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A Responsabilidade do Contador no Novo Código Civil 1

Iara Maria Pinho de Carvalho 2

Paulo César Chagas 3

Resumo

Com o passar do tempo aumentou a necessidade da transparência das informações prestadas pelo contador ao mercado. O novo Código Civil apesar de suas imperfeições veio deixar mais claras as responsabilidades do contador, fazendo com que o profissional tenha o amparo legal no exercício de suas funções, e este agindo com dolo seja punido, respondendo criminalmente por seus atos.

Palavras-chave

Contador, Responsabilidade, Crime, Informações, Imperfeições

The Responsibility of the Accountant in the New Civil Code¹

Abstracty

With passing of the time increased the necessity of the transparency of the information given for the accountant to the market. The new Civil Code although its imperfections came to leave clearer the responsibilities of the accountant, making with that the professional has the legal support in the exercise of its functions, and this acting with deceit is punished, answering criminally for its acts.

Keywords

Counting, Responsibility, Crime, Information, Imperfections

1 Artigo desenvolvido na Graduação do Curso de Ciências Contábeis da UCB

2 Bacharelando do 2º semestre de 2003 Curso de Ciências Contábeis da Universidade Católica de Brasília

3 Professor Mestre Orientador do Trabalho

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1. Introdução

A evolução da tecnologia da informação fez com que ocorressem mudanças na demanda do mercado, ou seja, existia uma demanda na era industrial e hoje existe uma demanda da era da informação, cujo foco é a transparência da informação para a governança participativa. O papel do contador na era da informação passou a ser mais destacado quanto a responsabilidade dos profissionais perante o mercado As regras para a função de contador ficam mais rígidas com o advento de normas que vem definir a responsabilidade do contador, como por exemplo:

Código Civil Brasileiro

Lei Federal

Diploma pelo CRC Este artigo busca apresentar um apanhado da responsabilidade do contador diante deste novo cenário.

2. A Evolução da Transparência da Informação Contábil

Com o desenvolvimento do mercado de capitais e crescimento do comercio e industria surgiu à necessidade de se criar leis que regulamentassem esse crescimento. Foi necessário o aprimoramento da contabilidade para que esses investidores certificassem que os seus recursos estavam sendo aportados em uma empresa de confiança. Essa padronização da informação teve início em 1887, numa reunião de 10 pessoas foi criado a Associação Americana de Contadores Públicos (AAPA) que posteriormente tornou-se o Instituto Americano de Contadores Públicos Registrados (AICPA), que sempre influenciou os padrões de contabilidade. Em 1894 adotou uma resolução recomendando que a ordem de apresentação do balanço fosse do item mais liquido para o item menos liquido, buscando-se uma padronização das informações geradas por cada empresa. No inicio do século XX ocorreu o desenvolvimento das Sociedades Anônimas, fusões de empresas, desenvolvimento de auditoria, investimentos em pesquisas no campo contábil, ênfase no usuário e na contabilidade aplicada, principalmente a contabilidade gerencial.

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A crise no mercado de ações em New York de 1929 culminou em um choque

no sistema. Até 1929 a economia americana estava em pleno vigor, as ações negociadas nas bolsas subiam ocasionando uma euforia financeira que levava muitas pessoas a se desfazerem dos seus bens para investir em ações. Segundo Hendriksen (1999, p. 57) com a grande depressão (1929) os investimentos no setor privado caíram em 90%, o desemprego chegou ao patamar de 24%, a produção caiu em 56% e a arrecadação dos impostos caíram ao ponto de não ser suficiente para o pagamento dos salários municipais.

A contabilidade foi duramente criticada, o que se repete nos dias de hoje com

os casos da Worldcon e Enron, pois a concentração do poder e da riqueza estavam concentrados nas mãos de poucas pessoas, causados pela falta de uniformidade das praticas contábeis e padrões mais rígidos, facilitando a divulgação, dentro de

certos limites das cifras que queriam e também foram criticadas as praticas nas áreas de depreciação e a consolidação que eram praticadas sem nenhuma regra. Muitas empresas se recusavam a divulgar suas receitas com receio que isso ajudasse os seus concorrentes.

