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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ - UESC
BETHÂNIA LEAL TAMBURI
ESTUDOS AFRO EM ONZE EDIÇÕES DA REVISTA AFRO-ÁSIA
(1965-1970
ILHE!S " BAHIA
#01$
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BETHÂNIA LEAL TAMBURI
ESTUDOS AFRO EM ONZE EDIÇÕES DA REVISTA AFRO-ÁSIA
(1965-1970
ILH%US " BAHIA
#01$
Monografia apresentada, para obtenção do título
de Licenciada em História, à Universidade
Estadual de Santa Cruz - UESC.
Orientadora: Luiza Nascimento dos Reis
3
BETHÂNÌA LEAL TAMBURÌ
ESTUDOS AFRO EM ONZE EDÌÇÕES DA REVÌSTA AFRO-ÁSÌA
(1965-1970)
Ìlhéus,
____________________________________________________
Luiza Nascimento dos Reis
(Orientadora)
4
SUMÁRIO
INTRODUÇ&O
Fundado em setembro de 1959, pelo professor Agostinho da Silva, o Centro
de Estudos Afro-Orientais (CEAO),vinculado a Universidade da Bahia
1
, foi o primeiro
espaço institucional dedicado aos estudos africanos e orientais no Brasil.
A partir de 1960 se intensifica entre intelectuais brasileiros o interesse em
pesquisar a África. O cenário político é favorável tanto nacionalmente como
1
Nome da universidade à época. Atualmente, Universidade Federal da Bahia (UFBA).
5
internacionalmente, já que estes anos foram marcados pela conquista da
independência política de diversos países africanos que ainda se mantinham sob o
jugo colonial. O CEAO surge em 1959, e em dezembro deste mesmo ano o seu
primeiro pesquisador, Vivaldo da Costa Lima, já se encontrava em solo africano. Nos
anos seguintes, mais pesquisadores são enviados para diversos países do
continente, concretizando o projeto de intercâmbio acadêmico do Centro.
Ao se direcionarem para o continente africano, estes pesquisadores
procuravam entender a África que existia no Brasil. Eles acreditavam que existissem
grandes semelhanças culturais entre os países da África (principalmente da Costa
Ocidental) e o Brasil. Grande parte deste interesse pela cultura africana -
especificamente na Bahia ÷ era motivado por forte influência exercida pela religião
afro-brasileira na nossa cultura. Nesse período destaca-se a atuação de
pesquisadores como: Vivaldo da Costa Lima; Waldir Freitas Oliveira; Pierre Verger;
Guilherme Souza Castro; Yeda Pessoa de Castro e Júlio Santana Braga.
Estes pesquisadores eram influenciados por pensamentos e obras de autores
clássicos como Nina Rodrigues e Gilberto Freyre, mas desenvolveram suas
pesquisas a partir de suas próprias experiências no continente africano. Os contatos
estabelecidos, as experiências vivenciadas e os estudos desenvolvidos durante este
intercâmbio, permitiram que em 1965 fosse produzida pelo CEAO a revista Afro-
Ásia, o seu primeiro periódico e principal meio de divulgação da produção interna do
Centro.
A Afro-Ásia surge como a primeira revista acadêmica da América Latina
voltada para os estudos e pesquisas relacionados à África. Ainda hoje a revista se
encontra em plena atividade, com edições semestrais e versão digitalizada de todos
os seus números, disponibilizadas no site do CEAO
2
. Os trabalhos publicados na
revista têm promovido a reflexão e o debate acadêmico sobre temas como as
relações raciais, história da escravidão e os complexos processos de construção
identitária no Brasil.
As pesquisas sobre o CEAO ainda são muito escassas, e só cobrem o
período da sua fundação até 1964. Nesse sentido temos o trabalho de Gilson
Brandão de Oliveira Júnior
3
que trata dos anos iniciais (1959 a 1961) e a dissertação
2
<http://www.afroasia.ufba.br/edicao.php>
6
de Luiza Nascimento dos Reis
4
que aborda até o ano de 1964 tendo como foco o
intercâmbio acadêmico mantido entre o Brasil e a África neste período.
O nosso objetivo neste trabalho é a investigação dos seis primeiros volumes
da revista Afro-Ásia (1965-1970). Ao analisarmos estas edições, desejamos
entender as abordagens que foram apresentadas relacionadas à sua parte afro,
especialmente as publicações dos pesquisadores vinculados ao CEAO, que se
dedicaram a investigação e divulgação de temáticas relacionadas a África. O recorte
temporal foi escolhido em função de ser um período de intensa publicação, sob a
coordenação do mesmo diretor.
5
A elaboração desta pesquisa é uma parcela de contribuição para o projeto ao
qual ela está vinculada: "Trajetórias Ìntelectuais no Centro de Estudos Afro Orientais
(1959-2009)¨. Desenvolvido pela professora e pesquisadora Luiza Nascimento dos
Reis. O projeto tem como objetivo produzir essa nova etapa da história do CEAO
que compreende cinquenta anos de sua existência.
Nessa perspectiva, na tentativa de trazer visibilidade à importância do Centro
de Estudos Afro-Orientais e à revista Afro-Ásia, utilizaremos basicamente como
corpus nesta pesquisa, as edições deste periódico, publicadas no período
compreendido ente 1965 a 1970, e os recortes da hemeroteca do CEAO.
Utilizaremos como metodologia a leitura e discussão de referenciais teóricos,
análise documental e comparação de textos, que nos auxiliem a relacionar as
temáticas discutidas nos artigos da revista com a conjuntura política nacional. Assim,
tentaremos compreender a revista Afro-ásia não de forma isolada, mas como parte
colaboradora para a construção da historiografia e da própria história do Brasil.
3
OLÌVEÌRA JUNÌOR, Gilson Brandão de. Agostinho da Silva e o CEAO: a primeira experiência
institcional dos estdos africanos no !rasil" 2010. Dissertação (Mestrado em História). São Paulo:
Universidade de São Paulo, 2010.
