Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

................................................................................... Benevides de Barros............. 237 6 ................................................................................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï.......... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost....................................................................................................................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost................................................................................................................................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez......................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï............................................................... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D.................................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS........................ 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy.................

dispositivo de consulta e pesquisa. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. esclarecedoras dos processos de criação do social. reais. hoje. fruto do trabalho de psicólogos. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. quanto para os que praticam a psicologia. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. Desde a primeira edição. a psicanálise. cada vez mais utilizada. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. por meio da “intervenção psicossociológica”. bem conhecida e divulgada no Brasil. o campo da psicossociologia cresceu. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. tornou-se ainda mais importante. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. prático e metodológico. Assim. a administração e a política. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. a educação. Por tudo isso. da organização e do funcionamento social. sociólogos e um economista. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. cuja história é nele revista e avaliada. o direito. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. a economia. a sociologia. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. À metodologia de intervenções/pesquisas. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. Junho de 2001 Os organizadores 7 . este livro. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. tal como no momento da primeira edição.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

Portanto. as condutas concretas dos indivíduos. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. 9 . geridos e transformados. no quadro da vida cotidiana. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. fez aparecerem certos problemas. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. se revelassem. por sua presença. freqüentemente através de experimentos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. isto é. A partir dos anos 50. a metodologia de pesquisa-ação. até então desconhecidas. que condutas. Passaram a se preocupar. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. são o objeto de pesquisa.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. Por meio dessa abordagem. o pesquisador-prático. em seus grupos. inicialmente. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. igualmente. com as instâncias de mudança. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. empregando para tanto. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. em especial. grupos. organizações e comunidades. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. Em conseqüência. das organizações e das comunidades. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. organizações e comunidades. reflexão e análise dessa disciplina. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. Atuando diretamente na vida dos grupos.

já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. Porém. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. sujeitos capazes de serem autônomos. pois a teorização é fruto da reflexão que. nos termos de E. com suas mudanças e rupturas. DUBOST). pouco a pouco tecido. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. que 10 . podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. do trabalho da pulsão de morte. de transformações nos sistemas sociais (A. LÉVY). chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. mesmo que involuntariamente. torna visível a presença do sujeito social. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. Paulatinamente. e do processo de criação institucional. sujeitos que. da organização e do funcionamento social. por um ato de decisão. aptos a um “imaginário motor”. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. ENRIQUEZ. adquire um sabor de novidade. do socius. dos desejos de onipotência e dominação. mobilizados por ilusões e crenças. NICOLAÏ). é formulada uma teoria. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. e serem criadores da história. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. 60 e 70. a mudança social (A. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. Ora. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. idealizando e buscando destruir seus chefes. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. de onde e como surge a dinâmica social. que é também um ato de palavra. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. sempre inacabada.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). hoje ela se renova. contra esse pano de fundo. sujeitos que são verdadeiros autores e atores.

autopoieses. DUBOST. André LÉVY e André NICOLAÏ –. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. Os autores – Jean DUBOST. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. TOURAINE que. estruturas dissipativas. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. E. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. BARROS. de suas demandas de amor e proteção. entretanto. CARRETEIRO. o pensamento filosófico de C. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. assim como novos sagrados e certezas. formuladora de grandes quadros teóricos mas. J. M. é analisada.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. enfim. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. T. Eliana de Moura CASTRO. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. Sonia ROEDEL. 11 . ROEDEL). Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. CASTRO. Política. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. assim como. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. a condição de construção da vida social. MATA-MACHADO). aqui e ali. auto-organização e complexificação a partir do ruído. o desenvolvimento de um processo organizacional. Sociologia. como sistemas dinâmicos. B. Assim. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. da MATA-MACHADO. relações de poder e autoridade. mas também de outras referências. José Newton G. de suas fantasias de onipotência. de ARAÚJO. A. nestas páginas. formadoras das sociedades atuais e futuras. Eugène ENRIQUEZ. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. são apresentados nesse livro por Marília N. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. a respeito das suas representações historicamente constituídas. práticas de intervenção mitificadas. são analisadas novas ideologias. CASTORIADIS. Psicologia Clínica (J. S. ARAÚJO. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. Assim. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. está presente em quase todos os textos. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. LÉVY. de BARROS. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento.

. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). primeiramente. resultando em treze textos. ARAÚJO. a disciplina que os congrega. ENRIQUEZ. sofreu modificações. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. Além desse território de pesquisa. na França. “O fanatismo religioso e político” – E. BARROS. ROEDEL. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. ARAÚJO. MATA-MACHADO – Psicologia Social). feita em novembro de 1991: . a partir do exame de uma centena de textos. Inicialmente. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. textos recentes. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. ENRIQUEZ). pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. T. MATAMACHADO). no Brasil. distribuídos em três partes. LÉVY).Em segundo lugar. na empresa. 1990-1. LÉVY (mimeogr. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. Essa primeira proposta. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. de um projeto pessoal e familiar. Paris XIII (A. especialmente. 1990-1. Paris X (J. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. CASTRO. ENRIQUEZ. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E.).Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. cobrindo questões atuais. 1991. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . NICOLAÏ). Assim. mutações e complexificação em economia” – A. “Rupturas. NICOLAÏ) – mas. “A interioridade está acabando? – E. DUBOST. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. A. E. 1989. ENRIQUEZ) e Economia (A. NICOLAÏ (mimeogr. M.Foram escolhidos. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. CARRETEIRO). NICOLAÏ. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. T. a Psicossociologia. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. 1990. LÉVY. CASTRO – Psicanálise.). mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. ROEDEL). Paris XIII: M. em função do mencionado convênio. MATA-MACHADO e S. ENRIQUEZ.

Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. apresenta a intervenção. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. o grupo e a questão da mudança. Seus nomes aparecem. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. de atividades e produções criadoras. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). à Psicossociologia e à Psicanálise. DUBOST. contudo. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. ARAÚJO. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. MATA-MACHADO. em maior ou menor grau. mantendo-se a tradução utilizada por T. Psicanálise do vínculo social. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. para designar 13 . foi objeto de discussão e comparação. na primeira nota de rodapé. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”.Em terceiro lugar. 1987). preferiu-se “fantasia”. finalmente. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. através da análise etimológica. Por exemplo. a apreensão de seu sentido original. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. CARRETEIRO e J. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. respectivamente. NASCIUTTI para o livro de E. . 1980. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. E. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. “Intervenção como processo” – A. As traduções foram revistas por J. Buscou-se uma certa uniformização. CASTRO e M. em cada texto. editado por Jorge Zahar. algumas aterrorizantes. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. Por exemplo. LÉVY. mantiveram-se termos como “fantasmático”. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. a última tradução foi preferida. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. “forclusão” ou “preclusão”. DUBOST. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento.Prefácio desejo” (A. ENRIQUEZ. 1976. Mais de uma dificuldade de tradução.

a palavra investigation. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. nosso primeiro leitor. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. essa foi a escolha. para a palavra enquête. entretanto. expressão bastante usada em português. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”.“relativo a narciso”. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. na expressão méthodes d’investigation. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. a critério do tradutor. Finalmente. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . no entanto. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. aquilo que lhe cai nas mãos. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. a idéia de um “eu”. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. no enfoque psicossociológico. à sua maneira. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. visto que todo leitor recebe. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”.2 . Eles descartam. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. No entanto. O sujeito que não “morreu” A. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas.1 Pois bem. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. Cabe. LÉVY e E. Mas não poderia ser diferente. desde o início. Ao apresentar tais artigos. preenche ou interpreta. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia.

convém observar que. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual.. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. No texto de A. nos parece em parte negligenciada. entre outras coisas. nas décadas anteriores. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual.6 Isso é claro para os autores. notadamente através da teoria lacaniana. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. no conjunto das discussões sobre o sujeito. um átomo talvez. o ofício ou o produto. vemos que o “indivíduo” é. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. ela é 18 . mesmo na França. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. E. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. a chamada “sociologia do cotidiano”.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. não estariam restritas. antes de tudo. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. um ponto de passagem.”. suas relações próximas e regulares.. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. a família. ligada a uma prática clínica. nos artigos aqui apresentados. os autores caminham numa direção que. por exemplo. Assim. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. LÉVY. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. o da Psicanálise. por exemplo. A esse respeito. já na virada dos anos setenta.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). entre nós. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. a empresa-família é anterior ao sujeito.

é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. tenta transformar “o mundo. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. enfim. as relações sociais. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. “às vezes sem sabê-lo. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. Ele destaca ainda. O primeiro é aquele que se agarra. através de FREUD. narcisismo social. mas que reenvia. isto é. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. daí a ilusão da identidade pessoal. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. Assim sendo. por exemplo. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. além de desempenhar. num crescente alienar-se. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. Importante ainda. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. segundo os autores. LÉVY nos lembra. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. espírito de empresa. ENRIQUEZ retoma essa posição. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. A. identidade coletiva. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. um papel essencial nas transformações sociais”. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. sua constituição “plural” ou coletiva. antes de mais nada. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. as significações das ações”. pois este. narcisismo grupal. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. sempre imprevisível. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. “no momento em que falamos. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. 19 . fanatismo de empresa etc. Desse modo.” De outro lado. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social.

religioso. além da sua. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. Basta lembrar. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. esportivo. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. Assim. como se tinha notícia até pouco tempo. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. pois ela se torna uma ameaça. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. científico ou outro qualquer). A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos...) deve ser eliminada. mas exemplar. árida novidade. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. os nordestinos. Assim.9 composto por militantes islâmicos negros que. mas sim os processos de idealização. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. científicas etc. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. amor (ou cumplicidade?) mútuo. ilusão e crença. cabem algumas observações. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. xenofobia.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. no início de 1993. tentando eliminar dele os negros.. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. os judeus e. como um fenômeno “periférico”. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. algum tempo após as notícias.. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. religiosas.” 20 . em diversos momentos. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. A essa altura. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. como a intolerância e o fanatismo. estamos falando de mecanismos inconscientes). outras idéias. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. mas que tentam ainda se expandir. outras propostas políticas.

nossa “seita” de comedores vegetarianos. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. E. Em outras palavras. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. ela deve ser doadora de sentido. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras.Análise social e subjetividade Aliás. às vezes. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. a ação grupal deve cobrir um vazio. por analogia. nosso grupo body-building. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. a eterna questão do sentido. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. seja num grupo democrático. contrapor as noções de sujeito e interioridade. num clima onde toda crítica está ausente. rapidamente. noção de origem literária e filosófica. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. Gostaríamos de lembrar. já de início. ele desconhece também. Poderíamos. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. cada sujeito está perseguindo. Enfim. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). seja num grupo intolerante. sejam elas brancas ou negras. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. em níveis talvez menos contundentes. nosso time de futebol. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. infantilizando os “fiéis”. nosso partido de direita ou de esquerda etc. O que se torna problemático. no Sul do Brasil. resvala necessariamente para a intolerância. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. isolada e coletivamente. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar.

que não é recente. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. interrogações e que. na Filosofia antiga.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. à alternativa interior x exterior. onde ninguém tem o direito de penetrar. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. em oposição ao vazio: trata-se. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. alegria. o que é pura duração. A interioridade remete. segundo o autor. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. Para ele. íntima. foi discutida em termos do cheio. questionamentos. Talvez seja. a não ser por arrombamento. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. Por outro lado. num certo sentido. em se pensar espacialmente. quase que imediatamente. 22 . filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. Só o ser existe e ele é cheio. por ser da ordem da especialização. ameaçado de extinção.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. ele existe atualmente e está. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. pois. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. para ela. na esfera psicossocial. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. vítima de ataques. Se esse sentimento nem sempre existiu. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. A questão do espaço. A compreensão da interioridade é. pois. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. é numa relação espacial que ela se inscreve. é ‘uma terra estrangeira’”. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. A interioridade. parece haver uma tendência. Aliás. BERGSON. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior.

O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. porque especular. eu não sou. a identidade própria. Limite e superfície privilegiada de estimulações. diz FREUD. separada. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. Há. denotadas pelo termo identidade. O culto exagerado do corpo. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. meio de se situar no mundo. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. ela é capaz de dizer: eu tenho. Existe. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. As idéias de permanência. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. na época atual. Dito de outro modo. diferenciando o interno do externo. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. unidade e similaridade. ao que marca a diferença. capta os estímulos exteriores e também os internos. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. o que se vê por fora é um reflexo do interior.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. temos de falar nos órgãos dos sentidos. Assim. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. saturada de comunicação. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. Já a identidade marca a diferença. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. foram abaladas pela Psicanálise. considerando o 23 . Um corpo dinâmico (isto é. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. isto é. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. refletindo a si mesmo). O ter é ulterior. bonito. depois da perda do objeto. isto é.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. a pele se liga à formação do eu. A percepção do espaço remete à visão.

Em outras palavras. Assim. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. pela empresa ou pela sociedade. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. entre outras coisas. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). Ele diz. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. Por isso. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. francesa Grasset. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. só podendo. Finalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. feitas pela religião. Afinal. ARAÚJO. a interioridade considerada. quer como sentimento pessoal. e como bem captou ENRIQUEZ. de outro lado. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. O oculto. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. por ser essencialmente espacial. ao eu e muito menos ao sujeito). E o mais importante. se tornam assim mais claras. no campo da argumentação psicossociológica. isto é. nenhuma leitura é um ato neutro. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. As propostas absolutizantes. que todo texto é um tecido de espaços em branco. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. em sua obra Lector in Fabula (trad. do outro que eu sou. naquilo em que ele é diferente do outro. Notas 1 Humberto ECO. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. oferecer uma resistência passiva. pois. é passiva. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. já dissemos. 2 24 . pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. em outros termos. quer como conceito psicológico. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. é certamente desprovida de energia ou. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. isto é. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO.

1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. P. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. LXXIV. em seus níveis mais profundos. senhor de si e do universo e como se. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . por Jean-Marie LE PEN. não passavam de “mero detalhe”. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. como um instrumento terapêutico. p. Paris. p. Observação semelhante já fora feita. 322. por isso mesmo. em seu número de 1º/12/93. p. mais perto de nós. reportagem da revista Isto É. face às estruturas e aos sistemas”. nessa mudança. Paris: Gallimard. principalmente após as recentes eleições da Rússia.Análise social e subjetividade 3 Cf. D. Assim.. na América Latina e mesmo na Europa. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. na Biblioteca Nacional de Paris. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. 1975-1976. cit. p. 50-53. em nível individual. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. 1983. alguns anos atrás. “Essai d’identification du quotidien”.. uma editora de propaganda nazista. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. De outro lado. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. Paris: Dunod. 5-12. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. 1970. JIRINOWSKI saiu vitorioso. p. 1984. vol. P. Paris: Bordas. O autor evoca J. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Para ele. Paris: Gallimard. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. além de serem historicamente contestáveis. Essa mesma revista. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. Conseqüentemente. nas quais o Sr. o culto à figura de GUEVARA. 445-449). G. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). BALANDIER. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. SELLIER (cf: Le mythe du héros. In: Bulletin de Psychologie. líder da extrema-direita francesa. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. P. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. 13). 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. tomo XXIX. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações.. Cf: ANZIEU. Lembremos. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. de 28/04/93. fez reaparecer o sujeito. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. (Cf: ANSART. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Cf. 29-31) afirma que. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. n. soberano.

1967. XVIII vol. Rio de Janeiro: Imago. ver: FREUD. S.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. semelhante à vivência intra-uterina. Essai sur les données immédiates de la conscience. ANZIEU. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. 68. 1977. Além do princípio do prazer (1920). Paris: PUF. Entre outras alusões a essa questão. 1976. p. ss. p. 1985. El tiempo y los grupos. 120 ed. D.) 14 Cf: BERGSON. Buenos Aires: Editorial Vancu. 42. Paris: Dunod. (Cf: FONTANA (A) et al. 15 16 26 . H. Le moi-peau.

em maior ou menor grau. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. como psique. No entanto. um determinismo absoluto dos processos sociais. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. só se fala do indivíduo. mesmo sem dizê-lo. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. assim. ao invés. Com efeito. Seguindo essas abordagens. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. do sujeito. 27 . As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. que nega a interrogação de D. em grupos e organizações. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. No momento atual. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. que decidi me manifestar. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. por outro lado. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. um ser agido. ALTHUSSER). fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. sua classe ou sua raça. É contra essa tendência reducionista. De minha parte. um ser falado.2 A razão é simples: como muitos outros autores. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. do aumento do individualismo.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. por um lado. O indivíduo torna-se. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. pois. LAGACHE.

portanto. em parte voluntariamente. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. já que nascemos sempre em um grupo. CASTORIADIS. a cada homem. em parte inconscientemente. num lugar-tela. no entanto.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. numa sociedade que é. uma cultura. Uma tal sociedade heterônima tem. a anterioridade dos processos sociais. porque toda sociedade comporta falhas. Nessas condições. que pode tomar a forma de totens. heterônima. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. além disso. portadoras de 28 . ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. ao mesmo tempo. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. Em outras palavras. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. logicamente. Nessas condições. De fato. ir muito longe nesse sentido.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. em uma classe. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. em uma nação etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. de antepassados e de Deuses. Essa emergência acontece. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. ou de um Deus único. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). é preciso pressupor. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. Freqüentemente. zonas inexploradas. em parte. em uma etnia. BURKE. mas deixassem também. “a possibilidade de saber que alhures. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. ela própria. sua conduta. para retomar a terminologia de C. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. conformados a seus votos e a seus ideais. Não é necessário. isto é. DE MAISTRE –. quer seja por Deus – BOSSUET. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. conduta estruturada social e culturalmente. que lhe deu direito à existência.

Elas se tornaram. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. ele também só é parcialmente heterônimo. às vezes. como dizem FRITSCH e PASSERON. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. como evocava FREUD. Reis continuam a se 29 . É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. em toda sociedade. até mesmo se choca.7 Quanto ao indivíduo humano. seja lá por que modo. desde a Revolução Francesa. Além disso. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. portanto. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. Deve-se. um papel essencial nas transformações sociais. Notemos que as sociedades modernas. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. um discurso dominante. apoiando-se nas funções corporais. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. não a um contra-discurso organizado mas. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. às vezes. sobretudo. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. outro um novo tear. Alguém inventa uma máquina a vapor. por mais totalitário que seja. ignorando soberanamente a ideologia dominante.8 Enfim. Embora exista. sem sabê-lo. desde a Renascença e. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. a trocar sua natureza pela de um térmita. em pessoas e grupos sempre diferentes. de maneira invisível. a médio ou a longo prazo. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. Mas. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. fanático. se põem a acumular riquezas. mesmo sem percebê-lo.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. em certos casos. contra a vontade da massa. pelo menos de imediato e. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. não se pode esquecer que o discurso.

relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. cada um deve ser criativo à sua maneira. a vitória nunca sendo definitiva. De fato. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. o elemento esportivo predomina. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. os processos sociais. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. é. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. objeto de tantas preocupações. apenas um elemento do processo de massificação. em nossa época. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. Nessa ética. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. mas é o homem da performance mensurável. do seu serviço. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. então. se os processos psicogenéticos pressupõem.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. vencedores que querem ir até o fim. ela pode ser bem efêmera. “matadores frios”. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. seu tempo. a individualização. Assim. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. Assim. performance sempre a recomeçar. Ao contrário. Se cada um deve manifestar sua singularidade. da sua organização. Ele deve gozar com essa renúncia. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. sempre imprevisível. mais freqüentemente. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. O winner sempre pode se tornar o looser. No entanto. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total.9 Assim. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. como sublinha CASTORIADIS.

onde seu paroxismo predomina. desvestida de seu sentido ético-religioso. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. quando se fala do indivíduo. REICH. nas universidades. a busca da riqueza. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. em vez de admirar o que ele concebeu. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. além disso. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. posições de poder. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. igualmente. o que lhe confere. assim. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. hoje em dia. para depositar seu destino nas mãos dos outros. o indivíduo renuncia. O “zé-ninguém” está sempre. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. mas que. financeiras ou de prestígio. mas não se orgulha de si mesmo. nos hospitais. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. aqueles a quem chamamos vencedores. ou ainda. um novo ritual. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. a justificá-lo”. atrás da força e da grandeza de outros homens. os que W. na maioria das vezes. características de um esporte. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. Admira o pensamento que ele não concebeu. 31 . igualmente. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. Ele atinge. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. a se associar a paixões puramente agonísticas. em geral. designava por “zé-ninguém”.10 Assim. o “culto da empresa”. tende. Nos Estados Unidos. naquele tempo.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional.

o que devemos fazer e como seremos recompensados. ser um agente ativo desses processos de recalque. depois de descrever esse fenômeno. Além disso. de repressão e de adesão. A idealização é. reprimir suas pulsões. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. portanto. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. apoiado 32 . Resta-me. às vezes. correndo um mínimo possível de riscos. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. agora bem conhecido. é. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. apresentando-se como objeto maravilhoso. para existirem. aderir profundamente às injunções sociais e. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. nós próprios nos tornamos admiráveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. médios ou pequenos homens. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. Em outras palavras. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. então. sempre ameaçador). É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. assim. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. o mundo criado não é contestável.

um budista. dificilmente. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. ao nosso “nós”. que sentido pode ter ganhar por ganhar. nas quais. É necessário precisar esse último ponto. como mostrou FREUD. o narcisismo social. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. um capitalista. ideais vazios e desprovidos de sentido. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. graças a esse jogo identificatório. o racismo. uma massa maior de homens. sem se dar conta de que. produzir por produzir. é imputar os problemas ao outro. tem como futuro possível a xenofobia. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). estamos divididos e angustiados. freqüentemente. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. De fato. A identidade coletiva. A identidade coletiva favorece ainda. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. estamos perto de não ser absolutamente nada e. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. portanto. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. de simplesmente não ser.13 Reencontrar a coesão. está cheia de perigos. de fato. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. graças a identidades coletivas fortes. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. os ideais são múltiplos. 33 . é se voltar ao grupo de pertinência. Se somos apenas um espartano. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). da sedução ou da obrigação]. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. através desse processo. Vivemos em sociedades nas quais. que tem como efeito “unir uns aos outros.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. um proletário. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. eles suscitam a aceitação ou a identificação. consumir por consumir?) Ora. contraditórios. G. o fanatismo. (Com efeito.

na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. bem como da tranqüilização narcísica. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. O indivíduo individualizado (e não individuado. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. reproduzir. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. nos lugares da vida cotidiana. a sua conversão. Quero simplesmente dizer que cada um. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. portanto. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. por mínima que seja. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. Tal indivíduo só sabe repetir. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. o indivíduo singular. criança. Com efeito. tem como projeto voluntário. em sua vida de trabalho. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. não pode ser considerado como sujeito humano. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). a respeito de qualquer tipo de problema. Vê-se. as significações das ações. as relações sociais. ao menos. O sujeito é um ser criativo. 34 . daí. em suas relações sociais de todos os dias. no entanto. seres a eliminar. Não podemos. portanto. quanto mais a identidade coletiva existe. quanto mais uma cultura se quer unificada. que. bem entendido. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Para definir criatividade. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros.

mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias.. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. em compensação. homem portanto de sabedoria e loucura. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. ela está presente em quem faz. portanto. demens (objeto da hybris). que sente prazer em respirar. a gestação. quanto na inspiração do arquiteto que. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. em lugar de uma imagem da natureza. é ainda pior. uma novidade irredutível. O sujeito é. Os artistas não se enganaram a esse respeito. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. ao mesmo tempo sapiens. E mais se imprime. aqui e agora. é a formação. imobilizada. antes que ela se fixe em natureza morta. o nascimento. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo.. de repente. levo a sério. do jogo e da vagabundagem.. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. não na escola!. chegarás. meu amigo. não ao charco das alegrias imortais. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). em seus Conselhos a um viajante. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. e que o mundo possa testemunhá-la.. voluntariamente. respirando a plenos pulmões um ar salubre. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. um ser capaz. o primeiro movimento indistinto da matéria. ludens e viator.

WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. aliás. No entanto. depois da guerra de 1914-1918. cientificamente. Michel SERRES. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. sente-se eleito por Deus.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. a esse respeito. pela natureza. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. para realizar uma missão salvadora. de seus medos.17 Porém. atualmente. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. O megalômano. Com efeito. identificado a seu pai. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. os manipuladores ocupando uma posição perversa. preso na ganga dos ideais. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. um pouco paranóico. os sedutores ocupando uma posição histérica. em particular o grande homem. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). portanto. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. é preciso parar um momento. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. para lavar o mundo de sua sujeira. entre os grandes homens. 36 . Assim. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. a sua própria alteridade). Caracterizemos rapidamente esses três tipos. assegurando-lhe a redenção.

ao mesmo tempo. ele se proíbe de ser excepcional. denega a realidade). como WILSON ou HITLER. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. reduz as relações humanas a relações de objetos.20 do homem que declarava. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. o povo judeu. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. LENIN. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. a um nível mais irrisório. é um bom exemplo desses chefes perversos. que não tinha interesse algum pelos outros. só considera o mundo sob o ângulo econômico. O teatro é também para ele um terreno de esportes. que tomou o poder contra os mencheviques. recém-saídos das grandes escolas. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. ao contrário. inventando complôs. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. caso bem conhecido e. tem gosto pelo instantâneo. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico.21 Assim também HITLER. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. esse está. ou capacidades manipulatórias. obcecado com a força pela força. basta o de STALIN. os tecnocratas. Quanto ao manipulador perverso. como LENIN: ao contrário. quis fazer do alemão o povo eleito e.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). por sua vez. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. nem uma força de pensamento e de ação. só pensa em termos de estratégia. que toma a si mesmo por ideal). “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. que queria dobrar o mundo à sua vontade. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. 37 . para isso. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. como já indiquei anteriormente. crê falar a linguagem da verdade. segundo FREUD e BULLITT. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo.

ele perdeu alguma coisa.). pois ele promete a qualquer um. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). O grande patrão italiano C. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos.) são as pessoas comuns. porque sou. uma demonstração do possível (. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo.. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. nem mesmo na imaginação. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. sem dúvida.. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Tentarei em outra ocasião. com a condição de ser corajoso. Em contrapartida. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . mas uma duração realista. um indivíduo sem fantasias. Eles se apresentam. Se elas tomarem um grande patrão italiano. M. Mas. Em todo caso. talvez. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. não se torna. se tiver tanta coragem quanto eu”. AGNELLI por exemplo. os outros escapam a essa denominação. ao contrário. AGNELLI a gente nasce. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. Em outras palavras. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. é possível tornar-se DE BENEDETTI. sem interrogação. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. não tenho dúvidas morais”. como indivíduos perfeitamente normais. meus aliados (. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. Mesmo assim. a seus olhos. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho.. de uma normalidade esmagadora. como GORBATCHEV..

Um ser consistente pode ter dúvidas. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. É também um homem que demonstra consistência. assim. ele o faz em sua linha. pois falta a ambos. de tudo desarrumar. mais ainda. São portadores da pulsão de morte. E. fazer advir o sujeito coletivo. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. Eles têm uma influência social inegável. FAUCHEUX. de tudo realizar” (McDOUGALL). S. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). mesmo se nada descobre. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. Se o sujeito evolui. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. só sabem repetir. MOSCOVICI.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. assim. Mas ele conserva o mesmo projeto. fazer advir o sujeito individual. “que significa. Teríamos. reproduzir. conforme McDOUGALL. dos outros. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. tomar caminhos transversais. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. em MARX. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. Mas não são verdadeiros criadores de história. em FREUD. favorecer a tomada de consciência de situações reais. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. por outro. São desprovidos da aptidão à transgressão. insiste sobre essa noção. por um lado. em sua linhagem. ao inusitado. 39 . Corre pela vida como em uma auto-estrada. criar seja lá que novidade for. a recusa de compromisso sobre o essencial.23 Em certo sentido. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. sem falhas. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. o caráter irrevogável de sua escolha e. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. no sentido que dou a esse termo. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. Ele não tem projeto. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. de se lançar no desconhecido.

no entanto. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. é que. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. quando ela se apresenta. consistência e astúcia andam juntas. segundo a expressão de V. o que não é nada fácil. consistência e astúcia.” O sujeito não é homem de comprometimentos. recentemente republicado. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. MOSCOVICI. um grupo ou um Estado. Ele é. não pode jamais estar colado a uma organização. criar e sustentar um conflito com a maioria. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. uma outra exigência e. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. no momento atual. SEGALEN. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. igualmente. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. interdita a tentação da Unidade-Identidade. souberam conciliar furor. Consistência e furor. diante da exigência do todo. Para SEGALEN.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. finalmente. o exilado.24 O “exota”. a um Estado. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. Ao mesmo tempo. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. visível e. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. pessoas vindas de outros países. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. porque a dispersão. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). à dispersão. O que é interessante. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. a ocasião. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. a uma identidade coletiva. para fazer triunfar suas idéias. provenientes 40 . portanto. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. isto é. em seguida. delimita também. como também a provocá-los. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). em vista dos movimentos de migração que se intensificam. Aqui não se trata de manipulação.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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de considerar os problemas em sua frieza. assim. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. capaz de se adaptar a todas as situações. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. do combatente. ao propor. portanto. aos que dela participam. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. em demasia. então. sejam quais forem. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. de colocá-los. para fazê-lo. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. SERVAN-SCHREIBER). de sonhos e de interrogações. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. Para obter tais resultados. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. sobretudo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. seus valores e seu processo de socialização. se só pensa através dela. sobretudo. desembaraçado de compromissos. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. A cultura de empresa ou de organização. aos outros. sem o saber (e de consciência tranqüila). o homem capaz de ultrapassar seus limites. ele entrará. . com personalidades “as if” (H. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. Minha contribuição será. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. de ter modos de “comunicação afirmativa”. no sentido sadiano do termo. L. do vencedor. dando. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. Se o indivíduo se identifica com a organização. então.

uma causa a defender. mais próximos do integrismo. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. Basta ter em mente: a renovação do Islã. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. encarnar a “instituição divina”. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). o renovar de uma igreja dogmática. um ideal a realizar. em nome da verdadeira fé. exige a idealização. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. Sabe-se muito bem. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. gurus. desde DURKHEIM e FREUD. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. Então. no mundo medieval. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). injustamente martirizado. ao contrário. 47 . de perda e de sofrimento. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. segura de estar em seus direitos. mas. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. pronta a punir os blasfemadores. atualmente. que uma sociedade não pode existir sem religião. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. E. através de um projeto a concretizar. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. xamãs. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos.

cuja meta é a homogeneização do “interior”. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. Voltarei adiante aos métodos empregados. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. os estágios off limits. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. Mas as religiões. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. as medicinas naturais. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. “Estar bem em sua pele”. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). esbelto. sofredor. competitivo ou não (por exemplo. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. que aqui apenas menciono. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. o jogging. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. “tornar-se saudável”. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. afastar a dor. continuamente desejável. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. mesmo os mais repreensíveis. a expressão corporal. portanto. submetê-la a ídolos não contestáveis. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. animado) é o nosso bem mais precioso. todas as religiões. falado e falante. a aeróbica. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. pelo menos. o “grito primal”. as maratonas de Paris ou de Nova York). 48 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. o desenvolvimento do esporte de massa. O fanatismo político. como a expressão da graça que lhe cabe. As técnicas de body-building. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. as ginásticas suaves.

reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. necessariamente. Por outro lado. a busca do “erro zero”. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. cada qual se mira em seu próprio espelho. Ora. únicos responsáveis (se eles fracassam. ao menos. O narcisismo mais total está na ordem do dia. embora alienados no mais profundo de sua psique. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . No narcisismo de morte. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. GREEN. na qual fatalmente se perderá. Basta querer. confronto com o sofrimento. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. de fato.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. Os próprios indivíduos. processo de ligação com os outros. mas de edificar novos cultos. na medida em que não se trata. para se tornar um sujeito falante e atuante. de autoridade. 1983). na qual ele tem que desempenhar um papel social. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. mudança sempre difícil pois traz. A explicação é simples: todos os métodos de formação. nas organizações sociais. assim. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. grupal e coletiva. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. Elas anunciam. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. membro de um conjunto que tem suas coerções. de criar uma cultura. que o indivíduo. interrogação do ser. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. de intervenção psicossociológica ou institucional. Quer se tenha nascido rico ou pobre. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. de evolução pessoal ou grupal. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. sinais de uma fantasia de domínio total. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. “a paixão pela excelência”. a “qualidade total”.

O reconhecimento da psique como força operante tem. com os pés amarrados a um elástico. mas. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. Por isso. únicos a prometerem resultados tangíveis. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Assim. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. do aumento dos métodos mais bizarros. a mobilização total de todos. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. como resultado a sua destruição ou. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. em reação. na sociedade. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. Cada “conjunto humano”. não do desenvolvimento da racionalidade. pelo menos. para viver e se desenvolver. ao contrário. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. a sua submissão. uma psique sem conflitos. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . uma psique a serviço da organização. faz-se apelo a leitores de tarô. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. perfeitamente interiorizadas. necessariamente. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. como a simples lógica o exigiria. quer dizer. nas organizações e nos indivíduos. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). a implicação. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. para a seleção de dirigentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. portanto. a astrólogos. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas.

classe. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. Cada um sente. por minha vez. animado por uma coesão totalizante tendo. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. Ora. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. GREEN (1985).A constância não existe. Além disso. através dessas diversas experiências. que participa de uma memória coletiva. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. isto é. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). credo. ou o status social a que chegaram. em um gênero. não vivo mais. Caso se retome a análise de A. não creio mais como esse ser que leva meu nome. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. a necessidade de ter uma certa identidade. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. que se liga a uma tradição. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. Os indivíduos evoluem. em uma palavra. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. de referências seguras. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. portanto. quer dizer. – podendo 51 . acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. portanto. ele é capaz de ser um “Si”. de constância: (b) idéia de objeto separado. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. Cada indivíduo. de ser um sujeito que tem uma história. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. Mas. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. permite que se possa situá-lo em uma classe. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. portanto. escreveu belíssimas páginas. ela revela características um pouco suspeitas. uma unidade. ou vinte anos? BARTHES. nacionalidade etc. em uma espécie). Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. se examinarmos mais de perto essa noção.

a idéia de permanência e de constância. em sua pureza. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Eu é um outro. Assim. por definição. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. pois toda construção. a partir de um estado não integrado. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. quem está falando e por que falamos dessa maneira. ABRAHAM e M. a sua própria finalidade.Quanto ao reconhecimento do mesmo. cairmos na irresponsabilidade. cada uma. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. o eu etc. mas que mantém um certo grau de 52 . então.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. não podemos abandonar essa idéia. TOROK. de preclusão e de denegação estão operando em nós. ilusória. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. quando sei tão pouco o que sou.5 Certamente. no entanto. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. que processos de clivagem.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. já dizia RIMBAUD. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. necessita do trabalho do tempo. então. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. além disso. c. que. b. admitir. No entanto. sob certos aspectos. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. Mas ele insiste. 1976). assim. Se. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. com WINNICOTT (1966). Nunca sabemos de maneira precisa. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e.) que visam. de MIJOLLA. 1982). no momento em que falamos. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. então é possível questionar. Precisamos. tentamos continuamente criar um “si” que evolui.

como também um amor consciente por si. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. da “inquietante estranheza” e. portanto. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. São. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. sobretudo. portanto. muito pelo contrário). de suas faltas. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros.A interioridade está acabando? coerência. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). e tanto mais porque se parecem conosco. Um deles explicita suas dúvidas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. de seus desejos. o remorso. o trabalho sobre si. para o indivíduo. escolhendo as máscaras sociais que precisam. trazendo “temor e tremor”. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. problemáticas. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. Os outros. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. Porém. a aceitação dos processos de clivagem. a interrogação. de um narcisismo a toda prova. os diretores participam de um grupo. assim como as instituições e organizações que a compõem. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. contraditórias. é ouvido um momento. a dúvida. portanto sedução. quaisquer que sejam. de “maioria compacta”. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. tão apreciada por FREUD. O que nossa sociedade reclama.

ENRIQUEZ. Além disso. Transformam o mundo no qual estão. seu imaginário enganoso. se você continua. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. eles questionam sua identidade. tendo uma identidade compacta. Esse exemplo (que. serei obrigado a falar disso a meu pai e. até que ponto estão presos na apatia (SADE). Apenas. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. formam uma nova maioria compacta. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. 54 . são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. reedição de 1986. ele tem úlceras constantes. não quero saber nada de seus problemas porque. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. Domine-se. Pôde obter o posto desejado. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Nessas condições. Nesse momento. p. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. por um processo de contra-investimento. naturalmente. que lhe diz. quando os indivíduos estão nessa situação. O “homem com problemas” aprendeu a lição. p. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. quer dizer. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. 270). Com efeito. 1984. até que ponto evitam-se a si mesmos. 36). nem mesmo à sua esposa. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. filho de um grande industrial. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. desde então. diante dessas revelações. Ele se tornaria o fraco. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. seja de novo como nós. seu simbólico. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). que detestam. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. em substância: “Não continue. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. Ora. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. um grupo que tem uma cultura própria. vinda da boa burguesia. em termos mais gerais. é interrompido por um de seus colegas. SEGALEN). comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava.

destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. pelo menos. AULAIGNER. Como dizia um chefe de empresa. Compreende-se. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. por si próprios. do outro. assim. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. sem emoção. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. no dizer dos racistas. “em demasia”. reedição de 1961. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. pelo menos. então. colocar em lugares criados especialmente para eles). só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. para SADE. De um lado estão os vencedores. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. quer dizer. ainda mais. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. 55 . “Apagar. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. soropositivos e. os que não se assemelham aos indivíduos que. 1835. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. 103-104). o homem dinâmico..A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. Quem não se amolda deve ser liquidado. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. possam se tornar objeto de ódio ou. doentes de AIDS. que todos aqueles que buscam articular sentidos. ENRIQUEZ). todas as “minorias ativas”. p. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. num mundo a priori hostil ou indiferente. guerreiro e sedutor. O “matador frio”. como escreve P. em seu corpo como em seu espírito.. “fazer correr sangue”. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. um piolho a ser eliminado. todos os “marginais”. todos os “exotas”. se evitam a si próprios. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar.

falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. sem dúvida. Assim. Essa última seria uma cultura da vergonha. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Da mesma forma. Se não for descoberto. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. SERVAN-SCHREIBER. 56 . voar em asa delta etc. utilizando-se produtos proibidos. a vergonha se abate sobre o autor da ação. mas pela vergonha. da inveja e do amor. a honra e o dinheiro serão seus sem que. infeliz de quem trapacear. fracassar. 1988). a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. seja ele qual for. se sinta culpável. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. aos outros.). é preciso que seja conhecido por todos. além do reconhecimento dessa luta. Basta que não seja descoberto. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. portanto. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. por isso. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. Ela supõe. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. pode ser perpetrado. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). em condições normais. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. Se ele for conhecido. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. escalar um paredão com as mãos nuas. em O crisântemo e a espada (1946). Mas. ir além de seus limites. mas o toca em seu ser social. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. um estudo sobre a sociedade japonesa. a luta. da agressividade. Todo ato repreensível. Essa distinção é. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. No entanto. Se um ato corajoso – ou. L. vemos proliferar. Ora. as práticas que permitem ganhar. no interior de si. Tudo está no ato e em sua visibilidade. simplesmente. em sua aparência.

felizmente -. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. com um único passe de mágica. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. necessários à vida humana. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. nas sombras. lendo as reflexões precedentes. contra a pobreza etc. que o jogo está feito. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. atos dos mais contrários à moral comum. necessariamente. Com efeito. podem ser criados sem que daí decorra. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. contra o racismo. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. nascem a cada dia sob nossos olhos e. privilegiando a aparência. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. o corpo se encarrega de fazê-lo. as notas frias. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. Porém. já começa a ser profundamente criticado. postos de lado. (c) que os ideais fortes. a lavagem dos narco-dólares. o fanatismo. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. sem culpabilidade. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. pelo jogo de aparências. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética).A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. apesar de suas imperfeições – normais. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. são suspeitos. Não se deveria pensar. quando não é possível falar-se a si mesmo. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição.

além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). Esses sujeitos. a droga. poderão. esses “esquecidos” da sociedade. eles ainda as fazem “na exterioridade”. com sua carga enigmática. de indústrias. por isso. aceitando as regras do novo jogo. necessariamente. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. Nesse momento. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. busca de identidade. veladamente. mesmo se a interioridade. ser tratadas “na interioridade”. Esses “excluídos”. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. entretanto. Mais ainda. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. trabalhadores incapazes de se readaptar. governa seus discursos e seus atos. de espaços.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. Na realidade. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. sem dúvida. não desapareceu e não está 58 . a delinqüência. deverão se precaver. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. as perguntas. pelo sofrimento. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”.). Sem dúvida. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Eles não se dão conta. de crédito. tal como tentei delineá-la. Entretanto. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. assim como pela capacidade de sublimação. começam a se fazer perguntas. pela alegria. de afirmação ou de identificação. na doença da idealidade. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. Sendo assim. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. encontram-se na mesma situação todos os que. os ferroviários. os animadores socioculturais etc. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. evitando o Charybde da exterioridade.

163. 61-76. o mundo político. é uma consciência cultural individualista. S. Considérations d’un apolitique. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. seu oposto. Quanto a KLEIST. v. 2 Grandes escritores alemães. as autobiografias. assim. Paris: Seuil. da salvação e da justificação da vida pura. 37. (N. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. o gosto pelo mórbido. In: Sur l’individu. L’écorce et le noyau. DUMONT. 5 FREUD. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. Paris: Aubier. Inácio de Loyola. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. Topique. do culto do inconsciente e dos instintos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1976. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Le Verbier de l’homme aux loups. na qual o mundo objetivo. 3 Cf. com a formação. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. 4 Como um cadáver (em latim no original). 59 . pela emoção. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. ENRIQUEZ. em termos religiosos. NOVALIS.).Topique. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Entre la marionnette et Dieu. Paris: Aubier. XVIII. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 1976. espírito racional e humanista por excelência. Cf. assim. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. tão diversos quanto GOETHE. é. involuntariamente. 1989-2. citado por L. p. por Sonia Roedel. (N. e TOROK. sobre KLEIST: E. é a absorção em si ou introspeção. o homem dos Hinos à noite. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. 89-112. Eugène. GOETHE. 1985. com o aprofundamento do eu puro ou. 38-53. os “diários de bordo”.). p. Referências ABRAHAM. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. 34. N. a Bildung do homem alemão. então. N. ABRAHAM. Individualisme apolitique. E. da poetização do universo. 1962. Segundo o Larousse. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. 135. da T. M.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. como diz Lutero. “expressão pela qual Sto. ENRIQUEZ. o romantismo. com suas difusões amplas). 1976. em suas constituições. p. p. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. 1987. é a inquietação com o cuidado. p. da T.

Picquier. 60 . 20-37. C. R. “L’Individu dans la cité”. H. “Condamné à investir”. A. Trad. ENRIQUEZ. D. 1961. Notes sur l’exotisme (1908). Psychoanalitic quaterly. BARTHES. 311-321. E. 1983. 1984. ENRIQUEZ. 1980. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. Les visiteurs du moi. DUMONT. FREUD. Paris: Payot. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. n. franc. de Minuit. EPI. Paris: Payot. E. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. L’identité. Hogarth Press. Trad. Paris: Grasset. Tomo I. ps. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 1975.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. J. Le retour du courage. S. GREEN. “Individualisme apolitique”. 34: 89112. Aux carrefours de la haine. VERNANT. p. 1987. Paris: Les Belles Lettres. Biblio-Essais. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. In: Sur l’Individu. In: Essais de Psychanalyse. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. L. Paris: Gallimard/Seuil. 1985. SEGALEN. Le sabre et le chrysanthème. R. P. de. reedição. narcissisme de mort. 1985. 1965. L. La chambre claire. Paris: Seuil. DEUSTCH. 37. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. Topique. V. A. R. 11. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 1946. J. W. P. BARTHES. Barthes par lui-même. 1942. 1982. FOUCAULT. 1962. 309-330. Narcissisme de vie. Paris: Ed. In: LEVI-STRAUSS. Paris: Gallimard. 1984. Paris: Gallimard. 1981. Paris: Seuil. nova. MIJOLLA. retomado em Nevroses and character types. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. WINNICOT. 1982. BENEDICT. In: Sur l’individu. M. 1970. Paris: Seuil. 25. Trad. M. 1987. SERVAN-SCHREIBER. Topique. 1986. GREEN. A. R. ENRIQUEZ. p. 1987.

Vamos um pouco adiante. Ora. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . São mais raras. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. mas não se está à altura de compreender. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. Um projeto comum significa. Todos sabem e reconhecem isso. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. no entanto. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). O que parece. à primeira vista. para existir. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. em um imaginário social comum. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. neste texto. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. as análises dos grupos em estado nascente. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. esse problema é capital. de início. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. no entanto. sem dúvida. Tal sistema de valores. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. pois pode-se. então.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos.

motor de nossa conduta. Não se trata unicamente de querer coletivamente. trata-se de sentir coletivamente. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. correndo esse risco intelectual e social. mas afetivamente sentidas. vigor e “aura” excepcional. a passagem é rápida. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. A ilusão deixa igualmente sua marca. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Mas esse sentimento. a nossos próprios olhos. consciente e inconscientemente. sagrado. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. da ilusão e da crença. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. Da ilusão à crença. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. Para serem operantes. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. nela. pois ela é o elemento que dá consistência. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . transforma-se logo em um sistema de crença. é necessário que. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). num grau maior ou menor. aquilo que queremos vir a ser. todo trabalho de interrogação sobre si. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. ele se apresente sob um aspecto religioso. nos inspirar. Ora.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. com uma força particularmente viva. inatacável: assim. Todo grupo funciona à base da idealização. ele pode nos atrair.

É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. sua vida). é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. consequentemente. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. em certa medida. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). toda a dúvida sobre os limites de seu poder. bem à vontade. na formação de todo grupo. Embora um grupo. deveria ser defendida como uma causa. suas práticas à da Psicanálise como um todo). eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). grandiosa ou pueril. a revolução etc. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. possa perder parte de suas ilusões. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países.O vínculo grupal (deve. abusivamente sem dúvida. A causa pode ser sublime ou irrisória. sobre a possibilidade de sua impotência. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. Todo militante político pensa do mesmo jeito. missão a cumprir. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. Todo membro de um grupo é. E isso não acontece gratuitamente. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. existente há muito tempo. Assim. o militante político arrisca. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. de maneira mais ou menos forte. verdadeiramente. para se desenvolver. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. pois. Causa a defender. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. idealização. assimilando.). todos esses termos têm uma ressonância religiosa. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. FREUD já pensava que a Psicanálise. esse não é o problema. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. Idealização. 63 .

se tornar a dissidência de muitos. progressivamente. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. caso uma minoria. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. pois. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. talvez mesmo. Eu serei menos afirmativo. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). antes de chegar a seus fins. sem exceção. isso significa que ele se pensa. Toda minoria tem. membros do grupo. um dia. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. acreditar que está com a razão. A maioria não tem jamais uma causa a defender. A maioria não tem jamais um grande propósito. Do contrário. mais modestamente. propagar-se como uma mancha de óleo e. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. no caso de sucesso. nós o sabemos. vocação majoritária: mas. geralmente. antes de tudo e contra tudo. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. algumas vezes de uma só3 . sua luta não terá alma nem razão de ser. mas direi que.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. isto é. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. Pouco importa. ela deve. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. triunfar. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. Essas pessoas sabem que. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. As idéias novas. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. queira triunfar. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. imperativamente. de uma profissão ou de uma disciplina). se representa e quer se definir como uma minoria atuante. ela deve primeiro. para se reforçar. Para isso. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode.

Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. sob certos aspectos. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. Toda instituição. Ela não visa a propor outra coisa. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. mas que um novo saber apareceu. ela é. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. Como essas representam a ordem paterna. A transgressão. A contestação. novas maneiras de ser ou de se conduzir. enfim. A Psicanálise. 65 . mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. deram certo. vista como pulsão agressiva). com efeito. Assim fazendo. enquanto elemento da regulação social. tem por objetivo questionar o sistema vigente. E na maior parte das vezes ele o é.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). maneiras inovadoras de ser. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. Para que a vitória seja possível. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. visando não à contestação da ordem existente. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. pois se funda em instituições sólidas. mas à sua transgressão. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. ao contrário. desmistificando-o e desmitificando-o. o grupo vai tentar destruir as instituições. contra um exterior percebido como tão obscuro. no passado. Assim. por exemplo. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. mas propõe novas idéias. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. explicitando o implícito dos comportamentos. mas pela luta. visando à repetição.

porém sem sucesso. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. violência fundadora de um novo mundo. aliás. graças a esse imaginário comum e não a outro. não ser rejeitado. Sem essa vontade de destruição. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. Não há complô verdadeiro. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. a não ser entre irmãos. todo grupo. FREUD. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. ao menos. Ódio ao exterior. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. deve criar um acontecimento irreversível. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. Se ele faz parte do grupo. irmãos uns dos outros. tornar seus sonhos reais. O reconhecimento do desejo Em um grupo. não obstante. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. isto é. amor mútuo. amor ao grupo enquanto grupo. em outras palavras. a priori estranhos ou rivais entre si. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. fazer-se aceito em sua 66 . identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos.

O único problema é a mais estrita identificação. O grupo. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. Assim. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. querendo formar uma comunidade. para que possam se amar. ser reconhecido como um de seus membros. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . diferenciação A MASSA Num tal caso. em maior ou menor grau. não devem ser muito diferentes uns dos outros.O vínculo grupal diferença irredutível. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. não teria podido fazer parte da conjuração. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. em seu ser insubstituível. em um grupo. às quais cada um deverá se submeter. um corpo social completo. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. Aliás. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Assim sendo. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. eles se tornarão semelhantes. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. nesse caso. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). De todo jeito. homogêneos. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. é o desejo de reconhecimento que predomina. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. se não o desejasse. eles devem se identificar uns aos outros. quer. igualmente. Essa semelhança buscada. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si.

delação. influência.A semelhança pode. face a um grupo “sorvedouro. abismo.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. Assim como. mas que. tomam um vigor particular. angústias de explosão. a falta de inovação e. a degradação da reflexão e da inventividade. de indivíduos os mais emocionais. sem que se perceba. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. Estamos. com efeito. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. sentimento de um meio hostil. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. desenvolver condutas que.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. 4.A compacidade do corpo formado vai. não parecem defensivas. senão os mais perturbados. Ocorrerão comportamentos regressivos. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. portador da “verdade” (!). Que ele se guarde da desilusão. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. LEFORT). Aliás. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. Ao contrário. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas).5 2.A falta de diferenças provoca. por ser o mais forte e o mais belo. de tipo defensivo: suspeita mútua. a partir de MARX. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. 68 . que será particularmente dura de suportar. coberto de certezas. à primeira vista. sem-fundo”. avança cego. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. no grupo. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. tomando as características de um corpo todo-poderoso. igualmente. então. O grupo. 3. progressivamente.

Se não se trata de questionar o projeto comum. em um centro de jovens inadaptados. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. como frouxos ou traidores. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. a administração. Em tal caso. de negociações rigorosas. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. O grupo se centrará em si mesmo. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa.O vínculo grupal 5. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. como a cooperação idílica não existe mas.Se. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. A tolerância existe. ao contrário. por acaso. então. (Assim. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. em certos momentos. tive a surpresa de 69 . então. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. em seu interior. os educadores. Todo mundo. ao contrário. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. No entanto. Os membros do grupo são. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. No limite. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. “níveis insuportáveis” (FREUD). A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. serão excluídos do grupo. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. de argumentações contraditórias. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. cada qual acreditando deter a verdade.

70 . pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. Em qualquer caso. é freqüente. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. Esse. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. Entretanto. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. será tentado a achar um bode expiatório. mestre do pensamento e da ação). repetição da palavra do mestre. enquanto professor. Fenômenos regressivos do tipo submissão. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). uma influência que vem do domínio das idéias. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. Para não chegar a esse ponto. “personalização do poder”. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. ao contrário. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. se torna um grupo edipiano. Nesse caso. eu deveria ter ficado menos surpreso. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. assim transformado. por isso. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. É raro ouvir professores falarem de estudantes. nos países ocidentais. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança.

Essas questões não podem ser elucidadas. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. Assim. o grupo corre o risco do fracasso. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. mas quem são os amados e os rejeitados. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. inscrever seu sonho na realidade. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. isto é. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. a única digna de ser respeitada. transformado muitas vezes em processo de erotização. para afirmar a primazia de sua posição fálica. Ora. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. Correlativamente. os grupos não podem se esquivar. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. em maior ou menor grau. podem. pois um grupo minoritário. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. para existir. o campo social. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém.O vínculo grupal Mas. mas também os fracos. se somos suficientemente amados. tornar-se majoritário. Se o grupo é bem sucedido. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. o grupo minoritário que. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. sendo bem sucedidos ou não. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. 71 . se consegue impor os seus ideais ou transformar. como já constatamos. O amor desemboca no ódio. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). igualmente. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. de todo modo. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. Com efeito. os membros do grupo estão condenados ao amor. do mesmo modo que estão condenados à crença.

Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. mas não é um resultado inelutável. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). educadores. para dizer que ele ainda subsiste. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. mas outro que está ainda para ser encontrado. Se. isto é. no entanto. o organizador do grupo. 72 . Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. por exemplo. Ela representa uma tentação constante. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. De fato. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. isto é. Muitos observadores se espantam.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. Com efeito. de outro lado. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. serão inventados segundo as necessidades e. ele vai procurar as causas de seu fracasso. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. o grupo fracassa. É preciso. além disso. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. em um processo de análise: 1. Com efeito. os marginais. psiquiatras. é o contrário que seria de espantar. se ele não provoca impacto social. Ora. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável.

serão feitas análises superficiais. em vez de favorecer o seu esclarecimento. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. às custas do mal que nutrem com gosto. e o disse muito bem. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. assim. em certos casos. Ela pode levar à dissolução do grupo. De fato. Aí também há muita ilusão. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. 2. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. de crença e de ilusão. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. há muito tempo atrás. arriscar-se a ser amado.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. 73 . tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. É importante não nos esquecermos. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. de maneira recorrente. FREUD disse isso. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. Deveríamos. Se. no entanto. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. Outras vezes. Além disso. em muitas circunstâncias. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. a tomada de consciência se produz. Ficar-se-á perplexo ao constatar que.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que.

P.U. Eugène. Um homme en trop. Bulletin de Psychologie. Tomo XXXVI. PONTALIS. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Psychologie des minorités actives. 1983. 631-637. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. “L’illusion mantenue”. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. MOSCOVICI. suas angústias e. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. “Le lien groupal”. uma solução. seus antagonismos. Ma vie et la psychanalyse. J. por dez anos. S. Nouvelle Revue de Psychanalyse. no 360. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. se dar conta de que tal tarefa é limitada. ao mesmo tempo. B. n. p. Por dez anos. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. suas relações de poder.” (FREUD. S. LEFORT. CASTORIADIS.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer.F. Cf. Segundo os termos de C. C. em caso algum. Gallimard). por José Newton Garcia de Araújo. Seuil. 2 3 4 5 6 74 . fui o único a me ocupar dela e. 4. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. mas é preciso não querer ir muito longe. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência.

tanto no Leste da Europa. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. de modo algum. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. Com efeito. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. Espero. então. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. 1985). constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. convincente e inquietante. 1983. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. Entretanto.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. os acontecimentos que se produzem atualmente. em Grenoble. 75 . Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. não deve. atualmente. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. na verdade. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. se me detive a explicitar tal proposição. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. é porque me parece que essa tendência. Devo acrescentar. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985).

igualmente ENRIQUEZ. Pois bem. ou seja. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. isso não a obriga. sob pena de exclusão da comunidade. A religião produz então o “ser-junto”. sem lhe outorgar. às vezes com reticência. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. um dogma. a crença exacerbada em um mito. além de nos sentir para sempre em dívida. sem totens. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. o papel que lhes estava destinado. As crenças. um ritual compartilhado que é preciso defender. se depurando. seja como ser coletivo). um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. A César o que era de César. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. no renascimento do (ou. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). com relação a ele. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. No conjunto. sustentadas por rituais 76 . desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. pode-se dizer que. ela nos religa uns aos outros. sem deuses ou sem Deus único). elas não colocavam mais problemas particulares. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. no entanto. de maneira privilegiada. o fanatismo religioso – isto é. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). 1989). as grandes religiões monoteístas foram. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. a Deus o que era de Deus. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. ao longo do tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. Assim. necessariamente. A referência dura se exprime para mim. Ao contrário.

passam a se desenvolver. dos padres operários. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. aspirando assim. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. ao “desencantamento do mundo”. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. Todos os homens. um estado psíquico onde o conflito não aparece. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. laicas (E. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. do declínio de uma fé sincera e manifesta. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. porque é 77 . o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. ENRIQUEZ). STOETZEL). se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. a longo prazo. na França. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. como desejava DURKHEIM. o Estado como aparelho separado. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. como medida de todas as coisas. mas à criação de religiões substitutas. não assistimos. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). a qualquer preço. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. O episódio. ARON. mas foram se laicizando. profanas (MOSCOVICI). Algumas religiões. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. Entretanto. a longo prazo. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. J. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias.

eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. os mestres. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. de serviços. Quando falo de religiões substitutas. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. 1976). pois. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). tal como a ideologia republicana. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. (mesmo se. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. então. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. A ideologia pode. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. 1963). apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. depois. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. de ideologias totais (LYPSET. de votos etc. sob a IIIa República. não como uma ideologia (quer dizer.). de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. conscientemente ou não. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. da ideologia de granito (LEFORT. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. após a morte de MARX. por ENGELS e. de fato. pois.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. É. mais ou menos fortemente. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. na França. quer sejam os pais.

quando as religiões se enfraquecem. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. representaram um papel menor na dinâmica social. projetando-o nos outros. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. substituindo-os por outros que. a converter ou a destruir. jacente em todo ser humano. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. reunidos em comunidade. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. Uma religião. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. que produzem uma cultura própria. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. indica que a seita. que já mencionei. por seu caráter absolutista. pelo sacrifício de seus mártires. É assim que ela pode formar uma cultura. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. sozinhos. como uma Igreja com seus templos. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. não pode estar na origem de nenhuma religião. na época moderna. As ideologias que eu evoco são. Mas é preciso observar que. por sua força de convicção. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. no cerne mesmo da sociedade. como as religiões. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. a negar. ideologias “compactas” que. pelo ferro e pelo fogo. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. devem estabelecer com o Sagrado. então. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). Um grupo minoritário. 79 . conseguiu se desenvolver. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. 1979). Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. que ela assegura sua identidade. em maior ou menor grau. vão se impor como lei. heréticos ou descrentes. Ela então regula essa questão central da alteridade.O fanatismo religioso e político (colonização). constituindo-se. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. antes mesmo que seja colocada.

“poetas”. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. porque a morte santifica e promete o paraíso. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. 80 . assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. (Entretanto. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. é porque os judeus. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). Em outras palavras. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. apesar de tudo. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. como heróis (no sentido freudiano do termo). seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. desenvolveu uma política de conversão). não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. no “sentimento oceânico” (R. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. É verdade que os grandes místicos. ao contrário. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. de seu lado.

obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. (Não existe. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. as liberais e as “socialistas”. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. o texto de J. sem emblemas. entretanto.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. Entretanto. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas.O fanatismo religioso e político Concluindo. que são religiões da revelação. é conveniente fazer algumas observações. Ora. na verdade. por conseguinte. ideologia sem porta-voz. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis).que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. segundo a terminologia weberiana). mas somente possível e previsível. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. 1. 81 . segundo o axioma de WALRAS). além disso. eles não podem. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). de novas características. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. ser totalmente dissociados. PALMADE). mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI.Elas se enriquecem. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. São sociedades: a. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. intensificação da produção não somente de objetos úteis. como a ideologia republicana. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. se certas condições são preenchidas. 1971). 2. tudo se vende”.

não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. no fim das contas. Nesse momento. LAPLANCHE. o capitalismo tinha uma certa legitimidade.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. (Assim. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. b. assim. o trabalho perde seu significado. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). por isso mesmo. 1967. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. ao mesmo tempo. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora.sociedades que. Assim também. 82 . quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. realizáveis. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes.sociedades que. c. enquanto criação e distribuição das riquezas. Sociedades sem pais e. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. se desembaraçar. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. d. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. concebê-lo como um inimigo ideal. seu valor se corrói. para os homens e para as mulheres. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. pensar e querer o apocalipse) e.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. “mãe das cloacas e dos brejos. da qual é necessário. 1967). já havia observado isso). de imortalidade. 1989). sua legitimidade desaparece. além do furor de não poder satisfazê-los. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria.

em particular. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. da exclusão. no Ocidente. de um proletário. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. formar uma cultura. os excluídos. da apatia. uma causa a defender. do desaparecimento de referência a toda transcendência. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. de um budista. Mas as religiões. um projeto a sustentar. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. Essa citação dispensa comentário. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. (FREUD. 1930) 83 . não oferecem mais interesse. da ausência de um fundamento. Se não somos nada além de um espartano. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. Contra o mundo perverso. só há salvação na paranóia partilhada. O indivíduo desaparece. da corrupção). Daí se seguem três conseqüências. os “desgarrados”. os irmãos e os adversários. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. permanecer na certeza e. no limite. A religião reclamada é a religião absolutista. O que desejam os deserdados. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. da miséria. da loucura. aquela que designa claramente os aliados. Eles querem se tornar um “Nós”. se sacrificar. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. os esquecidos. aquela que cria uma identidade coletiva. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. de um capitalista.

então.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. como seres a eliminar. É certo que. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. nos diversos países. tais como as descrevi acima. Não esqueçamos. para ela é uma impureza?”. a criar um mundo novo. ENRIQUEZ. o inglês fala tudo de ruim do escocês. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . uma imensa massa de homens. para isso. elas exigem a super-identificação à causa. da sedução ou da coerção). O desenvolvimento do fanatismo. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. pelo menos. no entanto. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. liberado finalmente do mal. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. o espanhol despreza o português”. o super-investimento no projeto. livre do mal. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. ou seja. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. O fanatismo visa. anunciador de um mundo novo. 1984). Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. além disso. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. sua conversão. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. Quanto mais uma cultura quer se unificar. o que é um alimento.

para unificar os corações e os espíritos. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. a se tornar dominantes (por exemplo. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. fundamentalista. resulta. o Azerbadjão. por sua vez. o essencial: a dimensão política. Ou seja. no máximo. para que o fanatismo se fortaleça. sozinho. É por essa razão que meu texto tem esse título. O fanatismo religioso é. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. assim. o sinal de seu enfraquecimento. O fanatismo religioso. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. na hora atual. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. o Irã). regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. São Estados. Retomemos esses dois pontos: 1. é preciso lembrar que. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). que essa renovação fanática traga proveito a alguns. um instrumento a serviço do fanatismo político. mas. É preciso. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. primeiro e antes de tudo. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. E nós tocamos. sem dúvida. Síria).O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. ainda. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica.

judia.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). na retomada das negociações na Nova-Caledônia. protestante. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. muçulmana) na vida cotidiana da França. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. c. Irlanda do Norte. em nossos dias. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. sob uma forma fanática. do qual eles não saberiam o que fazer. b. judias). ela pode ter como papel: a.redourar o brasão das religiões tradicionais. interdição de pensar (Polônia. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. Loja P2. forçosamente. certos grupos religiosos em Israel). Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . cristãs. se ela se extingue. 2. na França. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. que querem fazer valer sua palavra. nos quais não existe senão um fraco consenso. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. o convite a alguns líderes protestantes. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. Se a aliança persiste. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . das comunidades islâmicas. ela designará os vencedores e os vencidos. lepenistas. Nesse caso. destruição cultural. Eglise de Scientologie). a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. Países Bálticos. Alemanha do Leste.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria.A religião não se apresenta. Communione e Liberazione.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. na regulação dos Estados modernos.

ao contrário. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. 1. ao invés de processos de sublimação. cada vez mais freqüentemente. suas dúvidas. o religioso. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. a falta de sentido. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. desde o início dos tempos modernos. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. para terminar. o caos e o abismo. paralisar a atividade de mentalização. ele tenta. Mas. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. De fato. prontos a afrontar o absurdo. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. sem fim. não é o caso de superestimá-la. mas que. Os homens aprenderiam. sem recorrer a referências seguras –. nesse caso. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. Eu gostaria. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. nascida desse trabalho árduo. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. de precisar meu objetivo. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. com a ajuda de seu Deus –. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. o Estado leigo faz apelo. finalmente. de reflexão e de reflexividade. Se essas são capazes de inventar novos projetos. antes de tudo. laborioso. 87 . como no exemplo de KHOMEINY).

) 2 88 . em si mesmo. a ideologia. quando a ideologia dura impede o livre pensar. quando o religioso se põe a serviço do político. Por outro lado. então a reflexão desaparece. no outro. nos fenômenos sociais. sob pena de cair. na armadilha que denuncia. “Le fanatisme religieux et politique”. uma vez que elas são. Ora. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. por Leila de Melo Franco S. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. Connexions. Os valores religiosos. nos seus interlocutores e. a perversão ou a paranóia triunfam. que a religião. Eu não quis dizer. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. Eugène. devem ser levados em consideração. antes de tudo. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. Araújo. efetivamente. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. ideológicos e nacionais. n. Ela lhes é consubstancial.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. T. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. 55. se ele não faz esse trabalho. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. tão fácil e prazerosamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. tanto quanto outros tipos de valores. naturalmente. 1990-1. Ela assume então o papel de desalienação. 3. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. Se. na América do Sul). Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. do fato nacional. ela lhes permite tomar iniciativas. “A última tentação de Cristo”. em nenhum momento. do fato ideológico. (N. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. p. 137-149.

Seuil. S. “Malaises dans les identifications”. LEFORT. 1979.(1930) Malaise dans la civilisation. n. Essais d’ethnopsychiatrie générale. 1984. 1973. E. 1987. 1989. (org. G. Seuil. PUG. sobre o fanatismo hoje.). Présentation de Sacher-Masoch. “La défense et l’Interdit”. In: La NEF. 1967. n. S. L’homme et la politique. J. ENRIQUEZ. “Notations sur le racisme”. C. PUG. 54. ENRIQUEZ. . Épi. Eres. 1985. 1963. G. CASTORIADIS. 48. ENRIQUEZ. PUF. Y. La monnaie vivante. 1989.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. Cl. KLOSSOWSKI. 1976. Au carrefour de la haine. P. E. 1971. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. LYPSET. S. Psychologie des minorités atives. ENRIQUEZ. M. 1967. 1985. 1971. janeiro. DELEUZE. DEVEREUX. L’autonomie sociale. FREUD. E. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. PUF. Un homme en trop. LAPLANCHE. MOSCOVICI. Epi. Connexions. In: Autonomie sociale. Editions de Minuit. 89 . Connexions.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

de outro lado. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. vividas pelos dirigentes. A escolha da região do Cholet. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. de um lado. vestuário. individual e coletivo. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. seus produtos. alimentação. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. incessante. são exportados para todo o mundo (iates. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores.CONJUNÇÃO. já havia sido notado por vários pesquisadores. em plena Vendée. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. por exemplo). de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. uns nos outros. calçados etc. NA EMPRESA. que 91 . como elas podem morrer.2 Tais reflexões mostram. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. como elas se desenvolvem. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. sobretudo. e o conservadorismo social e cultural da região..

para si próprios. sua história. depois. que tais entrevistas. seu futuro. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Assim. ou ainda. diferenciações. de seus projetos. com efeito. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. ao produto. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. suas dificuldades. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. isto é. pudemos pôr em evidência certas constantes. Uma tal aventura. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. evocava neles. Em outras palavras. Não se trata. 92 . que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. Tendo analisado esses depoimentos. segundo um método comparativo. à antigüidade. clivagens. desde sua origem até o momento atual. é. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. convidados a falar a respeito. como objeto no discurso dos dirigentes. caso a caso (empresa a empresa). mas a empresa como objeto psicossocial. num primeiro momento e.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. que são ao mesmo tempo seu principal tema. Ou seja. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. era. entretanto. o qual é vivido como o fundamento da empresa. a partir de sua criação. ainda que solicitadas por nós. entretanto. de suas dúvidas. para nós. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. sobre aquilo que a empresa. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. a partir de suas lembranças.

A terra Essa referência é onipresente. suas tradições e a 93 . argila. também. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto.o ofício ou o produto. embora todas tenham dependido. com o território (nome das cidades. quer se exprima pela relação com o solo. quer dizer. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. podem ser resumidas da seguinte maneira: . Nesse último sentido. .a família. cuja combinação constitui o sistema de sustentação.) que se trabalha ou. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. a terra ou a região. a partir do qual elas podem se desenvolver. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. aquilo que é ligado aos locais físicos. de Bocage.Conjunção. de maneira mais abstrata. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. . aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. na origem. locais e regionais. geográficos. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. na empresa. nota-se que. ou ainda. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. a regiões de Mauges.a terra ou a região. Essas três entidades. quer dizer. de maneira mais extensa. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. sua cultura. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. De maneira mais geral. com freqüência até mesmo joint families. de um projeto pessoal e familiar. quer dizer. quer dizer. conceitos verbais. grão etc. histórica e sociológica. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. com a região (no caso.

bem como uma fonte de riquezas. a empresa é um projeto de família. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. vira tudo uma máfia”). em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. no sentido concreto. tanto no imaginário quanto no real. mas também um sentimento de segurança. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. na maior parte dos casos. Antes de ser um projeto pessoal. não se pode fingir”. atividades e lucros organizam-se em torno dela. em nome de uma certa ética. nas relações e atitudes: assim. A família Tratando-se. físicas e morais. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. “não ficar falando abobrinhas. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. contribuindo para o renome da cidade ou da região. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. A “região”. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. Desse ponto de vista. um conjunto de obrigações e de restrições. eis nosso jeito fazendeirão”. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. em caso de dificuldade. “a terra”. constituem então. de empresas familiares. simultaneamente. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. 94 . A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). mas também no metafórico. assim que ultrapassamos a fronteira. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. o lugar dessa é aí dominante.

