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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

PROGRAMA SALA DE PROFESSOR | 2007


Ensinando e aprendendo Título do vídeo/documentário:

a fazer perguntas “A vida examinada – O que é Filosofia?”

Professores EDUARDO AMARAL (Filosofia),


FERNANDO ISAO KAWAHARA (História)
e JOSÉ LUIZ PASTORE MELLO (Matemática)

Para nos aproximarmos um pouco mais dessa concepção


Introdução: de pergunta filosófica, tomemos de empréstimo as
O que significa fazer perguntas palavras de Platão:
“pois a admiração é a verdadeira característica
Ensinar os alunos a dar boas respostas é o que do filósofo. Não tem outra origem a filosofia”.
tradicionalmente nós professores procuramos fazer. No
entanto, nem sempre ou raramente as perguntas que Todos somos filósofos, ao menos quando somos
fazemos a eles são verdadeiramente as perguntas que tomados por ―admiração‖. Essa admiração é o que nos
eles carregam consigo e, se assim for, para eles a move a filosofar – a perguntar, enfim, sobre o sentido
resposta tanto faz como tanto fez – apenas contenta o das coisas em que acreditamos, se elas são
exercício escolar, como cópia de uma informação que verdadeiramente assim como acreditamos que elas
consta do livro didático ou do repeteco do que disse o sejam ou, pelo contrário, se estamos enganados. Não se
professor. Uma resposta assim, cuja pergunta não é trata portanto de uma mera pergunta que nos fazemos
―significativa‖, como costuma-se dizer, não faz tampouco sobre aquilo que não sabemos, mas uma pergunta que
da resposta ser significativa, isto é, a resposta torna-se carrega consigo essa admiração, um espanto: ―Pelos
irrelevante para o aluno. deuses, Sócrates! Causa-me grande admiração o que
tudo isso possa ser, e só de considerá-lo, chego a ter
Nossa proposta de trabalho para o documentário vertigens!‖, diz o jovem Teeteto ao dialogar com
“A vida examinada – O que é Filosofia?”1 visa portanto Sócrates. Eis o princípio de toda a filosofia: essa
ao desenvolvimento de um outro processo: ensinar a ―admiração vertiginosa‖. Quando perguntamos sobre os
fazer perguntas, de modo que se tornem perguntas fundamentos e os princípios nos quais as nossas
significativas para os alunos. próprias disciplinas se baseiam, essa pergunta pode por
Não se trata, por outro lado, de nos rendermos aos em xeque tudo o que acreditamos ser real – e eis aqui o
caprichos da mocidade. As perguntas que eles já tema do documentário, quando nos apresenta o famoso
carregam consigo nem sempre chegam ao x da questão. ―Mito da Caverna‖. Mais do que isto, essa não é uma
É preciso ensiná-los a perguntar, sobre o que perguntar. mera curiosidade passageira, mas uma curiosidade que
A curiosidade deles é tão passageira quanto infrutífera, lateja, que não admite uma resposta única, mas
isto é, não os leva a novas indagações mas, pelo permanece sempre aberta à reflexão.
contrário, cessa a própria curiosidade que se contenta Vamos então estimular essa curiosidade nos alunos,
com uma resposta pronta e imediata – aquela que eles atiçá-los a ver as coisas de um outro jeito, incentivando o
mesmos podem alcançar ao pesquisar em uma questionamento — vamos permitir que os alunos
enciclopédia, na internet ou coisa que o valha, pronta encasquetem: manter a pergunta latejante na cabeça. A
para ser ―consumida‖. eles, valem as palavras de Rainer Maria Rilke ao jovem
Trata-se aqui de um outro tipo de perguntar. — Uma poeta Franz Xaver Kappus:
pergunta pelos fundamentos, pelos princípios, que é o “Não busque por enquanto respostas que não
tipo de pergunta que a Filosofia se faz, desde o seu lhe podem ser dadas, porque não as poderia
nascedouro na Grécia Antiga. Vale dizer que a Filosofia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo.
assim pensada, como um ―certo jeito de perguntar Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois,
específico, sobre fundamentos e princípios‖, é presente aos poucos, sem que o perceba, num dia
em todas as demais áreas do conhecimento, em todas as longínquo, consiga viver a resposta.”
disciplinas escolares – são aquelas questões de fundo de
[Rainer Maria RILKE. Cartas a um jovem poeta/A Canção de
cada disciplina. Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke. Porto
Alegre, Globo, 11ªed, 1983. Tradução de Paulo Rónai e
Cecília Meireles.]

