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Tique-Taque (Rascunho)

Tique-Taque (Rascunho)

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Rascunho de Tique-taque (Não terminado) - Bruno Alves da Silva (bruno.alves19@hotmail.com)
Rascunho de Tique-taque (Não terminado) - Bruno Alves da Silva (bruno.alves19@hotmail.com)

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01/13/2013

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Bom ciclo!

Estava escuro, mas já está claro. Excruciantemente claro, mas sim,
oh! Mais uma vez estou no meio de areias infernais, no calor
insuportável, arranhando minhas pernas, minhas costas, meus braços,
minha nuca!

Estou nu. Oh, que pena. Onde estão minhas roupas? O que vocês
fizeram com minhas roupas, subos detestáveis? Certo. Não vejo sinal
deles em lugar nenhum, nem de sua caverna para onde me levaram, me
amordaçaram, me roubaram e me despiram. Agora só vejo mais uma vez
o deserto se estendendo por todo meu campo de visão. A repetição, de
novo.

Estou cansado. Deixe eu me libertar.

O sol está se pondo, e as estrelas começam a surgir ao meu redor.
Pequenos pontos de luz e esperança no céu, girando ao redor do azul
enegrecido. A vida está sendo criada, sinto isso, mas não entendo meus
pensamentos.

A areia sob meus pés se abre, criando um funil que me absorve.
Tento me libertar da areia que agora sobre meus pés e minhas pernas.
Deixe eu me libertar! Puxo a areia com meus braços, fugir da armadilha,
escapar da morte!

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As estrelas apagam, e o sol se encontra do outro lado do deserto,
me encarando com sua luz cegante. Olho para o outro lado, e a areia volta
a me puxar. Estou coberto até a cintura, e agora as estrelas caem sobre a
minha cabeça.

A areia está azul, brilhante. Sobe, como uma serpente, e prende
meus braços em seu abraço áspero. Uma estrela cai sobre minha cabeça.
Dói, mas não tanto quanto eu esperava. Uma picada, e a estrela abre um
pequeno furo em minha testa.
Não escorre sangue. Escorre luz!
A luz sai de minha testa e ilumina o lado escuro do deserto. O sol
se encontra do outro lado, mas não preciso dele. Já tenho minha própria
luz, haha, quem é você agora? A areia agora me cobre até o pescoço, mas a
luz de minha testa perfura o azul que o chão áspero impõe sobre minha
visão.

E está escuro outra vez! Agora estou preso no escuro mais uma vez.
Que se faça o som, e o som se fez.
O barulho alto da areia escorrendo enche meus ouvidos enquanto o
céu escuro do deserto abre-se sobre meus olhos. Pego uma pitada da
areia, agora esverdeada, em minhas mãos, e a derramo sobre seu monte
enquanto me levanto.
Bem melhor agora.
– Divertido, não?
Agora há um homem parado na outra extremidade da duna que se
forma em minha frente. Não passa de uma silhueta contra a luz das
estrelas inexistentes, e seu rosto não passa de um borrão na distância.
Parece uma silhueta interessante, coberta de uma aura engraçada. Seus
limites são borrados, se mesclando com o escuro do infinito ao seu redor.
Não há mais areia próxima a ele. Apenas um vazio infinito.
– Você está se dispersando, meu bom homem.
Não estou entendendo. Vou perguntar algo, mas minha boca não se
abre. Meus lábios estão selados, e meus braços atados, como se presos
pela areia inexistente.

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– Não, não é a sua vez de falar.
Um monólogo. Que incrível.
– Você está se dispersando. As coisas não saíram conforme o
planejado, e precisamos dar um jeito nisso se quisermos que tudo saia
conforme o planejado.

Você precisa encontrar o destinatário daquela carta.
Que carta, que carta? O documento que carregava no meu bolso, o
documento que os subos roubaram de mim antes de me largar em um
deserto azul com estrelas cadentes?
Mas, oh, eu não estou no deserto.
– O forte da fumaça, o fruto do fogo.
A silhueta começa a desaparecer, se transformando na escuridão
que a cobre. Sua voz não é nada mais que um eco nas vozes da caverna.
A caverna.
– Procure pelo homem com seus pensamentos em chamas.
Desperto rapidamente com meu rosto ardendo. Sou esbofeteado
com determinação, mas delicadeza, pelo vulto pálido parado à minha
frente. Passo os olhos de cima a baixo e constato que não é um de seus
subos ou sua família, mas apenas o Fantasma que ali me trancafiara. Vejo
em seu rosto uma expressão de urgência, um ligeiro desespero. Está
exasperado, e às beiras de me chacoalhar. Acho que dormi demais.
– Finalmente, você acordou! Ótimo, não temos muito tempo, então
responda minhas perguntas como puder e somente a verdade se quiser
sair daqui agora.

Concordo com um aceno de cabeça, desorientado. Minha cabeça
ainda gira do sonho do qual acabei de acordar encontrar o homem dos
pensamentos em chamas
e demoro um tempo para acenar com a cabeça,
concordando. É mais fácil sentir empatia por um ser de minha espécie, de
fato.

– Certo, certo! Isso nas minhas mãos – mostra em frente ao meu
rosto o documento ilegível que porto – Você tem absoluta certeza de que
não se lembra de como o encontrou?

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Aceno negativamente a cabeça. Estava falando a verdade para você e
sua família. Eu realmente não lembro de
nada.
– Pense bem. Você tem certeza disso? Nem ao menos uma pista do

que é?

Não! Acordei com isso em meu bolso, e nem meu próprio nome me lembro.
Estou tentando achar alguém que o leia para eu saber o que aconteceu comigo.

Ele acena com a cabeça, rápido. Certo, ok. O Fantasma puxa uma
faca primitiva, uma lâmina rudimentar talhada na pedra, e aproxima-se
de mim. Recuo rápido, como um cão indefeso prestes a sofrer as
consequências de um jornal mastigado ou uma roupa arruinada.
Fecho os olhos e espero pela dor que nunca vem. Sinto as cordas
que prendem meu corpo afrouxarem e, lentamente, cederem à lâmina de
meu captor, que realiza o trabalho sem muita cautela, me fazendo
pequenos raspões enquanto me liberta do cárcere.
– Levante-se! – sussurra o rapaz, urgente, com um toque de raiva,
enquanto levanta-se e joga algo em cima de mim. O documento cai com
suavidade em meu colo. O Fantasma vira-se para trás, para mexer em
algo cuja minha visão não alcança. Olho para os lados, desorientado.

O quê?

– Vamos! Não temos tempo, porra!
Mexo meu corpo, sentindo o alívio de estar com meus movimentos
mais uma vez livres. Levanto-me mais devagar do que o meu parceiro
deseja, reacostumando-me aos movimentos de meu corpo. Alongo os
músculos do braço e pernas com a agilidade que tenho, para em seguida
guardar o documento no bolso ao qual pertenço e olhar para a cara de
meu antigo cárcere, agora agoniado.
Ele olha de relance para mim, com sua sempre presente urgência, e
mexe nos conteúdos de uma bolsa rudimentar no chão. Em seu rosto,
uma agonia que ainda não entendo.
– Ótimo, de pé! – O Fantasma prende a bolsa em seus ombros. Ela é
feita de um tipo de couro que parece áspero ao olhar, uma cor escura

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desgastada pelo tempo – Certo, olha, não tenho tempo para explicar, mas
precisamos sair daqui, certo?

Já estava na hora, acho.

– Então me siga, de perto! A última coisa que quero é que você se
perca nessas galerias, seria uma merda tentar te reencontrar.
Aceno com a cabeça mais uma vez, concordando. Mexo em meus
bolsos, o volume dos papéis bem nítido em minhas calças. Ele se coloca a
caminhar rápido à minha frente. Tento seguir seus passos, mas minhas
pernas ardem com a inércia a qual fui submetido nos dias anteriores.
Minhas juntas queimam da inatividade, e a caminhada torna-se difícil a
princípio.