Compreende-se. geralmente. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. 95 . de um projeto pessoal e familiar. na empresa. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). num primeiro tempo. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. descartado. sendo um dos dois sexos. quer dizer. então. As estruturas e as relações de poder são. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). “sociedade de família”. como “a realização de seus antepassados”. por um lado. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. Como se pode notar. Naturalmente. mas também nos fatos reais. inclusive para outras aglomerações. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). na sua origem. é certo.Conjunção. onde empregados e patrões podem comer juntos. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. ainda. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. SA. A presença da família e de seu passado se traduz. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. fortemente personalizadas. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. então. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. Assim. de papéis e de procedimentos formais. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). “sociedade familiar” ou. no início. designada como “negócio de família”. “empresa familiar”. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. de fato. as relações de autoridade. inclusive com empregados. Da mesma maneira. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. sendo também imagem das relações de parentesco. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. entre os bens e os dividendos pessoais. seja pelos homens (os filhos). e o capital e os salários. de outro. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados.

numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. um elemento de coesão e também uma limitação. transmitidos de geração em geração. lenços da região do Cholet. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. A história da empresa é assim. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. casamentos. a maior parte das vezes. –. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. o produto Em função de sua origem artesanal. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. rupturas. Apalpar essa matéria.. uma inspiração. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. da receita ou do jeitinho de fazer. com os acontecimentos familiares – mortes. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. seus vizinhos. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. os sindicatos independentes são mal tolerados. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. Nessas condições. O ofício. Assim como para a referência à região. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. Está diretamente associado às mãos do artesão. uma fonte de problemas e de conflitos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. couro etc. freqüentemente. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos.

com efeito. cujas partes. profissionais. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. o ofício. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. em desligar aquilo que estava ligado. à terra. para o dirigente. ele supõe a adoção de atos concretos. não em negar.Conjunção. sangue ou mãos). De fato. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. Sua história. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. eles formam então como um bloco compacto. Consiste. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. que asseguram sua identidade e a base da empresa. essas três bases – ou instituições primárias –. Entretanto. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. para garantir as evoluções indispensáveis. estão imbricadas umas nas outras. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. transmitido de geração em geração. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. o marketing etc. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. Juntos. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. não são entidades independentes. trata-se de um conjunto extremamente coerente. encarnada na pessoa do fundador. pelo menos em parte. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. vêse então que. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. constatou-se. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . –. na empresa. de um projeto pessoal e familiar. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. Esse processo não se realiza sem problemas.

a passagem do negócio de família à sociedade anônima. de produções. b. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. de estruturas de necessidades e de motivações. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. De maneira mais precisa. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. com efeito. principalmente. PARSONS: do particular ao universal.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. do pessoal ao impessoal. exigindo. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. Nos termos de T. a transferência física da empresa para outros locais. PARSONS. isto é. essencialmente. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. ao longo de toda a história da empresa. O ponto de chegada de tal processo. investimentos em máquinas e em locais especializados. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. de valores ou modos e redes relacionais. da afetividade à separação. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início.a industrialização. portanto. da proximidade ao distanciamento. Esses três movimentos resumem. do herdado (ou do dado) ao adquirido. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. consiste em passar de um sistema social a um outro. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas.o deslocamento. elaboração de uma organização e. seu objetivo. isto é. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. 98 . c.

as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. ou ainda: “das famílias na sociedade. em contrapartida. se 99 . Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. Enfim. obrigado a repartir o poder com outros. ele não pode assumi-las todas e é. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado.. com efeito. de um projeto pessoal e familiar. de acordo com regras precisas que excluem. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. que põe as contas em ordem. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. a partir de então. então.. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. adquirir as competências ligadas à gestão –. pode-se dizer (. bem como uma administração capaz de a gerenciar. freqüentemente. O envolvimento da família é.Conjunção. bem como na composição do Conselho de Administração. máximo. a entrada em cena de um contador. regidas segundo técnicas e métodos importados. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. na empresa. sua principal razão de ser – ele deve.

com efeito. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. principalmente entre os (jovens) dirigentes. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. o que permite. mostra-se assim sempre indispensável. pela definição de papéis e critérios decisórios. –. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. portanto. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. colocados numa situação extremamente conflitiva. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. como para qualquer chefe de empresa. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. melhor formados) e a da clientela. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. a estrutura de pessoal (mais jovens. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families).Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. portanto. Eles são. por conseguinte. podendo implicar até em falência. pois. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. Esse processo não se realiza de uma só vez. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. freqüentemente. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. sócios etc. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . Progressivamente. É. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. pela instauração de regras explícitas e. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. mas. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. geralmente fora da empresa. Esses estão. transformando as relações de poder e os modos de pensar. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. ela se baseia em competências que eles adquiriram.

é importante para reduzir. além disso. outras exigências. – e o questionamento de vínculos anteriores. E. permitindo administrar as contradições. para si próprio como para o ambiente é. encontramos respostas extremamente diversas. por exemplo. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. outras aspirações. uma tomada de distância em relação à terra natal. no entanto. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. Para essa questão. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. Se o deslocamento para outra região. Outros se orientam para soluções. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. outros modos de relação. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. Em todos os casos. necessariamente. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. mas permitindo a sobrevivência da empresa. Trata-se. de um projeto pessoal e familiar. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. nesse caso. bancos etc. na empresa. o solo no qual a empresa se situa. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. portanto. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. Se. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. isto é. pois.Conjunção. ou mesmo para o estrangeiro. manter uma qualidade de vida e de trabalho. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. como uma espécie de traição. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. preservar uma base local. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. considerado preferível a uma expansão sem significado. a empresa adotar uma estratégia de exportação. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. 101 . É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. renunciando a uma expansão possível.

cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. emerge assim uma organização. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . produtividade. com efeito. As relações diretas. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. são substituídas por relações secundárias. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. as pessoas ou os hábitos de pensar.). uns sobre os outros. indiretas. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. mais ou menos importantes. e de rupturas que essas provocam com o lugar. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. SUA terra. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. por exemplo). Todas as empresas. portanto nitidamente diferenciados e interligados. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. no entanto. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. mercados. ou ainda. que manifestam um crescimento sensível. taxa de crescimento. a rachar. entretanto. por regras ou por técnicas. que supõem prazos e contatos (redes etc. assimilado a um trabalho de luto. uns em relação aos outros. etc). por exemplo. Como conseqüência de decisões. Seria. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. criar vínculos de dependência com eles. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. situadas em regiões economicamente mais propícias. ao mesmo tempo. face a face. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. admitindo divisões e separações. no sentido pleno do termo. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. margem de lucro. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. é pois. então. evitando. no entanto. mais eles se autonomizam. algumas das quais podendo se situar alhures. ou ainda. SEU ofício que dá corpo a ele. é SUA família. Quanto mais eles se ampliam. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. desenvolver uma rede de sub-contratantes. é ele. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. Um tal processo pode ser.

uma tensão permanente. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. na empresa. do clã. 1990. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. com o título Inconscient. Região situada no oeste da França. Mourão. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. constitutivo do sujeito. Toulouse. no entanto. Se. por Júlio M. Paris. que é o seu fundamento. de sua consistência.) 2 103 . (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. despregar-se. existindo para e por si mesma. collectif). é impossível. de sua unidade. ficando na ilusão de sua existência. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. André. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. organisation sociale. de negar aquilo que é. (N. sua ancoragem biológica. ele deve sempre compor com o nível primário. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”.T. 1991.(mimeogr.Conjunção. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente.). de um projeto pessoal e familiar. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. desprender-se inteiramente. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. A instituição é um processo. sob pena de perder o contato com o real biológico. sua fonte energética.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

como o evidencia Nicolaï. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. com o seu corolário. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. No momento atual. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. as mudanças essenciais 107 . o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. LÉVY e A. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. aparentemente.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. a fim de que as sociedades possam. finalmente. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. Essas transformações devem. quais são os problemas realmente essenciais. verdadeiramente. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). LÉVY. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. etnias. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. possível. o triunfo da racionalidade experimental. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. sobretudo. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. então. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. grupos religiosos etc. os “intermináveis adolescentes” citados por A. Todavia. Entretanto. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. NICOLAÏ. NICOLAÏ). ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. um trabalho de tal monta é necessário e. mais eficazes e mais rápidos. No espaço até então ocupado por ela. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. de forma responsável. pois.

não surgirão de tomadas de decisões formais. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. para tanto. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. quando anunciaram. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. pelas interações entre sujeitos. antes de mais nada. Nesse sentido. na prática social. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. capazes de contribuir. também. Essa disciplina deverá. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. como o fez Touraine. Esse processo é longo. interessar-se mais pelos movimentos sociais. o “retorno do ator”. 108 . Ao contrário. igualmente. portanto. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. É importante ainda mencionar outra questão. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. Mas. sujeito).Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. como têm sido feitas. No entanto. Será. Os sociólogos não se enganaram. e não a nível global e em regiões centrais. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. seja para a sua involução. LÉVY: as verdadeiras mudanças. desde a sua criação. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. Seguindo essa via. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. na atual crise pela qual passa o Brasil. levantada por A. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. com freqüência. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. na relação e pela relação. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. prováveis de ocorrerem na sociedade. Ela poderá. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). seja para a evolução social. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. LÉVY). quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. dar atenção especial à conversação e ao debate. realizando um genuíno trabalho psíquico. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. suas instituições e seus diversos grupos sociais. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. ritualizadas.

nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. é porque me parece que. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. Se me decidi a escrever esse texto. E isso se traduz em um interesse.2 o envelhecimento. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. malgrado as aparências. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. com efeito. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. no início dos anos 60. seríamos tentados a pensar que. no modo de compreender as organizações e as instituições e. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . ainda. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. na acepção forte do termo. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. nem sempre bem sucedido. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. forçosamente. presente em muitos meios. – tudo isso parece indicar. e observando-se toda uma série de sinais.

senão a única. a análise organizacional. os métodos centrados na expressão corporal. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. não apenas a inquietude e a interrogação. de viver de outra forma. por exemplo). ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. mais recentemente. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. que evidentemente não é exaustiva. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. em função do que lhes parece ser necessário. Essa enumeração. como todo fenômeno de moda. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva.. uma após outra. 110 . elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. Parece-me igualmente que. em um determinado momento. Embora durante alguns anos. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. em seu conjunto. elas tenham podido ser a referência principal.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. para os atores sociais e para muitos práticos. desde o início dos anos 70. uma após outra. retomando termos de E. Em outras palavras. constituem. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. o que tem como conseqüência que. de ter prazer. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. pode-se citar a análise institucional.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. a análise transacional e. ou. primeiro. elas têm em comum o fato de terem pretendido. mas a vontade de inovar.. para os atores engajados na ação. Mas importa. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. É certo que a maior parte delas não desapareceu. Entretanto. ENRIQUEZ. enfim. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher.

no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. fazendo assim. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. meios que ele controla. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. incertos e custosos. pelo menos – desses métodos: a. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. efeitos espetaculares em uma instituição. eles se comparam.). LEWIN e C. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. ROGERS (resolução de conflitos sociais. na verdade. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. por não lhe deixar escolha. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. desse ponto de vista. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). por exemplo. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. auto-realização.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). com ambições mais limitadas e incertas. a outros métodos mais longos. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. então. Dessa forma. 111 ..) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. É praticamente certo que a análise institucional. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. intenções que. ao mesmo tempo.. Em outras palavras. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. com vantagens. Certamente. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial.

condenado a ser rejeitado. se possível. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. há que se lembrar. então. a um “ator” ou a um “agente”. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. especialmente a necessidade de tempo. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. dominada por relações mercadológicas e seus valores. aparecendo em utensílios. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. Essa tendência já estava presente. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. não garante nem assegura nada. automaticamente a problemas delimitados. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. o sistema de ação concreto de M. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. mas também nas orientações cognitivas. Tal fascinação pelo que “funciona”. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. 112 .Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. concomitantemente. Embora ocorram desvios. então. tudo isso é.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. e que. evidentemente. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. Nessa perspectiva. “sistemas” (por exemplo. reduzido. “enquadramentos”. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana.

endereçada a um outro. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. reciprocamente. toda história singular. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. Assim. Se.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. Entretanto. Assemelha-se. isto é. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. combinada então a pressões mais ou menos fortes. então. a demandas por respostas e soluções. inscritos em uma história coletiva que. A demanda expressa. reciprocamente. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. que podem. Nesse sentido. nesse caso. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. um objeto. No que nos diz respeito. no registro econômico. a demanda é. tal distinção não nos parece desejável pois. demanda de encomenda – LOURAU. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. necessariamente. O conceito de demanda social Com efeito. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. entre a demanda e a encomenda. está próxima à noção de encomenda. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. por isso mesmo. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. há quem quis diferenciar. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. ao contrário. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. no limite. no sentido de ordenar ou encomendar. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). uma grande parte de sua riqueza. assimilá-la a uma encomenda. podem-se percorrer todos os graus. uma 113 . mais ou menos explícitas. é eco de acontecimentos sociais. retira-lhe. implicando um bem. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. progressivamente. especialmente. sem risco. assim como uma relação de troca. com efeito. uma demanda de objeto. Primeiramente.

a “demanda” só tem sentido e só existe. seu tratamento – é. freqüentemente ou sempre. sua interpretação. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. É. não é uma demanda de objeto. na acepção própria do termo. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. mas a expressão de um desejo. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. uma certa relação de poder e de dominação. explicitada pelo objeto que designa. seja de reconhecimento ou de amor. pelo menos em um segundo plano. 114 . Ele não é evidente. Por essa razão.. na Psicossociologia. objeto material etc. a demanda é facilmente interpretável. No limite. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. em contrapartida. trata-se de uma demanda de amor. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. sua interpretação é sempre problemática. tudo isso não é específico da Psicossociologia. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. precisamente. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. Ela se torna real por essa e nessa relação. então. necessário indagar a respeito de seu significado. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. mas como social. durante um processo de consulta ou de intervenção. seja em um quadro terapêutico. a demanda é considerada não como individual. dificilmente é formulada como tal. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. Certamente. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. em demanda de outra coisa – conselho. inclusive e sobretudo por quem a formula. Entretanto. no primeiro registro. principalmente. pois o qualificativo “social” tende. marido e mulher etc. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. é que. a questão da demanda – sua escuta. aí. Enquanto é apelo ao outro. de uma falta. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. no segundo. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. inversamente. solução. o que lhe dá riqueza e complexidade. Se.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). disfarçando-se. Nesse caso. ajuda. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado.

estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. mas também de permitir interpretá-las. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando).). Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. de uma maneira ou de outra. eventualmente. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. testemunhado através de seus escritos. não há nada em comum com a posição de simples espelho. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. exprimem-se sob formas coletivas (greves. de outro. manifestações agressivas ou angustiantes etc. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. reflexo interpretante. nas quais elas podem ser avaliadas. Porém. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. meios de resolver um conflito etc. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Ao contrário. compreendidas e interpretadas. Como conseqüência. quis ou “demandou”. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. é necessário que ele tenha se manifestado. mesmo que seja de maneira difusa. De um lado. a solicitou. Em outras palavras. Assim. de dependência ou de submissão. que sua prática não é aplicação de uma 115 . mobilizadas. das quais resultam vivências compartilhadas que. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. às quais é difícil resistir. por sua vez. as quais. podem ter efeitos nas situações que as originaram. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. atos e palavras. transformadas em atos. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor.

Assim. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. DUBOST. mas através de princípios regendo procedimentos. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. individuais e coletivos. na falta de outro termo. da mesma forma. Desse ponto de vista. tudo isso expressa bem o que. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. Entretanto. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. não é possível. toda análise em termos de relações bipolares. Evidentemente. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão.. mas que traduzem um desejo. uma ética. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. desde LEWIN. um serviço administrativo. Tal representação exclui. alguns pontos nos parecem determinantes: 1.6 como oportunamente evocado por J. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. entretanto. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. principalmente. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. confessáveis e tratáveis. independentemente das outras com as quais ela se articula. uma concepção da sociedade e das relações humanas. uma classe de atores etc. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. parece-nos ser uma ética. uma empresa. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. uma perspectiva – que.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. enigma. ao contrário. um grupo. Esse ponto. consequentemente. no espaço desse artigo. a noção de sistema é bastante útil. Trata-se. afirmar que elas são. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. com a condição. interagindo entre eles.

3. J. antecipadamente. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. em especial. aplica-se também à Psicanálise. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . em especial. é importante que todo ator e. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. igualmente.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. LEWIN. e sendo breve. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). Assim. Evidentemente. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. 2. instrumental. trata-se de tentar definir. sem o perceber. ao mesmo tempo. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. a fortiori. identificar os dados. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. dessa forma. Sem dúvida. por K. A introdução. Desse ponto de vista. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. em uma relação de colaboração. por exemplo –. desde o início da ação de intervenção. o interventor-pesquisador contra o risco de.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50.Por outro lado. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. Em suma. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. então. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e.7 Porém. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além.

brevemente. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. Da mesma forma. embora não suficiente. FAVRET-SAADA. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. Entretanto. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. em seguida. questionar. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. consideráveis nas últimas décadas. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. assim como observar. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. FAVRET-SAADA. algumas tendências atuais. é impossível. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. É indispensável. da sociedade e das ciências do homem. 118 . de qualquer jeito. “saber como se foi apreendido”. nos termos de J. parafraseando J. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. uma orientação. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. investigar. elas expressam antes uma perspectiva. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. Igualmente. reafirmar essa posição e manter-se nela. então. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. tentando identificar.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. então. Embora seu enunciado seja necessário. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças.

assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. de uma forma diferente. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. hoje. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. Em todo caso. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. por perspectivas lewinianas. há alguns anos. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. etnometodologia. impõe-se: qualquer que seja o domínio. dominados principalmente.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. análise conversacional. no início do texto. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. até então. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. dedicaram-se. Por outro lado. convergências. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. de análise de grupo. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. Finalmente. Assim. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. desde os anos 60. certas correntes de Sociologia Clínica. rogerianas e morenianas. Mostram. não é mais aceitável. com uma perspectiva bem global. assim. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. de ordem geral. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. é impossível. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. talvez rapidamente demais. a problemas de mudança social.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa.10 Mais recentemente. cada vez mais evidentes.

E. 10 120 . Paris: Seuil. 1987. 1978. JAQUES. trabalhadores sociais. TROGNON. e LÉVY. DUBOST. les sorts.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. ATLAN. 1990. J. 1989. e de representações específicas de objeto. 9-18. 1984. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. por vezes fundamentais. Dunod. 1973. “Connexions”. PUF. Por exemplo: ANZIEU. Y. J. 1972. D. DUBOST. Como exemplos: BARUS. 1978. Paris: Seuil. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. Changements. Paris X. 1977. Dunod. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. Recherches sur les petits groupes. PUG. “Ce que parler peut faire”. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. Seuil. nos anos 60 e 70. O. Entre le cristal et la fumée. J. Le sujet social. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. paradoxes et psychothérapies. Connexions. muitos outros atores apareceram: formadores. E. 7 Cf. “L’analyse sociale”. 42. sindicalistas. La voix et le regard. BION. G. 12 BORZEIX.N. C. PUF. A. LÉVY. Façons de parler. arquitetos etc. 1965. J. Seuil. Seuil. La société du vide. Le groupe et l’inconscient. 53.. responsáveis políticos locais. A. La parole intermédiaire. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. “Eloge de la psychosociologie”. Sociologie du Travail. e CAMUS-MALAVERGNE. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. BEAUVOIS. Tese de Doutorado. L’intervention psychosociologique. 11 TOURAINE. “Coopération et analyse des conversations”. J. 2 4 5 WATZLAWICK et al. FLAHAULT. Gallimard. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. H. Les mots. 1985. e BAREL. In: ARDOINO et al. L’observation de l’homme. W. Connexions. 3 ENRIQUEZ. 1984. E. DUBOST. Payot. 1983. 43. R. 1987. 1979. 2:87. L. Minuit. Dunod. 1979. André. L’intervention institutionnelle. p. 1987. 1981. 1975. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Situations de groupe et relations langagières. la mort. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. Em especial. R. L’Harmattan. LECLERC. J. O problema da mudança individual. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. CHABROL. RAPOPORT. GOFFMAN. e JOULE. 1987. 6 8 9 FAVRET-SAADA. 7. Connexions. Intervention et changement dans l’entreprise. A. 17. In: Du discours à l’action. A. 1980. A.

interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas.4 Essas evoluções. em nenhuma das duas. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. o segundo 121 . é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. no campo que nos interessa. tendência. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que.3 sobretudo nas Ciências Humanas.2 Mas. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. depois de LEWIN. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. certamente. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. retorno a uma problemática do indeterminismo. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. Entretanto. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. mais do que como fenômeno excepcional. também. em contrapartida. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. de forma mais ou menos clara.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social.

Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. mas que ela poderia se realizar. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. ele permite. por isso. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. recristalização). no grupo (na relação e pela relação. iria reificá-lo. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. muito fecundo. como demonstramos num texto anterior). de súbito. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. Antes. 122 . compreendê-la como tal. hoje. prever. por definição. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. de uma leitura psicológica. participando delas diretamente. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. para as constatar.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. aquém ou além.5 Além disso. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. Nesse terreno. dirigir ou combater. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. parece-nos possível. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. definitivamente. aqui. necessitando ser aprofundada. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. com efeito. com efeito. deslocamento. LEWIN. porém algumas observações prévias: a. isto é. necessariamente.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. do interior e não de um ponto de vista exterior. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. K. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. Assim.

9 a mudança. mutações. ela é um acontecimento subjetivo. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . a mudança é um acontecimento psíquico. Com efeito. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. tecnológico –..8 Com efeito. A mudança é um trabalho do espírito.. reprodução das idéias. reprodução das instituições. físico. é acontecer. nem todo processo discursivo se identifica. No entanto. freqüentemente não isentos de violência. reorientações bruscas. A teoria dos sistemas distingue.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. tal definição é geral demais para ser útil. designar tudo o que está vivo. não se reduz a esse processo evolutivo. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. Toda vida é “repetição de ciclos”.).) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. escrevia Paul VALÉRY.. ao risco (. porém.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança.. O termo mudança poderia. o desenrolar de uma existência. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. redirecionamentos. seja a de um indivíduo ou de um grupo. Com efeito.. é sobre essa segunda significação de mudança. entretanto. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. também. a um processo de mudança. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. desse ponto de vista. é o espírito que...A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. pois. à aventura. eles não podem ser previamente enunciados.. lento e ininterrupto. como observou Paul VALÉRY... Como já dissemos.). (. econômico. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. Ele se traduz. Antes de ser um acontecimento objetivo. legitimamente. é se abrir a uma história. “exceto do corpo que se usa”. que queremos nos centrar aqui. que é a morte) – reprodução das espécies. assim. como ruptura.

Para entender bem essa proposição. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. das instituições. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. a liberdade”. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. ao nível de suas significações. ao contrário. dos modos de pensamento. o lugar da mudança. Por exemplo. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. antes de tudo. depois de LEWIN. ainda.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. se o ato é fundador. por um trabalho do espírito. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. os psicossociólogos. ao contrário. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. As condições materiais. então. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. objetivas. um trabalho de pensamento. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. em todos os níveis. isto é. Ou. ele o é apenas se fizer sentido. Fazemos. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. 124 . todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. A decisão: momento. por excelência. representações ou intenções e os que estimam. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar.

13 acentuamos o ato arbitrário. do feminino. em sua época. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. inicialmente. só pode ocultá-lo. então. Os processos de decisão analisados por LEWIN. o “golpe de força” na origem de toda organização social. com o risco de sua própria desagregação”. para chegar ao processo secundário e criar o real. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. renunciando. por exemplo). “operando uma disjunção violenta. Por isso. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. por si própria. um salto para o desconhecido. uma situação nova e envolve inteiramente.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. da ordem do real-concreto-sensível.12 A decisão seria. a divisão. em suas opções e em seus desejos fundamentais. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. a organização social. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. em um trabalho anterior.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. 125 . ao mesmo tempo. por si. Somente a decisão pode fundá-lo”. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. da continuidade sem hiatos. da duração (bergsoniana). GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. o tempo. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. o psicanalista W. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). LEWIN. necessariamente.

mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. Se o sujeito que 126 . a decisão é. Um ato. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. simplesmente. um ato de palavra. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. quer sejam. Mas. em si mesmo. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. Mas.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. que uma decisão necessariamente modifica. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. não pode significar uma mudança. qualquer que ela seja. não muda nada.. de forma mais importante ainda. econômicas ou sociais. nem que a palavra seja onipotente. Isso não significa. manifestação da vontade de produzir. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. é o mesmo sujeito da enunciação. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. evidentemente. Toda decisão é. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. apenas por seu enunciado. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. como que por mágica. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. ao mesmo tempo. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. por seu conteúdo informativo e prescritivo. tomados como testemunhas.. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. mas porque é um ato público. modificações na realidade. O sujeito de tal enunciado. isso significa que uma escolha. assim. explicitamente designado.” é um ato “ilocucionário explícito”. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. pois. as situações institucionais. retomado ou reinterpretado. assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. pois ele pode sempre ser desmentido. simplesmente. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima.

