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C UR SO DE D IRE ITO

DISCIPLINA: Responsabilidade Civil


2009.1

Un ida de 3. Ne xo Cau sal . Teor ia s: eq ui valên ci a do s an tec ed en tes caus ai s e da cau sa li dad e
ad eq ua da. A te ori a acolh ida pe lo no ss o Dire it o Ci vil. Ca us al ida de da omis sã o. Con cau sa.
Exclu sã o do ne xo cau sa l: fato ex clu si vo da vít ima ; fat o exclu si vo de ter ce ir o; cas o fortu it o e
for ça m aio r.

1 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS:
Já tivemos a oportunidade de verificar que a responsabilidade civil se compõe de três
elementos (art.186, NCC), quais sejam: conduta culposa; nexo causal e dano, os quais, conjugados,
ensejam o dever de indenizar (art.927, NCC).
O nexo causal é a relação de causa e efeito entre a conduta do agente e o dano.
Trata-se de um pressuposto essencial da responsabilidade, na medida em que não se pode
impor o pagamento da verba indenizatória a determinada pessoa que não tenha causado o dano que se
pretende seja ressarcido.
Assim, é fundamental que o dano tenha decorrido da conduta do agente.
Tal análise seria simples se existisse apenas uma causa para cada evento danoso. Porém,
ocorre que, em muitas hipóteses, verificam-se diversos fatores sucessivos ou concomitantes que
concorrem para o surgimento do dano, dificultando sobremaneira a identificação do responsável. A esse
fenômeno dá-se o nome de concausa.
Impõe-se, neste caso, determinar um critério capaz de identificar quem deverá efetivamente
responder pelo dano.
Assim, algumas teorias foram desenvolvidas para solucionar o problema, das quais destacamos
três: teoria da causa próxima; teoria da equivalência das causas e a teoria da causalidade adequada.
É importante observar que para resolver o problema da aparente existência de várias
condições, uma teoria não necessariamente afastará de forma radical a outra, ou seja, é possível usar
elementos lógicos das diversas teorias.

2 – CONCEITO

Nexo causal é vínculo, liame, ligação de causa e efeito entre a conduta praticada por um
determinado agente e o dano por ele causado a outrem. De tal sorte que, se não houver este liame,
afasta-se a responsabilidade, porque não se violou dever jurídico.
A rigor a questão do nexo causal é naturalista (se verifica naturalmente na vida de relação),
relação natural que existe entre duas coisas, não dependendo de valoração pelo magistrado.

CONDIÇÃO: é a conduta que desencadeará o nexo causal.

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CAUSA: É A CONDIÇÃO SEM A QUAL O RESULTADO NÃO TERIA OCORRIDO.

1) TEORIA DA CAUSA PRÓXIMA

Por esta teoria atribui-se a responsabilidade ao autor do último evento causador do dano, deixando
de lado as causas mais remotas. Assim, como regra, apurar-se-ia qual o último evento que contribuiu
para o dano, atribuindo ao seu autor a responsabilidade pela reparação.
Objeto de muitas críticas, esta teoria é pouco adotada. Pondera-se que o fato de o evento ter sido o
derradeiro a contribuir para o dano, não implica necessariamente dizer que tenha sido o principal.

2) TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DAS CONDIÇÕES (OU DA CONDITIO SINE QUA NON)

Teoria concebida por Von Buri, em meados do séc.XIX, considera-se que todas as causas que
contribuíram para o evento têm a mesma importância.
Nesta lógica, a responsabilidade deve ser repartida pelos causadores de cada uma dessas causas.
Esta teoria generaliza as condições, logo, se várias condições concorrem para o mesmo resultado,
todas têm o mesmo valor, a mesma relevância, todas se equivalem; não se indaga se uma delas foi
mais ou menos adequada.
Já atenuada, é usada no Dto Penal. Havendo várias condições concorrendo para o mesmo resultado,
todas se equivalem. Aqui não se faz diferença entre a causa mais eficiente ou mais adequada.
Para se saber se uma determinada condição é causa, elimina-se mentalmente essa condição, por
meio de um processo hipotético: se o resultado desaparecer, a condição é causa, mas se persistir, não o
será.
A dificuldade de aplicação encontra-se no fato de que os fatores que contribuem para um dano
podem ser incontáveis, o que implicaria um número indeterminado de responsáveis.

2) TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA

Concebida por Von Bar e aperfeiçoada pelo filósofo alemão von Kries (final do séc. XIX), é a teoria
mais aceita pela doutrina e pela jurisprudência, bem como a mais acolhida pelos sistemas jurídicos.
Esta teoria individualiza ou qualifica as condições. Causa para ela é o antecedente não só
necessário, mas, também, adequado à produção do resultado.
Nesta se faz diferença entre as causas: as de menor relevância serão descartadas e, só será
Assim, nem todas as condições serão causa, e sim, apenas aquela que for a mais apropriada a
produzir o evento, ou seja, a mais idônea para gerar o evento danoso.

Releva advertir que nenhuma teoria oferece soluções prontas e acabadas para todos os problemas
envolvendo nexo causal. Como teorias, dão apenas o roteiro mental a seguir. Logo, o julgador deve levar
em conta também os princípios da probabilidade, da razoabilidade, do bom senso e da equidade.

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O mais importante é tentar se valer de todas as teorias para que se possa chegar a uma solução
razoável, que permita a realização da justiça.
Em outras palavras, o nexo causal terá que ser examinado e determinado caso a caso, com base nas
provas produzidas.
Não há no NCC, nem no CC1916, nenhuma regra expressa sobre nexo causal, ao contrário do CP,
cujo art. 13 disciplina a matéria.
Assim, em face da omissão do legislador, teremos que continuar seguindo os rumos já traçados pela
doutrina e pela jurisprudência.
Com base no art.403 do NCC (antigo 1.060 do CC 1916), os nossos melhores autores, a começar
por Aguiar Dias, sustentam que a teoria da causa adequada prevalece na esfera civil, in verbis:

“Ainda que a inexecução resulte do dolo do devedor, as perdas e


danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por
ef eit o dela di reito e imedia to ”.

Esta última expressão “por efeito dela direto e imediato” não indica apenas a causa
cronologicamente mais ligada ao evento, mais próxima no tempo, porém aquela que foi a mais
direta, a mais determinante, segundo o curso natural das coisas e as regras da experiência
comum da vida.
Verificar se o dano foi conseqüência direta e imediata da inexecução. Vale dizer, verificar se a condição
tinha potencialidade de produzir o resultado.

= EXCLUSÃO DO NEXO CAUSAL =

São as excludentes de responsabildiade. Isenção de responsabilidade. Ninguém pode responder por


um resultado a que não tenha dado causa.

• FATO EXCLUSIVO DA VÍTIMA: o agente, aparente causador direto do dano, é mero instrumento
do acidente.
Ex. B atira-se sobre as rodas do veículo dirigido por A, visando o suicídio. O veículo atropelador a
toda evidência foi simples instrumento do ataque. A conduta da vítima foi a determinante do evento.
• FATO EXCLUSIVO DE TERCEIRO: terceiro é qq pessoa além da vítima ou responsável, que dá
causa ao dano, afastando o nexo causal.
O nosso CC1916 falava em duas, que hoje (art.393) corresponde a uma: coso fortuito e força maior.
Mas ainda há quem faça distinção entre tais institutos (SCF):
• Caso fortuito = é o imprevisível. O que não se pode prever não se pode evitar.
• Força maior = inevitabilidade. Não pode ser evitado, ainda que previsto.
− RESOLUÇÃO DOS CASOS CONCRETOS