Conforme recomeço a andar – devagar, para o crescente desespero
do Fantasma – sinto a fome de dias me atacando. Não fui bem alimentado
durante a minha feliz estadia na Morada Subterrânea dos Habitantes do
Subsolo, mas o que comi me manteve durante os dias em cativeiro.
Preciso de mais, porém. Mais ou vou definhar.
Estou com fome, pronuncio em palavras sofridas para o rapaz que
anda à minha frente. Ele abre a bolsa presa ao bolso, mexendo nos
conteúdos por alguns momentos. Olha para mim e me joga um pedaço de
algo que eu não consigo bem definir o que é. Sólido, ligeiramente pastoso,
como um pão frágil.

– Coma um pouco. Sei que é difícil se manter com o que tinha aqui,
mas temos que racionar um pouco até chegarmos à vila. Vamos, por
favor!

Vamos à vila?

– Sim, para onde acha que estamos indo? Pro fundo da areia?
Porra, cale a boca, abocanhe um pedaço do tambo e por favor ande.
Ando com o Fantasma por vários metros. Quilômetros, talvez? Meu
senso de medição, minha noção do tempo, qualquer sentido que ainda
me resta deixa meu corpo devagar enquanto retomo as dores do cansaço,
o poder da sede e da fome sobre meu corpo. O mais rápido que consigo,
caminho atrás do Fantasma como um morto-vivo em putrefação.

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Não duvido que consiga simular o cheiro da morte. Andar por dois
dias não faz muito bem à higiene, digo de passagem. Não importa, não
por enquanto. Manter-me vivo.
Enquanto caminho pelas galerias escuras – direita, esquerda, frente,
ignorar, direita mais uma vez, esquerda. Estamos subindo, estamos subindo, mas
não consigo ainda ver a luz do sol. Espere um pouco mais, espero um pouco mais

– sinto-me como se estivesse mais uma vez na companhia do meu
pequeno boneco-relógio. Mash, o Androide Sem Mestre, agora jaz em
peças em algum canto daquelas galerias. Seu mecanismo, desmontado.
Sua beleza, arruinada.

Apenas uma pilha de engrenagens sem nexo. Tique-taque, não mais.

Tenha um bom ciclo.

Assim como o robô, o albino a minha frente se recusa a responder a
meus questionamentos. Apenas continua focado no caminho a frente,
seus olhos virando de um lado para o outro como se tentasse não se
esquecer do caminho. Fico surpreso. Já não veio aqui outras vezes, me
visitar? Não há dificuldade, desta vez.
Talvez ele esteja fingindo, para evitar minhas perguntas. Continua
andando rápido, me apressando com sibilos agressivos. O Fantasma é
alto, mas não intimidador. Sua pele destaca-se contra a escuridão da
caverna, o pálido da neve, e seu porte raquítico. Esguio.
Sinto a textura da rocha ao meu redor mudando conforme
caminho. Não é mais o uniforme das galerias, mas um heterogêneo das
pedras, amontoadas e pontudas. Meus sapatos em estado detestável, diga-se
de passagem
me protegem de cortar os pés no solo agora arenoso do
subsolo.

Estamos subindo para a superfície. De volta para o claro, para o calor, para
o frio do deserto. As areias claras, as dunas nas quais me deixaram. Adeus,
cavernas.

O semblante do Fantasma me parece mais aliviado, e continuamos
a subir. Eventualmente, vejo um ponto de luz formando-se no horizonte.
Conforme me arrasto – oh, caminhar é sofrido – pelo pedregoso túnel

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derradeiro, sinto a pontada de esperança. Literalmente, a luz no final do
túnel.

Estamos chegando perto.
– Para a luz, amigo. – o Fantasma sorri, e seu passo está apertado.
São longas pernas, e agora quase corro para acompanhá-lo. Meus
músculos inferiores doem como o inferno, mas sinto que nossa
peregrinação não demorará muito a cessar. E enfim, teremos paz, não?
Talvez!
Com a cabeça baixa, chego ao final do túnel. Sinto o calor dos raios
de sol em contato com meus cabelos. Seguro-me na borda da caverna que
acaba em túnel enquanto me arrasto para o ar livre novamente. Sinto o
cheiro da areia. Piso para fora, e o calor engloba o meu ser novamente.
Não tanto calor. Está anoitecendo.
O Fantasma se coloca logo atrás de mim, na entrada do túnel,
escondido na sombra. Senta-se em sua borda, devagar, evitando olhar
para cima, e mexe no conteúdo de sua bolsa. Olho para ele, indagando
com a expressão.

– Espero que não se incomode. Entenda, não fui feito para suportar
o sol do deserto – ele tira conjuntos de tecido encardido de dentro da
bolsa.

Devagar, coloca o recipiente ao seu lado e encobre a cabeça com o
tecido. Amarra as pontas e dobra de modo a formar um quase-turbante.
Passa o resto por cima da cabeça, formando uma manta parda que o
cobre como uma túnica áspera. É uma figura ligeiramente cômica,
percebo, e esboço um sorriso.
– Não deboche! – o albino sorri de volta, sabendo que está
parecendo engraçado. Ligeiramente corado, levanta-se e recoloca a
mochila – Certo! Estamos aqui fora, meio caminho andado. A vila não
está longe. A qualquer momento devemos estar vendo suas entradas, e lá
podemos conversar direito... se tudo der certo.
Você é quem manda, chefe. Digo. Acho que soo meio arrogante. De
qualquer forma, conforme ando com ele, me sinto bem melhor. Ainda

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com fome, ainda cansado, mas a civilização está próxima. E, talvez, meus
entes.

Meus entes, por favor. Onde estão aqueles que me amam?

Suspiro, abaixo a cabeça, e passo as mãos em meus cabelos. Estão
quentes. Quero descansar. Mas andamos. “Evite falar, poupe suas
energias para quando chegarmos na vila”, é o que o Fantasma me diz.

Manter-me calado, mas andante. Andar. Uma constante.
Sou um andarilho sem memórias.
O ritmo de passo está consideravelmente mais relaxado. Agora que
deixamos as galerias dos subos para trás, ele já não parece mais
exasperado. Talvez fosse só o desespero de sair correndo com o
prisioneiro, para longe da família que o acolhia por grande parte de sua
vida.

Mas, oh, o Fantasma não chora. Olho para o seu rosto, e sua
expressão está rígida, segurando algo. Talvez tema que desabará quando
fraquejar. Mostra sinais de ressentimento em sua expressão, e posso
sentir uma certa pontada de culpa em seu olhar quando ele é dirigido a
mim. Talvez me culpe por ter de abandonar sua família. E eu ainda estou
completamente alheio aos motivos, mas, bem. Isto convém aos meus
interesses. Posso ir até a vila com ele, e restaurar lá minha vida, ou uma
pista para onde fica minha real moradia. Até lá, o Fantasma me serve
bem. E enquanto eu sirvo bem a ele, estamos de acordo.
Ao menos até eu descobrir o que ele pretende com aquele papel em
suas mãos. Não faço tanta questão de manter o documento comigo.
Talvez eu seja importante, talvez não. Talvez seja apenas um documento
qualquer, o recibo de uma mercadoria, o mapa para uma barraca de peixe
cru.

Talvez não seja nada demais.
Oh, duvido.

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– Veja só! – o Fantasma aponta para os pontos de luz que se
destacam na escuridão do deserto, sorrindo – A Vila Matren está logo ali.
Devemos estar lá em menos de duas hora, se nos apressarmos.
Quando estivermos na porta, quem irá nos receber? – pergunto e sorrio,
em um misto de esperança e curiosidade.
– Uh... – ele hesita – é questão de conhecer as pessoas certas.

E você as conhece?