É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. o jogo de hipóteses. igualmente. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. eles próprios. como muitas vezes ocorre. para um processo de mudança. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. Então. interpretação e prática de análise social No entanto. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. esconde mal. do imaginário. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. bem antes do livro sobre Moisés. formal e. a uma atividade lúdica ou de encantamento.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. como diante da morte –. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. a respeito do herói. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. inelutável. e de abandonar o terreno do possível. sem apreender o real? 127 . sob a má fé dos argumentos. conscientes ou inconscientes. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. vazios de sentido e sem conseqüências. Aqui. Nesse sentido. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. não se reduzindo. rituais ou emblemáticos. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. efetivamente. para fundar o real. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. talvez mais do que em qualquer outro momento. entre as possibilidades. Decisão. os desafia. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas.

serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. sendo difícil. Esses sistemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. feita pelos psicossociólogos. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. P. mas. implica um risco e um custo. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. Mas ele pode. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. Certamente. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. ainda que não tenham conhecimento disso. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. ela é necessariamente parcial e partidária. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. para fazer a história. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. igualmente. como toda decisão. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). certamente. Seria importante. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. FAYE15 as analisou. certamente. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. termo que. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. com efeito. tais como J. Assim. senão impossível. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. possuem as características do relato histórico. ao mesmo tempo. 128 . como observa FAYE. escapar dessa eventualidade. incontestavelmente. O trabalho sobre as resistências. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas.

É aqui que uma concepção por demais rígida. uma parte da verdade comum. assim. sobretudo. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. mas tende a afastá-las. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. de uma mesma “realidade”. que eles constituem visões diferentes. ao contrário. ideológico. então. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. do risco de uma interpretação verdadeira. essas diferentes visões e o que elas ocultam. visto que essas. muitas vezes. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . diz-nos LEGENDRE. subtraído do tempo”. práticas contestadas ou abordadas. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. contribui para reforçar seu caráter dogmático. em um processo de reificação de enunciados fechados. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. longe de se fundamentarem no “real”. das condutas às quais elas se referem. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. cada um. justificando. no inconsciente dos sujeitos. pois. que preserva o analista social da decisão. mas complementares. contentando-se em esclarecê-los e. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. “nascendo. mas sua coerência. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. mais ainda. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. atuem diretamente no real. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. o texto. bem claramente. não podendo ser traduzidos em decisões.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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então. colocam outros problemas. Eles se referem a sistemas autônomos. em 1950.Os conceitos de auto-organização. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. são simultaneamente (cf. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. autopoieses. constituindo-se. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. cujos elementos. supra) agidos. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. 2. capazes de se auto-regularem. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. os novos conceitos e hipóteses. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. não restavam mais que 10 000). literalmente. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. o que não é o caso dos elementos físicos. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). em 1900. pois. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. químicos ou biológicos. as crises econômicas foram. a partir do século XIX. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes.Rupturas. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. Assim. *** Quais são. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. como crises momentâneas de coerência. por isso. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar).Inicialmente. ou seja. oriundos de outras áreas. Nesses períodos. os atores. atores e autores do seu sistema. autogeração etc. face a “ruídos” provenientes do exterior. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). autocriação. mas abertos ao seu meio ambiente e. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. inicialmente. isto é. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. isto é. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes.

de um lado. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera).2 por exemplo). Nesse ínterim. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. por conseguinte. Mas. de outro lado. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.P. nesse momento. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. segundo CROZIER) e. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. entre os economistas. sob a égide do Estado. mas isso deixa de lado os fatores 136 . Sua presença é vista como consolidada. de inovadores potenciais. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. Essas crises-ruptura. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. na França. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. na sociedade ou numa área econômica dada.I.. amplia a margem de manobra dos inovadores que. sob o protecionismo de MÉLINE. o compromisso fordista empresários-assalariados. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). em especial. É certo que essa escolha é aleatória. logo não previsível.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. encontramos poucas reflexões (na França. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. No entanto.

Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. da designação. assim como aos fatores culturais. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. nessas mutações estruturais. tornando possível viver em perspectiva (C. Em épocas de crises-ruptura. CASTORIADIS). 137 . entre a mão invisível e o punho de ferro. ele se torna o ordálio. inerente ao sistema. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. por conseguinte. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. a difusão ou não – de suas inovações. ao nível dos detalhes. uma teoria do fracasso. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. Há outro problema não estudado. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT).. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. ou seja. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40.I. em cinqüenta anos.P.Rupturas. Mas ainda continua faltando. da predestinação do mais forte. nesse quadro. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras.000 sociedades. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Mesmo se essas teorizações existissem.

P. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . embora ainda não totalmente.). fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. que o Centro se desloca. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. por exemplo): concorrência. GROU. . des-sindicalização e mesmo des-identificações. Mas. devido à extensão atual do mercado e. ENRIQUEZ): nacionalismos. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. 3. após a solução eventual da ruptura.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E.aumento do número dos agentes aí implicados.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. BOYER. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. o lúdico. .). antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). polimorfismo das intervenções do Estado. despolitização. . a família e a escola).enfim. após dessacralização. 3 .aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. ao mesmo tempo. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. da cultura. .fenômenos de regressão a formas mais simples. por exemplo). homogeneização da linguagem.I. à extensão do capitalismo (os N. .fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. 138 . mesmo que saibamos. o sagrado e. às vezes. integrismos.outras referências.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. . desde BRAUDEL.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial).conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. Ela se define (P. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. podemos constatar: . poderes oligopolíticos em escala internacional.

a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. por um lado. E esses.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. além das imposições do mercado e dos demais poderes. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. introduzir normas. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. para cada grupo de agentes. informáticos. D. Contrariamente. quando da sua transgressão e. para poderem inovar. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). regras ou convenções para lhe dar suporte. É preciso. REYNAUD). um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. 1. as sociedades animais).Nos sistemas sociais. das conexões) e do “salto qualitativo”. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. biológicos e mesmo etnológicos. devem inicialmente ser especificadas.Rupturas. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. Do mesmo modo. por outro. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e.). contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. químicos. por seu lado. 139 . não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. pois. o leque dos comportamentos não é. como afirma o individualismo antropológico. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). Ela supõe. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. para serem fecundas. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. por outro lado. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). uma interiorização das normas e uma culpabilização. completamente fechado. mecânicos. por um lado. Essa adesão. tão caro aos marxistas de outrora.

por exemplo). é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. acumulação. dos fatos de regressão (por exemplo. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. pelos golpes das OPA. a modificação do tipo de conjuntura. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. O imaginário da destruição pode. 3. 2. seria preciso distinguir.5 o pessoal patronal). lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. inovações. os outsiders e os parvenus substituem. de se expandir e. devendo encontrar. Existe então. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. por isso mesmo. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. enquanto que. por fim. no segundo. da sedentarização ao nomandismo). modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e.Quando há ruptura. No primeiro caso. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). de sua unicidade histórica. em seguida.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. 140 . esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. Por outro lado – apesar de KEYNES –. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. então. mais nitidamente. em período de crise. No total. sem esquecermos ainda as marginalizações. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. as ocasiões de experimentar. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores.

n. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. 1990. tal como: 1.). Ruptures. 141 . normas. para experimentar as inovações. por conseguinte. uma mutação estrutural. “Malaise dans l’identification”. representações. V. “L’économie des conventions”.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). Revue Économique. Paris: ERES. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. 2. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. portanto. por exemplo. 40. a adesão às normas e. 3.Rupturas. março 1989. por conseguinte. Connexions.As estruturas (as relações de complementaridade e. a aquisição de conhecimentos e de representações. André.).T. 55. então. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). 2. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. por Teresa Cristina Carreteiro. n. N.Mas a adaptabilidade do sistema. Cf. um esquema ideal típico. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra.T. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. Cf. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. mutations et complexification en économie (mimeogr.). então. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. “esgotamento da relação salarial fordista”). A continuação do funcionamento implica.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

de incertezas). BRANDT. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. e os transforma em autores das mudanças. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. a qual. Atualmente. a introdução de novas referências. 143 . talvez anuncie o fim delas. MARADONA. não se trata mais de crises (isto é. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. precedeu uma crise econômica. No Ocidente. (Hobbes) Tempo é criança brincando. 2. por sua vez. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. por exemplo. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. Pois essas “perturbações”. João Paulo II. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. de algum modo. então. “desfusão das pulsões”. porém robusta. ROCCARD. Do mesmo modo.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). Assim. Fragmentos. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. (Heráclito. 3. precedeu uma crise política. condições de “saída da crise”: l. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. criam.Ela mobiliza atores em potencial. nos anos 60. E. TAPIE e outros). MITTERAND. jogando. no 52) A crise das identificações. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. quando não destroem a sociedade em questão. 4. de criança o reinado.

com todas as posições intermediárias possíveis. é claro. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. não apenas a realidade parece incerta. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. as “intermináveis adolescências” que. pode-se reciclar também a identidade. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. de assimilação e de inovação. para todos. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. reativados ou mesmo imaginados). desses imaginários de projeto. de modos diferentes. ao contrário. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes.Ela libera. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. O “mal-estar na identificação” traduz. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. a tipos de personalidade diferentes.No final de contas. por um lado. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. a grupos étnicos. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. localizadas e transitórias. levados pela incerteza das situações e do futuro. o individualismo ilusório ou de oportunismo. 6. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. por outro. angústias de identidade. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. assimilam e transformam. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. tentativas de reconstrução. diz FREUD. O resultado é que. assim. a categorias socioprofissionais e.

E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). A identificação que não se desvencilha do partido. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. solidéus – kipas – hebraicos. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. é claro. é paralela à involução identificatória de seus membros. organizacionais etc. nacionais. da empresa etc. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. do racismo.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição.3 A família. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. profissionais. de classe. Fenômeno que ilustra 145 . em vista da emancipação para o societário e a individuação. e a aparência NAP) pelo simbólico. da igreja. as reativações religiosas atuais no Irã.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. Por exemplo.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. religiosas. nos dois sentidos do termo. a. regionais.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. a regra e as sublimações. finalmente. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. c. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. gorros cristãos etc. b. Assim.

Do primeiro diremos pouca coisa.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. justamente porque mais na moda. especialmente na França. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. sendo aliás esse que permite aquele. Quer dizer que o narcísico. entre 1983 e 1988. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. ipso facto. às avessas. exatamente como Deus.Mais interessantes. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . além disso. principalmente. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. b. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. é. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. fortalece as exigências da necessidade econômica. a. Ela é.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. primeiramente. “tem necessidade dos homens”. O retorno pode ir ainda mais longe. com o dinheiro. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. o narcisismo individual. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. E isso. por sua vez. isto é.

é mais simples escolher a binaridade. essa acumulação pecuniária permite. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. talvez. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. induz não ao 147 . Assim. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. de junho de 68. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. O dinheiro. Além disso. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. mais tranqüilizadora. o sucesso dos outsiders permite também e. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. Entre a binaridade e a injunção contraditória. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. Isso é talvez patológico. Na verdade. A monetarização. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). o festivo. caso se propagasse a todos os agentes. simultaneamente. manter ou criar os meios de aumentá-la. Por enquanto. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. em substituição ao “Mudar de vida”). “Criem sua própria empresa”. o prestígio etc. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro.) permite. se autodestruiria. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. notemos que o modelo do sucesso individual. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. o mercado. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). numa androgeneidade fecunda. em prêmio de Schadenfreude. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. Enfim. se ela for realizada.

ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. cada um será. a individualização extrema dos novos modelos. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. Intermináveis adolescências. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. um cavaleiro solitário. esse narcisismo manipulador. No caso de fraqueza delas. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. ao insolúvel. em contrapartida. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. nas três etapas – puberdade. 1. daí resulta. (T. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. passa-se rapidamente. necessariamente. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. logo. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. entretanto. a partir de elementos de vestuário comuns.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. a nítida binaridade do mercado. adolescência e pós-adolescência -. Acrescentaremos apenas algumas observações. a programação dos computadores das Bolsas) que. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. na época atual.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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mesmo que sejam minúsculas. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. Além disso. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. conjugada com a manutenção dos objetivos. fora do controle exercido pelo Centro. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. Pode-se. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. É por isso que as revoluções. “surpresas”. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. entretanto. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. no que tange à história do capitalismo. uma vez instaladas. como. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. antigamente atrasadas. pois.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. Nesse caso. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. em certas regiões. produzem-se onde não se espera e constituem. não podem ser reorganizadas e reorientadas. 154 . pois. Com a condição. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). por historiadores como BRAUDEL ou I. pelo menos em muitos jovens. por exemplo. Assim. inclusive jovens executivos12. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. Além disso. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que.

do espaço. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. ainda mais. diz WININICOTT). Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. ao contrário. Em contrapartida. das coisas. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias..) pelas outras. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. cujas identificações seriam. política etc. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. unicamente confirmadoras da identidade. idealmente. a conformidade e. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. constitutivas da personalidade e. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft).. a personalidade arrisca-se a desmoronar). mas é também uma dimensão de todas as outras (M. por sua superação. Paralelamente. podemos contrapor. no adulto não é a repetição mas. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. as identificações são. GODALIER). MC DOUGALL).Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. mas existem. jogo de empresas.). Mas. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. Assim.. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. no início. E como se sabe. em seguida. a captação do lúdico (jogo de papéis. das idéias. logo. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos.. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. numa situação de mal-estar. dos valores. aí. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. dos prazeres.

. imprecisas e transitórias. Mas. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. por exemplo). com o 156 . sem dúvida. . então. Essa é. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: .Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. . tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. entre esses tipos extremos e opostos. então. como vimos. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. representadas e transicionais. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. em transformar as identificações laterais. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora.13 Fundamentalmente. . por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. então.a dificuldade está.tentam-se.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante.experimentam-se. Desse modo. DUPUY. em identificações hierárquicas. ao mesmo tempo que se escreve. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho.

por isso. Algumas conseqüências 1. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. outsiders ou reciclados. Chegando à encruzilhada. no fim de contas. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. das utopias (“mudar a vida”. com a eliminação das organizações. de passagem. pois. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. da maioria dos marxistas. em concorrência). quanto para aqueles que o desemprego.. e das intermináveis adolescências. às vezes. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. 2. das coordenações pelos sindicatos etc. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. de fetos ou de liberdade de viajar. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. podem entrar em conflito. na Colômbia ou alhures. (O que prova. de bandeiras. que apesar de HEGEL. dos indivíduos e da identificações 157 . Daí a multiplicidade. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Enquanto isso. tanto para os autores das mudanças. como na tectônica as placas entram em fricção. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). aliás. apesar de tudo. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. Há. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. em 1981).Identificações experimentais e inovações sociais qual se está.. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. Essas apropriações podem. o fim da história só concerne a cada indivíduo). o mal-estar subsiste.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal.

a estrela polar) são.). suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. então. encontramo-nos. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. portanto. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. como alguns dizem. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. Ora. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. talvez. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. os tempos. os espaços. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. Os signos (o sol. e a complexidade progressiva do sistema. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. das normas e das formas. um momento dessa ascensão. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. ENRIQUEZ. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. 158 . principalmente). as únicas referências ainda fidedignas. por um momento denegadas (entre os sexos. Talvez. pedidores de emprego.Mas sabe-se também que o vínculo social e. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. amanhã. necessariamente. 3. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. O barroco societário atual é. E a que corresponderia. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. as gerações. ao mesmo tempo agradável e funcional. as culturas etc. Por isso.

[OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. N. 1989. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. p. 1990-1.T. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 2 de março. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. então. n. 239. p. do econômico ao sagrado. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. 159 . Auteuil. Oeuvres: Économie. simultaneamente. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. Gallimard. Hoje ele teria. na formação de ninho familiar. ao contrário. Mais dura foi a queda.]. Temos assim uma alternância de interpretações. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”.. 40. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. sociedade e personalidades”.. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. C. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. W. a receita das identificações complementares novas (e.” In: M. para outros? Mas. É por isso que. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. Revue Economique. Connexions. naturalmente). André. 1981. no mal-estar. Estaria a saída. Petit Larousse.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. sem dúvida. “L’économie des conventions”. MARX. Pléiade. edição de 1963. 55. O problema: em época de “destruição criativa”. nas diferentes esferas do social. logo. “Zur Kritik. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. 29. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). no adulto que eles se tornariam. os atores (Individualismo). RUBEL. 61-78. As épocas de crise e reconstrução valorizam. NAP: Neuilly. Tomo 1. das coesões) não parece ainda inventada. Passy. por Eliana de Moura Castro.

A. BIRNBAUM. P. Les révolutions minuscules. Paris: Flammarion: 1974. ELKAIM. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. BAREL. 1960. Toujours plus. CHASSEGUET-SMIRGEL. BELL). M. Le désordre.. Paris: Seuil. Paris: Seuil. 1988. L’institution imaginaire de la société. 1982. 1950. para TARDE. J. “Le changement en question”.. Autrement. Freud et l’éducation. Le lien social. DETIENNE. Paris: Gallimard. ENRIQUEZ. G. DE CLOSETS. Les deux arbres du jardin. AULAGNIER. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. ANREP. L’acteur et le système. 1981. 1984. Cujas. DUPUY. 1988. 1977. 1976. VERNANT. BELL. DENOYELLE. Paris: Minuit. oportunismo. mobilidade. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. C. M. 51. The end of ideology. Si tu m’aimes. Paris: Cerf. 1989. Interminables adolescences.. 1979. E.] uma não-imitação de exemplos paternais”. New York: Collier. Paris: Gallimard. 1982. 1975. Les destins du plaisir. Paris: Seuil. Paris: Seuil. n. M. 1983. 1979.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. Tese. Winnicott en pratique. L’auto-organisation. J. Connexions. Grenoble: PUG. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. 1989. P. J. n. J. Y. CAILLOIS. D. P. Le paradoxe et le système. 4. 1988. P. M. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai.. Paris: PUF. Paris: Grasset. ENRIQUEZ. Paris: ESF. L’individualisme. Paris. BOURDIEU. Paris: des Femmes. De la horde à l’Etat. Cf. BELL. CERISY (Actes du Colloque de). 1985. n. T. J. La distinction. 29. 1989. Uma mudança social. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. L’homme et le sacré. ne m’aime pas. 1988. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. F. Paris: Fayard. por outro lado. R. BALANDIER. Aux carrefours de la haine.-P. 1988. n. CASTORIADIS. 1979. CROZIER. Paris: PFNSP. 1987. Bulletin de l’AISLF. Paris: Epi. Les ruses de l’intelligence: la Métis. 1974. FRIEDBERG. E. Paris: PUF. 160 . Paris X. 1982. Paris: Seuil. 45. Connexions. Les contradictions culturelles du capitalisme. LECA. Ordres et désordres. “Les représentations sociales”. ARMANDO. D. Autonomie et systèmes économiques..

1971. B. MITSCHERLICH. 27. 1977. 18 mai/7 jun. FREUD. 1978. Paris: Seuil. junho 1987. 161 . n. M. 1984. n. Paris: Gallimard. n. Cl. J. D. Traverses. 3. NICOLAÏ. 1974. Vers la société sans père. Paris: Payot. Paris: PUF. 1980. Paris: Payot. 51-54. Ressources. LIPOVETSKY. 1983. FUKUYAMA. Reedição GEX.” L’homme et la société. 1982. 1971. Anthropologie structurale I. 1989. Paris: Fayard. n. SIBONY. 1981. “La politique en apesanteur”. Le complexe de Narcisse. L’autre et le semblable. S. “Psychologie des foules et analyse du moi”.. 38-39. Paris: Maspéro. A. 1958. Rationalité et irracionalité en économie. La pensée sauvage. G. Paris: Laffont. FREUD. KRISTEVA. LÉVI-STRAUSS. FREUD. NICOLAÏ. 1973. 18 julho. Le Monde. Idéaux. “Les mutations de la famille. 1966. J. Paris: Gallimard. WIDLOCHER.. LASH. 1951. out. A. SIBONY.. D. 1979.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. Les lois de l’imitation. 1979. MENDEL. Le Monde. 1980. Pour décoloniser l’enfant. Paris: PUF. A. 1989. Paris: Gallimard. angoisse. Les rites d’interaction. Paris: PUF. Nauplie. outono. 1934. n. 15 nov. 1989. 2 de março. SEGALEN. symptôme. GODELIER. Cl. Le retour de l’acteur. G. 1980. 26 jan. Revue française de psychanalyse. A. Revue Economique. S. 1988. S. “L’économie des conventions”. Paris: RFP. 1981. Forum de Delphes. n. 1989. 1980. Paris: PUF. 10. FINKIELKRAUT.. L’empire de l’éphémere. H. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. “La fin de l’histoire?” Commentaire.. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. Pouvoirs de l’horreur. Paris: Plon. Malaise dans la civilisation. A. S. A..” Connexions. Névrose. psychose et perversion. Paris: Gallimard. FREUD. nov. “La nation disparaît au profis des tribus”.. LÉVI-STRAUSS. NICOLAÏ. D. nov. MOSCOVICI. In: Essais. “Et le poussent jusqu’au bout. Paris: Gallimard. L’effort pour rendre l’autre fou. 1970. G. WINNICOTT. Freud et le problème du changement. Cl. Paris: Denoël. n. 1989. 25 de out. 1989. W. 1989. S. Le Monde. GOFFMAN. FREUD. 1971. 1989. “La voix écoute”. Mc DOUGALL. et al. “Les Français et l’argent”. TARDE. 40. 1987. E. “Et mourir de plaisir. n.” Peuples méditerranéens. TOURAINE. SEARLES. Jeu et réalité.. Playdoyer pour ume certaine anormalité. G. Paris: CNRS. de la vertu et de plaisir.. 47. M.1974. Paris: Minuit. Paris: PUF. Psychologie des minorités actives. Paris: Plon. D. Inhibition. LE GENDRE. F. MENAHEM. Ch. Le déclin du complice d’Oedipe. 20. Les enfants de Jocaste. S. “Penser le chômage”. OLIVIER.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

LÉVY (“Intervenção como processo”. desembocando. 1980) e de E. por exemplo. em uma espécie de “crise das instituições”. na maioria das vezes. que essa “crise” também eclode em vários países e que. nas décadas de 60/70. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. pelas Comunidades 165 . 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. Assim. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. de A. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. os textos de J. em cada lugar. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. Benevides de Barros É. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. em fins de 50/início de 60. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. essa parece ter sido. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. Pelo que eles mesmos nos contam. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. contribuir. criando em nós uma vontade de entrar no debate. 1980.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. lançar um olhar novo sobre o mundo. sem dúvida. sem vê-lo como algo já dado. Poderíamos dizer. No Brasil. É bem verdade. entretanto. instrumentalizada então. a partir da divisão não-saber x saber. 1987). mais tarde. ela tomará formas próprias. também. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam.

