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A CRIANÇA, O LAR E A ESCOLA A IMPORTÂNCIA DA INTEGRAÇÃO

RESUMO

Rosiane Faustino Fabris¹ Maria Neucilda Ribeiro ²

A partir de pesquisas e análises das experiências escolares e extraescolares vivenciadas por crianças, famílias e instituições de ensino no tocante aos relacionamentos desenvolvidos entre si, percebe-se a necessidade de integração desses atores, cada qual assumindo o seu papel com responsabilidade e compromisso com a formação do cidadão.

O presente texto tem como objetivo colaborar com a discussão e reflexão sobre a

integração da família com a escola, contudo sem pretensão de esgotar o assunto. Neste sentido, a pesquisa se desenvolveu com no intuito de identificar e analisar as dificuldades

enfrentadas pela equipe pedagógica da Escola Joaquim Xavier de Oliveira no sentido de participação e envolvimento da família nas atividades escolares, utilizando para tal a metodologia do estudo de caso, por meio de entrevista em profundidade a alunos pais e professores da turma do 6º ano “A” do Ensino Fundamental da referida escola, concluindo que, os valores essenciais que embasam a formação do cidadão, iniciam-se no meio familiar, dando continuidade no âmbito escolar e praticado em todos os segmentos da sociedade.

Palavras chave: Educação. Criança. Desenvolvimento. Família. Escola.

ABSTRACT From research and analysis of school and extracurricular experiences experienced by children, families and educational institutions with respect to the relationships developed between them, one realizes the need to integrate these actors, each taking their responsibilities and commitment to formation of the citizen.

This paper aims to contribute to the discussion and reflection on the integration of the family with the school, but without intending to exhaust the subject. In this sense, the research was developed with the aim to identify and analyze the difficulties faced by the teaching staff of the School Xavier Joaquim de Oliveira in the sense of participation and

family involvement in school activities, using the methodology of this case study, through

of in-depth interview the students parents and teachers of the class in the 6th grade "A"

elementary school of that school, concluding that the core values that underlie the formation of citizens, begin in the family environment, continuing in the school and

practiced in all segments of society.

Keywords: Education. Child. Developing. Family. School.

¹Aluna do Curso de Especialização em Coordenação Pedagógica modalidade EaD / Programa Escola de Gestores da Educação Básica-RO. Secretaria do Estado da Educação/ SEDUC. Coordenadora Pedagógica da EEEFM Joaquim Xavier de Oliveira (rosifaus_@hotmail.com).

²Orientadora: professora Maria Neucilda Ribeiro, Mestra, coordenadora adjunta do Curso de Especialização em Coordenação Pedagógica modalidade EaD / Programa Escola de Gestores da Educação Básica-RO, Lotada no Departamento de Ciências da Educação/UNIR. (marianribeirorbr@gmail.com).

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Introdução

A família, qual seja a sua organização, é o primeiro grupo social da qual a criança faz parte. Ali ela recebe as primeiras e, até mesmo as mais importantes instruções para a vida. Algum tempo depois, esta criança chega à escola e, assim, por meio das informações que lhes são transmitidas e pelas situações vivenciadas no entorno familiar, escolar, e social, o caráter da criança vai sendo construído.

Vive-se hoje, numa sociedade onde “o consumo que dá as respostas, não as famílias, nem os líderes políticos” (Luiz Alberto Marinho “apud” PAROLIN, 2005 p. 30), diante de tal realidade, os pais são obrigados á passarem mais tempo longe dos filhos, a fim de aumentar os rendimentos mensais com objetivo de estarem dentro dos parâmetros exigidos pela tão famigerada sociedade consumista. Nesta busca, acabam por deixar por conta da escola a insubstituível tarefa de educar e auxiliar na formação do caráter da criança. Tentam em vão, compensar a falta de atenção, carinho e afeto, com presentes caros e desnecessários, esquivando-se da necessidade imprescindível de dar bons exemplos a serem seguidos pelos filhos.

Diante de tal realidade, a escola que deveria se incumbir da educação formal da criança, torna-se também, responsável pela formação integral do educando. A sociedade espera que após deixar na escola uma criança “crua”, desprovida de valores, receber de volta após trabalho árduo dos professores educadores- um cidadão responsável, crítico, capaz de atuar na sociedade, construtor de seu próprio saber, entre outras habilidades, que a escola de qualidade certamente trabalhará.