– Eu espero.
Levanto as sobrancelhas, indagando, mas o Fantasma ignora o
gesto. Volta a andar. Nas últimas horas de caminhada, nada demais
aconteceu. Pés no chão, pegadas na areia.
Havíamos parado por dez minutos para descansar. Sentamos e o
Fantasma tirou de sua bolsa mais petiscos como o que havia me dado na
caverna. Uma quantia razoavelmente maior, desta vez. Supostamente

“estávamos chegando”, e o racionamento podia ser feito de modo mais

relaxado. Comi com vontade, e o pão seco logo despertou minha sede. Ele
pegou um cantil de couro, água das galerias dos subos. Havia um gosto
ligeiramente metálico naquela água, mas bebi com gosto, assim como ele.
O Fantasma observava meus gestos, percebi, com uma curiosidade
interessante. Não estava acostumado a conviver com pessoas que não sua

“família”, então a experiência de viajar com outra pessoa era nova para

ele.

Perguntei se não tinha conhecido ninguém durante seus anos na
vila, antes de ser mandado para o deserto. Senti que fui insensível, mas as
palavras escaparam de minha boca no momento. Ele não se mostrou
constrangido, não. Contou-me que fizera alguns amigos no centro
educacional, como as crianças normais, e conviveu normalmente – apesar
de ser discriminado pela maioria de seus colegas – até a segunda parte de
sua infância, quando foi por fim enviado para fora. Expulso.
Senti ligeira compaixão pela infância de meu parceiro. Ele me
perguntou, sentindo-se mais à vontade, coisas sobre mim. Não soube
responder a maioria de seus questionamento, mas detalhei toda a minha

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vida a qual me lembro: Do momento em que acordei no deserto em
diante. Ele se mostrou interessado. Não sei se dizer se mero interesse
cortês, ou se real curiosidade. Na realidade, não me importo.
Perguntei, por fim, por que ele havia me tirado das galerias. Por
que havia abandonado os subos. Seu semblante tornou-se sério, e ele
comentou, entre resmungos, sobre o documento no meu bolso. Que ele é
importante. Que, se estiverem certos, pode mudar ambas as nossas vidas.
Ele disse que explicaria melhor, depois. Talvez, com ajuda de
algumas pessoas de Matren. Os subos não entendem.
Agora andamos devagar, ambos cansados pela caminhada. Ele
ainda traja suas roupas de viagem, o manto e o turbante que lhe dão uma
aparência caricata, cômica, a qual eu já me acostumei. Não pude trocar
minhas roupas ainda. Uma camisa azul-clara, de tecido fino, que deixa
meus braços serem queimados contra o sol. Calças escuras e grossas,
seguradas por suspensórios em meus ombros, que já estão ficando
frouxos. O elástico se alarga. Pretendo trocá-los assim que chegar em
Matren, sim, mas posso conviver com minhas calças por mais algumas
horas de caminhada. Meu sapato está desgastado, comento, e vejo que os
de meu parceiro estão ainda mais. Julgo que sejam bem velhos.
Estamos chegando!
Consigo já identificar os detalhes da silhueta da Vila Matren. A
localização é toda cercada por grades e paredes metálica. O Fantasma
comenta ao meu lado que servem para protegê-las de criminosos e
criaturas do deserto.

Criaturas do deserto? Não vi nenhuma. Levanto as sobrancelhas
novamente, e estou curioso.
– Sim, a maioria foi erradicada deste lado do Manaten antes do
meu nascimento, foi o que aprendi. E, ainda bem. Eles teriam tornado
nossa caminhada muito mais tensa.

Bem pensado.

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– Agora, por favor... vamos chegar, rápido. – a respiração do
Fantasma está pesada, e estamos próximos. Vamos, vamos, podemos
chegar?

Um passo após o outro, estamos em frente à entrada da Vila
Matren. É um portão levadiço, aberto pelo outro lado, deduzo. Funciona
através de um intricado sistema de engrenagens tique taque tique taque e
depende de um porteiro para abri-lo, de dentro. Passo a mão no portão,
sentindo a superfície áspera do metal. Velho, enferrujado. Não muito
confiável para manter as criaturas de fora, penso em meus botões, mas
tenho a sensatez de não deixar meus pensamentos transpirarem para a
boca. Não, o Fantasma parece ter um grande apreço por sua cidade natal,
apesar do que com ele havia sido feito.

Estamos aqui. E agora?

– Agora...
– Alto! – uma voz se faz ouvir do outro lado do portão. Uma
pequena tira de metal desliza para o lado, revelando um par de olhos
femininos – Identifiquem-se!
O Fantasma sorri ao ouvir a voz, e sinto-me aliviado. Eu, ao menos,
não saberia me identificar. Como as coisas mais triviais são dificultadas
pela sua falta de memória, não?
– Cit, sou eu. – o Fantasma diz, desenrolando seu turbante. Há uma
certa dificuldade em desembaraçá-lo de seus cabelos claros – Não vai me
reconhecer?

– Ah! – a moça do outro lado solta uma golfada de ar em suspiro,
como se perdendo a tensão – É difícil não te reconhecer, Ket.
– Desculpe aparecer a essa hora, Cit. – fala ele, sorrindo. Ou os dois
são próximos, ou o jeito com que fala parece um flerte. Ou ambos.
– Tudo bem, mesmo. Eu não pretendia dormir muito. – ambos riem
um pouco, e me sinto jogado de escanteio. “Boiando” – Espera um pouco,
me deixe abrir aqui.

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Eu e o Fantasma damos um passo para trás enquanto o portão
levanta-se. A moça do portão, a quem o Fantasma se refere como “Cit”,
abre a entrada da Vila Matren para nós. Quando cessado o som de
engrenagens (não um tique-taque mas parecido, não é?), posso ver a guardiã
do portão.

Sua pele é escura, mas seus olhos brilham. Sinto-me como se vendo
o céu estrelado, em forma antropomorfizada. Seus cabelos são escuros
como a pele, curtos – tanto quanto os meus – e cobrindo a cabeça em
ondas. Usa roupas de um tecido aparentemente rígido, verde. Tiras
marrons de couro cobrem regiões de seu corpo, braços e abdome, como
forma de proteção. Óculos negros estão presos ao cinto, junto a um
revólver envelhecido no coldre. Uma segurança.
Ela se aproxima de mim, colocando o dedo anelar e médio sobre o

ombro esquerdo.

– Saudações. Cithena M-Catra.
Respondo a saudação, colocando os mesmos dedos sobre o mesmo
ombro. Saudações, digo, e paro aí, envergonhado. Ela vira-se para o
Fantasma, e repete o cumprimento, sem dizer o nome. Ele faz o mesmo,
sorrindo.

– O que lhe traz de volta a essas bandas, Ket? Os subos estão te
mandando para falar com o Chefe outra vez?
– Não dessa vez, Cit. – coça o queixo, em um sorriso envergonhado
– Não. Dessa vez, eu estou aqui para discutir uns... negócios.
– Negócios com quem? – ela cruza os braços, interessada.
– T-Khale.
– O padre? O que você precisa ver com o padre?
– Ahn... – ele parece constrangido. Corado – Tem a ver com o que
ele ensinava pra gente na infância, mas só queria tirar umas dúvidas, ah,
Cit, pare com isso.

Cithena, a moça guardiã do portão, está rindo. Um riso debochado.
– Seus sonhos de novo, Ket. Tudo bem, vá dormir no abrigo e fale
com T-Khale amanhã. Até lá... me apresente o seu amigo.

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Ela vira-se para mim, de supetão, e levo um susto. Oops.
– Ele é quem tem o que eu preciso mostrar pro padre. Ele se perdeu
não muito tempo atrás no deserto, e minha família o achou. Ele diz que
perdeu a memória.

– Perdeu a memória, foi pro deserto e se meteu com os subos.

Grande dia, ahn?

Nem me fale.