A partir de então todas as empresas que solicitassem registro na Bolsa

fornecessem demonstrações financeiras acompanhadas de pareceres de auditores, sendo obedecidos alguns critérios e conter uma opinião a respeito da fidedignidade, coerência e pela primeira vez, conformidade com “práticas contábeis aceitas”. Em 1934, o Congresso Americano criou a Securities and Exchange

Commission (SEC), estabelecendo a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento da Lei de Veracidade na Emissão de Títulos de 1933, a Lei de Negociação de Titulo de 1934 e outras leis. A SEC tem função de determinar os procedimentos contábeis e a forma das demonstrações financeiras que são divulgadas pelas empresas que possuem ações em Bolsas de Valores. No Brasil é a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que tem esta função. Em 1938 a SEC permitiu que os contadores formulassem os princípios contábeis, pois as demonstrações só seriam aceitas se estivesse de acordo com os princípios.

O Comitê de Procedimentos Contábeis (CAP) foi constituído em 1936 com

autoridade para pronunciar-se sobre os princípios e procedimentos contábeis. Em 1957 visando atender aos anseios por uma melhor comparabilidade das demonstrações a AICPA propôs uma reorganização das premissas contábeis, a identificação dos princípios mais adequados e a criação de novos métodos de como

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orientar as necessidades das empresas e dos contadores. Em 1958 foi substituído o CAP pelo Conselho de Princípios Contábeis (APB) e por uma Divisão de Pesquisa em Contabilidade (ARD). O Conselho de Princípios Contábeis (APB) tinha como finalidade fazer a redação dos princípios contábeis geralmente aceitos, reduzir as divergências e promover debates sobre questões polemicas. Seus pronunciamentos deveriam se basear principalmente nos estudos realizados na Divisão de Pesquisa em Contabilidade. Ocorreram varias discordâncias e divergências e a APB foi substituída pelo Fasb. O Fasb é atualmente o principal órgão de normatização dos Estados Unidos, sendo independente de todas as outras organizações profissionais. É composto por 07 membros que dedicam tempo integral e possuem uma vasta experiência no campo contábil das empresas. Tem como finalidade estabelecer os padrões de contabilidade financeira, emitir pronunciamentos sobre os princípios contábeis e divulgação das informações contábeis. No Brasil a necessidade de termos profissionais mais capacitados fez com que o Conselho Federal de Contabilidade extinguisse o técnico em contabilidade conforme resolução:

Resolução CFC nº948/02

Art. 1º. Estabelecer que o registro profissional em Conselho Regional de Contabilidade na categoria de Técnico em Contabilidade só será concedido aos que concluírem o curso de contabilidade, conforme previsto na Lei nº 9.394, de 20/12/1996, cujo termino ocorra até o exercício de 2003. Art. 2º. Fica garantido o direito ao registro profissional e as atribuições profissionais aos que já estejam de posse do diploma de conclusão do Curso Técnico em Contabilidade. Parágrafo Único – Os Técnicos em Contabilidade já registrados em Conselho Regional de Contabilidade terão garantidos os seus direitos e atribuições. Com esta resolução ficou extinto o técnico em contabilidade, porém ficou garantido para quem já possui o registro em Conselhos Regionais de Contabilidade e para quem concluir o curso até o ano de 2003.

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3. A Responsabilidade Civil e Criminal do Profissional Contábil no Novo Código Civil

O novo Código Civil vem estabelecer limites para a responsabilidade do contador, classificando-a em atos culposos ou dolosos, dependendo da forma como esse ato for praticado. Atos culposos são aqueles praticados por imprudência, negligencia ou imperícia. É quando o profissional no exercício de suas funções não os pratica de má-fé, mas por descuido ou aplicação indevida da legislação vigente, e vem trazer resultados diferentes dos que realmente deveriam ter sido apurados, prejudicando terceiros. Nesta hipótese, o contador responderá perante o titular da empresa, sócios, diretores e administradores, e estes responderão perante terceiros pelos danos causados. Os atos dolosos são aqueles praticados propositalmente com a intenção do resultado. Neste caso, o contador responderá solidariamente com o titular da empresa, sócios, diretores e administradores perante terceiros, pelos seus atos praticados. Art. 1.177 do Código Civil Brasileiro. Os assentos lançados nos livros ou fichas do preponente¹, por qualquer dos prepostos² encarregados de sua escrituração, produzem, salvo se houver procedido de má-fé, os mesmos efeitos como se o fossem por aquele. Parágrafo único. No exercício de suas funções, os prepostos são pessoalmente responsáveis, perante os preponentes, pelos atos culposos; e, perante terceiros, solidariamente com o preponente, pelos atos dolosos. O contabilista é o preposto encarregado da escrituração contábil da empresa, exercendo a profissão de contador ou técnico contábil, que através de seu Conselho Federal de Contabilidade vem melhorando a cada dia a qualificação do profissional de contabilidade, seja pela extinção da profissão de técnico de contabilidade, seja pela obrigatoriedade dos cursos de continuidade dos profissionais contábeis. Os registro lançados pelo contabilista nos livros e documentos da escrituração da empresa consideram-se realizados pelo próprio administrador, salvo se for verificado que o contador agiu de má-fé. Como regra geral de responsabilidade na relação de preposição, o parágrafo único deste artigo estabelece que haverá responsabilidade objetiva da empresa quando o contador

