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quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Queridos amigos:
O futuro é qualquer coisa que todos alcançamos ao ritmo O Povo fez hoje 7 anos.
de sessenta minutos por hora, quem quer que sejamos e o Como se conta no Editorial de 2002, foi no dia 17 de Abril de 2001 que o
que quer que seja que façamos Povo se estreou com morada na Web. Desde então, quase sempre este dia
C. S. Lewis tem sido comemorado com uma edição do Jornal das Boas Notícias. O artigo
Boas Notícias esteve na origem deste Jornal que, por sinal, começou antes do
Editorial d’O Jornal das Boas Notícias de 17 de Abril de 2002 .................... 1 Povo. Toda a história do Povo é contada no artigo A mensagem n.º 1000.
O Jornal das Boas Notícias

Boas notícias ................................................................................................................. 1 Recentemente, no seguimento da intenção original que criou o Povo, o Povo
A mensagem número 1000....................................................................................... 2 passou também a residir num blog: http://o-povo.blogspot.com/ . É o que
Alteracoes a lei do divorcio, novidades no Povo e "Divorcio abre conta a mensagem enviada ao Povo em 30 de Março passado e que foi
nova guerra"............................................................................................................ 3
O último dever............................................................................................................. 3 promovida a artigo com o título: Alterações a lei do divorcio, novidades no
Cristianismo é mais do que um conjunto de proibições ................................... 3 Povo e "Divórcio abre nova guerra" . Esta última modalidade tem-se mostra-
O célebre relatório Kissinger e a política internacional maltusiana ................ 8 do muito útil e participada, particularmente no acompanhamento da visita do
Só nos vêem a nós ....................................................................................................... 9 Papa Bento XVI aos EUA que está a decorrer.
É uma feliz coincidência que a viagem do Papa, o seu aniversário e o
se foram solidificando aniversário da sua eleição (que se celebrará depois de amanhã) aconteçam
Editorial d’O Jornal das Boas Notí- por causa do Povo. Sem todos por esta altura. Por isso, a entrevista que a imprensa alemã fez ao
cias de 17 de Abril de 2002 verdadeiramente ter Papa Bento XVI nas vésperas da sua primeira visita à Alemanha, pareceu-me
procurado e sem me poder ajudar a conhecê-lo e a amá-lo melhor.
Pedro Aguiar Pinto aperceber realmente do
Hoje, faz um ano que a mailing list Finalmente, chamo a atenção para o artigo Só nos vêem a nós, um dos
que foi acontecendo, o
Povo, começou a residir nos grupos Povo une “amigos” desde artigos mais inspirados do Prof. João César das Neves e que me ajuda sempre
Yahoo. No artigo “O Povo faz um ano o Canadá, a Timor, pas- que o leio, porque percebo melhor como uma Igreja que “não podia
hoje” conto como tudo começou sando pelo Cairo. Exem- funcionar, funciona porque não estamos sós”.
esperando que este seja um esclare- plificativa desta cumpli- Parabéns ao Povo!
cimento capaz para muitos leitores cidade nascente é a Pedro Aguiar Pinto
que se colocam esta pergunta. história-testemunho de
Ao longo deste ano tentei um equilí- uma amiga que é publicada na página testada pelos intelectuais como
brio difícil entre manter o Povo des- 13. "romântica, idealista, delicodoce".
perto para aquilo que se passa à nos- Agradeço a todos a fidelidade de Mas o jornal recusava ficções ou dis-
sa volta e evitar ser aborrecido pelo permanecerem e peço compreensão e torções imaginativas. Publicava a
volume de mensagens enviadas. ajuda para uma tarefa que foi acon- verdade e apenas a verdade. Só que a
Sobretudo, a quem aborreci, peço tecendo; sem linha editorial, mas publicava com atenção ao positivo e
desculpa. olhando em direcção ao ideal de não ao negativo. O facto ficou prova-
Para mim, este ano foi uma experiên- humanidade que responde à exigência do quando se deu a derrocada do
cia cheia de humanidade, por mais de significado que habita em cada um arranha-céus na cidade. As agências,
paradoxal que possa parecer, sob a de nós. jornais e televisões enchiam-se com
forma de mensagens electrónicas sangue, lágrimas e acusações. O
aparentemente impessoais. Aquilo GoodNews referia o surpreendente
que começou como um grupo de Boas notícias
número de sobreviventes num desas-
amigos (identificáveis e conhecidos) João César das Neves tre daquela dimensão e louvava o
foi-se alargando para amigos de ami- In: DN, 2001.01.01 trabalho dos bombeiros e hospitais da
gos, de amigos... zona. Notava a sorte de o prédio ter
O que há de comum entre os mem- A primeira grande novidade do milé- caído a meio da manhã, quando esta-
bros deste grupo? nio foi o aparecimento do GoodNews. va bastante vazio, e para as traseiras
Espero que, em maior ou menor grau, O diário apresentou-se com o propósi- desertas, em vez de derrocar na ave-
um interesse, uma curiosidade, uma to de "dar apenas e sempre boas nida, em hora de ponta. E relatava o
interrogação que nos leva a olhar, a notícias", declarando olhar a actuali- feito de um rapazinho, que saltara do
considerar, a preocupar-nos com dade do ponto de vista positivo e segundo andar com a irmã bebé ao
aquilo que acontece à nossa volta construtivo, sublinhando o virtuoso, o colo, acto que ficara esquecido nos
mas não merece a atenção dos meios amável, o heróico, o bom. "No pano- outros jornais. A sua circulação
de comunicação social mais “usados”, rama mediático actual", dizia o seu aumentou em flecha.
ou então, fica soterrado no meio primeiro editorial (publicado noutro
daquilo que é considerado com inte- jornal, por tratar de más notícias), O sucesso fez crescer as críticas.
resse de “notícia”. Esta preocupação "domina o chocante, o trágico, o Alguns afirmaram que o GoodNews
individual de juízo justo sobre o que dramático, o mau. Quando algo corre era uma nova versão dos tradicionais
se passa à nossa volta, resistindo à bem deixa, por isso mesmo, de ser "jornais da situação". De facto, o
tendência geral de criação de uma notícia. Só os desastres e guerras são Governo louvou-o por "finalmente
mentalidade dominante, sendo cons- referidos. A bondade e a paz apenas alguém dar atenção ao muito de bom
trutora da individualidade pessoal é, aparecem quando falham. Todos os que há no país", enquanto a oposição
ao mesmo tempo e paradoxalmente, jornais, mesmo os mais clássicos, são o acusava de "simplismo, seguidismo
constitutiva de um Povo. dominados por esta visão perversa. e ingenuidade". Mas a pouco e pouco
Por isso, o nome do grupo. Em vez do provérbio no news is good começou a notar-se que a actividade
Escolhido, com a casualidade de uma news (se não há notícias é boa notí- política estava quase ausente do
escolha individual, tem-se vindo a cia), a prática passou a ser good news periódico. Considerava a maior parte
revelar quase profético. Sou teste- is no news." desse debate irrelevante e inconse-
munha comovida de cumplicidades e quente, e muitas das alegadas "boas
verdadeiras amizades que, neste ano, A nova linha editorial foi muito con- notícias" do Governo mostravam-se
promessas irrealistas e desinteressan- comunicação social moderna acredi- niões que resistem ao niilismo domi-
tes. As que chegavam a ser publica- ta, por vezes de forma inconsciente, nante (Mário Pinto, João Carlos Espa-
das, nunca o eram da forma que o que só consegue agradar e atrair a da, António Pinto Leite, António Bar-
Executivo pretendia. O GoodNews atenção dos leitores de forma bom- reto, Henrique Monteiro, António
mostrava, pelo contrário, uma evi- bástica ou sedutora. Os instrumentos José Saraiva), a que se juntam oca-
dente preferência por relatar a vida que todos usam, dos jornais aos poli- sionalmente outros que ajudam a
da sociedade, a forma humilde e ticos e anunciantes, é a adrenalina e formar um juízo sério e empenhado
imaginativa como as pessoas vão a líbido. A sua atitude é encarar o sobre o que se passa à nossa volta.
resolvendo as suas dificuldades, público como um animal, que tem de Manter uma lista de e-mail actualiza-
mesmo as mais dramáticas. Em vez da ser agredido ou assustado, surpreen- da é uma tarefa complexa e sempre
busca desenfreada dos "podres" e do dido ou acariciado. Nós tratamo-lo inacabada.
culto do "anti-herói", descreviam-se como uma pessoa civilizada, que olha Por isso, a 17 de Abril de 2001, o
serenamente os bons exemplos. Recu- o mundo de forma serena, positiva e Povo passou a residir num grupo de e-
sava a pose pomposa de justiceiro inteligente, que luta com coragem e mail que pode ser acedido de qual-
mediático em busca de escândalos, esperança contra aquilo que pode quer computador com ligação à Inter-
que só aumenta a injustiça. Preferia mudar e se conforma sabiamente com net, o que significa quea lista de
relatar a conduta virtuosa perante os o que tem de suportar. E tenta sem- endereços reside num único servidor,
obstáculos. Na economia, acompa- pre adaptar-se, fazendo o melhor continua a ser confidencial e a sua
nhava o desenvolvimento estrutural e possível. Estamos conscientes dos actualização é da responsabilidade
iniciativas de mérito, desprezando o erros e dos problemas, mas, em vez individual de cada membro. Os
saltitar financeiro e o apelo perma- de resmungarmos e de os denunciar- elementos do grupo podem a qual-
nente à crise. mos, apresentamos bons exemplos de quer momento deixar de o ser e quem
solução. Não nos indignamos hipocri- quiser pode submeter a sua inscrição
De repente, o país tomou consciência tamente, mas procuramos compreen- àaprovação do moderador do grupo.