4
REÌS, Luiza Nascimento. O Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia:
Ìntercâmbio acadêmico e cultural entre Brasil e África (1959-1961). 2010. 217 f. Dissertação
(Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2010.
5
Waldir Freitas Oliveira assumiu a direção do CEAO em 1961, onde atuou como diretor até 1972.
7
8
1. 'RIMEIROS ESTUDOS SOBRE O NE(RO NA BAHIA
Convém retrocedermos aos fins do século XÌX, onde se iniciam os estudos
sobre o negro, para entendermos a formação dos pensamentos que nortearam
diversos pesquisadores ao longo do século XX, inclusive os vinculados ao Centro de
Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia.
Tendo surgido como órgão de divulgação do conhecimento interno do CEAO,
a revistaAfro-Ásia reflete as ideias e os rumos tomados pelos pesquisadores do
Centro. Entender os pensamentos que norteavam esses intelectuais é o primeiro
passo para entender a Afro-Ásia"
No final do século XÌX o Brasil vive um cenário de grandes mudanças:
encerra-se a escravidão, cai o império e junto com a república surgem novas
preocupações e novos debates sobre a construção de um projeto nacional. Questão
central destes debates era como a população de ex-escravos, negros e mestiços
seriam inseridos na nacionalidade do Estado emergente.
Antes mesmo destas mudanças, "desde os anos 1870, teorias raciais passam
a ser largamente adotadas no país ÷ sobretudo nas instituições de pesquisa e de
ensino brasileiras predominantes na época¨
6
. Estas ideologias se baseavam no
determinismo biológico e darwinismo social e buscavam justificar a "superioridade¨
de alguns países, regiões ou grupos étnicos em relação aos demais. No Brasil
asteorias raciais foram se adequando aos interesses da elite em reafirmar a
inferioridade biológica da "raça negra¨ como um mecanismo de preservação das
hierarquias sociais. Édison Carneiro
7
afirma que:
A teoria da inferioridade da raça negra e dos demais povos de
cor, que infelizmente conseguiu arrastar talentos legítimos
como Nina Rodrigues, nasceu da necessidade de justificativa,
por parte da burguesia europeia, dos crimes cometidos "em
nome da civilização¨, na África e na Ásia contra o direito dos
povos de disporem de si mesmos... (Carneiro, 1981, p. 24).
6
SCHWARCZ, Lilia k. M. Usos e Abusos da Mestiçagem e da Raça no Brasil: uma história das
teorias raciais em finais do século XÌX. A)*+-Á,-., n. 18, p. 77-101. 1996
7
CARNEÌRO, Édison. R/0-1-2/, 3/1*.,- 3/1*+, 4.35+,6 Rio de Janeiro: Civilização brasileira
1981.
9
Considerado por muitos como precursor dos estudos sobre o negro no Brasil,
Nina Rodrigues buscava comprovar a tese da inferioridade do negro e
principalmente do mestiço e a sua influência negativa na formação da sociedade
brasileira.
A Raça Negra no Brasil, por maiores que tenham sido os
seus incontestáveis serviços à nossa civilização, [...] há de
constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade
como povo [...] consideramos a supremacia imediata ou
mediata da Raça Negra nociva à nossa nacionalidade,
prejudicial em todo o caso a sua influência não sofreada aos
progressos e à cultura do nosso povo.(Rodrigues,
2010,p.10)
Havia um grande problema na defesa destes pensamentos darwinistas
sociais no Brasil. Como se pode afirmar que uma nação com intensa mistura de
raças está inclinada ao fracasso, sendo que o nosso país já estava muito avançado
na miscigenação? Partes das teorias foram adaptadas, a literatura traduzida foi
selecionada, e o pessimismo vinculado à mistura de raças foi camuflado por uma
esperança do "branqueamento¨.
Apesar de convencido da inferioridade da raça negra, Rodrigues admitia entre
ela diferentes níveis de capacidade e graus de cultura. Talvez como forma de defesa
da nação, pois assim como eram classificados os negro na sociedade brasileira, o
Brasil era classificado pelos países colonialistas centrais em uma escala mundial.
Fato que gerava grande desconforto, sobretudo à elite brasileira.
Na sua obra publicada postumamente
8
Nina Rodrigues apresenta os diversos
povos africanos que teriam vindo para o Brasil e conclui que grande parte não
pertencia aos "povos africanos mais degradados, brutais e selvagens¨. Entre estes
estariam os chamados nagôs que, segundo Rodrigues, eram predominantes na
Bahia, onde era visível os seus traços culturais, tais como língua e religião.
É preciso salientar que a pesquisa de Nina Rodrigues sobre o continente
africano foi baseada, sobretudo, no relato de viajantes que vinham da África, ex-
escravos africanos e seus descendentes, e que estes interlocutores eram
basicamente vindos da Costa Ocidental Africana. Assim podemos afirmar que, a
África estudada por Rodrigues é vista a partir do recorte de determinados países da
sua porção Ocidental.
8
NÌNA RODRÌGUES, Raymundo. A)*-7.3+, 3+ B*.,-0. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de
Pesquisas Sociais, 2010.
10
Beatriz Góis Dantas
9
ressalta a importância dos intelectuais para a
consolidação do "mito da superioridade nagô¨, que "seria uma categoria nativa
utilizada pelos terreiros para marcar suas diferenças e expressar suas rivalidades¨.
Ao transformar esta categoria nativa em categoria analítica,
prática que teria iniciado com Nina Rodrigues e se firmado com
toda uma corrente de estudiosos do Candomblé na Bahia
apegado aos africanismos, os antropólogos teriam contribuído,
principalmente na Bahia, através de construção do modelo jeje-
nagô, tido como "mais puro¨, para a cristalização de traços
culturais que passam a ser tomados como expressão máxima
de africanidade, através dos quais se representará o africano.
