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FRAUDE NO COMÉRCIO

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62.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

A fraude no comércio está assim tipificada no art. 175 do Código Penal:

“Enganar, no exercício de atividade comercial, o adquirente ou consumidor: I –


vendendo, como verdadeira ou perfeita, mercadoria falsificada ou deteriorada; II
– entregando uma mercadoria por outra”.

A pena cominada é detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

O § 1º contém outras figuras típicas:

“alterar em obra que lhe é encomendada a qualidade ou o peso de metal ou


substituir, no mesmo caso, pedra verdadeira, por falsa ou por outra de menor
valor; vender pedra falsa por verdadeira; vender, como precioso, metal de outra
qualidade”.

A pena é reclusão, de um a cinco anos, e multa.

O bem jurídico é o patrimônio da pessoa, em face de fraude cometida no comércio.

Sujeito ativo é o comerciante ou o comerciário.

Sujeito passivo é qualquer pessoa que adquire a mercadoria, é o consumidor.

62.2 TIPICIDADE

62.2.1 Conduta, elementos objetivos e normativos

A conduta incriminada no caput do art. 175 é enganar, verbo empregado no sentido de


2 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

ludibriar, iludir a vítima. A norma explica o modo como tal se dá utilizando os verbos vender
e entregar, o que exclui outras formas de ação, como trocar, permutar ou dar em pagamento.
Esses comportamentos, se fraudulentos, podem, em tese, se reunidos os demais elementos,
constituir outro crime, como o estelionato.

No primeiro caso, a mercadoria falsificada é vendida como se verdadeira fosse.


Qualquer mercadoria pode ser falsificada, todavia se se tratar de alimentos ou
medicamentos, a incidência típica será a do art. 272, § 1º-A, ou a do art. 273, § 1º do
Código Penal. No outro caso, a mercadoria deteriorada ou estragada é vendida como se
estivesse em perfeitas condições.

A segunda modalidade realiza-se com a entrega de mercadoria diversa daquela a que


o agente, previamente, se obrigara a entregar.

A Lei nº 8.137/90, no art. 7º, III, define, como crime, “misturar gêneros e
mercadorias de espécies diferentes” ou “misturar gêneros e mercadorias de qualidades
desiguais”, a fim de vender ou expor à venda os primeiros, “como puros”, e os segundos
“por preço estabelecido para os de mais alto custo”. A pena é reclusão de dois a cinco
anos, ou multa.

Essa norma não revogou o art. 175 do Código Penal, uma vez que seu núcleo é o verbo
misturar, falsificando, portanto, a mercadoria, com o fim de vender ou expor à venda. O
tipo da lei especial realiza-se com a simples concretização da mistura que, efetivamente,
constitui uma falsificação, ao passo que o tipo do Código Penal se realiza com a entrega da
coisa. Se apenas misturar, com o fim descrito naquele tipo, já terá incorrido na proibição,
independentemente da venda ou da exposição à venda. O tipo do art. 175 realiza-se quando a
mercadoria é falsificada sem o ter sido através de mistura de gêneros e mercadorias de
qualidades distintas.

Consumando-se, porém, a venda da mercadoria falsificada nos termos da Lei nº


8.137, fica afastada a incidência da norma do art. 175, pelo princípio da especialidade.

Se a conduta do agente dirige-se para um número indeterminado de consumidores,


incidirá a Lei nº 1.521, que define os crimes contra a economia popular.

Outra conduta típica é a realizada por aquele a quem foi encomendada uma obra,
quando tenha alterado a qualidade ou o peso do metal que devia nela empregar. Também
se ele, ao realizar a obra, tiver substituído pedra verdadeira por falsa ou por outra menos
valiosa.
Fraude no Comércio - 3

Outra hipótese é a de vender pedra falsa, ludibriando a vítima que a tem como
verdadeira. E, por último, há crime quando o agente vende metal, afirmando ser precioso.

62.2.2 Elemento subjetivo

Crime doloso. Deve o agente atuar com consciência de sua conduta, de que a
mercadoria que entrega é falsificada ou adulterada, ou que não é a que deveria entregar.
Na fraude no comércio de metais ou pedras preciosas, o dolo abrange a consciência de que
a pedra empregada é falsa ou tem menor valor ou de que a pedra vendida é falsa ou o metal
de outra qualidade. A vontade livre é a de realizar a conduta para enganar o consumidor.
Não há modalidade culposa.

62.2.3 Consumação e tentativa

Consuma-se quando a mercadoria é entregue ao consumidor; portanto, com sua


tradição, sendo possível a tentativa.

No tipo do § 1º, a consumação ocorre quando altera a qualidade ou o peso do metal


na obra que lhe fora encomendada ou quando substitui a pedra verdadeira por outra, falsa
ou de valor inferior.

62.2.4 Circunstância privilegiadora

Se o agente é primário e pequeno o valor do prejuízo, aplica-se a pena conforme


dispõe o § 2º do art. 155. Se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito
público, ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência, a pena
será aumentada de um terço. Remete-se o leitor para os itens 52.2.5 e 52.2.6.

62.3 AÇÃO PENAL

A ação penal é pública incondicionada; possível a suspensão condicional do


processo penal, nos termos do art. 89 da Lei nº 9.099/95.