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Psicossociologia - Análise Social e Intervenção

Psicossociologia - Análise Social e Intervenção

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Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

Autêntica Editora
Rua Januária, 437 – Floresta 31110-060 – Belo Horizonte – MG PABX: (55 31) 3423 3022 TELEVENDAS: 0800-2831322 www.autenticaeditora.com.br e-mail: autentica@autenticaeditora.com.br

SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

................ 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï.................................... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost......................................................................................................... Benevides de Barros.......................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï....................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy.................................................................................................................................................................... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D.................................. 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez..................... 237 6 ................................................................................................................................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.................................. 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost..............................

reais. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. este livro. bem conhecida e divulgada no Brasil. quanto para os que praticam a psicologia. prático e metodológico. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. dispositivo de consulta e pesquisa. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. fruto do trabalho de psicólogos. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. a administração e a política. cuja história é nele revista e avaliada. hoje. Junho de 2001 Os organizadores 7 . o campo da psicossociologia cresceu. sociólogos e um economista. Desde a primeira edição. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. Por tudo isso. a sociologia. a economia.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. a psicanálise. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. por meio da “intervenção psicossociológica”. À metodologia de intervenções/pesquisas. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. da organização e do funcionamento social. esclarecedoras dos processos de criação do social. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. tornou-se ainda mais importante. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. Assim. tal como no momento da primeira edição. cada vez mais utilizada. o direito. a educação.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

Em conseqüência. a metodologia de pesquisa-ação. em especial. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. grupos. se revelassem. 9 . inicialmente. que condutas. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. isto é. A partir dos anos 50. são o objeto de pesquisa. organizações e comunidades. no quadro da vida cotidiana. em seus grupos. das organizações e das comunidades. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. com as instâncias de mudança. igualmente. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. Atuando diretamente na vida dos grupos. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. por sua presença. empregando para tanto. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. até então desconhecidas. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. as condutas concretas dos indivíduos. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. freqüentemente através de experimentos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. geridos e transformados. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. Portanto. o pesquisador-prático. Passaram a se preocupar. Por meio dessa abordagem. fez aparecerem certos problemas. reflexão e análise dessa disciplina. organizações e comunidades.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social.

sujeitos capazes de serem autônomos. dos desejos de onipotência e dominação. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. Ora. mesmo que involuntariamente. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. de onde e como surge a dinâmica social. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. mobilizados por ilusões e crenças. e serem criadores da história. ENRIQUEZ. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. com suas mudanças e rupturas. adquire um sabor de novidade. DUBOST). hoje ela se renova. de transformações nos sistemas sociais (A. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. do trabalho da pulsão de morte. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. que é também um ato de palavra. torna visível a presença do sujeito social. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. pouco a pouco tecido. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. NICOLAÏ). buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. sempre inacabada. idealizando e buscando destruir seus chefes. pois a teorização é fruto da reflexão que. a mudança social (A. é formulada uma teoria. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. Porém. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. que 10 . É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. 60 e 70. Paulatinamente. e do processo de criação institucional. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. do socius. LÉVY). A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. sujeitos que. contra esse pano de fundo. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. da organização e do funcionamento social. nos termos de E. por um ato de decisão. aptos a um “imaginário motor”.

apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. são apresentados nesse livro por Marília N. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. S. auto-organização e complexificação a partir do ruído. de ARAÚJO. TOURAINE que. entretanto. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. Eugène ENRIQUEZ. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. de suas demandas de amor e proteção. T. práticas de intervenção mitificadas. de suas fantasias de onipotência. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. a condição de construção da vida social. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. A. como sistemas dinâmicos. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. E. Psicologia Clínica (J. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. relações de poder e autoridade. José Newton G. LÉVY. enfim. estruturas dissipativas. mas também de outras referências. está presente em quase todos os textos. nestas páginas. DUBOST. o desenvolvimento de um processo organizacional. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. de BARROS. CASTORIADIS. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. aqui e ali. formadoras das sociedades atuais e futuras. o pensamento filosófico de C. Os autores – Jean DUBOST. ROEDEL). BARROS. da MATA-MACHADO. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. M. a respeito das suas representações historicamente constituídas.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. André LÉVY e André NICOLAÏ –. é analisada. Política. 11 . assim como. ARAÚJO. Sociologia. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. assim como novos sagrados e certezas. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. Assim. autopoieses. formuladora de grandes quadros teóricos mas. CARRETEIRO. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. Sonia ROEDEL. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. MATA-MACHADO). Assim. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. J. CASTRO. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. Eliana de Moura CASTRO. B. são analisadas novas ideologias. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção.

NICOLAÏ. MATAMACHADO). ENRIQUEZ) e Economia (A. em função do mencionado convênio. BARROS. no Brasil. LÉVY. feita em novembro de 1991: . Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção.Em segundo lugar. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. especialmente. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e.). Além desse território de pesquisa. ARAÚJO. MATA-MACHADO – Psicologia Social). mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. ENRIQUEZ. ARAÚJO. Paris X (J. NICOLAÏ) – mas. LÉVY (mimeogr. 1990-1. Essa primeira proposta. MATA-MACHADO e S. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). Paris XIII: M. CASTRO – Psicanálise. Assim. CASTRO. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. “Rupturas. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. de um projeto pessoal e familiar. a partir do exame de uma centena de textos. ROEDEL. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. a disciplina que os congrega. na França. 1990-1. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. cobrindo questões atuais. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . 1989. ROEDEL). 1990. mutações e complexificação em economia” – A. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. a Psicossociologia. resultando em treze textos. M. E. na empresa. LÉVY). mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. DUBOST.). Paris XIII (A. T. .Foram escolhidos. “O fanatismo religioso e político” – E. CARRETEIRO). ENRIQUEZ. T.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. primeiramente. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. 1991. Inicialmente. distribuídos em três partes. A. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. sofreu modificações. ENRIQUEZ. ENRIQUEZ). NICOLAÏ (mimeogr. textos recentes. NICOLAÏ). “A interioridade está acabando? – E. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil).

1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. foi objeto de discussão e comparação. contudo. MATA-MACHADO. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. editado por Jorge Zahar. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. a apreensão de seu sentido original. Por exemplo. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). através da análise etimológica. Mais de uma dificuldade de tradução. preferiu-se “fantasia”. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. mantiveram-se termos como “fantasmático”. Seus nomes aparecem. na primeira nota de rodapé. finalmente. a última tradução foi preferida. apresenta a intervenção. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. mantendo-se a tradução utilizada por T. NASCIUTTI para o livro de E. algumas aterrorizantes. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. . A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. Por exemplo. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. ENRIQUEZ. DUBOST. para designar 13 . além de ser uma parte de retrospectiva histórica. 1976. respectivamente. As traduções foram revistas por J. “Intervenção como processo” – A. à Psicossociologia e à Psicanálise.Prefácio desejo” (A. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. de atividades e produções criadoras. em cada texto. “forclusão” ou “preclusão”. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. 1980. CASTRO e M. 1987). DUBOST. ARAÚJO. CARRETEIRO e J. Buscou-se uma certa uniformização. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. Psicanálise do vínculo social. LÉVY. E. o grupo e a questão da mudança. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. em maior ou menor grau.Em terceiro lugar. a terceira – Intervenção Psicossociológica –.

foi igualmente traduzida por “pesquisa”. a palavra investigation. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. para a palavra enquête. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. Finalmente. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. entretanto. na expressão méthodes d’investigation. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. nosso primeiro leitor.“relativo a narciso”. expressão bastante usada em português. a critério do tradutor. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . essa foi a escolha.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

no entanto. No entanto. à sua maneira. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. visto que todo leitor recebe. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. preenche ou interpreta. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. LÉVY e E.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. Ao apresentar tais artigos. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. a idéia de um “eu”. Eles descartam.1 Pois bem. no enfoque psicossociológico. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala.2 . aquilo que lhe cai nas mãos. Cabe. Mas não poderia ser diferente. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. desde o início. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. O sujeito que não “morreu” A. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 .

nas décadas anteriores. a chamada “sociologia do cotidiano”. E. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. entre nós. o ofício ou o produto. suas relações próximas e regulares. notadamente através da teoria lacaniana. os autores caminham numa direção que. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. a empresa-família é anterior ao sujeito. ligada a uma prática clínica. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. Assim. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. ela é 18 .6 Isso é claro para os autores. por exemplo. LÉVY. vemos que o “indivíduo” é. um ponto de passagem. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. nos parece em parte negligenciada. já na virada dos anos setenta. o da Psicanálise. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. No texto de A. antes de tudo. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. A esse respeito. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. mesmo na França.”.. por exemplo. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”.. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. a família. convém observar que. entre outras coisas.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. nos artigos aqui apresentados. no conjunto das discussões sobre o sujeito. não estariam restritas. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. um átomo talvez.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente.

antes de mais nada. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. por exemplo.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. sempre imprevisível. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. isto é. Importante ainda. identidade coletiva. LÉVY nos lembra. sua constituição “plural” ou coletiva. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. através de FREUD. mas que reenvia. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. as relações sociais. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. além de desempenhar. 19 . “às vezes sem sabê-lo. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. espírito de empresa. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. num crescente alienar-se. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. enfim. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. narcisismo grupal. segundo os autores. pois este. A. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. Ele destaca ainda. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças.” De outro lado. daí a ilusão da identidade pessoal. fanatismo de empresa etc. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. Assim sendo. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. ENRIQUEZ retoma essa posição. um papel essencial nas transformações sociais”. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. O primeiro é aquele que se agarra. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. Desse modo. as significações das ações”. “no momento em que falamos. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. narcisismo social. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. tenta transformar “o mundo.

esportivo. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. A essa altura. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central.) deve ser eliminada. como um fenômeno “periférico”. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. outras idéias. mas que tentam ainda se expandir. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. os nordestinos. árida novidade. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. Basta lembrar. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã.. xenofobia. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. religioso. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade.9 composto por militantes islâmicos negros que. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. científico ou outro qualquer). sentimento de “sermos portadores” da verdade etc.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. como a intolerância e o fanatismo. cabem algumas observações. Assim. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. ilusão e crença.. estamos falando de mecanismos inconscientes). outras propostas políticas. os judeus e. mas exemplar. científicas etc. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. amor (ou cumplicidade?) mútuo. como se tinha notícia até pouco tempo. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. mas sim os processos de idealização. além da sua. em diversos momentos. religiosas. pois ela se torna uma ameaça. Assim. algum tempo após as notícias. no início de 1993. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado..” 20 .Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. tentando eliminar dele os negros..

Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. cada sujeito está perseguindo. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. E. Em outras palavras. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. nossa “seita” de comedores vegetarianos. rapidamente. Enfim. já de início. seja num grupo intolerante. a eterna questão do sentido. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . nosso time de futebol. infantilizando os “fiéis”. no Sul do Brasil. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. ela deve ser doadora de sentido. às vezes. noção de origem literária e filosófica. nosso partido de direita ou de esquerda etc. ele desconhece também. sejam elas brancas ou negras. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. contrapor as noções de sujeito e interioridade. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. a ação grupal deve cobrir um vazio. num clima onde toda crítica está ausente. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. por analogia. O que se torna problemático. Poderíamos.Análise social e subjetividade Aliás. seja num grupo democrático. Gostaríamos de lembrar. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. nosso grupo body-building. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. resvala necessariamente para a intolerância. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. isolada e coletivamente. em níveis talvez menos contundentes. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”.

14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. pois. pois. BERGSON. A interioridade remete. íntima. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. A interioridade. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. na Filosofia antiga. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. vítima de ataques.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. Por outro lado. em oposição ao vazio: trata-se. Talvez seja. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. A questão do espaço. num certo sentido. Aliás. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. é numa relação espacial que ela se inscreve. Se esse sentimento nem sempre existiu. ameaçado de extinção. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. quase que imediatamente. parece haver uma tendência. foi discutida em termos do cheio. em se pensar espacialmente. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). o que é pura duração. A compreensão da interioridade é. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. para ela. segundo o autor. à alternativa interior x exterior. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. é ‘uma terra estrangeira’”. alegria. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. ele existe atualmente e está. a não ser por arrombamento. onde ninguém tem o direito de penetrar. questionamentos. que não é recente. por ser da ordem da especialização. interrogações e que. Para ele. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. na esfera psicossocial. Só o ser existe e ele é cheio. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. 22 . mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização.

só permitindo a percepção de pequenas quantidades. a pele se liga à formação do eu. saturada de comunicação. foram abaladas pela Psicanálise. considerando o 23 . quase que uma obsessão em relação ao próprio território. isto é. capta os estímulos exteriores e também os internos. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. porque especular. refletindo a si mesmo). Assim. temos de falar nos órgãos dos sentidos. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. ao que marca a diferença. separada. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. As idéias de permanência. diferenciando o interno do externo. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. O ter é ulterior. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. Dito de outro modo. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. na época atual. denotadas pelo termo identidade. depois da perda do objeto. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. a identidade própria. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. ela é capaz de dizer: eu tenho. Um corpo dinâmico (isto é. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. Já a identidade marca a diferença.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. Há. meio de se situar no mundo. Existe. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. o que se vê por fora é um reflexo do interior. unidade e similaridade. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. A percepção do espaço remete à visão. eu não sou. Limite e superfície privilegiada de estimulações. O culto exagerado do corpo. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. bonito. isto é. diz FREUD. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo.

É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. é certamente desprovida de energia ou. no campo da argumentação psicossociológica. e como bem captou ENRIQUEZ. naquilo em que ele é diferente do outro. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. nenhuma leitura é um ato neutro. Por isso. em sua obra Lector in Fabula (trad. ARAÚJO. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. Ele diz. isto é. a interioridade considerada. por ser essencialmente espacial. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. quer como conceito psicológico. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. Afinal. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. Notas 1 Humberto ECO. 2 24 . entre outras coisas. em outros termos. que todo texto é um tecido de espaços em branco. O oculto. já dissemos. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. de outro lado. é passiva. E o mais importante. do outro que eu sou. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. pela empresa ou pela sociedade. só podendo. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. As propostas absolutizantes. isto é. feitas pela religião. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Em outras palavras. francesa Grasset. Finalmente. pois. se tornam assim mais claras. ao eu e muito menos ao sujeito). Assim. oferecer uma resistência passiva. quer como sentimento pessoal. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO.

De outro lado. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. de 28/04/93. mais perto de nós. n. Paris: Gallimard. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. 445-449). 1975-1976. além de serem historicamente contestáveis. face às estruturas e aos sistemas”. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. em seus níveis mais profundos. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. Lembremos. P. 5-12. o culto à figura de GUEVARA. na América Latina e mesmo na Europa. p. Paris: Gallimard. vol. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. O autor evoca J. não passavam de “mero detalhe”. G. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. tomo XXIX. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. nas quais o Sr. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. reportagem da revista Isto É. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. 50-53. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. por isso mesmo. p. Paris. p. principalmente após as recentes eleições da Rússia. p. Paris: Bordas. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . 1983. 13). In: Cahiers Internationaux de Sociologie. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. Cf. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. BALANDIER. senhor de si e do universo e como se. na Biblioteca Nacional de Paris. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. 29-31) afirma que. 322. 1970. como um instrumento terapêutico. fez reaparecer o sujeito. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. p. D. cit. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal.. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. LXXIV. P. soberano. (Cf: ANSART. Para ele. JIRINOWSKI saiu vitorioso. nessa mudança. Conseqüentemente. Cf: ANZIEU. Paris: Dunod. Observação semelhante já fora feita. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. alguns anos atrás. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. uma editora de propaganda nazista. Essa mesma revista.Análise social e subjetividade 3 Cf. por Jean-Marie LE PEN. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. em nível individual. Assim. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. P.. “Essai d’identification du quotidien”. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. In: Bulletin de Psychologie. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente.. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. 1984. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. SELLIER (cf: Le mythe du héros. em seu número de 1º/12/93. líder da extrema-direita francesa.

D. S. Entre outras alusões a essa questão. ANZIEU. 1967. Le moi-peau. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. XVIII vol. Essai sur les données immédiates de la conscience. 15 16 26 . ss.) 14 Cf: BERGSON. Além do princípio do prazer (1920). 1976. semelhante à vivência intra-uterina. H. 1985. (Cf: FONTANA (A) et al. Buenos Aires: Editorial Vancu. 1977. El tiempo y los grupos. Rio de Janeiro: Imago. Paris: Dunod. 120 ed. p. 42. p. 68. Paris: PUF. ver: FREUD.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal.

ao invés.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. como psique. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. mesmo sem dizê-lo. ALTHUSSER). ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. em grupos e organizações. só se fala do indivíduo. um ser falado. por um lado. que decidi me manifestar. em maior ou menor grau. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). assim. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. sua classe ou sua raça. De minha parte. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. do sujeito. No momento atual. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. Com efeito. É contra essa tendência reducionista. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. do aumento do individualismo. LAGACHE. um ser agido. um determinismo absoluto dos processos sociais. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. que nega a interrogação de D. O indivíduo torna-se. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. No entanto. 27 . Seguindo essas abordagens. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. por outro lado. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens.2 A razão é simples: como muitos outros autores. pois.

conduta estruturada social e culturalmente. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). portanto. ou de um Deus único. Essa emergência acontece.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. já que nascemos sempre em um grupo. “a possibilidade de saber que alhures. ir muito longe nesse sentido. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. que pode tomar a forma de totens. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. Não é necessário. BURKE. a cada homem. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. quer seja por Deus – BOSSUET. conformados a seus votos e a seus ideais. em parte voluntariamente. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. heterônima. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. em parte. uma cultura. para retomar a terminologia de C. Uma tal sociedade heterônima tem. Nessas condições. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. em uma nação etc. numa sociedade que é.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. é preciso pressupor. sua conduta. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. de antepassados e de Deuses. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. ela própria. em parte inconscientemente. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. em uma classe. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. CASTORIADIS. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. isto é. mas deixassem também. porque toda sociedade comporta falhas. De fato. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. no entanto. Em outras palavras. zonas inexploradas. portadoras de 28 . Freqüentemente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. ao mesmo tempo. num lugar-tela. DE MAISTRE –. logicamente. além disso. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. a anterioridade dos processos sociais. em uma etnia. que lhe deu direito à existência. Nessas condições.

em toda sociedade. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. ele também só é parcialmente heterônimo. Elas se tornaram. a trocar sua natureza pela de um térmita. mesmo sem percebê-lo. por mais totalitário que seja. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. até mesmo se choca. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. outro um novo tear. desde a Renascença e. Mas. Alguém inventa uma máquina a vapor. portanto. às vezes. de maneira invisível. como dizem FRITSCH e PASSERON. em pessoas e grupos sempre diferentes. a médio ou a longo prazo. Reis continuam a se 29 . não a um contra-discurso organizado mas. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. sem sabê-lo. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. Além disso. pelo menos de imediato e. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. apoiando-se nas funções corporais.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. Deve-se. Notemos que as sociedades modernas. como evocava FREUD. sobretudo. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. um discurso dominante. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição.8 Enfim. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. desde a Revolução Francesa. Embora exista. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas.7 Quanto ao indivíduo humano. um papel essencial nas transformações sociais. fanático. seja lá por que modo. se põem a acumular riquezas. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. em certos casos. às vezes. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. contra a vontade da massa. não se pode esquecer que o discurso. ignorando soberanamente a ideologia dominante.

deve se sacrificar (sacrificar sua vida. a vitória nunca sendo definitiva. se os processos psicogenéticos pressupõem. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. em nossa época. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. O winner sempre pode se tornar o looser. Assim. o elemento esportivo predomina. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. Ele deve gozar com essa renúncia. objeto de tantas preocupações.9 Assim. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. Assim. sempre imprevisível. No entanto. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. seu tempo. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. é. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). ela pode ser bem efêmera. a individualização. então. De fato. performance sempre a recomeçar. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. “matadores frios”. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. Ao contrário. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. cada um deve ser criativo à sua maneira. Se cada um deve manifestar sua singularidade. Nessa ética. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . vencedores que querem ir até o fim. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. apenas um elemento do processo de massificação. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. mas é o homem da performance mensurável. como sublinha CASTORIADIS. da sua organização. os processos sociais. mais freqüentemente. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). do seu serviço. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual.

além disso. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. posições de poder. características de um esporte. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. nas universidades. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. hoje em dia. aqueles a quem chamamos vencedores. o indivíduo renuncia. Ele atinge.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. nos hospitais. quando se fala do indivíduo. a justificá-lo”. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. O “zé-ninguém” está sempre. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. Nos Estados Unidos. REICH. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. o que lhe confere. os que W. onde seu paroxismo predomina. Admira o pensamento que ele não concebeu. em geral. em vez de admirar o que ele concebeu. igualmente. tende. atrás da força e da grandeza de outros homens. ou ainda. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. tem-se no pensamento um indivíduo conformado.10 Assim. o “culto da empresa”. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. designava por “zé-ninguém”. 31 . Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. a busca da riqueza. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. desvestida de seu sentido ético-religioso.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. na maioria das vezes.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. um novo ritual. a se associar a paixões puramente agonísticas. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. financeiras ou de prestígio. mas que. mas não se orgulha de si mesmo. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. naquele tempo. para depositar seu destino nas mãos dos outros. igualmente. assim.

nós próprios nos tornamos admiráveis. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. médios ou pequenos homens. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. então. para existirem. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. de repressão e de adesão. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. é. o que devemos fazer e como seremos recompensados. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. Resta-me. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. Em outras palavras. às vezes. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. reprimir suas pulsões. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. depois de descrever esse fenômeno. A idealização é. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. correndo um mínimo possível de riscos. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. apresentando-se como objeto maravilhoso. assim. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. aderir profundamente às injunções sociais e. o mundo criado não é contestável. ser um agente ativo desses processos de recalque. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. apoiado 32 . Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. sempre ameaçador). portanto. Além disso. agora bem conhecido. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão.