da enorme quantidade de iniciativas der e ajudar. O grupo mantém uma lista das men-
e instituições de solidariedade e dos sagens enviadas em:
seus grandes benefícios. Tornaram-se O mundo é um sítio extraordinário; e http://groups.yahoo.com/group/Povo
famosos nomes e caras de muitos o mais extraordinário é o ser humano. _ , bem como um arquivo dos textos
"heróis do quotidiano", que insistiam E o mais extraordinário no ser huma- mais importantes e que podem ser
em fazer o bem em condições difí- no é a capacidade de virar o mundo acedidos por todos os elementos que
ceis. Como se dizia num dos artigos, para o bem. Vivemos tão pouco tem- se inscrevam como membros, seguin-
"é impressionante quanto bem existe po aqui. Porque não passá-lo a ver e a do um procedimento de inscrição
entre nós, e como resiste ao mal, fazer o bem ? Por todo o lado há relativamente simples.
mesmo quando o mal é tão forte". pessoas a trabalhar para aumentar a O que começou como uma iniciativa
felicidade. Nós, com humildade, descomprometida e esporádica tem
Na classe dos profissionais da infor- queremos relatar isso. Só o bem exis- sido até hoje uma actividade relati-
mação, o GoodNews acendeu uma te. O mal é ausência. O bem é verda- vamente regular e já chega a muita
longa e acesa polémica. Alguns jorna- de. O mal é mentira." gente.
listas influentes declararam-se a O pedido de inscrição pode ser feito
favor do periódico, mas a maioria foi João César das Neves assina esta coluna à no endereço web do grupo que é:
muito crítica. "Trata-se de uma publi- segunda-feira http://groups.yahoo.com/group/Povo
cação ideológica, que pretende incul- _/join
car uma visão doutrinal aos seus lei- A mensagem número 1000
tores", diziam muitos. Mas que visão Ao longo destes quase três anos, o
era essa, não era consensual. Apeli- Pedro Aguiar Pinto Povo cresceu (hoje somos quase
dado por muitos como "conservador", O Jornal das Boas Notícias, 14 1800), o n.º de mensagens tem cres-
o GoodNews era atacado pelas forças 2004.02.12 cido e o tipo de mensagem mais fre-
conservadoras por não denunciar o Este Jornal segue “agarrado” à milé- quente também mudou.
mal deste mundo progressista. Uns sima mensagem do Povo. Hoje, uma percentagem muito signi-
chamavam-lhe "epicurista" e outros O Povo começou como resposta a uma ficativa das mensagens diz respeito a
"cristão". Não faltavam, até, os que o recomendação do nosso pároco na avisos de actividades diversas que
apelidavam de "tentativa maçónica missa de um Domingo de Fevereiro podem ser do interesse geral e que
de restaurar o comunismo" ou de de 2000. têm dificuldade em ser divulgadas de
"neonazismo encapotado e populista". O papa ia iniciar a sua vista aos luga- outra forma.
res santos e o Padre João recomen- Por isso, é minha intenção, desde há
dou-nos que procurássemos acompa- algum tempo, mas sempre adiada por
O director do jornal, entrevistado na nhar a visita do papa com atenção.
televisão, respondeu a estas críticas dificuldade prática de concretização,
Como a cobertura que a nossa televi- reservar para O Jornal das Boas Notí-
de forma bonacheirona. "É evidente são e, mesmo os jornais, dão sobre
que temos uma visão ideológica do cias, as notícias e comentários intem-
estas notícias é reduzida e muitas porais – ao contrário da “notícia” dos
mundo. Tão parcial como a de todos. vezes parcial, surgiu a ideia de fazer
Perante um facto, um acontecimen- jornais e noticiários, a boa notícia
um pequeno jornal que diariamente permanece – e usar as mensagens do
to, uma realidade, o ser humano acompanhasse os passos do Papa na
observa-o selectivamente, raciocina Povo sobretudo para esta nova utili-
Terra Santa. Este jornal começou com dade que não tinha sido prevista e
criteriosamente e decide o que pen- a carta do papa sobre a peregrinação
sar sobre ele. Tudo isto é feito a que foi sendo revelada no
aos lugares santos e, em cada dia, tempo: veículo de aviso de activida-
partir dos princípios de análise, dos juntava notícias de várias fontes de
preconceitos de avaliação que cada des que irão decorrer.
informação nacionais e estrangeiras. O Povo está largamente concentrado
um de nós tem. A única publicação Quando a peregrinação terminou, o
realmente neutra que conheço é a na região de Lisboa, pelo que, fre-
envio de artigos que pudessem ser de quentemente, alguns leitores de
lista telefónica. Só aí não existe uma ajuda continuou: às segundas-feiras,
opinião para observar o mundo e outras áreas se queixam da ausência
os artigos do João César das Neves e, de divulgação de actividades nas suas
decidir o que dizer e como. por vezes, e artigos de jornais diários regiões. Isso só acontecerá na medida
ou semanários onde escrevem alguns em que o Povo seja divulgado local-
A nossa diferença não está aí. A jornalistas e comentadores com opi- mente e que me enviem anúncio

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oportuno de actividades locais. Ainda mais divórcio um artigo gentil- tir com paz e deixar aos outros essa
Por isso, peço a todos os amigos do mente enviado por Pedro Vaz Patto paz.
Povo que o divulguem, propondo Divórcio: Igreja está contra “senti- Tristeza e tormento são realidades
novos membros para o Povo quer mentalização do amor” notícia na bem diferentes. A fronteira entre a
sugerindo que se inscrevam em: página do Bloco de Esquerda, tristeza e o tormento é, precisamen-
http://groups.yahoo.com/group/Povo www.esquerda.net em 20080328 te, a paz que, ao partir, se deixa.
_/join quer, enviando O sentido de responsabilidade deve-
(p_a_pinto@hotmail.com ) o nome e Espero que esta nova modalidade nos fazer ter presente este último
endereço dos amigos que gostariam possa ser útil a todos os que formam dever do amor.
de inscrever no Povo. o Povo A espiritualidade ajuda. É acreditar
Finalmente, agradeço a todos a que a morte não é morte, porque a
paciência e fidelidade com que têm Obrigado pela vossa companhia eter-nidade mais do que uma circuns-
permanecido no Povo e peço a vossa Pedro Aguiar Pinto tância, é um lugar.
colaboração sempre que a achem útil Na fé, aquele que parte fica no cora-
ou necessária, de modo a que o Povo P.S. (post-scriptum) – Abaixo o artigo ção de quem fica, mas também per-
possa continuar a ser um elo de liga- do Diário de Notícias que dá a notícia manece vivo noutro lugar, noutra
ção entre pessoas singulares que têm da iniciativa do PS e das reacções de circunstân-cia.
em comum aquela característica que membros da Igreja Católica A fé conserva a presença real daquele
as faz um Povo: unidade na vontade que parte, conserva a conversa, o
de caminharem em conjunto para um quotidiano, a cumplicidade, sob outro
destino comum. Divórcio abre nova guerra entre maio- modo.
NOTA: Esse artigo foi escrito há 4 ria PS e Igreja, Diário de Notícias, Mas o amor sem espiritualidade gera
anos e mantém-se actual no essen- 20080328 também a sua própria transcendên-
cial; apenas já foi ultrapassada a …. cia. O amor sem fé também guarda
mensagem 2000 e o número de mem- vivo aquele que parte. A circunstân-
bros do Povo já passa os 4000. Ontem (16 de Abril de 2008) a maio- cia ou o lugar daquele que parte
ria dos deputados da Assembleia da passa a ser o coração dos que ficam.
Alteracoes a lei do divorcio, novi- República aprovou na gneralidade a Sendo assim, o que morre sem fé
proposta de divórcio SIMPLEX da auto- também se confronta com o último
dades no Povo e "Divorcio abre ria do Partido Socialista dever do amor, deixar a sua paz no
nova guerra" coração daqueles que o guardarão.
Pedro Aguair Pinto O último dever Foram as vivências que me fizeram
Mensagem enviada ao Povo perceber que mesmo diante da morte
António Pinto Leite temos deveres. Pensava, antes de
080330
In: Expresso, 051217 testemunhar a grandeza de alguns,
O projecto-lei que o PS se prepara
«O fim da nossa vida reserva o último que aquele que se prepara para o fim
para apresentar, “simplificando” o
dever do amor, partir com paz.» tem apenas direitos, todos os direi-
processo de divórcio foi alvo nos
ESTE artigo talvez não faça pleno tos, a conceder por todos.
últimos dias de vários comentários.
sentido neste caderno do EXPRESSO. Percebo que não é bem assim, não
Parece-me útil estarmos preparados
Mas escrevo-o, em todo o caso, será assim.
para mais este debate que irá agitar a
intuindo que devo estas palavras a O amor tem um último dever, o dever
sociedade portuguesa (se não esti-
alguém e que as partilho com muitos. de encontrarmos, no fim, o sentido
vermos já todos adormecidos).