1 O vídeo está disponível no blog CRÔNICAS DE ESCOLA


Esclarecida a proposta de trabalho, podemos agora dar Em um primeiro momento, para que os alunos percebam
sugestões de como fazer. Em primeiro lugar, cumpre como é que o método funciona, pode-se propor aos
problematizarmos com os alunos a própria noção de alunos uma reflexão sobre palavras que falamos
―pergunta‖, tal como fizemos nesta introdução. Embora o usualmente querendo dizer coisas parecidas ou até
vídeo-documentário trate mais especificamente da querendo dizer a mesma coisa. É que as palavras nos
Filosofia, pretendemos atentar para que essa ―pergunta ocorrem sem muito pensar. Porque aprendemos a nossa
filosófica‖ está presente também nas demais disciplinas. língua quando pequenos, ela parece fazer parte da
gente; estamos tão habituados a ela que ela nos parece
Portanto, os professores podem pensar em algumas
tão familiar, tão natural. E assim, não pensamos muito
perguntas interessantes, instigantes e desafiadoras que,
para falar: as palavras nos ocorrem espontaneamente,
em muitos casos, são as questões de fundo de suas
saem da boca sem titubeios, sem vacilar.
disciplinas. O passo seguinte será o de elaborar uma aula
expositiva bem intrigante sobre as boas perguntas da A título de exemplo, consideremos então algumas dessas
disciplina de cada professor envolvido no projeto. Uma palavras. Na nossa linguagem ―natural‖ — e repare que
fala inicial poder ser: ―Eu não sei exatamente como agora usamos as ―aspas‖—, usamos natural, comum e
responder a essa pergunta e vocês poderiam me ajudar a normal num mesmo sentido. Falamos que é natural que
tentar respondê-la‖. E, assim, cada professor mostraria almocemos por volta do meio-dia, querendo dizer que é
alguns encasquetamentos fundamentais proporcionados comum que o almoço ocorra ao meio-dia. Falamos até
pela busca ao conhecimento. que é normal almoçarmos ao meio-dia. Mas, ao falar
assim, dizemos três coisas bastante diferentes, porque
O que se segue são sugestões para cada uma das
natural, comum e normal não dizem a mesma coisa.
disciplinas envolvidas, a saber, a própria Filosofia e
também História e Matemática. Cuidemos assim: a palavra natural só usaremos quando
nos referirmos à natureza; são palavras que podemos
Filosofia: O método socrático facilmente associar, uma deriva da outra e dizem-se uma
em relação a outra: tudo que existe na natureza e por
O ponto de partida é propriamente o vídeo-documentário. natureza dizemos que é natural.
A partir dele, nas aulas de Filosofia, o professor poderá
Natural em nós é sentir fome quando ficamos um tempo
aprofundar a discussão sobre o chamado método
sem comer. Bichos também sentem fome, e isto é
socrático (a maiêutica). Sócrates dirige a seus
natural. Ora, eles só comem (ou, se quisermos:
interlocutores perguntas – põe em exame o que disse
―almoçam‖) quando sentem fome. Por que é que seria
seu interlocutor, se isso que ele disse era propriamente
natural almoçar ao meio-dia, se nem sempre é ao meio-
que ele pretendia dizer. Há, com efeito, uma espécie de
dia que sentimos fome? É natural sentir fome e é natural
descompasso entre o que dizemos e o que pretendemos
que busquemos o que comer quando sentimos fome – e
dizer. É bastante comum essa situação entre nós, de não
não necessariamente ao meio-dia.
encontrarmos as palavras certas para dizer aquilo que
queremos dizer, e ao tentarmos dizer, o que é dito parece O efeito desse raciocínio nos alunos é devastador:
contraditar com o que foi pensado. ―Nossa! Como é que eu nunca tinha pensado nisso
antes?‖ Assim, aquilo que parecia ser natural deixa de
O documentário alude ainda a uma situação estranha:
ser.
por vezes, quando dizemos algo, expressamos um
pensamento que não foi pensado – ou seja, que as Não podemos considerar natural almoçar ao meio-dia,
palavras expressam um pensamento do qual nem nos tampouco é natural que andemos vestidos ou que carros
demos conta. O episódio a que nos referimos aqui, no passem no sinal vermelho. Os exemplos seguem ao
documentário, dramatizado, é o diálogo de Sócrates com infinito, de coisas que (note o tempo verbal que aqui e
Trasímaco, uma célebre passagem do Livro I da agora empregaremos) considerávamos ―naturais‖.
República de Platão. As perguntas de Sócrates provocam Natural é simplesmente o que é da natureza, por
seu interlocutor a denunciar ele próprio um conteúdo que natureza.
não estava pensado que, ao vir à luz, contradita o que Os alunos se sentirão inquietos para saber então o que é
antes havia se dito. Dito e contradito – eis a contradição, comum e o que é normal, se nada disso é natural. Uma
que põe em xeque todo o discurso do interlocutor. pergunta seria: ―a que palavra vocês associam a palavra
* comum? Natural associamos a natureza. E comum?‖