– Enfim, você e o Ket podem ficar no abrigo. Tem uma política de
uma semana, depois você tem que começar a trabalhar se quiser manter
moradia. Aí tem o registro, e essas coisas, mas é só pra quem pretende
morar na vila. Vocês pretendem ficar quanto tempo aqui?
– Ainda não faço ideia. Depende de nosso encontro com o padre
amanhã – o Fantasma olha para mim, pedindo paciência com o olhar.
Encontro com padre, é? Ele vai me explicar.
É bom que explique.
– Bem... é. Vamos lá, Cit, obrigado pela recepção.
– Não há de quê, Ket. Não faça nada de errado, pra eu não precisar
chutar sua bunda de novo. E tome conta do seu amigo aí.
Ela sorri para mim e para ele, como um meio de despedida.
Despeço-me com o cumprimento padrão, com os dedos no ombro. Viro-
me para ir embora. Cithena diz, em um misto de deboche e incentivo:
– Boa sorte caçando o Paraíso.

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Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.

Desperto, pés no chão. Abaixo-me para não bater com a cabeça
diretamente na parte superior do beliche. Ouço os sonoros roncos do
Fantasma vindo da parte de cima. Seu sono é pesado. Levanto-me,
espreguiçando todo o cansaço para fora do corpo. A cama na qual havia
dormido, apesar de rústica, havia me feito durante a noite o que as areias
do deserto e o chão pedregoso da caverna dos subos não conseguiram.
Eu estou descansado. Meus braços e pernas ainda guardam dores
do esforço exagerado ao qual fui exposto nos dias anteriores, mas tais são
apenas uma sombra do que estavam sendo no dia anterior, e me sinto
aliviado. Muito melhor, de fato.
Antes de dormir, havia sido servido a mim uma refeição modesta,
apesar de razoável – e com certeza melhor do que o pão maleável dos sub
os. Eu comi com vigor, esfomeado. Bebi um pouco d’água. A água ainda

está escassa, haviam me dito. Estamos na estação da seca, então não
podemos nos dar ao luxo de gastar água. Provavelmente ainda mais com
forasteiros, penso, e entendo sua atitude.
Apesar disso, pude me lavar brevemente. Não necessariamente
com água, mas me serviram uma determinada erva, não lembro
exatamente seu nome, que ao ser friccionada contra a pele, eliminava
impurezas. O contato não foi de todo agradável, mas o alívio de me

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encontrar limpo compensou o desconforto inicial. Por fim, fomos
colocados em um quarto aleatório e dormimos.
O quarto do abrigo no qual eu e meu colega fomos alocados no dia
anterior era precário, a meu ver, mas eu não estou nas condições de
reclamar. Há apenas o beliche colocado no canto, e uma pequena mesa de
metal no canto oposto. Ando em direção a mesa, casualmente. Não tenho
o que fazer até o meu colega acordar, quando, segundo ele, todo o
objetivo de nossa fuga seria revelado.
Colocado sobre a mesa está um pequeno relógio, fonte do som que
me acompanhara durante toda a noite. Curvo-me sobre a mesa,
examinando o pequeno de perto. Seu interior é exposto, e posso ver todo
o mecanismo que resulta no movimento dos ponteiros. As engrenagens
são de cores diferentes. Algumas carregam um bonito tom de dourado,
enquanto outras apresentam o tom cinza enferrujado de metal velho. As
engrenagens dos segundos giram rápidas, umas menos. Aproximo o
ouvido do mecanismo, e ouço seu tique-taque. São vários tiques e vários
taques simultâneos.

Tique-taque(tique)-tique-taque(taque)-tique(taque)-taque(tique).

Um ritmo a princípio confuso, mas regular.
Um lindo som.
Sorrindo, afasto-me do relógio. Não tenho muito para fazer, de
fato. Olho para o Fantasma, coberto de sono. Não deve fazer mal eu sair
para explorar, não. Talvez alguém aqui me conheça, afinal de contas. Sim,
eu não preciso ser um forasteiro.
Abro a porta, que me parece ser feita de um latão. O ranger dela é
engraçado, noto, enquanto deixo o quarto. Estou em um corredor regular,
com várias portas de latão como a acabo de fechar. Olho para os dois
lados. Não há ninguém. Dando de ombros mentalmente, ando em direção
ao setor melhor iluminado do corredor. A porta na extremidade está
entreaberta, e bisbilhoto para o outro lado.
Um razoavelmente populoso cômodo se projeta frente a minha
visão. É o que imagino ser uma sala de recreação, ou mera interação

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social. Há várias pequenas mesas e cadeiras de metal espalhadas pelo
salão, mas não há comida ou bebida. Apenas pessoas sentadas,
conversando ou participando de jogos que eu não pareço conhecer.
Abro as portas e entro no cômodo, tentando não mostrar timidez.
Passo os olhos pelos presentes. Alguns viram o olhar para mim, mas não
se demoram por muito tempo. Considerando que estamos todos em um
abrigo, não parece difícil acreditar que surjam caras novas por ali
ocasionalmente. A maioria logo retorna a suas conversas ou jogos.
Dou passos a frente, andando entre as mesas e cadeiras, fazendo
apenas um breve reconhecimento do local. Uma mulher de cabelos sujos
me cutuca durante meu passeio. Está sentada em uma mesa circular com
dois homens. Um deles masca uma erva, mastigando sem muitos modos.
Outro, percebo, não tem um dos olhos. Este me encara, com um sorriso
torto. Seus rostos estão cobertos pelo que imagino ser fuligem, ou
meramente cinzas. Não parecem em bom estado, e imagino que se

recusaram a tomar o “banho de erva”ao qual me submeti.
– Sabe jogar, colega? Precisamos de mais um.
Noto a mesa. Cartas e pedras estão distribuídas em uma ordem
que, para mim, parece completamente arbitrária. Observo por alguns
segundos, mas não consigo entender a lógica. Aceno negativamente com
a cabeça, pedindo desculpas. Ela parece desapontada, mas acena de volta
e volta-se ao seu jogo com o Mascador e o Caolho. Mais pedras e cartas
são colocadas na mesa, e ela parece estar se divertindo. Levanto as
sobrancelhas, mas me afasto devagar.
Sento-me em uma das cadeiras dispostas pelo salão, resolvendo
meramente observar o ambiente ao meu redor. Ele me parece estranho,
apesar de tudo. Meramente um problema de memória, concluo, e recosto-
me. A cadeira não parece ser resistente. Melhor não aplicar muito peso
sobre o encosto.

O ambiente do lugar me parece, no todo, sujo. As pessoas são
modestas, quando não inteiramente miseráveis. Faz sentido,

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considerando que ali residem os sem moradia. Posso parecer esnobe, mas
não me sinto a vontade.

Há um homem, sozinho como eu, em algum ponto do outro lado
do salão. Está usando um par de óculos negros. Não sei dizer se está
dormindo, se está acordado, ou se é cego. As pessoas ao seu redor não
parecem notar a sua existência. Gritam umas com as outras, rindo.
Debocham sobre os perdedores da última partida do jogo, fofocam sobre
as próximas mulheres que darão a luz à próxima geração. Mas este
senhor continua observando o vazio, olhos escondidos e expressão
neutra.

Não está dormindo. Uma observação mais precisa me faz perceber
que bate os dedos nas pernas da cadeira, de forma rítmica. Observo suas
mãos. Tique-taque. O homem sorri.
Pigarreio e encosto-me melhor na cadeira, tentando parecer
natural. Não, suponho que não tenha parecido. O homem de olhos
cobertos caminha entre as mesas e as pessoas barulhentas, como eu havia
feito há segundos atrás. As pessoas ao redor parecem evitar esbarrar com
ele, entretanto, olhando para trás conforme ele passa. Medo? Respeito?
Caminha em minha direção, percebo, e me sinto ligeiramente
apreensivo. Provavelmente notou meu interesse por sua figura quieta.
Continua batendo com os dedos em sua coxa, percebo, conforme ele
anda. Tique, taque, tique, taque. Ele senta-se em uma cadeira próxima a
minha, mas sem olhar na minha direção. Continua encarando o vazio a
sua frente, sorrindo.