Factos recentes fizeram-me olhar a da vida e do próprio fim, a paz com
Seleccionei vários artigos que me
morte através do amor e olhar o amor os outros e com a existência, e irmos
pareceram úteis, mesmo que não
através da morte. Percebi a dimensão a tempo de deixar aos que amamos
sendo totalmente coincidente com os
sublime do amor na hora da morte e esse legado.
pontos de vista de alguns.
percebi o sentido pleno que a morte
De modo a não inundar a vossa caixa
pode conferir ao amor.
de correio, aproveitei a circunstân- Cristianismo é mais do que um
A partida de alguém que se ama é
cia, também favorecida por um fim conjunto de proibições
sempre uma tristeza. A sua ausência
de semana mais sossegado, para dar
é sempre um vazio. A sua saudade é Entrevista do Papa Bento XVI, conce-
início a uma ideia que já bulia há
sempre um travo estranho. dida à Bayerischer Rundfunk (ARD),
muito tempo.
Mas essa tristeza pode ser um deses- ZDF, Deutsche Welle e Rádio Vaticano
Criei um blog
pero, ou não, esse vazio pode trans- Nas vésperas da Jornada Mundial da
http://o-povo.blogspot.com/ onde
formar-se numa agonia, ou não, e Juventude em Colónia no Verão de
as mensagens do Povo também passa-
esse travo estranho pode ser fel per- 2006.
rão a residir; além disso, poderei, tal
manente, ou não. (A tradução apresentada é da respon-
como faço agora, colocar lá outros
Realizei, ao longo de longas expe- sabilidade da Rádio Vaticano)
textos ou artigos que poderei ou não
riências recentes, que o maior acto
sinalizar no Povo. O tempo dirá como
de amor que é pedido aquele que Santo Padre, em Setembro o senhor
tudo irá acontecer.
ama está reservado para a sua morte. visitará a Alemanha ou, mais preci-
Para já, sobre esta questão, são estes
Amar na morte é viver a morte com samente, como é natural, a Baviera.
os artigos que poderão ler carregando
paz. A paz é a forma do amor na hora "O Papa sente saudade da sua
nas respectivas hiperligações:
de partir. Pátria" - disseram os seus colabora-
A paz diante do fim é um gesto gran- dores, durante a preparação. Quais
O novo casamento Vasco Pulido
dioso de amor. temas o senhor abordará, em parti-
Valente no Público de 28 de Março de
Porque a paz se transmite, a paz de cular, durante a visita, e o conceito
2008
quem parte fica com quem fica. A de "pátria" faz parte dos valores que
Casamentos Ana Margarida Craveiro
paz faz parte da herança de quem o senhor deseja propor, em particu-
no blog Atlântico
parte, como os móveis e os dinheiros, lar?
Acabe-se com o casamento! E com os
é como um legado de que todos os Bento XVI: Certamente. O motivo da
contratos Nuno Pombo no blog Incon-
que ficam beneficiam, em conjunto e visita consiste exactamente no meu
tinentes Verbais
por inteiro. desejo de ver, uma vez mais, os luga-
Vícios e virtudes João Miranda no DN
Compreendi como o fim da nossa vida res e as pessoas junto das quais eu
de 29 de Março de 2008
reserva o último dever do amor, par- cresci, que me marcaram e fazem

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parte da minha vida; pessoas às quais essa presença do sagrado noutras vas, que, na realidade, são as únicas
desejo agradecer. E, naturalmente, culturas, ainda que velada de muitas que tornam o crescimento possível,
também levar uma mensagem que vá maneiras, toca novamente o mundo que permitem ir avante e alcançar
além da minha terra, como é coeren- ocidental e toca a nós, que nos algo de grande na vida; são as únicas
te com meu ministério. Os temas, eu encontramos na encruzilhada de que não destroem a liberdade, mas
deixei que me fossem simplesmente tantas culturas. Das profundezas do lhe oferecem a justa direcção no
indicados pelas celebrações litúrgi- homem, no Ocidente e na Alemanha, espaço; correr esse risco, dar esse
cas. O tema fundamental é que nós emerge sempre e novamente, o dese- salto - se assim podemos dizer - para
devemos redescobrir Deus, e não um jo de algo "maior". Nós o constatamos o definitivo e, com isso, acolher ple-
Deus qualquer, mas o Deus com fei- entre a juventude, na sua contínua namente a vida: isso é algo que eu
ções humanas, porque quando vemos busca de um "algo mais". De certa ficaria muito feliz de poder comuni-
Jesus Cristo, vemos Deus. E a partir forma, o fenómeno religião - como se car.
disso, devemos buscar os caminhos diz - retorna, ainda que como movi-
para nos encontrar reciprocamente mento de busca bastante indetermi- Santo Padre, uma pergunta sobre a
na família, entre as gerações, e nado. Com tudo isso, porém, a Igreja situação da política externa. A
depois também, entre as culturas e os está novamente presente, e a fé esperança da paz no Oriente Médio
povos, e os caminhos para a reconci- oferece-se como resposta. Eu creio diminuiu sensivelmente nas últimas
liação e a convivência pacífica neste que exactamente esta visita, assim semanas. Quais possibilidades o
mundo. Os caminhos que conduzem como aquela que fiz a Colónia, seja senhor vê, para a Santa Sé, no que
ao futuro, nós não os encontraremos, uma oportunidade para que se veja diz respeito à situação actual? Que
se não recebermos a luz do alto. Não que crer é belo, que a alegria de uma influências positivas o senhor pode
escolhi, portanto, temas muito espe- grande comunidade universal significa exercer sobre a situação, sobre o
cíficos, mas deixei-me guiar pela um apoio, que atrás dela, existe algo desenvolvimento dos fatos no Orien-
liturgia, para exprimir a mensagem de importante e que, portanto, junto te Médio?
fundamental da fé que, naturalmen- aos novos movimentos de busca, há
te, se insere na actualidade de hoje, também novas soluções para a fé, Bento XVI: Naturalmente, não temos
na qual desejamos, sobretudo, buscar que nos conduzem uns para os outros, nenhuma possibilidade política e não
a colaboração dos povos, e os cami- e que também são positivas para a queremos nenhum poder político. Mas
nhos possíveis para a reconciliação e sociedade em seu conjunto. queremos dirigir-nos aos cristãos e a
a paz. todos aqueles que se sentem, de
Santo Padre, exactamente um ano qualquer modo, unidos à Santa Sé e
Como Papa, o senhor é responsável atrás, o senhor estava em Colónia, por ela interpelados, para que sejam
pela Igreja no mundo inteiro. Natu- com os jovens, e creio que o senhor mobilizadas todas as forças que reco-
ralmente, porém, a sua visita cha- tenha podido experimentar que a nhecem que a guerra é a pior solução
mará a atenção para a situação dos juventude está extraordinariamente para todos. Não traz nada de bom
católicos na Alemanha. Ora, todos pronta a acolher, e que o senhor, para ninguém, nem mesmo para os
os observadores concordam que a pessoalmente, foi muito bem aco- aparentes vencedores. Nós sabemos
atmosfera é boa, graças também à lhido. Nesta próxima viagem, o disso muito bem, na Europa, ao tér-
sua eleição. Permanecem, no entan- senhor levará, porventura, também mino das duas guerras mundiais.
to, os problemas antigos como, por uma mensagem especial para os Aquilo de que todos necessitamos é
exemplo, o número sempre menor jovens? de paz. E existe uma forte comunida-
de católicos praticantes, a diminui- de cristã no Líbano, há cristãos entre
ção do número de baptismos e, de Bento XVI: Eu diria, antes de mais, os árabes, há cristãos em Israel, e
modo geral, a perda da influência que me sinto muito feliz em saber cristãos de todo o mundo estão
dos católicos na vida social. Como o que há jovens que querem estar jun- empenhados na ajuda a esses países,
senhor vê a situação actual da Igreja tos, que querem reunir-se na fé, e queridos a todos nós. Há forças
Católica na Alemanha? que desejam fazer algo de bom. A morais que estão prontas a fazer
disponibilidade para o bem é muito compreender que a única solução é
Bento XVI: Eu diria, antes de tudo, forte na juventude, basta pensar nas aprender a viver juntos. São essas as
que a Alemanha faz parte do Ociden- muitas formas de voluntariado. O forças que queremos mobilizar. Cabe
te, ainda que com características compromisso a oferecer, pessoalmen- aos políticos encontrar, depois, as
próprias e, no mundo ocidental, te, uma contribuição às necessidades vias para que isso possa concretizar-
vivemos hoje uma onda de novo e deste mundo, é uma coisa grande. se, o mais rapidamente possível e,
drástico iluminismo ou laicismo, como Um primeiro impulso pode ser, por- sobretudo, de modo duradouro.
