COMPARTICIPAÇÃO CRIMINOSA

134. Introdução A matéria da comparticipação encontra-se prevista nos arts. 26º, 27º, 28º e 29 CP. A comparticipação criminosa postula em que várias pessoas concorrem para a prática de um facto penalmente relevante. Pode-se genericamente definir a comparticipação criminosa para o direito português como uma situação de pluralidade de intervenientes num facto. O problema que as regras de comparticipação criminosa visam responder é saber, dentro da prática de um facto, quem é que é responsável, porquê e em que termos. As regras da comparticipação criminosa são regras necessárias para no fundo se poder aplicar as regras da parte especial a outras pessoas que não apenas àquelas que praticam o facto por si mesmas. Sendo certo que as normas da parte especial carecem em alguns casos das normas da parte geral para integrar outros comportamentos, as normas dos arts. 26º e 27º CP são normas que por si só não têm valor, são normas que se têm que relacionar com as normas da parte especial. E nestas relações entre as normas dos arts. 26º, 27 e até o art. 28º CP com as normas da parte especial, tem-se no fundo um conjunto de outras regras. As regras dos arts. 26º, 27º, e 28º CP são regras de extensão da tipicidade, ou seja, são regras que visem no fundo tornar típicos comportamentos que não eram típicos. As regras da comparticipação criminosa visam valorar contributos que não são imediatamente subsumíveis aos tipos de ilicitude da parte especial. Em segundo lugar, trata-se de regras que, em conjunto com a(s) regra(s) da parte especial, criam uma nova regra de valoração jurídica, nesse sentido estendem a tipicidade da parte especial. A comparticipação criminosa assenta na distinção fundamental entre autoria e participação. As diversas figuras da autoria e da participação por referência à lei são as seguintes: a) Autoria (art. 26º CP) Autoria singular; Autoria mediata; co-autoria

Figuras que estão previstas no art. 26º CP. a) Participação criminosa são formas de envolvimento menos grave, pressupõem sempre um autor e são:

quando os cúmplices prestassem um contributo essencial seriam autores. 27º CP o cúmplice é sempre punido de uma forma menos grave que o autor. e isto por duas razões: 1) Porque prescindiu de qualquer referência à causalidade. que é mais radical. porque o conceito extensivo de autor admitia no fundo uma cisão da cumplicidade. Eduardo Correia. mas podese fazer distinções consoante o contributo seja essencial ou não seja essencial. de uma forma mais radical. ou seja rejeitou o conceito unitário de autor. como um conceito unitário. Se porventura alguém fosse causal para o facto. mas o seu contributo não fosse essencial. Esta posição distingue-se de uma outra. dá uma ordem a outrem para que esse outrem cometa um facto ilícito. - O Código Penal separou claramente os cúmplices dos autores. todos são autores (trata-se por exemplo do sistema seguindo no direito austríaco). Por outro lado. de apoio a um facto praticado por outrem. o que é um elemento interpretativo bastante claro no sentido de se poder dizer que o Código Penal não aceitou uma equiparação total entre os diversos intervenientes. isto é: há quem entenda que se teria de partir de uma ideia de causalidade. O conceito extensivo parte de uma ideia de causalidade. Autoria A ideia básica que está subjacente a um conceito extensivo de autoria é a da equiparação causal dos diversos contributos: quem é causa de um facto. ou quem se torna causal por um facto. e sempre que ela fosse essencial para o facto ter-seia um autor. rejeitando um conceito unitário de autor. - 135. já não se teria autor1[46]. independente da distinção que se possa fazer quanto à essencialidade da causa. mas há formas radicais de ler este conceito extensivo: Um conceito causal de autor pode ser unitário. é o autor do mesmo.- A instigação corresponde. aquele que dá uma indicação. pode-se dizer também que rejeita um conceito extensivo de autor. 26º e 27º CP vê-se que no art. e no conceito unitário quem der causa ao homicídio é autor sempre. também de base causalista. Num conceito meramente extensivo parte-se duma ideia de causalidade. não há distinções a fazer. Se ler-se os arts. A cumplicidade é o acto de auxílio. Este conceito extensivo pode ainda ser visto puramente como um conceito extensivo ou. O Código Penal rejeitou um conceito extensivo de autor. O Código Penal não admite essa cisão: . 2) Porque na perspectiva do Prof. que é esta: a partir do memento em que se identifica que alguém é causa.