Num cenário, onde se confundem os papéis da família, da escola e dos alunos, torna-se de fundamental importância à análise e a clarificação de cada papel citado, através de pesquisas com os envolvidos e à luz da bibliografia disponível, o envolvimento e a relevância de cada um para que o cidadão crítico e responsável seja formado e possa atuar ativamente na sociedade da qual faz parte.

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Para que tal esclarecimento se efetive, torna-se oportuno questionar: como tem ocorrido a comunicação entre família e escola? A quem cabe cada responsabilidade do processo educativo da criança? O que compete à família? E a escola? E a Criança recai sobre ela alguma responsabilidade sobre a própria educação? Tais questionamentos se fazem necessários no sentido de promover a discussão em busca do estreitamento de laços entre os atores do processo educacional.

Para tal, realizou se a pesquisa com alunos, pais e professores do 6º ano “A” do Ensino Fundamental da Escola Joaquim Xavier de Oliveira tendo como objetivo identificar e analisar as dificuldades enfrentadas pela equipe pedagógica no sentido de participação e envolvimento da família nas atividades escolares, promovendo a discussão em busca do estreitamento de laços entre todos os envolvidos no processo educativo. A metodologia utilizada foi Estudo de caso, sendo coletados os dados através da técnica de entrevista em profundidade, no qual foram elaboradas perguntas referentes ao dia-a-dia escolar, familiar e relacionamento da família e escola. Após a coleta dos dados, realizou-se a análise das informações obtidas, realizando comparações entre as respostas, possibilitando a mensuração das principais dificuldades enfrentadas para que haja integração entre família e escola, revelando que: 80% dos alunos entrevistados não têm acompanhamento dos pais ou responsáveis na realização das tarefas de casa; 60% das famílias entrevistadas só comparecem à escola quando solicitados; A escola oferece poucas atividades envolvendo as famílias; 20% dos alunos que não tem acompanhamento familiar nas atividades escolares apresentaram baixo rendimento bimestral.

Como base teórica de revisão de literatura e discussão dos resultados, o estudo fundamentou-se nos em textos produzidos por Tiba (1996), Gikovate (2001), Freire (1975), Piletti (1997), entre outros. À luz de diferentes autores e mediante a pesquisa referente a realidade observada, o presente trabalho traz de forma sucinta as reflexões pertinentes ao ambiente escolar e a fundamental necessidade de integração com a família propondo estratégias para que tanto a escola quanto a família unam-se com objetivo de complementarem entre si a educação oferecida por esses diferentes segmentos da sociedade.

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1 A Criança

A criança se desenvolve de várias maneiras. Estatura e aparência são mudanças evidentes e facilmente perceptíveis. No entanto, no decorrer dos anos aspectos como maneiras de pensar, comportamento, formas de se relacionar bem como manifestação de emoções e sentimentos, se transformam de acordo com o amadurecimento da criança.

Muitas vezes, pais e professores não percebem as mudanças ocorridas, pois estas acontecem por meio de um processo lento e contínuo, como afirma Piletti:

“Para cada idade, para cada fase de desenvolvimento, existem certos padrões de comportamentos apropriados que devem ser respeitados” (Piletti, 1997 p. 180). Sendo assim, a identificação e a compreensão de tais mudanças facilitam a interação dos professores e pais com as crianças bem como o desdobramento do processo educativo.

Comumente, percebe-se no seio familiar e no meio escolar, adultos exigindo das crianças comportamentos impróprios para a sua idade. O ideal seria que tais pessoas se colocassem no lugar das crianças, para posteriormente fazer as exigências.

Da infância até a fase adulta, a criança recebe informações, vivencia, participa, elabora e reelabora conceitos variados a respeito do mundo e dos temas que a cerca. Por meio de suas experiências, o caráter da criança é formado e sua personalidade trabalhada. Piaget, “apud” Munari (2010, p. 102), ressalta que o meio e o ambiente possuem uma influência importante para o desenvolvimento da criança e para a sua maturação de espírito.

