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RAUL SEIXAS E A CONTRACULTURA:

UMA VIAGEM PELAS IDÉIAS DE LUIZ DE LIMA BOSCATTO E VITOR CEI

Bruno Nielsen Venancio


Orientador: Prof. Dr. Gabriel Giannattasio

RESUMO

Os escritos a seguir tem como proposito estabelecer uma relação entre Raul Seixas
e a CONTRACULTURA, para isso parte-se de um reflexão sobre o paralelo feito por
Luiz de Lima Boscato cria entre Raul e os movimentos de rebelião sociais juvenis,
colocando-o como um arauto destes, traçando pontos convergentes entre os ideais
da Lei de Thelema e suas ações. Estabelecendo também um pensamento e um
paralelo da relação que Vitor Cei estabelece, entre as mudanças das eras Astrais e
a sua influencia no pensamentos daqueles que questionariam as ordens estaticas
estabelecidas pelo discurso tecnocrático da sociedade, este que abrange toda uma
gama, sendo representado principalmente pelos ditos tecnicos especialistas, que
aprovam e comprovam tudo o que é conveniente a esse discurso da Tecnocracia,
para isso ele compara o novo e o velho Aeon. Caracterizando o perfil da formação
praticamente autoditada que vem desde sua infância passando por uma
adolescencia desajustada e os pensamentos de um adulto que através de suas
letras procurava transmitir a mensagem do faça o que tu queres a de ser tudo da lei,
principio da Lei de Thelema que o acompanhou até o fim da vida.

Palavras chave: Raul Seixas. Tecnocracia. Lei de Thelema. Novo Aeon.


Contracultura

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I – Introdução

O artigo a seguir foi fustigado por toda uma infância, regada a esse
Rock’n Roll raulseixista. Melodias que conquistam com sua pluralidade de ritmos,
que passeiam pelo baião, pelo samba, blues e tango, músicas estas que revelam
cada qual à sua maneira, essa metamorfose ambulante.

Pluralidade esta que só pode se perceber anos depois quando, ao


entrar em contato com a obra toda de Raul, tirando as músicas que ainda hoje se
fazem inéditas aos ouvidos dos mais fanáticos pela obra deste, como ele mesmo se
definiu ator, que representava tão bem, ao ponto de enganar o resto do mundo, com
suas composições e interpretações musicais.

Raulzito, conforme o livro RAUL SEIXAS: E O SONHO DA


SOCIEDADE ALTERNATIVA de Luciane Alves1, teve sua curiosidade despertada
para o tema do ocultismo levando-a a estudar a relação entre Crowley e Raulzito.
Raul nasceu no ano de 1945, dia 28 de junho, filho de dona Maria Eugenia e do
engenheiro Raul Varela Seixas e cujo avô também se chamava Raul2. Raulzito foi
criado nos moldes de uma família de classe média baiana, e desde pequeno já
questiona sobre aspectos variados da vida como vemos a seguir:

“Desde os sete anos Raul já questionava sobre


coisas como o fim do mundo, a volta de seu espírito
em outros corpos, o julgamento final. Seu pai
gostava de ler para ele livros sobre assuntos
metafísicos. O que mais lhe marcou foi o livro Dos
Por Quês.”(Alves 1993, p.25)

Nota-se, nessa fala de Luciane Alves, a curiosidade de Raulzito pelo


obscurantismo, pelo oculto, pelo indecifrável, que foi reforçada ainda mais por seu
pai que lia para aquela criança extremamente curiosa, livros que versavam sobre
ocultismo e metafísica, e isto se instaurou pelo resto de sua vida, visto que ele foi
em busca de sociedades místicas e filosofias, segundo creem alguns, de Nietzsche

1
Historiadora graduada em 1992 pela Pontíficia Universidade Católica da cidade de São Paulo cuja
monografia versava sobre a Caça as Bruxas e o Tribunal da Inquisição na Idade Média.
2
É daí que Raul Seixas explica seu apelido de Raulzito. Segundo ele, seu avô era Raulzão, seu pai
Raul e ele Raulzito.

