem toda diferença e toda dispersão. os blocos erráticos. cartesiano. o real é o que escapa a toda definição. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta.3 referindo-se ao racional e ao controle. o do outro. mestre das leis e da morte. inesgotável. O comportamento adulto é o comportamento refletido. que as causas determinantes não existem. é o que excede toda análise. O real não está lá. as brechas repentinas. portanto. que o homem está sempre por nascer. que as reconstituições são parciais. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. sem sonho nem loucura”. Ora. ao umbigo dos sonhos.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. o do primitivo e. ele se revela na ação. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. que a libido é turbulenta. do cálculo. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. sempre a serem melhoradas. que se torna assim excluído). hoje. estritamente falando. obtido apenas 213 . da mesma forma. através da ordem. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. além de toda interpretação.

as provas de sua impossibilidade. Ora. de hábito. falando dos signos da 214 . seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a humanidade estará. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. se for atravessado pela ideologia do senhor.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. não se trata aqui de uma simples metáfora. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. E nunca esse programa foi mantido. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. do que tranqüiliza. a energia que se desprende. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. cuja única saída é o aniquilamento mútuo.5 Certamente. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. então. como diziam os alquimistas. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. a angústia de se perder no turbilhão de questões.4 isto é. o seu contrário. do questionamento do saber obtido.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. a alegria da certeza e. desenvolvendo-se progressivamente. Temos de um lado o conhecimento. imagens protetoras. o confronto com a finitude. a cada dia. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. como uma água calma. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. Como viver o desejo do pleno. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. por isso. temos a bola de fogo. as variações de temperatura. Quando houver apenas Eus fortes. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. ao mesmo tempo. De outro lado. a opacidade. pois ele não pode sê-lo. 2. Aliás.

2. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. Os tecnocratas. os psiquiatras aliados do poder. a despeito de suas diferenças. Então.Quanto ao segundo princípio. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui.. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo.. Conclusão: o que permanece são as certezas. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. Igualmente. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. mas uma relação angustiada com o saber.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho.6 Ora. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo.

é que a pessoa. o cachorro ou com o estrangeiro que. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. no momento. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. então. Horizonte grande e enaltecedor. liberação corporal e sexual. algumas vezes. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. esses mesmos estágios. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). aliás. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. em um congresso de chefes de empresa. Um importante dirigente internacional não dizia. mas porque apresenta. o homem. além do mais. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. alienada na sociedade contemporânea. no qual se inscreve toda 216 . mas de peso. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. ao qual muitos poderiam se subscrever. há alguns anos. ter um outro modo de relação com os outros. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. assim como as experiências de bio-energética. grupos de encontro. que relações de poder ele pressupõe. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. É talvez por essa razão que. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. é preciso.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. Acrescentemos que. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. gestalt-terapia. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. a mulher. tendo recebido um certo tipo de educação. com seu corpo e com seus desejos. não existe. impacto social menor (estamos. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva.

tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. que dá a cada parte de seu corpo. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. num momento de estado de graça. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. de uma luz na qual me banho. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. testados no mundo. Entretanto. em técnicas e em posturas. Como escreve S. LECLAIRE: Quando. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. que instituições me sustentam. Então. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. alguma coisa explode em mim. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. a quem falo. Em contrapartida. por que falo dessa maneira. não temos nada a dizer. justamente. à sua voz. Trata-se unicamente de relações faladas e. que podem ser atuados. a seu cheiro. Não se aprende o amor. então. por quem e por que sou falado. mesmo nesse último caso. como tais. durante um tempo determinado. feito de uma explosão que me fascina. que desejos elas retomam ou reprimem?. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. Mas. que sofre e que ama. Sua beleza desencadeia esse prodígio. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . renasço. eles não se explicam.8 Pode-se apenas descrever tal estado. complementares ou antagônicos. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista.