Cabe às famílias e às escolas proporcionarem condições e meios para que cada criança se desenvolva e atinja de maneira saudável a maturidade. Salta aos olhos, a necessidade de estabelecer limites, como também a manifestação de amor, carinho e afeto. PAROLIN (2005, p. 55) afirma que: “o estabelecimento de regras precisa vir acompanhado de um clima afetivo.” Limite autoritário não

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convém; o ideal é que haja um acordo entre as partes, esclarecendo para a criança o motivo e a importância de cada regra estabelecida.

Os valores éticos, morais e sociais transmitidos à criança tanto pela família, quanto pela escola devem ser alvos de constante reflexão para que a criança elabore opinião própria a respeito dos mesmos e os expressem com clareza e objetividade. Tal atitude proporciona um comprometimento da criança com seu próprio desenvolvimento, bem como do adulto para com o desenvolvimento da criança como um ser social. Dessa forma, a criança sente-se segura para criar regras próprias e elaborar seu pensamento de forma crítica. Como afirma PAROLIN (2005),

A criança percorre um caminho de desenvolvimento que passa pela mais completa fragilidade emocional, falta de autonomia e indiferenciação e se estende à compreensão do mundo real e ao reconhecimento do seu próprio interior. (PAROLIN, 2005 p.48)

Existe um consenso de que a criança não aprende qualquer coisa, em qualquer lugar, de qualquer maneira, portanto, é de responsabilidade dos educadores a criação de um ambiente propício à aprendizagem, revelando-se num espaço dinâmico, que promova o desenvolvimento de diferentes habilidades e competências, dentre ela o saber pensar, a esse respeito, Kanitz aconselha os jovens: “Minha recomendação ao jovem de hoje é para que se concentre em uma das competências mais importantes para o mundo moderno: aprender a pensar e tomar decisões.” (KANITZ et al, 2000 p. 15).

Ao estudante, cabe demonstrar em sala de aula atitudes de criatividade,

participação, esforço e cooperação, porque “[

o professor, compromisso com a qualidade da educação.” (HEERDT e COPPI, 2003 p. 70). Portanto, exige-se do aluno atitudes de responsabilidade e dedicação para com os estudos.

o aluno tem da mesma forma que

]

2 A influência do lar na educação

O modo de ser e de viver dos pais é de importância indiscutível para a formação dos filhos. Para Tiba (1996, p.178) “É dentro de casa, na socialização familiar,

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que um filho adquire, aprende e absorve a disciplina para, num futuro próximo, ter saúde social [

Em virtude da influência dos estudos pscanalíticos, estivemos submetidos a uma variedade de pontos de vista: o que considera as primeiras experiências infantes como definitivas e não podem, jamais, ser traumáticas; o que enfatiza a adequada evolução emocional, tida como a mais essencial do que a aquisição de informações; o que se preocupa com o excesso de repressões a que as crianças estão sujeitas, causando sentimentos de culpa em dose indefinida, e assim por diante.

A influência desses pontos de vista aumentou muito a responsabilidade dos pais quanto a aspectos imponderáveis da educação e diminuiu a relevância atribuída às atitudes educacionais propriamente ditas relacionadas com a incorporação de condutas socialmente adequadas: o respeito pelos mais velhos, a preocupação com os valores morais, a disciplina, etc.

Os pais foram sensibilizados pelas novas teorias psicológicas, segundo as quais o primordial era dar amor aos seus filhos. Esta expressão genérica e vaga deixa lacunas fundamentais: afinal, o que seria, exatamente, dar amor a um filho? Seria compreender e perdoar todos os seus atos? Estar sempre disponível a se doar a ele em sacrifício dos direitos dos adultos, mesmo que a criança não seja merecedora? É obvio que não. O amor corresponde à sensação de aconchego que sentimos ao lado de determinadas pessoas. Aquelas que nos provocam essa sensação agradável e apaziguante não precisam fazer nada para que sintamos o bem-estar, basta que estejam e verdadeiramente nos queiram ao lado delas. Tiba (1996) avalia as consequências dessas vertentes:

As intensas mudanças vividas, de maneira muito rápida, pela segunda geração tiveram um custo na educação da terceira, cujo preço, provavelmente alto, ainda não podemos estimar. Esses jovens ficaram sem padrões de comportamentos e limites, formando uma geração de “príncipes” e “princesas”, com mais direitos do que deveres, mais liberdade do que responsabilidade, mais “receber” do que “dar” ou “retribuir”. (TIBA, 1996 p. 12)

Não existe amor incondicional, a não ser quando as crianças são muito pequenas. Após certa idade aproximadamente 5 anos já se espera da mesma algum tipo

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de retribuição pelos nossos atos. Gestos de afeição terão de ser correspondidos. De acordo com Tiba,

Não adianta nada se sentir amada pelos pais se ela não se sentir capaz de merecer seu próprio elogio por ter sido capaz de satisfazer suas vontades ou necessidades. É a auto realização. (Tiba, 1996 p. 35)

Assim, espera-se que a criança sinta prazer em se tornar cada vez mais independente, tanto por ser bom para sua autoestima, quanto porque libera a sua mãe. E ela precisa gostar de alegrar aos seus pais. Para que se comporte assim, é necessário que perceba quais ações os decepcionam. Cabe aos pais, também, ser claros em manifestar o que esperam de seus filhos, quais condutas que aprovam e desaprovam. Assim, a criança vai aprendendo a distinguir entre elas e deverá optar pelas primeiras, porque não se sentirá feliz e nem segura com o risco do afeto dos pais.

Esse instrumento pedagógico de suma importância deixou de ser utilizado em decorrência do entendimento indevido das ideias psicanalíticas que geraram nos pais um enorme pavor de traumatizar seus filhos. Como sempre acontece, o titubeio dos pais é percebido pelos filhos, sendo que tendem a ocupar o território livre. Dessa forma, muitos lares são hoje em dia governados pelas crianças e, nesses casos, são os pais que temem perder o afeto dos filhos.

Outro fator tem contribuído para a atitude titubeante dos pais em relação à transmissão de valores definidos para seus filhos: Trata-se da instabilidade das relações conjugais, que levam muitos adultos a se apegarem mais do que deveriam a seus filhos. Frustrações no relacionamento conjugal são “resolvidas” através das ligações afetivas exageradas com os filhos. É mais um reforço na direção da transferência de poder aos filhos, já que por sua vez, os pais estão tão ou mais frágeis e dependentes.

Nesse contexto de fragilidade emocional dos adultos, não existe possibilidade de firmeza e autoridade para impor às crianças as frustrações necessárias à aquisição de valores que também faz parte do empenho de ensiná-los a lidar melhor com as decepções, requisito substancial para o crescimento emocional.

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Alguns pais vivenciam mais um problema que limita suas possibilidades de agir com energia na formação dos filhos: a imaturidade emocional:

] [

imaturo, mais agressivo, egoísta e pouco tolerante a frustrações e contrariedades. Se um é assim, o outro costuma ser tolerante, mais paciente, e o que evita brigas é sempre o mais generoso.” (GIKOVATE, 2001 p. 46)

é muito comum que um dos cônjuges seja emocionalmente

Diante de tal realidade, os filhos ficam expostos, desde o início de suas vidas, a dois padrões antagônicos de comportamento. E mais: pelo simples fato de estarem juntos, a presença de um justifica o modo de ser do outro. Assim, as crianças ficam expostas a divergentes condutas, aparentando ambas valor igualitário.

Todos esses fatores mostram o porquê dos pais se mostrarem tão incompetentes na tarefa de educar os filhos. Aqueles que levarem mais a sério a responsabilidade de educar, tenderão a se afastar dos padrões atuais, buscando uma atuação intermediária entre a postura repressiva tradicional e a permissividade. Terão de voltar a ser firmes e determinados na transmissão de valores; deverão orientar os filhos, visando à formação de cidadãos respeitáveis úteis e dignos e seres humanos mais completos e felizes.

