Você está na página 1de 12

IPL – Instituto Politécnico de Leiria

Escola Superior de Educação de Leiria

VIDA e MORTE
Do semanário O CORREIO!

Eduardo Lino

Leiria, Janeiro 2009


VIDA e MORTE
Do semanário O CORREIO!

Autoria: Eduardo Lino


Orientação: Professor Paulo Agostinho

Leiria, Janeiro 2009


Índice

Introdução ….………………………………………….……….. 4

Capitulo um: Compreender o Presente, Construir o Futuro …..….. 4

Capitulo dois: Um Jornal do Povo ……….………………..………. 5

Capitulo três: Jornalismo de Compromisso ..……..………………. 7

Capitulo quatro: Crónica de Uma Morte Anunciada ...………………. 7

Conclusão …….………………………………………………... 9

Bibliografia …….………………………………………………... 9

Webgrafia …….………………………………………………... 9
Introdução
O período pós 25 de Abril de 1974, foi de explosão cultural. As pessoas lançaram-
se em projectos que estiveram proibidos durante meio século. Música, teatro, escrita,
televisão e imprensa desenvolveram-se e expandiram-se a um ritmo alucinante.
Também na Marinha Grande, ou especialmente na Marinha Grande, terra
amordaçada pelo regime fascista, era preciso um jornal que o povo sentisse como seu e
com ele se identificasse em cada notícia.
Nascia O CORREIO, a 22 de Abril de 1977. Nascia para expressar a ânsia de
Liberdade de todos os democratas e anti-fascistas, semanalmente à sexta-feira.
Através de investigação, consulta e entrevistas, tentamos compreender o contexto
em que apareceu nas bancas o semanário O CORREIO, os seus impulsionadores, como se
enquadrava na sociedade e como definhou até à extinção, em 11 de Janeiro de 2002.

Capitulo um
Compreender o Presente, Construir o Futuro

Aprender. Ler. Escrever. Dar voz ao pensamento e ao que vai na alma. Nasceu a
Liberdade, cantaram. Oferece-se como presente pelo terceiro aniversário do novo Dia de
Portugal, um jornal. Sob direcção de João de Almeida Fernandes, é publicado em 22 de
Abril de 1977 na Marinha Grande, o numero um do semanário O CORREIO. Projecto
privado de José Vareda1, porque: “Sente-se, de há muito, a carência de um jornal que
reflicta a vida do Povo do nosso Concelho, com as suas aspirações, os seus protestos, as
suas fraquezas e os seus heroísmos. Um jornal que aponte as deficiências, indique
soluções e registe as modificações que se vão operando nesta região e até no país.”
(editorial).
Começava a respirar-se mais pausadamente, naquela altura em que nascia a
democracia, após a revolução do 25 de Abril de 1974 e dos episódios contra-
revolucionários de Março e Novembro de 1975. A publicação da Constituição e as eleições

1
(1927-1989) Licenciado em direito, defendeu sem reservas os presos políticos do regime de Salazar.
Dinamizador associativo, autarca, fundou 2 jornais locais na Marinha Grande e Leiria. (Vide anexo III).
4
livres que elegeram o novo Presidente da República e o primeiro governo constitucional
em 1976, fizeram com que a população passasse, por inteiro, a dispor dos mesmos direitos.
Homens e Mulheres podiam eleger e ser eleitos podendo desempenhar as mesmas funções.
Tal como nos avvizzi2, José Vareda viu no CORREIO, um veículo para informar os
cidadãos de forma directa, tal como a publicação na primeira edição, da redacção dos
artigos 73 a 79 da constituição, sobre os Direitos e Deveres Culturais. Cultura! Uma paixão
que lhe ficou gravada pela ligação ao Sport Operário Marinhense, colectividade
responsável pela literacia de uma geração inteira de marinhenses, através da sua completa e
incómoda (alvo da PIDE3) biblioteca e com a promoção de cursos de língua estrangeira
que permitiram aos futuros empresários, transformar a Marinha Grande no importante pólo
industrial que é hoje.