analisando com toda a sua força. para que entrem em uma relação de transferência. fazer triunfarem suas fantasias. seu “saber-fazer”. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. super-ativo. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). tomar o grupo em seus desejos. certificando-se de que nada lhe escapa. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). o tempo ao momento. embora plenas. as transferências maciças. não pode ser feito. mostrando assim sua potência. questionará as instituições. esse irromper não ocorrerá. estará pronto a largar mulher e filhos. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. assim. pois as palavras trocadas. irromperá um lapso. os choros e os gritos de alegria. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. Ei-lo. vai querer se fazer amar por todos. os mais narcíseos) podem. pelo menos. Outro deixará se levar por suas emoções. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. favorecendo os processos regressivos. no medo e tremor. as fantasias invasoras. como os weekends e as maratonas. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. ao mesmo tempo. um ato-falho. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. as proibições. as manifestações sem seqüências. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. a não ser que queiram ou possam. na maior parte do tempo. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. os tabus. definido como um lugar no qual se deve comunicar. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. Ficará apenas a lembrança de um momento único. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. E talvez. Uma vez de volta às suas instituições. não porá nada em movimento. onde tudo era diferente. Mas. de tempos em tempos. do aumento do grau de irrealidade da situação. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). não se entregam. o fazer ao dizer. e ele é um bom juiz.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. chorará (o próprio ROGERS. ou. então. única fonte de mudança. esses discursos. O lento trabalho do negativo. a fim de viverem sentimentos intensos. declarará sua paixão por uma estagiária. seu rigor. arriscam tudo e nada arriscam. Eles. Mas o psicólogo está lá para as acossar. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. tomar o lugar do líder. essa explosão. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . para fazê-las sair de suas tocas.

é esse turbilhão do amor e da morte. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. em muitos aspectos. PONTALIS. mas científico. FOUCAULT). aquele que dita a norma (M. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). é a capacidade inventiva dos participantes. exato e periférico (não tocando no essencial). a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. Além disso. o que é essencial é o que se passa no campo formador. assim. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. A mensagem dada. em sua aridez. divulgá-la nas massas dominadas e. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. ele é chocante e desesperante. é essa troca de palavra. Sem dúvida. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. então? Vemos que o que é dito é. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. na formação. Mas. O único senão é que. DELEUZE e GUATTARI). Toda formação (qualquer que seja seu programa. Afinal. ou atento e vivido como o dos psicólogos. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Quanto a seu conteúdo. é o veículo privilegiado da dominação social. seus métodos. simultaneamente. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos.-B.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. Igualmente. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. como muito bem o diz J. para expressá-las ou mesmo provocá-las.

ela não chega a ser totalmente dominante. depois de tê-los escutado. nas Questões propostas. de um trabalho de mudança. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. se ela o fosse. tenha sido possível ler. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. 220 . de constatação aguda e de desmobilização geral. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. mesmo se. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. o que não se pode esperar dela. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). ao mesmo tempo. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. justamente. Seus enunciados são tão gerais. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. em filigrana. tão sistemáticos. que só nos resta. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. homogêneo. os movimentos sociais emergentes. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. isto é. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. não de uma formação (a rigor. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. isto é.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. o que ela esconde em seu próprio movimento. a transformação das relações sociais. em uma palavra. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. de um processo. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. explicável por um único tipo de lei. a vida. profissionalmente e socialmente se mexam.

através dessa ausência. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). seus entusiasmos. 221 . Quando ele intervém. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. resvalando. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. ele oferece não um saber. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. assim. as correntes de informação. a criação de negentropia (isto é. na situação. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. suas falhas. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. provocando a vontade de respirar. ele deveria se calar?). uma movimentação de energias. dessa desordem-ordem. desse lugar desocupado e fugidio. em suas diferentes dimensões: culturais. aliás. mas sua relação com o saber. suas interrogações e também suas paixões. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. Ausente.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. um encadeamento de Questões. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. organizacionais. mas uma problemática. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. Por meio dessa ausência-presença. indicando. mas. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. suas idas e vindas. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. fazem surgir formas da sombra. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. por isso mesmo. Ele está lá simplesmente como uma referência. um jogo de luz sobre certos pontos que. ele não é o portador do sucesso da experiência. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). Ele está lá vivendo. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. suas descobertas e suas resistências. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. políticas.

222 . a resistência se deslocou. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência).). além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. com relação a esse personagem. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. as diferenças são apagadas. não há muito tempo. No caso contrário. uma atitude de deferência e de sedução. de seus corpos e. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. projetos sociais. vivem em organizações específicas. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. praticamente nunca era contradito e. entre cem. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. tal funcionamento é profundamente mistificador. tomando certos caminhos e não outros. Um outro participante manifestava. Como interpretar tal situação. Por isso o trabalho do grupo será centrado.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. Ora. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. de suas relações afetivas. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. Não são pessoas ou seres desencarnados. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. um dos membros do grupo era particularmente escutado. para não falar de sua situação econômica. a relação com o saber é suspensa no vazio. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. o resto do grupo o seguiu em bloco. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. tendo um passado. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. formadores etc. hoje. Um exemplo. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. os conflitos não têm mais espessura social.