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e Schopenhauer, entre outros, para tentar uma melhor compressão do mundo em
que vivia.

O contato com o rock por parte de Raul Seixas se da, pois este é
vizinho da embaixada americana, tendo contato desde muito jovem com a Rock´n
Roll estadunidense e logo se torna fã de diversos ícones dessa música.

Existe também a dificuldade que Raul tinha em se encaixar na


sociedade também com relação à instituição educadora, já que este detestava
escola preferia ficar trancado em seu quarto com suas poesias. Isto é notório
também pelo fato de que aprendeu inglês com o Rock’n Roll de Elvis que era o seu
ídolo maior, de quem Raulzito montou o primeiro Fã Club do Brasil, e o teve como
seu mestre não só musicalmente falando, mas no que ele chamava de Atitude do
Rock, que por si só já era transgressora, o que por si só é característica básica
dessa grande recusa que pela qual se caracterizou segundo teóricos, a
contracultura, e isso terá como veremos a frente influências inclusive, de diversos
pensamentos de cunho místicos, espiritualistas que mostram diferentes aos olhos de
diferentes autores como Vitor Cei e Luiz de Lima Boscatto.

Isto demonstra um claro embate entre Raul e esta geração


antecessora, o que segundo Roszak, em seu livro A CONTRCULTURA, de 1972, é
típico de uma postura contracultural, ou seja, questionar a ordem instituída, que no
caso da música era a bossa nova, em detrimento a uma atitude comportamental e
as ideias típicas do Rock’n Roll estadunidense que Raulzito tanto gostava.

Para isso se faz necessário um recorte para que a História possa


versar com mais clareza sobre toda a grandiosidade do tema, que no caso deste
trabalho trata-se da relação, que este propõe, entre Raul Seixas e a contracultura,
conforme vemos abaixo:

(...) Todo passado pode ser estudado pela história,


no entanto, a história não e capaz de dar conta de
tudo o que passou. Devido a uma necessidade
intrínseca ao método historiográfico, deve-se
delimitar o que vai se estudar, em qual

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temporalidade e onde está localizado este objeto.
Para tal tarefa faz-se necessário à opção por
recortes que trazem algumas precauções à tona e
encobrem outras, as quais são consideradas de
menor importância. Desse modo, a decisão do
recorte cabe unicamente ao historiador. Entende-se,
portanto, que ao executar suas escolhas, o
historiador age de maneira parcial. Ele executa um
trabalho limitado, arbitrário e inacabado. Diante da
totalidade pressuposta, mas, inapreensível do
passado, o historiador comete seu primeiro ato de
arbitrariedade: cria seu objeto.
(Giannattasio/Bordonal 2011 p.6)

Conclui-se então que este texto, ao estabelecer seu objeto, assume


que toma uma postura arbitraria com relação ao próprio objeto, visto que esse
recorte parte de suas próprias ideias e considerações e que este não tem em si a
mínima intenção de estabelecer verdades ou inverdades.

O que se procura é a partir da analise de dois textos bases que são:


VIVENDO A SOCIEDADE ALTERNATIVA: Raul Seixas no panorama da
contracultura jovem de Luiz de Lima Boscato, 3e esta fala sobre os movimentos de
oposição juvenil, focando a obra de Raul Seixas no que tange a formação de uma
Sociedade Alternativa, na qual se refutava as verdades absolutas impostas por este
sistema capitalista como deixou claro o autor logo no resumo de sua obra.

ENOVO AEON: RAUL SEIXAS NO TORVELINHO DE SEU TEMPO


de Vitor Cei Santos4, em que fala sobre a influência do Novo Aeon preconizado por
Aleister Crowley, sua relação com a postura contracultural, que traça também um
paralelo entre Novo e o Velho Aeon e modernidade e pós-modernidade, a fim de
demonstrar como essas ideias estabeleceram influência no pensamento, na postura
e na música de Raul Seixas.