Capitulo dois
Um Jornal do Povo

Orminda Dengucho4 recorda com muita saudade os primeiros tempos do


crescimento de O CORREIO. A época que se vivia, envolvia toda a equipa redactorial com
o espírito da prestação de um serviço voluntário não só ao jornal, mas a toda a
comunidade. O editorial de apresentação, concluía assim: “Todos nós desejamos bom
futuro aos nossos filhos. Não admira, pois, que os que fundaram este pequeno jornal, se
sintam esperançados em largos cometimentos, como aqueles que acabamos de exprimir.
Mas essa nossa esperança tem alguma razão de ser. Na verdade, não é apenas a
expressão da nossa vontade. Estriba-se no esforço colectivo de grupos democráticos e
antifascistas, que ontem lutaram e hoje querem conservar as liberdades alcançadas. São
homens e mulheres de feição diversa, ligados por esse mesmo desejo. E se nem todos estão
ainda connosco, a chegada de O CORREIO será o nosso apelo para que a nós se juntem.
E todos, juntos, confiantes como nas horas mais duras e sombrias do fascismo, haveremos
de continuar O CORREIO, levando-o mais longe, melhorando-o, fazendo dele aquilo que

2
Panfletos informativos da baixa idade média, vendidos aos mercadores.
3
Policia Internacional e de Defesa do Estado (1945-1969).
4
Licenciada em Línguas, Professora, colaboradora de O CORREIO desde a fase inicial.
5
os fundadores pretendem: um jornal do Povo, ao serviço do Povo e do País. Um jornal de
todos nós, e que cada um sinta seu.”
O dia da reunião preparatória da edição, era visto como muito especial. Todos
levavam várias propostas de material e temáticas a desenvolver, em que se passava um
“bocado” agradável de debate e discussão. Fazia-se um tipo de jornalismo muito virado
para os interesses do povo da Marinha Grande, que com o seu desaparecimento, criou um
vazio muito grande. Sendo uma publicação que defendia os ideais de esquerda, nunca os
seus colaboradores sentiram as conotações que lhe quiseram atribuir, de ligação ao Partido
Comunista ou de actuação com fins políticos. O objectivo passava por falar verdade e
levantar os aspectos que deviam ser levantados, independentemente dos poderes locais ou
nacionais. O espírito em que funcionava era o de equipa, sempre com discussão interna
plural, sem hierarquia e criticando o trabalho uns dos outros. Era importante levar a
informação e a educação às pessoas, papel desempenhado no passado pelas bibliotecas de
colectividade.
Outro grande marco que fica na história de O CORREIO, o dia da dobragem. Uma
dezena de reformados, também voluntários, reunia-se para dobrar e montar o jornal para
distribuição, a troco da alegria de poderem participar em cada edição, que lhes fazia sentir
o jornal como seu, como o jornal do Povo. A edição era essencialmente escrita à mão, pois
não existiam computadores e as máquinas de escrever não abundavam. A paginação e a
montagem de textos eram feitas pelos colaboradores que se deslocavam às instalações da
gráfica, em Rio Maior, e pela madrugada fora, concluíam o trabalho para ser impresso.
Durante a primeira década, O CORREIO, apenas teve uma funcionária
administrativa a tempo inteiro, e todos os outros colaboradores como voluntários. O
suporte financeiro, quando necessário, provinha do bolso de José Vareda.

6
Capitulo três
Jornalismo de Compromisso

O CORREIO nasce para ocupar o espaço deixado em branco pela outra publicação
marinhense, o Jornal da Marinha. Alice Marques5, entende o jornalismo como um
compromisso e uma função social. Por isso, não teve dificuldade em dar os primeiros
passos sérios nesta área, integrando a equipa de O CORREIO, pois a linha editorial
politicamente de esquerda, era assumida e bem clara. Só após a experiência no CORREIO,
decidiu tirar a licenciatura em jornalismo, para se sentir mais à vontade no exercício e para
poder ajudar os outros que lhe pedissem auxilio. Foi um jornal que funcionou como uma
escola de amadores, porque ninguém da redacção vivia desse trabalho.
O CORREIO continua a ter o seu espaço na sociedade, porque fazia sentido e faz
falta. Apresentava conteúdo rico, que respondia aos anseios dos leitores, a par de um
grafismo apelativo, bem estruturado. As crónicas e a investigação estavam presentes em
todas as edições, reafirmando o carácter cultural do jornal, no seu papel de docente social.
Para evitar a falsa pluralidade, os emissores de opinião terão de colaborar apenas
com uma publicação. O monopólio informativo é contraproducente à livre construção de
opinião. O público deve ter no mínimo, duas opções de escolha e de análise.