se queira chamar. Crer tornou-se tanto, o de encorajar a isso: Prossi-
mais difícil, uma vez que o mundo em gam neste caminho! Busquem oca- Como Bispo de Roma o senhor é
que nos encontramos, é feito comple- siões para fazer o bem! O mundo sucessor de São Pedro. Como pode
tamente por nós mesmos, e neste necessita dessa vontade, necessita ser apresentado, de modo apropria-
mundo, Deus - se podemos assim desse empenho! E depois, talvez, do, nos dias de hoje, o ministério de
dizer - já não comparece directamen- uma palavra especial poderia ser Pedro? E como o senhor vê a relação
te. Já não se bebe da fonte, mas sim esta: a coragem das decisões definiti- de tensão e equilíbrio entre o pri-
do recipiente em que a água nos é vas! Na juventude, há muita genero- mado do Papa, de um lado, e a
oferecida. Os homens reconstruíram o sidade, mas, diante do risco de com- colegialidade dos bispos, de outro?
mundo por si mesmos, e encontrar prometer-se por toda a vida, seja no
Deus por trás deste mundo, tornou-se matrimónio seja no sacerdócio, expe- Bento XVI: Uma relação de tensão e
difícil. Isso não é algo específico da rimenta-se o medo. O mundo movi- equilíbrio naturalmente existe, e
Alemanha, mas sim um fenómeno que menta-se de modo dramático. Conti- deve ser assim. Multiplicidade e uni-
se verifica em todo o mundo, em nuamente. Posso, desde agora, dispor dade devem sempre e novamente
particular no mundo ocidental. Por de toda a minha vida, com todos os encontrar a sua relação recíproca, e
outro lado, o Ocidente hoje, é tocado seus imprevisíveis eventos futuros? essa relação deve ser restabelecida,
fortemente por outras culturas, nas Com uma decisão definitiva, não nas mutáveis situações do mundo.
quais o elemento religioso originário estarei, eu mesmo, cerceando a Hoje, temos uma nova polifonia de
é muito forte, e que ficam horroriza- minha liberdade e tirando algo de culturas, na qual a Europa já não é o
das pela frieza que encontram no minha flexibilidade? Despertar a único determinante; as comunidades
Ocidente, no que se refere a Deus. E coragem de ousar decisões definiti- cristãs dos diversos continentes estão

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adquirindo o seu próprio peso, as suas conjunto de muitas vozes, com o de tão pouco tempo, não pode come-
próprias côres. Devemos aprender qual, respeitando a multiplicidade çar dizendo "Não!". É preciso estabe-
cada vez mais, essa sinergia. Para dessas vozes, devemos, na busca da lecer, primeiramente, o que efecti-
tanto, desenvolvemos diversos ins- unidade, entrar em diálogo e estabe- vamente queremos, não é mesmo? O
trumentos: as chamadas "visitas ad lecer uma colaboração. A primeira Cristianismo, o Catolicismo não é um
Limina" dos bispos, que sempre existi- coisa a fazer, nesta sociedade, é conjunto de proibições, mas uma
ram, agora são muito mais valoriza- preocuparmo-nos, todos juntos, a opção positiva. E é muito importante
das, para que os bispos possam real- tornar claras as grandes orientações que evidenciemos isso novamente,
mente falar com todas as instâncias éticas, encontrá-las nós mesmos e porque essa consciência, hoje, desa-
da Santa Sé e também comigo. Eu traduzi-las, de modo a garantir a pareceu quase completamente. Tem-
falo pessoalmente com cada bispo. Já coesão ética da sociedade, sem a se ouvido falar tanto sobre o que não
tive a oportunidade de falar com qual ela não pode realizar os fins da é permitido, que agora é preciso
quase todos os bispos da África e com política, que são a justiça para todos, dizer: "Mas nós temos uma ideia posi-
muitos dos bispos da Ásia. Agora, a boa convivência e a paz. Nesse tiva a propor: o homem e a mulher
virão os bispos da Europa Central, da sentido, muitas coisas já estão a ser foram feitos um para o outro e existe
Alemanha, Suíça e, nestes encontros, realizadas: diante dos grandes desa- uma escala - sexualidade, eros e
nos quais Centro e Periferia se encon- fios morais, já nos encontramos, há agape, que são as dimensões do
tram, num franco intercâmbio, cresce tempos, verdadeiramente unidos, em amor, e assim se forma, antes o
o correcto relacionamento recíproco, virtude do nosso comum fundamento matrimónio como encontro repleto de
numa tensão equilibrada. Temos cristão. Naturalmente, depois, trata- felicidade, entre o homem e a
ainda outros instrumentos, como o se de testemunhar Deus num mundo mulher, e depois, a família, que
Sínodo e o Consistório, que agora que tem dificuldades de encontrá-Lo, garante a continuidade entre as gera-
convocarei regularmente, e que gos- como já dissemos; trata-se de tornar ções, onde se realiza a reconciliação
taria de desenvolver, nos quais _ visível o Deus com as feições humanas das gerações, e onde as culturas
ainda que sem uma precisa ordem do de Jesus Cristo, oferecendo, assim, também se podem encontrar. Antes
dia _ podemos discutir juntos, sobre aos homens, o acesso àquelas fontes, de tudo, portanto, é importante colo-
os problemas actuais, e buscar solu- sem as quais a moral se esteriliza e car em relevo aquilo que queremos.
ções. Sabemos, de um lado, que o perde as suas referências. Trata-se Em segundo lugar, pode-se ver tam-
Papa não é, de facto, um monarca também, de dar a alegria, porque não bém, porque certas coisas nós não as
absoluto, mas que deve personificar a estamos isolados neste mundo. queremos. Eu creio que seja preciso
totalidade, na escuta colectiva de Somente assim, nasce a alegria diante reconhecer que não é uma invenção
Cristo. A consciência da necessidade da grandeza do homem, que não é um católica, o facto que o homem e a
de uma instância unificadora, capaz produto mal acabado, da evolução, mulher sejam feitos um para o outro,
de criar também a independência das mas a imagem de Deus. Devemos a fim de que a humanidade continue
forças políticas e garantir que as mover-nos nestes dois planos: o plano a viver: todas as culturas, no fundo,
"cristandades" não se identifiquem das grandes referências éticas, e sabem disso. No que se refere ao
por demais com as nacionalidades, aquele que mostra - a partir do inte- aborto, ele não entra no sexto, mas
essa consciência, justamente, indica rior dessas referências e orientando- no quinto mandamento: "Não matar!".
a necessidade de tal instância supe- se em direcção às mesmas - a presen- E isso nós devemos pressupor como
rior e mais ampla, que cria unidade ça de Deus, de um Deus concreto. Se óbvio, reafirmando sempre que a
na integração dinâmica do todo e, por fizermos isso e, se, sobretudo, os pessoa humana tem início no seio
outro lado, acolhe, aceita e promove grupos singularmente considerados, materno e permanece pessoa huma-
a multiplicidade; essa consciência é buscarem não viver a fé com particu- na, até ao seu último suspiro. Por
muito forte. Creio, por isso, que, larismo, mas sempre a partir de seus isso, deve ser sempre respeitada
nesse sentido, haja realmente uma fundamentos mais profundos, então, como pessoa humana. Mas isso torna-
adesão íntima ao ministério petrino, ainda que talvez não cheguemos tão se mais claro se, antes, for dito o que
no desejo de desenvolvê-lo ulterior- rapidamente às manifestações exter- é positivo.
mente, de modo que responda tanto nas de unidade, amadureceremos,
aos desígnios do Senhor quando às todavia, rumo a uma unidade interior Santo Padre, a minha pergunta tem
necessidades dos tempos. que, se Deus quiser, um dia levará a ver, de certo modo, com a prece-
também a formas externas de unida- dente. Em todo o mundo, os fiéis
A Alemanha, como terra da Refor- de. esperam da Igreja Católica, respos-
ma, é, naturalmente, marcada de tas aos problemas globais mais
modo particular, pelas relações Tema: a família. Há cerca de um urgentes, como a SIDA e a superpo-
entre as diversas confissões. As mês, o senhor estava em Valençia, pulação. Por que é que a Igreja
relações ecuménicas são uma reali- para o V Encontro Mundial das Famí- Católica insiste tanto sobre a moral,
dade sensível que, de vez em quan- lias. Quem ouviu com atenção _ antepondo-a às tentativas de solu-
do, podem encontrar-se em dificul- como nós da Rádio Vaticano tenta- ção concreta para esses problemas
dade. Quais possibilidades o senhor mos fazer - pôde notar que o senhor cruciais da humanidade, por exem-
vê, de melhorar as relações com a não usou, sequer uma vez, a plo, no continente africano?