3
Poeta e doutor em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo e o texto em questão trata-se de uma tese de doutorado que foi produzida
entre 2003 e 2006, ano em que foi defendida no programa de pós-graduação em História Social do
CFLCH da USP,
4
Dissertação de mestrado do programa de pós-graduação em Letras da Universidade Federal do
Espirito Santo, Centro de Ciência Humanas e Naturais.

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Com isso procurando analisar que o entendimento dessa relação,
que em muitos casos pode se dizer como anacrônica, já que o próprio Raul nunca
se denominou contracultural. Mas que, no entanto, pode ser estabelecida, pois como
já foi dito acima, o próprio recorte feito para o trabalho historiográfico já é repleto de
contradições, pois este parte da concepção muito particular, já que se estuda um
determinado fato em detrimento de uma série de outros.

Portanto não se trabalha com a pessoa Raul, nem o ente, ator,


compositor ou produtor musical, mas sim se reflete a despeito do que tanto Vitor Cei
quanto Luiz de Lima Boscato, procuraram estabelecer dessa desconexa relação
entre Raul Seixas e Contracultura, demonstrando também, que há várias formas de
interpretações, e algumas delas serão apresentadas ao longo destes escritos.

CAPITULO II – O Raul Seixas Contracultural de Luiz de Lima Boscatto.

O autor trata de um Raulzito, que mesmo nos


momentos em que busca uma ampliação no sentido espiritual
como narra também Luciane Alves, procurando novas óticas
espiritualistas, que visassem á ampliação das ideias do indivíduo,
basicamente dele com ele mesmo, já que substancialmente a Lei
de Thelema trata disso, de indivíduos buscando exercer sua
vontade perante o todo e não o inverso.

E delineia também Raul como alguém totalmente


político engajado, em algum tipo de militância e que este
arrebatava seguidores, a fim de transformar toda uma sociedade
em algo “bom” se assim se pode colocar, para todos, como que se
a mudança que é proposta pelo autor seja de um todo e não do
individuo:

“A abordagem do Ocultismo em Raul


Seixas se diferencia dos esoterismos
conservadores que pregam o
conformismo político, econômico, social
estabelecido, em nome de um Nirvana

174
isolacionista, ou da espera de
providencias vindas de deus ou do
Além.(...)” (Boscato, p.28. 2006).

Nota-se que há uma tentativa por parte do autor de


encaixar Raul Seixas em um sistema de lutas e militância, que
tenho sérias duvidas se ele realmente partilhou dessas ideias, já
que seria muito mais uma ânsia de se conhecer interiormente,
para á partir de então se compreender e se modificar, para uma
transformação interna do individuo, se realizasse e com ela uma
série de mudanças na realidade, porém essa análise é tratar essa
relação com o transcendental como uma mera ponte, para uma
mudança social de caráter coletivo:

“A reformulação dos valores espirituais


sob uma ótica libertária por parte de
Raul Seixas e de sua geração é um
fenômeno que se desenvolve
paralelamente às preocupações
ecológicas, e a luta pela criação de uma
sociedade comunitária e não opressora
do ser humano, que se contrapusesse à
rigidez imposta pelas instituições
políticas e religiosas convencionais. Há
também uma reformulação da noção de
família: os jovens buscavam algo que os
identificasse enquanto grupo
diferenciado, enquanto uma ampla
família que se identificasse em sua
diferença como uma sociedade
alternativa em relação ao modo de vida
da geração de seus pais.” (Boscato p.31,
2006)

Boscato coloca Raul numa posição de guia, quase que


um guru, mas um guru politizado, já que enxerga como positivo
esse lado místico espiritual de Raul, visto que este se revela
questionador da realidade política social, posto que o autor se
referi a outras praticas religiosas tratando-as como conformistas,
já que elas exigem dos indivíduos uma concentração interior, o

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que segundo o autor é uma maneira de conivente de conviver, sem
se preocupar, com a realidade ao seu entorno.