Teoria (ou critério) formal objectivista Diz que o autor é o sujeito que executa a conduta típica. como é que essas diversas tarefas são valoradas. - Ao não admitir esta distinção a cumplicidade essencial e a cumplicidade não essencial o Código Penal também rejeitou um conceito extensivo de autoria.- Por referência ao conceito extensivo do autor quem forneça uma arma imprescindível para a prática do facto ilícito é considerado autor desse facto ilícito. E por essa razão parece que ela não resolve coisa alguma do ponto de vista de esclarecer a comparticipação criminosa. ou seja. Para o Código Penal. 3) Os critérios materiais objectivos. 137. O problema fundamental está em saber como é que se podem valorar certos contributos perante a execução de um facto típico quando há divisão de tarefas. pode ser concretizada por referência a diversos critérios. Em rigor. que é uma distinção doutrinária. mais decisiva. - Esta distinção entre autor e participante. Se a conduta típica é matar. a teoria formal objectiva supõe que está definido que pretende definir: é a execução da conduta típica. A teoria formal não permite dar uma resposta. isto é. a teoria formal objectiva diz que quem executa a conduta típica é que é o autor. a teoria formal objectiva mais não seria do que a aplicação dos próprios tipos da parte especial. quando existe divisão de tarefas. por mais essencial que seja o contributo. ou seja. não resolve o problema fundamental da comparticipação criminosa que é saber. 136. quem forneça uma arma é sempre considerado cúmplice. . e há fundamentalmente três critérios que pretendem operar esta distinção entre autor e participante: 1) O critério formal objectivo. A conduta típica é matar alguém. Participantes são aqueles que têm um envolvimento mais distante com o facto. Conceito causal de autor no sistema comparticipativo Uma primeira distinção fundamental consiste em distinguir os autores de participantes: Os autores dos factos são pessoas que perante o facto têm uma posição mais importante. a questão traduz-se em saber quem é que mata a vítima. 2) As teorias subjectivistas. um envolvimento menos importante. tem-se o problema ainda por resolver. Então. porque é exactamente o problema de saber a quem é que pode ser imputado o facto total quando há contributos parciais que se tem em mãos na comparticipação criminosa.

que seriam sempre os de divisão de tarefas ou da intervenção de uma pluralidade de pessoas. Isto subverte completamente o problema objectivo. - Esta teoria padece de vários vícios. Portanto. são critérios muito imprecisos. mas quando aplicado. ou seja. Participante será aquele que tiver “animus socii”. reportava-se no fundo ao interesse na prática do facto. Um outro problema é o da imprecisão das teorias subjectivas. O primeiro é um vício de técnica jurídica ou dogmática jurídica que é este: o problema da comparticipação criminosa é um problema de tipicidade objectiva e traduz-se em saber como é que certos contributos. 138. ou seja. Critérios materiais objectivos . - - 139. quem tiver intenção de se envolver no facto como autor. com base em critérios subjectivos. quem tem interesse mas não pratica o facto é autor. conduz a soluções discrepantes. desligado no fundo do próprio facto. a teoria formal objectiva é nesta perspectiva uma teoria consideravelmente inútil. isto é. Teoria subjectivista A teoria subjectivista distingue-se os autores dos participantes com base na seguinte ideia fundamental: Autor é aquele que tiver “animus auctoris”. por regra há pessoas que não praticam o facto típico tal como ele está integralmente descrito. praticam apenas parcelas daquilo que poderia ser o facto típico. mas não tem intenção de se comportar verdadeiramente como autor. mas mesmo assim não permitira resolver os casos mais complicados. mas se identifica bem qual é no fundo o “animus” relevante. podem ser vistos na valoração de um facto concreto.Quando há divisão de tarefas. O que é o “animus auctoris” e que é o animus socii”? A doutrina maioritária nesta sede. Em terceiro lugar. de contributos. Por outro lado e em terceiro lugar. Seria aparentemente respeitadora do princípio da tipicidade. de mero envolvimento. tem um envolvimento. isto é. reportam-se a elementos da intencionalidade que não fazem parte dos tipos. que são objectivos. quem pratica o facto mas não tem interesse em rigor não é autor. o problema da comparticipação criminosa é um problema de tipicidade objectiva e em função do interesse na prática do facto subverte-se completamente a postura dos agentes perante a lesão do bem jurídico. as teorias subjectivas não têm qualquer apoio legal. este critério gerou situações perfeitamente bizarras. são critérios tecnicamente contraditórios porque tentam resolver problemas de tipicidade objectiva. ou seja. que se defendem estas teorias. Em segundo lugar. sintetizando: Em primeiro lugar. ou seja.