1 Preponente – Administrador da Empresa (Diretor-Presidente)

2 Preposto - Contador

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venha a causar dano a terceiro em virtude de ato culposo, cabendo ao administrador indenizar os prejuízos causados, com ação regressiva contra o responsável. No caso de ato doloso, ocorrerá situação de solidariedade, devendo o administrador ser demandado juntamente com o contador para o ressarcimento de prejuízos provocados a terceiros. Art. 1.178. Os preponentes são responsáveis pelos atos de quaisquer prepostos, praticados nos seus estabelecimentos e relativos a atividade da empresa, ainda que não autorizados por escrito. Parágrafo único. Quando tais atos forem praticados fora do estabelecimento, somente obrigarão o preponente no limite dos poderes conferidos por escrito, cujo instrumento pode ser suprido pela certidão ou cópia autentica do seu teor. Os atos praticados pelo contador dentro do estabelecimento comercial da empresa presumem-se que foram autorizados pelo administrador, mesmo não existindo documento escrito. O contabilista não está obrigado a apresentar ao cliente ou aquele que comparecer ao estabelecimento para realizar qualquer negócio, documento que comprove estar ele autorizado a praticar o negócio. Assim, o administrador sempre responderá pelos atos que seu contador praticar dentro do estabelecimento, havendo sempre presunção de que estão autorizados. Para os atos praticados fora do estabelecimento, o administrador somente responderá pelas obrigações contraídas pelo contabilista que expressamente constarem de documento ou instrumento de delegação de poderes para a prática de atos, o que pode ser provado por certidão ou cópia autenticada. Se os atos do contabilista excederem os limites dos seus poderes, o diretor não pode ser responsabilizado por prejuízos que eventualmente sejam causados a terceiros. Além da responsabilidade civil o contador também responde criminalmente, pelos atos praticados dolosamente. A responsabilidade do contador ficou mais clara para o mercado com a entrada em vigor do novo Código Civil, pois este responderá solidariamente com o seu patrimônio. Isso significa que ele pode responder civilmente, podendo ter de pagar indenização, de forma solidária com a empresa, caso se comprove fraude contábil, e a companhia obtenha vantagens em função disso. Se o contador agir com culpa, ele responde somente perante a sociedade, ou seja, responderá aos dirigentes, se agir com dolo, responderá perante terceiros prejudicados solidariamente com a empresa. Em caso do contador ter agido com culpa, quem

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responde perante terceiros é a empresa. Se o contador agiu com dolo, o prejudicado aciona tanto o contador como a empresa. Após a alteração do Código Penal estabeleceu-se a responsabilidade criminal também para o contador, conforme a Lei citada:

Lei 10.268 de 28-08-2001 Art. 342. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou interprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral:

§1º As penas aumentam-se de um sexto a um terço, se o crime é praticado mediante suborno ou se cometido com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo penal, ou em processo civil em que for parte entidade da administração pública direta ou indireta.

§2º O fato deixa de ser punível se, antes da sentença no processo em que ocorreu o ilícito, o agente se retrata ou declara a verdade.

Art. 343. Dar, oferecer ou prometer dinheiro ou qualquer outra vantagem a testemunha, perito, contador, tradutor ou interprete, para fazer afirmação falsa, negar ou calar a verdade em depoimento, perícia, cálculos, tradução ou interpretação:

Pena – reclusão, de três a quatro anos e multa.

