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A Fidelidade à tradição e inovação do espectáculo teatral: Moliére e Racine abrem alas à modernidade.

A dramaturgia francesa do século XVII foi buscar ao ideal clássico da tragédia e da

comédia aristotélicas levando para as tábuas do palco mais uma vez a imitação (mímesis) da penosa realidade da vida e das acções humanas. As peças aqui tratadas, quer seja no carácter trágico da Berenice (1671) de Racine ou na índole cómica dA crítica à escola de mulheres, (1663) de Molière, ambas entoam diferentes vozes sociais que se insurgem contra alguns aspectos polémicos como os valores morais, normas sociais e métodos teológicos que inquietam o homem moderno do século XVII. Desde logo, no drama raciniano aprofundado na moralidade predomina o temor e a piedade embora representados de uma forma simples para melhor instalar a nova realidade da vida, que Racine transforma a partir dos elementos antigos em novas impressões e modos de agitar os sentimentos dos homens. No entanto, também, Molière que não nascera para o trágico, trata os problemas sérios de uma forma cómica e acaba por criar uma comédia de costumes ou de personagem para corrigir os vícios de seu tempo. Porquanto, é na época em que Luís XIV (1638-1715) se torna um mecena ímpar das artes, utilizando todos os meios artísticos como instrumentos políticos, financiando em particular Molière e Racine que estes dignificam a nação francesa e transformam a opinião

pública. Este ensaio resulta de uma reflexão sobre a tragédia e a comédia a partir de textos 1 , que, apesar da sua evolução circunstancial, conservam no fundo o mesmo escopo transformador e catalisador da condição humana. Numa primeira fase será tratada a questão da veracidade na tradição aristotélica, na segunda fase serão abordados os agentes catalisadores da tragédia desenvolvidos por Racine na peça intitulada Berenice e os da comédia de Molière com A Crítica à escola de Mulheres e na última fase destaque será dado à inovação da arte cénica destes génios da cena dramática seiscentista francesa.

A imitação (mímesis) para Aristóteles é algo de instintivo ao homem. Assim sendo,

este se expressa artisticamente reproduzindo a realidade que o cerca, ou seja, “imitando” essa realidade através de um processo de representação. Posto que a arte é imitação (mímesis) da realidade “[…] As leis da obra de arte serão, portanto, além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística, íntimo sentimento do conteúdo, evidência e vivacidade de expressão. A arte é, pois, produção mediante a imitação; e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objecto ou

1 Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht (com Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer), Lisboa 1982: pp.117-129.

2 Conforme artigo sobre

1997-211. Disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm . 3 in Estétique Teatrale de Jacques Scherer & Outros. Paris. Cedes, 1982 p.22 e ss.

Aristóteles. Mundo dos Filósofos. Elaborado e Idealizado por Rosana Madjarof Mantido por Carlos Duarte,

no instrumento de tal imitação.2 . Com isso a mímesis ganhou também o estatuto de imitação de escritores canónicos, cujos géneros, linguagem e estilo foram mimetizados por muitos artistas. Essa forma de mímesis está largamente presente na produção poética e teatral a partir da Renascença. Quanto à estrutura da cena dramática, sabemos que a estética clássica exigia uma unidade de tom, cómico ou trágico, imposta conforme o género, uma unidade de acção, de tempo e de lugar, uma bienséance e moderação pela verossimilhança. Enquanto que Racine (1639-1699) é o grande mestre do género trágico na França que leva à perfeição a regra das três unidades (ação, tempo e lugar) inspirado no teatro antigo ele retira a ideia dos valores universais de modo que o drama de sua Berenice é também o drama da humanidade. Porém, em relação à divergência das fontes-histórico-literárias, a peça de Racine, objecto central deste estudo comparativo, organiza-se no universo da incerteza inspirada na tradição de Suetónio, priviligiando uma transcendência sobre as personagens cuja recíproca influência e dramática existência inspiram a compaixão de todos. Nesta versão Berenice toma a dianteira voz de demarcação inovadora entre vários apectos, no primado da verossimilhança, ainda no despojamento da acção trágica até ao ponto da tragédia poder ser recusada como tal à vista daqueles que teorizam com um final feliz. A sua versão de Berenice apaixonará tanto mais na vibração melódica das frases muito breves ou muito longas do verso fragmentado numa métrica prosaicamente tratada, auxiliada sugestivamente por um léxico inesperado de tão simples, e a poesia aproximando a conversação e vice-versa, tal como uma conversa de espectador na emoção. Racine mergulha o personagem do imperador nas lágrimas ambíguas e raras, que a bienséance mal consente, liberta a tragédia de uma apriorística acção moral aprofundando-se numa moralidade que pode bem constituir uma insuspeitada interpretação activa aos moralistas do seu tempo. O modo epocal seiscentista de dizer o texto na esfera raciniana é muito particular, pois o dramaturgo trabalha os próprios limites do verso que transgride, para se tonificar no ritmo e na mais pura expressividade. O mundo que o dramaturgo recria na livre convenção em que se fundem o alexandrino e a naturalidade de uma conversa entre amantes descobre nos limites da regra que infringe para melhor a envolver. Molière, pseudónimo de Jean Baptiste Poquelin (1622-1673) é o dramaturgo e actor considerado expoente máximo da comédia francesa, inspirado de início na comédia dell’arte e em Terêncio, criou a comédia de costumes e de personagens. No âmbito da problemática que nos ocupa, o autor não se defende no prefácio da obra criticada ou na obra seguinte como é habitual, mas decide em sua defesa responder à polémica suscitada com a apresentação da sua