Vemos que pelo conteúdo de suas músicas, não apenas esta, mas
ela é exemplo claro, Todo Mundo Explica, na qual Raul diz: “Antes de ler o livro que
o guru lhe deu você tem que escrever o seu”, os princípios pregados por Raulzito
são de autoconhecimento, para conhecer a si mesmo e as suas vontades, que
ninguém tem um plano pronto que vai melhor se encaixar na sua vida seja ele um
livro, ou mesmo um messias.

O que se entende é que Raul buscava toda uma gama de seitas,


rituais e magias, a fim de conhecer melhor a si mesmo, e a partir daí entender suas
próprias vontades, para poder se relacionar com as diversas realidades que existiam
ao seu redor.

No entanto Boscato faz uma aproximação de tudo o que é


desprezado pela cultura “convencional”, se assim podemos dizer, mostrando a
aproximação com tudo o que era temido e descriminado pela “sociedade” como um
traço contracultural marcante em Raul Seixas, já que este partilhou das mais
diferentes seitas, filosofias, religiões, políticas e lutas. Como ele mesmo diz na
canção As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor:

“Seguindo a tendência contracultural de valorização


de tudo o que fosse considerado maldito pelos
setores mais conservadores da sociedade, tal
movimento teve como base a chamada Lei de
Thelema do mago inglês Aleister Crowley (1875 –
1947), o qual foi chamado, pelos seus inimigos, de o
“pior homem do mundo”. (...) Crowley foi
considerado, pelo seu embate contra os dogmas da
ortodoxia cristã e pela sua ênfase no “Poder da
Vontade”, o “Nietzsche do Ocultismo”. (Boscato,
p.74, 2006)

Vê-se então que Boscato procura estabelecer uma relação de toda a


espiritualidade e a metafísica, de toda a busca de Raul que desde muito jovem
procurava respostas, associando-a a uma luta de cunho anarquista. Colocando-o

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como já foi dito anteriormente como um arauto revolucionário, que buscava
transformar os outros indivíduos ao invés de si, para se modificar rumo a uma
revolução anarquista, que se baseava em princípios místicos, filosófico, político e
religioso para a transmutação social, o que parece ir contra os princípios bradados
por Raul ao longo de sua vida, já que este pregava que cada um deveria
compreender a si mesmo, e para que se sentisse a necessidade, transformar toda a
realidade ao seu redor, já que esta é uma construção deveria ser uma construção
muito particular de cada individuo.

I I I - A C o n t r a c u l t u r a u m p a r a d o x o e n t r e n o v o e v e l h o Ae o n .

A principio em seu trabalho Vitor Cei busca


estabelecer a definição do conceito de Aeon, como: Era, Tempo,
Geração e Eternidade, com isso ele busca dar um contorno
esotérico, astrológico para explicar uma mudança que ao longo de
seu texto foi pensada por grupos como os Hippies, como sendo
algo coletivo, o que diverge do pensamento de Raul, que entende
essa transformação como algo individual, que aconteceria dentro
de cada ser humano, o que é nítido ao longo da análise de Cei.

Conforme as palavras do próprio autor citando também


a definição etimológica do termo, que vem do nome da filha Aiôn
do deus grego Crônos. Isso mostra a influência tanto do ocultismo
antigo, no caso da interpretação de astrólogos dos astros e suas
influências, também uma interferência da própria cultura no caso
o idioma, que tem toda uma simbologia.

Para os objetivos dessa análise dos escritos de Cei


cabe-nos definir o Aeon, de Osíris como os princípios do deus que
a nomeia, pautado na ideia de que os males do presente, serão
recompensados no futuro, assim como quando trabalha-se a vida
inteira, em troca de dez ou quinze anos recebendo um benef ício
previdenciário, que não paga nem os medicamentos, paliativos
das doenças físicas e psíquicas oriundas de uma vida de labor.

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Doutrina essa, segundo o autor, muito semelhante à
ideologia burguesa, de acumular para um futuro melhor, não
havendo nada que pudesse se por contrariamente a isso, seja
força da natureza, seja, do plano apenas das ideias, passando até
mesmo pelo campo do transcendente, essa doutrina se blinda sob
uma gama de mantos, estes criados por discursos que vão desde
a influência do capital especulativo, à manipulação do desejo, que
tem como suporte todo um corpo técnico especializado.