2
Comum é palavra que também podemos associar Ainda como sugestão de trabalho e para melhor ilustrar o
facilmente a outra derivada sua, comunidade. Então, o que foi dito há pouco, tomemos por exemplo o caso da
que é comum nesta comunidade não é comum à outra escravidão dos negros no Brasil. A condição ―ser negro‖ é
comunidade. É comum que homens andem de saias – na natural enquanto a condição de escravo é normal (se por
Escócia – mas não é comum que andem de saias – no isso entendermos o exercício de poder do homem branco
Brasil. Perceber que a palavra comum sempre nos sobre o negro através de uma ―norma‖). Por outro lado, o
remete a relacionar à comunidade da qual estamos branco europeu é o comum, enquanto negro é incomum.
falando – enquanto natural é algo mais genérico, que Como então o que é incomum se torna anormal (e que
vale para toda a natureza. É bom voltar aos exemplos assim pode ser alienado, escravizado)? Quais as relações
anteriores, para que os alunos percebam como – de e confusões que podemos notar entre os conceitos
pergunta em pergunta – tudo muda de sentido. É comum natural, comum e normal no caso da escravidão?
almoçarmos ao meio-dia? É comum que carros
atravessem o sinal vermelho? E por aí vai. Ainda a Filosofia: O “Mito da Caverna”
Por fim, chegamos à palavra normal – normalidade,
É de grande alcance o trabalho com o ―Mito da Caverna‖
norma. Aquilo que é normal é o que está conforme a
de Platão, ao qual o documentário faz uma boa
norma. Pode até ser comum que carros atravessem o
dramatização. Trata-se de um dos textos mais
sinal vermelho, mas isso não é normal, ou não deve ser
conhecidos de toda a História da Filosofia, que recebeu
considerado como tal. Não é tão comum que consigamos
inumeráveis adaptações e versões. Seja como for, o Mito
almoçar ao meio-dia, em meio ao corre-corre do dia-a-dia.
da Caverna forma uma imagem do que é a Filosofia, mas
Mas é o normal – que os horários (para entrar no
não só: tem a ver também com toda a forma de
trabalho, por exemplo) são definidos por esta ―norma‖,
conhecimento quando desafia aquilo em que
que nem sempre aparece expressa, mas uma norma que
acreditamos e subverte nossas crenças. É por causa
é tácita. — E os alunos ficarão se perguntando afinal se
disto a admiração da qual falávamos.
isso ou aquilo é natural, comum ou normal.
Em que acreditar? Por que acreditar nisto e não naquilo?
Se o leitor acompanhou o raciocínio, e tanto melhor que
Afinal, o que é a realidade? É esta na qual acreditamos?
nunca tivesse pensado nisso antes, deve se sentir
Por quais critérios definimos o que é real e verdadeiro? E
―admirado‖. Pois este mexer com o significado das
alcançar o real, mais do que nele acreditar, é conhecê-lo.
palavras foi já um exercício de Filosofia – sobre os
E se o real não for nada daquilo em que acreditamos?
conceitos com os quais sempre lidamos na nossa
Tais são as perguntas que o ―Mito da Caverna‖ suscita.
linguagem usual, mas nem sempre nos damos conta de
que são conceitos. Ao percebê-los, foi como por em A primeira reflexão que propomos em alguma atividade
xeque alguns dos nossos fundamentos aos quais não com os alunos é que pensem a respeito destas
dávamos muita importância. perguntas que enunciamos há pouco. De um modo geral,
poderemos esperar como respostas dos alunos
O exemplo, aqui, tampouco foi aleatório. Com efeito, os
afirmações como ―é real aquilo que é ‗concreto‘, aquilo
termos natural, comum e normal repercutem na História
que eu posso ver, tocar, sentir…‖. Neste sentido, o
da Filosofia, desde a Grécia Antiga, quando, de um lado
critério que estabelece o que é real seriam as sensações.
os primeiros filósofos, dito pré-socráticos, tomarão a
natureza (phýsis) como alvo de suas preocupações e, de Poderíamos então dirigir aos alunos novas perguntas,
outro, os sofistas adotarão o relativismo (em que se pese como as que se seguem: Mas será que não
aí as comunidades em jogo, isto é, o que é mais ‗comum‘ consideramos também real aquilo que ouvimos falar, a
e portanto considerado assim verdadeiro ou ‗normal‘). depender de quem fale? Não acreditamos, por exemplo,
nas imagens que vemos na televisão e no que nos diz o
Além disso, tais termos permitem também o diálogo com
apresentador do jornal por confiarmos em sua palavra?
as demais disciplinas, das ciências naturais – Física,
Por acreditarmos, enfim, que o jornal que se apresenta
Química, Biologia e, no rasto de Pitágoras, a Matemática
na tevê deve nos dizer a verdade dos fatos? Não
– até as ciências humanas, em que entre o que é comum
acreditamos, por exemplo, na palavra do professor, por
e o que é normal (como exercício de poder), todo mundo
acreditarmos que ele deve saber a verdade? Pois há
se confunde.
ainda outro critério para estabelecermos o que é real, ou
