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Título: Sociologia e antropologia

Autor: Marcel Mauss


Páginas: 544
Formato: 15,5 X 22,5
Preço: R$

Sociologia e antropologia de Marcel Mauss:


clássico da antropologia social ganha nova edição pela Cosac & Naify,
depois de trinta anos fora de catálogo.

Publicado postumamente na França em 1950, Sociologia e antropologia reuniu pela


primeira vez em livro parte significativa dos ensaios, até então dispersos, daquele
considerado por muitos o iniciador da moderna antropologia social: Marcel Mauss.
Esses escritos – sobre corpo, magia, troca, idéia de morte, noção de pessoa etc.–
pautaram as linhas de pesquisa nas ciências sociais e são, atualmente, leitura obrigatória
em cursos universitários. Eis a importância desta edição (com nova tradução), que vem
sanar uma lacuna editorial de décadas: dar ao estudante brasileiro a possibilidade de
conhecer um pensador de excepcional erudição, que influenciou figuras tão diversas
como Sartre, Lévi-Strauss e Bataille.

O AUTOR
Marcel Mauss (1872-1950), formado em Filosofia e especialista em História das
Religiões, participou da gênese do que seria conhecido mais tarde como a Escola
Sociológica Francesa, da qual seu tio Émile Durkheim foi criador. As idéias do grupo
eram veiculadas pelo Année Sociologique, periódico no qual Mauss publicou grande parte
de seus textos, e do qual foi editor, após a morte de Durkheim durante a Primeira Guerra.
Foi professor de História das Religiões dos Povos não Civilizados na École Pratique des
Hautes Études, colaborou na fundação do Instituto de Etnologia da Universidade de Paris,
em 1925, e foi eleito, em 1930, para a cadeira de Sociologia do prestigioso Collège de
France. Além das atividades acadêmicas e editoriais, nunca abandonou a militância no
partido de Jaurès, de quem foi amigo e colaborador.

Mauss chamava a Etnografia de “museu de fatos” e o seu concorrido curso sobre a


matéria no Instituto de Etnologia, que teve Marcel Griaule, Michel Leiris, Roger Bastide,
Louis Dumont e Claude Lévi-Strauss entre seus alunos, formou os primeiros etnógrafos

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da antropologia francesa. Ironicamente, Mauss nunca fez pesquisa de campo,
considerava-se um “etnólogo de museu” (e não de gabinete). A sua antropologia baseava-
se em erudição histórica, vasto saber lingüístico e no conhecimento profundo das
monografias produzidas, sobretudo, pela antropologia social inglesa que, em geral,
forneciam a esse leitor perspicaz o material a partir do qual elaborava as suas teorias. A
esse respeito, Evans-Pritchard, provavelmente referindo-se a Malinowski, dizia que
Mauss “era capaz de ensinar aos especialistas o que eles não haviam visto em seus
próprios textos”.

A OBRA
A obra de Mauss, apesar de sua abrangência e fecundidade, foi por muito tempo se não
desconhecida, menos conhecida do que mereceria. Lévi-Strauss, um de seus alunos mais
famosos, resumiu de modo preciso o caráter paradoxal da fortuna dessa obra,
simultaneamente discreta e influente: “Poucos pensamentos permaneceram tão esotéricos
e, ao mesmo tempo, exerceram tão profunda influência quanto os de Marcel Mauss”.
As razões do impacto das idéias de Mauss – que não se fez sentir apenas nas disciplinas
que dão nome a este volume, mas também na Psicologia, na Lingüística, na Filosofia e na
História – podem ser resumidas em uma palavra: novidade. Novidade tanto de sua
concepção dos fenômenos sociais quanto dos temas que propõe estudar, dos quais
Sociologia e antropologia dão uma ampla representação.

Dádiva – a teoria da troca


A troca, para Mauss, é uma relação que envolve três termos: dar, receber e retrib uir.
Quando se dá um presente a alguém, algo neste gesto obriga aquele que recebe não
apenas a aceitar como também a retribuir o dom recebido, mesmo que de modo indireto.
A dádiva, sobretudo nas sociedades que não são dominadas pelo mercado, analisadas por
Mauss, constitui um ótimo exemplo de “fato social total”, pois “tudo o que constitui a
vida propriamente social das sociedades” é mobilizado nesse circuito de doação. Além da
esfera econômica, evidentemente envolvida na produção e circulação dos bens trocados,
aí comparecem instituições religiosas, jurídicas e morais. Mauss dedica-se, sobretudo, às
implicações morais da troca, pois a considera “uma das rochas humanas sobre as quais
estão erigidas nossas sociedades”. Assim, atribui à obrigatoriedade moral instaurada pela
dádiva um papel instituidor da sociedade e mesmo um fator de humanização.

