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Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues(2)

Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues(2)

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Análise das Obras Indicadas aos Vestibulares 2008/2009 Prof.

Marco Antonio Vestido de Noiva (Nelson Rodrigues) Modernismo: No Brasil o Modernismo tem três fases, também chamadas de gerações. • A Primeira tem início com a Semana de Arte Moderna, em 1922 e termina em 1930. Entre sua características estão a iconoclastia, a liberdade de criação, a reverência e a rebeldia. • A Segunda (de 1930 a 1945) é mais social, mais participativa e mais engajada. Nela estão os escritores de tendências socialistas como Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego. • Já a Terceira, também chamada de pós-moderna, ou pós-45, é mais introspectiva e eclética, isto é, tem várias tendências que vão do regionalismo universalizante e da reinvenção lingüística na obra de Guimarães Rosa, passando pela sondagem interior em Clarice Lispector. Uma das tendências desta fase é a do teatro de análise e de crítica às relações humanas, onde está inserido o autor. Pós-Modernismo: A Pós-Modernidade pode ser dividida em várias fases, de acordo com as influências históricas, ou de acordo com as tendências dos autores. Nélson Rodrigues é o grande nome de uma literatura urbana que enfoca o universo das perversões e dos desejos proibidos. O "Anjo Pornográfico", como era chamado, especializou-se em traçar o perfil do lado mais sórdido, mesquinho e baixo das pessoas. Traição, homossexualidade doentia, violência, estupro, são suas principais temáticas. Biografia "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico." Nelson Rodrigues nasceu em Recife (23 de agosto de 1912). Seu pai, deputado e jornalista, por problemas políticos resolve se mudar para o Rio de Janeiro, onde trabalha como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em 1916 alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, onde a família Rodrigues teve seu primeiro teto na capital. Nelson ia sendo criado dentro do clima da época: as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa. Os velórios também eram feitos em casa, usava-se escarradeira e o banho era de bacia. Nelson registrava em sua memória esse cenário. Daí sairiam os personagens de sua obra literária. Em seu quarto ano de vida, um fato pitoresco: uma vizinha, d. Caridade, invade a sua casa e diz para sua mãe: "Todos os seus filhos podem freqüentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson." Como ninguém entendesse a razão de tal proibição, ela afirmou: vira Nelson aos beijos com sua filha Odélia, de três anos, com ele sobre ela, numa atitude assim, assim. Tarado! Em 1919, pediu a sua mãe para ir à escola. Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora, d. Amália Cristófaro. Infelizmente não era muito asseado e vivia sendo repreendido por ela. No ano seguinte ocorreu um fato que, depois, se transformou num dos favoritos do escritor: o do concurso de redação na classe. Cada aluno deveria escrever sobre um tema livre, e melhor redação seria lida em voz alta na classe. A professora quase foi ao chão com o trabalho de Nelson: uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão. A redação, apesar do espanto que causou em todo o corpo docente, não tinha como não ser premiada, muito embora não pudesse ser lida na classe. Nesse período, Nelson presenciou grandes discussões entre seus pais, causadas por ciúmes que seu genitor tinha de sua mãe. Influenciado por seus irmão mais velhos, passou a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente do Tico Tico para romances mais "pesados" como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e as Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, os fascículos de Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América, e outros mais. Mudavam os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte. Foi em 1919 que o autor descobriu o Fluminense. Foi o primeiro ano do tricampeonato do tricolor, muito embora nem ele nem seu irmão Mário Filho, posteriormente famoso como jornalista esportivo e que teve seu nome escolhido para ser o nome oficial do estádio do Maracanã, tivessem dinheiro para acompanhar os jogos. Nelson inicia sua carreira jornalística em 1925, como repórter de polícia, ganhando trinta mil réis por mês. Tinha treze anos e meio, era alto, magro e seus cabelos eram indomáveis. O autor impressiona os colegas com sua

Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski. cantor lírico. O silêncio foi total na platéia. para uma conversa com Freddy Chateaubriand. mas eles a recusam. após as comemorações com a família na leiteria "Palmira". foi para "O Globo". ficou assustadíssimo.mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho. desenhista. sendo que as mulheres gritavam: "Bate mais. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. era um carnaval de incestos e perversões.capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. os portões foram abertos e 2. Ele escreveu "O Casamento". Em fevereiro de 1945 é convidado por David Nasser. ao por do sol. ocasião em que é informado da criação da Editora Nova Fronteira. sua mulher. de O Cruzeiro. Ao ouvir os comentários das vizinhas que tinham apoiado maciçamente a surra. desde aquele dia. Duas horas depois a peça chegou ao fim. e então o inesperado aconteceu: a mulher atirou-se aos seus pés. O autor conhece o diretor e tem início a epopéia do grupo "Os Comediantes": oito meses de ensaios. No meio do ano de 1941. O livro vendeu 8. que era no mesmo andar. Quando a história terminou. na rua Agostinho Menezes. Todos diziam que era uma peça que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Isso provocou o começo de outro folhetim. que gostou. pegou o bonde de volta para casa já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. numa tentativa de debelar a febre que insistia em não ir embora. "À sombra das chuteiras imortais". em uma situação de penúria e já casado. de onde nasceu Suzana Flag e Meu destino é pecar. Nelson oferece sua peça para dois grandes artistas de então: Dulcina e Jaime Costa. Nelson era chamado de "filósofo" pelos colegas de O Globo. no meio da rua. É claro que a vizinhança correu para ver o fato. para a TV Globo. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios e nunca mais voltou à escola. um pernambucano ex-funcionário do Banco do Brasil. de braço dado e nariz empinado. Vendeu-o para Alfredo Machado. tão constantes naquela época. o autor já havia. A tosse seca e uma febre baixa. achou que era possível. deu uma sova de cinto na cara-metade. No final de 1960 o autor entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Tôrres a peça "Beijo no asfalto". Em 1966 o autor muda-se. lutando contra a dor de sua úlcera. aos beijos. Ela provocou a saída de Nelson da "Ultima Hora". O diretor aparece e o teatro delira.aceitou até aparecer como "tradutor" dos romances de Harold Robins. foram os avisos dados a Nelson. pois nela fazia referências pouco positivas à imagem do jornal. depois. porém persistente. publicados pela Editora Guanabara. O marido bateu até se cansar. E. Especializou-se em descrever pactos de morte entre jovens namorados. Por falta de um diagnóstico precoce. necessitando de dinheiro. Em situação financeira apertada . Ziembinski. Quando o autor. cujo sucesso foi também retumbante. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo. Lacerda pediu-lhe um romance e deu-lhe um cheque de dois milhões de cruzeiros. apesar dos esforços de seu pai. Disse. A oferta era inacreditável: cinco contos de réis (já nessa época cinco mil cruzeiros) . com um ordenado de quinhentos mil réis por mês. Quando Lacerda leu o livro. além de sua magreza.continuava a ajudar sua mãe financeiramente. oito horas por dia. sempre procurando fazer "bicos" que permitissem um ganho extra . Foi ali que soube que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia). Em janeiro de 1943 Nelson escreve sua segunda peça teatral: Vestido de Noiva. após dez meses. Às 20h30 do dia 28 de dezembro de 1943. a convite de Walter Clark. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira.000 . tinha um aspecto desleixado. manda subir o pano. cansou-se do tratamento que vinha recebendo e. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado a trezentos mil livros. toda orgulhosa. críticos e amigos. em julho de 1962. o autor ficava perambulando pela redação da revista O Cruzeiro. entre palavrões em polonês. Mas não conseguiu encená-la.como sempre . escreveu sua primeira peça. músico e poeta. A mulher sem pecado. Nessa época é chamado por Carlos Lacerda. arrancado todos os dentes e posto dentadura. Foi uma forma de receber mais algum dinheiro. Como a função lhe tomava pouco tempo. Um dia. onde então Nelson morava. Em maio de 1931 Roberto Marinho convida Mário Filho para assumir a página de esportes de O Globo. Nelson concluiu: "Toda mulher gosta de apanhar". submeteu a peça a Henrique Pongetti. um marido banana que era chutado como um cão pela esposa e ainda a bajulava. o autor". fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas. Os jornais e suplementos falavam sobre Vestido de Noiva. sentindo-se "um marginal da própria glória". O autor. O médico verificou sintomas de tuberculose pulmonar. mas o autor não conseguia encená-la. Voltou ao "Diário da Noite" com "A vida como ela é" e. Carlos Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro Lins.000 exemplares por dia e sem anúncios. Alguém grita na platéia: "O autor. Elza. Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim. Só Thomaz Santa Rosa. O grande ator e diretor leu a peça e disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. desde que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre. escreveu sobre ela e a elogiou. Nelson estava escondido em um camarote. um só terno e não vestia meias por não tê-las. Em 1932 o autor teve sua carteira assinada em O Globo. que sofreu naquele momento. da Editora Eldorado. o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. e não foi visto por ninguém. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas Detetive e de O Guri. Escravas do amor. Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem do jornal para quase trinta mil exemplares. com a coluna de futebol. que estava com uma tiragem de apenas 3. bate mais". parou. o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Mário aceitou. com apenas 21 anos.205 espectadores viram a peça. passou a desfilar com o ex-banana.