(Dantas, 1988, p.148)
Este modelo dito "puro¨ está associado à"grandeza do povo 'Yorùbá'¨,
que,segundo Matory²,começou a ser celebrado internacionalmente - por volta da
virada do século XÌX para o XX - como sendo um "povo culto e orgulhoso, que
resistiu às pressões do colonialismo e tinha uma sofisticada religião própria.¨Esta
ideia repercutiu em todo o mundo afro-americano. Matory afirma ainda queo
processo de fundação do mito tem raízes muito mais profundas do que a ação dos
etnólogos brasileiros e estrangeiros. Essas raízes estariam calcadas mesmo em um
processo de expansão cultural e comercial "Yorùbᨠpara além do continente
africano. Assim o mito da pureza teria surgido junto com a diáspora e não da ação
de pesquisadores brasileiros e estrangeiros em busca de africanismos.
[...] antes de o tráfico de escravos no século XÌX dispersar os
Ìjèbu, os Egbá, os Egbádò, os Ondó, os Ekiti, os Oyó e outros,
estes grupos nunca se autodenominaram "Yorùbá¨, muito
menos compartilharam uma língua "padrão¨ ou uma identidade
política única. Argumento que foi a dispersão e as atividades de
milhares de retornados durante a fase de colonialismo britânico
que produziu a identidade novamente unitária chamada
"Yorùbá". [...] a reação auto-afirmativa dos retornados ao
racismo britânico fizeram dos "Yorùbá" a "nação" africana mais
prestigiosa no perímetro Atlântico. (Matory, 1999, p. 60)
No Brasil o "nagocentrismo¨ foi defendido por Nina Rodrigues e reforçado nas
obras de Arthur Ramos e Édison Carneiro
10
formando um modelo para se pensar a
9
DANTAS, B. G. Vovó Nagô e Papai Branco: Usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro:
Graal, 1988.
10
Arthur Ramos e Édison Carneiro reivindicaram filiação intelectual a Raymundo Nina Rodrigues, e se
intitulavam como discípulos do pioneiro dos estudos africanos no Brasil.
11
África que também influenciou e motivou os primeiros intelectuais que fundaram e
contribuíram para a consolidação do CEAO. A África idealizada pelos pesquisadores
do Centro era vista a partir do recorte de determinados países da Costa Ocidental,
como Nigéria e Daomé (atual Benin). Como a revista Afro-Ásia era uma produção do
Centro, e exprimia o que nele era pensado, o nagocentrismo também se fez
presente nos trabalhos nela publicados.
161 A 897.8. 8/ 19$0
No início do século XX, as mudanças sociais, econômicas e culturais
contribuíram para o declínio das ideologias racistas. A intensificação das pesquisas
sobre a temática das relações raciais no Brasil ocorreu na década de 1930.
Destacamos nesse período os debates e as produções de Gilberto Freyre, Arthur
Ramos e Édison Carneiro, que, mesmo divergentes,contribuíram para a
consolidação de um pensamento que mais tarde viria nortear as pesquisas
desenvolvidas no CEAO.
Os estudos de Nina Rodrigues influenciaram boa parte dos pesquisadores da
"geração de 30¨. O autor foi tomado como referência para os estudos de Édison
Carneiro e mais intensamente para os de Arthur Ramos. Desta forma, as suas
interpretações acabaram em grande parte sendo perpetuadas através de
resignificações de conceitos, transformando-os em ideias mais amenas, e também
mais amplamente aceitas. A maior evidência destas resignificações está presentes
nos trabalhos de Ramos, que abandona a ideia de um "racismo biológico¨, aderindo
a um "racismo cultural¨, onde a noção de superioridade ou de inferioridade está
calcada em termos culturais que devem ser medidos a partir de um padrão
(europeizado) de desenvolvimento.
Édison Carneiro, também influenciado pelos estudos de Nina Rodrigues,
publica em 1936 o seu primeiro livro"As Religiões Negras¨. Só a partir do Ì
Congresso Afro-brasileiro
11
, em 1934,ele resolve aprofundar os seus estudos sobre o
negro e sobre as manifestações populares de origem africana. Ìnsatisfeito com a
falta de espaço para as manifestações culturais de matriz africana no Ì Congresso
Afro-Brasileiro, Carneiro se empenha no projeto que seria o mais ambicioso do início
11
O Ì Congresso Afro-Brasileiro foi organizado por Gilberto Freyre em Recife.
12
de sua carreira: organizar o ÌÌ Congresso Afro-Brasileiro em Salvador
12
. O seu
projeto se concretiza em 1937 tendo como parceirosAydamo Couto Ferraz,
Reginaldo Guimarãese sendo apoiado por Arthur Ramos. O evento contou com a
presença de intelectuais brasileiros, pesquisadores estrangeiros e personalidades
pertencentes ao universo religioso e militante afro-descendente.
A promoção de um congresso especificamente direcionado às temáticas
referentes ao "problema do negro¨, não ocorreu livre de debates em torno das
possíveis explicações para a formação da nação. Através de trabalhos e diálogos
estabelecidos nos eventos, Freyre e Ramos disputaram a legitimidade e autoridade
sobre as interpretações da presença africana no Brasil. O primeiro, defensor da
mestiçagem biológica e cultural como fator fundamental do tipo social brasileiro; o
segundo, um opositor declarado da miscigenação enquanto modelo analítico das
relações raciais brasileiras.
Para Arthur Ramos, a observação da permanência de traços africanos
originais nas manifestações culturais afro-baianas, seria o caminho indicado para a
definição de tipos sociais identificados com heranças preservadas desde África - à
época denominadas africanismos.
Explicitamente dedicados ao estudo e valorização dos africanismos,
organizadores e participantes do ÌÌ Congresso Afro-Brasileiro de Salvador ÷ que
acontece em clima de rivalidade entre baianos e pernambucanos ÷disputavam o
pioneirismo do campo dos estudos africanos no Brasil. As homenagens prestadas a
Nina Rodrigues por Arthur Ramos e Edison Carneiro
13
no decorrer das atividades do
congresso tiveram repercussão significativa nas tentativas de definir qual
perspectiva seria mais adequada para interpretar a presença negra no cenário
nacional.