a imersão na vida aqui e agora. Em cada sessão. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. confrontadas. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. o foco em relações afetivas imediatas. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. de breve duração. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. mas como portadores de suas angústias. realizaram. imaginário instituinte. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. É por isso que somos partidários de estágios longos. outras palavras sociais. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. é aberto sobre o mundo exterior ou. outros atos sociais. conduta e gesto. aprofundadas. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. A partir do momento em que o desejo circula. imaginam soluções. Não estão lá como pura presença. ação real e ideologia. fecundarão novas atitudes. menos tal processo pode ocorrer. de seus sucessos. lugar de análise. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. experimentaram. não há mais dicotomia entre ato e palavra. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. um ou dois anos). de suas tentativas. a 223 . sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. retomadas. mais exatamente. fazem propostas. intensivo. O lugar fechado. os participantes falam do que fizeram. construíram ou destruíram em seu meio real.

discursos ideológicos desenfreados. talvez. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. mesmo se ela pode se tornar criativa. períodos de análise refletida. do excesso. Momentos de mutismo e de temor. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio.. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. então. Não nos enganemos entretanto. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. ter efeitos. impossibilidades totais.. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. do gozo). possa. do fogo e mesmo do caos. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. a periodicidade desses momentos. se interrogue sobre si mesmo. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. expressão gráfica etc. todos juntos.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. a loucura e o sonho possam ter. reencontra muitos obstáculos ou. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. depois de terem liquidado 224 . a precluir certos registros (da paixão. direito de atuarem.. ter caminhos balizados. ao contrário. ser protegidos. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. uma angústia diante do desconhecido. naturalmente. de necessidade de alimento. algumas vezes. falar. em questão visar à dissolução pela dissolução. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. Aqui. irrupções vulcânicas. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. mais dinâmicos. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. nesse processo que. com o outro. Trata-se. por enquanto. momentos de embotamento. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. com o saber) são descentradas. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. viva paixões. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. Essa experiência da heterogeneidade. Resistência vinda de indivíduos em formação. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. que o amor inexiste sem a experiência da morte. a fim de que a energia livre. Não está. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. do saber alegre. de novo.

sobretudo. mesmo se os participantes podem. tentar experimentar novas condutas. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. naturalmente. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. se transformará em um simples prestador de serviços. senão a violência simbólica da organização. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. então. a utopia e a inquietante finitude. deliberadamente. mas a confusão. eles reencontram a inércia das estruturas. para nós. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. que deveria transformar o que está no centro. E que. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. entre as sessões. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. o espanto e o desprezo de seus colegas. seu modo de existência. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. Enfim. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. quando retornam às suas organizações. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. a dificuldade intransponível. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. o que ela busca induzir. é necessário que ele seja evocado. Intervenção psicossociológica. seu possível devir Não está em questão aqui. o que ela não poderá jamais realizar. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. Naturalmente. da intervenção. de trabalhar 225 . provocar mudanças.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. as numerosas escolas. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. Trata-se. Na intervenção. Essa experiência da margem. avançando uma série de proposições.

um certo modo de linguagem e de relações com os outros. de definições de tarefas etc. uma certa fissura no organograma da organização. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. Essa recusa. impede de ver e de sentir outra coisa. A intervenção. existissem como executantes da máquina. como submissos. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). A palavra reprimida. de melhoria de condições de trabalho. no processo de trabalho. na hierarquia interna. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. desordem nas salas. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. além do mais. O que está presente não é. uma situação irreal. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. isto é. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. durante muito tempo.) e que desejam resolvê-los. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. antes de tudo. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. numa primeira análise. Não por razões morais. que têm problemas concretos (de decisões. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. ao contrário. toda a violência do cotidiano que. então. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). mas. como na formação. para se expressar. recusa a alguns o próprio direito de falar. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . mas. desperdício. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. mais exatamente. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização).Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. assim. consciente ou inconsciente. absenteísmo.

É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. a aceitar sua parte de loucura. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). entre si e o outro. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito.D. progressivamente. O que resulta. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. pensamento-execução. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito.F. pelas relações codificadas. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. Não se trata de sonhar por sonhar. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Numa pesquisa efetuada pela C. que faz surgir um real além do real percebido. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. para que possa interrogar o oculto. ou que possa pensar de fora da fábrica. Colocá-la em causa seria um salto mental. “ruídos”. transformador do mundo. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. pai-filho ou ele-outros. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico.T. relações de poder e separações instituídas. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. Mas. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. então. para que o olhar se desloque. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 .Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. a deixar seus desejos serem expressos.