Seguindo a análise do texto percebe-se que ao longo


do Século XX, parte da sociedade percebeu as influências,
segundo o autor, do Aeon do Hórus, e isso de certa forma levou
alguns indivíduos, que passaram a pensar de diferentes modos,
alguns com ideias mais coletivo como hippies.

E outros indivíduos como Raul Seixas com várias


influências diferentes, como já foi dito e continuaremos vendo ao
longo do texto, se negando a assumir qualquer verdade absoluta
socialmente, politicamente, filosoficamente imposta, o que
evidencia uma ação contracultural.

Já que foi em meio ao século passado, o momento em


que se sentiram de maneira mais abrupta os horrores provocados
pela supremacia da razão e da lógica cientifica, e então uma
parcela da sociedade, em geral os jovens, sentiu a necessidade
em meio ao devastador efeito tanto físico, quanto psicológico de
buscar outros pontos de vista, outras explicações da realidade,
dentre eles Raul Seixas, pois, não se identificavam com esta
realidade tão brutal e impositiva.

Isso ressoou por todo ocidente chegando inclusive ao


Brasil, entende-se essas tentativas de mudança, de oposição a
todo um discurso que abrange vários níveis na sociedade,

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controlando o que se pensa, o que se faz, ou como se faz, como
CONTRACULTURA.

E isso é conflitante na obra de Raul já que ele se


utiliza de um aparato da tecnocracia, as gravadoras, grandes
engrenagens que fazem girar os motores da Indústria Cultural,
essa é a forma que ele Raul através de sua atitude contracultural,
utilizando-se de seu Rock’n Roll bem particular e heterogêneo já
que tinha toques de uma série de outros ritmos regionais
brasileiro como o baião, bradava contra a sociedade
“normatisante” em prol de uma sociedade alternativa, pelo que se
entende, e como ele mesmo disse em shows e entrevistas, esta,
está dentro de cada um dos indivíduos.

Como podemos perceber na música Você, na qual o


autor propõe uma reflexão de ações e pensamento, colocada
abaixo:

Você alguma vez se perguntou por que


Faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar?
Mas você faz, sem saber por que, você faz!
E a vida é curta, por que deixar que o mundo
Lhe acorrente os pés?
Fingir que é normal estar insatisfeito
será direito, o que você faz com você?
Por que você faz isso por quê?
Detesta o patrão no emprego
Sem ver que o patrão sempre esteve em você
E dorme com a esposa por quem já não sente amor
será que é medo?
Por quê? Você faz isso com você?
Por que você não para um pouco de fingir
E rasga esse uniforme que você não quer...
Mas você não quer, prefere dormir e não ver
Por que você faz isso por quê?
Detesta o patrão no emprego
Sem ver que o patrão sempre esteve em você.
E dorme com a esposa por quem já não sente amor
será que é medo?
Por quê? Você faz isso com você?
Por que cara?

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Mas você não quer prefere dormir e não ver
Por que você faz isso por quê?
Será que é medo?
Por quê? Você faz isso com você?
Você faz isso com você?

Nessa letra Raul, questiona uma série comportamentos e atitudes, a


partir de sua relação com a sociedade e suas amarras, ele faz isso partindo de uma
reflexão interna sobre as suas atitudes e pensamentos cotidianos, e a postura que
se adquiri perante as imposições sociais.

Ao longo dela Raul, propõe uma reflexão interna dos indivíduos, para
com isso repensarem suas ações diárias, mecanizadas, que segue o fluxo desse
grande discurso do “futuro progressista”, seguindo os padrões, esses como já
chamados anteriormente “heróis dos dias úteis” (Seixas at. al., 1971) passam a vida
com suas esposas, seus empregos sem ao menos se perguntarem por que fazem
isso e mais ainda, se estão satisfeitos com suas ações ao longo desse burocrático
cotidiano.

