UTILIZAÇÃO DE ANIMAIS NÃO-HUMANOS NA PESQUISA ODONTOLÓGICA João Batista Blessmann Weber

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A Bioética vem ganhando espaço no meio acadêmico e na sociedade em geral, em função de situações conflitantes do cotidiano que se apresentam, fruto do grande desenvolvimento científico e tecnológico de nossa era. Inserido na Bioética, a Animal Ethics (traduzido como ética animal) aparece como uma das áreas do conhecimento que pede uma reflexão multidisciplinar sobre os limites de atuação do ser humano para com os animais não-humanos a fim de serem garantidas ações eticamente adequadas a estes seres sensientes.1 A procura incessante por novas tecnologias e novos conhecimentos é uma característica histórica e própria do homem. É através dela que a humanidade obtém novas conquistas e, em conseqüência, maior desenvolvimento.2 A pesquisa científica constitui-se em uma ferramenta para a obtenção de conhecimentos, para a elaboração de diagnósticos, para se medirem necessidades, expectativas e motivações das populações.3 A pesquisa odontológica brasileira é apontada como uma das mais respeitadas no meio científico internacional.4 A grande maioria dos estudos científicos na Odontologia é experimental, como observaram Cavalcanti et al. (2004) em um trabalho avaliando o perfil das pesquisas odontológicas apresentadas na 20ª Reunião Anual da Sociedade de Pesquisa Odontológica (SBPqO) no ano de 2004. Os autores observaram que 70,6% foram estudos experimentais e 29% observacionais.2 Deve-se ressaltar que grande parte destas pesquisas experimentais são realizadas em animais. A experimentação animal apresenta-se como um aspecto característico do campo biomédico, acarretando grande utilização de animais, com diversas finalidades. O principal objetivo da pesquisa experimental é gerar dados que
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Mestre em Odontopediatria pela FOB/USP, Doutor em Odontologia pela PUCRS, Professor Assistente da Faculdade de Odontologia da PUCRS, Membro do Comitê de Ética em Uso de Animais da PUCRS, Membro da Comissão Científica e de Ética da Fo-PUCRS.

2 serão transportados para os seres humanos, sendo largamente utilizada no teste de novas drogas e procedimentos. No Brasil a Resolução 196/96 contendo as Diretrizes e Normas Regulamentadoras da Pesquisa Envolvendo Seres Humanos traz a exigência de que as estas pesquisas devem estar fundamentadas na experimentação pré-clínica realizada em laboratórios, animais ou em outros fatos científicos.5 A utilização de animais na investigação biomédica acarreta problemas de caráter filosófico e moral que diferem segundo as sociedades, os países e as culturas. Estas considerações promovem, na realidade, uma séria discussão ética sobre a posição dos animais não-humanos dentro da esfera da consideração moral, buscando fundamentação para a licitude (ou não) de seu uso.6 A questão de como proteger os animais contra experimentos desnecessários é um tema sensível e controverso para a comunidade científica, governo e sociedade. Na Odontologia vários animais não-humanos são utilizados em pesquisas experimentais, nas mais diversas especialidades. Podemos encontrar estudos na literatura científica com camundongos, coelhos, cães, ovinos, suínos e primatas, dependendo do objetivo do experimento. Por exemplo, estudos in vivo avaliando o desenvolvimento de dentições ou a ação de algum procedimento sobre os dentes são, necessariamente, realizados em animais não-roedores, devido a grande diferença entre a dentição humana e a de roedores, o que inviabilizaria a correspondência entre pesquisa e realidade. Inúmeras linhas de pesquisa na Odontologia têm utilizado animais nãohumanos em seus estudos, entre estes podemos citar as inúmeras pesquisas com a tecnologia laser, as quais normalmente são realizadas em ratos, coelhos ou ovelhas, para avaliação dos seus efeitos tanto em tecidos moles quanto em tecidos duros. Importantes conclusões já foram alcançadas com estes estudos, permitindo que esta tecnologia possa ser hoje empregada, em várias situações clínicas, com segurança em humanos. O desenvolvimento biotecnológico trouxe para a Odontologia avanços significativos. Atualmente vários biomateriais têm surgido podendo ser empregados sobre tecidos gengivais, mucosas e também sobre tecidos duros. A comprovação da biocompatibilidade e também da eficácia clínica destes materiais tem sido realizada, muitas vezes, em pesquisas envolvendo animais.