Sua pele é parda, pendendo para o tom mais escuro. Os cabelos
estão ficando grisalhos, e as rugas já mostram a idade avançando sobre o
senhor. O nariz está danificado, percebo de uma análise mais próxima.
Falta um pedaço da ponta, como se a cartilagem houvesse sido rasgada.
– Barulhentos, não é? – o homem comenta. Ele não olha para mim.
Continua a observar o vácuo. Não sei se devo responder.
– Estou falando com você, branco – ele diz, e agora sei que é

comigo.

48

Uma nota interessante. Todas as pessoas que eu havia visto até
então, excluindo a mim mesmo e ao Fantasma, eram de uma cor de pele
parda ou completamente negra. Efeito do sol constante batendo sobre as
suas peles em um quesito evolucionário, eu suponho.
Às vezes eu me pergunto como chego a estas conclusões e não me

lembro do meu nome.

Ah, sim. Sim, barulhentos. Digo, meio desconcertado. Ele não me

olha.

– Sua cara é nova por aqui.

Ah, sim. Cheguei ontem.

– Estou sabendo. As notícias correm, rápidas, pela vila. Ainda mais
uma pequena como esta. Forasteiros não são raros, mas as visitas do
Fantasma só acontecem de alguns anos em anos.
Conhece o Fantasma? Pergunto, curioso por saber mais sobre a figura
que até agora não conheço decentemente.
– Não mais que todo mundo por aqui. – o Homem dos Óculos para
de batucar a cadeira com seus dedos, e pega algo do bolso. Uma erva,
percebo, e ele a coloca na boca. Masca. – Desculpe. O Fantasma. Aparece
a cada três anos, pede para falar com o Chefe, e some alguns dias depois.
Ele não apareceu da última vez, e todos achamos que ele havia parado de
vir.

Não respondo.
– Mas agora as coisa foram diferentes, né? Ele veio acompanhado, e

isso é novo.

Continuo em silêncio, esperando pela pergunta inevitável, que logo

chega.

– Mas quem é você, meu rapaz?

É uma história engraçada.

– Uma risada cairia bem – ele sorri, mastigando a erva. O som me

incomoda.

49

Eu... bem. Acordei no deserto sem lembrar de nada, e ele me achou. Não
acho que ele acreditará na história. Ele levanta as sobrancelhas,
interessado ou descrente.
– Mas por que ele te traria aqui?

Eu não sei. Ele não quis me contar, ainda.
E quem é você?

– Eu? Ah, ninguém demais. O povo daqui me chama de Cego,
apesar de eu não ser. Consigo enxergar muito bem, mas é a impressão
que os óculos passam.

Se consegue enxergar tão bem, por que não olha para mim enquanto

conversamos?

Ele dá de ombros.
– Gosto de prestar atenção no que acontece ao meu redor. É um
bom jeito de evitar surpresas indesejadas.
Concordo com um aceno de cabeça, me sentindo um pouco
ofendido mas sem entender completamente os motivos. O Cego, apesar
de tudo, me deixa terrivelmente desconfortável. Não sei dizer se é por
causa do fato dele não me olhar, de esconder seus olhos, ou um conjunto
de obra.

Só me passa uma má sensação.
Bem.

Bem... preciso voltar pro quarto, se não se importa.

– Mande um abraço ao Fantasma por mim. – ele sorri e dá um tapa
nos meus ombros, de leve, como se querendo indicar camaradagem. Em
um misto de constrangido e atordoado, caminho de volta ao salão.
Acordar o Fantasma. Já passou da hora de conseguir umas

respostas.

Estou sentado junto ao Fantasma, frente à mesa do quarto. Ele
mexe em sua pequena bagagem enquanto observo o mecanismo do
relógio a minha frente girando. Tique-taque-tique-taque, como sempre o
fez.

50

Há não mais do que dez minutos, havia eu retornado do salão de
confraternização, ainda desconfortável da pequena conversa com o Cego,
e acordei o Fantasma aos empurrões. Interrompi seus sonoros roncos. Se
mostrou confuso a princípio, como se tivesse esquecido o lugar onde se
encontrava.

Logo, porém, um “Ah” deixou sua boca e agora, aqui estamos.
Ele tira de sua bolsa um pequeno livro. O livro parece duas vezes
mais velho do que o seu dono: As páginas amareladas tem a aparência de
que irão se desfazer em suas mãos. É encadernado em couro, marrom
desbotado e rasgado. O tempo não lhe foi gentil.
Como quem não quer nada, o Fantasma se coloca a folhear o livro,
e pequenas frações de papel se prendem em seus dedos. Alheio a isso,
continua a virar as páginas até chegar em uma em específico. Sorrindo,
vira o livro para mim, com um olhar de esperança.
Puxo o livro para perto de mim, com cuidado – não quero danificá-
lo mais do que o tempo e o descaso já fizeram. Em uma das páginas, há
texto que não consigo decifrar. Se já os caracteres me são meramente
familiares, as palavras formam algo que simplesmente não tem nexo para
mim. A página da direita, entretanto, julgo ser o motivo pelo qual a
albino me mostra o livro.
É uma ilustração, marcada à nanquim no papel áspero, do que
julgo ser um lugar. Está ligeiramente borrada, mas consigo identificar o
que me parecem árvores em um campo. Montanhas projetam-se ao
fundo, e por algum motivo elas me parecem brilhar.
No centro do campo, há um homem. Ele é alto, quase do tamanho
das árvores ao seu redor. Está ladeado por duas mulheres e dois homens,
mais baixos que ele. Parecem venerá-lo como a um deus, e só consigo
imaginar que ele seja o dono do lugar retratado.
Olho para o Fantasma, se entender o propósito do livro, mas sem

abrir a boca.

– Vê a imagem? – seus olhos faíscam.

Sim, vejo. O que há de tão importante...?

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– Erm, olha. Quando eu ainda morava aqui, antes de – ele para por
um momento, hesitando – ser expulso para o deserto, éramos levados a
um culto semanal.

Aceno com a cabeça, indicando que continue.
– Então. É um culto muito... significativo para mim. O Padre T-
Khale ministrava as celebrações. Veja, segundo o que eu aprendi, o
Mundo foi criado por vários deuses que, depois de criar nosso Mundo, se
retiraram para seu lugar. Alguns ficaram aqui e ajudaram o Mundo a
prosperar.

Certo... e?

– Espere eu terminar! Enfim, esse lugar para o qual os deuses foram
era um tipo de jardim ladeado por montanhas de ouro. Só que, dizem as
lendas, os deuses foram afetados por um tipo de doença, uma praga que
só afetava os membros de sua própria espécie. Essa doença se espalhou
por tanto o Jardim quanto o Mundo.

E não humanos.

– Sim, por isso que estamos aqui. Mas enfim, os deuses
sucumbiram à doença, e no final das contas no Mundo só restaram os
humanos e o Jardim ficou vazio, apenas com resquícios dos poderes dos
deuses. O Mundo... bem, ele seguiu em frente, mas os humanos não
souberam ter o sucesso dos deuses em deixá-lo bom, e ele se tornou o
deserto que é hoje.

E o Jardim?

– Esse é o ponto! O Jardim está vazio. Sabe, há pessoas que até hoje
procuram pelo Jardim, que chamam de Paraíso. Que em algum lugar do
nosso Mundo há uma travessia que nos leva ao Paraíso se puxarmos as
cordas certas. Mas até hoje, ninguém que o foi procurar voltou com
sucesso. Ou eles voltaram de mãos vazias, ou nunca voltaram. Podem ter
achado o Paraíso, apesar disso... e não voltado porque ele é bom demais!

Tá, mas o que essa história tem a ver comigo e você fugindo dos subos?