Parágrafo único. As penas aumentam-se de um sexto a um terço, se o crime é cometido com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo penal ou em processo civil em que for parte entidade da administração publica direta ou indireta.

4. A Responsabilidade do Contador Antes e Após o Novo Código Civil.

A responsabilidade do profissional de contabilidade deve ser classificada

como responsabilidade civil contratual.

A responsabilidade é civil contratual quando duas pessoas celebram uma

determinada obrigação e uma delas não cumpre a sua parte, causando lesão ao

patrimônio da outra.

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O contabilista será responsável no exercício de sua profissão, quando não agir em conformidade com as regras relativas a sua profissão, por indenizar as perdas e danos decorrentes de seus atos. Vejamos a seguir o que já existia anterior ao novo Código Civil em outros artigos ou em jurisprudências.

 

ANTES DO NOVO CODIGO CIVIL

APÓS O NOVO CÓDIGO CIVIL

“Art. 186. Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou

Jurisprudências anteriores ao Novo Código:

imprudência, violar direito e causar dano

Recurso Extraordinário nº 74.108/MG (DJ 09.08.1972) “EMENTA: Culpa do escritório encarregado da escrita contábil de uma firma, porque esta deixou de recolher imposto, cujo ônus poderia ter transferido ao consumidor.” O escritório encarregado da escrita contábil foi condenado ao pagamento do imposto (principal) e acessórios (correção monetária, multa e juros). Tratava-se de imposto de consumo devido pelo adquirente, sendo o fabricante (Firma), mero agente arrecadador do Fisco. As notas fiscais e as duplicatas saíram sem a parcela do imposto de consumo, por culpa do escritório encarregado pela escrita contábil. Apelação Criminal nº121.556-3, do Tribunal de Justiça de SP. Relator Luiz Pantaleão (DJ 26.04.1993) “-Inexistindo responsabilidade criminal objetiva, o comerciante não pode ser punido pela pratica do crime falimentar, se não tiver agido com dolo ou

outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

a

 

“Art. 927. Parágrafo único. Haverá obrigação

de

reparar o dano independentemente de

culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.

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culpa no sentido estrito.

- A inexistência de livros, ou sua escrituração atrasada ou lacunosa, não são de responsabilidade do comerciante, quando este tem contrato com profissional regularmente habilitado e credenciado para a supervisão e colaboração da empresa.”

No Art. 1.177. Parágrafo único diz que quando o dolo atingir a terceiros o contabilista responderá solidariamente com o preponente, ou em outras palavras com o sócio-gerente da sociedade. Poderá o contabilista sofrer as sanções judiciais cabíveis e até criminal se houver. Isto em parte já era abordado pelo Código Civil anterior, que diz o seguinte:

Art. 159.

Aquele que por ação ou

omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano.

No Art. 1.178. Parágrafo único diz que quando os atos forem executados fora do estabelecimento o preponente ou a sociedade, responderá pelo limites dos poderes conferidos por escrito. Os atos praticados pelo Contabilista que extrapolem os poderes conferidos são de sua exclusiva responsabilidade e por ele responderá.

Este fato está diretamente relacionado com o Art. 1.521, do Código Civil anterior, que trata da reparação civil em seu item III que cita: são também responsáveis: III – o patrão, amo ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou por ocasião dele.

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5. As Imperfeições Contábeis do Novo Código Civil

O Novo Código Civil trouxe muitas mudanças na responsabilidade do Contador, mas cometeu imperfeições que não se poderia esperar. Dentro das Leis estão inseridos artigos mal preparados que pode causar problemas aos profissionais, dentre eles podemos citar:

1º) O art. 1.184 menciona:

§ 2º - serão lançados no Diário o balanço patrimonial e o de resultado

econômico, devendo ambos ser assinados por técnico em Ciências Contábeis legalmente habilitado e pelo empresário ou sociedade empresária. Essa expressão “técnico em Ciências Contábeis” é estranha, pelo fato de que Ciências Contábeis é curso de nível superior e não técnico, que é a denominação do formado em nível médio. Ou existe o Bacharel em Ciências Contábeis ou o Técnico em Contabilidade, mas Técnico em Ciências Contábeis não existe. Por aí se vê o total despreparo dos legisladores em matéria da área de contabilidade. Só que virou Lei! (Eliseu Martins, bol. 40)