3 A implantodontia é uma nova especialidade odontológica que tem se desenvolvido muito nas últimas décadas. A possibilidade de ter um dente perdido reposto tanto funcionalmente como esteticamente, ou mesmo a possibilidade de pacientes desdentados possuírem novamente uma dentadura adequada, melhorando a qualidade de vida destes, incentivou o grande número de pesquisas para que os implantes dentários se tornassem uma realidade nos dias de hoje. Na literatura mundial encontramos inúmeros trabalhos realizados em modelos animais os quais têm permitido o desenvolvimento e o emprego de materiais e tecnologias cada vez mais eficazes e duradouros para os implantes dentários. Atualmente, temos à disposição no mercado odontológico vários materiais restauradores. A busca por materiais mais estéticos, resistentes e biocompatíveis tem levado ao desenvolvimento de um grande número de pesquisas em todo o mundo. Entretanto, ainda não existe um material que possa substituir com perfeição o tecido dentário perdido. Nesta busca por um material cada vez mais eficaz, várias pesquisas têm sido desenvolvidas utilizando, em suas metodologias, dentes de animais. Vários testes, incluído eficiência de adesão, infiltração marginal e resistência à mastigação destes materiais são realizados em dentes bovinos extraídos, após a morte do animal, como alternativa aos dentes humanos, os quais são muito difíceis de serem obtidos nos poucos Bancos de Dentes Humanos existentes no país. Embora não se utilizem os animais vivos, existe a preocupação da procedência destes dentes que, na realidade, são órgãos destes animais. Outra preocupação é a utilização de animais nos cursos de graduação em Odontologia. Algumas disciplinas utilizam animais para demonstrações ou mesmo para treinamento prático dos alunos. Bastos et al..7 avaliaram as disciplinas em cursos de Medicina que utilizavam animais em aulas práticas. Os autores observaram que as disciplinas do ciclo básico, muitas delas comuns aos cursos de Odontologia, que utilizavam animais eram: a biologia celular/bioquímica, a fisiologia, a farmacologia e a imunologia. Nos cursos de Medicina, algumas disciplinas, como a cirurgia geral e a iniciação científica, também possuíam aulas práticas em animais. Das sete instituições de ensino avaliadas no estudo, apenas três informaram que não estavam mais utilizando animais em aulas demonstrativas. A principal explicação fornecida pela

4 coordenação dos cursos foi o fato da instituição não apresentarem uma Comissão de Ética no Uso de Animais. Desta forma, torna-se necessário que haja uma normatização para a utilização de animais tanto em atividades didáticas como em pesquisas científicas na Odontologia. Devemos também buscar alternativas para que, sempre que possível, possam ser utilizadas no lugar de atividades com animais. O Brasil não possui uma legislação que efetivamente regule a criação e o uso de animais para a pesquisa e o ensino, em âmbito nacional. Entretanto, o Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA), em 1991, criou os Princípios Éticos na Experimentação Animal, postulando 12 Artigos com o objetivo de nortear a conduta dos professores e pesquisadores na prática do uso de animais.8 A exemplo de outras universidades e visando prevenir o uso indevido de animais, além de implantar uma política de adoção de princípios éticos, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul implantou, recentemente, a Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA-PUCRS). A correta utilização dos animais no âmbito da investigação científica pode ser assegurada por uma legislação coerente que estabeleça os limites de atuação do ser humano para com os animais.6 Uma postura ética por parte dos pesquisadores quanto ao correto delineamento das pesquisas odontológicas envolvendo animais, principalmente quanto ao número de animais utilizados e a relevância da pesquisa, também deve ser esperada e incentivada.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. CLOTET, J; FEIJÓ, A; GERHARDT de OLIVEIRA, M. Bioética: uma visão panorâmica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, 280p. 2. CAVALCANTI, AL; et al. The Scientific dental research profile in Brazil. Pesq Bras Odontoped Clin Integr. 4(2):99-104, maio/ago. 2004.

5 3. BARROS, AJP; LEHFELD, NAS. Projeto de pesquisa: propostas

metodológicas. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 1999. 102p. 4. CORMAK, E; SILVA FILHO, CFA. A pesquisa científica odontológica no Brasil. Rev Assoc Paul Cirurg Dent, 54(3):242-247, mai./jun. 2000. 5. Conselho Nacional de Saúde (Brasil). Resolução n° 196, de 10 de outubro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, 16 de outubro de 1996:21082-5. 6. FEIJÓ, A. Utilização de animais na investigação e docência: uma reflexão ética necessária. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, 145p. 7. BASTOS, JCF; RANGEL, AM; PAIXÃO, RL; REGO, S. Implicações éticas do uso de animais no processo de ensino-aprendizagem nas Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Niterói. Revista Brasileira de Educação Médica, 26(3):162-170, set./dez. 2002. 8. Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA). Princípios básicos na experimentação animal. Disponível em http://www.cobea.org.br/etica.htm, capturado em 15 de maio de 2007.

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