Igreja Evangélica, ou quais dificul- expressão "matrimónios homosse-
dades vê, neste caminho? xuais", tampouco falou de aborto ou Bento XVI: É verdade! Este é o pro-
de contracepção. Observadores blema: insistimos realmente tanto
Bento XVI: Talvez seja importante atentos disseram: "Interessante! sobre a moral? Eu diria - e tenho me
dizer, sobretudo, que a Igreja Evan- Evidentemente, a sua intenção é convencido disso sempre mais, tam-
gélica apresenta uma notável varie- anunciar a fé, e não girar o mundo bém no diálogo com os bispos africa-
dade. Na Alemanha temos, se não me como "apóstolo da moral". O senhor nos – que a questão fundamental, se
engano, três comunidades maiores: pode nos dizer o que pensa de tal quisermos progredir nesse campo, se
Luteranos, Reformados e União Prus- avaliação? chama educação, formação. O pro-
siana. Além disso, hoje constituem-se gresso somente pode ser verdadeiro,
também, numerosas Igrejas livres Bento XVI: Naturalmente, sim. Antes se servir à pessoa humana; se a pró-
(Freikirchen) e, no âmbito das Igrejas de tudo, devo dizer que eu dispunha, pria pessoa humana crescer, assim
clássicas, movimentos como a "Igreja ao todo, nas duas vezes em que me como também a sua capacidade
confessante", e assim por diante. pronunciei, de apenas 20 minutos de moral, e não apenas o seu poder
Trata-se, portanto, também de um tempo para falar. E se alguém dispõe técnico. Eu creio que o verdadeiro

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problema da nossa situação histórica também a malária e a tuberculose. nosso pequeno número!" Devemos, ao
seja o desequilíbrio entre o cresci- invés, manter vivo o nosso dinamis-
mento incrivelmente rápido do nosso Santo Padre, o Cristianismo difun- mo, instaurar relações de intercâm-
poder técnico e a nossa capacidade diu-se em todo mundo a partir da bio, de maneira que, de lá, cheguem
moral, que não cresce proporcional- Europa. Agora, muitos que se ocu- novas forças para nós. Hoje, há
mente. Por isso, a formação da pes- pam desse tema, dizem que o futu- sacerdotes indianos e africanos na
soa humana é a verdadeira receita, ro da Igreja se encontra nos outros Europa e também no Canadá, onde
eu diria "a chave de tudo", e esse é continentes. É verdade? Em outras muitos sacerdotes africanos traba-
também o nosso caminho. Essa for- palavras: que futuro tem o Cristia- lham; é interessante! Há este dar e
mação tem - em resumo - duas nismo na Europa, onde parece receber recíproco. E ainda que, no
dimensões. Antes de mais, natural- estar-se reduzindo a uma esfera futuro, venhamos a ser aqueles que
mente, devemos aprender: adquirir o privada ou religião minoritária? recebem, mais do que dão, devere-
saber, a capacidade, o know-how, mos sempre continuar capazes de dar
come se diz habitualmente. Nesse Bento XVI: Antes de tudo, gostaria de e de desenvolver, em tal senso, a
sentido, a Europa e a América fize- delinear algumas nuances. Na verda- coragem e o dinamismo necessários.
ram muito, nas últimas décadas, e de, como sabemos, o Cristianismo
isso é muito importante. Mas se se nasceu no Oriente Médio. E por muito O assunto já foi em parte abordado,
difunde apenas o know-how, se se tempo, seu desenvolvimento principal Santo Padre. As sociedades moder-
ensina apenas como se constroem e permaneceu lá, e se difundiu na Ásia, nas, nas decisões importantes sobre
se usam as máquinas, e como se muito mais do que podemos pensar política e ciência, não se orientam
empregam os meios de contracepção, hoje, depois das mudanças levadas pelos valores cristãos e pela Igreja -
então não devemos espantar-nos se, pelo Islamismo. Por outro lado, exac- como informam as pesquisas. A
no final, nos encontramos com as tamente por esse motivo, o seu eixo Igreja é considerada apenas como
guerras e as epidemias da SIDA. Nós deslocou-se sensivelmente para o uma voz de admoestação ou até
necessitamos de duas dimensões: é Ocidente e para a Europa, e a Europa mesmo de repressão. A Igreja não
preciso, ao mesmo tempo, a forma- - fato que nos enche de orgulho e de deveria sair dessa posição defensiva
ção do coração - se posso expressar- alegria - desenvolveu ulteriormente o e assumir uma atitude mais positiva
me assim - com o qual a pessoa Cristianismo, nas suas grandes dimen- em relação ao futuro e à sua cons-
humana adquire as referências e sões, também intelectuais e cultu- trução?
aprende, assim, a usar correctamente rais. Creio, todavia, que seja impor-
a técnica, que também é necessária. tante recordar os cristãos do Oriente, Bento XVI: Eu diria que, em todo o
E é isso que procuramos fazer. Em uma vez que existe o perigo de que caso, temos a nossa tarefa de colocar
toda a África e também em muitos eles, que sempre foram uma minoria, em relevo aquilo que nós queremos,
países da Ásia, temos uma grande possam agora emigrar. Há o grande de positivo. E isso devemos fazê-lo,
rede de escolas de todos os níveis, perigo de que, justamente esses antes de tudo no diálogo com as cul-
onde, antes de tudo, se pode apren- lugares da origem do Cristianismo turas e com as religiões, uma vez
der, adquirir verdadeiro conhecimen- acabem vazios da presença dos cris- que, o continente africano, a alma
to e capacidade profissional, e, com tãos. Creio que devemos ajudar mui- africana e também a alma asiática
isso, obter autonomia e liberdade. to, para que eles possam permanecer ficam desconcertados diante da frieza
Nessas escolas, procuramos não ape- ali. E agora, então, vejamos a respos- da nossa racionalidade. É importante
nas ensinar o know-how, mas também ta à sua pergunta. A Europa tornou- demonstrar que entre nós não existe
formar pessoas humanas que queiram se, certamente, o centro do Cristia- apenas isso. E da mesma forma, é
reconciliar-se, que saibam construir e nismo e do seu movimento missioná- importante que o nosso mundo laicis-
não destruir, e que tenham as refe- rio. Hoje, os demais continentes e as ta se dê conta de que a fé cristã não
rências necessárias à convivência. Em outras culturas entram com igual é um impedimento, mas sim uma
grande parte da África, as relações peso no concerto da história mundial. ponte para o diálogo com os outros
entre muçulmanos e cristãos são Assim, cresce o número das vozes da mundos. Não é justo pensar que a
exemplares. Os bispos formaram Igreja, e isso é um bem. É um bem cultura puramente racional, graças à
comissões conjuntas, com os muçul- que se possam exprimir os diversos sua tolerância, tenha uma abordagem
manos, para buscar estabelecer a paz temperamentos, os dons próprios da mais fácil das outras religiões. O que
nas situações de conflito. E essa rede África, da Ásia e da América, em lhe falta, em grande parte, é o "órgão
de escolas, de aprendizagem e de particular também da América Latina. religioso", ou seja, o ponto de encon-
formação humana, que é muito Todos, naturalmente, são tocados não tro a partir do qual e com o qual os
importante, é completada por uma apenas pela palavra do Cristianismo, outros desejam se relacionar. Por
rede de hospitais e de centros de mas também pela mensagem secula- isso, devemos e podemos mostrar
assistência, que alcança, de maneira rista deste mundo, que leva também que, justamente pela nova intercultu-
capilar, até mesmo as aldeias mais aos outros continentes, a experiência ralidade em que vivemos, a pura
remotas. E em muitos lugares, depois clamorosa que nós sofremos em nós racionalidade separada de Deus, não
de todas as destruições da guerra, a mesmos. Todos os bispos das outras é suficiente, mas é necessária uma
Igreja permanece como único poder partes do mundo dizem: "Nós temos racionalidade mais ampla, que vê
intacto - não poder, mas realidade! ainda necessidade da Europa, ainda Deus em harmonia com a razão;
Uma realidade onde se tratam tam- que a Europa, agora, seja apenas uma devemos mostrar que a fé cristã que
bém os doentes de SIDA, e onde, por parte de um todo que é muito maior." se desenvolveu na Europa é também
outro lado, se oferece uma educação Nós ainda temos uma responsabilida- um meio para fazer confluir razão e
que ajuda a estabelecer as justas de em relação a eles. As nossas expe- cultura, e para mantê-las juntas,
relações com os demais. Por isso, riências, a ciência teológica aqui numa unidade que compreende tam-
creio que deveria ser corrigida a desenvolvida, toda a nossa experiên- bém o agir. Nesse sentido, creio que
imagem segundo a qual semeamos, cia litúrgica, as nossas tradições e temos uma grande tarefa, que é a de
em torno a nós, somente rígidos também as experiências ecuménicas mostrar que essa Palavra que possuí-
"Não!". Exactamente na África, actua- que acumulamos: tudo isso é muito mos, não pertence _ se podemos
se muito, para que as diversas dimen- importante, também para os outros assim dizer _ aos entulhos inúteis da
sões da formação possam se integrar continentes. Por isso, é preciso que história, mas é necessária ainda hoje.
e, assim, se torne possível superar a nós, hoje, não capitulemos, dizendo:
violência e também as epidemias, "Eis o que somos _ uma minoria; pro- Santo Padre, falemos das suas via-
entre as quais precisamos incluir curemos, ao menos, conservar este gens. O senhor está no Vaticano,

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talvez lhe custe muito, estar um nio do Catolicismo. Qual é, portan-
pouco distante das pessoas e sepa- Bento XVI: Sim, o Bom Deus me dará to, a vitalidade e a capacidade de
rado do mundo, mesmo aqui, neste a força necessária. E quando vejo o futuro dessa instituição, por outro
belíssimo ambiente de Castel Gan- acolhimento cordial que me reser- lado antiquíssima?
dolfo. O senhor logo completará 80 vam, naturalmente sinto-me mais
anos. O senhor pensa, com a ajuda encorajado. Bento XVI: Eu diria que todo o ponti-
de Deus, em fazer ainda muitas ficado de João Paulo II chamou a
viagens? Tem uma ideia de quais Santo Padre, o senhor acaba de atenção dos homens e os reuniu.