Pergunto, impacientemente. Não estou aqui para ouvir a sua Bíblia,
Fantasma.

52

– Quando eu te encontrei, você tinha uma carta e um mapa. Não
consegui ler a carta, assim como não consigo ler este livro. Mas eu
consigo identificar palavras que conheço, sim, e tenho certeza de que vejo
as palavras-chave que me levam a crer que sua carta e seu mapa se tratam
sobre a própria localização do Paraíso! – ele parece animado. Encara-me
com seus olhos azuis e claros como o branco de sua esclera. Eles brilham
de animação.

Levanto as sobrancelhas. É?
– Por isso quero falar com T-Khale. Ele sabe ler, e poderia nos dizer
o que fazer depois disso. Já pensou, encontrarmos o Jardim? Nunca mais
precisaríamos nos preocupar com comida, com bebida, com companhia!
Há resquícios dos poderes divinos lá, que segundo as histórias nos
deixariam quase onipotentes dentro do Paraíso. Poderíamos ter o que
quiséssemos!

Desculpe-me, mas... eu não estou interessado no Paraíso, não agora,
Fantasma. Eu só quero lembrar de quem sou. Qual meu nome.

Ele parece desconcertado, e vejo seus olhos passarem de um lado
para outro, como se pensando em uma resposta.
– Ok, então... pelo menos me siga até o T-Khale. Ele poderá ler sua
carta, e lá deve ter algo pra você lembrar quem é. Aí decidimos o que
fazer, que tal?

Não tenho contra o que argumentar. Se ele sabe ler, vale uma visita
minha. Então, poderia deixar o Fantasma procurar seu Paraíso, seu
Jardim, enquanto eu volto para a minha vida. Sinto um pouco de pena do
homem, do rapaz que procura achar uma lenda inexistente.
Bem. Azar o dele.

Pode ser, então. Visitamos o padre, aí decidimos o que vamos fazer.

Ele sorri.
Vamos, então.

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Devo admitir, a Vila Matren é extremamente mais bonita à luz do

sol.

Eu e o Fantasma deixamos as portas do abrigo para trás quando o
relógio atingiu a metade do ciclo. Ao andar pelas ruas da Vila, uma
camada de admiração me envolveu.
Ora, não escondo de ninguém que acho o ticar dos relógios, o girar
das engrenagens fascinante. Os mecanismos que compõem um
instrumento daqueles merece de fato a minha admiração.
A Vila Matren, entretanto, é composta majoritariamente por este
tipo de trabalho. Parece ser uma comunidade movida pela força da corda,
pelo girar das chaves que mantém as engrenagens rodando em seu lugar.
Matren, apesar do que eu imaginava no dia anterior, tem certo
movimento. Feirantes mantém suas barracas na rua, vendendo carnes de
qualidade duvidosa. Suas expressões, com rostos cortados e armas em
coldres, o que me levam a crer que caçam as carnes que vendem, são
ainda mais duvidosas.

Interessante notar, apesar disso, que tudo o que envolve algum tipo
de maquinaria para funcionar é movido à corda. Há pequenos bonecos-
relógios, robôs como Mash que encontro pelas ruas. Eles trombam um
nos outros, cada um de um tamanho diferente, sua lataria irregular
reluzindo ao sol. Pedem desculpas quando esbarram em alguém, com
uma voz suplicante mas artificial. Sua chave de corda nas costas gira

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conforme andam, e o tique-taque-tique-taque é ouvido quando chego mais
perto. Há pequenos rádios colocados frente às feiras, no qual consigo
ouvir vozes narrando acontecimentos, talvez. Ao chegar mais perto, ouço
o girar das engrenagens por dentro da tecnologia, e sorrio.
Os cidadãos me olham estranho conforme passo, mas ainda de
modo mais estranho para o meu acompanhante. O Fantasma não é de
todo desconhecido, e cada visita do tal parece ser acompanhada de mau
agouro.

Apesar do modo com que me olham, os analiso com fascinação. Os
que usam óculos, o fazem de modo diferente. Não são como óculos que
eu julgaria “Normais”, mas são várias lentes sobrepostas, de tamanhos
diferentes, como um microscópio. Suas armações são majoritariamente
redondas, e fico com vontade de pegar um para analisar seu efeito sobre
os olhos.

A etiqueta não me permite.
Conforme ando, olho para as construções. São lindas, sim. A
maioria é composta de pura rocha, concreto, ou algo similar. Mas há
algumas que são encobertas por uma carapaça de metal que observo com
estranheza.

– Está vendo? – o Fantasma me aponta para frente. Olho para a
direção, e vejo uma torre. A torre é de um metal irregular como as
construções e os robôs, mas o que me chama a atenção é seu topo. Há um
imenso relógio aberto, suas engrenagens girando frente a meus olhos.
Dourado, prateado. Reluzente, enferrujado.
Um bom e grande relógio.

Tique-taque.

– Você realmente parece gostar de relógios, hm? – o Fantasma sorri,

debochando.

Bem, pelo menos... não estou usando um turbante.

Ele cora. Eu rio. Ele ri.
Hora, todos bem.

55

– A torre do relógio fica logo acima da paróquia de T-Khale. É para

lá que estamos indo.

Vou poder ver o relógio de perto, então?

– Se você se comportar. – ele sorri novamente.
Ora, ora. Vamos.

O padre T-Khale, como o Fantasma o chama, mora em uma
pequena residência atrás de seu templo. Disse-me o Fantasma que é
naquele pequeno local, uma cabana simples de três ou quatro cômodos,
que todos os padres da Vila Matren vivem. Quando um por fim junta-se
ao além-túmulo, outro toma seu lugar e, com isso, sua residência. Um
método simples de saber sempre onde o padre estará em um momento de
necessidade. Aconselhamento espiritual, me diz ele.
Aceno a cabeça, concordando sem me importar, enquanto nos
dirigimos à cabana em questão. É bem modesta, de fato, composta de
uma espécie de rocha que, ao passar as mãos, não considero confiável o
suficiente. O Fantasma comenta que é frágil, que a Cabana do Padre está
constantemente em reparos, reformas ou meramente manutenção devido
ao seu material.

Por que não reconstruir com algo mais durável?

– O templo não consegue recolher muitos créditos. – responde,
sombrio. Solto um suspiro em compreensão. Oh, sim.
Meu colega aproxima-se da porta, uma tira de metal envelhecido.
Começo a me perguntar o que naquele mundo não é velho ou aos
pedaços.

Bate na porta. Toque, toque. Ouvimos uma pequena movimentação
do lado de dentro, um pequeno rebuliço, e um mecanismo girando. A
porta se abre para dentro, revelando a figura de um franzino senhor.
O padre T-Khale parece ser mais frágil do que eu imaginava. É um
estereotípico senhor calvo, aparentando estar às beiras da morte por
alguma doença simples. As rugas cobrem seu rosto e cabeça calva, mas
seus olhos me trazem um brilho de sabedoria. Traja uma camisa branca,

56

usando um colete que um dia fora preto – agora um cinza escuro
encardido – por cima, abotoado. Curvado, olha para cima, reconhecendo
no homem enrolado em trapos um antigo crente.
– Retorna mais uma vez às suas raízes, filho? – ele sorri, revelando

uma dentada falha.

– Aqui estou eu outra vez, padre. – responde o albino, sorrindo de
volta. O Fantasma coloca os dedos no ombro e realiza a saudação
costumeira, em sinal de respeito; mas o padre parece renegar as
formalidades em favor de algo mais pessoal. Ele abraça o jovem,
formando uma figura deveras engraçada. O contraste entre a figura alta e
desengonçada do Fantasma e o mirrado sábio me faz sorrir.
– Entre, entre! Venha com seu amigo – ele olha para mim, e sorrio.
Tento parecer simpático – e vamos tomar um chá.
– É muita gentileza da sua parte, padre. – o Fantasma entra na
pequena cabana e gesticula para que eu o siga. Quem sabe, isso pode ser
interessante, afinal.