A reivindicação da "Escola Nina Rodrigues¨
14
como protagonista na realização
de estudos antropológicos junto a comunidades negras de Salvador, gerou uma
12
O Ì e ÌÌ Congresso Afro-Brasileiro foram importantes experiências que inauguraram o diálogo entre
membros dos terreiros e da Universidade. Dialogo este que se consolida institucionalmente com a
fundação do CEAO em 1959.
13
CONGRESSO AFRO-BRASÌLEÌRO - Salvador, BA. O negro no Brasil: trabalhos apresentados ao
2° Congresso Afro-Brasileiro (Bahia). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940. Coleção Biblioteca
de Divulgação Científica, Vol. XX.
14
A Escola Nina Rodrigues foi organizada a partir da atuação de alguns intelectuais com o intuito de
ganhar espaço expressivo nas interpretações da presença negra no Brasil, que não aquelas
proferidas por Gilberto Freyre. Fizeram parte desta empreitada personalidades como Arthur Ramos
e Edison Carneiro.
13
série de embates, pois Freyre e seus pares buscaram veementemente chamar para
si o mesmo protagonismo atribuído a Nina Rodrigues pelos seus seguidores.
Sobre a rivalidade estabelecida no ÌÌ Congresso Afro-Brasileiro Waldir Freitas
Oliveira
15
afirma:
Naquela reunião pretenderam, de uma certa forma, mostrar
aos pernambucanos que haviam realizado em Recife, em
1934, liderados por Gilberto Freyre, o Ì Congresso Afro-
Brasileiro. Nós, em Salvador, tínhamos ideias próprias sobre o
problema do negro. Ìsso porque não concordávamos,
integralmente, com a concepção de Gilberto Freyre sobre a
formação social do Brasil, e com a suas teorias sobre as
relações raciais. Naquele encontro houve a tentativa da criação
em Salvador de um núcleo de pesquisas dedicadas ao estudo
da escravidão. Mas este objetivo não foi atingido [...]
16
As teses tropicalistas de Freyre são amplamente aceitas pelo governo
brasileiro e adotadas pelas elites, além de conquistar rapidamente os cenários
letrados e científicos diversos.A mistura de raças, que foi tradada por Nina
Rodrigues e seus seguidores como o grande problema do país, começa a se
transformar na sua magnífica identidade.O "mito das três raças passava a equivaler
uma grande representação nacional¨
17
.
Gilberto Freyre foi, sem dúvida, um dos intelectuaismais influentes e de maior
destaque no cenário brasileiro do século XX. Sua obra mais aclamada no Brasil e no
exterior é o livro "Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o
regime da economia patriarcal¨, publicado em 1933.
O objeto da obra são os "senhores¨ e os escravos no período colonial e a
ideia central do livro consiste no fato da mestiçagem interferir não só na formação
biológica da população brasileira, mas essencialmente na sua cultura, tornando-a
excepcionalmente única por meio de troca de experiências e costumes.Pela primeira
vez era reconhecida a contribuição africana e indígena na constituição da sociedade
brasileira.
15
Waldir F. Oliveira exerceu o cargo de diretor do CEAO de 1961 a 1972.
16
.OLÌVEÌRA, Waldir Freitas. A PESQUÌSA SOBRE OS AFRO-BRASÌLEÌROS: entrevista de Waldir
Freitas Oliveira. E,5:8+, A;.3<.8+,, São Paulo: USP, v. 18, nº 50, 2004. P. 127-134.
17
SCHWARCZ, Lilia K. Moritz. Usos e Abusos da Mestiçagem e da Raça no Brasil: Uma história das
teorias raciais em finais do século XÌX. AFRO-ÁSIA, n. 18, 1996. P. 86.
14
Apesar de uma grande diferença entre as ideias defendidas por Rodrigues e
por Freyre, é possível observar que o segundo ainda afirma em sua obra uma
hierarquização defendida por Nina Rodrigues, onde se encontram respectivamente
em ordem decrescente, brancos, negros e índios. A obra de Freyre, apesar de
inovadora, em nada favorecia a situação da população negra.
Pois, o que as elites nacionais queriam eram mestiços brancos,
que se comportassem à moda européia. A hierarquização das
raças e a colonização interna dos brancos sobre os não-
brancos se perpetuavam no Brasil como dantes.
18
A maior novidade da obra de Freyre foi o enfoque analítico utilizado, sempre
atento a novos objetos da história como a família, a intimidade, sexualidade, e outros
fatores das relações sociais na vida cotidiana. As fontes por ele empregadas
também eram pouco utilizadas pelos pesquisadores até então, como anúncios de
jornal, relatos de história oral e cantigas de época.
Mesmo sendo inovadores no início do século e referência até hoje, os
trabalhos de Freyre são intensamente criticados, principalmente por ele ser o
inventor do famoso "mito da democracia racial¨. De fato, ao tratar questões
cotidianas de forma a priorizar uma abordagem cultural, ele evitava uma análise
mais aprofundada dos problemas e contradições que marcavam a sociedade
escravista.
Nos engenhos, tanto nas plantações como dentro de casa, nos
tanques de bater roupa, nas cozinhas, lavando roupa,
enxugando prato, fazendo doce, pilando café; nas cidades,
carregando sacos de açúcar, pianos, sofás de jacarandá de ioiô
brancos ÷ os negros trabalharam sempre cantando: os seus
cantos de trabalho, tanto quanto os de xangô, os de festas, os
de ninar menino pequeno, encheram de alegria africana a vida
brasileira. (FREYRE, 2006. p 551.)
Esta abordagem de "valorização¨ do africano não mudava em nada a
realidade do país. Beatriz Góis Dantas afirma que:
... a valorização da África seria uma tentativa de escamotear o
preconceito contra o negro, escondendo-se sob o manto da
18
SANTOS, Flávio Gonçalves dos. O, 8-,7:*,+, .)*+-4*.,-0/-*+, ).7/ =, -8/+0+1-., *.7-.-, 3.