Fato social total


Partindo da concepção de fato social de Durkheim (fato social como “coisa”, objeto a ser
estudado), Mauss introduz no conceito o aspecto simbólico, ultrapassando os limites do
positivismo. Nos fatos sociais totais – como a troca nas tribos do noroeste americano –
exprimem-se as instituições religiosas, jurídicas, morais, econômicas, bem como os
fenômenos estéticos e morfológicos; enfim, toda a vida social se mistura e está presente
ali.

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Certamente, o exemplo mais acabado da análise maussiana do “fato social total”
encontra-se no “Ensaio sobre a dádiva”, publicado originalmente no Année Sociologique,
em 1924. Lévi-Strauss, na introdução ao volume, classifica-o como “um acontecimento
decisivo da evolução científica”.

Tríplice fronteira
Mauss explorou mais assiduamente o terreno fronteiriço entre a Sociologia, a Psicologia
e a Biologia, pois tinha especial interesse naqueles fatos sociais que requerem do
investigador esse “tríplice ponto de vista”. Trouxe a público a inédita noção de “técnicas
corporais”, pela qual ampliou a compreensão de muitos de nossos gestos, movimentos e
usos do corpo humano – como os jeitos de andar, as posições sexuais, as técnicas
natatórias, o difícil equilíbrio na posição de cócoras, o escarro etc. –, retirando-os do
âmbito puramente biológico, pois neles além do corpo, interagem os “símbolos morais ou
intelectuais”, os habitus, de uma sociedade, aprendidos e sancionados pela tradição.

Permanência
Mauss tratou de quase tudo, com seus escritos que dão conta de fenômenos universais, foi
a base de linhas de pesquisa na antropologia que seguem vigentes até hoje. Alguns viram
no caráter pouco sistemático de seu pensamento – que de modo algum se confunde com
falta de rigor – uma carência. Mais acertado seria ver nesta ausência de espírito de
sistema uma atitude deliberada do ensaísta. Modalidade de escrita praticada tão bem por
este autor. Como bem definiu Merleau-Ponty, a Antropologia como a conhecemos é “a
obra de Mauss continuando a viver sob nossos olhos”.

[André Pinto Pacheco]

Trechos sobre Marcel Mauss:

Poucas pessoas puderam ler o Ensaio sobre a Dádiva sem sentir toda a gama das
emoções tão bem descritas por Malebranche ao evocar sua primeira leitura de
Descartes: o coração palpitando, a cabeça fervendo e o espírito invadido de uma certeza
ainda indefinível, mas imperiosa, de assistir a um acontecimento decisivo da evolução
científica. [Lévi-Strauss, introdução: 28]

A influência de Marcel Mauss foi sem dúvida essencial para os antropólogos e


sociólogos contemporâneos; sua presença, como demonstrou Lévi-Strauss, pode ser
sentida em qualquer trabalho da nova escola americana. No entanto, é de estranhar que
ela já não tivesse há mais tempo ultrapassado um estreito círculo de especialistas, que

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somente agora tivesse atingido psicólogos, historiadores e filósofos de modo geral.
[Claude Lefort]

Na realidade, suas pesquisas iam muito além daquilo que, oficialmente, estava previsto
em suas aulas. Aproveitando um texto que lhe servia de base, ele expunha com uma
perspicácia, às vezes genial, as instituições desses povos longínquos com os quais jamais
teria um contato direto, e que conhecia principalmente das descrições dadas por grandes
antropólogos ingleses e americanos dos quais muitos ficaram seus amigos. [H. Lévy-
Bruhl, In memorian]

Sua erudição era prodigiosa. Grande leitor (reunira uma magnífica biblioteca), tinha
excelente memória e espantosa curiosidade de espírito. Além da et nologia e da ciência
das religiões, matérias que dominava a fundo, tinha bons conhecimentos nas áreas de
filosofia, psicologia, direito, economia política, literatura mundial e ciências exatas.
Também sabia, além do inglês e alemão, russo, sânscrito, céltico e várias línguas faladas
na Oceania. Era difícil surpreender-lhe algum erro e em geral maravilhava os
especialistas pela justeza e originalidade de suas observações. Foi um dos últimos
cérebros enciclopédicos. [H. Lévy-Bruhl, In memorian]