E nesta medida em que uniformiza realidades que de acordo com a experiência comum são diferentes. isto é. o preenchimento do tipo a título de autor depende de factores completamente aleatórios. Ela é formulada pela primeira vez de uma forma mais rigorosa por Welzel. A tese causalista trata da mesma forma realidades que de acordo com a experiência comum são diferentes. viola o princípio da proporcionalidade. esta essencialidade pode depender de factos que são alheios ao contributo e que são aleatórios. este domínio pode ser positivo ou negativo: O domínio do facto é positivo. que tem o poder de provocar a agressão no bem jurídico. na perspectiva de Roxin. as valorações jurídicas não podem ser as mesmas porque o contributo lesivo de cada um destes actos é diferente. é apenas o domínio de frustrar o avanço para a consumação. trata da mesma forma contributos que. O domínio do facto é negativo. que o autor era a pessoa que exercia o domínio final do facto. Este conceito que foi formulado por Welzel e que foi trabalhado posteriormente por Roxin tem imensas virtualidades. o conceito causalista de autor tem uma base material de natureza objectiva: quem presta um contributo que é essencial ao cometimento do facto é considerado autor. porque repare-se: quando se valora um contributo como essencial ou não essencial. Teoria do domínio do facto Esta é ainda uma teoria material objectiva. Em primeiro lugar. mas este poder de fazer evoluir algo significa duas modalidades fundamentais no domínio. por duas razões fundamentais.O critério do Prof. Mas há ainda uma segunda crítica que é mais importante do que esta: é a teoria causalista do Prof. quem não tivesse esse domínio final do facto então devia ser punido apenas como participante. viola o núcleo elementar do princípio da justiça. Eduardo Correia é um critério material objectivo. Na perspectiva do Dr. quando o domínio de fazer evoluir o facto para a consumação. - . Eduardo Correia. de acordo com a experiência comum. O que é o domínio do facto? A ideia do domínio do facto parte desta ideia fundamental: o autor de um facto ilícito é aquele que tem o poder de fazer avançar o facto ilícito. Por outro lado. são diferentes. trata todos da mesma forma. 140. Costa Pinto o conceito causalista de autor não deve ser aceite. depende de factores completamente aleatórios. Este autor considerou. contudo a teoria causalista uniformiza-os a todos. perante nomeadamente a sua concepção finalista. Domínio do facto é portanto um certo poder de fazer evoluir um perigo para um bem jurídico. isto é.