um domingo. Medici.1944 (como "Suzana Flag") Escravas do amor. crueldade e outros sentimentos degradados implodem a estrutura familiar. "Ultima Hora" . "Diário da Noite" . Inédito em livro. 1965 . São Paulo. imagética. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização. barulho de derrapagem violenta. vidraças partidas. Peças A mulher sem pecado. que ele saísse do país. A vida como ela é . (Como Nelson Rodrigues) O casamento. "Editora Nova Fronteira". Nessa sociedade. face a seu prestígio e contatos com os militares. a peça apresenta ainda outra inovação. Nelson.Direção: Willy Keller Os sete gatinhos.Direção: Fernando Tôrres. ao invés de proporcionarem o tom cômico. Dois anos antes. 1981 (como Suzana Flag). São Paulo. Nelsinho não aceita o privilégio.1948. 1961. Nelson consegue com o presidente da República. Asfalto selvagem. São Paulo. Rio.Direção Martim Gonçalves. É no interior dessa comunidade que deveria proteger seus membros. representando três planos: . Gal.1946 (como "Suzana Flag") Núpcias de fogo. 1943 . O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso. de classe média ou burguesa. os elementos grotescos da peça contribuem para estabelecer uma visão pessimista e sombria da realidade.1944 / "Edições O Cruzeiro" . transformando-a em um inferno em que os personagens das peças vivem como seres para sempre amaldiçoados. A peça causou polêmica na época e ainda hoje é considerada forte em sua linguagem e no tratamento do tema.. predomina a hipocrisia. violência. "Dona Flor e seus dois maridos". Beijo no asfalto. sob a direção do polonês Ziembinski. Rio. 1970 marca o início dos anos duros da ditadura militar no Brasil. "O Jornal" . 1947 . 1992. 1947 . empatando com as vendas do novo romance de Jorge Amado. a subdivisão do palco que aparece iluminado de três maneiras. os preconceitos e os símbolos eleitos pela cultura burguesa judaico-cristã como eternos em relação à família. a deformação ou a obsessão dos personagens.O homem fiel e outros contos.exemplares nas primeiras duas semanas de setembro de 1966. "Companhia das Letras". transplantando para o palco a perversão e as angústias das personagens. A família é o núcleo de todos os problemas das personagens de Nelson Rodrigues..Direção: Ziembinski Senhora dos afogados. "Última Hora" .Além de reforçar a capacidade de criação visual. Em 1972 começa nova luta: seu filho. 1960. 1962 . libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos.A vida como ela é. (Como Myrna) O homem proibido. Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980. J. que os dramas ocorrem: ódio recalcado.1959-60. 1941 . "Companhia das Letras". mas ordinária.Direção: Ziembinski Anjo negro. Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. A peça tem três atos e sua ação transcorre no âmbito familiar. 1966 (como Nelson Rodrigues). porém honesta. 1957 ..Engraçadinha: seus amores e pecados. Despojada da leveza da cena e compondo diálogos fortes e desnudados. Seleção: Ruy Castro. Inicia com uma buzina de automóvel.Direção: Bibi Ferreira A falecida. 1960 . funcionam como elementos intensificadores da dramaticidade de cenas e situações. Bonitinha. Ozon Editor.Direção Rodolfo Mayer Vestido de noiva.1949. que é levada a um hospital. Editora Guanabara. era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar.Direção: Willy Keller Boca de Ouro. 1959 . 1978 . Toda nudez será castigada. Rio. Percebe-se também.Direção: Marcos Flaksman Análise da obra Vestido de Noiva foi encenada pela primeira vez em 1943.Direção: Ziembinski A serpente. 1957 .Direção: José Maria Monteiro Perdoa-me por me traíres. J. Principais Romances Meu destino é pecar. em que o exagero.Ozon Editor.1951. Dois volumes. 