Capitulo quatro
Crónica de uma morte anunciada

Pela sua linha editorial, foi um jornal que criou mística na Marinha Grande. Para os
activistas de esquerda, comprar O CORREIO era quase como militância, embora fosse lido
e procurado por toda a comunidade, terminando com uma tiragem de 5000 exemplares.
Após o falecimento de José Vareda em 1989, doze anos após a fundação do semanário, a
equipa tomou as rédeas e O CORREIO continuou a ser publicado. Nesta altura, o controlo
editorial do jornal passa a ser assumido por dirigentes do Partido Socialista, como Osvaldo
5
Licenciada em História e em Jornalismo, Professora, colaboradora no CORREIO e Jornal da Marinha.
7
Castro6, que começam a determinar orientações claramente definidas com objectivos
políticos, tendo em vista as eleições autárquicas de 1993. Esta mudança estratégica, levou
ao desmembramento de uma equipa que até aí se tinha mostrado unida e coesa. O gradual
auto afastamento das pessoas, forçou a direcção a enveredar pela profissionalização da
redacção. Tal facto, num jornal local de pequena dimensão como era O CORREIO,
resultou na falência económica do projecto, que ao fim de seis anos, um terço da vida da
publicação, foi vendido ao grupo Sojormédia SGPS7.
Começava então a etapa do último suspiro. O jornal O CORREIO estruturou-se e
organizou-se de forma profissional. Mudou de instalações, para um espaço no centro
histórico da cidade, criou áreas de serviço independentes, secretaria, redacção, comercial e
direcção. Alterou o logótipo e tentou relançar um jornal que tinha perdido credibilidade,
mercado de venda e 40% dos assinantes.
É nesta altura, que entra para os quadros de O CORREIO a meio tempo, António
José Ferreira8, que recorda a importância desta “escola”. Regista a evolução de algumas
pessoas ligadas ao jornal, como Helena Silva, actual jornalista do Jornal de Noticias,
Fernando Mendes, líder de uma editora, Rui Rodrigues, conceituado advogado, Alice
Marques, coordenadora do RVCC9 na Marinha Grande e Orlando Jóia, jornalista e director
de informação da Rádio Liz. Abordou também a forma curiosa da evolução de O
CORREIO. Aparece conotado com o Partido Comunista, passa a ser identificado como voz
do Partido Socialista e termina ligado a um grupo multimédia. Acaba, porque não era
viável economicamente e já não tinhas mecenas que injectassem capital. A Marinha
Grande, apesar de desenvolvida industrialmente, não tem uma forte classe média e o
comércio não apresenta grande dinâmica. Logo, como as empresas não publicitam os
produtos que se destinam à exportação, existindo na teoria, espaço para dois jornais locais,
na prática, um dos dois projectos não será viável economicamente por falta de leitores e
anunciantes. Ter dois jornais na Marinha, será como ter 10 canais de TV generalista em
Portugal, difundidos em sinal aberto.

6
Licenciado em Direito, Deputado do PS na Assembleia da República, ex-Secretário de Estado de António
Guterres, Deputado na Assembleia Municipal da Marinha Grande, da qual já foi Presidente.
7
Publicações do grupo Lena, detentor do Região de Leiria, O Eco, Imparcial, Gazeta da Nazaré e O Aveiro.
8
Tózé Ferreira, Jornalista de O CORREIO, actual Director do Jornal da Marinha e da RCM96.
9
Programa de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências.
8
O CORREIO, membro de um grupo poderosíssimo, perdeu a batalha contra um
jornal autónomo. O Jornal da Marinha era e é o jornal de referência no concelho
marinhense, por ter mais de 40 anos de vida, sendo actualmente publicado com uma edição
de apenas três profissionais, que o torna auto sustentável e lucrativo.
A Sojormédia, sem coragem para assumir claramente o fiasco de mau investimento,
iludiu os leitores de O CORREIO com a falsa promessa da continuidade do projecto, como
parte integrante do Região de Leiria10, ex-líbris do grupo Lena, e actualização permanente
e autónoma na internet, o que nunca aconteceu.
Aos 25 anos, O CORREIO, fechou! Deixa saudade, angústia, esperança e uma
lágrima no canto do olho…

Conclusão
O CORREIO nasceu para dar voz à Liberdade, mas foi a Liberdade que o matou.
Um projecto pessoal tornou-se em realidade social. Criou identidade. Mas a voz do
dinheiro, fruto do neoliberalismo económico liderado por grupos que apenas visam o lucro,
falou mais alto, e calou O CORREIO!

Bibliografia

Jornal O CORREIO, nº 1 Abril 1977 e nº 1242 Janeiro 2002

Webgrafia
http://www.parlamento.pt – Assembleia da República, consultado em 7 de Janeiro 2009
http://saber.sapo.pt – Enciclopédia on-line, consultado em 7 de Janeiro 2009
http://planeta.ip.pt – Informação on-line, consultado em 3 de Janeiro 2009

10
Vide anexo II
9
IPL – Instituto Politécnico de Leiria
Escola Superior de Educação de Leiria

ANEXOS

Eduardo Lino

Leiria, Janeiro 2009


Índice

Anexo I O CORREIO nº1 de 22 de Abril 1977

Anexo II O CORREIO nº1242 de 11 de Janeiro 2002

Anexo III José Henriques Vareda