a teoria da comparticipação criminosa (teoria do domínio do facto) relaciona um certo agente com uma acção. como o exercício de um domínio positivo sobre o perigo. porque quem tem o domínio do acção típica preenche desde logo o tipo da parte especial. ou o conceito e autor. Mas estes casos não levantam particulares problemas. 26º CP e traduz-se naquela situação em que alguém pratica o facto “por intermédio de outrem”. quem pode fazer evoluir o perigo para o bem jurídico. Quem não detém esse poder. isto é. isto é. ou seja: Quem tem o poder de fazer avançar o perigo para o bem jurídico é autor desse facto. e isto parece correcto: o objecto do domínio é o perigo. Por isso pode-se definir o conceito de domínio do facto. dominar a consumação do facto ilícito descrito na parte especial. por referência ao domínio do facto. a única realidade dominável não são os resultados é o perigo. Nos casos de autoria material o autor do facto ilícito é aquele que tiver materialmente o domínio da acção típica. o que caracteriza a autoria é o domínio positivo do facto. ou seja. em rigor seria desnecessária previsão de uma situação de autoria material. Enquanto a teoria da imputação objectiva relaciona uma acção e um certo resultado. O perigo sim. o domínio particularizouse em relação a cada uma das figuras previstas na lei. . 26º CP quando se diz que “é punível como autor quem executa o facto por si mesmo”. isso não caracteriza a autoria. Modalidades de autoria a) Autoria material O autor do facto é aquele que tem o domínio da acção. não é autor do facto. b) Autoria mediata O domínio do facto já se materializa de uma forma diferente vem prevista na segunda proposição do art. Corresponde à primeira proposição do art. deve entender-se esta expressão como aquele que no fundo detém o domínio positivo da acção que integra o tipo de ilícito.Roxin retira daqui um ideia extremamente importante: se qualquer pessoa pode ter no fundo o domínio negativo. Há um aspecto a referir: as figuras da comparticipação criminosa são regras de imputação do facto a um certo sujeito. poderá ser participante. O que é o domínio positivo do facto? Para Roxin é dominar a consumação do tipo. Este conceito do domínio do facto aplica-se de forma diferente às diversas modalidades de autoria. Mas depois. em termos gerais é autor quem detém o domínio positivo do facto. é que é uma realidade susceptível de ser dominada. 141. De acordo com outro autor Bachmann.

um domínio na possibilidade de conduzir o perigo para o bem jurídico. E é nesta instrumentalização que reside o momento do domínio: aquele que instrumentaliza outra pessoa. 2) Um segundo conjunto de situações identificado por Roxin traduz-se num domínio sobre vontades débeis e instrumentalizáveis. existe domínio da vontade sempre que se verifica uma situação de indução em erro relevante. Como é que se podem concretizar estas formas de domínio da vontade? 1) Em primeiro lugar. portanto. Portanto. tem um poder de conduzir o facto porque domina a vontade da pessoa que tem poder materialmente sobre a acção. porque quem pratica materialmente a acção é instrumentalizado por outrem. tem esta particularidade: a acção materialmente é praticada por uma pessoa. por referência ao domínio da vontade. Nestas situações entende Roxin que quem utiliza uma criança ou um inimputável (incapaz de culpa genericamente) tem. 3) Um terceiro grupo traduz-se nas situações de coacção psicológica irresistível Roxin identificou um terceiro leque de situações que correspondem ao exercício do domínio da vontade quando alguém exerce sobre outrem uma coação psicológica irresistível. de instrumentalização. mas existe uma outra que está por detrás dela que não praticando materialmente a acção. A situação de autoria mediata. nas situações de autoria mediata há um domínio da vontade que permite no fundo dizer que o poder que o sujeito detém de fazer evoluir a agressão para um certo bem jurídico é o domínio que esse sujeito tem sobre a vontade daquele que executa materialmente o facto. como por exemplo as crianças e os inimputáveis em razão de uma anomalia psíquica. Estes três conjuntos de situações: Situações de indução em erro relevante. .Na perspectiva de Roxin significa que a pessoa não tem materialmente o domínio da acção. é fundamental para as situações de autoria mediata. Esta ideia de utilização. Quem induz outra pessoa em erro relevante exerce um domínio sobre a vontade dessa pessoa e portanto o facto que essa pessoa pratica é imputável ao sujeito que a instrumentaliza. isto é. detém sobre esse facto um poder que essa outra pessoa não tem. mas tem ainda perante o facto uma situação de poder que lhe permite conduzir a lesão para o bem jurídico. ou instrumentalizando outrem. levando-a a praticar um facto. Qual é a realidade sobre a qual incide esse poder? Na perspectiva de Roxin é o domínio sobre a vontade do autor material. Genericamente pode dizer-se que a indução em erro relevante (aquele no fundo que inculca o dolo) corresponde a uma situação de exercício do domínio do facto. pessoas que actuem sem consciência da ilicitude ou inclusivamente alguém que seja inimputável por anomalia psíquica. em função da sua posição de ascendente sobre essa pessoa. é utilizar alguém que tenha uma vontade débil e que pode ser conduzida perante o ascendente de outra pessoa: inimputáveis em razão da idade. uma outra forma de praticar o facto através de outrem.