B.>-.? 1@@9-19$7. 2001. 106 f. Dissertação (Mestrado em História) ÷ Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001.
15
glorificação do africano, e, assim, tornar mais difícil combatê-lo,
o que resultaria afinal numa tática de dominação.¨ (DANTAS,
1988. Pág 149)
16# '+* A:/ . Á)*-7.B E A:/ Á)*-7.B
Desde os primeiros estudos destinados à cultura africana, e durante muitos
anos seguintes, a valorização da África era feita em benefício próprio do Brasil,
principalmente como interesse das elites. Este fato fica visível também nos estudos
destinados à África, uma vez que os estudos africanos continuaram por muito tempo
subordinados aos estudos afro-brasileiros, não adquirindo autonomia própria, pois
continuaram sendo produzidos tendo como objetivo o negro brasileiro, sua influência
e seu processo de aculturação na sociedade brasileira.
Quando Freyre se desloca ao continente africano
19
, e a partir dessa viagem
escreve dois livros "Aventura e rotina¨ e "Um brasileiro em terrasportuguesas¨, a
África não é o objeto nem o objetivo da obra. Financiada pelo governo português, a
viagem as cinco "províncias ultramarinas¨ africanas (Guiné-Bissau; Cabo Verde; São
Tomé e Príncipe; Angola e Moçambique) tem outro objetivo: exaltar o colonizador
português.
O governo lusitano, insistente em manter o colonialismo praticado em países
africanos e buscava convencer os demais países de que sua ação era benéfica. O
governo brasileiro, que não se posicionava contra essecolonialismo, funcionou como
um de seus aliados até meados da década de 1970.
Assim como Freyre outros intelectuais brasileirosse direcionaram ao
continente africano na tentativa de entender o Brasil. O CEAO surge também com
esse objetivo. A tradição de estudos inaugurados por Freyre influenciou diretamente
o processo de institucionalização do CEAO, e estava em conformidade com os
pensamentos e ambições de Agostinho da Silva, fundador do centro.
No cenário internacional, o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger se
destacava na pesquisa que realizava sobre as conexões coloniais entre a Bahia e o
Golfo do Benin. Verger era reconhecido com um dos poucos que se dedicava a
investigar as relações entre Brasil e África, sua contribuição também foi fundamental
19
Freyre foi o primeiro pesquisador brasileiro a fazer pesquisa de campo no continente africano, em
1951. O segundo foi Vivaldo da Costa Lima, que, em 1959, foi primeiro pesquisador a integrar o
quadro do CEAO.
16
para o desenvolvimento das atividades do Centro de Estudos Afro-Orientais nos
seus primeiros anos de existência.
Podemos dizer que no CEAO, os estudos focavam em duas "Áfricas¨
distintas. Pierre Verger e os pesquisadores adeptos aos trabalhos de Nina
Rodrigues, Arthur Ramos e Edson Carneiro,interessavam-se em aprofundar seus
estudos a respeito de candomblés baianos, e para isso buscava suas origens na
Costa Ocidental, enquanto o fundador do Centro, Agostinho da Silva, buscava seguir
o seu ideal de formação de uma "comunidade entre Brasil e Portugal¨ e para tanto
buscava aproximar-se dos países africanos que, assim como o Brasil, foram
colonizados por Portugal. Assim o CEAO conformava duas correntes de
pensamentos distintos: as defendidas pelos adeptos da "Escola Baiana¨ e as teorias
freyreanas. Esta dualidade é explicada por Luiza Reis
20
quando ela afirma que:
"Desde a fundação do Centro de Estudos Afro-Orientais,
pode-se afirmar que nele se encontravam duas perspectivas
diferentes de aproximação com a África. Pierre Verger,
colaborador fundamental do Centro de Estudos, animava as
sugestões e contatos em direção à África ocidental, amparado
na compreensão de que era importante identificar naquela
região do continente africano as raízes da cultura iorubá
praticada pelos candomblés da Bahia.
Agostinho da Silva olhava para o continente africano por
outra perspectiva, apresentada no Colóquio de Estudos Luso-
Brasileiros. A África em sua opinião deveria conformar uma
comunidade com o Brasil e Portugal e, para tanto, os países
privilegiados nessa investida eram aqueles que viviam sob a
colonização portuguesa. (REÌS, 2010. Pág. 117)
O interesse de entender o Brasil a partir de suas "raízes culturais¨ africanas
se baseava em um conceito de cultura estática. Partia-se do pressuposto de que
cada grupo étnico possuía uma cultura e, portanto, essa cultura poderia ser
transposta de um lugar para outro.
Essa ideia se modifica ao longo dos anos, quando os pesquisadores
percebem que a mudança de qualquer fator na sociedade pode modificar a cultura, e
que ela não pode ser transportada de um lugar para o outro sem que sofra
20
REÌS, Luiza Nascimento. O Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia:
Ìntercâmbio acadêmico e cultural entre Brasil e África (1959-1961). 2010. 217 f. Dissertação
(Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2010.
17
alterações. Manuela Carneiro da Cunha, em seu livro "Antropologia do Brasil¨ (1987)
afirma que a cultura "longe de imutável, era “manipulada para novos fins”.
No seu livro “Negros Estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África” (1!"#
$un%a realiza uma análise das trajetórias de ex-escravos que saíram do Brasil
eretornaram para o continente africano - mais especificamente para a Costa
Ocidental ÷ a partir da década de 1830. Analisando a complexidade da constituição
dos grupos de brasileiros e seu lugar social na África a autora busca entender
questões como cultura e identidade. Na conclusão desta obra Cunha afirma que
"O que se ganhou com os estudos de etnicidade foi a noção clara de que a
identidade é construída de forma situacional e contrastiva, ou seja, que ela
constitui resposta política a uma conjuntura, resposta articulada com as
outras identidades em jogo, com as quais forma um sistema. É uma
estratégia de diferenças.¨ (CUNHA, 2012. Pág. 242)
Os "retornados¨, como ficaram conhecidos, são objeto de pesquisa há muito
tempo. Já existia referência deles em obras de Nina Rodrigues e nas reportagens de
Gilberto Freyre e Pierre Verger, entre outros.Entre os intelectuais do CEAO se
destacam Yêda Pessoa Castro (do Setor de Estudos Linguísticos) e Júlio Santana
Braga (Do Setor de Estudos Sociológicos e Antropológicos) com pesquisas voltadas
para os afro-brasileiros que residiam na Costa Ocidental da África. Estas pesquisas
foram incentivadas por Pierre Verger que era colaborador do centro e já nutria
interesse pelo assunto.