que acreditamos ser o real, que seria a confiança
naquele que fala, por acreditarmos em sua autoridade.
3
Mas também não perderíamos essa confiança, caso o A outra sugestão – aliás, já bastante difundida entre os
jornal mentisse descaradamente, ou que assim professores – é a exibição do filme The Matrix (1999),
julgássemos? Ou, no caso do professor que dissesse cujo enredo tem forte inspiração no ―Mito da Caverna‖. O
coisas que contrariam o que sempre se aprendeu na professor poderá formular questões como as que já nos
escola, e julgássemos a sua fala como falsa, também referimos – o que é a realidade e quais critérios pelos
não perderíamos confiança em sua autoridade? Outro quais julgamos algo como real – de modo a orientar os
critério, portanto, seria o nosso próprio julgamento, alunos para a leitura do filme. Estaríamos nós na Matrix?
daquilo que nos parece ser real, isto é, verossímil, a
Uma última sugestão: o vídeo-documentário faz alusão
partir dos critérios de que falamos antes e mais este:
algumas vezes a Descartes. Guardada a devida distância
conforme aquilo que estamos mais habituados, mais
que a Modernidade tem em relação à Antiguidade, os
familiarizados, acostumados, aquilo que nos parece mais
argumentos das Meditações Cartesianas e do Discurso
―comum‖? Dissemos: comum, de acordo com nossa
do Método podem ser mobilizados pelo professor, seja
comunidade. E não julgávamos que o que é comum é
apenas na sua reconstituição oral, seja através de
também natural?
excertos do texto, como desdobramentos do ―Mito da
Percebe-se, na última pergunta lançada, como é o nosso Caverna‖.
próprio julgamento que é posto em dúvida – o que há de
Diz Descartes, sobre as sensações, que não se deve
causar uma ―admiração vertiginosa‖, sem dúvida! – e
confiar em quem alguma vez nos enganou – e assim
assim retornamos mais uma vez às perguntas iniciais.
estabelece a dúvida sobre a realidade de nossas
Um segundo passo para o trabalho em Filosofia seria o sensações e do mundo que considerávamos tão real
de partir para a leitura do próprio texto do ―Mito da quanto pudéssemos apreendê-lo através de nossos
Caverna‖ para tentarmos identificar ali como Platão sentidos. A dúvida metódica levará a por tudo em xeque
apresenta-nos a questão, de como a realidade, – pois tudo se torna duvidoso. O argumento do sonho:
considerada primeiramente como tudo aquilo que pode Como diferenciar o sonho da vigília, se enquanto
ser visto na caverna, muda completamente quando sonhamos acreditamos que aquilo é real? E quando
aquele que estava acostumado com as sombras da acordamos, também acreditamos que é real – mas há
caverna, que as tomava como reais (como a única diferença entre sonho e realidade? E cá estamos de volta
realidade), é forçado a sair da caverna e ver o que há à Matrix. — A única certeza que lhe restará é que é ele
fora da caverna – ver os objetos dos quais conhecia mesmo quem duvida, é ele quem pergunta afinal sobre a
apenas as sombras projetadas na parede da caverna. realidade das coisas, é ele quem cogita de tudo ser
apenas uma ilusão. Cogito ergo sum: penso, logo existo
– eis a única certeza que resta, que é agora a primeira
Como já dissemos, o ―Mito da Caverna‖ ganhou várias certeza para reconstituir todo edifício do saber humano4.
adaptações. Queremos chamar a atenção para duas
delas. A primeira é uma história em quadrinhos,
―Sombras da vida‖, de autoria de Mauricio de Souza, em
que o personagem Piteco envolve-se num enredo
baseado no texto de Platão2. A partir dela, os alunos 4 Sugestões de leituras e consultas:
poderão fazer as comparações com o texto. — Há no
PLATÃO. A República [livro VII]. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
entanto uma ressalva: a versão acaba por identificar as Coleção ―Os Pensadores‖. p.225-229.
sombras da caverna com a televisão. Se isto é de menor Há inúmeras traduções disponíveis do ―Mito da Caverna‖, também
alcance em relação à teoria de Platão, para quem as conhecido por ―Alegoria da Caverna‖. Entre elas, sugerimos apenas
uma, cujo texto nos pareceu mais acessível, que assim recomendamos,
sombras representam o próprio mundo visível, dos publicada em uma ótima antologia de textos da História da Filosofia, a
fenômenos, das aparências, tal como nos aparecem – no saber: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos pré-
socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2ªed., 2000,
entanto pode ser bastante interessante associar tais pp. 39-42. [Tradução de Lucy Magalhães]
sombras aos produtos da indústria cultural, cujo maior Vários dos diálogos de Platão encontram-se também disponíveis na
ícone é a televisão3. internet no site http://www.dominiopublico.gov.br/ , como o Teeteto
e a Apologia de Sócrates.