por outro lado. por acordo ou juntamente com outro ou outros”. se o tipo é doloso a extensão também será dolosa. c) Co-autoria Nestas situações tem-se uma repartição de funções em que existe. Por outro lado a ideia de domínio do facto é incompatível com uma atitude negligente. que é o acordo. mas essa acção era de outrem. este é uma concertação de vontades para a prática do facto. isto é. para existir co-autoria é necessário que exista uma acordo. detém um domínio funcional do facto. nos crimes negligentes é completamente desnecessária a teoria do domínio do facto. este pode ser: Prévio ao facto.- Situações de utilização de inimputáveis. imputado ao autor mediato. pela função que desempenha dentro do plano. de acordo com o contributo que presta. Roxin cria além disso. Esta concertação de vontades existe na co-autoria e não existe na autoria mediata: Na autoria mediata existe uma vontade de dirigir o facto por parte do autor mediato. mas não há concertação de vontades. - Conduzem a que o facto materialmente praticado pelo executor material seja atribuído. A ideia fundamental de Roxin traduzir-se-ia em identificar situações em que a cadeia hierárquica entre várias pessoas era de tal forma forte que quem praticava materialmente a acção em rigor praticava-a. àquele que no fundo detém o domínio da vontade do executor material. um quarto grupo de situações de autoria mediata: são situações em que alguém exerce um domínio da vontade dentro de um aparelho organizado de poder. ou de vontades débeis ou instrumentalizáveis. é necessário um acordo. - Portanto. pode ser uma decisão conjunta prévia. Ou pode ocorrer no momento da prática do facto. A co-autoria está prevista na terceira proposição do art. - A Profa. a figura é sempre uma figura dolosa. Importa frisar que nestas situações de autoria mediata. . Na co-autoria há esta concertação de vontades. pelo papel que tem. e que. Teresa Beleza diz que a teoria do domínio do facto é incompatível com os crimes negligentes. 26º CP quando se diz “toma parte directa na sua execução. A ideia de domínio pressupõe consciência e vontade para que se possa no fundo dirigir o perigo. o sujeito. ou seja. Um dos elementos da co-autoria é um elemento de carácter misto. Situações de coacção psicológica irreversível. ou pode ser uma decisão no momento da prática do facto. um domínio funcional do facto. e é dolosa por várias razões: Sendo uma extensão do tipo da parte especial. por parte de cada um dos co-autores.

São duas referências fundamentais para definir o contributo do co-autor. pode alguém tomar parte num facto ou num plano sem estar a participar na execução. tem que ser um contributo que esteja pelo menos previsto no art. . porventura o comportamento também apenas se poderá reconduzir à cumplicidade. ou seja. 142. Isto é. O que é tomar parte directa na execução? Supõe em primeiro lugar. Por outro lado. Tácito. esta coincidência entre o momento do acto do co-autor de tomar parte directa e a execução em curso: Se for antes da execução tem-se cumplicidade. Como é esse acto? Como é que ele se deve delimitar? A Profa. tem que estar em curso uma execução. A co-autoria no fundo tem uma baliza objectiva que é a execução do facto pelos autores. Portanto. para haver co-autoria. e o acto típico do co-autor é o acto de tomar parte directa numa execução em curso. Conceição Valdágua entende que tomar parte directa na execução. 22º/2-c CP.Pode ser por outro lado: Expresso. é necessário que exista um acordo mas não basta esse acordo. mas repete-se. Segundo. tomar parte directa tem que ser um contributo minimamente típico. Conceição Valdágua entende que para se respeitar o princípio da tipicidade em matéria de responsabilidade dos diversos agentes. Ora. repare-se porquê: É possível alguém ter alguém envolvimento numa execução sem tomar parte dela. que tome parte directa nela. E em que consiste tomar parte directa? A Profa. tem que ser um acto que faça supor que a seguir será praticado o acto de execução. um certo envolvimento presencial no facto que está em causa. O que é necessário é que exista um acordo que se traduz nesta concertação de vontades para a prática do facto. ou seja. isto supõe duas referências fundamentais: Primeiro. Tomar parte directa na execução É um elemento de natureza objectiva muito importante. o contributo típico do co-autor tem que ser um contributo também identificado em termos de tipicidade. tem que existir. que exista uma execução em curso. Se for depois da execução.