Vivemos um déficit de ideais transcendentes.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. ideais vazios e desprovidos de sentido. graças a esse jogo identificatório. É necessário precisar esse último ponto. o racismo. da sedução ou da obrigação]. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. de simplesmente não ser. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. dificilmente. estamos perto de não ser absolutamente nada e. Vivemos em sociedades nas quais.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). freqüentemente. 33 . A identidade coletiva favorece ainda. (Com efeito. através desse processo. portanto. está cheia de perigos. um proletário. De fato. estamos divididos e angustiados. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. consumir por consumir?) Ora. ao nosso “nós”. é imputar os problemas ao outro. uma massa maior de homens. produzir por produzir. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. o narcisismo social. um capitalista. Se somos apenas um espartano.13 Reencontrar a coesão. como mostrou FREUD. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. de fato. A identidade coletiva. nas quais. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. o fanatismo. graças a identidades coletivas fortes. que sentido pode ter ganhar por ganhar. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). os ideais são múltiplos. sem se dar conta de que. contraditórios. tem como futuro possível a xenofobia. é se voltar ao grupo de pertinência. eles suscitam a aceitação ou a identificação. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. G. um budista. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. que tem como efeito “unir uns aos outros.

a sua conversão. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. reproduzir. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. o indivíduo singular. nos lugares da vida cotidiana. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. portanto. a respeito de qualquer tipo de problema. Com efeito. Vê-se. por mínima que seja. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. tem como projeto voluntário. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. quanto mais uma cultura se quer unificada. em suas relações sociais de todos os dias. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. Quero simplesmente dizer que cada um. ao menos. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. Tal indivíduo só sabe repetir. Não podemos. criança. não pode ser considerado como sujeito humano. as relações sociais. que. portanto. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. Para definir criatividade. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. no entanto. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. bem como da tranqüilização narcísica. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. O sujeito é um ser criativo. bem entendido. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). O indivíduo individualizado (e não individuado. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. as significações das ações. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. 34 . daí. em sua vida de trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). quanto mais a identidade coletiva existe. seres a eliminar.

em seus Conselhos a um viajante. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. O sujeito é. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN.. aquela única que conta – a criação enquanto gênese.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. portanto. um ser capaz. ela está presente em quem faz. que sente prazer em respirar. é a formação. homem portanto de sabedoria e loucura. de repente. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. voluntariamente. meu amigo. não ao charco das alegrias imortais. antes que ela se fixe em natureza morta. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender.. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. imobilizada. a gestação. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . não na escola!. E mais se imprime. quanto na inspiração do arquiteto que. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). o primeiro movimento indistinto da matéria. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. ludens e viator. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. aqui e agora. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo.. em lugar de uma imagem da natureza. demens (objeto da hybris). do jogo e da vagabundagem. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. uma novidade irredutível. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). ao mesmo tempo sapiens.. respirando a plenos pulmões um ar salubre. chegarás. é ainda pior. Os artistas não se enganaram a esse respeito. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. o nascimento. em compensação. levo a sério. e que o mundo possa testemunhá-la.

há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). um pouco paranóico. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. pela natureza. O megalômano. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. No entanto. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. em particular o grande homem. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. os manipuladores ocupando uma posição perversa. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. para lavar o mundo de sua sujeira. os sedutores ocupando uma posição histérica. a sua própria alteridade). Michel SERRES. para realizar uma missão salvadora. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. sente-se eleito por Deus. aliás. atualmente. identificado a seu pai. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. 36 .18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. preso na ganga dos ideais. portanto. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. Assim. Com efeito. entre os grandes homens. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. cientificamente. assegurando-lhe a redenção.17 Porém. depois da guerra de 1914-1918. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. de seus medos. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. a esse respeito. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. é preciso parar um momento. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade.

o povo judeu. que tomou o poder contra os mencheviques. ao mesmo tempo. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. só considera o mundo sob o ângulo econômico. como já indiquei anteriormente. O teatro é também para ele um terreno de esportes. ou capacidades manipulatórias. ao contrário. para isso. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. a um nível mais irrisório. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. nem uma força de pensamento e de ação. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. é um bom exemplo desses chefes perversos. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. que queria dobrar o mundo à sua vontade. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. caso bem conhecido e. só pensa em termos de estratégia. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. LENIN. como LENIN: ao contrário.20 do homem que declarava. quis fazer do alemão o povo eleito e. reduz as relações humanas a relações de objetos. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. como WILSON ou HITLER.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). basta o de STALIN. obcecado com a força pela força. que toma a si mesmo por ideal). pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). Quanto ao manipulador perverso. ele se proíbe de ser excepcional. crê falar a linguagem da verdade. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. segundo FREUD e BULLITT. 37 . que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. denega a realidade). esse está. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. por sua vez. recém-saídos das grandes escolas. os tecnocratas. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. tem gosto pelo instantâneo.21 Assim também HITLER. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. inventando complôs. que não tinha interesse algum pelos outros.

Tentarei em outra ocasião. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. porque sou. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. Mas. Em outras palavras. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. talvez.) são as pessoas comuns. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. ao contrário. como indivíduos perfeitamente normais. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. ele perdeu alguma coisa. sem dúvida. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. não podem sonhar em se tornar AGNELLI... AGNELLI a gente nasce.. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. um indivíduo sem fantasias.). Mesmo assim. com a condição de ser corajoso. nem mesmo na imaginação. Em contrapartida. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. é possível tornar-se DE BENEDETTI. Eles se apresentam. Em todo caso. uma demonstração do possível (. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. Se elas tomarem um grande patrão italiano. O grande patrão italiano C. mas uma duração realista. de uma normalidade esmagadora.. a seus olhos. AGNELLI por exemplo. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. pois ele promete a qualquer um. não se torna. M. sem interrogação. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. não tenho dúvidas morais”. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. como GORBATCHEV. os outros escapam a essa denominação. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). meus aliados (. se tiver tanta coragem quanto eu”.

de tudo desarrumar. Eles têm uma influência social inegável. em FREUD. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. assim. pois falta a ambos. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. Se o sujeito evolui. conforme McDOUGALL. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. mais ainda. no sentido que dou a esse termo. por outro. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. assim. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. E. fazer advir o sujeito individual. MOSCOVICI. de tudo realizar” (McDOUGALL). é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. só sabem repetir. S. FAUCHEUX. em MARX. São desprovidos da aptidão à transgressão. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). mesmo se nada descobre. Mas não são verdadeiros criadores de história. insiste sobre essa noção. favorecer a tomada de consciência de situações reais. em sua linhagem. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. fazer advir o sujeito coletivo. dos outros. de se lançar no desconhecido. tomar caminhos transversais. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. Corre pela vida como em uma auto-estrada. sem falhas. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. Ele não tem projeto. É também um homem que demonstra consistência. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. criar seja lá que novidade for. Teríamos. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. 39 . reproduzir. por um lado. Um ser consistente pode ter dúvidas. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. “que significa. São portadores da pulsão de morte. ele o faz em sua linha. o caráter irrevogável de sua escolha e.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. Mas ele conserva o mesmo projeto. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. ao inusitado. a recusa de compromisso sobre o essencial.23 Em certo sentido.

não pode jamais estar colado a uma organização. como também a provocá-los. pessoas vindas de outros países. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. interdita a tentação da Unidade-Identidade. quando ela se apresenta.” O sujeito não é homem de comprometimentos. para fazer triunfar suas idéias. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. visível e. porque a dispersão. consistência e astúcia. diante da exigência do todo. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). à dispersão. delimita também. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. igualmente. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. provenientes 40 . da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. no momento atual.24 O “exota”. Ele é. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. a uma identidade coletiva. portanto. o exilado. em seguida. MOSCOVICI. finalmente. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. SEGALEN. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. um grupo ou um Estado. Para SEGALEN. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. a ocasião. Consistência e furor. uma outra exigência e. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). O que é interessante. criar e sustentar um conflito com a maioria. Ao mesmo tempo. Aqui não se trata de manipulação. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. souberam conciliar furor. consistência e astúcia andam juntas. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). isto é. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. segundo a expressão de V. a um Estado. é que. no entanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. recentemente republicado. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. o que não é nada fácil.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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no sentido sadiano do termo. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. aos outros. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. ao propor. em demasia. do combatente. sejam quais forem. portanto. de ter modos de “comunicação afirmativa”. Minha contribuição será. assim. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. de sonhos e de interrogações. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . desembaraçado de compromissos. o homem capaz de ultrapassar seus limites. para fazê-lo. então. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. sobretudo. de considerar os problemas em sua frieza. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. A cultura de empresa ou de organização. ele entrará. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. do vencedor. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. . de colocá-los. aos que dela participam. se só pensa através dela. sem o saber (e de consciência tranqüila). DEUTSCH) serão particularmente apreciados. com personalidades “as if” (H. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. Se o indivíduo se identifica com a organização. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. SERVAN-SCHREIBER). Para obter tais resultados. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. capaz de se adaptar a todas as situações. dando. então. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. L. sobretudo. seus valores e seu processo de socialização. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou.

E. mais próximos do integrismo. o renovar de uma igreja dogmática. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. Basta ter em mente: a renovação do Islã. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. uma causa a defender. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. segura de estar em seus direitos. desde DURKHEIM e FREUD. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. ao contrário. no mundo medieval. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. gurus. em nome da verdadeira fé. atualmente. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. através de um projeto a concretizar. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. Então. exige a idealização. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. pronta a punir os blasfemadores. mas. que uma sociedade não pode existir sem religião. xamãs. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. um ideal a realizar. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. Sabe-se muito bem. de perda e de sofrimento. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). encarnar a “instituição divina”. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. injustamente martirizado. 47 . Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique.

a aeróbica. O fanatismo político. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. o desenvolvimento do esporte de massa. todas as religiões. os estágios off limits. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. falado e falante. o jogging. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. “tornar-se saudável”. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. afastar a dor. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. 48 . como a expressão da graça que lhe cabe. cuja meta é a homogeneização do “interior”. As técnicas de body-building. mesmo os mais repreensíveis. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. Mas as religiões. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. Voltarei adiante aos métodos empregados. esbelto. submetê-la a ídolos não contestáveis. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. continuamente desejável. as ginásticas suaves. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. que aqui apenas menciono. as maratonas de Paris ou de Nova York). as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. portanto. competitivo ou não (por exemplo. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. animado) é o nosso bem mais precioso. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. pelo menos. a expressão corporal. “Estar bem em sua pele”. sofredor. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. o “grito primal”. as medicinas naturais.

a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. que o indivíduo. 1983). Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. de fato. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. mas de edificar novos cultos. de criar uma cultura. Ora. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. membro de um conjunto que tem suas coerções. únicos responsáveis (se eles fracassam. na medida em que não se trata. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. processo de ligação com os outros. a “qualidade total”. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . para se tornar um sujeito falante e atuante. embora alienados no mais profundo de sua psique. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. na qual ele tem que desempenhar um papel social. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. Quer se tenha nascido rico ou pobre. A explicação é simples: todos os métodos de formação. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. GREEN. ao menos. interrogação do ser. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. sinais de uma fantasia de domínio total. cada qual se mira em seu próprio espelho. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. Os próprios indivíduos. O narcisismo mais total está na ordem do dia. na qual fatalmente se perderá. mudança sempre difícil pois traz. assim. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. a busca do “erro zero”. de autoridade. de evolução pessoal ou grupal. “a paixão pela excelência”. confronto com o sofrimento.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. nas organizações sociais. Por outro lado. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. No narcisismo de morte. grupal e coletiva. de intervenção psicossociológica ou institucional. Elas anunciam. Basta querer. necessariamente. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou.

com os pés amarrados a um elástico. ao contrário. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. O reconhecimento da psique como força operante tem. a implicação. na sociedade. a astrólogos. Por isso. faz-se apelo a leitores de tarô. como a simples lógica o exigiria. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Assim. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. mas. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. uma psique a serviço da organização. únicos a prometerem resultados tangíveis. do aumento dos métodos mais bizarros. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. pede-se a eles que saltem de grandes alturas.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. portanto. não do desenvolvimento da racionalidade. quer dizer. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. para a seleção de dirigentes. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. uma psique sem conflitos. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. pelo menos. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. necessariamente. como resultado a sua destruição ou. a sua submissão. para viver e se desenvolver. a mobilização total de todos. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). em reação. perfeitamente interiorizadas. nas organizações e nos indivíduos. Cada “conjunto humano”. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada.

portanto. isto é. Os indivíduos evoluem. quer dizer. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. de constância: (b) idéia de objeto separado. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. de ser um sujeito que tem uma história. em uma espécie). (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. Mas. – podendo 51 . Além disso. portanto. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. em uma palavra. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. portanto. ou vinte anos? BARTHES. escreveu belíssimas páginas. através dessas diversas experiências. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. permite que se possa situá-lo em uma classe. ou o status social a que chegaram. que se liga a uma tradição. por minha vez. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. credo. ela revela características um pouco suspeitas. Cada indivíduo. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. ele é capaz de ser um “Si”. a necessidade de ter uma certa identidade. de referências seguras. Cada um sente. classe. Caso se retome a análise de A. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). em um gênero. não vivo mais. Ora. GREEN (1985). essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que.A constância não existe. se examinarmos mais de perto essa noção. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. nacionalidade etc. que participa de uma memória coletiva. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. uma unidade. não creio mais como esse ser que leva meu nome. animado por uma coesão totalizante tendo. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas.

de MIJOLLA. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. Eu é um outro. de preclusão e de denegação estão operando em nós. mas que mantém um certo grau de 52 . que processos de clivagem. então é possível questionar. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. b. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. por definição. quando sei tão pouco o que sou. Se. sob certos aspectos. a partir de um estado não integrado. a idéia de permanência e de constância. ilusória. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. admitir. já dizia RIMBAUD. Precisamos. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. com WINNICOTT (1966). pois toda construção. então.Quanto ao reconhecimento do mesmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. cada uma.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. Assim. Nunca sabemos de maneira precisa. que. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. a sua própria finalidade. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. c. Mas ele insiste. em sua pureza.) que visam.5 Certamente. TOROK. No entanto. assim. quem está falando e por que falamos dessa maneira. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. além disso. ABRAHAM e M. cairmos na irresponsabilidade. 1982). então. o eu etc. não podemos abandonar essa idéia. necessita do trabalho do tempo. no entanto. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. 1976). a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. no momento em que falamos.

o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. a interrogação. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. da “inquietante estranheza” e. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. de suas faltas. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. os diretores participam de um grupo. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente.A interioridade está acabando? coerência. portanto. Porém. problemáticas. O que nossa sociedade reclama. sobretudo. como também um amor consciente por si. é ouvido um momento. portanto sedução. assim como as instituições e organizações que a compõem. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. muito pelo contrário). escolhendo as máscaras sociais que precisam. trazendo “temor e tremor”. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. quaisquer que sejam. o remorso. portanto. o trabalho sobre si. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. a dúvida. Apenas um exemplo: numa grande empresa. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). São. de um narcisismo a toda prova. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. de “maioria compacta”. para o indivíduo. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. de seus desejos. a aceitação dos processos de clivagem. contraditórias. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. Um deles explicita suas dúvidas. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. e tanto mais porque se parecem conosco. tão apreciada por FREUD. Os outros. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide.

Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. Ele se tornaria o fraco. vinda da boa burguesia. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. nem mesmo à sua esposa. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. Além disso. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. 54 . que detestam. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. diante dessas revelações. Apenas. eles questionam sua identidade. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. p. p. seu simbólico. em termos mais gerais. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. seja de novo como nós. quer dizer. tendo uma identidade compacta. Nessas condições. 270). seu imaginário enganoso. 1984. não quero saber nada de seus problemas porque. ele tem úlceras constantes. Esse exemplo (que. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. 36). serei obrigado a falar disso a meu pai e. Com efeito. é interrompido por um de seus colegas. por um processo de contra-investimento. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. formam uma nova maioria compacta. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. Ora. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Nesse momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. SEGALEN). Transformam o mundo no qual estão. desde então. Pôde obter o posto desejado. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. naturalmente. se você continua. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. quando os indivíduos estão nessa situação. O “homem com problemas” aprendeu a lição. até que ponto evitam-se a si mesmos. um grupo que tem uma cultura própria. em substância: “Não continue. filho de um grande industrial. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. reedição de 1986. que lhe diz. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. até que ponto estão presos na apatia (SADE). ENRIQUEZ. Domine-se.

“Apagar. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. colocar em lugares criados especialmente para eles). É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. Compreende-se. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. em seu corpo como em seu espírito. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. Quem não se amolda deve ser liquidado. num mundo a priori hostil ou indiferente. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. pelo menos. “em demasia”. reedição de 1961. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. p. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. 1835. os que não se assemelham aos indivíduos que.. o homem dinâmico. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. Como dizia um chefe de empresa. ENRIQUEZ). então. doentes de AIDS. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. soropositivos e. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. no dizer dos racistas. todos os “marginais”. todas as “minorias ativas”. 55 . “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. para SADE. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. pelo menos. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. sem emoção. De um lado estão os vencedores. do outro. quer dizer. todos os “exotas”.. 103-104). O “matador frio”. um piolho a ser eliminado. AULAIGNER. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. como escreve P. ainda mais. “fazer correr sangue”. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. por si próprios. assim. que todos aqueles que buscam articular sentidos. guerreiro e sedutor. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. possam se tornar objeto de ódio ou. se evitam a si próprios.

Essa distinção é. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Mas. da agressividade. as práticas que permitem ganhar. portanto. infeliz de quem trapacear. 1988). da inveja e do amor. Essa última seria uma cultura da vergonha. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. simplesmente. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa.). Todo ato repreensível. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. fracassar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. No entanto. aos outros. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. escalar um paredão com as mãos nuas. mas pela vergonha. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. seja ele qual for. L. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). vemos proliferar. voar em asa delta etc. Assim. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Ora. pode ser perpetrado. mas o toca em seu ser social. em condições normais. Se um ato corajoso – ou. ir além de seus limites. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. a honra e o dinheiro serão seus sem que. SERVAN-SCHREIBER. Basta que não seja descoberto. Tudo está no ato e em sua visibilidade. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. Se ele for conhecido. Da mesma forma. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. Se não for descoberto. é preciso que seja conhecido por todos. no interior de si. utilizando-se produtos proibidos. Ela supõe. por isso. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. em sua aparência. sem dúvida. a vergonha se abate sobre o autor da ação. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. um estudo sobre a sociedade japonesa. 56 . falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. além do reconhecimento dessa luta. a luta. se sinta culpável. em O crisântemo e a espada (1946). tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias).

podem ser criados sem que daí decorra. privilegiando a aparência. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. o corpo se encarrega de fazê-lo. atos dos mais contrários à moral comum. apesar de suas imperfeições – normais. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. necessariamente. já começa a ser profundamente criticado. felizmente -. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. Porém. que o jogo está feito. as notas frias. necessários à vida humana. são suspeitos. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. contra a pobreza etc. o fanatismo. postos de lado. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). (c) que os ideais fortes. a lavagem dos narco-dólares. quando não é possível falar-se a si mesmo. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. contra o racismo. com um único passe de mágica. pelo jogo de aparências. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. nascem a cada dia sob nossos olhos e. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. sem culpabilidade. Com efeito. lendo as reflexões precedentes. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). Não se deveria pensar. nas sombras.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo.

Entretanto. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. por isso. as perguntas. Mais ainda. poderão. mesmo se a interioridade.). Sendo assim. necessariamente. começam a se fazer perguntas. aceitando as regras do novo jogo. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. de indústrias. a delinqüência. Nesse momento. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. Sem dúvida. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. entretanto. os ferroviários. sem dúvida. esses “esquecidos” da sociedade. trabalhadores incapazes de se readaptar. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. de afirmação ou de identificação. pelo sofrimento. deverão se precaver. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. os animadores socioculturais etc. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. Esses “excluídos”. Eles não se dão conta. evitando o Charybde da exterioridade. a droga. Na realidade. encontram-se na mesma situação todos os que. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. busca de identidade. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. ser tratadas “na interioridade”. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. governa seus discursos e seus atos. pela alegria. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. eles ainda as fazem “na exterioridade”.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. não desapareceu e não está 58 . tal como tentei delineá-la. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Esses sujeitos. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. de crédito. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. de espaços. assim como pela capacidade de sublimação. com sua carga enigmática. na doença da idealidade. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). veladamente. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior.

é. assim. o mundo político. na qual o mundo objetivo. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. da T.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. 1976. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. 1962. é a absorção em si ou introspeção. In: Sur l’individu. os “diários de bordo”. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. citado por L. com a formação. p. 89-112. e TOROK.). Individualisme apolitique. tão diversos quanto GOETHE. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. assim. seu oposto. com suas difusões amplas). 1976. p. ENRIQUEZ. 2 Grandes escritores alemães. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Paris: Aubier. Eugène. p. da poetização do universo. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. 34. N. 1976. ABRAHAM. Paris: Aubier. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. Topique. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. sobre KLEIST: E. da salvação e da justificação da vida pura. NOVALIS. o homem dos Hinos à noite. Paris: Seuil. como diz Lutero. o gosto pelo mórbido. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. em suas constituições. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. Le Verbier de l’homme aux loups. XVIII. Inácio de Loyola. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. S.). 1987. 1985. L’écorce et le noyau. Segundo o Larousse. 37. involuntariamente. 163. 3 Cf. a Bildung do homem alemão. pela emoção. 5 FREUD. é uma consciência cultural individualista. espírito racional e humanista por excelência. Referências ABRAHAM. 4 Como um cadáver (em latim no original). do culto do inconsciente e dos instintos. então. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. 38-53. Cf. com o aprofundamento do eu puro ou. DUMONT.Topique. em termos religiosos. é a inquietação com o cuidado. 61-76. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). v. Entre la marionnette et Dieu. da T. Rio de Janeiro: Imago. (N. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. “expressão pela qual Sto. 135. M. Quanto a KLEIST. (N. N. as autobiografias. E. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. 59 . o romantismo. GOETHE. p. por Sonia Roedel. Considérations d’un apolitique. 1989-2. p. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. ENRIQUEZ.

Picquier. p. Paris: Gallimard. BENEDICT. 1980. V. BARTHES. ps. Notes sur l’exotisme (1908). Topique. 1987. In: Sur l’Individu. ENRIQUEZ. 60 . FOUCAULT. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. A. C. S. W. narcissisme de mort. 1983. retomado em Nevroses and character types. Paris: Ed. R. p. 1985. 1987. D. Paris: Seuil. Paris: Grasset. La chambre claire. 1981. GREEN. VERNANT. nova. 1982. R.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. ENRIQUEZ. 11. Le sabre et le chrysanthème. Paris: Gallimard. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. “Individualisme apolitique”. 1986. Trad. A. Paris: Payot. A. Biblio-Essais. Topique. H. 1961. ENRIQUEZ. GREEN. “L’Individu dans la cité”. R. de Minuit. In: Sur l’individu. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. Paris: Seuil. 1970. R. L. Tomo I. Nouvelle Revue de Psychanalyse. SEGALEN. E. 309-330. n. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. 1985. Psychoanalitic quaterly. DUMONT. L. E. “Condamné à investir”. SERVAN-SCHREIBER. In: Essais de Psychanalyse. 1987. 1984. 1975. 1962. P. 311-321. DEUSTCH. 34: 89112. L’identité. Aux carrefours de la haine. Les visiteurs du moi. FREUD. de. P. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Paris: Gallimard/Seuil. EPI. MIJOLLA. Trad. 37. Le retour du courage. 1942. 1982. 1965. WINNICOT. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. M. In: LEVI-STRAUSS. M. Barthes par lui-même. BARTHES. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. Paris: Seuil. 1984. Trad. Paris: Les Belles Lettres. 25. reedição. 20-37. Narcissisme de vie. franc. J. 1946. Hogarth Press. J. Paris: Payot.

Um projeto comum significa. para existir. pois pode-se. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. no entanto. então. São mais raras. de início. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. as análises dos grupos em estado nascente. Ora. sem dúvida. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização).OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. em um imaginário social comum. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. Vamos um pouco adiante. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. no entanto. à primeira vista. esse problema é capital. neste texto. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. Todos sabem e reconhecem isso. mas não se está à altura de compreender. Tal sistema de valores. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. O que parece.

que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. Mas esse sentimento. num grau maior ou menor. aquilo que queremos vir a ser. correndo esse risco intelectual e social. a nossos próprios olhos. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). ele se apresente sob um aspecto religioso. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. ele pode nos atrair. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Todo grupo funciona à base da idealização. nela. vigor e “aura” excepcional. consciente e inconscientemente. nos inspirar. a passagem é rápida. todo trabalho de interrogação sobre si. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. pois ela é o elemento que dá consistência. Não se trata unicamente de querer coletivamente. com uma força particularmente viva. inatacável: assim. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. da ilusão e da crença. mas afetivamente sentidas. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. Ora. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. é necessário que. motor de nossa conduta. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. Para serem operantes. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. A ilusão deixa igualmente sua marca. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. trata-se de sentir coletivamente. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . sagrado. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. Da ilusão à crença. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. transforma-se logo em um sistema de crença. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo.