De modo geral, a produção da Afro-Ásia segue os rumos tomados pelo Centro
a que ela é vinculada. Assim os seus artigos não destoam do perfil do CEAO, que ÷
referente à sua parte afro - até 1970 ainda preza por uma abordagem voltada para a
cultura, onde estão em foco a costa ocidental e os países colonizados por Portugal,
onde se busca entender a África que existe no Brasil.
18
2. O CEAO E O SUR(IMENTO DA REVISTA AFRO-ÁSIA
Fundado em setembro de 1959 pelo professor Agostinho da Silva, o Centro
de Estudos Afro-Orientais (CEAO), vinculado à Universidade Federal da Bahia, foi o
primeiro espaço institucional dedicado aos estudos africanos e orientais no Brasil.
Os estudos sobre o negro na primeira metade do século XX são referência
para o CEAO. Os seus pesquisadores se dedicam não só a revisão desses estudos,
mas a difícil tarefa de construir novos conteúdos a partir de experiências de
pesquisa de campo, propiciadas pelo intercâmbio mantido entre Brasil e África que
foi desenvolvido pelo CEAO.
A partir do trabalho realizado por Luiza Reis, investigando a trajetória
intelectual dos pesquisadores vinculados ao CEAO, é possível entender os
caminhos tomados para a fundação do Centro e para a realização do intercambio
entre o Brasil e a África. Muitos destes pesquisadores, tendo retornado do
continente africano, continuam a desenvolver as suas pesquisas no CEAO e mais
tarde as divulgam no seu primeiro periódico lançado em 1965.
Ainda em 1959, Agostinho da Silva conheceu os intelectuais que seriam seus
principais colaboradores nos trabalhos iniciais do CEAO:Waldir Freitas de Oliveira,
Pierre Verger, Vivaldo da Costa Lima. Este último foi o primeiro pesquisador a
integrar o quadro de profissionais do Centro, e no mesmo ano de sua fundação, no
mês de dezembro, segue para a Nigéria
21
já como pesquisador do CEAO.
O primeiroa obter uma [bolsa], e com todo o interesse de Pierre
Verger, ele bomconhecedor do ocidente africano, foi o Dr.
Vivaldo Costa Lima, quedesistira de seu consultório médico-
odontológico, comigo se encontrara, numa noite de culto, no
candomblé de Olga Alaketu, e que voltou perito em África que,
com tanta profundidade, tão compreensivadisposição humana,
tanto talento, estudou no Benin, na Nigéria, noGana. (SÌLVA,
1995, p. 07).
Em 1960 seguiria Pedro Moacir Maia para a Universidade de Dakar, no
Senegal, para ministrar o curso de língua portuguesa e viria Ebenézer Latunde
21
Costa Lima só passou a receber o subsídio como leitor depois de já se encontrar na Nigéria. Atuou
como adido cultural em Gana, ao tempo em que foi leitor na Universidade daquele país entre fins de
1961 e 1962, quando seguiu para o Daomé, com o intuito de estabelecer um Centro de Estudos
Brasileiros.
19
Lasebikam, natural da Nigéria e professor em Londres, para ministrar curso da
língua iorubá no CEAO.
Essas experiências inauguraram um intercâmbio de pesquisadores brasileiros
e baianos para pesquisa de campo no continente africano. Destacam-se os diálogos
entre Agostinho da Silva e Verger para o estabelecimento deste intercâmbio.
Pierre Verger era um cooperador fundamental do Centro de Estudos Afro-
Orientais. Ele compartilhou e colaborou nas ideias de aproximação da Bahia com a
África Ocidental, amparado na compreensão de que era importante identificar
naquela região do continente africano as raízes da cultura iorubá praticada pelos
candomblés da Bahia. Aos poucos ele convencia Agostinho da importância dessas
relações.
[...] estamos com o maior interesse em reativar as relações
Brasil-África Ocidental, inteiramente convencidos de que há
que formar um conjunto afro-brasileiro, numa extensão a
domínios sociais, pedagógicos, econômicos e políticos daquilo
que afinal é a história de várias famílias da África e do Brasil.
22
Verger viajava entre África, Europa e Brasil realizando pesquisas e era
reconhecido com um dos poucos que se dedicava a investigar as relações entre
Brasil e África.
A difusão de expressões culturais, entre países africanos e a Bahia, começa a
movimentar pesquisadores, professores e estudantes, de diversas áreas do
conhecimento. No meio intelectual se intensifica a necessidade de repensar o lugar
da África no Brasil. Um centro de estudos que levava a sério este relacionamento
começava a despertar mais interesse entre os pesquisadores. Mesmo que
indiretamente, o CEAO era resultado de uma aproximação oficial com países
africanos.
Em fins de 1962, seguiram para a Nigéria Guilherme Augusto de Souza
Castro e sua esposa Yêda Antonita Pessoa de Castro, ambos pesquisadores do
CEAO. Vivaldo da Costa Lima, que já se encontrava no continente africano desde
1959, segue da Nigéria para o Daomé com o intuito de estabelecer um Centro de
Estudos Brasileiros. Mas a dificuldade enfrentada por estes pesquisadores, sem
22
Carta enviada por Agostinho da Silva a Pierre Verger em 02 de maio 1960. (apud REÌS, 2010, P.75)
20
financiamentos que possibilitassem o desenvolvimento de suas pesquisas e até
mesmo que garantissem sua própria instalação, os abrigou a retornar ao Brasil.