2º) O art. 1.182 dispõe:

Art. 1.182 – Sem prejuízo do disposto no art. 1.174, a escrituração ficará sob a responsabilidade de contabilista legalmente habilitado, salvo se nenhum houver na localidade. A Demonstração do Resultado ou o “balanço de resultado econômico” ou a “demonstração da conta de lucros ou perdas”. Indo agora às demonstrações contábeis, a nossa Demonstração do Resultado atual passaria a se chamar balanço de resultado econômico. Repetindo o art. 1.184:

§ 2º. Serão lançados no Diário o Balanço patrimonial e o de resultado

econômico, devendo ambos ser assinado por técnico em Ciências Contábeis legalmente habilitado e pelo empresário ou sociedade empresária. 3º) A mesma expressão balanço de resultado econômico, aparece em vários outros artigos, como por exemplo, no 1.179 que diz:

Art. 1.179 – O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o resultado econômico.

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Novamente os legisladores ou seus auxiliares mostram parecer não entenderem nem de Contabilidade nem de Economia. Pois sabemos que quando se fala em lucro econômico, obrigatoriamente se está embutido o conceito de custo de oportunidade, que é um dos conceitos mais relevantes da Economia.

O art. 1.189 diz algo ainda mais estarrecedor em matéria terminológica.

Art. 1.189. O balanço de resultado econômico, ou demonstração da conta de lucros e perdas acompanhará o balanço patrimonial e dele constarão crédito e débito, na forma da lei especial.

Voltarmos à antiga conta de Lucros e Perdas é realmente um retrocesso. E ainda mais na forma de débito e crédito. Esta é a forma feita na antiga Lei das S/A (Decreto-lei nº2.627 de 1940) mudada pela Lei das S/A de nº6.404/76. Neste novo Código Civil, não há exigência da Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados. Nós temos, com a Lei atual, duas demonstrações: uma apura o Resultado, e a outra o destina (constituição e reversão de reservas, ajustes de exercícios anteriores, distribuição de lucros etc.).

A antiga Demonstração da conta de Lucros e Perdas era a soma das duas de

hoje. 4º) Há no caput do Art. 1.188 o seguinte:

Art. 1.188. O balanço patrimonial deverá exprimir, com fidelidade e clareza, a situação real da empresa e, atendidas as peculiaridades desta, bem como as disposições de leis especiais, indicará distintamente, o ativo e o passivo.

A atual Lei das S/A fala, em seu art. 176:

Art. 176. Ao fim de cada exercício social, a Diretoria fará elaborar, com base na escrituração mercantil da companhia, as seguintes demonstrações financeiras, que deverão exprimir com clareza a situação do patrimônio da companhia e as mutações ocorridas no exercício.

Segundo Eliseu Martins (bol. 40, 2002, IOB) A Lei atual fala apenas em exprimir com clareza, enquanto que o novo Código Civil registra exprimir com fidelidade e clareza. O uso da palavra fidelidade ainda ocorre em alguns países, mas tendente a ser diminuído, já que fiel, fidelidade ou palavras semelhantes pode induzir o leitor a que os números do balanço sejam efetivas representações objetivas, fieis e incontestes de um conjunto patrimonial conforme valores de mercado de agora; pois sabe-se que isso não existe, já que não fazemos, efetivamente uma reavaliação dos ativos e

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passivos da entidade. E mesmo que o fizéssemos, sempre existiriam discussões sobre os valores envolvidos. Trabalhamos, na contabilidade, fortemente baseados no custo de aquisição e não com base no quanto custaria hoje ou por quanto venderíamos hoje determinado ativo, nem mesmo por quanto conseguiríamos liquidar uma dívida se o fizéssemos hoje. O art. 1.187 continua a exigir o custo de aquisição com base de valor para registro dos ativos destinados à exploração da atividade (imobilizados basicamente) e permite o esmo para as mercadorias, matérias-primas etc. assim, a palavra fiel, se for entendida como dizendo a respeito a valores de mercado da data do balanço, pode trazer enormes problemas.