FREUD já pensava que a Psicanálise. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. sua vida). Assim. em certa medida. para se desenvolver. sobre a possibilidade de sua impotência. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países.). bem à vontade. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. E isso não acontece gratuitamente. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. assimilando.O vínculo grupal (deve. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. a revolução etc. esse não é o problema. o militante político arrisca. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). de maneira mais ou menos forte. pois. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. 63 . Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. verdadeiramente. Idealização. deveria ser defendida como uma causa. A causa pode ser sublime ou irrisória. Causa a defender. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. possa perder parte de suas ilusões. abusivamente sem dúvida. missão a cumprir. consequentemente. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. Embora um grupo. existente há muito tempo. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. Todo membro de um grupo é. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. grandiosa ou pueril. na formação de todo grupo. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. suas práticas à da Psicanálise como um todo). deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. idealização. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). Todo militante político pensa do mesmo jeito.

lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. um dia. A maioria não tem jamais um grande propósito. sem exceção. triunfar. algumas vezes de uma só3 . se representa e quer se definir como uma minoria atuante. Do contrário. de uma profissão ou de uma disciplina). encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. progressivamente. antes de tudo e contra tudo. nós o sabemos. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. isto é. Para isso. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). propagar-se como uma mancha de óleo e. mas direi que. geralmente. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. ela deve. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. caso uma minoria. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. vocação majoritária: mas. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. Pouco importa. talvez mesmo. acreditar que está com a razão. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. imperativamente. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. isso significa que ele se pensa. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. Essas pessoas sabem que. membros do grupo. sua luta não terá alma nem razão de ser. se tornar a dissidência de muitos. Toda minoria tem. antes de chegar a seus fins. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. Eu serei menos afirmativo. no caso de sucesso. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). As idéias novas. pois. para se reforçar. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. mais modestamente. ela deve primeiro. A maioria não tem jamais uma causa a defender. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. queira triunfar. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. a proclamar uma visão nova do mundo (ou.

mas que um novo saber apareceu. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. ao contrário. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. por exemplo. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. Ela não visa a propor outra coisa. no passado. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. novas maneiras de ser ou de se conduzir. mas pela luta. desmistificando-o e desmitificando-o. Como essas representam a ordem paterna. enfim. Toda instituição. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. Para que a vitória seja possível. com efeito. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. contra um exterior percebido como tão obscuro. vista como pulsão agressiva). mas propõe novas idéias. maneiras inovadoras de ser. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. pois se funda em instituições sólidas. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. A contestação. Assim. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. deram certo. ela é. o grupo vai tentar destruir as instituições. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. E na maior parte das vezes ele o é. 65 . A Psicanálise. enquanto elemento da regulação social.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). mas à sua transgressão. visando à repetição. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. sob certos aspectos. Assim fazendo. explicitando o implícito dos comportamentos. visando não à contestação da ordem existente. tem por objetivo questionar o sistema vigente. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. A transgressão.

tornar seus sonhos reais. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. violência fundadora de um novo mundo. Ódio ao exterior. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. Sem essa vontade de destruição. Se ele faz parte do grupo. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. não obstante. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. porém sem sucesso. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. a priori estranhos ou rivais entre si. fazer-se aceito em sua 66 . a não ser entre irmãos. amor ao grupo enquanto grupo. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. ao menos. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. deve criar um acontecimento irreversível. Não há complô verdadeiro. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. não ser rejeitado. irmãos uns dos outros. FREUD. graças a esse imaginário comum e não a outro. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. amor mútuo. isto é. todo grupo. O reconhecimento do desejo Em um grupo. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. em outras palavras. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). aliás.

é o desejo de reconhecimento que predomina. diferenciação A MASSA Num tal caso. em um grupo. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. em maior ou menor grau. se não o desejasse. Assim. igualmente. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. nesse caso. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. eles devem se identificar uns aos outros. não teria podido fazer parte da conjuração. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. para que possam se amar. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. homogêneos. um corpo social completo. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. querendo formar uma comunidade. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. Essa semelhança buscada. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. Aliás. ser reconhecido como um de seus membros. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). não devem ser muito diferentes uns dos outros. O único problema é a mais estrita identificação. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. quer. O grupo. às quais cada um deverá se submeter. Assim sendo. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. em seu ser insubstituível. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. eles se tornarão semelhantes. De todo jeito. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes.O vínculo grupal diferença irredutível.

foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. sentimento de um meio hostil. avança cego. angústias de explosão. à primeira vista. 68 . o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. delação.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. sem-fundo”. Ocorrerão comportamentos regressivos. O grupo. Aliás. igualmente. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. de indivíduos os mais emocionais. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. no grupo. coberto de certezas. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. que será particularmente dura de suportar. 4. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. não parecem defensivas. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. LEFORT).5 2.A semelhança pode.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. portador da “verdade” (!). senão os mais perturbados. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. face a um grupo “sorvedouro. desenvolver condutas que. tomando as características de um corpo todo-poderoso. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. a falta de inovação e. tomam um vigor particular. Estamos. influência. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. de tipo defensivo: suspeita mútua. sem que se perceba.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. 3.A falta de diferenças provoca.A compacidade do corpo formado vai. abismo. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. então. mas que. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. progressivamente. Ao contrário. a degradação da reflexão e da inventividade. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. por ser o mais forte e o mais belo. Que ele se guarde da desilusão. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). com efeito. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. Assim como. a partir de MARX.

os educadores. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. A tolerância existe. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. Todo mundo. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. de negociações rigorosas. No limite. serão excluídos do grupo. de argumentações contraditórias. cada qual acreditando deter a verdade. (Assim. a administração. então. em certos momentos. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. ao contrário. ao contrário. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. como frouxos ou traidores. então.O vínculo grupal 5. O grupo se centrará em si mesmo. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). “níveis insuportáveis” (FREUD). alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. como a cooperação idílica não existe mas. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. Em tal caso. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. em um centro de jovens inadaptados.Se. Se não se trata de questionar o projeto comum. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. em seu interior. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. por acaso. tive a surpresa de 69 . No entanto. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. Os membros do grupo são. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados.

acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. nos países ocidentais. Para não chegar a esse ponto. “personalização do poder”. se torna um grupo edipiano. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. Em qualquer caso. repetição da palavra do mestre. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. é freqüente. Fenômenos regressivos do tipo submissão. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. uma influência que vem do domínio das idéias. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. assim transformado. É raro ouvir professores falarem de estudantes. eu deveria ter ficado menos surpreso.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. Esse. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. mestre do pensamento e da ação). os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. por isso. ao contrário. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). Nesse caso. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. enquanto professor. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. 70 . será tentado a achar um bode expiatório. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. Entretanto. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo.

querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. o grupo corre o risco do fracasso. pois um grupo minoritário. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. podem. isto é. inscrever seu sonho na realidade. para existir. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória.O vínculo grupal Mas. para afirmar a primazia de sua posição fálica. os membros do grupo estão condenados ao amor. o grupo minoritário que. Essas questões não podem ser elucidadas. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. Se o grupo é bem sucedido. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. os grupos não podem se esquivar. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. se somos suficientemente amados. o campo social. mas também os fracos. O amor desemboca no ódio. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. sendo bem sucedidos ou não. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). a única digna de ser respeitada. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. Com efeito. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. 71 . se consegue impor os seus ideais ou transformar. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. igualmente. tornar-se majoritário. transformado muitas vezes em processo de erotização. em maior ou menor grau. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. do mesmo modo que estão condenados à crença. Assim. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. mas quem são os amados e os rejeitados. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. de todo modo. Ora. Correlativamente. como já constatamos.

Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. o organizador do grupo. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. Com efeito. Muitos observadores se espantam. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. o grupo fracassa. Ela representa uma tentação constante. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. serão inventados segundo as necessidades e. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. 72 . E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. isto é. psiquiatras. se ele não provoca impacto social. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. ele vai procurar as causas de seu fracasso. no entanto. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. além disso. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. para dizer que ele ainda subsiste. Ora. os marginais. De fato. mas outro que está ainda para ser encontrado. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. É preciso. é o contrário que seria de espantar. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. de outro lado. Se. por exemplo. Com efeito. educadores. mas não é um resultado inelutável. isto é. em um processo de análise: 1.

serão feitas análises superficiais. às custas do mal que nutrem com gosto. arriscar-se a ser amado. em certos casos. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. É importante não nos esquecermos. no entanto. Se. Outras vezes. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. 2. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. em vez de favorecer o seu esclarecimento. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Ela pode levar à dissolução do grupo. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. 73 . a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. Deveríamos. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. De fato. a tomada de consciência se produz. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Além disso. há muito tempo atrás. de crença e de ilusão. e o disse muito bem. de maneira recorrente. em muitas circunstâncias. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. Aí também há muita ilusão. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. assim. FREUD disse isso.

S. por dez anos. 1983. uma solução. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Por dez anos. CASTORIADIS.F. seus antagonismos. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Psychologie des minorités actives.U. suas angústias e. P. “Le lien groupal”. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. ao mesmo tempo. por José Newton Garcia de Araújo. Ma vie et la psychanalyse. p.” (FREUD. LEFORT. “L’illusion mantenue”. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. Tomo XXXVI. em caso algum. PONTALIS. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 2 3 4 5 6 74 . pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. J. Bulletin de Psychologie. Seuil. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. Um homme en trop. S. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. Cf. Eugène. MOSCOVICI. 4. n. B.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. Segundo os termos de C. 631-637. C. no 360. fui o único a me ocupar dela e. mas é preciso não querer ir muito longe. suas relações de poder. Gallimard).

(Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. tanto no Leste da Europa. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. de modo algum. então. convincente e inquietante. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. 1983. não deve. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. 1985).OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. é porque me parece que essa tendência. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. Com efeito. os acontecimentos que se produzem atualmente. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. 75 . atualmente. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. se me detive a explicitar tal proposição. Entretanto. Espero. Devo acrescentar. em Grenoble. na verdade. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas.

ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. elas não colocavam mais problemas particulares. A César o que era de César. sem deuses ou sem Deus único). 1989). Assim. de maneira privilegiada. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. as grandes religiões monoteístas foram. Ao contrário. com relação a ele. a crença exacerbada em um mito. pode-se dizer que. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social).Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. no renascimento do (ou. às vezes com reticência. o fanatismo religioso – isto é. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. A referência dura se exprime para mim. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. no entanto. A religião produz então o “ser-junto”. ela nos religa uns aos outros. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. um ritual compartilhado que é preciso defender. As crenças. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. isso não a obriga. sem lhe outorgar. No conjunto. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. sem totens. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. necessariamente. a Deus o que era de Deus. seja como ser coletivo). ao longo do tempo. ou seja. sob pena de exclusão da comunidade. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. além de nos sentir para sempre em dívida. um dogma. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. o papel que lhes estava destinado. igualmente ENRIQUEZ. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. se depurando. sustentadas por rituais 76 . Pois bem.

uma sociedade da transparência e da reciprocidade.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. o Estado como aparelho separado. STOETZEL). porque é 77 . dos padres operários. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. passam a se desenvolver. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. a longo prazo. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. profanas (MOSCOVICI). se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. O episódio. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. na França. um estado psíquico onde o conflito não aparece. como medida de todas as coisas. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. a qualquer preço. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). J. mas à criação de religiões substitutas. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. laicas (E. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. não assistimos. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. Entretanto. mas foram se laicizando. do declínio de uma fé sincera e manifesta. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. Todos os homens. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). ARON. como desejava DURKHEIM. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. Algumas religiões. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. ENRIQUEZ). a longo prazo. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). aspirando assim. ao “desencantamento do mundo”.

eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. tal como a ideologia republicana. de fato. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos.). isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). conscientemente ou não. Quando falo de religiões substitutas. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. É. pois. (mesmo se.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. 1976). na França. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. após a morte de MARX. 1963). por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. por ENGELS e. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). não como uma ideologia (quer dizer. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. da ideologia de granito (LEFORT. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. A ideologia pode. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. então. mais ou menos fortemente. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. os mestres. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. de serviços. de ideologias totais (LYPSET. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. sob a IIIa República. pois. quer sejam os pais. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . de votos etc. depois.

constituindo-se. não pode estar na origem de nenhuma religião. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. 1979). têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). quando as religiões se enfraquecem. conseguiu se desenvolver. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. reunidos em comunidade. a negar. ideologias “compactas” que. que ela assegura sua identidade. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. antes mesmo que seja colocada. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. que já mencionei. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. como uma Igreja com seus templos. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. Ela então regula essa questão central da alteridade. Um grupo minoritário. jacente em todo ser humano. Mas é preciso observar que. a converter ou a destruir. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. heréticos ou descrentes.O fanatismo religioso e político (colonização). pelo ferro e pelo fogo. como as religiões. vão se impor como lei. representaram um papel menor na dinâmica social. em maior ou menor grau. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. projetando-o nos outros. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. no cerne mesmo da sociedade. As ideologias que eu evoco são. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. pelo sacrifício de seus mártires. então. que produzem uma cultura própria. devem estabelecer com o Sagrado. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. indica que a seita. por seu caráter absolutista. sozinhos. É assim que ela pode formar uma cultura. na época moderna. por sua força de convicção. 79 . Uma religião. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. substituindo-os por outros que.

porque a morte santifica e promete o paraíso.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. Em outras palavras. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). “poetas”. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). no “sentimento oceânico” (R. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. É verdade que os grandes místicos. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. desenvolveu uma política de conversão). a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. como heróis (no sentido freudiano do termo). Eles não vivem sua crença como uma ilusão. é porque os judeus. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. (Entretanto. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. de seu lado. ao contrário. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. apesar de tudo. 80 . seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável.

PALMADE). Ora. que são religiões da revelação. entretanto. eles não podem. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. além disso. segundo o axioma de WALRAS). idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. 2. São sociedades: a. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. por conseguinte. como a ideologia republicana. Entretanto. 1971). (Não existe. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). as liberais e as “socialistas”.O fanatismo religioso e político Concluindo. ser totalmente dissociados. 1. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. de novas características. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). o texto de J. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. sem emblemas. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. mas somente possível e previsível. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas.Elas se enriquecem. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. tudo se vende”. se certas condições são preenchidas. 81 . intensificação da produção não somente de objetos úteis. segundo a terminologia weberiana). na verdade. ideologia sem porta-voz. é conveniente fazer algumas observações. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra.

ao mesmo tempo. para os homens e para as mulheres. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. 1967. Assim também. LAPLANCHE. sua legitimidade desaparece. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. 1967). realizáveis. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. de imortalidade. pensar e querer o apocalipse) e. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. Sociedades sem pais e. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. além do furor de não poder satisfazê-los. no fim das contas. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. assim. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. (Assim. enquanto criação e distribuição das riquezas. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta.sociedades que. d. 1989). concebê-lo como um inimigo ideal. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. o trabalho perde seu significado. se desembaraçar. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. “mãe das cloacas e dos brejos. Nesse momento. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. por isso mesmo. 82 . seu valor se corrói. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. c.sociedades que. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. já havia observado isso). b. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. da qual é necessário.

tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. não oferecem mais interesse. Se não somos nada além de um espartano. se sacrificar. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. (FREUD. 1930) 83 . nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. de um capitalista. no Ocidente. da exclusão. da corrupção). Mas as religiões. no limite. Essa citação dispensa comentário. O que desejam os deserdados. os esquecidos. da loucura. da apatia. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. os irmãos e os adversários. Daí se seguem três conseqüências. os excluídos. da ausência de um fundamento. aquela que designa claramente os aliados. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. da miséria. os “desgarrados”. A religião reclamada é a religião absolutista. formar uma cultura. do desaparecimento de referência a toda transcendência. O indivíduo desaparece. de um budista. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. um projeto a sustentar. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. só há salvação na paranóia partilhada. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. permanecer na certeza e. de um proletário. aquela que cria uma identidade coletiva. Eles querem se tornar um “Nós”. em particular. Contra o mundo perverso. uma causa a defender. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar.

1984). o super-investimento no projeto. sua conversão. como seres a eliminar. O fanatismo visa. anunciador de um mundo novo.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. o espanhol despreza o português”. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. elas exigem a super-identificação à causa. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. uma imensa massa de homens. então. ENRIQUEZ. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. o inglês fala tudo de ruim do escocês. nos diversos países. tais como as descrevi acima. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . da sedução ou da coerção). a criar um mundo novo. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. livre do mal. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. liberado finalmente do mal. Quanto mais uma cultura quer se unificar. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. no entanto. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. O desenvolvimento do fanatismo. para isso. Não esqueçamos. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. pelo menos. para ela é uma impureza?”. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. ou seja. além disso. o que é um alimento. É certo que.

o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). sem dúvida. primeiro e antes de tudo. É por essa razão que meu texto tem esse título. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. Retomemos esses dois pontos: 1. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. resulta. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. a se tornar dominantes (por exemplo. É preciso. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. no máximo.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. São Estados. assim. o essencial: a dimensão política. um instrumento a serviço do fanatismo político. por sua vez. E nós tocamos. mas. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. o Azerbadjão. na hora atual. é preciso lembrar que. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. O fanatismo religioso. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. para que o fanatismo se fortaleça. fundamentalista. ainda. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . o sinal de seu enfraquecimento. Síria). Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. sozinho. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. o Irã). não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. para unificar os corações e os espíritos. Ou seja. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. O fanatismo religioso é. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista.

lepenistas. protestante. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. do qual eles não saberiam o que fazer. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. sob uma forma fanática. que querem fazer valer sua palavra. Irlanda do Norte. Eglise de Scientologie). Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . ela designará os vencedores e os vencidos. na França. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . Países Bálticos. o convite a alguns líderes protestantes. certos grupos religiosos em Israel). ela pode ter como papel: a. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. judias). Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica.A religião não se apresenta. cristãs.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Loja P2. das comunidades islâmicas. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Alemanha do Leste. Communione e Liberazione. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. nos quais não existe senão um fraco consenso. b. em nossos dias. na regulação dos Estados modernos. muçulmana) na vida cotidiana da França. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). 2. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. Nesse caso. judia.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo.redourar o brasão das religiões tradicionais. forçosamente. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. interdição de pensar (Polônia. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. c. destruição cultural. Se a aliança persiste. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. se ela se extingue.

sem fim. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. Eu gostaria. Se essas são capazes de inventar novos projetos. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. prontos a afrontar o absurdo. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. laborioso. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. não é o caso de superestimá-la. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. Os homens aprenderiam. como no exemplo de KHOMEINY). cada vez mais freqüentemente. o Estado leigo faz apelo. De fato. a falta de sentido. nascida desse trabalho árduo. nesse caso.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. de reflexão e de reflexividade. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. de precisar meu objetivo. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. o religioso. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. 1. paralisar a atividade de mentalização. antes de tudo. finalmente. Mas. suas dúvidas. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. para terminar. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. ao invés de processos de sublimação. ele tenta. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. ao contrário. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. sem recorrer a referências seguras –. desde o início dos tempos modernos. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. mas que. com a ajuda de seu Deus –. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. o caos e o abismo. 87 .

Araújo. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. Connexions. (N. nos fenômenos sociais. a ideologia. ideológicos e nacionais. no outro. sob pena de cair. do fato ideológico. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. se ele não faz esse trabalho. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Se. 1990-1. Eu não quis dizer. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. Os valores religiosos. em nenhum momento. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. p. Ela lhes é consubstancial. Por outro lado.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. 137-149. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. devem ser levados em consideração. 3. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. antes de tudo. do fato nacional. em si mesmo. na armadilha que denuncia. quando a ideologia dura impede o livre pensar. quando o religioso se põe a serviço do político. tão fácil e prazerosamente. então a reflexão desaparece. 55. uma vez que elas são.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. nos seus interlocutores e. efetivamente. na América do Sul). “Le fanatisme religieux et politique”. n. tanto quanto outros tipos de valores. por Leila de Melo Franco S. T. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros.) 2 88 . na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. que a religião. Eugène. Ela assume então o papel de desalienação. ela lhes permite tomar iniciativas. naturalmente. “A última tentação de Cristo”. Ora. a perversão ou a paranóia triunfam. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso.

PUG. Editions de Minuit. In: Autonomie sociale. C. MOSCOVICI. Psychologie des minorités atives. (org. 1971. E. KLOSSOWSKI. 1989. G. P. J. 1963. ENRIQUEZ. Seuil. Cl. PUF. 54. Épi. La monnaie vivante. 1984. L’homme et la politique. 1979. Présentation de Sacher-Masoch. Epi. ENRIQUEZ. 1989. PUG. 1971. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. DELEUZE. 48. sobre o fanatismo hoje. E. .O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 1967. 1976. S. ENRIQUEZ. S. Y. G. 1985. Connexions. LAPLANCHE. 1967. PUF. LEFORT. 1973.). L’autonomie sociale. 1985. “La défense et l’Interdit”. janeiro. 1987. 89 .(1930) Malaise dans la civilisation. “Malaises dans les identifications”. E. Un homme en trop. In: La NEF. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. Au carrefour de la haine. Eres. S. “Notations sur le racisme”. Connexions. LYPSET. Seuil. FREUD. ENRIQUEZ. n. DEVEREUX. CASTORIADIS. M. n. Essais d’ethnopsychiatrie générale.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

como elas se desenvolvem. de um lado. vestuário. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial.. NA EMPRESA. calçados etc. A escolha da região do Cholet. são exportados para todo o mundo (iates. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser.CONJUNÇÃO. como elas podem morrer. uns nos outros. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. individual e coletivo. incessante. que 91 . para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. vividas pelos dirigentes. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. sobretudo. em plena Vendée. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. seus produtos. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta.2 Tais reflexões mostram. e o conservadorismo social e cultural da região. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. alimentação. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. já havia sido notado por vários pesquisadores. de outro lado. por exemplo). revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento.