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= OBSERVAÇÕES RELEVANTES QUANTO AO TEMA NEXO CAUSAL =

De acordo com a teoria da causalidade adequada adotada em tema de responsabilidade


no âmbito civil, causa é a ação ou omissão mais adequada (=necessária, a mais apropriada, a
mais direta, a mais determinante, a decisiva) a produzir o evento.
Obs.) Sérgio Cavalieri afirma que esta teoria tem como expressão sinônima: teoria da
causa direta ou imediata (art.403, CC/ TJRJ e STJ). Já Pablo Stolze afirma que se tratam de
temas distintos, esta seria a teoria da interrupção do nexo causal.
Para que se consiga verificá-la é necessário:
• que a causa tenha sido não só em concreto, mas tb em abstrato, a conduta determinante para
a ocorrência do dano (ex. alguém retém ilicitamente outra pessoa, q não consegue pegar certo
avião, e teve, que, afinal, pegar outro, q caiu e provocou a morte de todos. A conduta do
agente em abstrato não era adequada a produzir tal efeito, embora possa se dizer q o fato não
se teria realizado não fosse o ato ilícito. Esta análise abstrata deve ser feita segundo juízo de
probabilidade, segundo o curso normal das coisas e a experiência comum da vida. Em
abstrato tb deve ser efetiva à produção do resultado) ;
• essa verificação em abstrato exige a análise do curso normal das coisas e a experiência
comum da vida;
• deverá o julgador, voltando ao momento da conduta, colocar-se no lugar do agente e, com
base nos conhecimentos das leis da Natureza, da experiência comum, verificar a eficácia da
cada causa, até encontrar a que se seja determinante na causação do evento danoso;
• A pergunta que se deve fazer é a seguinte: “a ação ou omissão do presumivelmente
responsável era, por si mesma, capaz de normalmente causar o dano?”;
• A resposta está ligada à necessidade de se fazer um juízo de probabilidade ou previsibilidade;
• sabendo que nenhuma teoria apresenta soluções prontas e acabadas, é necessário atentar para
os princípios da probabilidade; da razoabilidade, do bom senso e da equidade na busca da
causa adequada e necessária à ocorrência do dano;

= CONCAUSA =

É outra causa que juntando-se à principal, concorre para o resultado. Ela não inicia nem
interrompe o nexo causal, apenas o reforça.
São circunstâncias que concorrem para o agravamento do dano, mas não têm a virtude
de excluir o nexo causal desencadeado pela conduta principal, nem de, por si sós, produzir o
dano.
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O ressarcimento do dano não exige, necessariamente, que o ato do responsável seja
causa única e exclusiva do prejuízo. Como tudo na vida, o dano surge da coincidência de várias
circunstâncias e decorre, portanto, de causas diversas.
Ex. a lesão pode ser leve, mas acarretar graves conseqüências, em razão da constituição
anômala da vítima. Por tais conseqüências responde o autor da lesão.

CONCAUSAS PREEXISTENTES
Sérgio Cavalieri Filho = não eliminam a relação causal, considerando-se como tais
aquelas que já existiam quando da conduta do agente.
Ex. as condições pessoais de saúde da vítima, bem como suas predisposições
patológicas, embora agravantes do resultado, em nada diminuem a responsabilidade do
agente.
Será irrelevante que de um lesão leve resulte a morte por ser a vítima hemofílica; que de
um atropelamento resultem complicações por ser a vítima diabética, que da agressão
física ou moral resulte a morte da vítima por ser cardíaca, etc.
“Em todos esses casos o agente responde pelo resultado mais grave, independentemente
de ter ou não conhecimento da concausa antecedente que agravou o dano”.

CAIO MÁRIO = levanta-se o problema relativo ao estado patológico da vítima anterior


à lesão. “Yves Chartier discute-o à luz de farta bibliografia e jurisprudência, concluindo
que o agente tem que indenizar em razão do dano causado, mas não pode ser
responsabilizado pelo estado patológico preexistente da vítima, nem mesmo sua
agravação se esta não é imputável ao acidente”;
A relação de causalidade é a “necessariedade” entre o fato e o dano causado.