Comentadores de Platão:

BOLZANI FILHO, Roberto. ―Platão: verdade e Justiça na cidade‖, in


FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Seis Filósofos na Sala de Aula. São
Paulo: Berlendis e Vertecchia Ed., 2006.
CHAUI, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos
a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
WATANABE, Lygia A. Platão por mitos e hipóteses. São Paulo: Moderna,
2 A história em quadrinhos encontra-se disponível na internet, neste 1995. (Coleção Logos) [Há também uma boa antologia de textos,
link. inclusive o ―Mito da Caverna‖.]
3 Em 2005, em outro programa ―Sala de professor‖ da TV Escola, sobre

o documentário ―A Vida na TV‖, as fichas que resultaram do trabalho Sobre DESCARTES. Cf. LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Descartes: a
nos servem de orientação para o trabalho que aqui sugerimos a partir metafísica da Modernidade. São Paulo: Moderna, 1993. (Coleção
da leitura da história em quadrinhos de Maurício de Souza, em especial Logos) [Há uma ótima antologia de textos de Descartes, dos
a ficha desenvolvida pelo professor Eduardo Brandão, de Filosofia, argumentos a que nos referimos]
disponível neste link.
4
História: Tempo para perguntar Se nos imaginarmos sem relógios, nenhum relógio, seja
da igreja, das ruas ou dos pulsos, não tomaríamos uma
A História se dá no tempo. Esse é um pressuposto outra percepção do tempo? Outra fruição do tempo? Ou,
fundamental do estudo histórico, pelo qual supomos ser não nos perderíamos no tempo sem os relógios?
o tempo algo em que ocorrem os fatos em uma Imaginemos então que advento foi este, a invenção do
sequencia, isto é, cronologicamente. Há uma ideia de relógio! Não o relógio de sol, que expressa o ciclo do sol
continuidade – o tempo seria então contínuo, que segue ao longo do dia, mas este instrumento que marca
invariavelmente seu curso, de ontem para hoje e de hoje matematicamente o tempo, em horas, minutos,
para amanhã. segundos, sempre iguais, contínuos… Imaginem mais, a
invenção do relógio de pulso o quanto significou para os
Silenciosamente, assumimos essa ideia sobre o tempo
homens na relação vivida com o tempo… este
como verdadeira, ―natural‖. Todavia, se atentarmos um
relogiozinho, grilhão das horas, das nossas horas, presos
tanto mais, poderemos começar a nos perguntar se o
que somos a elas, hora para ir trabalhar, hora para
tempo é isso mesmo. Afinal de contas: o que é o tempo?
almoçar, hora para voltar ao trabalho, trabalho, e depois,
O tempo caminha sempre para frente? Não volta para que hora que passa mais rápida a que chegamos em
trás? Mas — quando nos lembramos de algo, o primeiro casa, jantamos, dormimos e voltamos a acordar!
beijo, por exemplo, não voltamos àquele tempo? E uma
O tempo é também dinheiro e há outros exemplos a
palavra puxa outra e já estamos às voltas com um
explicar. Mas, sempre dá um tempinho de lembrar que,
conceito muito caro aos historiadores: a memória.
na sociedade industrial, tempo virou dinheiro, pois, ao
E falando de voltas que o mundo dá e o tempo também, controlar o tempo passou-se a se remunerar a quem só
podemos falar de tempo cíclico. Na natureza, de um tinha a própria força de trabalho para vender, isto é,
modo geral, reparem que as coisas ocorrem em ciclos. As estes que vendem o seu tempo-livre em troca de um
estações do ano, que ano-a-ano se repetem, salário, remunerando o tempo de uso da força de
ciclicamente. A semente, que gera uma árvore, que gera trabalho.
frutos, que geram novas sementes, que geram novas
Eis então mais de uma ideia sobre o que o tempo é. Qual
árvores… E, se o tempo é cíclico, serve para medir o quê?
delas adotamos para contar a história? Qual delas
E se tempo vai e volta, o tempo é então uma repetição?
poderemos adotar? Imaginem as diferentes abordagens
Mas o tempo, já não havíamos dito, ele não ia sempre
para aquilo que chamamos de ―fatos‖ quando mudamos
para frente?
a noção de tempo. Perguntar-se assim é colocar em
O tempo também dura, ou melhor, o tempo passa de questão o sentido da historiografia – disto que se estuda
maneira diferente. Responda, então, o que demora mais em História.
para passar: uma hora namorando na praça ou quinze
Outra pergunta que nos encaminha para as mesmas
minutos decorando texto para a prova de História? O
questões fundamentais do estudo de História é pensar
tempo não dura sempre a mesma coisa? Então, ele tem
em quem são os seus ―protagonistas‖, por assim dizer.
descontinuidade? Ele varia em seu curso?
Ou, antes, quem é o sujeito da História? São os grandes
Tais perguntas querem fazer com que não tomemos o personagens ou é cada um de nós? É a sociedade ou são
tempo como coisa tão natural – algo que de tão os grupos sociais? É o presidente da República ou são os
―natural‖, não chegamos a pensar nele. Com efeito, eleitores que votaram nele? É a Gisele Bündchen ou são
temos uma apreensão do tempo que foi construída ao as pessoas que compram o que ela anuncia? É o Bush
longo do tempo… do tempo histórico, do tempo que os ou são seguidores da Al Qaeda que querem matá-lo? São
homens criam para si mesmos. O tempo é então uma todos esses que foram citados ou a História já está
criação. — Dito assim, os alunos tomarão um susto, escrita e, simplesmente, nós seguimos o nosso destino?
ficarão espantados, admirados. O que é o tempo, afinal, Perceber que a História – ou mais precisamente, os
isto do qual dizemos que nele ocorrem fatos – a História? ―fatos‖ que são narrados e analisados no seu estudo –
mudam conforme a resposta que se dê a essa pergunta.
A História é contada a partir de um ponto de vista que é
bem determinado, embora nem sempre isso fique muito
claro. Os alunos tendem a pensar em uma certa
―objetividade‖ – que as coisas aconteceram tal e qual
está sendo narrada – o que, na narrativa, há muito de
―subjetivo‖, isto é, das ―escolhas‖ que o historiador faz,
das respostas que dá, ainda que provisoriamente, a
perguntas como as que formulamos há pouco.
Sobre o Filme The Matrix. Cf. IRWIN, William et al. Matrix: Bem-Vindo
ao Deserto do Real. São Paulo: Madras, 2003; e também CHAUI,
Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 13ªed., 2003. [Em
especial no capítulo introdutório, quando a autora se refere diretamente
ao filme The Matrix.]