Tais observações explicam, em parte, porque as famílias têm transferido para a escola a responsabilidade pela formação de seus filhos. Alguns pais não sabem como se portar e, quando surge alguma dificuldade, preferem a confortável postura de buscar os “responsáveis”, ao invés de apontar o dedo na direção de si mesmo e procurar alternativas para corrigir as falhas encontradas na educação da prole. De acordo com GOKHALE (1980),

] [

sociedade futura, mas é também o centro da vida social [

educação bem-sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao se comportamento produtivo quando

A

a família não é somente o berço da cultura e a base da

]

for

poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do caráter

das pessoas. (GOKHALE, 1980 p. 33)

A família tem sido, é e será a influência mais

adulto [

]

Compreende-se, portanto, ser de responsabilidade da família a transmissão aos filhos dos valores que perdurarão por toda a sua vida.

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3 O PAPEL DA ESCOLA E DO PROFESSOR

Acredita-se ser papel da escola e do professor, retransmitir os conhecimentos

científicos socialmente construídos e, ao falar em educação escolar, deve-se ter

em mente um conceito mais abrangente: a educação para o trabalho, com ênfase

no preparo do indivíduo para o desenvolvimento pleno da cidadania, como

preconiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação:

tem por

finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e a qualificação para o

trabalho.” (LDB; Título II, art. 2º.).

A educação, dever da família e do Estado (

)

Ao longo da história da humanidade e à medida de suas necessidades o homem

foi construindo o conhecimento necessário a sua sobrevivência; tal conhecimento,

com passar dos anos foi transmitido de uma geração para outra.

Compete à escola a transmissão do conhecimento produzido pela humanidade,

conforme afirma Saviani (2011): “o trabalho educativo é o ato de produzir, direta e

intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida

histórica e coletivamente pelo conjunto de homens” (SAVIANI, 2011 p.13). Sendo

assim, a escola se responsabiliza não somente pela transmissão dos

conhecimentos produzidos, contribui efetivamente para a formação social do

indivíduo que nela se insere.

Moreira e Candau (2003) afirmam: “Não há educação que não esteja imersa na

cultura da humanidade e, particularmente, do momento histórico em que se situa”

(MOREIRA e CANDAU, 2003 p. 159). De acordo com esses autores, a escola

retransmite os conhecimentos produzidos e participa ativamente dos que ainda

serão produzidos.

Ainda segundo os autores acima citados,

A escola é uma instituição construída historicamente no contexto da modernidade, considerada como mediação privilegiada para desenvolver uma função social fundamental transmitir cultura, oferecer às novas gerações o que de mais significativo culturalmente produziu a humanidade.” (MOREIRA e CANDAU, 2003 p. 160).

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No entanto, a grande questão que se levanta é: como selecionar os conhecimentos a serem retransmitidos pela escola? Saviani (2011) alerta sobre o perigo de que na ânsia de se desenvolver um currículo amplo e que contemple todas as atividades desenvolvidas, a escola perca de vista a sua principal e fundamental função: “propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o

as atividades da escola básica devem organizar-

se a partir dessa questão” (SAVIANI, 2011 p. 14) e, segundo o autor, em muitas

perdeu-se de vista a atividade nuclear da escola, isto é, a

transmissão dos instrumentos de acesso ao saber elaborado.” (SAVIANI, 2011 p.

escolas infelizmente, “

acesso ao saber elaborado (

)

15).

Conforme exposto por Saviani, “A escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização do saber sistematizado” (SAVIANI, 2011 p. 14), ou seja, um saber elaborado que se faz por meio de um currículo que vise à apropriação dos saberes necessários à aquisição e produção de novos conhecimentos. Saviani salienta que:

Podemos recuperar o conceito abrangente de currículo:

organização do conjunto de atividades nucleares distribuídas no espaço e tempo escolares. Um currículo é, pois, uma escola funcionando, quer dizer, uma escola desempenhando uma função que lhe é própria. (SAVIANI, 2011 p. 17).

Moreira e Candau (2003) alertam para a necessidade de se construir currículos que valorizem a diversidade, favorecendo a formação de indivíduos verdadeiramente capazes e livres das multifacetadas formas de preconceitos:

Se os currículos continuarem a produzir e a preservar divisões e diferenças, reforçando a situação de opressão de alguns indivíduos e grupos, todos, mesmo os membros dos grupos privilegiados, acabarão por sofrer. A consequência poderá ser a degradação da educação oferecida a todos os estudantes. (MOREIRA e CANDAU, 2003 p. 157 ).