1953 . paixões proibidas.Direção: Léo Júsi. O universo dramático de Vestido de Noiva é a classe média carioca nas imediações dos anos quarenta. Contos Cem contos escolhidos . Dois volumes. A dama do lotação e outros contos e crônicas. Rio. Os sons ouvidos referem-se ao atropelamento de Alaíde. Elas gostam de apanhar. conhecido e admirado pelos militares. sirene de ambulância. nesta e em suas demais peças. seja esta família de origem suburbana. luta para tirar da prisão Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. transmitidas aos espectadores. marcando a renovação do teatro brasileiro ao se voltar para a realidade de cunho psicológico. Viúva. É por isso que ela inaugura o teatro da terceira geração modernista. 1958 . (como "Suzana Flag") A mulher que amou demais. quando seu filho já vivia na clandestinidade. "O Jornal" . Rio. o respeito às tradições e ao casamento. Asfalto selvagem . "Bloch Editores"."O Jornal" . a inclinação do autor para uma estética expressionista.Direção: José Renato. "Prancha" (seu codinome) foi apanhado em março daquele ano. "Companhia das Letras".1944 / "Edições O Cruzeiro" . Inédito em livro. 1974.

Plano da alucinação: sem a interdição da censura moral. a heroína pode liberar sua libido. Repórteres que anunciam o acidente e o estado da moça: Alaíde Moreira. enfim. Alaíde procura Madame Clessi. Seduz os namorados da irmã como uma tentativa de auto-afirmação. A mulher de véu também se constitui numa imagem de pessimismo. insatisfeita com a realidade mesquinha da vida ordinária. que se torna seu marido. a protagonista encontra na identificação com a prostituta uma compensação. sem nenhuma surpresa. Tudo se mistura em cenas que beiram o surrealismo. É assim que surge. sirene de ambulância. ameaça de morte.que a psicanálise chamaria de superego -. Madame Clessi. É uma mulher insatisfeita e inconformada com a condição feminina. vividos pela personagem. nos mostra um cenário completamente a este apenas descrito e acaba dessacralizando a pureza e a castidade para se tornar a representação das discórdia. que a faz parecer melhor aos próprios olhos. em seu desejo de vingança. a paixão pelo noivo com o qual ocorrerá a união sob a benção de Deus e dos homens. É como ela diz a Lúcia. é a protagonista de Vestido de Noiva. os desejos proibidos. Após conquistar Pedro. prostituta do início do século que fora assassinada por um amante adolescente. em que pese a manifesta intenção de ironizar símbolos sagrados à cultura judaico-cristã. Com forte efeito psicológico. o que a faz projetar seus impulsos e seus desejos na figura da prostitua Clessi. A matéria fundamental da peça está no plano do delírio e.neurótica e oportunista. mas está sempre pronta a dar o bote. percebemos o quanto . As outras imagens também convergem para o mesmo universo simbólico. Um dado verdadeiro que já surgira no plano da alucinação: ela roubara Pedro da irmã. Lúcia. reconstrói no . A realidade é apresentada a partir do filtro da mente dos personagens.que depois se revelará como sendo a própria Lúcia. É a mulher que não se revela. da competição. barulho de derrapagem violenta. 25 anos. Provavelmente será a próxima vítima do marido.• o plano da realidade. como o ‘bouquet’. Fora do alcance da censura ."grossa ou fina. ao mesmo tempo. a considerar o inequívoco desfecho da peça. e tanto pode ser entendido com suicídio ou assassinato (no filme há a insinuação de que Pedro e Lúcia fizeram planos para o atropelamento). encontrado no sótão da casa em que vivera com os pais antes de casar. todas as atitudes das pessoas revelam a hipocrisia. que é levada a um hospital. espécie de troféu às avessas e metáfora de um casamento destinado ao fracasso. Todas as imagens e símbolos que emergem da peça convergem para essa amarga concepção da existência. ao invés de celebrar a união do casal. ao mesmo tempo em que se sente ameaçada de morte por Pedro e Lúcia. a competição desleal. rivalidade. Durante o transcorrer da peça. Este procedimento que se tornará comum em inúmeras peças de Nelson Rodrigues. Infeliz no casamento. É da consciência culpada da protagonista que surge a imagem da Mulher de Véu . Divagando. um homem que se mostrará sórdido. Plano da