Os fins do anos 60/década de 70 serão. ARDOINO) ou. ao Chile e ao Uruguai. DELEUZE). político e social. Por aí. ENRIQUEZ). Em meados de 60. por outro. de um lado. quando tomado em seu sentido amplo. 166 . a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. então. designa a crítica à naturalização das instituições. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. ainda. na interseção dos campos filosófico. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. G. O mês de maio de 68 francês. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. de modo generalizado. palco de uma produção expressiva. As instituições são analisadas. crítica das experiências instituídas. questionamento de seus modos de instrumentalização. GUATTARI e G. R.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. LÉVY. colocou em cheque. chegar também até nós o eco dessas produções. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. convulsionado pelo golpe militar. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. No campo da Psicologia. analisador histórico do status quo vigente. LOURAU. DUBOST. fica claro que “Movimento Institucionalista”. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. o país. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. à Socioanálise (R. principalmente. Vemos. Ainda que marcados por grandes diferenças. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. E. LAPASSADE. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. através do contato com os “institucionalistas” franceses. como à Argentina. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. HESS. presenciamos. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. da burocracia partidária. J. inserem-se. do conservadorismo universitário. A. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. desde essa época. No Brasil. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. uma certa psicossociologia se faz intervenção. J. PAGES. então.

de Rouchy e.I. (MATA-MACHADO. com a qual logo rompemos (. “(. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. a partir de 1968.. mais especialmente.(. Junto com René Lourau (.. Lapassade (.) Em 1971. MATA-MACHADO.... portanto. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. tivemos entre nós. 3-4).Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. da formação da A.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. a influência do pensamento institucionalista francês. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. 2).. Se no início a orientação era claramente norte-americana. em 1959. alguns de Enriquez... via Universidade e.. Em 1967. segundo M. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). p. 1992..).)”.. O recente trabalho de M. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.... 167 . (MATA-MACHADO. p.P. sobretudo. Lévy apresentou-nos. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. A entrada se dá. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. voltado à pesquisa e à prática. mas há algumas produções importantes que já apontam.). como grupo. através do Curso de Psicologia. mantinha.. de forma mais pontual. É marcante. 2) O pensamento institucionalista atravessa. segundo a autora.R..) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. cuja prática foi denominada Socioanálise”. p. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. 1992. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. sob a liderança de Garcia. que congregou pesquisadores práticos (. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. Ambos haviam participado. Com PAGES. além de seus próprios escritos.). respectivamente. 1992.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE.

LOURAU. somou-se a influência do pensamento de outros (M. No Rio de Janeiro. FOUCAULT. a partir de então. 4). Encontramos. 1986).. DUBOST e E. entretanto. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. além dos autores já citados. Na década de 80. LÉVY. CASTEL. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. Hoje. G.. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. pedagogos. 1987). absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. 6). passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. F. entre outros). são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. DELEUZE. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. LAPASSADE. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. cujos interlocutores privilegiados são A. mas estendendo-se até hoje. em fins de 70/início de 80. p. Essa perspectiva é. na Europa. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. há alguns projetos em andamento. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. G. assim.)” (MATA-MACHADO. segundo a autora. “parcialmente abandonada. GUATTARI. atentas às características da realidade brasileira. o movimento institucionalista inclui sociólogos. 1992. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. J. enquanto que. É também na década de 80. no Brasil. psiquiatras e psicólogos. mais tarde. p. G. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. LEITÃO e BARROS. menos desejosas de mudar o mundo (. 168 . O que se percebe é que. construindo-se práticas singulares. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. ENRIQUEZ. por um certo tempo. fez com que. MENDEL). 1992. O pensamento pichoniano. R. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. no Rio de Janeiro. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. Ao mesmo tempo. 1992).

Regina D. difundiram-se os pensamentos de F. (orgs). DELEUZE. o “pensamento institucionalista”. em São Paulo. Gregório F. C. 169 . 1986. M.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Vida R. Micropolítica. e BARROS. (mimeogr. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. desembocando em algumas traduções e publicações. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. MATA-MACHADO. B. Suely. Rio de Janeiro. na universidade – PUC/SP –. as contribuições da socioanálise. Intervenção psicossociológica. em suas várias vertentes. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. bem como na entrada. incluindo. RODRIGUES. ROLNIK. GUATTARI. Marília N. Félix e ROLNIK. à instituição de formação e à de pesquisa. Referências bibliográficas BAREMBLITT. tendo incluído outras influências teórico-práticas. nas intervenções e práticas sociais. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. (mimeogr. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. 164p. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. 1992. Especialmente através dos trabalhos de S. de obras desses autores.. 175p. e SAIDON. Heliana B. Atualmente. História do Movimento Institucionalista. 1992. Regina D.). algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Grupos e instituições em Análise. em alguns casos. Osvaldo (orgs). KAMKHAGI.). 1986. pesquisas e intervenções. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo.). O inconsciente institucional. Belo Horizonte. 327p. RODRIGUES. (coord. Mas. Heliana B. GUATTARI e de G. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. 1984. hoje. sobretudo. C. A década de 60: seus efeitos no pensamento. 22p. B. Rio de Janeiro: Vozes. Cartografias do desejo. 1987. LEITÃO. e BARROS. Análise institucional no Brasil. já toma contornos bastante diferenciados. mais tarde. Petrópolis: Vozes.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. implicando opções e esforços de imaginação e que. c. Mas creio. b. em uma determinada situação.a formação. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. mais ou menos livremente. o status e a posição social. aqui.I.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. principalmente. a algumas observações. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. em primeiro lugar. Por mais banais que sejam. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. as dificuldades sentidas por um ator social. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . os princípios e as modalidades de sua intervenção. a natureza do “saber-fazer”. além dos desejos de terceiros. a interação entre essas variáveis. finalmente.R. Limitamo-nos entretanto..P. de variáveis como: a.as condições gerais que engendram.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro.

missões de produtividade.). Muitos dentre nós trabalharam. do 172 .. evidentemente. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. estabelecidos na capital. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. Nesse contexto. simultaneamente. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. pelo problema da reconstrução. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. de reeducação. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. O período imediatamente após-guerra foi dominado. da formação em habilitações. Na Sorbonne. ênfase a métodos estatísticos. suas aplicações no domínio da economia. da conjuntura. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. em períodos diferentes. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. inflação. o funcionalismo etc. econômica e social. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. de estruturas de direção. nos mesmos organismos3). a busca de participação. do recrutamento de pessoal. então. comportava. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. o Marxismo. de gestão. entre 1945 e 1959. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc.

da demografia. lembremos. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. pela Dunod). segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. desenvolvendo uma abordagem mais global. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . as obras de G. o movimento trotskista. pouco conhecidas na França. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. a partir dos anos 40. a partir de 1952. no plano das práticas. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. então. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. André BRETON. MORENO e depois ROGERS). o movimento surrealista se encarrega logo (cf. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. separam-se em duas tendências. da gestão etc. na França. é o momento também no qual G. nessa época. o movimento que iria ser denominado “institucional”. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. por exemplo. em seguida. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. em 1961. estudos de mercado –. Em relação a esse último ponto. especialmente. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. onde milito durante esse período. a relação crítica e complexa que G. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. se as tentativas de Reich são.

mas elas permanecem muito próximas. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. no qual se encontra B. servem. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. a C. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. Igualmente um outro. dirigido por C. Entre essas últimas. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. R. em função do problema da burocracia operária. LEFORT. Antes de sua volta aos Estados Unidos. desde sua origem. um dos colaboradores dessa equipe. separa-se da IVa Internacional. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). em 1947-1948. CASTORIADIS4 e Cl. sobre a “moral” da empresa.O. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. Entretanto. Perret. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. WILLIAMS.E. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. 174 . com o restante do relatório. em 1949. durante a ocupação. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias.5 retém. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor.S. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica).G. na relação que elas estabelecem com o cliente.

Da mesma forma. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. e eles devem ter acesso aos resultados. apoiando-se nos resultados. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. em empresas maiores. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. se abrem a uma abordagem mais clínica.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. passando pelas reformulações européias do T. as que são conduzidas por equipes francesas. junto a pessoal assalariado de uma empresa. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. porém. Ao contrário. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. parece cada vez mais interessante. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas.W. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. elas colocam. de início. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. 175 . ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais.I. em última análise. depois eventualmente coletivas –. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. da mesma forma que a direção.

algumas vezes antigos. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. feita pelos encarregados da pesquisa. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. Em outros termos. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. as relações intercategorias e as microculturas da organização. no interior desse quadro de atitudes. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . Por outro lado. Ajudando todas as pessoas. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. absenteísmo. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. que fala sobre seu campo e suas intervenções. sua natureza real. um objeto de trabalho.). e tenta inventar. pirâmide de idade. e essa não sendo a conseqüência menos importante. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. ele se pergunta se os bloqueios. para uma orientação mais clínica. grupos de mais velhos. turn-over. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. a se expressarem. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. Direção de Pessoal –. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. modos de remuneração. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. de pagar o preço por sua solução. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. cujos conflitos. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. as disfunções. pelos sentimentos coletivos. higiene. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. as crises. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. ou aos que decidem – Direção Geral. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. Ele faz da relação de consulta um problema em si. segurança etc. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. Enfim.

Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. à medida que esses são identificados. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. mais tarde. ele crê que. os sistemas de comunicação na empresa. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. em especial dos inconscientes. isto é. 177 . de fato. sem dar conselho. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. isto é. além dos arranjos menores concedidos. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. se aceita. mesmo nesse caso. do especialista em uma técnica de produção. ajuda as categorias vítimas da repressão. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. gestão ou organização. acaba totalmente reforçada. Nessa perspectiva. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. ele próprio contribui. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. ele exerce uma pressão que. sem dúvida. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. Porém. mesmo desejando o contrário. de perceber direções de solução. a idéia de que a intervenção.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. os processos de preparação e tomada de decisões. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. de fato. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. permitindo a expressão do reprimido.

atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. (1959). Tenho a impressão de que. a 178 . ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente.P. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. O caráter clínico do novo grupo. em uma empresa nacional. A outra continuava a realizar. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. então. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista.R. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. mas também em uma transformação cultural profunda.I. Os anos sessenta No momento de criação da A. nessa época. mais do que acelerar tal processo. do psicodrama analítico etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. das formas de autoridade. Da mesma forma. os limites das ações de intervenção.. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. No momento da criação.

ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. a metade já era. era de um terço.7 Paralelamente.P. durante todo esse período. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. ou iria finalmente se tornar. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado.). a metade das atividades da A. grupos abertos de análise etc. atuando diretamente no campo. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas.I. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. dez anos depois. algumas vezes mesmo de introdução à economia. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. A orientação não diretiva. dominou os primeiros anos de funcionamento.6 No começo dos anos sessenta. uma longa intervenção em uma empresa implanta. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . de metodologia psicossocial. reunindo às vezes toda a equipe. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. terapeutas ou analistas. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. do sócio-técnico e mesmo do econômico.R. ROUCHY). de formação de adultos. de sociologia das organizações. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. a proporção era aproximadamente de nove décimos. até 1966 (marcado pela vinda de C. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. HERBERT. A organização e a condução de seminários representa. nesses. se podemos dizê-lo. neles.-C. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. outras vezes apenas três psicossociólogos. e ainda agora. a continuidade no tempo. de inspiração rogeriana.

Mas creio que é necessário evocar também. na equipe. para explicá-lo. junto a um Centro de Produtividade. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. de padres e religiosos. movimentos educativos. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. Ao mesmo tempo. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue.R. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão.N.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. desenvolvimento organizacional). É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. diversos membros da A. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. de maneira ainda mais geral. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U.F. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. Entretanto. junto a organizações com função econômica. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. 180 . institutos religiosos e hospitais psiquiátricos.). Psicossociologia e Política etc.E. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. em Paris. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. é uma intervenção no México. a integração. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. por exemplo. as condições ideológicas próprias da França. É sobretudo na França. por volta de 1965. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. durante vários anos. de psiquiatras e de psicoterapeutas. a demanda se estende a associações. então. em 1961. de trabalhadores sociais. de atendentes. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. a guerra da Algéria.I.P.

por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. por parte da instituição.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. a despeito de sua repercussão no conjunto do país.R. simultaneamente política e cultural. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. mesmo que modesta. ao considerarem suas relações e vida psicológica.E. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. através do desenvolvimento de ações locais. uma evolução global do sistema educativo.E. que dava uma direção totalmente imprevista. como o fazem os indivíduos ou os grupos. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. como muitos outros. trabalhava desde 1964. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. com os quais a A. não desembocou no político. antes de 68.elaboração de projetos de pesquisa-ação. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. uma direção susceptível de provocar. centrando-se na evolução das pessoas. Embora alguns dentre nós víssemos.N. dentro de certo prazo. por exemplo. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 .V.O..Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros.I.10 . Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. ao contrário.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. de uma audácia espantosa. nas ações de movimentos como a F. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). .P. As instituições não se analisam. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. o período que se seguiu a maio mostra. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”.

no plano das idéias.Porém. Esse último aspecto leva à questão mais geral. ou “indutor de mudança”. devendo ser afastado ou suspenso. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo.12 . noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. Como o mostra André LÉVY. bem problemático. ele deve ser buscado em outro nível. sob a influência do pensamento psicanalítico. 182 . o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. O modelo do analista pareceu sempre. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. mesmo quando. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. a “socioanálise” ilustra. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. no último período. benefício a mais). quando as referências à pedagogia ativa. na prática.nos anos que se seguem à Liberação e. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . em especial lacaniano. parece-me que. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. “agente de mudança”. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional.11 Estudando (por três vezes: 1963. sem dúvida. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. ou melhor. no campo social. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início.A partir dos anos 60. até o começo dos anos 60. tal opção.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. mas também de seu objeto de trabalho. 1967. progressivamente. . exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. afastando-se dela em seguida. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos.

os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. lugar onde se está. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. A expressão pesquisa-ação. nunca é independente. cedendo a pressões de que se é objeto. presente nele. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. Toda intervenção psicossociológica. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. sobretudo. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. tendo em vista sua própria história. como pesquisador ou consultor social. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. e. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. é certamente oposta à acepção lewiniana. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. porque ocupa. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. por exemplo. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . nem a se considerar parte da ação. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. na referência ao próprio lugar ocupado. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. pertencente ao campo estudado. Simetricamente. com todos os riscos que isso comporta.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. ou que se tenta ocupar. a esse respeito. no campo. por exemplo. Se ele se encontra em uma posição menos central.

11 Cf. Jean e LÉVY. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). 806.G. por exemplo o artigo de J. 29 de Connexions.. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. 1971. de forma mais livre. sobre esse último ponto. responder a essa questão.O. Paris: Epi. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. 1977.. LÉVY. 8 Cf. Continuando. 1331. 1978. 1969. Connexions. 17. secretário geral da associação. 825. les Sorts. André. Jean-Claude ROUCHY. p. 1972. evidentemente. ou mesmo depois de terminar.S. 3.T.E. não se pode. mais recentemente. Sociologie du Travail. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 7 Max PAGÈS. e de A. quatro anos depois. 12 Cf. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. “Une intervention psychosociologique”. Psychosociologies. ROUCHY em Connexions. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. J. 857. jan. 1980. 1967.P. n. Paris: Payot. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. L’intervention institutionnelle. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. desde sua criação. o capítulo “Variantes de la cure-type”. 9 Cf. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. Ecrits (por exemplo. In: Fondation Royaumont. n. Connexions. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. 13 Les Mots. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. LACAN. contra. 1303.) e dos de Cl. n. 5 Compagnie Générale d’Organisation.-C. A C. por Marília Novais da Mata Machado. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. n. Gallimard. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. 1963. 50-68. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). presidido por Jean STOETZEL e.”. “Dire la loi. com universitários como Georges FRIEDMANN. 1972.O. 10 Cf. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. Paris: Dunod. Droz. André. de PERETTI. 4 Cf. sobre. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. In: ARDOINO et al. Intervention et changement dans l’entreprise. 2. “L’Analyse social”. seu vice-presidente.-março. la Mort..).F. Le psychosociologue dans la cité. 1304. Épi. n. a partida de Max PAGES. de 1955). 2 3 184 . Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 1332 etc. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. 1980.

permitindo esclarecimentos progressivos. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. Parafraseando HEGEL. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. há muito tempo. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. sobredeterminado por uma profunda lógica. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. entretanto. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. Esclarecer sua posição em relação às situações. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. bem ou mal resolvidos. Porém. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. porém. 185 . à crença em sua positividade fundamental e. No que me diz respeito. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. Tal afirmação. tem qualquer coisa de suspeita. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. quando é apenas verbal.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. além disso. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. esses ainda são muito relativos. através das contradições de suas condutas profissionais. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. Porém. mesmo que artificial. uma vez sustentada pelas pulsões de morte.

Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. ela desconhece 186 . aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. instituindo. na França. diferentemente lúcida. Toda a minha experiência. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. em relações diretas. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. sem dúvida. dizem respeito. desapaixonada. ela é. Ela repousa. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. Durante muito tempo e. leva-me. As tomadas de consciência. fundamentalmente. face a face. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização.6 por esse rótulo. mais lúcida ou. ao contrário. As práticas de intervenção.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . diferentemente das ações de formação e de pesquisa. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. científica. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. diretamente. a reconhecer. longe de chegar a um ceticismo. junto aos grupos envolvidos. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. no mínimo. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. ou mesmo a um nihilismo. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. com freqüência. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. ainda hoje. reciprocamente. cada vez mais claramente. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes.

187 .7 A última intervenção da qual participei. esclarecimento das funções. visto como ligado demais ao responsável comercial. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. supõe. A reunião desses diferentes objetos na análise. uma única vez. que adotava aproximadamente esse modelo. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. mas. de forma alguma. Tal metodologia induz. é apenas um simples instrumento ideológico. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. data de 1972. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. em determinado momento. então. os problemas atuais da empresa. por sua vez. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. melhor coordenação administrativa. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. que. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. de quem dependia bastante. seu amigo. com vistas a decisões e ações. cuidando. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. De toda forma é surpreendente que. Porém. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. implicitamente.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. quase narrativa. de outro lado.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. de um lado. considerado como um diagnóstico e. isto é. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. caso contrário. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. sobretudo. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. de uma forma histórica. com efeito. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. que se considere cada entrevista como um objeto isolado.

complementares. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. em outras palavras. Em outras palavras. traduzia também. A perda da esperança acarretou. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . à medida que cada discurso. expondo cada um com a mesma objetividade. e. então. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. de um a outro. inevitavelmente. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. como se esperava de nós. e sobretudo. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). e de passar assim. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). para apreender a “realidade”. mas potencialmente articuláveis entre si. A pesquisa havia fortificado essa esperança.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. a coexistência desses diferentes discursos. reconstituído graças a nossos cuidados. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. no limite. porém situados no mesmo plano. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. sobretudo. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. organizacional). uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. sem dificuldade. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. ideológico-afetiva. um de cada vez. particularmente por meio de nosso relatório oral. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum.

Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. Longe de favorecer um processo de análise. 189 . o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. qualquer que seja a maneira como é conduzida. embora imperfeitamente. Mas se aceitamos.Intervenção como processo (subjetiva demais. é a função das representações. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. no mínimo. o “real”. a pesquisa contribui. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. de uma explicação geral. perceber o quanto a prática da pesquisa. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. sabemos. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). constrangidos. Essa experiência possibilitou-nos. não aceitamos seus pressupostos. reduzidas a enunciados fechados. escutada ou recusada. a partir de diversos “pontos de vista”. associa-se necessariamente à busca de um sentido. excessiva demais) e conservar. articulá-las. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. em seguida. ações ou decisões (saber para). estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. para o recalque: primeiramente. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. em contrapartida. ao contrário. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. em discursos que as pessoas expressam. que não se reconhecem como um discurso. assim. assim. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. isto é. desconectados das condutas e estratégias. desejaríamos. Essa crença conduz. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. o levantamento de dados. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. então. legitimamente. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido.

nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. então. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. mas. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. na enunciação. essa só pode. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. A não ser que se idealize o processo de análise social. se há um resultado do qual estou seguro. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. 190 . reciprocamente. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. sob forma falada ou atuada. Os grupos face a face aparecem. Só é possível. com efeito. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. sua posição de exterioridade é apenas relativa. então. instituídos. se articulam e se transformam. na qual o imediatismo do risco é sensível. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. pode ocorrer. independentemente das maneiras como se atualizam. na qual uma resposta instantânea. no sentido pleno do termo. ser feita em uma experiência de comunicação. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. Porém. moral ou corpórea. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico.

uma vez que. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. grupo do outro. no sentido preciso desse termo. mas relações de transferência. ele se insere no mesmo sistema de alianças. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. no próprio ato que o institui como analista. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. corpo a corpo. do não agir. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. essas relações implicariam particularmente. pressões. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. material ou simbólica. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. o respeito à regra de abstinência. com a participação do analista-interventor. desde o início. por exemplo). tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. das quais necessariamente é parte. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. isolados de toda historicidade. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. Nas situações de intervenção. em função de uma “demanda”. 191 . por parte do analista. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. estratégias. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. isso é apenas uma petição de princípios. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado.

preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. assim. por exemplo. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. então. não unificada. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. quanto para as relações internas. Um dos objetos de análise pode ser. fragmentada. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. ele elimina. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. isto é. tendo que tomar decisões e executá-las. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. por antecipação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. no mesmo ato. de termos como o “grupo” ou a “demanda”).13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. do “aparelho psíquico grupal”. fora da situação de análise. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. por meio de regras explícitas e implícitas. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. O interventor pode. seu objeto. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. traduzia o desejo de tirar 192 . Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. um serviço).12 e a legitimar sua interpretação.

a composição do grupo pode evoluir. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. com efeito. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. Certamente. especialmente do médico-chefe. pesquisaação etc. numa colocação em ato do desejo. como o fazem certos psicanalistas. Um dos resultados.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. ele entra em conluio com as resistências. do trabalho de análise. por exemplo. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. merece ao menos uma explicação. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . e o grupo de suas restrições externas. Nessa perspectiva. que continuaria submetido às regras administrativas. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. observações. a não ser provisoriamente. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. a desmistificação de certas crenças. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. quando o interventor. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. à medida em que o trabalho progride. a presença. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. como. as resistências internas na organização tendem. o que vale não só para a análise. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. institui tal quadro. Não se pode escapar disso dizendo. paradoxal. o abandono de tabus.). Se isso é em parte verdadeiro. de uma terapêutica localizada. mas também para o gozo sexual ou estético. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. É por isso que. que a emergência dos conflitos latentes. assim. essa modalidade se constituía. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa.

vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. ao desconhecido. Não é uma soma. ao risco. um possível onde havia certeza. à incerteza. conseqüentemente. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. mas uma subtração. Com efeito. O novo que aparece não é. antes de tudo. centrada nos problemas de produção racional. Em um texto anterior. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . um jogo mais livre se torna possível. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. toda teoria organizacional é relativa. com noções e representações úteis à ação. uma certeza a menos. uma questão onde havia uma afirmação. no mínimo. isto é. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. uma certeza a mais.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. de acordo com eixos orientados. em face à eventualidade de uma ruptura.. irredutíveis. a da burocracia. Com efeito. o acesso a uma história. centrada no sistema de regras etc. do menos ao mais. inclusive nas pessoas. um novo pleno. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. a da organização científica do trabalho. então.. ou como o reconhecimento de clivagens internas. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. do pior ao melhor. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. as peças começam a circular. a mudança representa para nós. um acontecimento marcado pelo advento. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas.

essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. então. as ações e as divisões. permanecem divididos os discursos de representação. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). tendo sua própria pertinência. Pareceu-nos. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. são discursos destinados a legitimar. Entretanto. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. tenta explicar. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. a análise não alcança objetivamente um real suposto. para os outros e para si próprios. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. hierarquizado. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). Nessa perspectiva. o processo de análise não pode. mas em apreendêlas como discursos incompletos. com a finalidade de construir referências. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. ordenado. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. Assim. Nesse sentido. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. temporais. então. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. também ela.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. o que dá no mesmo. enfrentar e ocultar as contradições que vive. desde 195 . com efeito.

como ocorrera na assembléia anterior. ela pretendia ser. Embora eu tivesse trabalhado no passado. Igualmente. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. talvez tivesse mesmo o inverso. Esclarecemos. Buscavam essencialmente um “técnico”. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. ao contrário. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. aceitei. aliás muito rapidamente. Para ilustrar o que precede. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. por sua vez. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. destinadas a serem engavetadas. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. pareceu-me simpática. Depois de uma breve hesitação. que deveria ser. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. por diversas vezes. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. como condição para aceitarem sua missão. com pessoas pertencentes a esses meios. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. era o sentimento de que não poderia. A razão de minha determinação. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. tanto quanto pude analisála. mas a demanda. Assim. citarei o caso de uma intervenção muito breve. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. isso não apenas não os inquietou mas. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. reificaria significados. endereçada agora a mim. em especial. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. 196 . em sua maior parte. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. com interesse e prazer.

Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. atendendo expressamente à sua demanda. diversas sessões haviam sido previstas. Como cheguei lá. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. Ela havia sido decidida no ano precedente. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. Para isso. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. Como já mostrei. em seguida. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. em relação à Comissão e. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. depois dos debates. Tratava-se então de um momento que. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. que não podia ser perdido. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. de fato. dois encontros no local da Assembléia Geral. de outro lado. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. e enfim. era considerado por muitos (ou. pela Comissão) como um ponto de transição. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. pelo menos. à noite. de um lado. cuja forma seria definida? 197 . uma Assembléia Geral extraordinária. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. na história da Comunidade. o lugar deles. vencimento dos prazos para decisões importantes).

que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. com amizade e com confiança.R.). então. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. ao mesmo tempo. como um estranho mas não como um intruso. com a ajuda deles. as regras às quais se submetiam etc. de sair de um estilo de relações muito corteses. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. os textos definindo seu funcionamento. Espantei-me. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais.P. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. Nessa ocasião. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. eu próprio me sentia um estranho. 198 . que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. Eu era calorosamente acolhido. então. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. tomei conhecimento. a fim de levantar suas opiniões. evitando toda aspereza. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -.I. tendo em vista a Assembléia Geral. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. O fato de que eu estava lá como um profissional. Parecia-me. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. talvez também meu próprio sobrenome judaico. as relações entre elas. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. esquivando-se dos conflitos e divergências. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. sem implicação com o grupo. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região.

encontros mais numerosos do que os previstos no começo. em nome de valores democráticos. para a escolha dos temas que seriam então tratados. com bastante veemência. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. observei. a meu ponto de vista. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. com relativa facilidade. entretanto. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. assim. sem deixar de observar. Eles aderiram. ao contrário. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. periodicamente. que eles deveriam. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . Pareceu-me. 2. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral.Intervenção como processo No nível do conteúdo. então. declarei-lhes: 1. seu papel de porta-vozes puros. em última análise.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. mas representavam também. sem dúvida. O papel que tinham era não apenas técnico. demonstrei que. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. pelas vontades expressas pela “base”. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição.

seria necessariamente confundido com a Comissão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. com alguma hesitação). com o conhecimento e o acordo da Comunidade). Caso eu participasse da Assembléia Geral. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. ao contrário. Paradoxalmente. sem implicar posições táticas e políticas. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. Com efeito. eventualmente. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. No limite. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento.

eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e.Intervenção como processo como observador. formalmente. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. membro da A. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. através de minha inesperada implicação afetiva. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. sobretudo. mas no calor da discussão. Assim. uns em relação aos outros. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. até a eleição do próximo Conselho. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. durante um vazio de poder). isto é.. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. a partir dessas diferenças em status 201 . existente no real.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. c. Deveria representar um tempo de análise coletiva. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. b.quanto a mim. não em trocas prévias. Certamente.R. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros.P. ligado à Comissão. entre nós e os membros da Comissão. ficou claro que: a. nossa posição profissional e inserção institucional. sem direito à palavra. judeu) tinham para eles. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. durante o primeiro dia de trabalho. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior.I. mas também de escolha de orientação política.

Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. como terceiro. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). Tudo isso. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. não se produz. Nesse sentido. Na sua maior parte. como membros dessas comunidades regionais. entre a Comissão e o Conselho.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. por sua vez. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. entre outros escalões – e. Esse efeito de sentido. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. nossa alteridade. assim. entre as comunidades regionais. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. da importância atribuída às pessoas. particularmente. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. 202 . o desenvolvimento de um certo trabalho. a partir desse primeiro dia. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. entretanto. a partir desses documentos. lutar para tornar o trabalho mais lento. destinados a serem comunicados à Comunidade. relatórios de reuniões. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. às instituições ou às atividades). por exemplo. e sobre o que pôde ser produzido. Foi preciso. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. em conseqüência. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. era “relativa”.

as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse.. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva.Intervenção como processo considerando questões particulares. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.). sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. sem dar muita importância. em contrapartida. algumas vezes. refletindo situações particulares diferentes. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo.”). mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro.. da segurança. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. carregadas de subentendidos (por exemplo.. segundo os quais as definições da Comunidade. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. seja o conjunto de atividades –.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. ou mesmo. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. assim. ou ainda. seja a coabitação em um mesmo lugar. em seguida. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. da idade. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. aparentemente menores. o que significava não considerá-los? O que se elaborava.. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. No curso desse processo. 203 . sobre palavras fetiches. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. por meio desse trabalho preparatório e. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). a definição da pauta dos diferentes dias. as questões a serem submetidas a voto etc. na Assembléia Geral. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica.

ao contrário. ela constitui uma terapêutica dessa última. isto é. Para concluir. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. facilitando a escolha de futuras estratégias. melhorar seu funcionamento. reflexivo e crítico. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. de comum acordo. permitindo-lhe aumentar sua força. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. de um lado. quando aplicado a um processo de intervenção. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. a-organizacional? Bem entendido. fazer uma sondagem. o “serviço concreto do Homem”). opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. de um lado. de outro. criar uma situação nova. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. de outro. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. Nessa perspectiva. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral.

melhor se fica”. em uma modificação das relações de poder. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. Com efeito. senão de cegueira. ao contrário. uma colocada a serviço da outra. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. uma afirmação da identidade desses dois processos. essas afirmações estão longe de serem verificadas. antes. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. necessariamente. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. Ora. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. longe de terem um valor geral ou intransitivo. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. com precisão. ela também não é. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. Assim. uma dose de desconhecimento. 205 . conseqüentemente. “quanto mais houver saber. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. isto é. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. ela implica. mais a ação é eficaz e pertinente”. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. como alguns às vezes pretenderam. tivemos a oportunidade de demonstrar. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. a ação de outro. Em um trabalho anterior.

Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização.19 Por isso. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. os transforma. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. a mais simbolizável. um sistema de ação. sobre seu passado. entre o que pode ou não ser escutado. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. mas como um processo. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. implica todo um trabalho sobre si. como experiência. 206 . uma escola). entre os lugares de palavra e os de não-palavra. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. por exemplo. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. com o mundo. em uma organização ou em uma sociedade. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. Com efeito. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. O saber. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. é a parte que permite trocas e manipulações. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. tratando dos processos de pesquisa. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. ao mesmo tempo. em um processo de escrita. Assim. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros.

Se a existência de regras e proibições funda uma organização. mas. De alguma forma. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de outro. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. visam a introduzir. em uma negação do inconsciente. no nível do pensamento. que pretenderia circundar o sentido. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. de limitar. que. clivagens e limites. o desejo de tudo compreender e. ao contrário. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. é a condição de toda vida social. o desejo de tudo controlar. para essas representações – esses discursos de representações –. Esse golpe de força. de realizarem sua meta de dar sentido. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. ao mesmo tempo. por exemplo.Intervenção como processo Tal concepção de organização. O processo organizacional funda-se. especialmente do desejo de onipotência. espiritual ou mesmo afetiva. As regras dividem e separam. para perdurar. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. é precisamente a impossibilidade. de separar. 207 . de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). Não se trata então de uma racionalidade mecânica. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. de um lado. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. que não exclui nem dúvida nem incerteza. contabilizável ou informática. a necessidade de dividir. Daí o hiato persistente entre. de toda construção material. assim. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. já foi evocada anteriormente. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. essa. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. dito de outra forma. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. de uma racionalidade criadora.

L’intervention institutionnelle. quanto da análise que a torna possível. em seu primeiro esforço. então. 1980. In: ARDOINO et al. assim. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. L’Analyse social. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. uma palavra continua. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. Jean e LÉVY. 2 208 . de ignorar as implicações dessa inversão. é importante. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. ao menos. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. sobretudo. Connexions. Paris: Payot. a se desenvolver. Respondendo a uma demanda de palavra. Porém. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. 69-100. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. fazendo isso. Dessa forma. I/1980. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. até então bloqueada ou proibida. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. mantendo vivo o passado. por Marília Novais da Mata Machado. ela se choca assim. ou. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. André. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. p. 29.

também “Le pouvoir et la mort”. Por exemplo: Max PAGES. Mal-estar na civilização. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. introduzido por R. Paris: Payot. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. Thèse d’Etat.. um individual e outro grupal. Em termos mais sofisticados. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. em Topique. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Seuil. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. L’amour du censeur. 1980. 1978.”. op. L’intervention institutionnelle. 21. “Le changement comme travail”. cf. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Cf. Les Mots. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. la Mort. 7. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. les Sorts de J. 49-68. “Sens et crise du sens dans les organisations”. I/1980. Jean e LÉVY. “Dire la loi.. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. “L’Analyse social”. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. trabalhando com a própria contratransferência. de P. de E. Cf. Sociologie du Travail. In: ARDOINO et al. “L’interprétation de discours”.. 21. LEGENDRE. Connexions. “L’acteur et le système”. Paris: Seuil. “Dire la loi. Connexions.”. CROZIER. cit.3 4 5 Inspirado em G. LAPASSADE. ENRIQUEZ. inédita. LÉVY. Connexions. Gallimard. Traduzido de: DUBOST. Connexions. pp. postula dois aparelhos psíquicos distintos. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. 196l. Segundo o Petit Robert. S. André. Connexions. 29. Cf. Nesse exemplo. KAES. Como toda análise de conteúdo.. Esse conceito. FREUD. FAVRET-SAADA. Connexions.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. de forma concisa e injusta (mas. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. Esse número de revista testemunha bem o fato. de toda atividade de formação. e mais violentamente. mais precisamente. 2. como a maior parte das indagações a respeito da formação. as práticas de formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. uma dúvida me invade. Por isso. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. ainda. o procedimento de exclusão do real e. isto é. sem dúvida. Entretanto. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. nesse breve artigo. e. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação.O que ocorre de essencial no ato formador. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. há casas para ela). que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. ou. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado.E também o que é o próprio sentido desse movimento. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Dizendo o mesmo com outras palavras.

Orienta-se (e não apenas na China. sua vontade e sua imaginação. Assim. advindo a necessidade. Toda formação. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. todo crescimento no domínio das informações. um efeito positivo para o formado. de investimento pensado.a dos formadores e educadores. Trata-se.a dos psicólogos. de outro. de reciclagem e. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. a fim de poder seguir as mudanças e. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. de paciência. de tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. de um lado. Certamente. toda aprendizagem de técnicas teria. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. a todo momento. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. ainda mais. para desejá-las e provocá-las. situando a prática que buscamos promover. mas também têm. a formação permanente torna-se indispensável. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. temores do formado e condicionamentos sociais. 3. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. 212 . então. cada um à sua maneira. então. O problema é unicamente operatório. para um sistema onde. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. 2. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir.a dos sociólogos críticos. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. o progresso dos conhecimentos. resistências.

na transformação e ele é. Ora.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. que a libido é turbulenta. além de anularem toda diferença e toda dispersão. o do louco. cartesiano. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. o do outro. que o homem está sempre por nascer. O comportamento adulto é o comportamento refletido. através da ordem. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. sem paixão. que as reconstituições são parciais. da mesma forma. o do primitivo e. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. o real é o que escapa a toda definição. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. sem sonho nem loucura”.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). sobre qualquer outro pensamento (o da criança. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada.3 referindo-se ao racional e ao controle. sempre a serem melhoradas. do cálculo. é o que excede toda análise. inesgotável. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. além de toda interpretação. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. estritamente falando. que as causas determinantes não existem. as brechas repentinas. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. obtido apenas 213 . da medida. que se torna assim excluído). ele se revela na ação. portanto. os blocos erráticos. hoje. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. O real não está lá. ao umbigo dos sonhos. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. mestre das leis e da morte. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta.

as conseqüências que acabam de ser enunciadas. pois ele não pode sê-lo. Ora. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. o confronto com a finitude. se for atravessado pela ideologia do senhor. então. a opacidade. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece.5 Certamente. a energia que se desprende. as provas de sua impossibilidade. Como viver o desejo do pleno. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. temos a bola de fogo. de hábito. do questionamento do saber obtido. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. imagens protetoras. as variações de temperatura. De outro lado. a cada dia.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. como uma água calma. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. a angústia de se perder no turbilhão de questões. a humanidade estará. Temos de um lado o conhecimento. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. desenvolvendo-se progressivamente. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. falando dos signos da 214 . Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. Quando houver apenas Eus fortes. Aliás. a alegria da certeza e. ao mesmo tempo. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. o seu contrário. do que tranqüiliza.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado.4 isto é. por isso. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). como diziam os alquimistas. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. 2. E nunca esse programa foi mantido. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. não se trata aqui de uma simples metáfora.

se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Conclusão: o que permanece são as certezas. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 .Quanto ao segundo princípio. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. mas uma relação angustiada com o saber. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho.6 Ora. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. 2. Então. Igualmente. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. os psiquiatras aliados do poder. Os tecnocratas. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga.. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas.. a despeito de suas diferenças. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido.

que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. É talvez por essa razão que. aliás. alienada na sociedade contemporânea. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. além do mais. gestalt-terapia. ao qual muitos poderiam se subscrever. Acrescentemos que. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada).Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. o homem. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. em um congresso de chefes de empresa. não existe. com seu corpo e com seus desejos. há alguns anos. esses mesmos estágios. no momento. liberação corporal e sexual. Horizonte grande e enaltecedor. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. assim como as experiências de bio-energética. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. grupos de encontro. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. ter um outro modo de relação com os outros. algumas vezes. o cachorro ou com o estrangeiro que. no qual se inscreve toda 216 . mas de peso. impacto social menor (estamos. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. então. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. é preciso. é que a pessoa. mas porque apresenta. tendo recebido um certo tipo de educação. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. a mulher. que relações de poder ele pressupõe. Um importante dirigente internacional não dizia. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão.

Sua beleza desencadeia esse prodígio. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. não temos nada a dizer. feito de uma explosão que me fascina. a quem falo. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. por quem e por que sou falado. que dá a cada parte de seu corpo. alguma coisa explode em mim. permite colocar a questão: de que lugar eu falo.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Mas. Não se aprende o amor. LECLAIRE: Quando. Então. que instituições me sustentam. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . que podem ser atuados. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. testados no mundo. de uma luz na qual me banho. Trata-se unicamente de relações faladas e.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. Entretanto. eles não se explicam. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. justamente. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. por que falo dessa maneira. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Como escreve S. renasço. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. que desejos elas retomam ou reprimem?. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. que sofre e que ama. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. então. a seu cheiro. Em contrapartida. durante um tempo determinado. em técnicas e em posturas. mesmo nesse último caso. à sua voz. num momento de estado de graça. como tais. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. complementares ou antagônicos. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso.

os tabus. não porá nada em movimento. as manifestações sem seqüências. O lento trabalho do negativo. E talvez. vai querer se fazer amar por todos. embora plenas. super-ativo. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. na maior parte do tempo. seu rigor. esse irromper não ocorrerá. Eles. esses discursos. Ei-lo. Mas. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. tomar o lugar do líder. definido como um lugar no qual se deve comunicar. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. única fonte de mudança. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . analisando com toda a sua força. do aumento do grau de irrealidade da situação. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). entrará em jogo um sentimento “autêntico”. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. as proibições. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). Outro deixará se levar por suas emoções. mostrando assim sua potência. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). um ato-falho. a não ser que queiram ou possam. as transferências maciças. de tempos em tempos. fazer triunfarem suas fantasias. e ele é um bom juiz. para que entrem em uma relação de transferência.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. estará pronto a largar mulher e filhos. não se entregam. os mais narcíseos) podem. tomar o grupo em seus desejos. arriscam tudo e nada arriscam. onde tudo era diferente. seu “saber-fazer”. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. assim. irromperá um lapso. então. chorará (o próprio ROGERS. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. essa explosão. Uma vez de volta às suas instituições. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. certificando-se de que nada lhe escapa. ou. para fazê-las sair de suas tocas. ao mesmo tempo. como os weekends e as maratonas. a fim de viverem sentimentos intensos. pois as palavras trocadas. declarará sua paixão por uma estagiária. o tempo ao momento. não pode ser feito. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. no medo e tremor. os choros e os gritos de alegria. Mas o psicólogo está lá para as acossar. Ficará apenas a lembrança de um momento único. pelo menos. o fazer ao dizer. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. as fantasias invasoras. questionará as instituições. favorecendo os processos regressivos.

Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. na formação. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. como muito bem o diz J. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). PONTALIS. é essa troca de palavra. para expressá-las ou mesmo provocá-las. A mensagem dada. é esse turbilhão do amor e da morte. em sua aridez. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. Quanto a seu conteúdo. ou atento e vivido como o dos psicólogos. em muitos aspectos. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. Além disso. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 .-B. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. simultaneamente. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. Mas. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Sem dúvida. assim. é a capacidade inventiva dos participantes. então? Vemos que o que é dito é. Afinal. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. exato e periférico (não tocando no essencial). seus métodos. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. Igualmente. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. divulgá-la nas massas dominadas e. ele é chocante e desesperante. mas científico. Toda formação (qualquer que seja seu programa. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. é o veículo privilegiado da dominação social. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. o que é essencial é o que se passa no campo formador. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. aquele que dita a norma (M. FOUCAULT). DELEUZE e GUATTARI). O único senão é que.

a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. tenha sido possível ler. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. de constatação aguda e de desmobilização geral. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. em uma palavra. profissionalmente e socialmente se mexam. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. ao mesmo tempo. se ela o fosse. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. mesmo se. de um processo. justamente. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. nas Questões propostas. de um trabalho de mudança. em filigrana. isto é. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. ela não chega a ser totalmente dominante. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). o que não se pode esperar dela. isto é. explicável por um único tipo de lei. o que ela esconde em seu próprio movimento. 220 . não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. depois de tê-los escutado. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. tão sistemáticos. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. os movimentos sociais emergentes. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. Seus enunciados são tão gerais. que só nos resta. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. não de uma formação (a rigor. a vida.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. a transformação das relações sociais. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. homogêneo. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente.

um jogo de luz sobre certos pontos que. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. dessa desordem-ordem. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). Ausente. Por meio dessa ausência-presença. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. Ele está lá vivendo. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. provocando a vontade de respirar. mas sua relação com o saber. suas idas e vindas. suas descobertas e suas resistências. através dessa ausência. Quando ele intervém. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. fazem surgir formas da sombra. organizacionais. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. Ele está lá simplesmente como uma referência. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. ele não é o portador do sucesso da experiência. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. indicando. suas interrogações e também suas paixões. ele deveria se calar?). seus entusiasmos. uma movimentação de energias. as correntes de informação. desse lugar desocupado e fugidio. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. assim. políticas. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. na situação. por isso mesmo. suas falhas. ele oferece não um saber. aliás. um encadeamento de Questões. em suas diferentes dimensões: culturais. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. 221 . resvalando. a criação de negentropia (isto é. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. mas uma problemática. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. mas.

tal funcionamento é profundamente mistificador. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. as diferenças são apagadas. de suas relações afetivas. a relação com o saber é suspensa no vazio. com relação a esse personagem. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. Um outro participante manifestava. praticamente nunca era contradito e. os conflitos não têm mais espessura social. No caso contrário. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. a resistência se deslocou. Por isso o trabalho do grupo será centrado. entre cem. Como interpretar tal situação. 222 . um dos membros do grupo era particularmente escutado. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. tendo um passado. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. Não são pessoas ou seres desencarnados.). não há muito tempo. Um exemplo. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. vivem em organizações específicas. uma atitude de deferência e de sedução. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. para não falar de sua situação econômica. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. o resto do grupo o seguiu em bloco. projetos sociais. formadores etc. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. Ora.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. de seus corpos e. hoje. tomando certos caminhos e não outros. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”.

mas como portadores de suas angústias. O lugar fechado. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. fecundarão novas atitudes. é aberto sobre o mundo exterior ou. É por isso que somos partidários de estágios longos. não há mais dicotomia entre ato e palavra. experimentaram. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. Não estão lá como pura presença. um ou dois anos). construíram ou destruíram em seu meio real. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. conduta e gesto. Em cada sessão. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. outras palavras sociais. intensivo. outros atos sociais. mais exatamente. A partir do momento em que o desejo circula. de suas tentativas.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. imaginam soluções. realizaram. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. lugar de análise. a 223 . confrontadas. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. fazem propostas. imaginário instituinte. aprofundadas. ação real e ideologia. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. menos tal processo pode ocorrer. retomadas. de seus sucessos. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. a imersão na vida aqui e agora. de breve duração. o foco em relações afetivas imediatas. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. os participantes falam do que fizeram.

Resistência vinda de indivíduos em formação. com o outro. momentos de embotamento. possa. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. irrupções vulcânicas. períodos de análise refletida. de necessidade de alimento. discursos ideológicos desenfreados. com o saber) são descentradas. uma angústia diante do desconhecido. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. então. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. mesmo se ela pode se tornar criativa. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. falar. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. ter caminhos balizados. direito de atuarem. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar.. Não está. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. ter efeitos. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica.. todos juntos. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. viva paixões. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. a precluir certos registros (da paixão. naturalmente. Não nos enganemos entretanto. Trata-se. que o amor inexiste sem a experiência da morte. expressão gráfica etc. ser protegidos. talvez. do gozo). evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. do saber alegre. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. em questão visar à dissolução pela dissolução. do fogo e mesmo do caos.. mais dinâmicos. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. ao contrário. impossibilidades totais. nesse processo que. se interrogue sobre si mesmo. a fim de que a energia livre. Momentos de mutismo e de temor. algumas vezes. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. reencontra muitos obstáculos ou. Aqui. Essa experiência da heterogeneidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. do excesso. de novo. a loucura e o sonho possam ter. por enquanto. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. a periodicidade desses momentos. depois de terem liquidado 224 . mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas.