viagens gostaria de fazer? À Terra dizer que fez uma promessa um Aquilo que aconteceu por ocasião da
Santa, ao Brasil? O senhor já sabe? tanto imprudente. Quer dizer que sua morte permanece como um facto
não obstante o seu ministério, e não historicamente muito especial: cen-
Bento XVI: Para dizer a verdade, não obstante os seus numerosos vínculos tenas de milhares de pessoas que
me sinto tão sozinho. Naturalmente, protocolares, o senhor não renuncia acorriam, disciplinadamente, à Praça
existem os muros _ se podemos assim à sua espontaneidade? São Pedro, que permaneciam horas,
dizer _ muros que tornam difícil o em pé e, ao invés de desfalecerem,
acesso, mas há uma "família pontifí- Bento XVI: De qualquer maneira, eu resistiam, movidas por uma força
cia", a cada dia muitas visitas, em tento. Uma vez que, por quanto as interior. Depois, revivemos isso por
particular quando estou em Roma. coisas possam ser previstas, eu gosta- ocasião da inauguração do meu ponti-
Vêm os bispos, outras pessoas, há as ria de conservar e de realizar também ficado, e ainda em Colónia. É muito
visitas de Estado, de personalidades algumas coisas de cunho pessoal. bonito ver a experiência da comuni-
que querem falar comigo pessoalmen- dade tornar-se, ao mesmo tempo,
te, e não apenas de questões políti- Santo Padre, as mulheres são muito uma experiência de fé; que se expe-
cas. Nesse sentido, há uma multipli- activas em diversas funções na Igre- rimente a comunhão, não apenas num
cidade de encontros que, graças a ja Católica. A sua contribuição não lugar qualquer, mas que esta se torne
Deus, me são oferecidos continua- deveria se tornar mais claramente mais viva, justamente nos lugares da
mente. E é também importante que a visível, também nos cargos de maior fé, fazendo resplandecer, na sua
sede do Sucessor de Pedro seja um responsabilidade na Igreja? força luminosa, também a catolicida-
lugar de encontro, não é verdade? de. Obviamente, isso deve durar
Desde o tempo de João XXIII, depois, Bento XVI: Sobre essa questão, natu- também na vida quotidiana. As duas
o pêndulo se virou noutra direcção: ralmente reflecte-se muito. Como o coisas devem caminhar juntas. De um
foram os papas que começaram a senhor sabe, nós consideramos que a lado, os grandes momentos, nos quais
fazer visitas. Devo dizer que não me nossa fé, a constituição do Colégio se experimenta que é belo participar,
sinto em condições de agendar muitas dos Apóstolos nos obriguem e não nos que o Senhor está presente e que nós
viagens longas, mas onde houver permitem conferir a ordenação formamos uma grande comunidade
possibilidade de dirigir uma mensa- sacerdotal às mulheres. Mas não se reconciliada, para além de todos os
gem, onde tais viagens responderem pode pensar que, na Igreja, a única confins. Mas depois, naturalmente, é
a um verdadeiro desejo, ali quero ir, possibilidade de desempenhar um preciso tirar daí, o impulso para resis-
com a "dosagem" que me for possível. papel de relevo seja a de ser sacerdo- tir, durante as cansativas peregrina-
Algumas coisas já estão previstas: no te. Na história da Igreja, há muitas ções através do quotidiano, afrontan-
próximo ano, no Brasil, haverá o tarefas e funções. A começar pelas do-as a partir desses pontos luminosos
encontro do CELAM, o Conselho Epis- irmãs dos Padres da Igreja, para che- e convidando, assim, também os
copal Latino-americano, e creio que gar à Idade Média, quando grandes demais, a inserir-se na comunidade
ali, a minha presença seja um factor mulheres desempenharam um papel em caminho. Gostaria de aproveitar
importante, considerando, de um muito determinante, até chegar à esta ocasião para dizer: Eu sinto-me
lado, os eventos dramáticos que a época moderna. Pensemos em Ilde- maravilhado com tudo aquilo que
América do Sul está vivendo; e de gard de Bingen, que protestava for- fazem, para preparar a minha visita,
outro lado, toda a força da esperança temente, contra os bispos e o Papa; por tudo aquilo que o povo está
que, ao mesmo tempo, é actuante em Catarina de Sena e em Brígida da fazendo. A minha casa foi pintada de
naquela região. Depois, gostaria de Suécia. Assim, também no tempo novo, uma escola profissional refor-
visitar a Terra Santa, e espero poder moderno, as mulheres devem - e nós mou o lugar. O professor de religião,
fazê-lo em tempo de paz. No que diz com elas - procurar, novamente, o evangélico, também colaborou. Esses
respeito ao resto, veremos o que me seu justo lugar. Hoje, elas estão bem são pequenos detalhes, mas são um
reserva a Providência. presentes, até mesmo nos Organismos sinal do muito que vem sendo feito.
(dicastérios) da Santa Sé. Mas há um Tudo isso é extraordinário, e não o
Desculpe se insisto. Os austríacos problema jurídico: o da jurisdição, relaciono a mim mesmo, mas conside-
também falam alemão e esperam o isto é, o facto de que segundo o ro-o como sinal de um desejo de
senhor em Mariazell. Direito Canónico, o poder de tomar pertencer a esta comunidade de fé, e
decisões juridicamente vinculadoras, de servirem todos, uns aos outros.
Bento XVI: Sim, já concordamos sobre estar ligado à Ordem sacra. Desse Demonstrar essa solidariedade e dei-
isso. Eu o prometi simplesmente, de ponto de vista, há, portanto, alguns xar-se inspirar nisso, pelo Senhor: é
maneira um tanto imprudente. É um limites. Mas eu creio que as próprias algo que me toca e, por isso, gostaria
lugar de que gostei, tanto que disse: mulheres, com o seu dinamismo e a de agradecer, de todo o coração.
"Sim, voltarei à Magna Mater Aus- sua força, com a sua preponderância
triae." Naturalmente, minhas palavras e com a sua "força espiritual" saberão Santo Padre, o senhor falou da
se tornaram imediatamente uma conquistar o seu espaço. E nós deve- experiência da comunidade. O
promessa. Uma promessa que mante- mos colocar-nos na escuta de Deus, senhor vai agora à Alemanha já pela
rei, e de bom grado. para não sermos nós a opormo-nos a segunda vez, após sua eleição. Com
Ele, mas pelo contrário, a alegrarmo- o Dia Mundial da Juventude, e tal-
Insisto ainda: eu o admiro, todas as nos pelo facto de o elemento femini- vez também por causa da recente
quartas-feiras, quando realiza as no alcançar, na Igreja, o lugar opera- Copa do Mundo, a atmosfera de
Audiências Gerais, às quais estão tivo que lhe cabe, a começar pela certa forma mudou. Tem-se a
presentes quase sempre, cerca de Mãe de Deus e Maria Madalena. impressão de que os alemães se
50 mil pessoas. Deve ser cansativo, tornaram mais abertos ao mundo,
muito cansativo. O senhor consegue Santo Padre, nos tempos mais mais tolerantes e mais alegres? O
resistir? recentes, se fala de um novo fascí- que o senhor espera ainda de nós,

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alemães? inspira. O bem-aventurado pertence a Bento XVI: Eu já fui seccionado diver-
eles, e ficamos contentes que ali haja sas vezes: o professor do primeiro
Bento XVI: Eu diria que, naturalmen- muitos. E se, gradualmente, com o período e o do período intermediário,
te, já com o fim da II Guerra Mundial, desenvolvimento da sociedade mun- o primeiro Cardeal e o sucessivo.
começou uma transformação interior dial, também nós os conhecermos Agora, acrescenta-se outra disseca-
da sociedade alemã, e também da melhor, será bonito. Mas, antes de ção. Naturalmente, as circunstâncias
mentalidade alemã. Uma transforma- tudo, é importante que também nes- e a situação, e também os homens
ção que foi reforçada ainda mais, se campo, haja multiplicidade. Nesse influem, porque desempenham res-
pela reunificação. Nós inserimo-nos sentido, é importante que também ponsabilidades diversas. Mas - diga-
profundamente na sociedade mundial nós, na Alemanha, aprendamos a mos - a minha personalidade funda-
e, obviamente, estamos, de certo conhecer nossas próprias figuras e mental e também a minha visão fun-
modo, sob a influência da sua menta- sejamos orgulhosos delas. Paralela- damental cresceram, mas em tudo o
lidade. E assim, se mostram também mente, existem as canonizações das que é essencial, permanecem idênti-
alguns aspectos do carácter alemão, figuras maiores, que são de relevo cas. Fico feliz pelo facto de, agora,
que antes não se esperava ver. Talvez para toda a Igreja. Eu creio que as serem percebidos também aspectos
tenhamos sido pintados de maneira Conferências Episcopais deveriam que antes não eram tão notados.
exagerada, como sempre muito disci- escolher, deveriam ver quem é apro-
plinados e reservados, o que tem priado a nós, quem nos diz realmen- Pode-se dizer que sua tarefa lhe
algum fundamento. Mas sinto-me feliz te, alguma coisa; e depois, deveriam agrada e que não é um peso para o
que agora esses aspectos se tornem tornar mais visíveis essas figuras mais senhor?
visíveis, deixando ver que os alemães significativas, imprimindo-as na cons-
não são apenas reservados, pontuais e ciência, por meio da catequese e da Bento XVI: Isso seria demais, porque,
disciplinados, mas são também pregação; talvez se pudesse até na realidade é cansativo, mas, de
espontâneos, alegres e hospitaleiros. mesmo apresentá-las com um filme. qualquer forma, busco encontrar
Isso é muito bonito. Os meus votos Imagino que seriam filmes muito alegria também nisso.
são de que essas virtudes cresçam bonitos. Naturalmente, conheço bem
ulteriormente, recebendo ainda o apenas os Padres da Igreja: fazer um Conclusão: Também em nome dos
impulso e a durabilidade da fé cristã. filme sobre Agostinho, também um meus colegas, agradeço ao senhor,
sobre Gregório Nazianzeno e sua muito sinceramente, por esse
Santo Padre, seu Predecessor decla- figura muito particular (sua fuga encontro, por esta "exclusiva mun-
rou bem-aventurados e santos um contínua das responsabilidades cada dial". Nós nos sentimos muito felizes
grande número de cristãos. Alguns vez maiores que lhe eram impostas, e pela sua próxima visita à Alemanha,
pensam que houve até um exagero. assim por diante) e demonstrar que à Baviera. Até lá!