a própria idéia 228 . dessa maneira. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. subvertidos ou. então. transformada e garantida por cada um. onde a lei. interrogados. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. Aliás. com seus argumentos e suas demonstrações.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. ele exclui e. sua cronologia e suas articulações. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. pode sair a surpresa. ou. isto é. metafórico. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. analógico. dessa ruidosa confusão. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. é lei retomada. além das crianças. à sua maneira. que o surgimento do imaginário. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. decepção. sem análise. O que significa. cada um se tornando. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. é o que permite a troca e a reciprocidade. mas em uma maior fluidez. os psiquiatras. Assim. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. ao se deslocarem. outras formas de relação e outros modos de estruturação. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. é necessário que os modos de pensamento. fazem da criança também um educador. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. As posições. pessoal de cozinha e de limpeza. numa análise em ato da organização. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. a médio prazo. Ele distingue. no mínimo. promete apenas. uma nova forma de educação. ele classifica. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. numa decodificação das relações. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. imaginativo. igualmente. os educadores chefes e especialistas. os psicólogos. o inesperado. ator e analista social.

por sua vez.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. um elemento de mascaramento do sistema social. Naturalmente. como ele próprio o diz. submetem-se ao princípio do prazer. a verdadeira 229 . MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. inversamente. Quando. isto é. divertida. então. mas também da linguagem utilizada. do bom estilo. de intimidade. colorida. a invenção popular. Mas aí também sabemos que. sob certos aspectos. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. as “estórias de comadres”. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. já não indica que as relações de cumplicidade. As pessoas se submetem. falarão. da criatividade diária dos grupos sociais. da ortografia necessária. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. é como o dinheiro. o homo demens no homo sapiens. atrás da imagem de falar bem. da Psicanálise uma arte de construção. de fazer. dissimula. para ser expressa ou reencontrada. A língua. isto é. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. Ora. à língua (a parte social da linguagem) dominante. na França. a língua. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. o roubo da língua espontânea. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. isto é. pelo contrário.11 Queremos dizer que a verdade. na realidade. Buscamos. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. Assim. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. Mas. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. pede que cada um pense e viva na contracorrente. antes. Essa perspectiva não o impedirá. Não se trata apenas do modo de pensamento. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. nas organizações.

inventar um falar. fazê-la viver. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. experimentar o seu calor. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. É por isso que atacar a língua dominante. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. fazendo-os aprender a falar. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. do mundo adulto (e o atacam). a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. pode-se constatar que eles se protegem. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. Mas os tradutores traem. Se. mas de poder: da lei. mais exatamente. argumentada. antes de mais nada. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. a dos tecnocratas. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. se dá conta disso. a partir do Século XVII. pois o 230 . Veja-se bem a dificuldade. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. A mesma coisa ocorre hoje. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. para se protegerem dos outros atores sociais. mas o da dominação que ela instaura. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . dessa forma. Por isso. confusamente. para obrigá-los. quando se escutam as palavras que eles utilizam. Não apenas de autoridade. as frases que inventam. Há uma língua dominante. precisa e cifrada. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. reencontrar sua língua. Aliás. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. todo mundo. reencontrar a língua perdida. então. que são os que podem traduzir. em boa linguagem. de modalidade de comando. de seus mandamentos. Eis que chegou o tempo dos tradutores. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente.

mas sim questionamento infinito. chocase violentamente com as estruturas. as resistências. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. então. as comunicações interpessoais e intergrupais. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). a se informarem. membros do comitê de empresa. ele lhes permitiu. agradece-se ao interventor. nem renunciar a seu poder. o interventor ultrapassou o limite. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. os estilos de autoridade. quem quer que seja (dono de empresa. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . quando estão no campo de análise não apenas as relações. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. se uma demanda lhe foi feita.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. sendo. Assim. mas. assim. sendo inauguração de uma palavra nova. De qualquer maneira. interminável. então. com uma outra linguagem.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. a intervenção pára. justamente. os hábitos. mas também quando o poder está em jogo. dentro de certos limites. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. colocar-se em questão. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Então. A intervenção. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. Mas. Entretanto. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. quer que ele seja reforçado. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. então. sua vontade instituinte e. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. ao contrário.