É esta reflexão por parte dos indivíduos, que pode fazê-lo repudiar
esse discurso burocrático e tecnocrático como no caso de Raul Seixas, em que ele
percebeu que através deste autoconhecimento, desse entendimento interno é que
se poderia alterar a realidade que se mostrava tão objetivamente dura ao seu redor,
já que este não se encaixava em normas e padrões.

Nota-se então que, de certa forma, para driblar todos estes sistemas
de discursos impositivos, que propunham o controle mais intenso da vida das
pessoas, através desta tecnocracia que se coloca como o centro do universo, Raul
Seixas, influenciado por uma mudança de eras astrais, que teve seu mais famoso
interprete em Aleister Crowley, cujas ideias, Raul interpretou, propondo a cada
indivíduo que se questionasse para maior compreensão de si mesmo, e com isso,
compreender e até modificar toda a realidade ao seu entorno com o poder da sua
vontade contaminando o todo, as massas e não o contrario, essa seria a postura
contracultural de Raul traçada por Cei.

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IV - Considerações Finais

Após analisar as duas obras tanto a de Luiz de Lima Boscato, quanto


a de Vitor Cei o que se pode perceber é que Boscato procura ao longo de seus
escritos uma relação entre Raul Seixas e CONTRACULTURA, que está
extremamente vinculada com a Lei de Thelema, ou também conhecida como Lei da
Vontade.

Ele apresenta, ao longo de sua dissertação, um Raulzito que


influenciado pelas ideias de Aleister Crowley, e que a partir desses pensamentos,
segundo Boscato, procuraria se transformar, e transformar outros indivíduos para
então modificar toda a realidade e o mundo ao seu redor.

Traçando um perfil, de um Raul Seixas guia, arauto de toda uma


geração de jovens, como se este a todo o momento estivesse preocupado em
passar uma mensagem revolucionaria de cunho anarquista, como se uma ação
totalmente objetiva pudesse transformar a sociedade, que contraditoriamente trazia
consigo um grau de objetividade extremo e imposto a todos os indivíduos.

Boscato trata de uma transformação de fora para dentro, posto


assim, entende-se queesta mudança pudesse ser efetuada de fora para dentro,
como se a Lei da Vontade fosse imposta do TODO para as PARTES e não o
contrario, como se a mudança dos indivíduos partisse da transformação de toda a
realidade objetivada ao seu redor.

Partindo de um outro ponto de vista, Vitor Cei procura explicar essa


influência da contracultura no imaginário de Raul como uma influência da mudanças
de eras astrais, então ele procura descrever, pela mitologia egípcia, primeiramente,
a influência da era de Ísis, sendo o período no qual estabelecia-se nas sociedades
uma relação matriarcal e de respeito com todo o planeta e os diversos seres neles
existentes.

Enquanto que em 260 a.C. entra-se no Aeon de Osíris, e a sociedade


consecutivamente passa a ter relações patriarcais, na qual o respeito pelo mundo ao

181
seu redor deixa de existir, as mulheres são relegadas ao simples papel de esposa, e
toda relação de respeito entre pessoas e meio na qual elas vivem ganha um
contorno comercial.

As relações deixam de ser pautadas no respeito e harmonia e tomam


uma face exploratória, que não enxerga limites além da sua ganância, um exemplo
claro disso é,segundo Cei,a vinda dos Europeus para o que eles mesmo chamaram
de Novo Mundo, ou América, onde começou-se a subjugar pessoas, no caso os
nativos, que ganharam a alcunha de índios.

Deu-se início também ao tráfico de pessoas, na maioria das vezes


com o uso da violência, no caso dos africanos, que sob a desculpa de serem
desalmados, eram tidos apenas como mão de obra escrava, e começou-se a
devastação de pessoas e da natureza, além de ter início também, segundo o autor,
o período chamado de modernidade.