- Se o fundamento da responsabilidade dos participantes não é o domínio do facto. Formas de participação As formas de participação são formas de envolvimento no facto em relação às quais não se identifica no participante um momento de domínio. Nos casos de co-autoria dependente o co-autor não tem verdadeiramente o domínio do facto. As figuras da participação criminosa são a instigação e a cumplicidade. apenas tem o domínio do seu contributo. - Esta distinção é relevante. isto é. a) Co-autoria complementar: os agentes que actuam não detêm totalmente o domínio do facto. A participação caracteriza-se por o participante não ter o domínio do facto ilícito. O cúmplice é o agente que presta auxílio material ou moral à prática do facto. b) Co-autoria dependente: alguém pratica um acto de domínio.A co-autoria não é sempre a mesma. os participantes são responsáveis não porque praticam um facto. distinguindo nomeadamente a chamada co-autoria complementar das situações de co-autoria dependente. mas detém uma parcela importante do domínio por referência a um poder sobre o seu contributo. qual é esse fundamento? De acordo com o Código Penal é o princípio da acessoriedade limitada. detêm-no de uma forma repartida. mas esse domínio é limitado. este domínio depende do autor. ou seja. há modalidades diferentes de co-autoria. o participante é um sujeito que contribui para um facto. 25º CP. isto é. 143. 24º CP. o co-autor detém realmente o domínio positivo do facto seu contributo: depende dele praticar ou não praticar aquele acto de envolvimento. . ou seja. O instigador é aquele sujeito que de acordo com o art. a sua função é extremamente importante. mas porque prestam um contributo para o facto. Os co-autores dependentes desistem nos termos do art. porque conduz a regimes de desistência diferentes: Os co-autores complementares desistem nos termos do art. mas não detém o domínio do facto. mas não detém o domínio global do facto. terá que ser algo novo. apenas tem o domínio do contributo que presta. Há situações de co-autoria em que o envolvimento é mais forte. Portanto: Enquanto nos casos de co-autoria complementar os domínios dependem um do outro. não está repartido com outras pessoas. O co-autor não detém o domínio total do facto. 26º in fine CP determina outrem à prática de um facto.