Esta é a minha pergunta: as beatifi- não há sempre situações feias em Entrevistas | Rádio Vaticano|
cações e as canonizações são uma torno das quais fazem tantos filmes, 14/08/2006 | 10:46 |
vantagem somente se essas pessoas mas que há figuras maravilhosas na
podem ser consideradas como ver- história, que não são absolutamente O célebre relatório Kissinger e a
dadeiros modelos. A Alemanha pro- monótonas, mas muito actuais. Em
duz relativamente poucos santos e resumo, é preciso buscar não carregar política internacional maltusiana
bem-aventurados, se comparada a excessivamente as pessoas, mas tor- Mário Pinto
outros países. Pode-se fazer alguma nar visíveis para muitos, as figuras In: Público, 061023
coisa para que essa dimensão pasto- que são actuais e que são capazes de 1.No meu último artigo, interroguei-
ral se desenvolva, e para que a nos inspirar. me acerca das razões pelas quais um
necessidade de beatificações e crime tão repugnante como o aborto,
canonizações dê um verdadeiro Histórias de humor também? Em condenado pela consciência da nossa
fruto pastoral? 1989 o senhor recebeu a condeco- cultura civilizacional desde há dois
ração da Ordem de Karl Valentin. milénios, sem discordâncias a não ser
Bento XVI: No início, eu também Que papel tem na vida de um Papa, por parte das grandes ideologias tota-
tinha a ideia de que a grande quanti- o humor e a descontracção? litárias do século XX (nazismo e
dade de beatificações quase nos comunismo), se tornou, de repente, e
esmagava, e que talvez houvesse Bento XVI: (o Papa ri) Eu não sou um sem novas razões doutrinais nem
necessidade de escolher um pouco homem ao qual venham em mente, científicas, como algo de, não apenas
mais: figuras que entrassem mais continuamente, piadas. Todavia, lícito, mas até pretendidamente
claramente na nossa consciência. saber ver o aspecto divertido da vida direito fundamental da mulher (só da
Nesse meio tempo, descentralizei as e a sua dimensão alegre, e não levar mulher), decorrente da propriedade
beatificações, para tornar cada vez tudo tragicamente, isso eu considero do seu corpo.
mais visíveis essas figuras, nos lugares muito importante, e diria que é até
específicos aos quais pertencem. necessário para o meu ministério. Um 2. E cheguei à conclusão de que have-
Talvez um santo da Guatemala inte- escritor já disse que os anjos podem ria, sem dúvida, uma explicação na
resse menos a nós, na Alemanha, e voar, porque não levam as coisas tão mudança de cultura e das mentalida-
vice-versa, um de Altötting não a sério. Talvez, também nós pudés- des. Mas, visto que as mudanças cul-
encontre tanto interesse em Los semos voar um pouco mais, se não turais, mesmo no nosso tempo acele-
Angeles, e assim por diante. Nesse déssemos tanta importância. rado, são mais lentas do que tem sido
sentido, creio que essa descentraliza- a reviravolta (ou revolução) do abor-
ção, que corresponde também à cole- Quando se desempenha uma tarefa to, procurei o concurso de algum
gialidade do episcopado e às suas tão importante como a sua, Santo factor catalisador. E achei que esse
estruturas colegiais, seja uma coisa Padre, naturalmente se é muito factor foi e é a política maltusiana do
oportuna, exactamente por isso. Os observado. Os outros falam do ocidente próspero e egoísta, relança-
diversos países têm as suas próprias senhor. Lendo aqui, fiquei impres- da pelo célebre relatório Kissinger.
figuras, que ali podem desempenhar a sionado com o que dizem: que o Esta tese, que não é original, encon-
sua eficácia. Observei também, que Papa Bento XVI é uma personalidade tra confirmação em factos significati-
essas beatificações nos diversos luga- diversa do Cardeal Ratzinger. Como vos indesmentíveis e nas próprias
res tocam numerosas pessoas e que o vê a si mesmo, se posso me permitir intenções da política internacional
povo comenta: "Finalmente, este é fazer-lhe tal pergunta? dos últimos anos.
um de nós!" e recorre a ele e nele se

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3. Sobre a «política de cultura» inci- países do terceiro mundo relativa- em manteiga. Para uma pretensa
dente na mudança de mentalidade, mente aos recursos naturais mundiais justificação, bastam slogans primiti-
ficará para outra ocasião. Aliás, vai "causarão graves problemas que vos, com base em ideias primárias
decorrer na Fundação Gulbenkian, de poderiam afectar os EE. UU. Por cau- como a propriedade do corpo, um
25 a 27 deste mês, inserido nas sa da necessidade de aumentar o igualitarismo demagógico abstracto, o
comemorações do seu 50ª aniversário, apoio financeiro aos países em vias de direito ao prazer sexual sem restri-
um Colóquio como talvez só a Gul- desenvolvimento...", em relação com ções, uma compaixão amoral das
benkian nos pudesse proporcionar, tratados comerciais com preços mais mulheres que abortam, uma compa-
cujo tema geral é: "Que valores para elevados para as suas exportações. ração parola com os países ditos mais
este tempo?". Na apresentação deste Em certa altura, o documento faz adiantados que já liberalizaram o
colóquio, um claro texto do saudoso referência ao custo do financiamento aborto, etc.
Fernando Gil, datado de 14 de do desenvolvimento económico e
Dezembro passado, diz-nos que (e calcula que seria muito mais "efecti- 11. Se algum dos meus leitores pensar
cito do programa da Conferência) vo" usar esse financiamento para fins que estou a ser injusto com as suas
"parece oportuno interrogar-nos sobre de controlo populacional.´ bem intencionadas concepções pes-
o que se pode chamar, sem exagero, soais, dir-lhe-ei que não pretendo
uma crise geral do sentido. Ela acha- 7. O estudo sugere que se tente con- ofender nenhuma concepção séria,
se declarada nas várias declinações verter as populações dos países em filosófica ou ética, em matéria de
da temática do "fim", (...) do fim do protagonistas dos planos de acção, sexualidade ou procriação. Pelo con-
sujeito (ou até do homem), da verda- assegurando-lhes o acesso às tecnolo- trário, estou disposto a dialogar res-
de (não só da "metafísica" mas das gias da contracepção. E assinala que peitosamente com todas. Coisa dife-
próprias ciências), da história ou da "conflitos que à primeira vista são rente é a propaganda simplista e
beleza. É significativo que estes ter- políticos, na realidade têm raízes repetitiva com que todos os dias nos
mos recubram os sistemas de valores demográficas"; e que "as acções revo- bombardeiam nos média. O que é
sobre os quais o Ocidente se cons- lucionárias e os golpes contra- necessário é levantar a suspeita das
truiu, a partir da herança grega e revolucionários terminam por expro- intenções das políticas de controlo
cristã. Platão designou-os por Verda- priar os interesses estrangeiros (...) e internacional da natalidade e da
deiro, Belo e Bem..." (fim de cita- não são bons nem para esses interes- população, que, por razões geoestra-
ção). ses nem para os países onde ocor- tégicas egoístas, manipulam as opi-
rem". niões e as mudanças legislativas. As
4. Hoje, trago aqui algumas notas Esta doutrina não foi inédita; foi sim tais que nos querem apresentar como
sobre a influente política internacio- um relançamento, mas desta vez com exemplo de avanço e de progresso -
nal maltusiana que, desde há uns decisiva eficácia, da velha ideologia atrasadinhos que nós somos...