5º) Quanto à escrituração vejamos o que diz o art. 1.179:

Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. Atentemos para a expressão absolutamente desatualizada: mecanizado ou

não. 6º) No art. 1.180 diz:

Art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica. Parágrafo único. A adoção de fichas não dispensa o uso do livro Apropriado para o lançamento do balanço patrimonial e do resultado econômico. Aqui já parece consertado o mal: mecanizada ou eletrônica. Mas aparecem fichas. Ou seja, a escrituração por CDs, discos e outros meios eletrônicos, continua proibida. 7º) A seguir, no 1.181:

Art. 1.181. Salvo disposição especial de lei, os livros obrigatórios e, se for o caso, as fichas, antes de postos em uso, devem ser autenticados no Registro Público de Empresas Mercantis. Será necessário levar os livros e as fichas para registro? Vejamos outro artigo:

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Art. 1.185. o empresário ou sociedade empresária que adotar o sistema de

fichas de lançamentos poderá substituir o livro Diário pelo livro Balancetes Diários e

Balanços, observadas as mesmas formalidades extrínsecas exigidas para aquele.

Próximo artigo:

Art. 1.186. O livro Balancetes Diários e Balanços será escriturado de modo

que registre:

I - A posição diária de cada uma das contas ou títulos contábeis, pelo

respectivo saldo, em forma de balancetes diários;

II - O balanço patrimonial e o de resultado econômico, no encerramento do

exercício.

Ou seja, existindo balancetes diários, como nos Bancos, eles podem ser

colocados na forma de livro e é dispensado o livro Diário!

6. Considerações Finais

Conforme o objetivo deste artigo de evidenciar aos profissionais de

contabilidade o grau de suas responsabilidades, para que não ocorra no Brasil casos

como o das empresas americanas Enron e Worldcon que foram à falência. Cabe ao

mesmo, utilizando-se de todo o seu conhecimento técnico e formação ética, levar

aos interessados um conjunto de informações coerentes, consistentes e

principalmente confiáveis a fim de demonstrar a real situação da empresa.

Com regras mais rígidas para o profissional, hoje o contador está frente a

novos desafios como o de que para ser um profissional da área é necessário o curso

de Bacharel em Ciências Contábeis, tornando-se extinto o técnico em contabilidade

e tem que ser avaliado pelo Conselho Federal de Contabilidade de sua capacidade

profissional, se submetendo ao exame de suficiência.

7. Referências Bibliográficas

Boer, Moacyr, O Contador e o Novo Código Civil, Revista do CRCPR, Paraná, ano 27 – nº134 – 3ºQuadrimestre de 2002.

BRASIL, Lei nº10.268 de 28 de agosto de 2001. Altera dispositivo do Decreto-Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940 – Código Penal.

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BRASIL, Resolução CFC nº 948/02. Dispõe sobre a não concessão de Registro Profissional em CRC aos portadores de certificados e diplomas de nível técnico na área de Contabilidade (profissional de gestão), definido na Lei nº9.394, de 20/12/96, que concluírem o curso após o exercício de 2003.

CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE, PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE CONTABILIDADE E NORMAS BRASILEIRA DE CONTABILIDADE. São Paulo, Atlas – Rio Preto, 1995.

Fiuza, Ricardo. Novo Código Civil, 1ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

Hendriksen, Eldon S. Teoria da Contabilidade / Heldon S. Hendriksen, Michael F. Van Breda. Tradução de Antonio Zoratto Sanvicente. 5ª Ed. Sao Paulo: Atlas, 1999.

Hoog, Wilson Zappa, A Práxis da Escrituração Contábil no Novo Código Civil. Revista Pensar Contábil, Conselho Regional de Contabilidade do RJ, nov/dez 2002 – jan 2003.

Martins, Eliseu. Atrocidades Contábeis no Novo Código Civil, IOB - Athomsom Company, Temática Contábil e Balanços, Bol 40 e 41 2002.

Os Contadores Brasileiros e o Novo Código Civil. Jornal Valor, Rio de Janeiro, p. 5, 18 e 19 Jun 2003.

O Novo Código Civil Brasileiro e a Responsabilidade do Contador, disponível em:

<http://www.sinescontabil.com.br/codigos/coments_codigo_civil_brasileiro_ea_respo ns_contador.htm >. Acesso em 23 jun. 2003.