memória: Alaíde concentra o esforço ordenador da memória na reconstituição das cenas do casamento. Assim Vestido de Noiva que deveria simbolizar a virgindade. O carro que atropelou fugiu sem prestar socorro. o conformismo imbecilizado ou o inconformismo agressivo. Ao situar a ação da obra no território livre do subconsciente (em que se situam o plano da memória e mesmo o da alucinação) o autor favorece as possibilidades de criação. seus desejos reprimidos. e a aliança . no plano da memória de Alaíde. esse procedimento é evidente em Vestido de Noiva. é um universo de obsessivo pessimismo. todos os desejos de Alaíde se libertam.Alaíde é infeliz em seu casamento com o milionário Pedro Moreira. que Alaíde só consegue identificar claramente ao final do segundo ato. o espectador descobre que Alaíde teve acesso a um diário de Madame Clessi. Em seu delírio e lembranças. Às cenas de delírio somam-se lembranças de fatos reais. tanto faz" nas palavras de uma prostituta. casada com o industrial Pedro Moreira. Na mesa de cirurgia. Na representação da memória. funciona como índice de disputa. termina por adquirir a conotação de mortalha. a figura da prostituta. • • Temática e símbolos Partindo do princípio de que as relações sociais são perversas. de maneira bem clara. O atropelamento é um desfecho trágico da tensão dos últimos dias da protagonista. como projeção de suas fantasias. demonstra um certo desinteresse e frustração pela vida de casada. em que a marcha fúnebre se sobrepõe à marcha nupcial. É a retaliação sempre presente. • o plano da alucinação e • o plano da memória. e. Personagens Alaíde . com pouca sutileza.e qual o motivo . em tom de provocação: "Eu sou muito mais mulher do que você sempre fui!”. Existe o predomínio dos planos da memória e da alucinação.assim o espectador vai passar aos planos da memória e da alucinação. vidraças partidas. a ingenuidade de sentimentos. • Plano da realidade: é o que dá início à peça: buzina de automóvel. em Alaíde. Os sons ouvidos referem-se ao atropelamento de Alaíde. Através da intersecção desses três planos tem-se o conteúdo da peça. O casamento sem grandes aventuras e o cotidiano banal haviam transformado Alaíde numa Bovary carioca. Alaíde delira .

jogada numa mesa de operação entre a vida e a morte. O casamento acontece. a mesma pessoa: a irmã de Alaíde. que representa o bom partido para as moças casadoiras que conseguirem “fisgá-lo”. Clessi representa (para Alaíde) o ideal de mulher liberada. É uma pessoa também insatisfeita. restando alguns pertences. e casa-se com ele. que o autor denomina: alucinação. seu desejo de transgressão toma corpo e salta aos olhos nas cenas em que se torna amiga da prostituta e consegue inclusive matar. Alaíde. que representam a classe média conformada e deslumbrada com as convenções sociais. Pedro . quando jura que mesmo morta não a deixaria ficar com Pedro. se funde com a de Alaíde no dia do casamento com Pedro. no entanto. a história de Madame Clessi. A peça se encerra com apenas uma luz sobre o túmulo de Alaíde. uma prostituta do início do século XX que havia residido na casa em que então moravam seus pais. Diante do propósito dos pais de incinerarem os pertences da cafetina que haviam ficado no sótão da casa. No plano da realidade. Alaíde procura por uma mulher chamada Madame Clessi. enquanto médicos correm para salvar o corpo inerte da mulher. que foi assassinada no início do século. . que agride a sociedade hipócrita que Alaíde nega. e depois concebe um plano macabro de eliminar a esposa para retornar aos braços da irmã. Nos planos da alucinação e da memória. inclusive um diário que é salvo de ser queimado por Alaíde. É o industrial bem sucedido. Segue-se uma série de intercalações entre os planos: no plano da realidade.passada para trás pela irmã. desejosa de viver um mundo de sensações picantes. o trabalho dos médicos para reanimar Alaíde. Pedro e Lúcia são presumidos assassinos e hipocritamente