anos, se desdobra num largo leque de da segurança demográfica. Professor Universitário
poderosas actuações e financiamen-
tos com vista a limitar a natalidade e 8. Direi que, de um ponto de vista de Só nos vêem a nós
a população. É esta política que, ética pessoal e social, penso que nada
procurando cumplicidades, organiza- haveria a criticar se apenas se tratas- João César das Neves
damente fornece estratégias e finan- se de apoiar uma respeitosa educa- DN, 5 de Abril de 1999

ciamentos que são evidentes em ção, e os meios que permitissem aos No dia seguinte a Cristo ter subido ao
movimentos e grupos ideológicos casais uma paternidade responsável. Céu, estavam alguns reunidos numa
activos nos vários países e em instân- Porém, a política de restrição mun- casa. Tomé, rindo baixinho, afirmou:
cias supranacionais. dial da população pretendida pelo "Isto da Igreja, que o Senhor disse
documento não se determina pelo para construirmos, não pode funcio-
5. Nos últimos anos da Administração desenvolvimento da responsabilidade nar!"
Nixon, primeiros anos setenta, foi pessoal e familiar; pretende sim, por Madalena, que estava perto, pergun-
elaborado um estudo do Departamen- razões de Estado, modificar os tou-lhe surpreendida: "Porque dizes
to de Estado que identificou o cres- padrões sexuais e reprodutivos das isso?" Ele respondeu: "Então não vês?
cimento da população mundial como pessoas e casais, diminuir o número Ele foi-se e nós ficámos. As pessoas
"um assunto da máxima importância» de famílias, reduzir a dimensão das vêm ter connosco à procura de Deus,
para os EE.UU", porque esse cresci- famílias, multiplicar o uso dos meios mas só nos vêem a nós. Ele podia ter
mento nos países em vias de desen- anticonceptivos e abortivos, dificultar ficado cá ou ter deixado, ao menos,
volvimento punha em perigo designa- a criação de filhos, aumentar a ocu- alguns anjos. Em vez disso, deixou-
damente o acesso aos minerais e a pação profissional das mulheres, em nos só a nós. Isto não pode mesmo
outras matérias primas indispensá- suma desligar a sexualidade da famí- funcionar." E Tomé deu outra garga-
veis, constituindo uma ameaça à lia e da procriação. lhada.
segurança económica e política. Qual Madalena perguntou-lhe: "Se achas
era a solução? O controlo da popula- 9. Esta política tem consciência de mesmo que não vai funcionar, porque
ção. Esse estudo deu origem a um que rompe com as estruturas morais e estás tão satisfeito?" Tomé riu de
célebre memorando de Kissinger, e éticas e não hesita em defender a novo e respondeu: "Eu não disse que
este, por sua vez, a um memorando ruptura das concepções de valores não vai funcionar. Disse que não pode
executivo da Administração america- tradicionais. Não porque tenha uma funcionar. Não vês que esta ideia de
na que lançou a política internacional concepção filosófica nova; mas por- nos deixar sozinhos é mesmo a prova
na corrida ao controlo da natalidade que só pretende, e a todo o custo, de que a Igreja só pode ser uma ideia
e da população. Assim, a bomba K efeitos demográficos. E como a pro- d'Ele?! É tão típico do Senhor querer
(política Kissinger) opunha-se à bom- criação tem que ver com os mecanis- mostrar-se através de nós, e não
ba P (aumento da população mun- mos da vida, essa política interesseira directamente. A Igreja não pode
dial). Estes documentos estiveram entra pelas questões das manipula- funcionar. Vai funcionar, porque não
reservados durante vários anos, mas ções genéticas, sob um pretexto de estamos cá só nós. Ele também cá
podem agora consultar-se livremente. "saúde reprodutiva". está, como disse. Mas a Ele ninguém o
vê. A não ser através de nós."
6. Muitas das afirmações do referido 10. A política maltusiana tem um "Tens razão!", disse Madalena. "Só o
estudo são verdadeiras prédicas mal- aliado natural: a mentalidade irracio- Senhor se lembraria de fazer o seu
tusianas. Prevê-se, por exemplo, que nalista do hedonismo e do consumis- reino através de nós. Quantas pessoas
as necessidades das populações dos mo grosseiros. É como faca quente andarão à procura de Deus e deseja-

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 17 de Abril de 2008
rão vir até Ele, mas recusarão a Igre- tou:
ja, porque só nos vêem a nós. Nós "Achas mesmo possível isso? Mas o
não somos Deus. Haverá muitos que Senhor foi tão claro quando disse que
acreditarão em Cristo, mas não acre- teríamos de "nascer de novo" e ter
ditaram na sua Igreja, por ser feita de uma "vida nova". Achas mesmo possí-
homens. E não perceberão que nós vel que alguém pertença à Igreja
nunca quereríamos que as coisas apenas para viver melhor a vida anti-
fossem assim. Foi Ele que quis. Tenho ga?! Como poderão eles entender
tanta pena deles, porque os com- estas palavras do Senhor?"
preendo bem. Percebo que não gos- João sorriu tristemente e respondeu:
tem de mim ou de ti. Mas eles esque- "Muitos dirão que a "vida nova" é uma
cem que, na Igreja, não sou eu ou tu metáfora do Senhor para significar
que contamos, mas o Senhor. Só apenas a bondade, a ajuda aos pobres
quem ama muito o Senhor pode com- e a mudança social. Pensarão que
preender a Igreja, porque a Igreja é viver com Cristo é só para depois de
Ele." morto e dedicar-se-ão a tratar bem
Tomé continuou: "Por isso nos hão-de das coisas daqui. Não percebem que
desprezar e perseguir. Haverá os que isso é, não a vida nova, mas um dos
nos desprezarão por sermos poéticos sinais da vida nova que temos no
e idealistas, como João, e os que nos Senhor. É o sinal mais visível e impor-
atacarão por sermos pragmáticos e tante, mas que nada significa se não
eficientes, como Mateus. Hão-de nascermos de novo, todos os dias, em
criticar-nos por sermos expansivos Cristo. Muitas das lutas de que Maria
como Filipe, ou sérios como Bartolo- Madalena falou virão disto. Este foi o
meu, por sermos rígidos como Tiago pecado que O matou." "Tens razão",
ou tolerantes como Pedro, envolvidos respondeu Bartolomeu. "Esse foi o
na política, como Simão, ou desinte- pior pecado de Judas Iscariotes: pen-
ressados do mundo, como André. sar que o Senhor vinha só implantar a
Alguns perseguirão a Igreja por ser justiça no mundo, melhorar a socie-
pobre e viver com os pobres, outros dade e ajudar os pobres. E se Judas,
acusar-nos-ão por alguns de nós ser- que falou tantas vezes com o Senhor
mos ricos, como José de Arimateia, e viveu tanto tempo connosco, come-
ou poderosos, como Nicodemos. Hão- teu esse pecado, muitos outros hão-
de censurar-nos por não sabermos de fazê-lo também." Bartolomeu
usar bem o dinheiro para ajudar os baixou a cabeça e ficou silencioso.
pobres e, pelo contrário, hão-de Madalena disse: "Haverá os que medi-
censurar-nos por o administrarmos rão o sucesso da Igreja em números,
com excessivo cuidado. E em tantas porque ela também terá desse suces-
dessas críticas haverá verdade, por- so. Mas esse não interessa. Como não
que o que se vê da Igreja somos só se mede a luz pelo número de lâmpa-
nós. Alguns até nos perseguirão em das, porque o que conta é o Sol."
nome do Altíssimo. Lembra-te do que Nesse momento entrou Pedro. Trazia
o Senhor disse: "Virá a hora em que um saco com algum peixe, pão e
qualquer um que vos tirar a vida vinho para a refeição. Madalena e
julgará estar a prestar um serviço a Tomé levantaram-se para o ajudar e
Deus" (Jo 16,2)." "E não te esqueças ela explicou-lhe do que falavam.
daqueles que, justamente, nos vão Pedro, rindo, perguntou se isso não
condenar pelas lutas e injustiças era mais uma das subtilezas de Tomé,
entre nós", disse Madalena. "Se tive- que ele nunca percebia.
mos discórdias enquanto o Senhor cá Tomé respondeu: "Eu tenho uma
estava, como daquela vez em que confiança ilimitada no Senhor. As
queriam saber quem era o maior, minhas dúvidas vêm só da minha falta
haverá certamente muitas discussões de confiança nas nossas forças e na
e lutas no futuro. Somos humanos, nossa capacidade de o seguir."
iguais aos outros. A única diferença é Madalena perguntou a Pedro: "Mas tu
que trazemos nas nossas mãos indig- tens confiança nas nossas capacida-
nas um tesouro inimaginável. Ele des, não tens Pedro?" Nesse momento
deixou-nos o tesouro, mas não nos ouviu-se um galo.
deixou nem guardas nem o cofre. Pedro sorriu, sentou-se à mesa e
Além do tesouro, só cá estamos nós." disse, calmamente:
João, que tinha seguido a conversa Não tenho nem um bocadinho de
calado, interveio para dizer: "Estamos confiança nas nossas forças. Nisso,
como a Mãe do Senhor, Maria, grávida tenho ainda mais dúvidas que Tomé.
naquela pequena casa perdida da O que eu tenho é tanta confiança no
Galileia." Senhor que acho que ele consegue
Fez-se um silêncio. fazer a sua Igreja mesmo que com a
Foi João quem voltou a falar: "Os que nossa total incapacidade de O com-
mais lamento são os muitos que irão preender e de O seguir."
pensar que a Igreja é apenas uma João César das Neves escreve às segundas-
atitude e regras de moral, de amor ao feiras
próximo e ajuda aos pobres. Muitos
dos que se irão juntar a nós, alguns
muito bem-intencionados, serão des-
ses."
Bartolomeu deu um salto e pergun-

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