ilícito. neste sentido pode-se dizer que: Autores são o autor material. ilícito e culposo ou se. e isto é suficiente para responsabilizar o participante. se o autor material pratica um facto que é típico. Claramente. conforme resulta do art. de uma forma externa. 3) Do art. ou seja.Esta acessoriedade é limitada neste sentido: para existir responsabilidade do participante é preciso que o autor material pratique um facto com algumas características. Nisto consiste a teoria da acessoriedade limitada. ou de uma causa de desculpa e acabar por não ter . 26º CP: é necessário que haja execução do facto ou começo de execução. ou seja. - A punibilidade da participação e dos participantes é sempre acessória da prática. 29º CP é um juízo individualizado de censura. mas que está justificado. Para se poder punir o participante é preciso que o(s) autor(s) tenha praticado um facto típico e ilícito. 28º CP) O Código Penal em matéria da comparticipação criminosa distingue as figuras de autoria e de participação. seja ele instigador ou cúmplice. não existe punição da cumplicidade tentada e também não existe punição da instigação tentada. é evidente que não há razão para punir o participante. embora. a culpa e a punibilidade é ponderado em termos pessoais. ela aproveita a todos. O Código Penal aponta para o princípio da acessoriedade limitada. terá que ser típico. atendendo ao critério do domínio do facto. quando existe uma causa de exclusão da ilicitude. mediato e os co-autores que dependentes. Participantes. efectivamente. isto é. por parte do autor. quer complementares. há uma distinção entre cumplicidade e autoria. 29º CP: o que está para além da ilicitude. Em matéria de comparticipação criminosa. de um facto típico e ilícito. quer da cumplicidade. a doutrina divide-se em saber que características devem ter esse facto: se tem que ser um facto típico. pelo autor. 144. 2) Da existência do art. se tem que ser típico. Para além disso. E isto porque a culpa. Da conjugação de três elementos retira-se que o facto tem que ser típico e ilícito: 1) Do conceito de execução: a responsabilidade dos participantes depende sempre de execução por parte do autor. Teoria da acessoriedade limitada (art. Quer da instigação. Que características são essas? Em parte estão referidas no art. entenda que a instigação é também uma forma de participação e não de autoria. mas beneficiar de uma causa de exclusão da culpa. dependem sempre desta execução de um facto típico e ilícito por parte de terceiro. já não se exige que o autor tenha praticado também um facto culposo. 28º CP: demonstra que o grau de ilicitude se comunica entre participantes. o autor material pode praticar um facto típico e ilícito. se tem que ser típico e ilícito. culposo e punível. o facto praticado pelo autor material tem que ser típico e ilícito. tem-se os instigadores e os cúmplices. O que significa que no sistema português. morais ou materiais.

O participante. Assim. simplesmente. por hipótese se o autor material de um facto ilícito estiver a actuar ao abrigo de um estado de necessidade. que é feita dos participantes para os autores materiais. 3) Pode resultar ainda da prática esporádica de actos isolados. essa relação específica ou essas qualidades podem resultar de vários factores: 1) Podem resultar de um elemento que tem em conta uma relação familiar. Há aqui a chamada inversão da acessoriedade. sê-lo-á em sentido impróprio quando a norma incriminadora em sede de tipicidade exija uma qualidade ou uma relação específica para um agente. se não beneficiar dessa causa de exclusão ou de desculpa será punido. para o tipo pode ser aplicado a todos. para o poder tornar extensível aos demais. Em situações de comparticipação. Diz a lei. ou se exige que o autor tenha uma determinada relação com outra pessoa. para o grau de ilicitude se comunicar aos restantes comparticipantes. mas sê-lo-á em sentido próprio se essa incriminação só existir para aquele tipo de autor tipificado pela lei. eles sim que não têm a qualidade ou que não se encontram numa relação específica pelo tipo. mas contenha uma incriminação paralela para todas as outras pessoas. Em primeiro lugar. 28º CP basta que um dos participantes tenha a qualidade exigida pelo tipo. se não beneficiar dessa causa de desculpa. Nos crimes específicos (em sentido próprio ou impróprio) muitas vezes o grau de ilicitude depende de determinadas qualidades ou de determinadas relações específicas do agente. interessa delimitar o campo do art. uma relação de parentesco próximo. esse é um crime específico. 2) Pode resultar de um elemento atido a relações de aspecto profissional. quando o grau de ilicitude depender de uma qualidade ou duma relação específica. ele pratica um facto típico e ilícito. aquele autor que tem essa qualidade ou essa relação exigida pela própria tipicidade. 28º/1 CP. nos casos de se tratar de um crime específico em sentido próprio ou de um crime específico em sentido impróprio. beneficia desta causa de desculpa e não tem responsabilidade jurídico-penal. Quando para o preenchimento de um tipo se exige uma qualidade específica do agente. basta que ela se verifique num só comparticipante. seja ele cúmplice ou instigador. porque é desculpado.responsabilidade jurídico-penal. como o autor praticou um facto típico e ilícito isso é suficiente para o responsabilizar criminalmente como participante daquele facto. Nos termos do art. Do participante (seja ele cúmplice ou instigador) para o autor. De que forma se podem comunicar essas circunstâncias? Pode haver comunicação de circunstâncias: Entre co-autores. . que basta que um dos comparticipantes tenha essa qualidade ou que esteja nessa relação exigida pelo tipo. ou direito de necessidade subjectivo ou desculpante. Sendo assim. enquanto que o participante.