5
Ainda neste mesmo caminho, poderiam contestar tal
subjetividade, afirmando que a história é objetiva, pois é
Matemática: Pergunta infinita
comprovada a partir de documentos. Mas, como
Na matemática não faltam exemplos de situações que
podemos confiar nos documentos?
trabalham com conceitos abstratos tais como o infinito
É por meio deles que conseguimos acessar o passado, ou o zero, e que muitas vezes são explorados de forma
reconstruí-lo; são os elementos que nos permitem entrar superficial. Vejamos algumas situações em que a ideia
em contato com o que já aconteceu, são como lentes. E, do infinito está presente na matemática, bem como os
como tais, são os instrumentos que nos fazem olhar para problemas suscitados por uma análise superficial sobre a
o passado. Partindo dessa comparação com o olhar e, natureza do infinito6.
por extensão, com todos os nossos sentidos, são eles
Situação 1
que nos conectam com aquilo que se passa fora de nós –
o mundo, a realidade. Mas tais lentes podem tanto deixar Seja na sétima série ou no primeiro ano do ensino médio,
mais nítidos quanto podem distorcer o que percebemos em algum momento o aluno aprenderá a determinar
por meio deles, como também nossos sentidos podem frações geratrizes a partir da representação decimal dos
nos enganar. números. A passagem de ―decimais finitos‖ para a fração
não trás maiores desafios porque fundamentalmente
E aí uma nova pergunta: os instrumentos que usamos
apóia-se na transposição quase que automática da
para conhecer são confiáveis? Como será que funcionam
―língua materna‖ para a linguagem das frações, como por
esses instrumentos? Aqueles que sabem disso, podem
exemplo:
manipular estes instrumentos e com isso podem também
nos enganar? Pode-se fazer ver o que não está? E calar o Cinco décimos:
que foi dito? E fazer falar algo que tampouco foi ouvido?
Duzentos e setenta e quatro centésimos:
E aqui a brincadeira, muito séria, deste perguntar pode
se abrir para a Biologia e o estudo dos sentidos, que,
aliás, dizem agora que são sete; para a Física e suas
geometrias óticas, tempos relativísticos e espaços No caso das dízimas periódicas, o procedimento que
curvos; para a Química e os sabores artificiais e a normalmente se adota é o de utilizar recursos algébricos
incerteza quântica; para as Artes e os desvios do olhar5. para eliminar o período (parte que se repete do número).
Vejamos como isso se dá através da dízima 0,333...

I.
Multiplicamos ambos os lados da igualdade por 10:

II.
Subtraímos (I) de (II) membro a membro:

III.

IV.

O ―truque‖ usado é muito convincente e, com alguns


ajustes, pode ser usado para a determinação de
qualquer fração geratriz de dízimas periódicas. Ocorre,
porém, que o ―truque‖ só funciona porque estamos
5 Sugestões de leituras e consultas:
ELIAS, Norbert. Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
assumindo uma ideia muito forte sobre conjuntos de
Ed., 1994. infinitos elementos que nem sempre é devidamente
ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. explorada:
CHAUI, Marilena. Brasil. Mito fundador e sociedade autoritária. São
Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2000. “Se tirarmos um elemento de um conjunto com
HOBSBAWM, E. e RANGER, T. A invenção da tradição. Rio de Janeiro: infinitos elementos, ainda assim ficaremos
Paz e Terra, 1984. [Tradução de Celina Cardim Cavalcante] com um conjunto de infinitos elementos.”
GOULD, Stephen Jay. Seta do tempo, ciclo do tempo: mito e metáfora
na descoberta do tempo geológico. São Paulo: Companhia das Letras,
1991.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e 6 Sugestões de leituras e consultas:
Tecnológica. ―Conhecimentos de História‖ in Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Médio – Ciências Humanas e sua tecnologias. COURANT, R., ROBBINS, H. O que é matemática? Rio de Janeiro: Ed.
Brasília: MEC/SEMT, 2000. Ciência Moderna, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e NIVEN, Ivan. Números: racionais e irracionais. Rio de Janeiro:
Tecnológica. Orientações Curriculares Nacionais do Ensino Médio – Sociedade Brasileira de Matemática, 1984.
Ciências Humanas e sua tecnologias. Brasília: MEC/SEMT, 2006. RADICE, Lucio Lombardo. O Infinito. Lisboa: Editora Notícias, 1981.
6
Se esse pressuposto não for aceito, perderíamos a (como temos períodos idênticos à direita da vírgula,
garantia sobre a qual se apoia a passagem (III) do nosso quando subtraímos um do outro eles são eliminados).
―truque‖. A rigor, 0,333... é um número com infinitos
Note que a estratégia algébrica amplamente usada na
algarismos 3 à direita da vírgula, ao passo que 3,333...
determinação de frações geratrizes de dízimas periódicas
possui ―um algarismo a menos à direita da vírgula‖. Na
exige a seguinte premissa acerca dos conjuntos com
prática, como tanto em um caso como outro temos
infinitos elementos:
infinitos algarismos idênticos à direita da vírgula, mesmo
com a ―retirada‖ de um deles ainda assim ficamos com Retirar um elemento de um conjunto com
infinitos algarismos 3 à direita da vírgula em 3,333..., o infinitos elementos produz um conjunto com
que nos permite dizer que o resultado de infinitos elementos

Situação 2

Na figura ao lado, ABC é um triângulo retângulo em A, e A’ e C’ são pontos médios, respectivamente, dos
segmentos e .