se casam. com seu namoro com um jovem rapaz e sua morte. Alaíde não consegue em vida opor-se a elas. aparece em quase toda a peça como “a Mulher de Véu”. Enredo A obra é a história de um triângulo amoroso. barulho de derrapagem violenta. por sua vez. que a acusa violentamente de ter lhe roubado o noivo. que a assassina com uma navalhada. que leva Alaíde à loucura e à morte. Ambas são. a peça encaminha-se para o desfecho no qual Lúcia acaba por casar-se com Pedro. e vai parar num hospital. com quem se casa. e fica conhecendo detalhes de sua trajetória. e os pais de Alaíde e Lúcia e a mãe de Pedro. Lúcia. como o namoradinho adolescente de Clessi. E a peça reconstitui em cena aquilo que se passa nessa mente em desagregação da protagonista. É Alaíde quem entrega o buquê à noiva. sirene de ambulância. sua heroína. acompanhada de Madame Clessi. é atropelada. casa-se com Pedro. As duas se encontram e conversam. com a maior frieza.é o elemento dominador. mas na qual ela transita. e Alaíde se vê vítima de uma conspiração entre Lúcia e Pedro. Ela havia residido na casa comprada pelos pais de Alaíde décadas atrás. Enquanto Alaíde assiste com Madame Clessi cenas de seu enterro e de sua discussão com Lúcia momentos antes do atropelamento. mas as cenas finais sugerem que ela não estará melhor em seu casamento do que Alaíde em seu túmulo. complementados com recortes de jornais da época encontrados na Biblioteca Nacional. Segue-se a discussão com Lúcia minutos antes da cerimônia. Alaíde morre na mesa de operação. rouba o namorado da irmã. que devem ser preservadas. incompleta. ambas percebem que o assassinato de Pedro não passou de um sonho de Alaíde. Inicia com buzina de automóvel. Alaíde consegue resgatar o diário dela. com quem faz um complô. e ela revela a Madame Clessi que assassinou o marido Pedro com um ferro após uma discussão (o plano da memória reconstitui a cena). mantém um romance adulterino com o marido da irmã. O cenário é dividido em três planos. A mulher sai enlouquecida pela rua. mesmo sabendo que viveram à mercê do opressor.subconsciente as injustiças de que se julga vítima e revela seu fascínio pela vida marginal de Madame Clessi. Lúcia. mesmo tendo em sua mente a imagem de Alaíde com seu vestido de noiva. No plano da alucinação. memória e realidade. tentando se lembrar do dia do casamento da primeira. Inconformada com as convenções sociais repressoras da mulher. Namora Lúcia inicialmente. vidraças partidas. a protagonista. deixa-se seduzir por Alaíde. No plano da realidade. Enquanto os médicos tentam quase o impossível para salvá-la da morte no plano da realidade. Misturando num ritmo gradativo as ações dos três planos. Alaíde e Madame Clessi conversam no plano da alucinação. que reclama o fato desta ter lhe roubado o namorado. que pretendem matá-la para ficarem juntos. Lúcia.irmã de Alaíde. Parece ter conseguido uma grande vitória com a morte de Alaíde e com seu casamento com Pedro. Madame Clessi . e de duas mulheres que estavam presentes enquanto Alaíde se preparava para a cerimônia: a mulher de véu e uma moça chamada Lúcia. Mais tarde. Perto da morte.é a prostituta do início do século XX que povoa a mente de Alaíde. Um homem acusa Alaíde de assassina. com o consentimento dos pais de Lúcia e da inexpressiva mãe de Pedro. Os demais personagens desempenham papéis secundários. que vive atormentada pelo sentimento de ter sido – várias vezes . é quem manipula as mulheres para conseguir o que quer. vestida de noiva. Lúcia . mas consegue manipular as pessoas com seu poder de sedução. pelo seu namorado. agonizando numa mesa de operações. jornalistas correm para se informar e publicar em seus jornais o fato. O principal símbolo da libertação feminina é para ela Madame Clessi. daí o seu fascínio pela liberdade daquela. e dos jornalistas querendo informações sobre a tragédia do atropelamento. na verdade. o marido traidor.

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