Ou seja. pudemos pôr em evidência certas constantes. Uma tal aventura. é. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. para nós. 92 . sobre aquilo que a empresa. Em outras palavras. à antigüidade. entretanto. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. suas dificuldades. Assim. segundo um método comparativo. clivagens. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. Não se trata. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. com efeito. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. convidados a falar a respeito. como objeto no discurso dos dirigentes. o qual é vivido como o fundamento da empresa. depois. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. a partir de suas lembranças. num primeiro momento e. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. sua história. mas a empresa como objeto psicossocial. caso a caso (empresa a empresa). desde sua origem até o momento atual. diferenciações. de seus projetos. de suas dúvidas. ainda que solicitadas por nós. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. Tendo analisado esses depoimentos. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. que são ao mesmo tempo seu principal tema. isto é. entretanto. ou ainda. que tais entrevistas. era. evocava neles. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. ao produto. para si próprios. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. seu futuro.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. a partir de sua criação. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa.

a terra ou a região. podem ser resumidas da seguinte maneira: . de maneira mais extensa. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. na origem. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. suas tradições e a 93 . geográficos. De maneira mais geral. aquilo que é ligado aos locais físicos. argila. também. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. Nesse último sentido.) que se trabalha ou. ou ainda. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. de Bocage. quer dizer. sua cultura. . de maneira mais abstrata. quer se exprima pela relação com o solo. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. com o território (nome das cidades. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. histórica e sociológica. a regiões de Mauges. embora todas tenham dependido. na empresa. a terra ou a região.o ofício ou o produto. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. nota-se que. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. quer dizer. com freqüência até mesmo joint families. . quer dizer. com a região (no caso. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. grão etc. quer dizer. Essas três entidades. conceitos verbais. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. de um projeto pessoal e familiar. a partir do qual elas podem se desenvolver.Conjunção. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. locais e regionais. A terra Essa referência é onipresente.a família. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais.

contribuindo para o renome da cidade ou da região. na maior parte dos casos. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. a empresa é um projeto de família. Desse ponto de vista. “a terra”. 94 . independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). Antes de ser um projeto pessoal. tanto no imaginário quanto no real. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). constituem então. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. atividades e lucros organizam-se em torno dela. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. simultaneamente. no sentido concreto. um conjunto de obrigações e de restrições. nas relações e atitudes: assim. bem como uma fonte de riquezas. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. vira tudo uma máfia”). eis nosso jeito fazendeirão”. A “região”. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. mas também um sentimento de segurança. o lugar dessa é aí dominante.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. “não ficar falando abobrinhas. assim que ultrapassamos a fronteira. em nome de uma certa ética. de empresas familiares. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. A família Tratando-se. mas também no metafórico. não se pode fingir”. físicas e morais. em caso de dificuldade.

designada como “negócio de família”. 95 . Compreende-se. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. Naturalmente. na sua origem. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). “sociedade familiar” ou. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. então. de outro. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. e o capital e os salários. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. Assim. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. é certo. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela.Conjunção. sendo um dos dois sexos. “sociedade de família”. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. inclusive para outras aglomerações. quer dizer. Como se pode notar. onde empregados e patrões podem comer juntos. inclusive com empregados. então. no início. de um projeto pessoal e familiar. ainda. como “a realização de seus antepassados”. descartado. as relações de autoridade. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. na empresa. de fato. As estruturas e as relações de poder são. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). fortemente personalizadas. SA. geralmente. sendo também imagem das relações de parentesco. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). mas também nos fatos reais. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). por um lado. A presença da família e de seu passado se traduz. de papéis e de procedimentos formais. Da mesma maneira. entre os bens e os dividendos pessoais. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. “empresa familiar”. num primeiro tempo. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. seja pelos homens (os filhos).

confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. Nessas condições. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado.. –. couro etc. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. Apalpar essa matéria. Está diretamente associado às mãos do artesão. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. os sindicatos independentes são mal tolerados. o produto Em função de sua origem artesanal. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . transmitidos de geração em geração. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. um elemento de coesão e também uma limitação. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. com os acontecimentos familiares – mortes. rupturas. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Assim como para a referência à região. uma inspiração. da receita ou do jeitinho de fazer.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. O ofício. lenços da região do Cholet. seus vizinhos. a maior parte das vezes. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. casamentos. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. uma fonte de problemas e de conflitos. A história da empresa é assim. freqüentemente.

cujas partes. para garantir as evoluções indispensáveis. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. sangue ou mãos). é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. De fato. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. o marketing etc. trata-se de um conjunto extremamente coerente.Conjunção. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. ele supõe a adoção de atos concretos. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. à terra. Esse processo não se realiza sem problemas. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. profissionais. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . vêse então que. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. estão imbricadas umas nas outras. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. Juntos. o ofício. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. Entretanto. de um projeto pessoal e familiar. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. que asseguram sua identidade e a base da empresa. essas três bases – ou instituições primárias –. pelo menos em parte. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. Sua história. na empresa. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. transmitido de geração em geração. em desligar aquilo que estava ligado. encarnada na pessoa do fundador. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. eles formam então como um bloco compacto. constatou-se. não em negar. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. não são entidades independentes. para o dirigente. –. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. com efeito. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. Consiste. tal como aparece no discurso de seus dirigentes.

da afetividade à separação. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. exigindo. PARSONS: do particular ao universal.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. da proximidade ao distanciamento. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. isto é. ao longo de toda a história da empresa. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. de valores ou modos e redes relacionais. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. portanto.a industrialização. 98 . Esses três movimentos resumem. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. de estruturas de necessidades e de motivações. b. Nos termos de T. essencialmente.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. de produções. De maneira mais precisa. elaboração de uma organização e. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a.o deslocamento. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. do pessoal ao impessoal. isto é. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. com efeito. consiste em passar de um sistema social a um outro. principalmente. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. seu objetivo. c. O ponto de chegada de tal processo. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. investimentos em máquinas e em locais especializados. a transferência física da empresa para outros locais. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. do herdado (ou do dado) ao adquirido. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. PARSONS.

elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. obrigado a repartir o poder com outros. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. regidas segundo técnicas e métodos importados.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. bem como na composição do Conselho de Administração. sua principal razão de ser – ele deve. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. O envolvimento da família é. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. na empresa. Enfim. com efeito. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. bem como uma administração capaz de a gerenciar. ou ainda: “das famílias na sociedade. se 99 . Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. máximo. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. de acordo com regras precisas que excluem. de um projeto pessoal e familiar.Conjunção. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. que põe as contas em ordem. adquirir as competências ligadas à gestão –. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. pode-se dizer (. então. a entrada em cena de um contador. a partir de então... freqüentemente. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. ele não pode assumi-las todas e é. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. em contrapartida. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência.

em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. melhor formados) e a da clientela. pela instauração de regras explícitas e. É. principalmente entre os (jovens) dirigentes. pois. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. Progressivamente. geralmente fora da empresa. mostra-se assim sempre indispensável. portanto. podendo implicar até em falência. o que permite. com efeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. mas. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. Eles são. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. freqüentemente. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. portanto. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. –. transformando as relações de poder e os modos de pensar. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. por conseguinte. Esse processo não se realiza de uma só vez. pela definição de papéis e critérios decisórios. sócios etc. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. como para qualquer chefe de empresa. ela se baseia em competências que eles adquiriram. Esses estão. colocados numa situação extremamente conflitiva. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. a estrutura de pessoal (mais jovens.

101 . Em todos os casos. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. ou mesmo para o estrangeiro. Se o deslocamento para outra região. de um projeto pessoal e familiar. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. preservar uma base local. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. por exemplo. para si próprio como para o ambiente é. outras exigências. Para essa questão. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. permitindo administrar as contradições. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. Trata-se. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. como uma espécie de traição. E.Conjunção. outros modos de relação. Outros se orientam para soluções. bancos etc. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. pois. renunciando a uma expansão possível. uma tomada de distância em relação à terra natal. outras aspirações. isto é. portanto. o solo no qual a empresa se situa. – e o questionamento de vínculos anteriores. mas permitindo a sobrevivência da empresa. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. considerado preferível a uma expansão sem significado. manter uma qualidade de vida e de trabalho. na empresa. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. Se. é importante para reduzir. além disso. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. necessariamente. a empresa adotar uma estratégia de exportação. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. encontramos respostas extremamente diversas. no entanto. nesse caso.

consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. mercados. admitindo divisões e separações. é pois. situadas em regiões economicamente mais propícias. Um tal processo pode ser. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. por regras ou por técnicas. As relações diretas. no entanto. ou ainda. etc). uns em relação aos outros. e de rupturas que essas provocam com o lugar. desenvolver uma rede de sub-contratantes. evitando. SEU ofício que dá corpo a ele. no entanto. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. mais eles se autonomizam. mais ou menos importantes. entretanto. são substituídas por relações secundárias. a rachar. por exemplo). é ele. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. SUA terra. portanto nitidamente diferenciados e interligados. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. Todas as empresas. criar vínculos de dependência com eles. algumas das quais podendo se situar alhures. Quanto mais eles se ampliam. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. emerge assim uma organização. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. então. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. por exemplo. que supõem prazos e contatos (redes etc. ao mesmo tempo. assimilado a um trabalho de luto. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. indiretas. margem de lucro. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. que manifestam um crescimento sensível. Como conseqüência de decisões. é SUA família. as pessoas ou os hábitos de pensar. face a face. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. ou ainda.). com efeito. produtividade. uns sobre os outros. taxa de crescimento. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. Seria. no sentido pleno do termo. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. que a instituição possa se reduzir a essa 102 .

que é o seu fundamento. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. sua fonte energética. no entanto.Conjunção. ficando na ilusão de sua existência. do clã. (N. de um projeto pessoal e familiar. constitutivo do sujeito. de negar aquilo que é. de sua consistência. existindo para e por si mesma. sua ancoragem biológica. Se. organisation sociale. collectif). traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. Mourão. André. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. na empresa. com o título Inconscient.) 2 103 . de sua unidade. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. 1990. por Júlio M.T. A instituição é um processo.(mimeogr. ele deve sempre compor com o nível primário. uma tensão permanente. Região situada no oeste da França. desprender-se inteiramente. é impossível. Paris. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. despregar-se. sob pena de perder o contato com o real biológico. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Toulouse. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas.). 1991. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

com o seu corolário. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. No momento atual. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. então. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. um trabalho de tal monta é necessário e. Essas transformações devem. aparentemente. de forma responsável. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. os “intermináveis adolescentes” citados por A. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. grupos religiosos etc. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). o triunfo da racionalidade experimental. No espaço até então ocupado por ela. Todavia. NICOLAÏ). enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. etnias. Entretanto. pois. LÉVY. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. quais são os problemas realmente essenciais. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. mais eficazes e mais rápidos. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. as mudanças essenciais 107 . LÉVY e A. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. possível. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). como o evidencia Nicolaï. finalmente. verdadeiramente. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. NICOLAÏ. a fim de que as sociedades possam. sobretudo.

levantada por A. antes de mais nada. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. quando anunciaram. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. Ao contrário. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. o “retorno do ator”. É importante ainda mencionar outra questão. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. 108 . com freqüência. prováveis de ocorrerem na sociedade. Seguindo essa via. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. interessar-se mais pelos movimentos sociais. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. seja para a sua involução. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. portanto. realizando um genuíno trabalho psíquico. Mas. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. LÉVY). É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. Os sociólogos não se enganaram. Será. No entanto. capazes de contribuir. também. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. para tanto. pelas interações entre sujeitos. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. LÉVY: as verdadeiras mudanças. suas instituições e seus diversos grupos sociais. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. Nesse sentido. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. desde a sua criação. na prática social. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. dar atenção especial à conversação e ao debate. igualmente. sujeito). elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. Essa disciplina deverá. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. como o fez Touraine. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). como têm sido feitas. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. Esse processo é longo. não surgirão de tomadas de decisões formais. Ela poderá. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. e não a nível global e em regiões centrais. ritualizadas. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. na relação e pela relação. na atual crise pela qual passa o Brasil. seja para a evolução social.

na acepção forte do termo. com efeito. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. malgrado as aparências. – tudo isso parece indicar. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 .2 o envelhecimento. nem sempre bem sucedido. é porque me parece que. seríamos tentados a pensar que. e observando-se toda uma série de sinais. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. no início dos anos 60. forçosamente. no modo de compreender as organizações e as instituições e. Se me decidi a escrever esse texto. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. ainda. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. E isso se traduz em um interesse. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. presente em muitos meios. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações.

para os atores sociais e para muitos práticos. que evidentemente não é exaustiva. em função do que lhes parece ser necessário. Mas importa. uma após outra. ENRIQUEZ. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. Embora durante alguns anos. os métodos centrados na expressão corporal. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. de ter prazer. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. pode-se citar a análise institucional. senão a única. a análise organizacional. retomando termos de E. não apenas a inquietude e a interrogação. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. a análise transacional e. elas tenham podido ser a referência principal..Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. constituem. É certo que a maior parte delas não desapareceu. Essa enumeração. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. uma após outra. desde o início dos anos 70. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. mas a vontade de inovar. em seu conjunto. Parece-me igualmente que. para os atores engajados na ação. elas têm em comum o fato de terem pretendido. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. por exemplo). mais recentemente. Entretanto.. de viver de outra forma. primeiro.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. enfim. ou. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. como todo fenômeno de moda. o que tem como conseqüência que. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. 110 . em um determinado momento. Em outras palavras.

LEWIN e C. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. eles se comparam.. auto-realização.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. 111 . Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. com ambições mais limitadas e incertas. por exemplo. ROGERS (resolução de conflitos sociais. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. fazendo assim.. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. efeitos espetaculares em uma instituição. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. pelo menos – desses métodos: a. Em outras palavras. desse ponto de vista.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. Certamente. por não lhe deixar escolha. ao mesmo tempo. na verdade. incertos e custosos. meios que ele controla. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. É praticamente certo que a análise institucional. então. a outros métodos mais longos. com vantagens. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. intenções que. Dessa forma.).

concomitantemente.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. evidentemente. e que. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. especialmente a necessidade de tempo. condenado a ser rejeitado. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. não garante nem assegura nada. aparecendo em utensílios. então. Embora ocorram desvios. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. então. há que se lembrar. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. “enquadramentos”. Tal fascinação pelo que “funciona”. 112 . Nessa perspectiva. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. se possível.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). Essa tendência já estava presente. “sistemas” (por exemplo.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. mas também nas orientações cognitivas. tudo isso é. dominada por relações mercadológicas e seus valores. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. a um “ator” ou a um “agente”. o sistema de ação concreto de M. automaticamente a problemas delimitados. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. reduzido.

A demanda expressa.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. especialmente. Primeiramente. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). O conceito de demanda social Com efeito. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. combinada então a pressões mais ou menos fortes. a demanda é. demanda de encomenda – LOURAU. Assemelha-se. toda história singular. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. nesse caso. tal distinção não nos parece desejável pois. inscritos em uma história coletiva que. então. mais ou menos explícitas. uma demanda de objeto. assim como uma relação de troca. há quem quis diferenciar. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. endereçada a um outro. isto é. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. assimilá-la a uma encomenda. No que nos diz respeito. uma grande parte de sua riqueza. a demandas por respostas e soluções. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. reciprocamente. implicando um bem. retira-lhe. podem-se percorrer todos os graus. com efeito. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. no limite. no registro econômico. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. Se. no sentido de ordenar ou encomendar. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. necessariamente. progressivamente. ao contrário. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. entre a demanda e a encomenda. por isso mesmo. Entretanto. uma 113 . Nesse sentido. está próxima à noção de encomenda. é eco de acontecimentos sociais. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. Assim. que podem. um objeto. reciprocamente. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. sem risco.

na acepção própria do termo. Nesse caso. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. ajuda. mas como social. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. necessário indagar a respeito de seu significado. aí. inversamente. Ela se torna real por essa e nessa relação. o que lhe dá riqueza e complexidade. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos.. de uma falta. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. dificilmente é formulada como tal. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. 114 . marido e mulher etc. sua interpretação. Se. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. disfarçando-se. No limite.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). É. freqüentemente ou sempre. seja de reconhecimento ou de amor. precisamente. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. Ele não é evidente. principalmente. em contrapartida. a demanda é facilmente interpretável. inclusive e sobretudo por quem a formula. na Psicossociologia. explicitada pelo objeto que designa. pois o qualificativo “social” tende. solução. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. então. pelo menos em um segundo plano. tudo isso não é específico da Psicossociologia. seja em um quadro terapêutico. no primeiro registro. trata-se de uma demanda de amor. é que. a “demanda” só tem sentido e só existe. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. não é uma demanda de objeto. a questão da demanda – sua escuta. uma certa relação de poder e de dominação. a demanda é considerada não como individual. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. seu tratamento – é. mas a expressão de um desejo. Enquanto é apelo ao outro. Entretanto. Por essa razão. objeto material etc. em demanda de outra coisa – conselho. sua interpretação é sempre problemática. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. durante um processo de consulta ou de intervenção. no segundo. Certamente. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo.

de outro. Ao contrário. mas também de permitir interpretá-las. compreendidas e interpretadas. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. que sua prática não é aplicação de uma 115 . o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. de dependência ou de submissão. transformadas em atos.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. quis ou “demandou”.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Como conseqüência. exprimem-se sob formas coletivas (greves. testemunhado através de seus escritos. atos e palavras. é necessário que ele tenha se manifestado. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. de uma maneira ou de outra. das quais resultam vivências compartilhadas que. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. podem ter efeitos nas situações que as originaram. mesmo que seja de maneira difusa. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Porém. não há nada em comum com a posição de simples espelho. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. reflexo interpretante. meios de resolver um conflito etc. às quais é difícil resistir. nas quais elas podem ser avaliadas. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. eventualmente. a solicitou. Assim. manifestações agressivas ou angustiantes etc. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. De um lado. por sua vez. mobilizadas. Em outras palavras. as quais. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –.). É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas.

uma classe de atores etc. desde LEWIN. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. individuais e coletivos. interagindo entre eles. Trata-se. uma concepção da sociedade e das relações humanas.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. ao mesmo tempo. consequentemente. Entretanto. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. Tal representação exclui. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST.6 como oportunamente evocado por J. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. não é possível. afirmar que elas são. Evidentemente. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. enigma. da mesma forma. uma perspectiva – que. parece-nos ser uma ética. confessáveis e tratáveis. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. com a condição. no espaço desse artigo. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. uma ética. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. Assim. Desse ponto de vista. Esse ponto.. mas através de princípios regendo procedimentos. a noção de sistema é bastante útil. DUBOST. tudo isso expressa bem o que. principalmente. ao contrário. um grupo. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. mas que traduzem um desejo. entretanto. toda análise em termos de relações bipolares. na falta de outro termo. independentemente das outras com as quais ela se articula.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. um serviço administrativo. uma empresa.

a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). dessa forma. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. aplica-se também à Psicanálise.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. em especial.Por outro lado. 2. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . identificar os dados. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. Desse ponto de vista.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. o interventor-pesquisador contra o risco de. e sendo breve. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. Assim. antecipadamente. a fortiori. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. A introdução. igualmente. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. Evidentemente.7 Porém. então. ao mesmo tempo. por K. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. é importante que todo ator e. sem o perceber. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. trata-se de tentar definir. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. em uma relação de colaboração. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. por exemplo –. LEWIN. Em suma. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. 3. Sem dúvida. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. J. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. instrumental. desde o início da ação de intervenção. em especial. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e.

embora não suficiente. da sociedade e das ciências do homem. Da mesma forma. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. reafirmar essa posição e manter-se nela. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. elas expressam antes uma perspectiva. de qualquer jeito. tentando identificar. uma orientação. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. investigar. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. brevemente. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. FAVRET-SAADA. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. é impossível. então. Entretanto. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. Embora seu enunciado seja necessário. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. “saber como se foi apreendido”. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. assim como observar. consideráveis nas últimas décadas. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. 118 .9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. algumas tendências atuais. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. então. em seguida. É indispensável.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. questionar. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. FAVRET-SAADA. Igualmente. nos termos de J. parafraseando J.

falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. de uma forma diferente. desde os anos 60.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. cada vez mais evidentes. de análise de grupo. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. dedicaram-se. é impossível. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. no início do texto. até então. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. há alguns anos. Mostram. certas correntes de Sociologia Clínica. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. dominados principalmente. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. de ordem geral. talvez rapidamente demais. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. Finalmente. a problemas de mudança social. Assim. hoje. com uma perspectiva bem global. impõe-se: qualquer que seja o domínio. Por outro lado. etnometodologia. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. análise conversacional. não é mais aceitável. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. por perspectivas lewinianas. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais.10 Mais recentemente. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. assim. rogerianas e morenianas. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. convergências. Em todo caso.

e JOULE. FLAHAULT. Minuit. L’intervention psychosociologique. A. L’Harmattan. A. 1987. paradoxes et psychothérapies. Paris: Seuil. 7 Cf. Connexions. 1975. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. BEAUVOIS. 2 4 5 WATZLAWICK et al. e BAREL. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. L’intervention institutionnelle. La voix et le regard. A. G. 1989. 43. Dunod. C. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. A. 1978. PUG. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. sindicalistas. PUF. LÉVY. “Coopération et analyse des conversations”. DUBOST. 1984. “Eloge de la psychosociologie”. Em especial. PUF. “L’analyse sociale”. A. R. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. Façons de parler. D. Gallimard. 10 120 . RAPOPORT. muitos outros atores apareceram: formadores. O. Connexions. Seuil. Dunod. J. E. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. 53. CHABROL. LECLERC. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. 1979. Por exemplo: ANZIEU. e CAMUS-MALAVERGNE. nos anos 60 e 70.N. 1972. In: ARDOINO et al. 1987. les sorts. 3 ENRIQUEZ. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. DUBOST. W. J. 1977. 9-18. Paris X. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Changements. 11 TOURAINE. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. J. 1973. Le sujet social. 1978. Tese de Doutorado. In: Du discours à l’action. BION. O problema da mudança individual. 1990. Situations de groupe et relations langagières. 12 BORZEIX. Paris: Seuil. “Connexions”. Seuil. TROGNON. 2:87. 1987. La société du vide. 1980. Y. Recherches sur les petits groupes. 1985. J. 1981. 1987. e de representações específicas de objeto. e LÉVY. Les mots. la mort. Connexions. J. E. L’observation de l’homme. JAQUES. arquitetos etc. H. J. DUBOST. L. Sociologie du Travail. Le groupe et l’inconscient. “Ce que parler peut faire”. Dunod. André. 17. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. 1983. por vezes fundamentais. 1965. La parole intermédiaire. GOFFMAN.. ATLAN. 1979. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Payot. 7. Como exemplos: BARUS. R. Entre le cristal et la fumée. E. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. Seuil. trabalhadores sociais. responsáveis políticos locais. 1984. 42. Intervention et changement dans l’entreprise.

se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que.4 Essas evoluções. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações.3 sobretudo nas Ciências Humanas. certamente. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. mais do que como fenômeno excepcional. em nenhuma das duas. no campo que nos interessa. depois de LEWIN. também. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. em contrapartida. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. Entretanto.2 Mas. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. de forma mais ou menos clara. o segundo 121 . não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. retorno a uma problemática do indeterminismo. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. tendência.

dirigir ou combater.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. necessariamente. porém algumas observações prévias: a. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. de uma leitura psicológica.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. definitivamente. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. parece-nos possível. por isso. ele permite. aqui. mas que ela poderia se realizar. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. Nesse terreno. de súbito. recristalização). teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. do interior e não de um ponto de vista exterior. LEWIN. compreendê-la como tal. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. Antes. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. 122 . fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. hoje. iria reificá-lo. isto é. K. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar.5 Além disso. deslocamento. aquém ou além. com efeito. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. com efeito. para as constatar. como demonstramos num texto anterior). preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. muito fecundo. necessitando ser aprofundada. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. no grupo (na relação e pela relação. prever. Assim. participando delas diretamente. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. por definição.

“exceto do corpo que se usa”. freqüentemente não isentos de violência.).. não se reduz a esse processo evolutivo.. é sobre essa segunda significação de mudança. desse ponto de vista. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. (. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. é se abrir a uma história.. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b.. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. é acontecer. redirecionamentos. lento e ininterrupto.). pois. tal definição é geral demais para ser útil. Como já dissemos. Antes de ser um acontecimento objetivo. porém. entretanto. ela é um acontecimento subjetivo. reorientações bruscas. como observou Paul VALÉRY. que queremos nos centrar aqui..) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. A teoria dos sistemas distingue. é o espírito que..9 a mudança. Com efeito. seja a de um indivíduo ou de um grupo. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. A mudança é um trabalho do espírito. legitimamente. como ruptura... tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 .Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. Com efeito.. o desenrolar de uma existência.. Toda vida é “repetição de ciclos”. à aventura. O termo mudança poderia. No entanto.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. tecnológico –. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. também. Ele se traduz. reprodução das idéias.8 Com efeito. ao risco (. a mudança é um acontecimento psíquico. a um processo de mudança. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. mutações. nem todo processo discursivo se identifica. que é a morte) – reprodução das espécies. assim. econômico. reprodução das instituições. designar tudo o que está vivo. escrevia Paul VALÉRY. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. físico. eles não podem ser previamente enunciados.

então. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. representações ou intenções e os que estimam.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. por um trabalho do espírito. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. isto é. por excelência. Ou. antes de tudo. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. em todos os níveis. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. As condições materiais. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. A decisão: momento. ao nível de suas significações. depois de LEWIN. ao contrário. ao contrário. se o ato é fundador. os psicossociólogos. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. um trabalho de pensamento. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. objetivas. ele o é apenas se fizer sentido.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. das instituições. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. Para entender bem essa proposição. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. Fazemos. ainda. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. Por exemplo. dos modos de pensamento. 124 . o lugar da mudança. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. a liberdade”.