Em 1963 os projetos de intercâmbio com o continente africano foram
interrompidos. Tornava-se impossível manter ações internacionais mediante a crise
do governo brasileiro e a saturação dos pesquisadores do CEAO obrigados a
remediarem continuadamente as dificuldades estruturais apresentadas.
A Universidade da Bahia fazia reconfigurações orçamentárias radicais que
afetavam diretamente o Centro de Estudos. No contexto nacional, o país enfrentava
uma crescente crise inflacionária. O governo do presidente João Goulart
experimentou o auge de uma crise que se anunciava desde o governo Jânio
Quadros.
Em 1964 o país foi sofre um golpe civil-militar. O novo regime mudou a
política externa das relações Brasil-África, configurando uma nova conjuntura para a
atuação do Centro de Estudos afro-Orientais. O seu funcionamento foi, assim como
de outras instituições no país, afetado com a instalação do regime autoritário. Neste
ano, o CEAO manteve regular funcionamento de cursos de línguas, como o iorubá, e
cursos de curta duração, como o de história africana, ministrados pelo responsável
pelo setor de Estudos Históricos, Paulo Fernando de Moraes Farias.
Entre 1959 e 1963 muitos intelectuais tiveram a possibilidade de realizar
estudos em diferentes países da África, marcando e modificando as suas trajetórias
acadêmicas. Essas experiências de pesquisa no continente africano influenciaram a
trajetória intelectual destes pesquisadores que seguiam para África interessado em
compreender a Bahia.
O objetivo principal destes intelectuais que se vinculavam ao CEAO ÷ além de
adquirir maior conhecimento sobre a história, a cultura, etc. ÷ era entender os laços
existentes entre o Brasil e a África, e poder estreitá-los no futuro. As ações desta
"primeira geração¨ de pesquisadores do CEAO são de grande importância para
compreensão do nosso trabalho. Entre 1959 e 1964, A promoção de intercâmbio
acadêmico, a realização de eventos, e o desenvolvimento de cursos focando África
e afro-descendentes, foram decisivos para o desenvolvimento de atividades e
estudos que delineariam as publicações da Revista Afro-Ásia, que surge em 1965
como importante instrumento para a divulga&'o do con%ecimento interno e dos interesses e
a&(es do $E)*.
21
#616 S:*1-C/35+ 8. Afro-Ásia
Vinculada ao CEAO, em 1965, foi criada a primeira revista acadêmica da
América Latina voltada para os estudos e pesquisas relacionados à África: a Revista
Afro-Ásia, que ainda hoje se encontra em plena atividade, com edições semestrais e
versão digitalizada de todos os seus números disponibilizadas no site do CEAO.
É na década de 1960, que foi marcada pela independência política da maioria
das nações africanas que ainda se mantinham sob o julgo colonial, que surge a
revista Afro-Ásia que - como afirma a nota editorial de apresentação da sua primeira
edição ÷ é fruto de um trabalho que vinha sendo realizado há quase seis anos pelo
CEAO, e que se esforça para "alcançar um melhor conhecimento das realidades
africana e asiática [difundindo] no Brasil e nos países da América Latina os
resultados destes esforços¨
23
.
Muitos destes pesquisadores vinculados ao Centro e interessados em cultura
afro-brasileira procuravam por raízes culturais e históricas do seu objeto de pesquisa
na África. Grande parte deste interesse pela cultura africana - especificamente na
Bahia ÷ era motivado pela forte influência exercida pela religião afro-brasileira na
nossa cultura. Com exceção da primeira edição, todas as outras revistas publicadas
contêm artigos que se debruçam sobre as religiões tradicionais africanas no intuito
de encontrar elementos que façam entender a religião e a cultura afro-brasileira.
Os pesquisadores se direcionavam ao continente africano procurando
entender a África que existia no Brasil. Eles acreditavam que existissem grandes
semelhanças culturais entre os países da África (principalmente da Costa Ocidental)
e o Brasil. Esta busca contribuiu para a mudança do conceito de cultura que era
entendida como algo estático.
Os estudos sobre etnicidade têm mostrado sobejamente que a
cultura não é simplesmente uma bagagem que a sociedade
carrega consigo e conserva como um todo, não é algo
acabado, mas algo que se recorta de diferentes modos para
afirmar identidade e garantir interesses, sendo constantemente
reinventado e investido de novos significados (Cunha, 1977).
23
Nota editorial de apresentação da primeira edição da Revista Afro-Ásia em 1965, p. 5.
22
O objetivo deste capítulo é analisar as seis primeiras edições da revista Afro-
Ásia (1965-1970) procurando entender em que grau as suas publicações refletiam a
postura do CEAO sobre a relação Brasil-África.
Os artigos publicados na Afro-Ásia foram marcados por conjunturas
relacionadas à história e trajetória do CEAO e dos intelectuais vinculados a ele bem
como a conjuntura política nacional. Entender essa relação se faz necessário para a
compreensão da revista não de forma isolada, mas como espaço de discussão que
era influenciado pelos pensamentos da época.
Esta análise tem como foco as abordagens referentes à parte afro da revista,
principalmente nos artigos publicados pelos intelectuais vinculados ao CEAO, para
tentar entender que África o Centro e os pesquisadores ligados a ele desejam
divulgar, e avaliar qual a contribuição desta publicação para a construção do campo
de pesquisa africano e afro-brasileiro no Brasil.
O recorte temporal estabelecido entre os anos de 1965 e 1970 corresponde à
fase inicial da revista com publicação regular e sobre a direção de Waldir Freitas
Oliveira. Neste período há um total de onze números publicados em seis volumes
que trazem artigos, documentos, resenhas de livros e informações acerca das
atividades desenvolvidas pelo Centro. Os próximos anos após 1970, a revista terá
publicações escassas, tendo o seu sétimo volume publicado apenas em 1976 e sob
a direção de Guilherme de Souza Castro.