é que. Ele não analisa sozinho. Porém. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. O que ele sabe bem. em contrapartida. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). Quanto ao valor e à importância desse movimento. energias começaram a circular. se ela se coloca. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. procedendo por deslocamentos e rodeios. não lhe cabe questionar os poderes. não os conduz em direção a nenhum resultado. que. mas favorece o desejo de mudança. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. Também não se pode dizer que ele fracassou. colocando-se como um shaman ou um mártir. que só poderá viver. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). através de ações. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. se houver uma germinação ao invés de um fechamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. dispersões a se operarem. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. seu trabalho só pode ser lento. 232 . eus a se abalarem. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. Não sabe pelos outros. Pois. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. os movimentos sociais. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. sendo alguém que incomoda. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. Ele não transforma as estruturas. é aos atores sociais reais.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. pólo de identificação ou bode expiatório. então. Ele não realiza nenhuma mudança. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. palavras a serem ditas. das funções elucidativas.

há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. mas que ele deve saber. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. desde o início. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações.A falta de formação dos interventores. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. traidor em potencial. então. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. 4. ao contrário.Em contraposição. Suspeito por todos. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. Entretanto. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. Anteriormente. mais sua ação será limitada a certos grupos. inclinar-se à rigidez ou. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Pode. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . 3. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. agricultores tendo interesses em comum.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. sua posição nada tem de confortável.

mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. Quem quer conhecer a dúvida. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. sobretudo. Um dia. ser retomado.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. que assim buscam empreender atos significativos.Enfim. em um soberbo isolamento psicótico. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. a demanda acaba. 2. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. efetuado por eus fortes. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. um maior controle consciente. em uma sociedade tecnocrática. 3. o que nos parece mais importante. do desejo da alienação etc. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. Aparentemente. 234 . Como escutar ainda uma palavra que cochicha. eles se preparam para uma vocação de mártir. não a desejam com freqüência para si mesmos. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. da mulher. então. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. por seus gestos. com outras relações. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. comunicações melhores e. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. eles desabarão. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. Isso é compreensível.

CASTORIADIS. Rio de Janeiro: Zahar. enunciadas. p. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. repentinamente. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. ENRIQUEZ. Topique. E. FOUCAULT. Le Seuil. 17. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. Cf. caracterizadas. M. do sonho e do gênio maligno. cf. MORIN. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. não caem nesse erro. no 3. refoulemente et répression dans les organizations”. por Marília Novais da Mata Machado. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. 137-159. Epi. o Eu tudo destrói. Cinco lições de Psicanálise. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . Le Seuil. DOMENACH: “Para não ser destruído. Em Lip. CASTORIADIS-AULAGNIER. Piera. E. FREUD. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. essa abertura profunda na superfície das continuidades. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Segundo J. 1976. “Points”. Seuil. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. TOURAINE. Points.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. descritas. recalcamento e repressão em organizações. “Imaginaire social. Serge. Na primeira meditação. C. LECLAIRE. On tue un enfant. A. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. 13. 1974. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo.” Le sauvage et l’ordinateur. Le Seuil. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Les mots et les choses. Connexions. L’institution imaginaire de la société. 1977). 1972 (Imaginário social. Pour la Sociologie. cujos signos. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Paz e Terra). La nature humaine. n.-M. 1975 (Mata-se uma criança. 1974). Le paradigme perdu. Gallimard. Connexions. Eugène.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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firmemente. 242 . também. hipóteses. a partir de um determinado momento. Assim. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. sua participação no trabalho. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. os atores envolvidos. além disso. parece importante aos solicitadores. os fatores geradores do problema. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. justamente. que pode ser feito fora de um universo técnico. não poder sê-lo. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. numa dada situação concreta.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. justamente. regras. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. abordando concomitantemente o sistema. mas pode. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). Caso um apelo seja feito a mim. meus conhecimentos e habilitações. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. Ao mesmo tempo. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. pode. a examinar princípios. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. isso se dá. algumas vezes. mas. Ao mesmo tempo. mas tomo iniciativas e faço propostas. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. em excesso. perspectivas. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. porém. dimensões ideológicas. sobre a maneira como se afastou do previsto. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. de preferência.

Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. então. É nessa perspectiva que é preciso. suas orientações teóricas. os fenômenos de moda. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. ecologia etc. tal vantagem deve ser abandonada. por exemplo. a natureza dos objetos.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). tamanho. para tratá-lo. tolerância à diferenciação. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. um objeto de trabalho. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. as propriedades do sistema (grau de centralização. não apenas objeto de trabalho para os participantes. os custos etc. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. O modo de estruturação do processo pode se tornar. as funções externas almejadas pelos atores.). Cada uma comporta pressupostos. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. tentar. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. então. tolerando apenas uma gama restrita de variações. na determinação das técnicas. 243 . os recursos da equipe de consultores escolhidos. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. em si mesmo. a seguir. no final desse artigo. Evocaremos. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. então. rapidamente. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. Porém. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. formas de autoridade. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. Poderíamos. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. constituindo. em função do campo no qual elas aparecem. princípios estratégicos. tornar mais inteligível.

de devolução aos participantes e de interação dos atores. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. algumas vezes. Algumas vezes. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. de maneira bem menos acentuada. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. 244 . Entretanto. a observação participante. Entre esses dois pólos. por exemplo. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. GODIN. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. COCH e FRENCH). permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. Quanto às estratégias de pesquisa. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. bem cedo. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. estão as técnicas de pesquisa de campo que. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. parece-me. B. na maneira como J. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. a propensão dos práticos de intervenção. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. a partir da prática psicanalítica. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. depois de LEWIN. isso se passa sobretudo porque. nas de TOURAINE. uma origem técnica importante. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. em algumas práticas. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. Em seguida. em especial. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e.

ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. Em um campo bem diferente. produzindo dados válidos. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. freqüentemente. a obra de G. em todos os casos. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). Em todos os casos. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. é dessa maneira que elas se estruturam. quem reterá as soluções etc. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. ainda hoje. a caracterizar melhor as situações. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. a atuação dos conflitos. a natureza das resistências. é comum. por exemplo. de fato. no papel de especialistas. Entretanto. o significado das condutas etc. quem conduzirá esse trabalho. pela encomenda de um estudo “Retrato”. Igualmente. como em outros lugares. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. que. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. a identificar os problemas. a isolar os objetivos. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. nas próprias operações das fases de estudo). há muito tempo. quem escolherá as opções. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. na França. Pode-se observar que.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. a origem das disfunções. no começo. atualmente. os limites desse modo 245 . as razões dos bloqueios. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. a escolher as variáveis de ação.

em especial. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. restaurando a coesão. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. então. caso se decida reiniciá-lo. constróem.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. por exemplo. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. de fato. o inventário. enterrá-lo. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. apresentaremos rapidamente três observações: . os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. desenvolve muito claramente esse aspecto. do exterior. são interrompidas. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. depressão etc. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). a não ser esquecê-lo. O texto de André LÉVY. de caráter mágico. escolhe-se. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. já citado. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. . 1980). denegação. com a apresentação dos resultados. cólera. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. conseguindo uma solução de síntese ou. Não se sabe mais o que fazer. Se muitas intervenções. . freqüentemente com espanto. um retrato eventualmente objetivo e fiel. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. sobretudo. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. ao menos. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . o trabalho de recenseamento.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa.

parece-me. . o que provoca aumento dos temas de estudo. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa.fracionar a investigação (por tema. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas.preferir. o debate. então. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. por categoria de ator etc. em outras palavras. a perlaboração. como o próprio relatório. e apesar das reservas expressas. pertinência. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. mas repensar essa lógica (por exemplo. sobretudo. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. eles me parecem. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. De meu lado. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. os critérios de cientificidade: validade. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. correspondentes a atuações mais modestas.associar todos os parceiros envolvidos. a uma solução que exige uma equipe e. durante o trabalho de análise da demanda. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. chega-se. algumas vezes. 247 . às relações elaboradas e conceituadas demais. com o trabalho sobre os resultados. assim. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. adiamentos de realizações importantes. pode-se tentar: . quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. . as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração.

1972). em seguida. De uma maneira geral. a fim de que elas mudem”. assim. de aperfeiçoamento e. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. de uma perspectiva de formação. é necessário lembrar que. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. numa escala pequena. algumas vezes. JAQUES. TRIST. evoluiriam. na qual. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. as práticas de formação. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. Passar-se-ia. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. social analysis. a partir de 1964. porém. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. traduzido para o no 3 de Connexions. os grupos. na Glacier Metal Company. em um plano concreto. adquiririam novas propriedades. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. nessa segunda categoria de origens técnicas. de 1948. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. o artigo de E. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. Logo. apresentam-se como a aplicação simples. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. em diferentes lugares da sociedade).Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. com muita freqüência. a uma perspectiva de intervenção. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. sobre a possibilidade de contorná-los.

em pedagogia institucional. C. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. em pedagogia do projeto. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. ao contrário. das estruturas de organização. nos quais a ARIP interveio. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. as intervenções que se seguiram. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. ENRIQUEZ consideram. no 1 a 10. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. no plano organizacional. por exemplo. na França e em países estrangeiros. de se diversificarem em função da natureza das demandas. a importância da referência à Psicanálise. ao mesmo tempo. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. Payot). 1972). D. jogos de simulação. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . grupos de análise de prática profissional. conceberam diretamente. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. ROUCHY e E. o movimento de democracia industrial.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. A. utilização da autóptica. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. tecnicamente. inscrevendo-se. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. G. o que representaria. passando pelos estudos de caso. C. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. especialmente. J. ANZIEU transpôs. LÉVY e. no plano teórico. na empresa Geigy. consistia em transpor. a fortiori. Evidentemente. para o seio da cúpula. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. se quiséssemos ser menos esquemáticos. não pararam. em seguida. KAES). ao mesmo tempo em que se reforçava. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. ROUCHY. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. sua prática de psicodrama analítico. MENDEL e sua equipe. Sociopsychanalyse. Mas se. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. essa evolução.

sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. freqüentemente. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. no espaço organizacional. na medida em que instituir. localmente. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. da facilitação e. os meios de verificar a validade das hipóteses. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. De uma maneira geral. ao mesmo tempo. a palavra de ordem. mais racional e menos caro. é a descentralização. Enfim. então. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. forçosamente. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. estágios existentes fora dela. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. esperando-se que se aumentará assim. de acompanhamento ou dinâmica). PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. é que se engane sobre a causa das dificuldades. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. é mais rápido. a mudança social desejada. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. o risco. em especial. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. entre os próprios serviços de uma organização. Com efeito. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. as que se nutrem da formação surgiram. 250 . Além disso. durante um tempo que pode ser apreciável. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. é necessário providenciar a formação do responsável local. da regulação (hetero – ou auto –. irrelevante. Evidentemente.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. desde há algum tempo.

inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. Esse risco pode ser reduzido apenas se. Paralelamente. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. então. na elaboração dos programas. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. manter essa dimensão presente durante todo o processo. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). aliás. ao desempenho eficaz da prática de formador. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . os consultores. de um lado e de outro. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. de uma maneira progressiva. Tal dispositivo técnico é insuficiente. descobrir. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. em assegurar “suas tarefas”. evidentemente. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. tal risco. entre os dirigentes. Um meio técnico (que. além disso. primeiro. confrontá-la à dos outros atores. os solicitadores. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. Ainda assim. A competência de um interventor.. do qual se espera a responsabilidade.

as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. Por exemplo.) –. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). 252 . é interessante observar que. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. um sistema e seu problema. em data. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. o desenvolvimento técnico e científico. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. as estruturas internas das organizações se complexificam. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. em problemas de remuneração etc. Entretanto. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. Sem poder preparar aqui tal reflexão. em resposta ou não a um apelo. Ela compartilha. dois atores ou diversas instâncias em interação... nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. a convicção de que as condutas das pessoas. Porém. e não em técnicas de ação formadora de diretores. afetando a estrutura e as instituições internas. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. numa crítica aos limites do staff and line. um grupo. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. de agentes de comando ou de pessoal de execução.

são chamados. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. de defesa ou de negociação. ALINSKY. progressivamente. assim. por exemplo. J. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. nos conflitos entre direção e sindicatos. eventualmente. 253 . evidentemente. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. existem. mas. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. Em países como o Canadá. enriquecendo-as. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. a práticas de debate. no fim dos anos 20. sistematicamente. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. como o sociólogo S. Mesmo a história da intervenção de E. renovando-as. os psicossociólogos. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. durante os motins do Harlem. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. Mais recentemente. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. vir a substituílas completamente. TOURAINE recorre também. freqüentemente. retomaram. No campo das empresas de produção. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. o sociodrama. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. em Nova Iorque. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. Então. L. os “organizadores de comunidades”. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem.

instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. Da mesma forma que. tanto no plano material quanto no legal. de estudar as instalações da fábrica. das lutas militantes etc. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. e que. de fato. de sensibilização (por exemplo. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. das relações pastorais. em conseqüência. para a segunda. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. Parece-nos que. e renunciar. difusão das estatísticas de acidentes. os dispositivos de proteção. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. então. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. de alguma forma. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. para a terceira. concurso de segurança) etc. educativo. de organizar as ações de inspeção. Embora não ilustre especialmente esse risco. como por exemplo no campo da imprensa escrita. para a primeira origem. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. Entretanto. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. social). da polícia. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. a toda especificidade. No começo. há uma 254 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. audiovisual. de formação. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. apenas. de propaganda. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. as oportunidades. as prescrições) e funcional (no campo técnico. da magistratura. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes.

de segurança e de condições de trabalho. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. contramestres. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. De acordo com os resultados. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. evidentemente. gerentes. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. por exemplo. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. algumas vezes desenvolvendo. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. No fim desses dois dias. fundamenta-se também. Os confrontos entre atores (por exemplo. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. propor as medidas. produzir os diagnósticos. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. concomitantemente. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. ou por uma intervenção apenas formadora. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. pessoal de execução). é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. evitase. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. então. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. em outros países. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. Uma vez estabelecida a composição. no começo. No caso da intervenção psicossociológica. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. Uma abordagem mais recente. geralmente. por uma intervenção psicossociológica. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio.

Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. então. Ela permite. de múltiplas forças antagônicas). Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. decisivos. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. Porém. Em relação ao processo das intervenções precedentes. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. Como no caso anterior. estende-se numa duração que se mede em meses. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. a intensidade emocional mais forte. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. em teoria. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. em especial. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. A última negociação consiste. instituídos pela lei Auroux. entre outras coisas. produz uma frustração muito forte no ator. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. ligada às diferenças de status e/ou de poder. tal 256 . a ponto dele renunciar. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. para nós.

caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. elas não dependem apenas da técnica. ancorar. evidentemente. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. evidentemente. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. Tais requisitos. tecido com fios múltiplos. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. mas também em encontros do mesmo estrato. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. está. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. Por isso. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. para guiar a análise. bem cedo. aqui. em todos os níveis. senão à primeira. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. e. uma importância acentuada. tal metáfora. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. Escolher. entretanto. por exemplo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. aliás. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. sempre pluridimensional. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. Enfim. Em outros termos. sem dúvida. mas têm. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . Está claro também que. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte.

O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. para o pessoal de um estabelecimento. no entanto. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . Com efeito. enquanto dispositivo de inserção. do terapeuta. Não é fácil. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. quer esteja empenhado. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. por si só. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. Nem ciência nem tecnologia. enquanto pesquisador. sem chegar a lhe dar um molde. ela me leva. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. em cada momento. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. retomando a distinção de PALMADE (1977). Tal situação pode desencorajar um pesquisador.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. filtrar com segurança um objeto teórico. o interventor é um clínico. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. a mim. mas. antes. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. Assim. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. as escolhas iniciais arriscam. elas seriam. com o tempo. capazes de contribuir em processos de pesquisa. depois de dez ou vinte dias de intervenção. fundamentar tal distinção. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. permitindo isolar. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). do gerente ou do político.

para os atores. Enquanto atores sociais. de maneira mais ou menos difusa. pode-se observar que. tais acontecimentos podem inspirar outros e. seria natural levantar tal hipótese. sem subterfúgios. adquirir um sentido menos restrito. A inserção na universidade. malgrado sua fragilidade no tempo. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar.). diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. Entretanto. e se surgem conjunturas favoráveis. assim. o mesmo se passa. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. os setores de saúde. por certos setores da sociedade. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. sua identidade social e a natureza de seu projeto. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. para mim. a administração. os espaços urbanos. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. Por outro lado. no começo desse artigo. 259 .. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. analisar e experimentar as vias de democratização etc. Anunciamos. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. a invenção de instituições locais (por exemplo. os movimentos sociais ou culturais etc. analítica. Porém. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. em função do campo social em que aparecem. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. o comércio. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. na literatura especializada. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. importantes sob esse ponto de vista. podem-se encontrar.

“Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. evocando. o espaço urbano). não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. Por exemplo. os resultados quantitativos estabelecidos por C.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. DO – Desenvolvimento Organizacional (N.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. posição central ou periférica etc. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. Jean. a estruturação dos papéis recíprocos. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. .). Porém. ROUCHY chegou. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. 2 260 . sua própria experiência no campo da saúde. Notas 1 Traduzido de DUBOST. a divisão do trabalho. de colaboração profissional. por Marília Novais da Mata Machado. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . p.). . até um determinado ponto. as conclusões às quais J.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). 7-28. ainda. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. poder. 1987-l. nesse número.). de dependência hierárquica. com o que se observaria em outros lugares.T. MARTIN em uma pesquisa recente. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. não coincidiriam. 49. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. pode-se aplicá-la a outros campos. . a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. o grau de nossa capacidade de indentificá-los.-C. necessariamente. autoridade. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. voluntária ou militante etc. . Connexions.

J. 1981. LÉVY. ROUCHY. Connexions. LE BOTERF. Paris: PUF. 1987. 1972. A. J. La Documentation française. 261 . L’intervention psychosociologique. 3. MARTIN. Les recherches-actions sociales. L’enquête participation en question.-C. 1977. 1980. Interdisciplinarité et idéologies. 1986. In: L’intervention institutionnelle. Théories et pratiques de l’éducation permanente. G. C. Paris: Payot. “Une intervention psychosociologique”. Paris: Anthropos. Paris: LFEEP. PALMADE. G.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. fax.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 . 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.autenticaeditora. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.com.com.

“Quais são os problemas realmente essenciais. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global.autenticaeditora. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. etnias. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www.com.br 0800 2831322 . a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. o triunfo da racionalidade experimental. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. grupos religiosos etc. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. finalmente. os ‘intemináveis adolescentes’.