“operando uma disjunção violenta. inicialmente. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. em suas opções e em seus desejos fundamentais. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. para chegar ao processo secundário e criar o real. ao mesmo tempo. o “golpe de força” na origem de toda organização social.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. com o risco de sua própria desagregação”. Por isso. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. da continuidade sem hiatos. da duração (bergsoniana). da ordem do real-concreto-sensível. renunciando. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. um salto para o desconhecido. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. a divisão. necessariamente. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. Os processos de decisão analisados por LEWIN. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. do feminino. por si própria. LEWIN. 125 . o psicanalista W. em sua época. a organização social. Somente a decisão pode fundá-lo”. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso.13 acentuamos o ato arbitrário. então. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades.12 A decisão seria. em um trabalho anterior. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. só pode ocultá-lo. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. uma situação nova e envolve inteiramente.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. por si. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). por exemplo). o tempo.

nem que a palavra seja onipotente. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). retomado ou reinterpretado. em si mesmo. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. assim. Um ato. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. a decisão é. manifestação da vontade de produzir. que uma decisão necessariamente modifica. explicitamente designado. simplesmente. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. Toda decisão é. um ato de palavra. evidentemente. por seu conteúdo informativo e prescritivo. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. como que por mágica. isso significa que uma escolha. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. econômicas ou sociais. tomados como testemunhas. Mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. modificações na realidade. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. Se o sujeito que 126 . de forma mais importante ainda. pois ele pode sempre ser desmentido.” é um ato “ilocucionário explícito”.. assim. apenas por seu enunciado..14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. Isso não significa. não muda nada. quer sejam. pois. mas porque é um ato público. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. não pode significar uma mudança. Mas. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. O sujeito de tal enunciado. qualquer que ela seja. é o mesmo sujeito da enunciação. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. ao mesmo tempo. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. as situações institucionais. simplesmente. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra.

efetivamente. Decisão. entre as possibilidades. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. Aqui. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. o jogo de hipóteses. sem apreender o real? 127 .A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. do imaginário. não se reduzindo. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. como muitas vezes ocorre. sob a má fé dos argumentos. para um processo de mudança. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. e de abandonar o terreno do possível. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. Então. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. como diante da morte –. a respeito do herói. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. conscientes ou inconscientes. eles próprios. interpretação e prática de análise social No entanto. os desafia. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. igualmente. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. a uma atividade lúdica ou de encantamento. esconde mal. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. para fundar o real. Nesse sentido. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. talvez mais do que em qualquer outro momento. vazios de sentido e sem conseqüências. inelutável. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. formal e. bem antes do livro sobre Moisés. rituais ou emblemáticos.

sendo difícil. com efeito. Seria importante. Certamente. tais como J. certamente. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. como toda decisão. Assim. possuem as características do relato histórico. incontestavelmente. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. igualmente. para fazer a história. feita pelos psicossociólogos. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. ainda que não tenham conhecimento disso. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. implica um risco e um custo. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). FAYE15 as analisou. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. mas. Mas ele pode. como observa FAYE. 128 . para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. O trabalho sobre as resistências. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. P.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. senão impossível. escapar dessa eventualidade. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. certamente. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. ao mesmo tempo. ela é necessariamente parcial e partidária. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. Esses sistemas. termo que.

mas complementares. visto que essas. de uma mesma “realidade”. mas sua coerência.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. assim. ao contrário. uma parte da verdade comum. “nascendo. das condutas às quais elas se referem. contentando-se em esclarecê-los e. que eles constituem visões diferentes. no inconsciente dos sujeitos.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. que preserva o analista social da decisão. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. essas diferentes visões e o que elas ocultam. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. do risco de uma interpretação verdadeira. ideológico. contribui para reforçar seu caráter dogmático. então. em um processo de reificação de enunciados fechados. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . não podendo ser traduzidos em decisões. muitas vezes. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. mas tende a afastá-las. bem claramente. justificando. É aqui que uma concepção por demais rígida. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. mais ainda.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. cada um. subtraído do tempo”. o texto. práticas contestadas ou abordadas. pois. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. sobretudo. longe de se fundamentarem no “real”. diz-nos LEGENDRE. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. atuem diretamente no real. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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capazes de se auto-regularem. autopoieses. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. “desnaturalizados” pela extensão do mercado.Inicialmente. face a “ruídos” provenientes do exterior. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). como crises momentâneas de coerência. isto é.Rupturas. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. isto é. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. as crises econômicas foram. atores e autores do seu sistema. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). colocam outros problemas. cujos elementos. em 1900. os atores. a partir do século XIX. 2. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. os novos conceitos e hipóteses. *** Quais são. constituindo-se. químicos ou biológicos. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. oriundos de outras áreas. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1.Os conceitos de auto-organização. em 1950. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. autocriação. mas abertos ao seu meio ambiente e. ou seja. autogeração etc. supra) agidos. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. Assim. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). inicialmente. pois. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. Nesses períodos. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. literalmente. não restavam mais que 10 000). são simultaneamente (cf. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . Eles se referem a sistemas autônomos. por isso. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. o que não é o caso dos elementos físicos. então.

o compromisso fordista empresários-assalariados. de inovadores potenciais. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. Essas crises-ruptura. logo não previsível. entre os economistas. por conseguinte. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. de outro lado. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). encontramos poucas reflexões (na França. na França. de um lado. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas.P. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. mas isso deixa de lado os fatores 136 . exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. Mas. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.2 por exemplo). Sua presença é vista como consolidada. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.. na sociedade ou numa área econômica dada. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. Nesse ínterim. amplia a margem de manobra dos inovadores que. sob o protecionismo de MÉLINE. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. nesse momento. sob a égide do Estado. No entanto. segundo CROZIER) e.I. É certo que essa escolha é aleatória. em especial.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e.

CASTORIADIS). Mas ainda continua faltando. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. a difusão ou não – de suas inovações. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. entre a mão invisível e o punho de ferro. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. assim como aos fatores culturais. 137 . aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Em épocas de crises-ruptura.. por conseguinte. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). em cinqüenta anos. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. da designação.I. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. nessas mutações estruturais. Mesmo se essas teorizações existissem. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. da predestinação do mais forte. uma teoria do fracasso. Há outro problema não estudado. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. nesse quadro. inerente ao sistema. tornando possível viver em perspectiva (C. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações.Rupturas.000 sociedades. ou seja. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. ao nível dos detalhes.P. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. ele se torna o ordálio. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras.

Ela se define (P. após dessacralização. . por exemplo). “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). que o Centro se desloca.I. por exemplo): concorrência. .fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. 3 . poderes oligopolíticos em escala internacional. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). 3. despolitização. GROU. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. ENRIQUEZ): nacionalismos.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial).). da cultura.enfim. . BOYER. devido à extensão atual do mercado e. a família e a escola). Mas. homogeneização da linguagem.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. polimorfismo das intervenções do Estado. às vezes. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. . embora ainda não totalmente. integrismos.P.outras referências.fenômenos de regressão a formas mais simples. . diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. 138 .Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. mesmo que saibamos.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. . desde BRAUDEL. o lúdico. o sagrado e.). à extensão do capitalismo (os N. após a solução eventual da ruptura. podemos constatar: .aumento do número dos agentes aí implicados. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. des-sindicalização e mesmo des-identificações.

quando da sua transgressão e. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. Contrariamente. REYNAUD). além das imposições do mercado e dos demais poderes. 1. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. pois. É preciso. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. devem inicialmente ser especificadas. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. químicos. informáticos. por um lado. por seu lado. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. o leque dos comportamentos não é. por um lado. para serem fecundas. para poderem inovar. Ela supõe.Rupturas. completamente fechado. tão caro aos marxistas de outrora. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J.). mecânicos. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). por outro. Do mesmo modo. 139 . as sociedades animais). dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). como afirma o individualismo antropológico. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. para cada grupo de agentes. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. biológicos e mesmo etnológicos. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. das conexões) e do “salto qualitativo”. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. Essa adesão. introduzir normas. D. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. E esses. regras ou convenções para lhe dar suporte.Nos sistemas sociais. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. por outro lado. uma interiorização das normas e uma culpabilização.

pelos golpes das OPA. de sua unicidade histórica. a modificação do tipo de conjuntura. as ocasiões de experimentar. mais nitidamente. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. devendo encontrar. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. por exemplo). inovações. enquanto que. 2. no segundo. seria preciso distinguir. em período de crise. 3. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. por fim.Quando há ruptura. Por outro lado – apesar de KEYNES –. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. de se expandir e. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. 140 . acumulação. No total. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). da sedentarização ao nomandismo). então. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. O imaginário da destruição pode. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica.5 o pessoal patronal). as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. em seguida. Existe então. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. os outsiders e os parvenus substituem. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. No primeiro caso. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. dos fatos de regressão (por exemplo. por isso mesmo. sem esquecermos ainda as marginalizações.

em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. André. então. n. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. 55. n. Revue Économique. 2. Connexions. mutations et complexification en économie (mimeogr. 1990. 40. tal como: 1.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). Ruptures. Paris: ERES. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais).T. a adesão às normas e. por Teresa Cristina Carreteiro. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. portanto. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. A continuação do funcionamento implica. “Malaise dans l’identification”. Cf.As estruturas (as relações de complementaridade e.Rupturas. por conseguinte. N. Cf. uma mutação estrutural. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. V. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. a aquisição de conhecimentos e de representações. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. um esquema ideal típico. de coerência) + a cultura (os conhecimentos.Mas a adaptabilidade do sistema. “L’économie des conventions”. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão.). 2.T. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. março 1989. para experimentar as inovações.). então. “esgotamento da relação salarial fordista”). por exemplo. 141 .). tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. normas. representações. por conseguinte. 3.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

a introdução de novas referências. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. Do mesmo modo. de algum modo. 3. MITTERAND. precedeu uma crise econômica. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. talvez anuncie o fim delas. a qual. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. TAPIE e outros). o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. jogando. no 52) A crise das identificações. criam. Pois essas “perturbações”. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. de criança o reinado.Ela mobiliza atores em potencial. BRANDT. E. ROCCARD. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. (Heráclito. não se trata mais de crises (isto é. 2. Atualmente.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. condições de “saída da crise”: l. 143 . a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. nos anos 60.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). João Paulo II. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. por exemplo. de incertezas). e os transforma em autores das mudanças. No Ocidente. “desfusão das pulsões”. Fragmentos.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. precedeu uma crise política. então. quando não destroem a sociedade em questão. por sua vez. porém robusta. 4. (Hobbes) Tempo é criança brincando. Assim. MARADONA.

diz FREUD. a tipos de personalidade diferentes. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. de modos diferentes. a grupos étnicos. tentativas de reconstrução.No final de contas. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. as “intermináveis adolescências” que. com todas as posições intermediárias possíveis. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. por um lado. levados pela incerteza das situações e do futuro.Ela libera. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. o individualismo ilusório ou de oportunismo. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. desses imaginários de projeto. é claro. assim. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. não apenas a realidade parece incerta. O resultado é que. ao contrário. reativados ou mesmo imaginados). de assimilação e de inovação. O “mal-estar na identificação” traduz. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. ao mesmo tempo. por outro. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. angústias de identidade. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. assimilam e transformam. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. localizadas e transitórias. a categorias socioprofissionais e. pode-se reciclar também a identidade. 6. para todos. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 .

da igreja. regionais. b. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. Assim. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). A identificação que não se desvencilha do partido. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. gorros cristãos etc.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). finalmente. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. solidéus – kipas – hebraicos. religiosas. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. Fenômeno que ilustra 145 . organizacionais etc.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. é paralela à involução identificatória de seus membros. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. de classe. e a aparência NAP) pelo simbólico. a regra e as sublimações. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. nacionais. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. as reativações religiosas atuais no Irã. a. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. é claro. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. profissionais. Por exemplo. do racismo. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. nos dois sentidos do termo. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. em vista da emancipação para o societário e a individuação. da empresa etc.3 A família. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. c.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais.

especialmente na França. é. com o dinheiro. o narcisismo individual. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. às avessas. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. isto é. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. primeiramente.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. Ela é. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. O retorno pode ir ainda mais longe. por sua vez. exatamente como Deus. principalmente. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. justamente porque mais na moda. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. b. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. “tem necessidade dos homens”. a. Quer dizer que o narcísico. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. sendo aliás esse que permite aquele. ipso facto.Mais interessantes.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. além disso. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. fortalece as exigências da necessidade econômica. E isso.Do primeiro diremos pouca coisa. entre 1983 e 1988. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET.

“O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. em prêmio de Schadenfreude. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. o festivo. mais tranqüilizadora. Enfim. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. se autodestruiria. talvez. essa acumulação pecuniária permite. o sucesso dos outsiders permite também e. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. O dinheiro. de junho de 68. numa androgeneidade fecunda. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). Além disso. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. Entre a binaridade e a injunção contraditória. se ela for realizada. Assim. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. Isso é talvez patológico. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. Na verdade.) permite. é mais simples escolher a binaridade. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. manter ou criar os meios de aumentá-la. em substituição ao “Mudar de vida”). induz não ao 147 . “Criem sua própria empresa”. simultaneamente. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. caso se propagasse a todos os agentes. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. A monetarização. notemos que o modelo do sucesso individual. o mercado. o prestígio etc. Por enquanto. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público.

a programação dos computadores das Bolsas) que.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. daí resulta. ao insolúvel. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. cada um será. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. a individualização extrema dos novos modelos. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. Intermináveis adolescências. Acrescentaremos apenas algumas observações. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. (T. 1. adolescência e pós-adolescência -. No caso de fraqueza delas. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. um cavaleiro solitário. entretanto.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. em contrapartida. nas três etapas – puberdade. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. a partir de elementos de vestuário comuns. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. a nítida binaridade do mercado. logo. passa-se rapidamente. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. na época atual. necessariamente. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. esse narcisismo manipulador.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. Além disso. Assim. antigamente atrasadas. em certas regiões. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. por exemplo. entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. 154 . os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. como. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. no que tange à história do capitalismo. Pode-se. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. mesmo que sejam minúsculas. “surpresas”. Além disso. É por isso que as revoluções. produzem-se onde não se espera e constituem. pois. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). pelo menos em muitos jovens. Nesse caso. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. uma vez instaladas. pois. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. conjugada com a manutenção dos objetivos. Com a condição. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. não podem ser reorganizadas e reorientadas. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. por historiadores como BRAUDEL ou I. inclusive jovens executivos12. fora do controle exercido pelo Centro.

as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. ao contrário. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. ainda mais. Assim. a conformidade e.. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. dos prazeres.. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. no início. E como se sabe.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. unicamente confirmadoras da identidade. no adulto não é a repetição mas.) pelas outras. GODALIER). em seguida. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. Paralelamente.. Em contrapartida. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. cujas identificações seriam. dos valores. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas.). Mas. por sua superação. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. diz WININICOTT). mas existem. aí. logo. MC DOUGALL). constitutivas da personalidade e. política etc. as identificações são. do espaço. a captação do lúdico (jogo de papéis. podemos contrapor. idealmente. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . numa situação de mal-estar. das idéias.. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. das coisas. a personalidade arrisca-se a desmoronar). o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. jogo de empresas.

Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. então. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. entre esses tipos extremos e opostos.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. . situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. imprecisas e transitórias. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. .experimentam-se. . Desse modo. DUPUY. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. sem dúvida. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. em identificações hierárquicas. por exemplo).Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). em transformar as identificações laterais.a dificuldade está. Mas. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . . E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. então. ao mesmo tempo que se escreve. com o 156 . então. representadas e transicionais. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. Essa é. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza.tentam-se.13 Fundamentalmente. como vimos.

Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. o fim da história só concerne a cada indivíduo). Daí a multiplicidade. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. (O que prova. pois. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. podem entrar em conflito. Essas apropriações podem. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). de Daniel BELL e de FUKUYAMA. de bandeiras. que apesar de HEGEL. Algumas conseqüências 1. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. dos indivíduos e da identificações 157 . quanto para aqueles que o desemprego. Enquanto isso. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. às vezes.. no fim de contas. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. de fetos ou de liberdade de viajar. apesar de tudo. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. de passagem. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. em concorrência). em 1981). a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. outsiders ou reciclados. como na tectônica as placas entram em fricção. das utopias (“mudar a vida”. Há. por isso. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Chegando à encruzilhada. com a eliminação das organizações.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. tanto para os autores das mudanças. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. aliás. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. da maioria dos marxistas. o mal-estar subsiste. 2.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo.. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. na Colômbia ou alhures. e das intermináveis adolescências. das coordenações pelos sindicatos etc.

Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. necessariamente. ao mesmo tempo agradável e funcional. como alguns dizem. amanhã. pedidores de emprego.Mas sabe-se também que o vínculo social e. um momento dessa ascensão. talvez. 158 . as gerações.). portanto. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. principalmente). 3. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. e a complexidade progressiva do sistema. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. os tempos. por um momento denegadas (entre os sexos. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. então. Por isso. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. E a que corresponderia. encontramo-nos. a estrela polar) são. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. Os signos (o sol. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. as únicas referências ainda fidedignas. as culturas etc. Ora. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. O barroco societário atual é. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. Talvez. das normas e das formas. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. os espaços. ENRIQUEZ.

para outros? Mas. simultaneamente. 2 de março. 1989. no mal-estar. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente.]. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 40. Temos assim uma alternância de interpretações. N. MARX. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. naturalmente). MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. sem dúvida. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. n. na formação de ninho familiar. Estaria a saída. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). Connexions. 29. no adulto que eles se tornariam. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. sociedade e personalidades”. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. 1981. O problema: em época de “destruição criativa”.. Oeuvres: Économie. 239. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). Passy. Revue Economique. a receita das identificações complementares novas (e.T. ao contrário. Pléiade. nas diferentes esferas do social. As épocas de crise e reconstrução valorizam. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. 55. os atores (Individualismo).. Gallimard. Mais dura foi a queda. C. 159 . Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. É por isso que. p. edição de 1963. 1990-1. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. “Zur Kritik. NAP: Neuilly. RUBEL.” In: M.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. W. das coesões) não parece ainda inventada. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. por Eliana de Moura Castro. Hoje ele teria. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. então. Auteuil. André. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. 61-78. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Tomo 1. p. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. “L’économie des conventions”. logo. Petit Larousse. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. do econômico ao sagrado.

1988. Paris: Seuil. ARMANDO. 1985.. BELL. CASTORIADIS. Cujas. Paris: Seuil. Ordres et désordres. ANREP. Interminables adolescences. BAREL. De la horde à l’Etat. Le lien social. n. D. Paris: ESF. DE CLOSETS. 1976. 1983. Autrement. VERNANT. BOURDIEU. L’institution imaginaire de la société. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. La distinction. Les deux arbres du jardin. 1989. M. 1982. E. Paris: Minuit. J. M. C. J.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. P. CHASSEGUET-SMIRGEL. oportunismo. Les contradictions culturelles du capitalisme. The end of ideology. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Y. Le désordre. 1979. 4. Paris: Fayard. Paris: Grasset. Cf. R. ENRIQUEZ. BIRNBAUM. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. 1950. Paris: des Femmes. J. 1989.. 1982. ENRIQUEZ. M. 1979. Paris: Seuil. Grenoble: PUG. 1988. Freud et l’éducation. Paris. FRIEDBERG. Les révolutions minuscules. E. Connexions. LECA. T. n.. New York: Collier. Paris: Flammarion: 1974. Paris X. P. J. Les destins du plaisir. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. BALANDIER. 160 . CROZIER. Paris: Cerf. DUPUY. Winnicott en pratique. L’acteur et le système. Le paradoxe et le système. 29. Tese. 1984. “Le changement en question”.-P. Paris: PUF. Paris: PFNSP. 1988. 1975. 1960. Bulletin de l’AISLF. L’auto-organisation. CERISY (Actes du Colloque de). mobilidade. Paris: Seuil. Paris: Epi. 1988. n. P.] uma não-imitação de exemplos paternais”. Uma mudança social.. 1987. Paris: Seuil. DENOYELLE. n. F. ELKAIM. D. 1974. L’homme et le sacré. BELL). BELL. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. Les ruses de l’intelligence: la Métis. por outro lado. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. L’individualisme. 1988. M. Connexions. Aux carrefours de la haine. “Les représentations sociales”. P. Si tu m’aimes. Toujours plus. 1981. AULAGNIER. DETIENNE. 1989. Paris: Gallimard. Paris: Gallimard. 1979. G. 51. ne m’aime pas. Autonomie et systèmes économiques. Paris: PUF. 45. para TARDE. 1977. J. CAILLOIS.. 1982. A.

. Vers la société sans père. Paris: Gallimard. “Et le poussent jusqu’au bout. 1989. 1973. E. “La voix écoute”. MITSCHERLICH. n.. Paris: Maspéro. SEGALEN. Paris: CNRS. M. 40. S. FREUD. OLIVIER. 26 jan. Ch. Freud et le problème du changement. WIDLOCHER. Paris: Gallimard. “La nation disparaît au profis des tribus”. A. Forum de Delphes. 1970. Playdoyer pour ume certaine anormalité. KRISTEVA. “Et mourir de plaisir. D. NICOLAÏ. GODELIER. W. L’autre et le semblable. 1980. LASH. Cl. 1981. Le retour de l’acteur. “La politique en apesanteur”. Paris: Gallimard. 1971. 1980. Paris: Plon. Le complexe de Narcisse. 10. 15 nov. MOSCOVICI. n. Inhibition. 1989.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. n. F. 1983. TARDE. GOFFMAN. A. 1966. G. SIBONY. Paris: PUF. G. nov. MENAHEM. 1979. D. 20. FREUD. Paris: Gallimard. n. Les lois de l’imitation. NICOLAÏ. 1979.. symptôme. 1971. FUKUYAMA. out. 1989. G. S. 1989. Reedição GEX. FREUD. 1989. FINKIELKRAUT. 38-39. A. nov. 1987.. J. Ressources. FREUD. 1980. Paris: Payot. S. Paris: PUF. SEARLES. n. FREUD. “L’économie des conventions”. 3. H.. 1978. Paris: PUF. 1989. Cl. 47. G. Idéaux. LIPOVETSKY. 1951. Cl. 2 de março. Paris: Denoël. Paris: PUF. outono. Paris: Minuit. Paris: Fayard.. LE GENDRE. A. “La fin de l’histoire?” Commentaire. 161 .1974. 27. Rationalité et irracionalité en économie. Psychologie des minorités actives. Paris: Laffont. L’effort pour rendre l’autre fou. 1958. Revue Economique. SIBONY. junho 1987. “Les Français et l’argent”. M. 1989. “Psychologie des foules et analyse du moi”.. MENDEL. Anthropologie structurale I. Le Monde. La pensée sauvage. A. A. Revue française de psychanalyse. Malaise dans la civilisation. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. Les enfants de Jocaste. WINNICOTT.” L’homme et la société. Mc DOUGALL. Pour décoloniser l’enfant. 1981. S.” Connexions. NICOLAÏ. 1980. “Penser le chômage”. Névrose. 1974. 1934. LÉVI-STRAUSS. 1984. Le Monde. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. Nauplie. D. Le déclin du complice d’Oedipe. S. B. 1989. 1971. Jeu et réalité. n. et al. 18 julho. de la vertu et de plaisir. D. Paris: RFP. 1977. angoisse... Traverses. S. L’empire de l’éphémere. n. Pouvoirs de l’horreur. In: Essais. 1982. 25 de out. Paris: Seuil. TOURAINE. 18 mai/7 jun. LÉVI-STRAUSS. Paris: PUF. “Les mutations de la famille. 51-54.” Peuples méditerranéens. 1988. J. Paris: Gallimard. psychose et perversion. Les rites d’interaction. Paris: Plon. Le Monde. n. Paris: Payot.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

contribuir. 1980. pelas Comunidades 165 . em fins de 50/início de 60. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. É bem verdade. a partir da divisão não-saber x saber. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. LÉVY (“Intervenção como processo”. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. No Brasil. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. que essa “crise” também eclode em vários países e que. essa parece ter sido. em cada lugar. Poderíamos dizer. desembocando. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. também. criando em nós uma vontade de entrar no debate. ela tomará formas próprias. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. na maioria das vezes. lançar um olhar novo sobre o mundo.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. Pelo que eles mesmos nos contam. 1987). nas décadas de 60/70. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. 1980) e de E. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. em uma espécie de “crise das instituições”. sem dúvida. sem vê-lo como algo já dado. Benevides de Barros É. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. instrumentalizada então. mais tarde. entretanto. de A. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. Assim. os textos de J. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. por exemplo. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores.

inserem-se. PAGES. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. de modo generalizado. questionamento de seus modos de instrumentalização. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. analisador histórico do status quo vigente. o país. LÉVY. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. As instituições são analisadas. O mês de maio de 68 francês. designa a crítica à naturalização das instituições. colocou em cheque. DELEUZE). Em meados de 60. político e social. DUBOST. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. então. na interseção dos campos filosófico. E. fica claro que “Movimento Institucionalista”. presenciamos. Vemos. palco de uma produção expressiva. Por aí. desde essa época. ainda. Os fins do anos 60/década de 70 serão. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. J. como à Argentina. então. uma certa psicossociologia se faz intervenção. ARDOINO) ou. J. convulsionado pelo golpe militar. ao Chile e ao Uruguai. da burocracia partidária. No Brasil. G. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. quando tomado em seu sentido amplo. à Socioanálise (R. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. HESS. 166 . vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. crítica das experiências instituídas. Ainda que marcados por grandes diferenças. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. A. ENRIQUEZ). chegar também até nós o eco dessas produções. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. do conservadorismo universitário. através do contato com os “institucionalistas” franceses. LOURAU. No campo da Psicologia. por outro. LAPASSADE. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. de um lado. GUATTARI e G. R. principalmente.

(Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). alguns de Enriquez. Em 1967. “(. (MATA-MACHADO. mantinha.)... mas há algumas produções importantes que já apontam..)”.. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França.. que congregou pesquisadores práticos (.(. p.R... (MATA-MACHADO.) Em 1971.. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. de forma mais pontual. 2).) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. além de seus próprios escritos. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. em 1959.P.I. através do Curso de Psicologia. Junto com René Lourau (. Com PAGES. respectivamente. A entrada se dá. com a qual logo rompemos (. 1992. a partir de 1968.. 1992. Ambos haviam participado. MATA-MACHADO. p. tivemos entre nós..) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. 2) O pensamento institucionalista atravessa. 167 . como grupo. a influência do pensamento institucionalista francês. sob a liderança de Garcia. Lévy apresentou-nos. da formação da A. de Rouchy e. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. sobretudo.. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. Lapassade (.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita.... portanto. É marcante. via Universidade e. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.). mais especialmente.). voltado à pesquisa e à prática.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. cuja prática foi denominada Socioanálise”. 3-4). segundo M. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. segundo a autora. 1992. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. p. Se no início a orientação era claramente norte-americana.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte.. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. O recente trabalho de M.

o movimento institucionalista inclui sociólogos. O pensamento pichoniano. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. 1992. Essa perspectiva é. menos desejosas de mudar o mundo (. p. mas estendendo-se até hoje. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. atentas às características da realidade brasileira. MENDEL). aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. 1992. Hoje. G. “parcialmente abandonada. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. Encontramos. É também na década de 80. mais tarde. segundo a autora. 4). 168 .Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. há alguns projetos em andamento. na Europa. LEITÃO e BARROS. em fins de 70/início de 80.)” (MATA-MACHADO. no Brasil. a partir de então. J.. entretanto. construindo-se práticas singulares. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. LOURAU. entre outros). são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. DUBOST e E. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. cujos interlocutores privilegiados são A. R. no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro. além dos autores já citados. LÉVY. assim. 6). GUATTARI.. G. O que se percebe é que. G. CASTEL. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. psiquiatras e psicólogos. 1986). somou-se a influência do pensamento de outros (M. FOUCAULT. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. p. 1992). Digo isso porque chama a atenção o fato de que. F. Ao mesmo tempo. Na década de 80. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. por um certo tempo. LAPASSADE. DELEUZE. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. 1987). LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. ENRIQUEZ. pedagogos. fez com que. enquanto que.

a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. na universidade – PUC/SP –. Osvaldo (orgs). GUATTARI. 1984. KAMKHAGI. Rio de Janeiro. tendo incluído outras influências teórico-práticas. Gregório F. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável.. 1987.). o Núcleo de Estudos da Subjetividade. as contribuições da socioanálise. O inconsciente institucional. e SAIDON. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. pesquisas e intervenções. Heliana B. Marília N. Referências bibliográficas BAREMBLITT. RODRIGUES. Mas. M. já toma contornos bastante diferenciados. Suely.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. difundiram-se os pensamentos de F. C. em São Paulo. Heliana B. 22p. Belo Horizonte. hoje. B. Grupos e instituições em Análise. Félix e ROLNIK. A década de 60: seus efeitos no pensamento. bem como na entrada. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. mais tarde. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Regina D. Intervenção psicossociológica. RODRIGUES. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. 1986. Micropolítica. 164p.). e BARROS. (mimeogr. de obras desses autores. GUATTARI e de G. e BARROS. C. Rio de Janeiro: Vozes. LEITÃO. sobretudo. Especialmente através dos trabalhos de S. B. ROLNIK. 1992. (orgs). em alguns casos. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. MATA-MACHADO. o “pensamento institucionalista”. DELEUZE. incluindo.). 1986. em suas várias vertentes. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. 1992. (mimeogr. Atualmente. (coord. Cartografias do desejo. à instituição de formação e à de pesquisa. Análise institucional no Brasil. 175p. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. Vida R. 169 . Regina D. História do Movimento Institucionalista. nas intervenções e práticas sociais. 327p. desembocando em algumas traduções e publicações.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. além dos desejos de terceiros. a natureza do “saber-fazer”. a interação entre essas variáveis. c. em uma determinada situação. aqui. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. mais ou menos livremente. a algumas observações. implicando opções e esforços de imaginação e que.I. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história.. o status e a posição social. os princípios e as modalidades de sua intervenção. finalmente. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. Mas creio.as condições gerais que engendram.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. as dificuldades sentidas por um ator social. b. em primeiro lugar. Por mais banais que sejam. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias.R.P.a formação.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. de variáveis como: a. Limitamo-nos entretanto. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. principalmente.

missões de produtividade. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. o Marxismo. evidentemente. da conjuntura. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. então. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. de estruturas de direção. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. suas aplicações no domínio da economia. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. entre 1945 e 1959. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. a busca de participação. Muitos dentre nós trabalharam. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. o funcionalismo etc. Nesse contexto. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. ênfase a métodos estatísticos. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. Na Sorbonne. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. de gestão. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. O período imediatamente após-guerra foi dominado. do recrutamento de pessoal. simultaneamente.). estabelecidos na capital. de reeducação. nos mesmos organismos3). da formação em habilitações. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos.. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. comportava. inflação. em períodos diferentes. do 172 . pelo problema da reconstrução. econômica e social.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais.

O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. em 1961. especialmente. MORENO e depois ROGERS).Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. pouco conhecidas na França. André BRETON. separam-se em duas tendências. a partir dos anos 40. nessa época. as obras de G. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. então. se as tentativas de Reich são. a relação crítica e complexa que G. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. em seguida. estudos de mercado –. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. na França. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . desenvolvendo uma abordagem mais global. o movimento que iria ser denominado “institucional”. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. pela Dunod). Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. lembremos. da gestão etc. onde milito durante esse período. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. da demografia. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. a partir de 1952. por exemplo. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. no plano das práticas. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. é o momento também no qual G. o movimento trotskista. Em relação a esse último ponto.

O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. dirigido por C.O.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. servem. desde sua origem. Entretanto. com o restante do relatório. a C.G. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C.5 retém. CASTORIADIS4 e Cl. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. LEFORT. mas elas permanecem muito próximas. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. na relação que elas estabelecem com o cliente. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. em 1947-1948. em função do problema da burocracia operária. WILLIAMS.E. separa-se da IVa Internacional. em 1949.S. no qual se encontra B. Perret. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. Entre essas últimas. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. Antes de sua volta aos Estados Unidos. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Igualmente um outro. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. durante a ocupação. sobre a “moral” da empresa. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. R. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. um dos colaboradores dessa equipe. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. 174 . de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON.

Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. em empresas maiores. as que são conduzidas por equipes francesas. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. Ao contrário. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. porém. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. de início. 175 . elas colocam. depois eventualmente coletivas –. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. passando pelas reformulações européias do T. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. junto a pessoal assalariado de uma empresa. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). e eles devem ter acesso aos resultados. em última análise. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados.I. Da mesma forma. apoiando-se nos resultados. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. da mesma forma que a direção.W. se abrem a uma abordagem mais clínica. parece cada vez mais interessante.

absenteísmo. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. segurança etc. as relações intercategorias e as microculturas da organização. um objeto de trabalho. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. Por outro lado. Ele faz da relação de consulta um problema em si. higiene. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. no interior desse quadro de atitudes. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal.). técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. que fala sobre seu campo e suas intervenções. grupos de mais velhos. a se expressarem. e essa não sendo a conseqüência menos importante. pelos sentimentos coletivos. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. as crises. Direção de Pessoal –. cujos conflitos. Ajudando todas as pessoas. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. pirâmide de idade. turn-over. e tenta inventar. para uma orientação mais clínica.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . algumas vezes antigos. sua natureza real. Enfim. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. Em outros termos. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. ele se pergunta se os bloqueios. de pagar o preço por sua solução. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. feita pelos encarregados da pesquisa. modos de remuneração. as disfunções. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. ou aos que decidem – Direção Geral.

gestão ou organização. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. mesmo desejando o contrário. além dos arranjos menores concedidos. sem dar conselho. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. ajuda as categorias vítimas da repressão. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. mesmo nesse caso. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. os processos de preparação e tomada de decisões. de perceber direções de solução. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. ele próprio contribui. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. de fato. Porém. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. permitindo a expressão do reprimido. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. de fato. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. acaba totalmente reforçada. 177 . Nessa perspectiva. ele exerce uma pressão que. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. ele crê que. do especialista em uma técnica de produção. a idéia de que a intervenção. sem dúvida. mais tarde. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. isto é. à medida que esses são identificados. em especial dos inconscientes. os sistemas de comunicação na empresa. se aceita. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. isto é.

os limites das ações de intervenção. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. (1959). mais do que acelerar tal processo. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente.P. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. O caráter clínico do novo grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. Os anos sessenta No momento de criação da A. A outra continuava a realizar. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. então. a 178 . sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. das formas de autoridade.R. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. Da mesma forma. nessa época. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. em uma empresa nacional. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. do psicodrama analítico etc. mas também em uma transformação cultural profunda. Tenho a impressão de que. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. No momento da criação.I. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada.. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução.

I. dez anos depois. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). de inspiração rogeriana. dominou os primeiros anos de funcionamento. a continuidade no tempo. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. ROUCHY). se podemos dizê-lo. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar.P. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . até 1966 (marcado pela vinda de C.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. a metade das atividades da A. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). e ainda agora. HERBERT. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. A organização e a condução de seminários representa. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade.6 No começo dos anos sessenta. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. outras vezes apenas três psicossociólogos. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. a metade já era. neles. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. reunindo às vezes toda a equipe. ou iria finalmente se tornar. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. de sociologia das organizações. algumas vezes mesmo de introdução à economia.-C. grupos abertos de análise etc. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. uma longa intervenção em uma empresa implanta. era de um terço. atuando diretamente no campo.R. nesses. de formação de adultos. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações.). terapeutas ou analistas.7 Paralelamente. de metodologia psicossocial. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. A orientação não diretiva. a proporção era aproximadamente de nove décimos. do sócio-técnico e mesmo do econômico. durante todo esse período.

de trabalhadores sociais. por exemplo. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. junto a um Centro de Produtividade. em Paris. Entretanto. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. para explicá-lo. a demanda se estende a associações. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. Mas creio que é necessário evocar também. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.R. Psicossociologia e Política etc.). de psiquiatras e de psicoterapeutas. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça.F. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. Ao mesmo tempo. de padres e religiosos. diversos membros da A. então. em 1961. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. as condições ideológicas próprias da França.N. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. de atendentes. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente).I. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. desenvolvimento organizacional). a integração. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. de maneira ainda mais geral. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. na equipe. durante vários anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores.P. 180 . junto a organizações com função econômica. é uma intervenção no México.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. movimentos educativos.E. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. É sobretudo na França. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. por volta de 1965. a guerra da Algéria.

N.I.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros.E. de uma audácia espantosa. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. simultaneamente política e cultural. como muitos outros. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.R.. mesmo que modesta.P. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. antes de 68.V. centrando-se na evolução das pessoas. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto.elaboração de projetos de pesquisa-ação. por parte da instituição. que dava uma direção totalmente imprevista. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. através do desenvolvimento de ações locais. Embora alguns dentre nós víssemos. ao considerarem suas relações e vida psicológica. como o fazem os indivíduos ou os grupos. As instituições não se analisam.10 . a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. .as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. nas ações de movimentos como a F. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. uma direção susceptível de provocar. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. não desembocou no político.O. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). uma evolução global do sistema educativo. por exemplo. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. trabalhava desde 1964. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). dentro de certo prazo. ao contrário. com os quais a A. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural.E. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 .9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . o período que se seguiu a maio mostra.

e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. progressivamente. a “socioanálise” ilustra. Esse último aspecto leva à questão mais geral. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. até o começo dos anos 60. parece-me que. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. mesmo quando.Porém. 182 . “agente de mudança”.12 . relativo primeiramente à natureza das relações sociais. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. quando as referências à pedagogia ativa. na prática. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. 1967. no plano das idéias. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. em especial lacaniano. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. afastando-se dela em seguida. bem problemático.nos anos que se seguem à Liberação e. O modelo do analista pareceu sempre. Como o mostra André LÉVY. no último período.A partir dos anos 60. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. ou melhor. devendo ser afastado ou suspenso. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. no campo social. tal opção. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. . benefício a mais). mas também de seu objeto de trabalho. sem dúvida. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica.11 Estudando (por três vezes: 1963. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. ou “indutor de mudança”. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. sob a influência do pensamento psicanalítico. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. ele deve ser buscado em outro nível.

pertencente ao campo estudado. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. presente nele. na referência ao próprio lugar ocupado. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. Se ele se encontra em uma posição menos central. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. por exemplo. e. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. nunca é independente. tendo em vista sua própria história.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . com todos os riscos que isso comporta. é certamente oposta à acepção lewiniana. nem a se considerar parte da ação. no campo. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. Simetricamente. porque ocupa. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. ou que se tenta ocupar. lugar onde se está. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. a esse respeito. sobretudo. por exemplo. Toda intervenção psicossociológica.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. A expressão pesquisa-ação. cedendo a pressões de que se é objeto. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. como pesquisador ou consultor social. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.

Jean e LÉVY. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 17. 1331. In: Fondation Royaumont. 1971. n. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 1972. 1332 etc. Gallimard. Épi. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. la Mort. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. Sociologie du Travail. secretário geral da associação. 1303. n. 13 Les Mots. de forma mais livre. 1972. sobre. LACAN. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. 1978. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho.-C. “Une intervention psychosociologique”.. Paris: Dunod. Intervention et changement dans l’entreprise. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). 8 Cf. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. Paris: Payot.S. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. Jean-Claude ROUCHY.P. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. sobre esse último ponto. n.) e dos de Cl. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação.O. 1969. de PERETTI. J.G. 11 Cf. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. André. por exemplo o artigo de J. com universitários como Georges FRIEDMANN. 806. quatro anos depois.”. ou mesmo depois de terminar. 2. les Sorts. não se pode. Psychosociologies.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. André. ROUCHY em Connexions. e de A. 825. Connexions. seu vice-presidente. n. Connexions. n. 1980. 5 Compagnie Générale d’Organisation. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. responder a essa questão. 10 Cf. de 1955).. 3. por Marília Novais da Mata Machado. p. jan. 29 de Connexions. Continuando. a partida de Max PAGES. LÉVY. L’intervention institutionnelle. In: ARDOINO et al. Paris: Epi. o capítulo “Variantes de la cure-type”.E. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. desde sua criação.O. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. 2 3 184 . 857. Ecrits (por exemplo. “Dire la loi. 1963. “L’Analyse social”.F. 50-68. 9 Cf. mais recentemente. 4 Cf.-março. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem.). 1304. A C.. 7 Max PAGÈS. Le psychosociologue dans la cité. 1980.T. presidido por Jean STOETZEL e. evidentemente. 1967. 1977. 12 Cf. Droz. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. contra.

esses ainda são muito relativos. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. No que me diz respeito. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. porém. Esclarecer sua posição em relação às situações. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. há muito tempo. Parafraseando HEGEL. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. entretanto. 185 . bem ou mal resolvidos. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. Porém. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. Tal afirmação. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. permitindo esclarecimentos progressivos. através das contradições de suas condutas profissionais. tem qualquer coisa de suspeita. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. mesmo que artificial. à crença em sua positividade fundamental e. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. quando é apenas verbal. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. sobredeterminado por uma profunda lógica. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. além disso. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. Porém.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos.

ela desconhece 186 . dizem respeito. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. a reconhecer. Toda a minha experiência. ela é. com freqüência. face a face. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. na França. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . junto aos grupos envolvidos. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. longe de chegar a um ceticismo. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. leva-me. no mínimo. sem dúvida. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. fundamentalmente. diferentemente lúcida. ao contrário. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. instituindo. diretamente.6 por esse rótulo. ainda hoje. Ela repousa. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. cada vez mais claramente. As práticas de intervenção. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. ou mesmo a um nihilismo. As tomadas de consciência. reciprocamente. mais lúcida ou. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. em relações diretas. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. Durante muito tempo e. desapaixonada. científica. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas.

supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. implicitamente. A reunião desses diferentes objetos na análise. esclarecimento das funções. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. com efeito. seu amigo. que adotava aproximadamente esse modelo. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. melhor coordenação administrativa. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. de um lado. mas.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. com vistas a decisões e ações. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. é apenas um simples instrumento ideológico. isto é. caso contrário. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. considerado como um diagnóstico e. De toda forma é surpreendente que. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. os problemas atuais da empresa. sobretudo. que. visto como ligado demais ao responsável comercial. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. quase narrativa.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. cuidando. de quem dependia bastante. de forma alguma. de uma forma histórica. por sua vez.7 A última intervenção da qual participei. em determinado momento. data de 1972. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. então. Tal metodologia induz. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. Porém. de outro lado. 187 . supõe. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. uma única vez. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias.

sem dificuldade. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. particularmente por meio de nosso relatório oral. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. no limite. e. para apreender a “realidade”. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). como se esperava de nós. organizacional). de um a outro. porém situados no mesmo plano. sobretudo. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. e de passar assim. em outras palavras. Em outras palavras. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). A pesquisa havia fortificado essa esperança.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. A perda da esperança acarretou. traduzia também. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. expondo cada um com a mesma objetividade. um de cada vez. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. inevitavelmente. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. a coexistência desses diferentes discursos. à medida que cada discurso. complementares. e sobretudo. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. então. ideológico-afetiva. mas potencialmente articuláveis entre si. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. reconstituído graças a nossos cuidados. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 .

ao contrário. escutada ou recusada. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. Mas se aceitamos. no mínimo. constrangidos. Essa experiência possibilitou-nos. desconectados das condutas e estratégias. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. é a função das representações. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. articulá-las. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. em contrapartida. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. sabemos. o levantamento de dados. assim. associa-se necessariamente à busca de um sentido. Longe de favorecer um processo de análise. a partir de diversos “pontos de vista”. isto é. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. para o recalque: primeiramente. qualquer que seja a maneira como é conduzida. que não se reconhecem como um discurso. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. desejaríamos. embora imperfeitamente. ações ou decisões (saber para). não aceitamos seus pressupostos.Intervenção como processo (subjetiva demais. legitimamente. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. então. assim. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. reduzidas a enunciados fechados. perceber o quanto a prática da pesquisa. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. em seguida. Essa crença conduz. de uma explicação geral. o “real”. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). em discursos que as pessoas expressam. 189 . excessiva demais) e conservar. a pesquisa contribui.

pode ocorrer. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. na qual uma resposta instantânea. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. A não ser que se idealize o processo de análise social. ser feita em uma experiência de comunicação. Porém. reciprocamente. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. instituídos. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. com efeito. se articulam e se transformam. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. Só é possível. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. no sentido pleno do termo. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. se há um resultado do qual estou seguro. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. sua posição de exterioridade é apenas relativa. moral ou corpórea. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. na qual o imediatismo do risco é sensível. sob forma falada ou atuada. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. mas. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. então. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. Os grupos face a face aparecem. 190 . a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. essa só pode. independentemente das maneiras como se atualizam. na enunciação. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações.

material ou simbólica. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. por exemplo). mas relações de transferência. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. essas relações implicariam particularmente. por parte do analista. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. ele se insere no mesmo sistema de alianças. o respeito à regra de abstinência. no sentido preciso desse termo. 191 . O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. corpo a corpo. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. com a participação do analista-interventor. pressões.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. grupo do outro. isso é apenas uma petição de princípios. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. do não agir. Nas situações de intervenção. estratégias. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. em função de uma “demanda”. no próprio ato que o institui como analista. uma vez que. isolados de toda historicidade. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. desde o início. das quais necessariamente é parte.

tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. do “aparelho psíquico grupal”. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. no mesmo ato. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. Um dos objetos de análise pode ser. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). assim. traduzia o desejo de tirar 192 . por meio de regras explícitas e implícitas. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. tendo que tomar decisões e executá-las. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. não unificada. por antecipação. seu objeto. isto é. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. por exemplo. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. então. um serviço). feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. quanto para as relações internas. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. fragmentada. fora da situação de análise. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes.12 e a legitimar sua interpretação. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. ele elimina. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). O interventor pode.

como o fazem certos psicanalistas. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. a desmistificação de certas crenças. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. institui tal quadro. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. à medida em que o trabalho progride. assim. observações. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. a composição do grupo pode evoluir. pesquisaação etc. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. merece ao menos uma explicação. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. ele entra em conluio com as resistências. com efeito. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. e o grupo de suas restrições externas. especialmente do médico-chefe. Um dos resultados. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. do trabalho de análise. Se isso é em parte verdadeiro. a presença. Não se pode escapar disso dizendo.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. paradoxal. quando o interventor.). o que vale não só para a análise. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. Nessa perspectiva. de uma terapêutica localizada. as resistências internas na organização tendem. que continuaria submetido às regras administrativas. mas também para o gozo sexual ou estético. a não ser provisoriamente. por exemplo. essa modalidade se constituía. que a emergência dos conflitos latentes. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. como. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. Certamente. É por isso que. o abandono de tabus. numa colocação em ato do desejo.