Entro na cabana. O padre fecha a porta atrás de mim, e percebo o
mecanismo por trás da mesma. Há uma tranca movida à corda, com suas
engrenagens expostas. A oxidação já está corroendo os dentes das
engrenagens. Ele gira uma pequena chave de corda ao lado do
mecanismo, e as engrenagens se movem. O fecho se cerra. A porta está
trancada.

O interior da cabana de T-Khale é, como havia me dito o Fantasma,
modesto. A divisão mal feita entre os cômodos me dá a oportunidade de
enxergar, de onde estou, todo o seu interior. Há duas cadeiras de metal,
como as de dentro do abrigo, quieta no que suponho ser uma sala de
estar. Uma mesa redonda do mesmo material jaz enfeitada por um livro.
Em frente a ela, uma estante improvisada, de metal, recheada de livros
em estado igual ou pior ao levado pelo Fantasma em sua bolsa.
O padre se dirige à cozinha, onde há um pequeno armário de onde
ele pega ervas desbotadas. Com uma agilidade maior do que aparenta

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ter, o padre abre sua diminuta reserva de água e nos aquece um pouco de
chá, realizando a infusão das ervas.
Eu e o Fantasma permanecemos parados frente à entrada (saída?)
do lugar enquanto T-Khale coloca algumas xícaras velhas de chá em cima
da mesa, sentando-se em uma das cadeiras. “Direto dos mercadores
andantes”, ele comenta, sorrindo e apontando para as xícaras em sua

mesa. Levanto as sobrancelhas, sem entender muito bem o que quer
dizer.

Indico o assento restante, apontando para o Fantasma. É o

conhecido dele, é a “missão de vida” dele, não lhe devo tomar o lugar. O

Fantasma sorri, constrangido, e senta-se em frente a seu conselheiro.
– Sinto que não é apenas para rever o velho padre a que devo sua
visita, filho. – ele sorri, o brilho em seus olhos. Sagaz.
– Mesmo, acho que não, padre. – ele sorri de volta, corando
– É algo urgente ou importante?
– A-acho que sim. – ele parece desconfortável, como se já
antecipasse aquele momento.
– Então não vamos perder o seu tempo com banalidades – ele toma
um gole do chá, indicando para que nos sirvamos. Levo a xícara à boca. É
ligeiramente ardido na garganta, mas o gosto é agradável, adocicado –
Não se deixe levar pelas histórias de um velho.
– Desculpe aparecer tão de repente, padre, mas é que eu... bem,
graças ao meu amigo aqui – aponta para mim, envergonhado – consegui
algo que creio que levam a ensinamentos sobre o Paraíso, o... Jardim,
senhor. E... meu amigo, eu não pude explicar a história direito pra ele.
Sabe como é, faz tempo que o senhor me ensinou e, bem, acho que não
consegui o convencer, explicar direito, não sei.
Ele levanta as sobrancelhas, interessado.
– Não é uma questão de se convencer, mas de crer ou não, filho. As
evidências estão em todo lugar. – olha para mim, sorrindo. Vejo que há
muito por trás daquele sorriso. Alguém astuto – Antes de pedir para ver
este seu documento, quer que lhe conte a história toda, meu rapaz?

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Dou de ombros, e aceno positivamente. Por que não, afinal? Tomo
mais um gole de chá. O padre abre o livro que já pousava em sua mesa,
como se esperasse a nossa visita.

Bem, meu rapaz, veja bem. Nossa crença relata que há muitos, muitos
anos atrás, incontáveis, existiam deuses. Uma espécie superior a nossa, eles eram
altos e possuíam poderes que jamais sonharíamos ter. Eles, antes de criaturas,
eram apenas uma Essência e um só Poder. Crendo que tudo aquilo não era bonito
o suficiente, a Essência criou o Jardim.
Entretanto, a realizar aquele primeiro ato de poder, a Essência se
fragmentou em centenas, milhares de pequenas frações. Estas criaturas, estas
frações da Essência, foram conhecidas como os deuses. Eles não tinham suas
particularidades, seus poderes em influência em especial. Eles, sendo frações
iguais da Essência, eram criaturas com os mesmos poderes quase ilimitados.
Os deuses habitaram o Jardim por muitas eras. O Jardim, o Paraíso, era
um lugar que dizem nenhum mortal jamais ter pisado. Seus campos verdes e
montanhas geladas faziam com que os deuses tivessem o suficiente para desfrutar
de seu eterno prazer.

Tempos em diferentes partes do Jardim fizeram, entretanto, com que cada
fração da Essência se fragmentasse diferente. Os que viviam nas montanhas, por
exemplo, formaram opiniões e versões diferentes do que aqueles que no próprio
campo de flores habitavam.
Um dia, alguns dos deuses decidiram que o Jardim não era mais o
suficiente, e que a Essência poderia se expandir. Unindo seu poder, eles criaram o
universo. A escuridão vazia para tudo emergir, mas vários pequenos focos de
vida.

Eventualmente, eles decidiram que um destes pontos deveria ser o foco de
toda a criação. E assim surgiu o Mundo. O Mundo, como eles o criaram, cheio de
vida e prosperidade. Era similar ao próprio Jardim, mas havia mais variedade em
sua composição. Diferentes tipos de vegetação, relevo e clima fizeram os deuses
que o criaram satisfeitos.

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Eles decidiram, então, que o Mundo era grande demais apenas para
habitação dos Deuses. Eles se sentiram muito sozinhos, ao contrário de como era
a vida no Jardim.

Por que não, então, criar mais criaturas? Inferiores a eles, não parte da
Essência como os próprios, mas apenas criaturas dotadas de vontade?
Os deuses, então, mais uma vez se reunindo em quase Essência, criaram as
criaturas. Criaram os animais e os homens, que seriam seus companheiros e
escravos, alguém que os admirassem e os obedecessem. O período entre a criação
do Mundo e a criação dos humanos é conhecido como a Era Antiga.

O padre T-Khale toma mais um gole de chá, enquanto ouço a
história. Ele parece absorto no livro, mas consigo perceber que não o lê:
Resume a história. O Fantasma parece fascinado. É como sua história de
ninar favorita, sendo contada após um longo período de tempo
– Desculpe-me pela interrupção. Continuarei, ok?

Os deuses e os humanos formaram parceria, e então construíram grandes
coisas. Por milhares, milhões de anos, foram feitas construções, maquinaria.
Artesanato, arte, indústria, tudo logo foi realizado segundo a vontade dos deuses
através das mãos dos humanos. Todas as grandes construções que agora são
meras ruínas foram desenvolvidas e criadas por nossas mãos durante este tempo.
Foram feitas para aguentar períodos infinitos de tempo, e os deuses ficaram
satisfeitos ao ver que sua criação rendia tanta prosperidade, tantos frutos!
E então, veio a desgraça.
Vocês de agora devem achar que seria óbvio, mas no tempo a ideia mal
passou pela cabeça dos deuses. Haviam alguns humanos que, apesar de toda a
prosperidade, não concordavam com o domínio dos deuses. Como os humanos
construíam tudo,
eles deveriam ter o controle. Eles deveriam ser o mestre.
Com a tecnologia desta era, que beirava o absurdo, eles então decidiram
criar algo que eliminasse os deuses e lhes dessem o próprio poder sobre a criação.
Eles criaram uma doença.

A doença logo se infiltrou por todos os grandes lugares. Os deuses se
infectavam e sucumbiam em poucos dias. A disseminação era gigantesca.
Entretanto, os humanos não previam um efeito colateral. Logo a doença se

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infiltrou por toda a atmosfera, e as partículas responsáveis pelas mortes dos
deuses começaram a afetar igualmente suas grandes construções. Todo o seu
império.