Sabe-se, da geometria básica, que nessas condições a medida do segmento é a metade da


medida do segmento .
A pergunta que propomos agora é a seguinte:
Dado que , quem possui mais pontos, o segmento ou o segmento
?

Sabemos que ambos segmentos têm infinitos pontos, contudo, um desafio interessante é o de propor uma estratégia para
verificar a possibilidade de se fazer uma correspondência ―um a um‖ entre os elementos de ambos os conjuntos (usando o
vocabulário da matemática: correspondência bijetiva, que significa dizer que a cada ponto P de faz-se corresponder
um único ponto M de , e isso ocorre para todos os pontos de ).
Observemos a figura abaixo e vejamos como isso é possível.

Os dois conjuntos são, portanto, equivalentes, apesar de Note que esse exemplo aponta com clareza para o fato
que , de onde podemos concluir que o todo de que o conceito de infinito exige o abandono de certas
pode ser equivalente à parte. verdades fundamentais cuja evidência a vida cotidiana
dos conjuntos finitos nos impõe.

Situação 3
Número primo é aquele que é divisível apenas por 1 e Para aqueles que acreditam na intuição como um
por ele mesmo, excetuando-se o número 1 que não é método para se chegar a verdades matemáticas, é
definido como primo. Portanto, o conjunto dos números provável que a resposta seja ―SIM, existem infinitos
primos é . Uma pergunta que números primos‖ já que existem infinitos números
naturalmente nos ocorre é: Será que existem infinitos naturais, e o conjunto dos números primos é um
números primos? subconjunto dos naturais.
Se sua resposta foi essa, o que você teria a dizer sobre o
seguinte fato ilustrado na tabela que se segue?
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Entre os números 1 e 1000 Existem 168 números primos Depois disto, Euclides imaginou um número composto
Entre os números 1000 e 2000 Existem 135 números primos muito grande formado pelo produto de todos os números
primos, do primeiro ao último, ou seja, um ―numerão‖ N,
Entre os números 2000 e 3000 Existem 127 números primos
assim:
Entre os números 3000 e 4000 Existem 120 números primos

Entre os números 4000 e 5000 Existem 119 números primos


Está claro que o número N é um número composto, pois
Obs: e esteja certo que para um certo intervalo de 1000 números
é divisível por 2, por 3, 5, 7, 11, e assim por diante, e
NÃO HAVERÁ PRIMO ALGUM CONTIDO NELE
finalmente é divisível por p, até aqui considerado o
Sua opinião mudou depois de analisar a tabela? ―último‖ número primo.
Pois bem, a matemática é uma ciência que apoia-se Euclides não parou aí, pensou então num número ainda
fundamentalmente na lógica dedutiva. O problema que maior que N, pensou no número M assim formado.
acabamos de analisar foi investigado, e solucionado por
volta de 300 a.C por Euclides, um dos precursores do uso
sistemático do pensamento dedutivo. Ora, pensou Euclides, M não pode ser múltiplo de 2.
Apesar das evidências da tabela indicarem que o Observe que
conjunto dos números primos é finito, Euclides
demonstrou que ele é infinito, usando para isso uma
técnica de demonstração chamada redução ao absurdo, é um número impar, quando dividido por 2 dá resto 1.
que consiste em: Também não é múltiplo de 3, dá resto 1 quando dividido
1º) parte-se de uma hipótese que se quer demonstrar; por 3, pelo mesmo motivo:

2º) apresenta-se alguma contradição lógica que decorre


do uso em algum momento da hipótese; Usando um raciocínio semelhante concluiu que M não
3º) Conclui-se a negação da hipótese. pode ser múltiplo de 5, de 7, 11, 13, 17, enfim, não é
divisível por nenhum número primo menor ou igual a p.
Vejamos a demonstração de Euclides, considerada uma
das mais belas da matemática. Portanto o novo número
é um número primo ainda
Vamos supor que exista um número finito de números
maior que p.
primos. Se for assim, então deve existir um último
número primo. Vamos chamá-lo de p. A sequencia de Frente a esta contradição, Euclides concluiu que não
números primos até o p é a seguinte: pode haver um último número primo, ou seja, que sua
hipóteses inicial não poderia ser verdadeira, provou
2,3,5,7,11,13,17,19 p então que o número de primos é infinito (negação da
hipótese inicial).

Situação 4
No estudo das progressões geométricas, sabemos que as
série de infinitos elementos e razão entre –1 e 1 são
convergentes, o que quer dizer que é possível calcular a
soma dos seus infinitos elementos. O exemplo clássico
disso é a soma

Normalmente trabalha-se a determinação do valor da


soma a partir da fórmula de soma dos infinitos termos de
uma PG de razão entre –1 e 1, contudo, seu uso talvez
seja menos convincente do que a busca de imagens que
possam justificar essa soma. Um caminho possível para
isso é o de fazer infinitas partições de ―metades‖ em um
segmento de comprimento 1 unidade, como o que se
segue:

Note que a soma das infinitas partições será sempre 1.