Diante do exposto, percebe-se grave consequência caso o currículo elaborado pela escola não contemplem a pluralidade cultural em seu contexto.

Para Saviani, (2011) a escola deve ser muito criteriosa na elaboração de seu currículo, estando atenta para que o mesmo não se torne apenas uma lista de atividades desenvolvidas pela escola ou até mesmo uma grade de componentes curriculares e conteúdos sem qualquer importância tanto para alunos quanto

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professores. Pelo contrário, o currículo deve ser significativo, tanto a um quanto ao outro, pois de acordo com Saviani (2011), a aula é uma atividade produtiva atrelada ao seu consumo em suas palavras, “o ato de dar aula é inseparável da produção desse ato e de seu consumo. A aula é, pois, produzida e consumida ao mesmo tempo” (SAVIANI, 2011 p. 12). Sendo assim, essa produção e esse consumo deve ser algo prazeroso, e só o será, havendo significado para produtores e consumidores.

Veiga (1995) também afirma que: “a escola é um grande espaço-tempo em que devíamos aprender a ser livres, prolongando o útero social da família; escutar uns aos outros; amar a expressão da vida que é própria de cada um.” Por isso, a expectativa da sociedade em relação ao papel da escola, é que ela de fato, contribua para desenvolver os valores essenciais ao convívio humano e, ao mesmo tempo, proporcione a inclusão de todas as crianças e jovens na sociedade do conhecimento. A escola tem a função de preparar o cidadão para a vida, no entanto, ela não pode ser organizada apenas como um tempo de preparação, pois ela é a própria vida, por isso, faz-se necessário repensá-la analisando seu contexto, pois “o processo de formação do ser humano é rico, complexo e variado quanto o próprio ser humano” (TARDIF, 2002 p. 174).

Na busca de transformação e moldagem do ser humano, ocorrem mudanças significativas no papel do professor, passando este agora a ser mediador, facilitador da aprendizagem do aluno, hoje, muito mais ativo e participante. Gikovate ressalta que “o professor é um ator que tem uma missão qual seja:

cativar ou impressionar uma plateia jovem nem sempre muito interessada” (GIKOVATE, 2001 p. 50). Gadotti (1997) também afirma: “a escola precisa ser reencantada, vislumbrar motivos para que o aluno vá para os bancos escolares”.

Diante das afirmações acima citadas, salta aos olhos a importância do professor fazer o mesmo papel de um ator que emociona sua plateia e faz com que todos amem a sua “corda”. Portanto, a escola como um todo deve ser antes de tudo, um local aberto à alegria, ao diálogo, à franqueza, à beleza e, acima de tudo, um local onde se ofereça condições adequadas para que tanto o aluno quanto o professor

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sintam-se valorizados. Deve ser um ambiente acolhedor, totalmente livre de preconceito e discriminação no qual se busca a compreensão do outro, e, principalmente, onde se pode ver o desenvolvimento da cultura de um povo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reafirmação da necessidade de integração entre o lar e a escola operando na

mesma direção, se dá no sentido de que as instituições de ensino não deixem de levar em consideração o ambiente familiar de seus alunos; não podendo também,

o papel construtivo e positivo da escola ser minimizado ou perturbado pelo ambiente familiar.

A família e a escola têm na sociedade atual, tarefas complementares, apesar de

distintas em seus objetivos, metodologia de abordagem e campo de abrangência.

A família deve focar na educação social das crianças, orientando-as para o

convívio em sociedade, sempre disponível para auxiliar a escola nas dificuldades por ela encontradas. À escola cabe o instruir cultural e intelectualmente seu aluno, colaborando com a família na educação para a sociedade.

E para que cada um destes segmentos cumpra seu papel a contento, tanto um

quanto outro deverão estabelecer diálogo vivo e intenso; pais necessitam participar ativamente da formação de seus filhos e agir de forma coerente e compatível com as normas propostas pela escola que confiaram a educação escolar das crianças. As instituições devem procurar oferecer ensino de qualidade voltada à realidade social, atendendo aos anseios da comunidade na qual está inserida.

Somente através da colaboração e do comprometimento responsável da família, da escola como também dos alunos, será possível a efetivação da educação de qualidade almejada por toda a sociedade atual.

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