Logo, humanos mais fracos começaram a perecer, assim como fizeram os
deuses. Construções feitas para aguentar o tempo sucumbiram frente a mão da
destruição. A doença, que ninguém sabe dizer se foi um vírus, bactéria ou
meramente a própria morte, se infestou no ar. Transformou florestas em desertos.
Transformou os animais em monstros.
Em breve, ela se instaurou por toda via até o próprio Jardim, onde os
deuses remanescentes se escondiam. Porém, quando ela chegou pelo caminho
longo, foi mais dizimado. Os deuses demoraram, mas morreram. A doença não
ficou por lá. O Jardim sobrou, inalterado. Apenas seus habitantes originais que já
não restam mais lá.

O período que compreende o trecho entre a nossa própria criação e o poente
dos deuses é o que conhecemos como a Era Anterior. Há vestígios e artefatos da
tecnologia do Mundo Anterior por todos os lugares. Este tipo de coisa é levado
por mercadores para os lugares. Como os maiores centros industriais agora não
passam de pequenos conglomerados de produção, a maioria do que temos agora é
reusado. A própria xícara na qual agora, comprei de um dos mercadores andantes
que passaram aqui em sua procissão mais recente.
E, sabe, os únicos seres puros, deuses ou animais que sobraram se
esconderam nos vales mais profundos ou nas montanhas mais altas, onde nada
poderia os alcançar. Há quem diga que alguns ainda descansam, escondidos da
morte, esperando pelo dia em que a doença suma, para retornar e regovernar o
mundo. Cremos que há um caminho para o Paraíso, para o Jardim, que pode ser
alcançado de algum lugar que a morte alcançou apenas fracamente, e ele aguarda,
com sua Essência, para aqueles que o encontrarem. Quem encontrar o Paraíso,
terá o poder de um dos deuses. Ou mais forte.
Até hoje aguardamos.

61

Quando o padre T-Khale termina a história da criação e queda do
Mundo, o Fantasma mal pode se aguentar de entusiasmo. Ele troca
olhares com ambos, eu e o padre, sorrindo e se mexendo em sua cadeira,

como se silenciosamente dissesse “Mas não é o máximo?”. Sorrio e sinto

compaixão pelo albino animado com suas lendas religiosas, mas não
estou convencido.

Certo, é o mito da criação. Grande coisa, não? Não há quem me
garanta que aquilo seja verdade, ou que toda a tecnologia do “Mundo
Anterior” não tenha sido feita pelos humanos normalmente, como é feita

agora. Apesar de tudo, reconheço que parece ser uma boa explicação para
toda a queda da tecnologia humana, quando o potencial parece ser tão
grande. Muitas coisas foram feitas.
Mas a parte que me leva até o lugar permanece em mistério. O padre
logo começa a me dirigir a palavra, já sabendo o que o Fantasma teria a
dizer caso o perguntasse:
– Interessou-se, filho?
Sim, respondo, é interessante... mas não é exatamente o que eu estou

procurando.

– O meu antigo aluno aqui diz que o senhor tem alguma evidência
em relação à lenda que eu acabei de contar. Se puder dividi-la conosco...
Oh, bom. Vejamos o que temos aqui. Tiro do meu bolso a carta e o
mapa, os documentos rabiscados que trouxe comigo quando acordei sem

62

memórias. T-Khale, frágil, os pega de minha mão com cuidado, já
acostumado com a fragilidade de documentos – e muito mais cauteloso
que seu discípulo, com certeza.
Ele os examina com atenção. Sua visão provavelmente já não é a
mesma – me diz o Fantasma que ele é o habitante mais velho da Vila
Matren, e não lhe tiro a razão – mas apesar disso, o senhor não usa
nenhum tipo de óculos, algum corretivo. Não, persevera na visão natural,
e o respeito por isso.

– Interessante – diz o padre – Mas não sei se é conclusivo, ao todo.
– Leia para nós, por favor! – o Fantasma diz, os seus olhos
brilhando de excitação. Por favor.
Ele concorda com a cabeça e, devagar, abre a boca, pegando ar.
Recita devagar e pausadamente, parando para ler a cada ponto ou
vírgula.

A carta está meio danificada, meio apagada, mas é isso que consigo extrair.
Há em primeiro lugar um tipo de saudação, não consigo lê-lo pois a caligrafia de
quem o escreveu estava tremendo muito quando começou. Identifico algumas
letras, mas as palavras em si não consigo. Vamos ao corpo da carta.

“Eu não sei. É diferente do que eu imaginava, sim, mas poderia ser pior.

Ah, sim. Não posso dizer que estou totalmente encantado, mas sei que pode me
fazer muito bem. Sei que vou viver muito,
muito melhor por aqui.
Depois de tudo o que passamos. Sim, sinto a falta deles, deles todos, e me
sinto ligeiramente culpado por terem sido deixados levados comigo. Talvez
tenham parado em outros pontos, se eu entendo... mas não sei. Não entendo mais
nada.

Eles ainda não têm ideia de seu potencial, mas depois de muito tempo
dormindo, a Essência pode se tornar parte deles mais uma vez. Sim, sim, não
duvido de que em breve tomarão o que é deles, por direito. Eles bem me
receberam, apesar de me estranharem, e agora estou desfrutando da hospitalidade.
Sou um hóspede no Paraíso, não?

Espere. “

63

Aqui tem uma pausa na carta, e uma mancha de tinta. Um rabisco. E

continua.

“Espere. Eu estou vendo onde isso está vindo. Sim, eu lembro exatamente!
Ele, há tanto tempo atrás. Haha, até teria esquecido dessa porra de carta, mas
como? Foi tão importante quando eu a peguei pela primeira vez e não entendi
mais o que se passava.

Só digo que eu não me arrependo. Não me arrependo de nada. Estou feliz

aqui. Eu SOU feliz aqui.
Eles não vão me expulsar.
O Jardim é meu agora.
O mapa... sim, redesenhei o mapa. Do jeito que eu me lembro do caminho,
apontando algumas coisas que considero importantes. Se algum dia alguém for
usá-lo novamente, sei que não vai durar a vida toda, mas.....
Sinto saudades da minha casa. Desenhei-a com um cuidado especial, meu
Forte. Deixei lá uma grande parte de minhas coisas, desde meu planejamento na
jornada até aqui, como pertences pessoais. Devia ter levado mais coisas, mas saí
apressado.

Quando estiver estável, farei uma visita lá.

Eu sei que você vai ler isso, e estou preparado. Encontre-me quando ver a
carta, meu bom amigo. Vou te explicar tudo o que souber, tudo o que penso e tudo
o que lembro. Vai ser difícil de acreditar.
Passe pela minha casa no Forte, quando puder. Lá terá algo que você

procura.

Não perca nada.

Racco DeHara”

Fico de braços cruzados quando o padre levanta o olhar da carta e
me encara, indagador. O Fantasma me olha igualmente. Ambos me
perguntam com o olhar sobre a carta, mas não sei responder.

64

– Te traz alguma lembrança? – o albino me pergunta

inocentemente.

Não, nada. Não sei do que ele está falando. Não sei quem é ele.

– Racco DeHara... – o padre volta a olhar para carta, perguntando-
se provavelmente se leu o nome errado – Não é um nome conhecido, e
certamente não mora na Vila Matren. Não tem nosso estilo de nome de
famílias... DeHara.

O Fantasma concorda com um aceno de cabeça.
– Mas veja! Ele diz ter encontrado o Paraíso, e diz ter até feito um
mapa para chegar! – o meu colega está animado – Vamos dar uma
olhada!

– Eu realmente não conheço a geografia do Mundo fora da região
de Matren e o deserto de Manaten... – o padre pega o mapa, estendendo-o
a sua frente como se procurasse um ponto mágico – Um mercador
andante provavelmente conheceria muito mais deste mapa do que eu, e
mesmo eles tem cada um seu próprio conhecimento a respeito do
Mundo...

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