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Tais são algumas das questões de fundo da matemática. Atividades com os alunos
Uma abordagem interessante em matemática é a
apresentação de certos paradoxos lógicos, como o Com os exemplos a que nos referimos, pretendemos
Paradoxo de Zenão – cuja uma das soluções possíveis, apresentar possíveis caminhos em cada uma das
matemática, é o que foi apresentado na Situação 4, há disciplinas para a elaboração de perguntas cujo sentido é
pouco. o questionamento dos fundamentos e princípios que por
Zenão foi filósofo, discípulo de Parmênides, para quem vezes aceitamos sem muito pensar a respeito. A tarefa
as transformações que podemos perceber não aqui é, antes encontrar as respostas, mas o exercício da
passariam de ilusão. Para defender as teses de dúvida, da reflexão, da pergunta.
Parmênides, Zenão elabora uma série de paradoxos para Assim, motivados pelos exemplos e com o auxílio dos
demonstrar o absurdo que é aceitarmos que há professores, os alunos tentariam, então, elaborar
verdadeiramente alguma transformação – que haja perguntas também, escolhendo algum tema que seja
movimento. O movimento é uma ilusão. pertinente a alguma das disciplinas envolvidas na
Este é um paradoxo clássico e bastante conhecido, a do atividade.
arqueiro que lança uma flecha que nunca chegará ao Sugerimos que a pergunta seja elaborada por grupos
alvo. pequenos (até 5 alunos) e que haja um
Ele, do ponto em que está, que chamaremos de 0 (zero), acompanhamento por parte dos professores, para avaliar
lança a flecha, e vemos que ela alcança o alvo, em um o alcance das perguntas e proporcionar uma melhor
qualidade para a tarefa dos alunos. Note-se que, durante
ponto 1, a uma distância 1. No entanto, isto é impossível.
o processo de elaboração da pergunta, será necessária
Impossível que a flecha tenha alcançado o alvo, embora
uma série de pesquisas simples e básicas: consulta a
seja isto mesmo o que qualquer um poderia observar.
dicionários, a enciclopédias, a livros didáticos; buscas
Entretanto, contrariamente aos nossos sentidos, a flecha
pela internet; entrevistas com professores e pessoas
não chega nunca ao alvo ou sequer consegue sair do
entendidas no assunto em pauta.
ponto 0.
Eventualmente, caso as perguntas que os professores
Por que? Não é necessário que, antes de chegar ao
formularam, se foram capazes de causar ―admiração‖
ponto 1, a flecha tem que necessariamente passar pela
nos alunos, pode-se propor que eles elaborem uma
metade da sua trajetória? Antes, tem que passar pelo
reflexão – ou seja, que possam formular mais perguntas
ponto . Mas antes disso, não tem que passar pela e as tentativas de resposta – sobre a mesma questão.
metade da metade do caminho, no ponto ? E antes, pelo Elaborada a pergunta pelo grupo de alunos, podemos
ponto ? E antes ainda, ? Ora, não podemos sempre passar a uma fase individual: a produção de um texto
pensar que podemos dividir ao meio qualquer que seja o que seja uma tentativa de resposta, ou que ao menos se
trajeto, ou a fração do trajeto? Pois a trajetória, entre 0 e apresente as dificuldades de encontrá-la – os prós e
1, possui infinitos pontos – pois poderemos sempre contras de cada uma das respostas possíveis a que
continuar a dividir por dois distância que separa dois puderam chegar, mas sem que pudessem ter resolvido
pontos. Não é assim? por uma ou outra. A discussão pode ser em grupo, os
alunos podem trocar informações e argumentos, mas é
Que a flecha gaste um tempo qualquer t de um ponto a interessante que haja uma elaboração individual de
outro. Então, ela gastaria infinitos tempos t para registro.
alcançar o alvo. Logo, a flecha nunca chega. E será difícil
Assim fecharíamos um ciclo, começamos discutindo as
reparar que ela consiga mesmo sair do lugar.
perguntas de Sócrates, encaminhamos exemplos de
Única conclusão possível: o movimento não existe. perguntas acerca de nossa disciplinas, aguçamos a
E a este paradoxo, os alunos respondem atônitos: como curiosidade dos alunos, incentivamos perguntas próprias
é possível?! A matemática está errada, professor!‖. dos alunos e tentamos respostas. Partimos da atividade
Outros, mais pragmáticos, simplesmente saem andando coletiva para a elaboração individual e, para voltar ao
pela sala ou usam da ironia: ―Professor, se eu jogar meu coletivo, precisamos pensar numa socialização dos
caderno na sua cabeça, ele nunca vai te alcançar, não registros, em um encontro para divulgar as perguntas e
é?‖ as tentativas de respostas. E talvez o encasquetamento,
mesmo depois de tudo isso, ainda permaneça. E, não é
assim a aventura do conhecimento?
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