O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. eles reencontram a inércia das estruturas. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. então. o que ela busca induzir. a dificuldade intransponível. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. naturalmente. E que. Naturalmente. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. é necessário que ele seja evocado. da intervenção. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. Essa experiência da margem. mesmo se os participantes podem. para nós. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. provocar mudanças. Na intervenção. entre as sessões. avançando uma série de proposições. Intervenção psicossociológica. Enfim. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. o espanto e o desprezo de seus colegas. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. tentar experimentar novas condutas. o que ela não poderá jamais realizar. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. de trabalhar 225 . mas a confusão. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. sobretudo. seu possível devir Não está em questão aqui. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. deliberadamente. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. quando retornam às suas organizações. Trata-se. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. a utopia e a inquietante finitude. se transformará em um simples prestador de serviços. as numerosas escolas. que deveria transformar o que está no centro. senão a violência simbólica da organização. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. seu modo de existência.

a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). A palavra reprimida. numa primeira análise. de definições de tarefas etc. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. toda a violência do cotidiano que. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. ao contrário. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. mas.) e que desejam resolvê-los. para se expressar. como submissos. isto é. Não por razões morais. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. uma certa fissura no organograma da organização. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. consciente ou inconsciente. uma situação irreal. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. no processo de trabalho. desordem nas salas. A intervenção. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. que têm problemas concretos (de decisões. então. antes de tudo. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. na hierarquia interna. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. assim. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . impede de ver e de sentir outra coisa. mais exatamente. como na formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. além do mais. absenteísmo. durante muito tempo. desperdício. de melhoria de condições de trabalho. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. mas. Essa recusa. existissem como executantes da máquina. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. recusa a alguns o próprio direito de falar. O que está presente não é. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos.

relações de poder e separações instituídas.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. progressivamente. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. Não se trata de sonhar por sonhar. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher.D. a deixar seus desejos serem expressos. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. entre si e o outro. Mas. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . para que possa interrogar o oculto.F. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. Colocá-la em causa seria um salto mental. O que resulta.T. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. ou que possa pensar de fora da fábrica. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. pelas relações codificadas. “ruídos”. Numa pesquisa efetuada pela C. então. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. a aceitar sua parte de loucura. para que o olhar se desloque. transformador do mundo. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. pensamento-execução. que faz surgir um real além do real percebido. pai-filho ou ele-outros.

os psicólogos. ele classifica. ator e analista social. imaginativo. ou. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. pessoal de cozinha e de limpeza. analógico. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. dessa maneira. cada um se tornando. os educadores chefes e especialistas. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. o inesperado. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. numa decodificação das relações. à sua maneira. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. O que significa. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. numa análise em ato da organização. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. promete apenas. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. com seus argumentos e suas demonstrações. Assim. mas em uma maior fluidez. os psiquiatras. pode sair a surpresa. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. decepção. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. Ele distingue. sem análise. uma nova forma de educação. Aliás. igualmente. é lei retomada. isto é. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. a própria idéia 228 . Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. é necessário que os modos de pensamento. a médio prazo. que o surgimento do imaginário. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. ao se deslocarem. metafórico. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. ele exclui e. sua cronologia e suas articulações. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. no mínimo. além das crianças. é o que permite a troca e a reciprocidade. onde a lei. transformada e garantida por cada um. então. dessa ruidosa confusão. outras formas de relação e outros modos de estruturação. fazem da criança também um educador. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. As posições.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. subvertidos ou. interrogados.

da ortografia necessária. à língua (a parte social da linguagem) dominante. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. dissimula. Não se trata apenas do modo de pensamento. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. de intimidade. para ser expressa ou reencontrada. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. falarão. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. como ele próprio o diz. as “estórias de comadres”. A língua. Assim. inversamente. já não indica que as relações de cumplicidade. é como o dinheiro. Naturalmente. isto é. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. Mas aí também sabemos que. Essa perspectiva não o impedirá. Mas. divertida. colorida. o homo demens no homo sapiens. mas também da linguagem utilizada. atrás da imagem de falar bem. Quando. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. de fazer. nas organizações. a invenção popular. do bom estilo. por sua vez. As pessoas se submetem. Buscamos. na realidade. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. isto é. então. a língua. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. o roubo da língua espontânea. pelo contrário. a verdadeira 229 . antes. Ora. pede que cada um pense e viva na contracorrente. sob certos aspectos. um elemento de mascaramento do sistema social. da Psicanálise uma arte de construção. na França. submetem-se ao princípio do prazer. isto é. da criatividade diária dos grupos sociais.11 Queremos dizer que a verdade.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza.

da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. reencontrar a língua perdida. de seus mandamentos. do mundo adulto (e o atacam). Por isso. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. pode-se constatar que eles se protegem. argumentada. Não apenas de autoridade. Veja-se bem a dificuldade. se dá conta disso. Mas os tradutores traem. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). dessa forma. mas de poder: da lei. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. A mesma coisa ocorre hoje. antes de mais nada. as frases que inventam. inventar um falar. todo mundo. para obrigá-los. mas o da dominação que ela instaura. fazê-la viver. em boa linguagem. É por isso que atacar a língua dominante. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. Aliás. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. Há uma língua dominante. precisa e cifrada. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. que são os que podem traduzir. fazendo-os aprender a falar. a partir do Século XVII. Eis que chegou o tempo dos tradutores. pois o 230 .Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. mais exatamente. reencontrar sua língua. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. a dos tecnocratas. para se protegerem dos outros atores sociais. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. quando se escutam as palavras que eles utilizam. experimentar o seu calor. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. confusamente. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . Se. então. de modalidade de comando. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. não tendo mais nenhum elo com as esperanças.

nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. as comunicações interpessoais e intergrupais. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. nem renunciar a seu poder. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). os hábitos. o interventor ultrapassou o limite. mas. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. mas sim questionamento infinito. assim. os estilos de autoridade. interminável. mas também quando o poder está em jogo. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. sendo. a intervenção pára. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. sua vontade instituinte e. ele lhes permitiu. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. colocar-se em questão. então. ao contrário. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. Mas. Entretanto. quem quer que seja (dono de empresa. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. De qualquer maneira. se uma demanda lhe foi feita.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. chocase violentamente com as estruturas. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. então. justamente. com uma outra linguagem. as resistências. Assim. A intervenção. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Então. agradece-se ao interventor. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. a se informarem. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. quando estão no campo de análise não apenas as relações. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. membros do comitê de empresa. quer que ele seja reforçado. então. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. sendo inauguração de uma palavra nova. dentro de certos limites.

a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Ele não analisa sozinho. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. 232 . quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). é aos atores sociais reais. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. se ela se coloca. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. os movimentos sociais. dispersões a se operarem. Porém. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. Pois. não lhe cabe questionar os poderes. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Ele não realiza nenhuma mudança. não os conduz em direção a nenhum resultado. em contrapartida. Não sabe pelos outros. colocando-se como um shaman ou um mártir. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. das funções elucidativas.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. energias começaram a circular. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. através de ações. palavras a serem ditas. pólo de identificação ou bode expiatório. sendo alguém que incomoda.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. Também não se pode dizer que ele fracassou. que só poderá viver. que. Quanto ao valor e à importância desse movimento. procedendo por deslocamentos e rodeios. mas favorece o desejo de mudança. Ele não transforma as estruturas. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. então. é que. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. O que ele sabe bem. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. eus a se abalarem. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. seu trabalho só pode ser lento.

Entretanto. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas.Em contraposição. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. 3. Pode. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. Anteriormente. então. 4. agricultores tendo interesses em comum. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Suspeito por todos. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. mas que ele deve saber.A falta de formação dos interventores. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. inclinar-se à rigidez ou. mais sua ação será limitada a certos grupos. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. desde o início. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. sua posição nada tem de confortável.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. traidor em potencial. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. ao contrário.

uma redistribuição mais aceitável da autoridade. que assim buscam empreender atos significativos. eles se preparam para uma vocação de mártir. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. Aparentemente. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). 234 . ser retomado. em uma sociedade tecnocrática. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. 3. o que nos parece mais importante. um maior controle consciente. não a desejam com freqüência para si mesmos.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. Isso é compreensível. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. sobretudo. Um dia. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. então. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. da mulher.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. com outras relações. Quem quer conhecer a dúvida. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. efetuado por eus fortes. eles desabarão. 2.Enfim. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. em um soberbo isolamento psicótico. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. comunicações melhores e. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. por seus gestos. a demanda acaba. do desejo da alienação etc.

Epi. Connexions. Na primeira meditação. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Le Seuil. Cinco lições de Psicanálise. CASTORIADIS. enunciadas. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. ENRIQUEZ. n. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. FOUCAULT. caracterizadas. Le paradigme perdu. Paz e Terra). 1974. Segundo J. Points. Le Seuil. “Imaginaire social. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que.” Le sauvage et l’ordinateur. On tue un enfant. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . Gallimard.-M. C. Pour la Sociologie. descritas. L’institution imaginaire de la société. Le Seuil.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. repentinamente. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. o Eu tudo destrói. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. DOMENACH: “Para não ser destruído. CASTORIADIS-AULAGNIER. E. Serge. M. 1972 (Imaginário social. Topique. LECLAIRE. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. 1974). p. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. 17. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Les mots et les choses. recalcamento e repressão em organizações. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. Seuil. FREUD. 137-159. no 3. Eugène. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Connexions. essa abertura profunda na superfície das continuidades. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. refoulemente et répression dans les organizations”. A. do sonho e do gênio maligno. não caem nesse erro. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Em Lip. Cf. cujos signos. “Points”. 1975 (Mata-se uma criança. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. eles disseram: “mas era apenas isso!”. 1977). MORIN. La nature humaine. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. cf. por Marília Novais da Mata Machado. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Rio de Janeiro: Zahar. 13. Piera. E. 1976. TOURAINE.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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pode. porém. perspectivas. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. 242 . A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. parece importante aos solicitadores. hipóteses. em excesso. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. justamente. numa dada situação concreta. abordando concomitantemente o sistema. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. os atores envolvidos. mas. regras. não poder sê-lo. além disso. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. que pode ser feito fora de um universo técnico. dimensões ideológicas. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. isso se dá.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. Ao mesmo tempo. a examinar princípios. Caso um apelo seja feito a mim. mas pode. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. também. mas tomo iniciativas e faço propostas. firmemente. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. algumas vezes. Ao mesmo tempo. meus conhecimentos e habilitações. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. justamente. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. Assim. sobre a maneira como se afastou do previsto. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). os fatores geradores do problema. a partir de um determinado momento. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. de preferência. sua participação no trabalho. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores.

Poderíamos. os fenômenos de moda. a seguir. Evocaremos. formas de autoridade. no final desse artigo. para tratá-lo. em si mesmo. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. as propriedades do sistema (grau de centralização. as funções externas almejadas pelos atores. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. O modo de estruturação do processo pode se tornar. a natureza dos objetos.). É nessa perspectiva que é preciso. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. constituindo. tamanho. tentar. por exemplo. rapidamente. tal vantagem deve ser abandonada. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. então. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. tolerando apenas uma gama restrita de variações. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). na determinação das técnicas. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. um objeto de trabalho. suas orientações teóricas. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. os custos etc. Cada uma comporta pressupostos. então. tornar mais inteligível. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. em função do campo no qual elas aparecem. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. não apenas objeto de trabalho para os participantes. então. os recursos da equipe de consultores escolhidos. Porém. 243 . PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. ecologia etc. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. princípios estratégicos. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. tolerância à diferenciação.

combinados ou não a estudos monográficos e históricos. parece-me. na maneira como J. Algumas vezes. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. em algumas práticas. 244 . nas de TOURAINE. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. Entre esses dois pólos. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. bem cedo. isso se passa sobretudo porque. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. COCH e FRENCH). os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. a partir da prática psicanalítica. Em seguida. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. algumas vezes. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. estão as técnicas de pesquisa de campo que. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. Entretanto. B. GODIN. Quanto às estratégias de pesquisa.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. de maneira bem menos acentuada. a observação participante. a propensão dos práticos de intervenção. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. em especial. de devolução aos participantes e de interação dos atores. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. uma origem técnica importante. depois de LEWIN. por exemplo. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos.

a escolher as variáveis de ação. em todos os casos. a isolar os objetivos. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. há muito tempo. a origem das disfunções. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. Pode-se observar que. é comum. a natureza das resistências. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. a identificar os problemas. por exemplo. como em outros lugares. quem conduzirá esse trabalho. a atuação dos conflitos. a obra de G. que. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. ainda hoje. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. no papel de especialistas. quem reterá as soluções etc. quem escolherá as opções. os limites desse modo 245 . Em um campo bem diferente. as razões dos bloqueios. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. atualmente. Em todos os casos. pela encomenda de um estudo “Retrato”. a caracterizar melhor as situações. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. é dessa maneira que elas se estruturam. freqüentemente. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. Entretanto. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. Igualmente. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. na França. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. produzindo dados válidos. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. no começo. de fato. nas próprias operações das fases de estudo). os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. o significado das condutas etc. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos.

Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. um retrato eventualmente objetivo e fiel. já citado. . a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. enterrá-lo. em especial. denegação. .O trabalho é conduzido por uma equipe externa. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. do exterior. são interrompidas. restaurando a coesão. apresentaremos rapidamente três observações: . freqüentemente com espanto. depressão etc. constróem. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. por exemplo. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. a não ser esquecê-lo. cólera. o trabalho de recenseamento. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. ao menos. desenvolve muito claramente esse aspecto. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. de fato. o inventário. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. por exemplo. Não se sabe mais o que fazer. sobretudo. com a apresentação dos resultados. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. Se muitas intervenções. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. então. caso se decida reiniciá-lo. escolhe-se. de caráter mágico.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. 1980). O texto de André LÉVY. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . conseguindo uma solução de síntese ou.

chega-se. o debate. eles me parecem. os critérios de cientificidade: validade. a perlaboração. De meu lado. sobretudo. por categoria de ator etc. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. às relações elaboradas e conceituadas demais. pertinência.fracionar a investigação (por tema. e apesar das reservas expressas. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. . como o próprio relatório. com o trabalho sobre os resultados. mas repensar essa lógica (por exemplo. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. algumas vezes. pode-se tentar: .associar todos os parceiros envolvidos.preferir. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades).) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. então. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. assim. adiamentos de realizações importantes. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. correspondentes a atuações mais modestas. a uma solução que exige uma equipe e. 247 . parece-me. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. em outras palavras. durante o trabalho de análise da demanda. . na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. o que provoca aumento dos temas de estudo. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição.

ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. 1972). a uma perspectiva de intervenção. De uma maneira geral. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. JAQUES. nessa segunda categoria de origens técnicas. de uma perspectiva de formação. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. em diferentes lugares da sociedade). ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. sobre a possibilidade de contorná-los. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. na qual. porém. algumas vezes. Logo. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. numa escala pequena. evoluiriam. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. Passar-se-ia. apresentam-se como a aplicação simples. traduzido para o no 3 de Connexions. é necessário lembrar que. assim. a fim de que elas mudem”. com muita freqüência. na Glacier Metal Company. os grupos. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. a partir de 1964. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. social analysis. de aperfeiçoamento e. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. adquiririam novas propriedades. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. o artigo de E. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. em seguida. as práticas de formação. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. em um plano concreto. TRIST.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. de 1948. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 .

com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. por exemplo. ao mesmo tempo em que se reforçava. a importância da referência à Psicanálise. em seguida. utilização da autóptica. na França e em países estrangeiros. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. ANZIEU transpôs. inscrevendo-se. C. ENRIQUEZ consideram. D. KAES).As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. a fortiori. na empresa Geigy. passando pelos estudos de caso. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. LÉVY e. o que representaria. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. não pararam. ao mesmo tempo. no 1 a 10. ao contrário. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. Evidentemente. grupos de análise de prática profissional. no plano organizacional. G. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. as intervenções que se seguiram. em pedagogia do projeto. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. Payot). conceberam diretamente. o movimento de democracia industrial. ROUCHY e E. J. jogos de simulação. nos quais a ARIP interveio. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . C. MENDEL e sua equipe. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. 1972). das estruturas de organização. Mas se. em pedagogia institucional. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. sua prática de psicodrama analítico. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. Sociopsychanalyse. A. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. tecnicamente. ROUCHY. consistia em transpor. especialmente. se quiséssemos ser menos esquemáticos. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. para o seio da cúpula. essa evolução. no plano teórico. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. de se diversificarem em função da natureza das demandas.

ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. Evidentemente. é necessário providenciar a formação do responsável local. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. da facilitação e. Além disso. no espaço organizacional. a mudança social desejada. forçosamente. desde há algum tempo. esperando-se que se aumentará assim. de acompanhamento ou dinâmica). é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. ao mesmo tempo. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. na medida em que instituir. o risco. localmente. da regulação (hetero – ou auto –. os meios de verificar a validade das hipóteses. é a descentralização. as que se nutrem da formação surgiram. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. Com efeito. De uma maneira geral. estágios existentes fora dela. entre os próprios serviços de uma organização. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. é mais rápido. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. então. é que se engane sobre a causa das dificuldades. Enfim. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. em especial. 250 . a palavra de ordem. mais racional e menos caro. irrelevante. durante um tempo que pode ser apreciável. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. freqüentemente.

Tal dispositivo técnico é insuficiente. os consultores. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. do qual se espera a responsabilidade. de uma maneira progressiva. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. confrontá-la à dos outros atores. tal risco. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. A competência de um interventor.. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. os solicitadores. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. descobrir. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. na elaboração dos programas. ao desempenho eficaz da prática de formador. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. além disso. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . Paralelamente. então. Um meio técnico (que. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. entre os dirigentes. manter essa dimensão presente durante todo o processo. Ainda assim. evidentemente. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. Esse risco pode ser reduzido apenas se. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). em assegurar “suas tarefas”. primeiro. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. de um lado e de outro. aliás.

e não em técnicas de ação formadora de diretores. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. Entretanto. em problemas de remuneração etc.. em data.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. afetando a estrutura e as instituições internas. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. de agentes de comando ou de pessoal de execução. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. Porém. o desenvolvimento técnico e científico. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. em resposta ou não a um apelo. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância.) –. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. numa crítica aos limites do staff and line. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. é interessante observar que. Sem poder preparar aqui tal reflexão. Por exemplo. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc.. 252 . que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. dois atores ou diversas instâncias em interação. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. as estruturas internas das organizações se complexificam. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). Ela compartilha. a convicção de que as condutas das pessoas. um grupo. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. um sistema e seu problema. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta.

existem. Em países como o Canadá. Então. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. durante os motins do Harlem. o sociodrama. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. por exemplo. evidentemente. eventualmente. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. freqüentemente. os “organizadores de comunidades”. como o sociólogo S. assim. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. a práticas de debate. renovando-as. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. sistematicamente. são chamados. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. nos conflitos entre direção e sindicatos. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. J. os psicossociólogos. retomaram. no fim dos anos 20. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. ALINSKY. enriquecendo-as. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. mas. No campo das empresas de produção. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. L. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. 253 . Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. Mesmo a história da intervenção de E. TOURAINE recorre também. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. progressivamente. Mais recentemente. em Nova Iorque. vir a substituílas completamente. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. de defesa ou de negociação.

talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. das lutas militantes etc. há uma 254 . audiovisual. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. Da mesma forma que. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. da magistratura. então. as prescrições) e funcional (no campo técnico. de formação. Embora não ilustre especialmente esse risco.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. os dispositivos de proteção. de fato. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. de propaganda. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. para a primeira origem. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. No começo. concurso de segurança) etc. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de sensibilização (por exemplo. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. de estudar as instalações da fábrica. a toda especificidade. em conseqüência. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. social). educativo. apenas. de alguma forma. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. tanto no plano material quanto no legal. e renunciar. e que. para a terceira. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. Entretanto. Parece-nos que. da polícia. de organizar as ações de inspeção. as oportunidades. das relações pastorais. para a segunda. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. difusão das estatísticas de acidentes.

O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. evidentemente. gerentes. Os confrontos entre atores (por exemplo. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. Uma abordagem mais recente. propor as medidas. de segurança e de condições de trabalho. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. então. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. Uma vez estabelecida a composição. contramestres. pessoal de execução). evitase. No caso da intervenção psicossociológica. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. geralmente. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. em outros países. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. por exemplo. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. algumas vezes desenvolvendo. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. por uma intervenção psicossociológica. concomitantemente. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. produzir os diagnósticos. no começo. De acordo com os resultados. No fim desses dois dias. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. fundamenta-se também. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. ou por uma intervenção apenas formadora.

Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. ligada às diferenças de status e/ou de poder. Porém. decisivos. produz uma frustração muito forte no ator. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. Ela permite. então. de múltiplas forças antagônicas). permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. tal 256 . Em relação ao processo das intervenções precedentes. em teoria. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. para nós. estende-se numa duração que se mede em meses. A última negociação consiste. entre outras coisas. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. em especial. instituídos pela lei Auroux. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. a ponto dele renunciar. a intensidade emocional mais forte. Como no caso anterior.

mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. aqui. Enfim. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). está. entretanto. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . ancorar. mas têm. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. mas também em encontros do mesmo estrato. por exemplo. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. sem dúvida. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. Está claro também que. Em outros termos. senão à primeira. aliás. e. Por isso. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. bem cedo. em todos os níveis. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. sempre pluridimensional.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. elas não dependem apenas da técnica. Escolher. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. evidentemente. evidentemente. uma importância acentuada. para guiar a análise. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. tal metáfora. tecido com fios múltiplos. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. Tais requisitos.

as escolhas iniciais arriscam. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. quer esteja empenhado. sem chegar a lhe dar um molde. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. Assim. permitindo isolar. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). enquanto pesquisador. enquanto dispositivo de inserção. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). a mim. no entanto. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. Não é fácil. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. fundamentar tal distinção. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. do gerente ou do político. filtrar com segurança um objeto teórico. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. do terapeuta. ela me leva. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. depois de dez ou vinte dias de intervenção. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. com o tempo. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. retomando a distinção de PALMADE (1977). antes. elas seriam. mas. o interventor é um clínico. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. para o pessoal de um estabelecimento. por si só. em cada momento. capazes de contribuir em processos de pesquisa. Nem ciência nem tecnologia. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . Com efeito. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem.

de maneira mais ou menos difusa. analítica. para mim. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. no começo desse artigo. Enquanto atores sociais. malgrado sua fragilidade no tempo. os espaços urbanos. Entretanto. assim. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. sem subterfúgios. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. Anunciamos. sua identidade social e a natureza de seu projeto. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa.).As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. 259 . assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. para os atores. por certos setores da sociedade. Por outro lado. a administração. importantes sob esse ponto de vista. os setores de saúde. A inserção na universidade. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. analisar e experimentar as vias de democratização etc. em função do campo social em que aparecem. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria.. os movimentos sociais ou culturais etc. Porém. o comércio. e se surgem conjunturas favoráveis. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. pode-se observar que. seria natural levantar tal hipótese. na literatura especializada. podem-se encontrar. adquirir um sentido menos restrito. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. a invenção de instituições locais (por exemplo. o mesmo se passa. tais acontecimentos podem inspirar outros e.

). os resultados quantitativos estabelecidos por C.-C. de colaboração profissional.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . p. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.).T. . ainda. 2 260 . necessariamente. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. . nesse número. 7-28.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). Jean. sua própria experiência no campo da saúde. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. evocando. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. autoridade. por Marília Novais da Mata Machado. Porém. Por exemplo. de dependência hierárquica. poder. 1987-l. ROUCHY chegou. voluntária ou militante etc. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. o espaço urbano). se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. . pode-se aplicá-la a outros campos.). as conclusões às quais J. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. Notas 1 Traduzido de DUBOST. MARTIN em uma pesquisa recente. a divisão do trabalho. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. Connexions. . com o que se observaria em outros lugares. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. até um determinado ponto.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. não coincidiriam. posição central ou periférica etc.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. 49. a estruturação dos papéis recíprocos.

1980. Paris: PUF. Connexions. LE BOTERF. 1977. 1972. LÉVY. La Documentation française. 1986. Paris: LFEEP. “Une intervention psychosociologique”.-C. Les recherches-actions sociales. 1987. Paris: Anthropos. Théories et pratiques de l’éducation permanente. ROUCHY. A. Interdisciplinarité et idéologies. J. PALMADE. J. G. G. In: L’intervention institutionnelle. Paris: Payot.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. L’enquête participation en question. 3. 1981. L’intervention psychosociologique. 261 . C. MARTIN.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.com.autenticaeditora. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.com. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www. fax.

“Quais são os problemas realmente essenciais. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. grupos religiosos etc. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. o triunfo da racionalidade experimental. etnias.br 0800 2831322 . É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. os ‘intemináveis adolescentes’. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.com. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. finalmente.autenticaeditora.

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