Situações de erro sobre o estatuto do participante Uma pessoa pode estar absolutamente convencida que está a instrumentalizar a vontade de outra pessoa e portanto. o dolo tem que se estender a todo o tipo. que também nos tipos privilegiados o grau de ilicitude e a comunicação das circunstâncias funcionar. 145. no âmbito dos crimes específicos em sentido próprio ou impróprio. pode estar convencida que está a ser autora mediata de um crime. mas na realidade está numa situação de instigador2[47]. o comparticipante tem de conhecer também dolosamente todos os elementos do tipo que fundamentam uma agravação da ilicitude. Assim sendo. . no sentido de atenuar a responsabilidade penal (no sentido de privilegiar). Teresa Beleza. Como há uma extensão da tipicidade sendo a responsabilidade jurídico-penal dolosa. O grau de ilicitude e a comunicação de circunstâncias verifica-se também do participante para o autor. nestes termos. também. punibilidade por facto tentado. quando o agente julga que está numa situação de autoria mediata. Por outro lado. já a participação tentada é punida. Quando o grau de ilicitude varia. como é que vai ser responsabilizado? Vai-se responsabilizar esta pessoa por aquilo que ela conseguiu fazer: pela instigação. também para os participantes haverá essa punibilidade. Neste sentido pode dizer-se que a acessoriedade limitada não funciona nos mesmos termos no âmbito dos priviligiamentos e das qualificações. a tentativa é um facto típico e ilícito (é possível ser punido por tentativa) e o participante vê a sua responsabilidade moldada no facto típico e ilícito praticado pelo autor. isto é.- Entre participantes. por conseguinte. basta que o autor pratique um acto de execução com a intenção dolosa de cometimento de um crime. No fundo então o que se fez foi determinar a outra pessoa à prática do crime (portanto é instigador). para que exista. Já a participação na tentativa é punível. também é concebível distinguir estas situações: Enquanto que a tentativa de participação não é punível. também entre participantes pode haver esta comunicação de circunstâncias. é de notar também segundo o entendimento da Prof. para ele. Portanto: enquanto as tentativas de participação não são punidas. Assim. a doutrina está toda de acordo em que haja uma comunicação das circunstâncias. Nos tipos qualificadores e quando o grau de ilicitude varia no sentido de uma agravação. Todas as figuras da comparticipação são figuras dolosas e são. extensões da tipicidade. quando na realidade não está a instrumentalizar vontade nenhuma porque essa pessoa pura e simplesmente não se deixa instrumentalizar. já a doutrina não concorda que se possam comunicar essas circunstâncias.

os cúmplices. 27º/2 CP são punidos com pena aplicável ao facto praticado pelo autor especialmente atenuada (atenuação obrigatória). o cúmplice beneficia de uma dupla atenuação obrigatória: Atenuação da pena por ser cúmplice (art. Então.Simplesmente. 23º CP). Atenuação da pena também obrigatória por facto tentado (art. 27º/2 CP). nos termos do disposto no art. tudo se passa para o autor material ou para o instigador como se de uma verdadeira “aberratio ictus” se tratasse. em termos de participação. . se o facto do autor for um facto tentado. e o executor material ou o autor material estão numa situação de erro sobre a identidade da vítima. Quando o instigador instrumentaliza ou quando o autor mediato dirige a sua acção para um determinado facto. Diz a doutrina que estas situações de erro do autor material funcionam em relação ao participante (instigador) como se de uma verdadeira “aberratio ictus” se tratasse. em relação a uma determinada pessoa.

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