No mesmo sentido da lição de Caio Mário, há outros doutrinadores que


entendem o seguinte: só se pode atribuir responsabilidade à alguém quando, as referidas
circunstâncias especiais da vítima forem previsíveis, ou quando forem do conhecimento
do agente.
Dessa forma, por ex., o sujeito que desfere um soco contra uma pessoa idosa
sabe, ou deve saber, que a possibilidade de sua agressão resultar em uma lesão grave ou
no falecimento da vítima é grande, o que lhe impõe responsabilidade pelo resultado
mais gravoso.

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Entretanto, se essa agressão é perpetrada contra um jovem atleta profissional, que
tenha séria propensão a problemas cardíacos – fato desconhecido e inimaginável pela
experiência comum – e por esse motivo verifica-se o seu falecimento, não há como
imputar o resultado mais grave ao agente.

• S.C.F.: CONCAUSAS SUPERVENIENTES E CONCOMITANTES: diz que a


situação é idêntica à da causa antecedente. Ocorre depois ou ao mesmo tempo do
desencadeamento do nexo causal, embora concorram tb p/ o agravamento do
resultado, em nada favorece o agente.
Ex. A vítima de um atropelamento não é socorrida a tempo, perde muito sangue e vem a
falecer. Essa causa superveniente, embora tenha concorrido para a morte da vítima, será
irrelevante em relação ao agente, porque, por si só, não produziu o resultado, apenas o
reforçou.
Tal causa superveniente só terá relevância quando, rompendo o nexo causal
anterior, erige-se em causa direta e imediata do novo dano, vale dizer, dá origem a novo nexo
causal.
Quando este fato superveniente assumir papel preponderante e absorvente, é que se
poderá cogitar de interrupção do nexo causal. O mesmo tratamento se dá à causa concomitante
que por si só acarrete o resultado.
Ex. Realização de um parto normal e aneurisma cerebral. Este é fato superveniente q não guarda
qq relação com o parto. Foi a causa adequada, imediata e exclusiva q ensejou o evento morte,
não imputável aos médicos.

3) Co – participação. Solidariedade (art.942, p.u., CC).


Tal como no Direito Penal tb no civil pode ter lugar o concurso de agentes ou co-
participação, que se verifica quando as condutas de duas ou mais pessoas concorrem
efetivamente para o evento.
Caio Mário da Silva Pereira se refere ao tema como “nexo causal plúrimo”.
Ex. Depois de atropelada por “A”, a vítima não é socorrida e é novamente atropelada por “B”,
que dirigia imprudentemente, agora mortalmente. Nesse caso haverá responsabilidade solidária
dos agentes (art.1.518, CC), ambos serão obrigados a indenizar.
Por fim, registre-se que qualquer dos agentes (A e B) é obrigado a indenizar, a reparar
todo o dano, cabendo ao que efetuar tal pagamento, regredir (ação de regresso; actio in rem

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verso) contra o outro coobrigado, para haver deste pro rata, a quota proporcional a conduta
ilícita de cada um no volume da indenização.

SÍNTESE:
• TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA: qual foi a causa determinante, a mais
adequada, eficiente para gerar o dano?
Para responder tal questionamento analisar:
• a conduta em abstrato ou em geral;
• a previsibilidade do agente.

1 – Significa escolher o fato que, segundo o curso normal das coisas, se pode considerar apto
para o produzir, afastando aqueles que só em razão de circunstância extraordinária o possam
ter determinado.
2 – A previsibilidade é importante para esclarecer se o agente deve ou não ser
responsabilizado pelo dano mais grave. Se o fato for desconhecido e inimaginável pela
experiência comum, não há como imputar esse resultado mais grave ao agente.

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