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Carta ao pai

24 de maio de 2006
H anos, mal nos falamos. Foi de uma conversa que para sempre adiamos, uma conversa sria, bronqueada. Ou outra, to sria como difcil, embaraada. E como para sempre nos trancamos cada um em seu silncio. Ano a ano, cada vez mais afastados, afsicos, como se um travo preso na goela repelisse o contato. J no sabemos um do outro, a no ser por outrem. Um tanto de raiva e de mgoa, ou vice-versa, alimentava o silncio de cada um ou era o silncio do outro que os alimentava. A mgoa passou? E tambm a raiva? Foi a custo de muito tempo. Nunca soubemos e quase esquecemos. No fosse o silncio, ensurdecedor, esqueceramos. Mas o silncio, ele ficou, como uma cicatriz que se guarda dos olhos, escondida sob as vestes. No fosse a nudez, em que cada um se v, sozinho, s, lavando sua alma E como nunca, as palavras querem brotar. Ralha comigo, grita! Que culpa de criana ainda o que sinto. Ou se no h culpa, tampouco houve desculpa. Tudo foi mais difcil, encontrar meu caminho, e caminhar. O silncio me lembrava eu era s uma criana. E os passos, titubeios e quedas quis tudo silenciar, calar, guardar, vergonha nua. E guardei tambm as pequenas conquistas, os passos mais seguros, minhas palavras. No sei se foram flagrados, se meus gest os desmentiram meu silncio. Antes, as lgrimas de dor escondida; hoje secaram. Aperto no corao disparado, o medo. Aperta minha mo: foi um gesto, para alm de suas reservas e das minhas, quis sorrir, riso medroso, orgulhoso de sua fora, em que me reconheo um pouquinho: eu te amo.