Essa modernidade do Aeon de Osíris visa o lucro, a exploração e a


devastação, para esta não há barreiras nem limites, ela parte do principio que tudo
tem um preço, e que este deve ser aceito caso contrario, o uso da força se faz
necessário como é obvio se pegarmos, como exemplo A CONQUISTA DA
AMÉRICA.

Este Aeon e seus preceitos encontram seu apogeu durante o século


vinte, no qual tudo ganha um caráter massificado, onde o sentido violento
mercadológico toma sua forma mais presente, e é durante a Segunda Guerra
Mundial, que os horrores, desse sistema de pensamento se faz presente, e mais
contundente através do advento da Bomba Atômica.

A partir de então, jovens como Raul, sentindo a aproximação do


Aeon Hórus, o filho de Osíris coroado, surge como esperança e influência de uma
nova forma de se entender a sociedade, de se relacionar com o mundo ao seu
redor, resgatando todas as culturas, que haviam sido desprezadas pela era moderna
de Osíris.

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Valorizando tudo aquilo que era tido como maldito pelos modernos seguidores da
Era de Osíris, como a magia preconizada por Crowley, uma relação mais harmônica
com a natureza, e acima de tudo Cei via na figura de Raul um questionador, que de
certa maneira através de sua música influenciava um número grande de pessoas.

Percebe-se então que o ponto convergente entre os textos de Luiz de


Lima Boscato e Vitor Cei, é a influência de Aleister Crowley no pensamento
contracultural de Raul, no entanto cada um a sua maneira, já que Boscato trata mais
da relação entre Raul e a Lei da Vontade e a forma como ele poderia transformar as
pessoas e a realidade através dela. Enquanto Cei trabalha mais com a influência
das mudanças de Eras Astrais influenciando as pessoas dentre elas Raul e como
ele, sentindo isso e interpretando as ideias de Crowley,buscava uma mudança das
pessoas e da sociedade.

No entanto, essas são apenas duas formas existentes de se


estabelecer essa relação entre Raul Seixas e CONTRACULTURA, que pode ser
entendida também, através de um conhecimento interior para uma transformação da
realidade ao seu redor, que como vemos na música Carpinteiro do Universo, do
álbum A Panela do Diabo de 1989, seu ultimo álbum, este que foi produzido em
parceria com Marcelo Nova, na qual Raulzito trata desse egoísmo, que é tão egoísta
a ponto de querer ajudar, e que no final se descobre carpinteiro de si.

Entende-se então que Raul percebeu que não importava o quão era
grande a sua vontade de ser o Carpinteiro do Universo inteiro, mas que no final essa
mudança é particular, essa transformação é interior, para a partir de então modificar
o mundo ao seu redor.

No entanto essa interpretação não exclui nenhuma das expostas


anteriormente apenas tem como propósito indicar outras perspectivas, além das que
foram aqui colocadas de se estabelecer esse paralelo entre essa forma de
pensamento nada convencional que representa a CONTRACULTURA no imaginário
de Raul Seixas.

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BIBLIOGRAFIA E FONTES

[1] SANTOS, Vitor Cei. Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo.
Espírito Santos, 2009.
[2] BOSCATO, Luiz de Lima. Vivendo a Sociedade Alternativa: Raul Seixas no
Panorama da Contracultura Jovem. São Paulo, 2006.
[3] ALVES, Luciane. Raul Seixas: O Sonho da Sociedade Alternativa. Ed.
Martin Claret. São Paulo 1993.
[4] ROSZAK, Theodore. A CONTRACULTURA: Reflexões sobre a sociedade
tecnocrática e a oposição juvenil, Ed. Vozes ltda. Petrópolis, 1972.
[5] ADORNO, Theodore W.; Horkheimer. Dialética do Esclarecimento:
fragmentos filosóficos, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, Ed. 1985.
[6] GIANNATTASIO, Gabriel; BORDONAL, Guilherme Cantieri: Uma pós-
modernidade trágica: a historiografia para além da verdade e da mentira,
2011.
[7] GIANNATTASIO, Gabriel. Próxima parade: O HARAS HUMANO, Atrito Art
Editorial. Londrina, 2004.

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