1 Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht (com Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer), Lisboa 1982: pp.117-129.

2 Conforme artigo sobre

1997-211. Disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm . 3 in Estétique Teatrale de Jacques Scherer & Outros. Paris. Cedes, 1982 p.22 e ss.

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comédia A Escola de mulheres (1662) com uma única peça cómica estruturada em sete cenas em prosa com o título A crítica à escola de mulheres (1663) a partir da qual o mundo do teatro não seria mais o mesmo. Uma certeza paira no espírito de Molière o desejo de rivalizar e de superar algumas regras clássicas sem que isso afecte a sua criatividade, ou o tratamento de assuntos diversos, ou a prática dos estilos, ou ainda os tipos de comédias que no seu jeito divertido de abrir as gavetas das realidades sociais tem como principal intenção a de agradar. No primado das teorias da arte dramática e de sua estética teatral Molière dava a réplica aos defensores das práticas canónicas do teatro através do personagem de Dorante Quando se pintam heróis, faz-se o que se quer. São retratos a capricho, em que não se obriga à parecença (…). Quando, porém, se tem de pintar o homem, é preciso pintá-lo segundo ele é. É indispensável que o retrato se assemelhe; e se do pincel não sai cousa que faça logo reconhecer a gente do nosso século, o autor nada fez.», Molière, 1928:171. As comédias de Molière constituem uma exposição da hipocrisia da sociedade francesa da época, o que o tornou alvo de muitas críticas por reprovar os costumes da sociedade do seu tempo em magna diversão. À guisa de conclusão, podemos perceber que nas obras aqui tratadas os autores não só imitaram como superaram as particularidades dos antigos recriando e inovando o sistema dramático teatral que, segundo a Poética (capítulo IV) de Aristóteles, tanto a comédia resultava dos fálicos entoados em honra do deus Dionísio como a tragédia representada por actores provocava a catarsis ou purificação das paixões por parte dos espectadores. Constata- se que mais do que a básica fonte comum de todo o dramaturgo, espectáculo humano no que ele tenha de específico de um espaço e de um momento, mas igualmente na sua intemporalidade, o comparatismo promove, hoje um entendimento da criação literária que permite diálogos entre autores antigos e modernos e mesmo se algumas das suas tentações graves ou veniais nos precipitam para paralelismos enganosos, o olhar liberta-nos de reducionismos, ensinando-nos no fundo o exemplo do cosmopolitismo intelectual e da universidade do teatro que Bharata lembrou: “a imitação do mundo é uma regra de teatro” 3 .

1 Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht (com Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer), Lisboa 1982: pp.117-129.

2 Conforme artigo sobre

1997-211. Disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm . 3 in Estétique Teatrale de Jacques Scherer & Outros. Paris. Cedes, 1982 p.22 e ss.

Aristóteles. Mundo dos Filósofos. Elaborado e Idealizado por Rosana Madjarof Mantido por Carlos Duarte,

Referências bibliográficas:

Borie, Monique; Rougemont, Martine de; Scherer, Jacques. Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht. Tradução de Helena Barbas. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1996;

Molière (1928) Escola das mulheres. Crítica da ‘Escola das mulheres. Tradutor: Guedes de Oliveira. Porto : Lello & Irmão, 1928:171.

Webgrafia:

Marinho, Cristina. O alexandrino enquanto grito: Bérénice de Racine. Universidade do Porto. Editora Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto.2008 Disponível em:

Tavares, Margarida. Sobre o Natural e o Actor. Aulas Abertas. Disponível em:

18/05/2013;

Vieira, Paulo. O Laboratório das incertezas.Ensaios sobre o Teatro. João Pessoa: Editora Universitária, UFPB. Paraíba, Brasil, 2011. Disponível em:

18/05/2013.

1 Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht (com Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer), Lisboa 1982: pp.117-129.

2 Conforme artigo sobre

1997-211. Disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/aristoteles.htm . 3 in Estétique Teatrale de Jacques Scherer & Outros. Paris. Cedes, 1982 p.22 e ss.

Aristóteles. Mundo dos Filósofos. Elaborado e Idealizado por Rosana Madjarof Mantido por Carlos Duarte,