Com efeito. mas uma subtração. O novo que aparece não é. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. isto é. Não é uma soma. Com efeito. a da organização científica do trabalho.. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. ao risco. irredutíveis. a da burocracia. então. no mínimo. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. uma certeza a menos. toda teoria organizacional é relativa. em face à eventualidade de uma ruptura. conseqüentemente. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. ou como o reconhecimento de clivagens internas. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. um acontecimento marcado pelo advento. antes de tudo. a mudança representa para nós. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. um jogo mais livre se torna possível. do menos ao mais. de acordo com eixos orientados. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. inclusive nas pessoas.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. o acesso a uma história. com noções e representações úteis à ação. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . centrada nos problemas de produção racional. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. um possível onde havia certeza. à incerteza.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. centrada no sistema de regras etc. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. ao desconhecido.. uma certeza a mais. uma questão onde havia uma afirmação. do pior ao melhor. Em um texto anterior. um novo pleno. as peças começam a circular.

mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. Nesse sentido. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. Nessa perspectiva. também ela. mas em apreendêlas como discursos incompletos. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. desde 195 . essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. Assim. Entretanto. hierarquizado. então. temporais. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. tendo sua própria pertinência. Pareceu-nos. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. para os outros e para si próprios. a análise não alcança objetivamente um real suposto. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. as ações e as divisões. ordenado. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. com a finalidade de construir referências. com efeito. então.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. o que dá no mesmo. enfrentar e ocultar as contradições que vive. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. o processo de análise não pode. permanecem divididos os discursos de representação. tenta explicar. são discursos destinados a legitimar. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido.

colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. reificaria significados. pareceu-me simpática. mas a demanda. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. por sua vez. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. em especial. isso não apenas não os inquietou mas. Depois de uma breve hesitação. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. Assim. por diversas vezes. que deveria ser. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. com pessoas pertencentes a esses meios. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. citarei o caso de uma intervenção muito breve. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. Esclarecemos. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. Para ilustrar o que precede. endereçada agora a mim. A razão de minha determinação. em sua maior parte. ela pretendia ser. tanto quanto pude analisála. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Igualmente. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. com interesse e prazer.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. aliás muito rapidamente. ao contrário. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. aceitei. talvez tivesse mesmo o inverso. 196 . destinadas a serem engavetadas. era o sentimento de que não poderia. Buscavam essencialmente um “técnico”. como ocorrera na assembléia anterior. Embora eu tivesse trabalhado no passado. como condição para aceitarem sua missão.

vencimento dos prazos para decisões importantes). o lugar deles. de fato. uma Assembléia Geral extraordinária. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. de outro lado. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. Para isso. em relação à Comissão e. cuja forma seria definida? 197 . era considerado por muitos (ou. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. Tratava-se então de um momento que. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. atendendo expressamente à sua demanda. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. diversas sessões haviam sido previstas. Ela havia sido decidida no ano precedente. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. depois dos debates. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. na história da Comunidade. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. dois encontros no local da Assembléia Geral. Como cheguei lá. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. pela Comissão) como um ponto de transição. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. à noite.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. Como já mostrei. e enfim. pelo menos. em seguida. de um lado. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. que não podia ser perdido. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral.

Eu era calorosamente acolhido. com amizade e com confiança. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. as regras às quais se submetiam etc. os textos definindo seu funcionamento.R. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. Parecia-me. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. a fim de levantar suas opiniões. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. com a ajuda deles. esquivando-se dos conflitos e divergências. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. tendo em vista a Assembléia Geral. O fato de que eu estava lá como um profissional. de sair de um estilo de relações muito corteses. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. Nessa ocasião. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. sem implicação com o grupo. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. como um estranho mas não como um intruso. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. eu próprio me sentia um estranho.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. 198 . tomei conhecimento.). então. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. talvez também meu próprio sobrenome judaico.I. então. evitando toda aspereza. Espantei-me.P. as relações entre elas. ao mesmo tempo. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –.

periodicamente. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado.Intervenção como processo No nível do conteúdo. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. pelas vontades expressas pela “base”.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. declarei-lhes: 1. O papel que tinham era não apenas técnico. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . a meu ponto de vista. demonstrei que. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. sem deixar de observar. Pareceu-me. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. entretanto. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. Eles aderiram. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. para a escolha dos temas que seriam então tratados. seu papel de porta-vozes puros. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. assim. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. em última análise. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. observei. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. então. que eles deveriam. mas representavam também. sem dúvida. 2. com bastante veemência. ao contrário. em nome de valores democráticos. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. com relativa facilidade.

exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. eventualmente. Paradoxalmente. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Com efeito. ao contrário. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. com o conhecimento e o acordo da Comunidade).Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. sem implicar posições táticas e políticas. seria necessariamente confundido com a Comissão. Caso eu participasse da Assembléia Geral. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). No limite. com alguma hesitação).

ligado à Comissão. membro da A.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. mas no calor da discussão. c.. sem direito à palavra. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura).I. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente.P. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. isto é. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho.R. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. ficou claro que: a. sobretudo. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. a partir dessas diferenças em status 201 .17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. b. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. durante o primeiro dia de trabalho. entre nós e os membros da Comissão.quanto a mim.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. durante um vazio de poder). Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. mas também de escolha de orientação política. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza.Intervenção como processo como observador. nossa posição profissional e inserção institucional. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. Assim. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. não em trocas prévias. através de minha inesperada implicação afetiva. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. Deveria representar um tempo de análise coletiva. uns em relação aos outros. até a eleição do próximo Conselho. existente no real. Certamente. judeu) tinham para eles. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. formalmente.

aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. entre a Comissão e o Conselho. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. entre as comunidades regionais. a partir desses documentos. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. da importância atribuída às pessoas. entre outros escalões – e. por exemplo. era “relativa”. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. como terceiro. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. nossa alteridade. não se produz. entretanto. em conseqüência. Esse efeito de sentido.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. Nesse sentido. o desenvolvimento de um certo trabalho. por sua vez. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. às instituições ou às atividades). 202 . estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. e sobre o que pôde ser produzido. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. Foi preciso. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. Tudo isso. particularmente. a partir desse primeiro dia. destinados a serem comunicados à Comunidade. Na sua maior parte. assim. lutar para tornar o trabalho mais lento. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. como membros dessas comunidades regionais. relatórios de reuniões.

ou mesmo. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. da idade. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.. carregadas de subentendidos (por exemplo. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. em seguida. 203 . o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). sobre palavras fetiches.. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. da segurança. seja o conjunto de atividades –. em contrapartida.Intervenção como processo considerando questões particulares. aparentemente menores.). diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. sem dar muita importância.. por meio desse trabalho preparatório e. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. refletindo situações particulares diferentes. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. ou ainda. No curso desse processo. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente.. na Assembléia Geral. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. algumas vezes.”). seja a coabitação em um mesmo lugar. a definição da pauta dos diferentes dias. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. segundo os quais as definições da Comunidade. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. assim. as questões a serem submetidas a voto etc.

permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. de comum acordo. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. isto é. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. criar uma situação nova. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. reflexivo e crítico. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. fazer uma sondagem. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. melhorar seu funcionamento. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. ao contrário. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. de outro. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. permitindo-lhe aumentar sua força. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. Nessa perspectiva. facilitando a escolha de futuras estratégias. ela constitui uma terapêutica dessa última. a-organizacional? Bem entendido. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. Para concluir. quando aplicado a um processo de intervenção. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. de um lado. o “serviço concreto do Homem”). por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. de outro. de um lado. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e.

ela também não é. 205 . como alguns às vezes pretenderam. uma dose de desconhecimento. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. mais a ação é eficaz e pertinente”. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. a ação de outro. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. tivemos a oportunidade de demonstrar. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. uma colocada a serviço da outra. Assim. em uma modificação das relações de poder. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. Ora. ao contrário. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. “quanto mais houver saber. Com efeito. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. senão de cegueira. necessariamente. conseqüentemente. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. essas afirmações estão longe de serem verificadas. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. ela implica. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. com precisão. melhor se fica”. isto é. longe de terem um valor geral ou intransitivo. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. antes. uma afirmação da identidade desses dois processos. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. Em um trabalho anterior.

entre os lugares de palavra e os de não-palavra. a mais simbolizável. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas.19 Por isso. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. os transforma. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. sobre seu passado. um sistema de ação. mas como um processo. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. 206 . entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. O saber. por exemplo. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. é a parte que permite trocas e manipulações. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. ao mesmo tempo. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. em um processo de escrita. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. Com efeito. implica todo um trabalho sobre si. como experiência. entre o que pode ou não ser escutado. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. uma escola). com o mundo. em uma organização ou em uma sociedade. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. tratando dos processos de pesquisa.

de uma racionalidade criadora. visam a introduzir. dito de outra forma. 207 . de separar. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões.Intervenção como processo Tal concepção de organização. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. Esse golpe de força. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. mas. assim. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. é precisamente a impossibilidade. ao contrário. Daí o hiato persistente entre. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. o desejo de tudo controlar. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. no nível do pensamento. de um lado. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. especialmente do desejo de onipotência. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. As regras dividem e separam. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. de limitar. por exemplo. contabilizável ou informática. que. o desejo de tudo compreender e. de outro. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. a necessidade de dividir. O processo organizacional funda-se. em uma negação do inconsciente. de realizarem sua meta de dar sentido. ao mesmo tempo. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. que não exclui nem dúvida nem incerteza. clivagens e limites. para essas representações – esses discursos de representações –. já foi evocada anteriormente. de toda construção material. é a condição de toda vida social. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. espiritual ou mesmo afetiva. que pretenderia circundar o sentido. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. De alguma forma. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. essa. para perdurar.

Respondendo a uma demanda de palavra. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. Connexions. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. ou. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. p. é importante. 69-100. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. quanto da análise que a torna possível. Dessa forma. fazendo isso. 1980. assim. ela se choca assim. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. Paris: Payot. mantendo vivo o passado. ao menos. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. 2 208 . que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. I/1980. In: ARDOINO et al. em seu primeiro esforço. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. uma palavra continua. André. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. L’intervention institutionnelle. por Marília Novais da Mata Machado. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. a se desenvolver. Jean e LÉVY. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. de ignorar as implicações dessa inversão. sobretudo. 29. então. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. L’Analyse social. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. Porém. até então bloqueada ou proibida.

LAPASSADE. Connexions. Como toda análise de conteúdo. Esse conceito. Paris: Seuil. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Cf.. Jean e LÉVY. “Dire la loi. Paris: Payot. L’amour du censeur. FREUD.”. Connexions. ENRIQUEZ. CROZIER. LÉVY. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Mal-estar na civilização. 1980. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. também “Le pouvoir et la mort”. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. 196l. “L’interprétation de discours”.. de E. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa..”. les Sorts de J. Em termos mais sofisticados. “Le changement comme travail”. 1978. pp. 7. “Dire la loi. Por exemplo: Max PAGES. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. em Topique. KAES. “L’Analyse social”. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. trabalhando com a própria contratransferência. cf. de P. FAVRET-SAADA. Connexions. André. op. Nesse exemplo. 49-68. L’intervention institutionnelle. inédita. introduzido por R. Connexions.3 4 5 Inspirado em G. Thèse d’Etat. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. um individual e outro grupal. LEGENDRE. Traduzido de: DUBOST. Segundo o Petit Robert. 21. Seuil. Cf. “L’acteur et le système”. Connexions. Cf. In: ARDOINO et al. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. “Sens et crise du sens dans les organisations”. cit. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. 29. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . la Mort. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. Gallimard. Connexions. S. 21. Sociologie du Travail. Les Mots. I/1980.. postula dois aparelhos psíquicos distintos.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

Dizendo o mesmo com outras palavras. possibilidade e multiplicidade das comunicações. de forma concisa e injusta (mas. o procedimento de exclusão do real e. 2. mais precisamente. isto é.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. e. Esse número de revista testemunha bem o fato. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . sem dúvida.E também o que é o próprio sentido desse movimento. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. como a maior parte das indagações a respeito da formação. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. nesse breve artigo. as práticas de formação. Por isso. e mais violentamente. uma dúvida me invade. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. de toda atividade de formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. há casas para ela). ou.O que ocorre de essencial no ato formador. ainda. Entretanto. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação.

para um sistema onde. a formação permanente torna-se indispensável. resistências. o progresso dos conhecimentos. então. de paciência. de investimento pensado. a todo momento. Certamente. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. sua vontade e sua imaginação. 212 . advindo a necessidade. de reciclagem e. cada um à sua maneira. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. Trata-se. O problema é unicamente operatório. de tempo.a dos psicólogos. Orienta-se (e não apenas na China. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. de outro.a dos formadores e educadores. situando a prática que buscamos promover.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. a fim de poder seguir as mudanças e. Assim. para desejá-las e provocá-las. Toda formação. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. toda aprendizagem de técnicas teria. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso.a dos sociólogos críticos. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. então. 2. um efeito positivo para o formado. mas também têm. todo crescimento no domínio das informações. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. 3. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. ainda mais. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. temores do formado e condicionamentos sociais. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. de um lado. alguns métodos de formação são preferíveis a outros.

estritamente falando. além de anularem toda diferença e toda dispersão. cartesiano. da mesma forma. o do primitivo e. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. é o que excede toda análise. na transformação e ele é. que a libido é turbulenta. que as causas determinantes não existem. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. O real não está lá. obtido apenas 213 . Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. O comportamento adulto é o comportamento refletido.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. portanto. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. que o homem está sempre por nascer. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. além de toda interpretação. os blocos erráticos.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). que se torna assim excluído). hoje. que as reconstituições são parciais.3 referindo-se ao racional e ao controle. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. da medida. sem sonho nem loucura”. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. do cálculo. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. mestre das leis e da morte. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. o do louco. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. o do outro. Ora. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. ele se revela na ação. sem paixão. sempre a serem melhoradas. inesgotável. ao umbigo dos sonhos. as brechas repentinas. através da ordem. o real é o que escapa a toda definição. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis.

Aliás. não se trata aqui de uma simples metáfora. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. do que tranqüiliza. E nunca esse programa foi mantido. a alegria da certeza e. então. desenvolvendo-se progressivamente. do questionamento do saber obtido. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. pois ele não pode sê-lo.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. a angústia de se perder no turbilhão de questões. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). as variações de temperatura. Quando houver apenas Eus fortes.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. a cada dia. imagens protetoras. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. falando dos signos da 214 . as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. a opacidade. se for atravessado pela ideologia do senhor. Como viver o desejo do pleno.5 Certamente. De outro lado. as provas de sua impossibilidade. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. o confronto com a finitude. temos a bola de fogo. Temos de um lado o conhecimento.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. ao mesmo tempo. a humanidade estará. de hábito. como uma água calma. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. 2. como diziam os alquimistas. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. por isso. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção.4 isto é. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. o seu contrário. a energia que se desprende. Ora. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. “Que se exploda de carne humana e perfumada”.

o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão.6 Ora. a despeito de suas diferenças. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. 2. Então. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza.. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico.Quanto ao segundo princípio. Conclusão: o que permanece são as certezas. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Os tecnocratas. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. mas uma relação angustiada com o saber. os psiquiatras aliados do poder. Igualmente. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho.

alienada na sociedade contemporânea. mas de peso. há alguns anos. em um congresso de chefes de empresa. no momento. que relações de poder ele pressupõe. com seu corpo e com seus desejos. Um importante dirigente internacional não dizia. tendo recebido um certo tipo de educação. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. é que a pessoa. Acrescentemos que.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. então. Horizonte grande e enaltecedor. liberação corporal e sexual. impacto social menor (estamos. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. o cachorro ou com o estrangeiro que. assim como as experiências de bio-energética. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. É talvez por essa razão que. a mulher. no qual se inscreve toda 216 . A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. esses mesmos estágios. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. não existe. ao qual muitos poderiam se subscrever. é preciso. além do mais. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. gestalt-terapia. aliás. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. grupos de encontro. ter um outro modo de relação com os outros. mas porque apresenta. algumas vezes. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). o homem.

8 Pode-se apenas descrever tal estado. que instituições me sustentam. em técnicas e em posturas. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. Sua beleza desencadeia esse prodígio. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . eles não se explicam. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. Não se aprende o amor. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. que podem ser atuados. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. Como escreve S. Então.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. de uma luz na qual me banho. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Trata-se unicamente de relações faladas e. testados no mundo. por quem e por que sou falado. complementares ou antagônicos. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. Mas. à sua voz. Entretanto. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. a quem falo. feito de uma explosão que me fascina. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. LECLAIRE: Quando. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. mesmo nesse último caso. a seu cheiro. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. por que falo dessa maneira. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. num momento de estado de graça. durante um tempo determinado. alguma coisa explode em mim. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. que dá a cada parte de seu corpo. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. que sofre e que ama. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. que desejos elas retomam ou reprimem?. Em contrapartida. renasço. como tais. então. justamente. não temos nada a dizer.

um ato-falho.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. seu “saber-fazer”. os mais narcíseos) podem. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. o tempo ao momento. super-ativo. no medo e tremor. esses discursos. Uma vez de volta às suas instituições. Outro deixará se levar por suas emoções. mostrando assim sua potência. analisando com toda a sua força. certificando-se de que nada lhe escapa. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. os choros e os gritos de alegria. arriscam tudo e nada arriscam. tomar o lugar do líder. chorará (o próprio ROGERS. do aumento do grau de irrealidade da situação. embora plenas. única fonte de mudança. não se entregam. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). E talvez. fazer triunfarem suas fantasias. as proibições. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. Ficará apenas a lembrança de um momento único. Ei-lo. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . pelo menos. estará pronto a largar mulher e filhos. O lento trabalho do negativo. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. e ele é um bom juiz. tomar o grupo em seus desejos. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. não pode ser feito. Mas. essa explosão. Eles. os tabus. na maior parte do tempo. pois as palavras trocadas. ao mesmo tempo. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. de tempos em tempos. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. as fantasias invasoras. para que entrem em uma relação de transferência. definido como um lugar no qual se deve comunicar. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. as manifestações sem seqüências. irromperá um lapso. a fim de viverem sentimentos intensos. para fazê-las sair de suas tocas. onde tudo era diferente. não porá nada em movimento. declarará sua paixão por uma estagiária. favorecendo os processos regressivos. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. questionará as instituições. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. o fazer ao dizer. a não ser que queiram ou possam. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). assim. como os weekends e as maratonas. seu rigor. esse irromper não ocorrerá. vai querer se fazer amar por todos. Mas o psicólogo está lá para as acossar. as transferências maciças. ou. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. então.

DELEUZE e GUATTARI). parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Mas. Quanto a seu conteúdo. em muitos aspectos. Sem dúvida. é o veículo privilegiado da dominação social. PONTALIS. o que é essencial é o que se passa no campo formador. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. Além disso. Afinal. mas científico. em sua aridez. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). é essa troca de palavra. Toda formação (qualquer que seja seu programa. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão.-B. aquele que dita a norma (M. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. exato e periférico (não tocando no essencial). como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. como muito bem o diz J. é esse turbilhão do amor e da morte. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. ou atento e vivido como o dos psicólogos. O único senão é que. seus métodos. divulgá-la nas massas dominadas e. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. FOUCAULT). é a capacidade inventiva dos participantes. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. A mensagem dada. então? Vemos que o que é dito é. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. simultaneamente. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. ele é chocante e desesperante. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. Igualmente. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. para expressá-las ou mesmo provocá-las. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. assim. na formação.

que só nos resta. isto é.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. mesmo se. não de uma formação (a rigor. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. de um processo. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. o que não se pode esperar dela. Seus enunciados são tão gerais. o que ela esconde em seu próprio movimento. nas Questões propostas. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. de constatação aguda e de desmobilização geral. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. isto é. homogêneo. 220 . cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. a transformação das relações sociais. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. tão sistemáticos. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. a vida.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. ao mesmo tempo. profissionalmente e socialmente se mexam. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. tenha sido possível ler. em filigrana. explicável por um único tipo de lei. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. justamente. ela não chega a ser totalmente dominante. depois de tê-los escutado. em uma palavra. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. os movimentos sociais emergentes. se ela o fosse. de um trabalho de mudança.

resvalando. ele deveria se calar?). Por meio dessa ausência-presença. aliás. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. suas falhas. na situação. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. as correntes de informação. suas descobertas e suas resistências. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. suas interrogações e também suas paixões. suas idas e vindas. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. uma movimentação de energias. mas sua relação com o saber. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. por isso mesmo. organizacionais. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. em suas diferentes dimensões: culturais. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. provocando a vontade de respirar. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). 221 . ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. um encadeamento de Questões. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). desse lugar desocupado e fugidio. ele não é o portador do sucesso da experiência. políticas. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. um jogo de luz sobre certos pontos que. mas. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. indicando. assim. dessa desordem-ordem. ele oferece não um saber. a criação de negentropia (isto é. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. fazem surgir formas da sombra. através dessa ausência. Ausente. Ele está lá simplesmente como uma referência. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. Quando ele intervém. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. seus entusiasmos. mas uma problemática. Ele está lá vivendo.

um dos membros do grupo era particularmente escutado. entre cem. projetos sociais. as diferenças são apagadas. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. uma atitude de deferência e de sedução. com relação a esse personagem. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. Por isso o trabalho do grupo será centrado. praticamente nunca era contradito e. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. Ora. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. tendo um passado. não há muito tempo. a relação com o saber é suspensa no vazio. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas.). de suas relações afetivas. tal funcionamento é profundamente mistificador. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. formadores etc. a resistência se deslocou. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. Um outro participante manifestava. vivem em organizações específicas. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. hoje. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. para não falar de sua situação econômica. Não são pessoas ou seres desencarnados. Um exemplo. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. o resto do grupo o seguiu em bloco. os conflitos não têm mais espessura social. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. No caso contrário.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. de seus corpos e. 222 . além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. tomando certos caminhos e não outros. Como interpretar tal situação.

Em cada sessão. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. imaginam soluções. O lugar fechado. retomadas. menos tal processo pode ocorrer. imaginário instituinte. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. fecundarão novas atitudes. de suas tentativas. ação real e ideologia. não há mais dicotomia entre ato e palavra. outras palavras sociais. construíram ou destruíram em seu meio real. mais exatamente. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. a 223 . Não estão lá como pura presença. é aberto sobre o mundo exterior ou. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. aprofundadas. de breve duração. os participantes falam do que fizeram. a imersão na vida aqui e agora. fazem propostas. A partir do momento em que o desejo circula. mas como portadores de suas angústias. um ou dois anos).Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. conduta e gesto. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. intensivo. de seus sucessos. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. outros atos sociais. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. realizaram. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. o foco em relações afetivas imediatas. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. experimentaram. confrontadas. É por isso que somos partidários de estágios longos. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. lugar de análise.

Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. viva paixões. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. a loucura e o sonho possam ter. mais dinâmicos. Aqui. discursos ideológicos desenfreados. naturalmente. nesse processo que. expressão gráfica etc. do saber alegre. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. algumas vezes. irrupções vulcânicas. uma angústia diante do desconhecido. se interrogue sobre si mesmo. períodos de análise refletida. ao contrário. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. com o outro. com o saber) são descentradas. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. a periodicidade desses momentos. Não nos enganemos entretanto. ser protegidos. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. ter efeitos.. a fim de que a energia livre. de necessidade de alimento. do fogo e mesmo do caos. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. momentos de embotamento. ter caminhos balizados. do gozo). depois de terem liquidado 224 . O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam.. falar. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. talvez. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. Não está. direito de atuarem. em questão visar à dissolução pela dissolução. Momentos de mutismo e de temor. possa. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. então. que o amor inexiste sem a experiência da morte. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. de novo.. do excesso. Resistência vinda de indivíduos em formação. Trata-se. Essa experiência da heterogeneidade. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. mesmo se ela pode se tornar criativa. impossibilidades totais. por enquanto. a precluir certos registros (da paixão. todos juntos. reencontra muitos obstáculos ou. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada.

a utopia e a inquietante finitude. tentar experimentar novas condutas. da intervenção. naturalmente. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. mas a confusão. o que ela não poderá jamais realizar. avançando uma série de proposições. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. Essa experiência da margem. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. a dificuldade intransponível. seu modo de existência. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. Intervenção psicossociológica. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. seu possível devir Não está em questão aqui. senão a violência simbólica da organização. o que ela busca induzir. deliberadamente. que deveria transformar o que está no centro. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. Naturalmente. é necessário que ele seja evocado. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. eles reencontram a inércia das estruturas. Enfim. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. de trabalhar 225 . provocar mudanças. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. E que. mesmo se os participantes podem. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. então. o espanto e o desprezo de seus colegas. entre as sessões.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. Na intervenção. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. as numerosas escolas. para nós. Trata-se. se transformará em um simples prestador de serviços. sobretudo. quando retornam às suas organizações. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção.

uma certa fissura no organograma da organização. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). uma situação irreal. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). além do mais. mas. durante muito tempo. A palavra reprimida. O que está presente não é. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. Essa recusa. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. numa primeira análise. para se expressar. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). toda a violência do cotidiano que. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. existissem como executantes da máquina. impede de ver e de sentir outra coisa. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. como na formação. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. um certo modo de linguagem e de relações com os outros.) e que desejam resolvê-los. mas. mais exatamente. recusa a alguns o próprio direito de falar. na hierarquia interna. desordem nas salas. isto é. A intervenção. no processo de trabalho. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. Não por razões morais. então. consciente ou inconsciente.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. absenteísmo. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. ao contrário. desperdício. como submissos. que têm problemas concretos (de decisões. assim. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. antes de tudo. de melhoria de condições de trabalho. de definições de tarefas etc.

Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. a aceitar sua parte de loucura. entre si e o outro. Colocá-la em causa seria um salto mental. a deixar seus desejos serem expressos. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. que faz surgir um real além do real percebido. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. então.T. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. pensamento-execução. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. pelas relações codificadas. para que possa interrogar o oculto. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. de falar sobre aquilo que não se deve dizer.D. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. Mas. ou que possa pensar de fora da fábrica. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. para que o olhar se desloque. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. “ruídos”. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. transformador do mundo. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. progressivamente. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . relações de poder e separações instituídas. Não se trata de sonhar por sonhar. pai-filho ou ele-outros.F. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). O que resulta. Numa pesquisa efetuada pela C.

o inesperado. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. isto é. igualmente. sem análise. fazem da criança também um educador. sua cronologia e suas articulações. onde a lei. dessa maneira. transformada e garantida por cada um. a médio prazo. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. a própria idéia 228 . subvertidos ou. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. é necessário que os modos de pensamento. ou. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. pessoal de cozinha e de limpeza. ele classifica. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. pode sair a surpresa. imaginativo. com seus argumentos e suas demonstrações. além das crianças. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. Aliás. decepção. cada um se tornando. os educadores chefes e especialistas. os psiquiatras. uma nova forma de educação. é o que permite a troca e a reciprocidade. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. numa análise em ato da organização. dessa ruidosa confusão. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. promete apenas. O que significa. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. os psicólogos. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. no mínimo. que o surgimento do imaginário. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. Assim. outras formas de relação e outros modos de estruturação. à sua maneira.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. ele exclui e. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. metafórico. As posições. ator e analista social. é lei retomada. mas em uma maior fluidez. interrogados. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. analógico. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. ao se deslocarem. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. então. Ele distingue. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. numa decodificação das relações.

se elas querem se definir apenas em relação à realidade. Assim. o roubo da língua espontânea. nas organizações. Mas aí também sabemos que. A língua. da ortografia necessária. na França. antes. por sua vez. do bom estilo. atrás da imagem de falar bem. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. Ora. à língua (a parte social da linguagem) dominante. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. então. Quando. como ele próprio o diz. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. o homo demens no homo sapiens. a verdadeira 229 . vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. inversamente. Buscamos. colorida.11 Queremos dizer que a verdade. da criatividade diária dos grupos sociais. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. sob certos aspectos. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. a invenção popular.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. as “estórias de comadres”. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. divertida. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. a língua. para ser expressa ou reencontrada. pelo contrário. na realidade. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. dissimula. um elemento de mascaramento do sistema social. de intimidade. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. da Psicanálise uma arte de construção. é como o dinheiro. de fazer. mas também da linguagem utilizada. pede que cada um pense e viva na contracorrente. Naturalmente. Mas. Essa perspectiva não o impedirá. falarão. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. Não se trata apenas do modo de pensamento. As pessoas se submetem. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. isto é. isto é. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. isto é. submetem-se ao princípio do prazer. já não indica que as relações de cumplicidade.

Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . argumentada. inventar um falar. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. antes de mais nada. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. do mundo adulto (e o atacam). pode-se constatar que eles se protegem. Eis que chegou o tempo dos tradutores. experimentar o seu calor. para se protegerem dos outros atores sociais. quando se escutam as palavras que eles utilizam. de modalidade de comando. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. a dos tecnocratas. precisa e cifrada. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. Aliás. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. mas o da dominação que ela instaura. para obrigá-los. as frases que inventam. mas de poder: da lei. que são os que podem traduzir. confusamente. Há uma língua dominante. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. É por isso que atacar a língua dominante. todo mundo. Veja-se bem a dificuldade. Não apenas de autoridade. Se. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. Por isso. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. a partir do Século XVII. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. fazê-la viver. de seus mandamentos. reencontrar a língua perdida. pois o 230 . fazendo-os aprender a falar. se dá conta disso. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. Mas os tradutores traem. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). A mesma coisa ocorre hoje. em boa linguagem. mais exatamente. reencontrar sua língua. dessa forma.

FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. a se informarem. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. os hábitos. as comunicações interpessoais e intergrupais. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. então. mas. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. com uma outra linguagem. o interventor ultrapassou o limite. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. A intervenção. ao contrário. quando estão no campo de análise não apenas as relações. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. a intervenção pára. nem renunciar a seu poder. Entretanto. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. sendo inauguração de uma palavra nova. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. se uma demanda lhe foi feita. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. quer que ele seja reforçado. os estilos de autoridade. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. De qualquer maneira. mas também quando o poder está em jogo. mas sim questionamento infinito. o senhor das respostas é simplesmente o senhor).” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. colocar-se em questão. ele lhes permitiu.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. assim. interminável. as resistências. dentro de certos limites. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). então. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. quem quer que seja (dono de empresa. agradece-se ao interventor. chocase violentamente com as estruturas. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. Então. então. Assim. Mas. sendo. sua vontade instituinte e. justamente. membros do comitê de empresa.

encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. Ele não transforma as estruturas. seu trabalho só pode ser lento. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). palavras a serem ditas. energias começaram a circular. Não sabe pelos outros. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. colocando-se como um shaman ou um mártir. os movimentos sociais. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. mas favorece o desejo de mudança. sendo alguém que incomoda. dispersões a se operarem. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. Também não se pode dizer que ele fracassou. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Ele não analisa sozinho. é que. não os conduz em direção a nenhum resultado.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. se ela se coloca. pólo de identificação ou bode expiatório. é aos atores sociais reais. Porém. em contrapartida. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. Ele não realiza nenhuma mudança. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Quanto ao valor e à importância desse movimento. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. que só poderá viver. não lhe cabe questionar os poderes. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). O que ele sabe bem. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. que. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. eus a se abalarem. procedendo por deslocamentos e rodeios. das funções elucidativas. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. então. Pois. 232 . se houver uma germinação ao invés de um fechamento. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. através de ações. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos).

mas que ele deve saber. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Pode. traidor em potencial. Suspeito por todos. agricultores tendo interesses em comum. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização.Em contraposição. Entretanto. desde o início. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. então. 3. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. Anteriormente.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou.A falta de formação dos interventores. mais sua ação será limitada a certos grupos.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. 4. ao contrário. inclinar-se à rigidez ou. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . sua posição nada tem de confortável.

que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. com outras relações. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. em uma sociedade tecnocrática. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. comunicações melhores e.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. sobretudo. Quem quer conhecer a dúvida. 234 . mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. 2. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. efetuado por eus fortes. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. do desejo da alienação etc. Isso é compreensível. Aparentemente.Enfim. em um soberbo isolamento psicótico. por seus gestos. 3. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. então. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. eles desabarão. ser retomado. um maior controle consciente. da mulher. que assim buscam empreender atos significativos. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). a demanda acaba. o que nos parece mais importante. não a desejam com freqüência para si mesmos. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. eles se preparam para uma vocação de mártir. Um dia. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena.

fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. On tue un enfant.” Le sauvage et l’ordinateur. 1975 (Mata-se uma criança. Cf. caracterizadas. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. essa abertura profunda na superfície das continuidades. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. 137-159. repentinamente. n. Les mots et les choses. C. 17. Eugène. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. 1974). E. 1972 (Imaginário social. o Eu tudo destrói. recalcamento e repressão em organizações. descritas. Le Seuil. Na primeira meditação. Segundo J. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. ENRIQUEZ. Seuil. cf. La nature humaine. Paz e Terra). no 3. Serge. Cinco lições de Psicanálise. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. A. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. L’institution imaginaire de la société. Le Seuil. TOURAINE. Pour la Sociologie. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. E. Connexions. Em Lip. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . cujos signos. Le paradigme perdu. FOUCAULT. do sonho e do gênio maligno. Gallimard. Piera. LECLAIRE. MORIN.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Rio de Janeiro: Zahar. FREUD.-M. 1974. “Points”. 13. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Points. refoulemente et répression dans les organizations”. Le Seuil. Epi. por Marília Novais da Mata Machado. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. 1977). Connexions. Topique. 1976. enunciadas. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. M. CASTORIADIS-AULAGNIER. p. CASTORIADIS. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. não caem nesse erro. DOMENACH: “Para não ser destruído. “Imaginaire social.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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não poder sê-lo. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. de preferência. justamente. Assim. sobre a maneira como se afastou do previsto. os atores envolvidos. Ao mesmo tempo. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. mas. a partir de um determinado momento. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. justamente. firmemente. meus conhecimentos e habilitações. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. perspectivas. os fatores geradores do problema. abordando concomitantemente o sistema. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. pode. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. regras. numa dada situação concreta. também. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. que pode ser feito fora de um universo técnico. Ao mesmo tempo. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. parece importante aos solicitadores. mas tomo iniciativas e faço propostas. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. algumas vezes. a examinar princípios. dimensões ideológicas. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. Caso um apelo seja feito a mim. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. 242 . mas pode. além disso. em excesso. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). porém. isso se dá. sua participação no trabalho. hipóteses. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração.

os recursos da equipe de consultores escolhidos. tal vantagem deve ser abandonada. não apenas objeto de trabalho para os participantes. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. em função do campo no qual elas aparecem. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais.). compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. Cada uma comporta pressupostos. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. então. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. tamanho. em si mesmo. a seguir. os custos etc. ecologia etc. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. tornar mais inteligível. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. Porém. os fenômenos de moda. na determinação das técnicas. formas de autoridade. então. tolerando apenas uma gama restrita de variações. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). por exemplo. as propriedades do sistema (grau de centralização. O modo de estruturação do processo pode se tornar. constituindo. É nessa perspectiva que é preciso. Poderíamos. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. rapidamente. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. a natureza dos objetos. para tratá-lo. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. tolerância à diferenciação. um objeto de trabalho. 243 . princípios estratégicos. tentar. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. Evocaremos. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. no final desse artigo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. então. as funções externas almejadas pelos atores. suas orientações teóricas.

FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. Entretanto. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. a partir da prática psicanalítica. na maneira como J. depois de LEWIN. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. a observação participante. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. 244 . em especial. em algumas práticas. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. parece-me. nas de TOURAINE. estão as técnicas de pesquisa de campo que. B. GODIN. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. COCH e FRENCH). eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. de maneira bem menos acentuada. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. a propensão dos práticos de intervenção. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. Entre esses dois pólos. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. Quanto às estratégias de pesquisa. por exemplo. bem cedo. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. Algumas vezes. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. de devolução aos participantes e de interação dos atores. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. isso se passa sobretudo porque. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. algumas vezes. Em seguida. uma origem técnica importante.

quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. a origem das disfunções. é dessa maneira que elas se estruturam. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. no começo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. ainda hoje. a identificar os problemas. na França. nas próprias operações das fases de estudo). Pode-se observar que. Entretanto. produzindo dados válidos. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). atualmente. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. os limites desse modo 245 . Igualmente. as razões dos bloqueios. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. a atuação dos conflitos. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. quem conduzirá esse trabalho. a obra de G. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. por exemplo. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. no papel de especialistas. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. como em outros lugares. pela encomenda de um estudo “Retrato”. quem reterá as soluções etc. Em todos os casos. o significado das condutas etc. em todos os casos. a natureza das resistências. que. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. quem escolherá as opções. a isolar os objetivos. freqüentemente. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. a escolher as variáveis de ação. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. de fato. Em um campo bem diferente. a caracterizar melhor as situações. é comum. há muito tempo.

. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . conseguindo uma solução de síntese ou. Se muitas intervenções. a não ser esquecê-lo. sobretudo. cólera. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. denegação. por exemplo. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. . de fato. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). freqüentemente com espanto. desenvolve muito claramente esse aspecto. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. O texto de André LÉVY. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. por exemplo. restaurando a coesão. 1980). o trabalho de recenseamento. depressão etc. em especial. então. caso se decida reiniciá-lo. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. são interrompidas. enterrá-lo. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. do exterior. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. ao menos. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. com a apresentação dos resultados. apresentaremos rapidamente três observações: . Não se sabe mais o que fazer.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. um retrato eventualmente objetivo e fiel. constróem. já citado. de caráter mágico. o inventário. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. escolhe-se.

às relações elaboradas e conceituadas demais. .associar todos os parceiros envolvidos. com o trabalho sobre os resultados.preferir. assim. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. o debate. pertinência. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. a uma solução que exige uma equipe e. a perlaboração. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. e apesar das reservas expressas. adiamentos de realizações importantes. De meu lado. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). pode-se tentar: . Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. durante o trabalho de análise da demanda. .As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. chega-se. parece-me. correspondentes a atuações mais modestas. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. o que provoca aumento dos temas de estudo. mas repensar essa lógica (por exemplo. por categoria de ator etc. em outras palavras. eles me parecem.fracionar a investigação (por tema. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. sobretudo. algumas vezes. 247 . as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. então. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. como o próprio relatório. os critérios de cientificidade: validade. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração.

de aperfeiçoamento e. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. sobre a possibilidade de contorná-los. JAQUES. com muita freqüência. a partir de 1964. De uma maneira geral.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. nessa segunda categoria de origens técnicas. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. traduzido para o no 3 de Connexions. de uma perspectiva de formação. em diferentes lugares da sociedade). Passar-se-ia. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. na qual. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. de 1948. assim. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. numa escala pequena. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. adquiririam novas propriedades. apresentam-se como a aplicação simples. a fim de que elas mudem”. os grupos. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. o artigo de E. é necessário lembrar que. em um plano concreto. porém. a uma perspectiva de intervenção. TRIST. em seguida. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. as práticas de formação. social analysis. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. na Glacier Metal Company. evoluiriam. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. Logo. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . 1972). algumas vezes. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE.

essa evolução. jogos de simulação. em seguida. conceberam diretamente. ROUCHY. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. das estruturas de organização. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. Evidentemente. na empresa Geigy. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . ao contrário. J. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. ROUCHY e E. para o seio da cúpula. ao mesmo tempo em que se reforçava. KAES). 1972). no 1 a 10. por exemplo. não pararam. a fortiori. o que representaria. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. G. em pedagogia do projeto. nos quais a ARIP interveio. em pedagogia institucional. C. grupos de análise de prática profissional. passando pelos estudos de caso. Sociopsychanalyse. especialmente. ENRIQUEZ consideram. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. de se diversificarem em função da natureza das demandas. ANZIEU transpôs. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. consistia em transpor. sua prática de psicodrama analítico. D. a importância da referência à Psicanálise. C. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. utilização da autóptica. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. LÉVY e. no plano teórico. no plano organizacional. o movimento de democracia industrial. as intervenções que se seguiram. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. inscrevendo-se. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. MENDEL e sua equipe. na França e em países estrangeiros. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. Payot). tecnicamente. Mas se. A. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. se quiséssemos ser menos esquemáticos.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. ao mesmo tempo.

embora ninguém pense seriamente em conservá-la. é que se engane sobre a causa das dificuldades. 250 . sob pressão de demandas dirigidas a interventores. as que se nutrem da formação surgiram. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. De uma maneira geral. Evidentemente. é necessário providenciar a formação do responsável local. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). então. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. o risco. da facilitação e. esperando-se que se aumentará assim. Com efeito. na medida em que instituir. localmente. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. desde há algum tempo. mais racional e menos caro. irrelevante. durante um tempo que pode ser apreciável. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. ao mesmo tempo. é a descentralização. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. a palavra de ordem. freqüentemente. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. em especial. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. de acompanhamento ou dinâmica). Além disso. da regulação (hetero – ou auto –. no espaço organizacional. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. forçosamente. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. estágios existentes fora dela. Enfim. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. é mais rápido.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. os meios de verificar a validade das hipóteses. a mudança social desejada. entre os próprios serviços de uma organização.

a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. evidentemente. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. os solicitadores. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. tal risco. A competência de um interventor. aliás. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. do qual se espera a responsabilidade. entre os dirigentes. além disso. descobrir. de um lado e de outro. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). confrontá-la à dos outros atores. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. Um meio técnico (que.. de uma maneira progressiva. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. então. em assegurar “suas tarefas”. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. Paralelamente. manter essa dimensão presente durante todo o processo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. primeiro. Tal dispositivo técnico é insuficiente. ao desempenho eficaz da prática de formador. Ainda assim. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. Esse risco pode ser reduzido apenas se. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. os consultores. na elaboração dos programas. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 .

As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. em resposta ou não a um apelo. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. um sistema e seu problema. 252 .. um grupo. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado.) –. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. o desenvolvimento técnico e científico. Por exemplo. Entretanto. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. Sem poder preparar aqui tal reflexão. as estruturas internas das organizações se complexificam. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. a convicção de que as condutas das pessoas. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. numa crítica aos limites do staff and line. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. dois atores ou diversas instâncias em interação. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. é interessante observar que. de agentes de comando ou de pessoal de execução. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. em data. e não em técnicas de ação formadora de diretores. em problemas de remuneração etc.. afetando a estrutura e as instituições internas. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. Ela compartilha. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. Porém.

os “organizadores de comunidades”. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. ALINSKY. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. progressivamente. existem. 253 . Em países como o Canadá. por exemplo. no fim dos anos 20. Então. No campo das empresas de produção. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. enriquecendo-as. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. em Nova Iorque. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. a práticas de debate. sistematicamente. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. de defesa ou de negociação. renovando-as. mas. freqüentemente. o sociodrama. eventualmente. Mais recentemente. Mesmo a história da intervenção de E. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. como o sociólogo S. assim. J. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. L. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. nos conflitos entre direção e sindicatos. retomaram. Freqüentemente ligados à ação das igrejas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. os psicossociólogos. são chamados. vir a substituílas completamente. TOURAINE recorre também. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. evidentemente. durante os motins do Harlem. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas.

Da mesma forma que. da polícia. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. apenas. como por exemplo no campo da imprensa escrita. os dispositivos de proteção. da magistratura. então. concurso de segurança) etc. tanto no plano material quanto no legal. para a terceira. as prescrições) e funcional (no campo técnico. a toda especificidade. difusão das estatísticas de acidentes. Entretanto. de sensibilização (por exemplo. e renunciar. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. de alguma forma. de estudar as instalações da fábrica. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. Parece-nos que. das relações pastorais. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. de propaganda. para a primeira origem. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. para a segunda. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. e que. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. educativo. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. das lutas militantes etc. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. audiovisual. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. as oportunidades. No começo. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. de fato. Embora não ilustre especialmente esse risco. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. em conseqüência. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. há uma 254 . social). tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. de organizar as ações de inspeção. de formação. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho.

em outros países. No caso da intervenção psicossociológica. geralmente. algumas vezes desenvolvendo. De acordo com os resultados. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. no começo. No fim desses dois dias. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. contramestres. Uma vez estabelecida a composição. evitase. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. então. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. de segurança e de condições de trabalho. Os confrontos entre atores (por exemplo. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. ou por uma intervenção apenas formadora. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. concomitantemente. por uma intervenção psicossociológica. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. Uma abordagem mais recente. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. fundamenta-se também. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. produzir os diagnósticos. evidentemente. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. pessoal de execução). combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. por exemplo. gerentes. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. propor as medidas.

os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. a ponto dele renunciar. A última negociação consiste. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. instituídos pela lei Auroux. para nós. em teoria. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. tal 256 . Em relação ao processo das intervenções precedentes. Como no caso anterior. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. Ela permite. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. em especial. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. de múltiplas forças antagônicas). Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. entre outras coisas. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. decisivos. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. ligada às diferenças de status e/ou de poder. estende-se numa duração que se mede em meses. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. Porém. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. produz uma frustração muito forte no ator. a intensidade emocional mais forte. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. então. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta.

na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. Por isso. evidentemente. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). Tais requisitos. Escolher. Em outros termos. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. elas não dependem apenas da técnica. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. para guiar a análise. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. tal metáfora.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. bem cedo. sem dúvida. entretanto. senão à primeira. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . sempre pluridimensional. Está claro também que. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. tecido com fios múltiplos. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. em todos os níveis. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. Enfim. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. aqui. evidentemente. está. por exemplo. aliás. mas também em encontros do mesmo estrato. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. ancorar. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. mas têm. e. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). uma importância acentuada.

ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. filtrar com segurança um objeto teórico. em cada momento. o interventor é um clínico. para o pessoal de um estabelecimento. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. quer esteja empenhado. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. Não é fácil. antes. fundamentar tal distinção. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. Assim. retomando a distinção de PALMADE (1977). três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. enquanto dispositivo de inserção. por si só. mas. ela me leva. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. Nem ciência nem tecnologia. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. enquanto pesquisador. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. Com efeito. no entanto. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). a mim. do gerente ou do político. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. depois de dez ou vinte dias de intervenção. permitindo isolar. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. com o tempo. sem chegar a lhe dar um molde. do terapeuta. as escolhas iniciais arriscam. elas seriam. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . capazes de contribuir em processos de pesquisa.

a administração. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. Enquanto atores sociais. na literatura especializada. no começo desse artigo. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas.. o mesmo se passa. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria.). o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. de maneira mais ou menos difusa. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. os espaços urbanos. adquirir um sentido menos restrito. importantes sob esse ponto de vista. 259 . A inserção na universidade. a invenção de instituições locais (por exemplo. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. para os atores. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. para mim. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. os movimentos sociais ou culturais etc. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. e se surgem conjunturas favoráveis. pode-se observar que. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. podem-se encontrar. analítica. analisar e experimentar as vias de democratização etc. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. por certos setores da sociedade. Anunciamos. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. Entretanto. sem subterfúgios. Porém. sua identidade social e a natureza de seu projeto. Por outro lado. assim. o comércio. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. em função do campo social em que aparecem. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. os setores de saúde. seria natural levantar tal hipótese. malgrado sua fragilidade no tempo. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. tais acontecimentos podem inspirar outros e. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável.

Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. necessariamente. . p. de dependência hierárquica. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . sua própria experiência no campo da saúde. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. o grau de nossa capacidade de indentificá-los.).Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. com o que se observaria em outros lugares.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. . autoridade. ainda.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). poder. 49. por Marília Novais da Mata Machado. Porém. ROUCHY chegou. evocando. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. de colaboração profissional. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. 2 260 .). sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. nesse número. Connexions. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. Por exemplo.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. 7-28. . Notas 1 Traduzido de DUBOST. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. MARTIN em uma pesquisa recente. posição central ou periférica etc. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente.-C.). voluntária ou militante etc. a divisão do trabalho. as conclusões às quais J. Jean. até um determinado ponto. não coincidiriam. . pode-se aplicá-la a outros campos. a estruturação dos papéis recíprocos.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista.T. 1987-l. os resultados quantitativos estabelecidos por C. o espaço urbano).

Les recherches-actions sociales. J. C. 1980.-C. L’intervention psychosociologique. MARTIN. Paris: LFEEP. La Documentation française. 1977. J. Théories et pratiques de l’éducation permanente. L’enquête participation en question. Paris: Payot. 3. LE BOTERF. G. A.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. 1981. 1972. ROUCHY. “Une intervention psychosociologique”. Interdisciplinarité et idéologies. 261 . LÉVY. Paris: PUF. 1986. In: L’intervention institutionnelle. Connexions. Paris: Anthropos. PALMADE. G. 1987.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

fax.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.com.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 . telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.com.autenticaeditora.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.

autenticaeditora. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.br 0800 2831322 . o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações.“Quais são os problemas realmente essenciais. etnias. grupos religiosos etc. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. os ‘intemináveis adolescentes’.com. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. finalmente. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. o triunfo da racionalidade experimental.

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