#6#6 AD*/,/35.<E+ 8. D*-C/-*. /8-<E+ 8. R/;-,5. Afro-Ásia
A nota editorial que apresenta a primeira edição da revista Afro-Ásia em 1965,
justifica que a sua existência se faz necessária devido à ausência no Brasil e na
América Latina, de um instrumento de divulgação de pesquisas e assuntos
relacionados à África e Ásia.
Há muito se fazia sentir na América Latina a existência de
umarevista especializada sobre assuntos africanos e asiáticos.
E isto porque os países da África e da Ásia surgem ainda aos
olhos doslatino-americanos envoltos na miragem de um
23
passado já distanteque lhes deforma de maneira dramática a
vibrante realidade.
24
Quando a Afro-Ásia foi lançada, o CEAO completava seis anos de existência,
que, como já vimos, foi marcado por iniciativas pioneiras de conhecer melhor a
história e a cultura dos povos africanos e asiáticos.
Desde o seu surgimento, a parte #afro$
25
da revista tem o maior destaque,
refletindo a trajetória do Centro que sempre dedicou mais atenção aos estudos
relacionados à África. Este fato pode ser observado desde as primeiras ações do
Centro, tomando como exemplo o intercâmbio acadêmico que era exclusivamente
direcionado ao continente africano.
Diversos pesquisadores tiveram a oportunidade de desenvolver estudos de
campo em diferentes países da África, e retornando ao Brasil, puderam tornar
públicas as suas pesquisas por meio de artigos divulgados na revista Afro-Ásia a
partir de 1965. Aliás, esse era um dos principais objetivos da revista.
Além da divulgação do conhecimento interno, a revista se propunha a divulgar
trabalhos de pesquisadores não vinculados ao CEAO, mas que eram julgados pela
redação como sendo de fundamental importância para a constituição do campo de
estudos africanos e afro-brasileiros no Brasil.
O destaque no cenário mundial que adquiria os países africanos após o início
da década de 1960 se justificava pelo alcance da autonomia política destes países,
antes mantidas sobre o jugo colonial. No Brasil o interesse pela realidade África se
intensifica não só no cenário político nacional, mas também no meio acadêmico.
Tal realidade, sem qualquer conexão com os "safari"
[...]apresenta-se ante o mundo contemporâneo, chocando-o e
impondo-lhe umquadro novo, onde nações jovens e livres ao
lado de nações rejuvenescidasse elevam ao mesmo nível das
demais nações, iguais em direitose em valor e
surpreendentemente ricas de tradições e de umpassado
histórico sôbre o qual, criminosamente, silenciaram
quasesempre os historiadores ocidentais.
26
24
Nota editorial de apresentação da primeira edição da Revista Afro-Ásia em 1965, p. 5.
25
Onde digo "parte Afro$ e #parte Ásia$ me refiro ao título da Revista Áfro-Ásia desmembrando-o em
duas partes.
26
Ìbid., p. 5.
24
A direção da revista
27
afirma que a publicação tem como objetivo o
conhecimento da realidade africana, para que, através desta compreensão, os
preconceitos e ideias pré-estabelecidas sejam substituídas por uma nova visão da
história e da cultura africana, que contribuirá para o desenvolvimento do respeito
"justo e efetivo¨ por tais povos.
Apesar da sua existência datar de 1965, a Afro-Ásia entra efetivamente em
circulação a partir de 1966 (entre os intelectuais do próprio Centro).
Figura 1 ÷ Nota de divulgação da primeira edição da revista Afro-Ásia no Jornal A
Tarde, Salvador, 1966.
Fonte: Hemeroteca do CEAO - http://www.ceao.ufba.br/biblioteca/busca.php
27
Waldir Freitas Oliveira esteve na direção do CEAO durante a publicação dos seis primeiros volumes
da revista Afro-Ásia
25
#6$ A R/;-,5. A)*+-Á,-. /C 3FC/*+,
No período compreendido entre 1965 e 1970, foram publicados onze números
em cinco volumes
28
, somando cinquenta e dois artigos de quarenta e um autores
diferentes na revista Afro-Ásia. Entre os artigos publicados, onze foram resultados
de conferências pronunciadas em eventos acadêmicos
29
. Além dos artigos, o
periódico também trazia publicações de documentos, resenhas de livros e
informações sobre atividades mais importantes desenvolvidas pelo CEAO.
Apesar de ter como objetivo principal a divulgação dos estudos realizadas
pelos pesquisadores vinculados ao Centro, a maior parte dos artigos publicados
neste período são de pesquisadores das mais diversas instituições brasileiras e
internacionais. Dentre os cinquenta e dois artigos publicados nesta primeira fase,
apenas dezesseis artigos são de pesquisadores do CEAO e trinta e seis de outras
instituições, conforme elucida o gráfico a seguir, que ilustra que mais da metade das
produções não eram de pesquisadores vinculados ao CEAO.
(*G)-7+ 1 ÷ Produção dos Pesquisadores do CEAO na Revista Afro- Ásia
Além de publicar os trabalhos produzidos pelos pesquisadores do CEAO, e
ser esse o principal objetivo da revista, trabalhos de pesquisadores não vinculados
ao CEAO são maioria por diversos motivos. Um deles é que a quantidades de
pesquisas desenvolvidas não eram suficientes para uma publicação periódica. Além
disso, textos clássicos, e de autores que se dedicavam às diversas temáticas
africanas enriqueciam e diversificavam a revista conferindo-lhe maior visibilidade e
credibilidade.
28
Exceto o primeiro volume, os demais números são publicações duplas
29
Ìnformações obtidas nas notas de rodapé feitas pela redação da revista
26
Podemos observar também que as publicações feitas por autores vinculados
às instituições internacionais são maioria no período. Pesquisadores de diversas
instituições de vários países contribuíram com suas publicações na Afro-Ásia.
Dentre os 52 artigos publicados entre 1965 e 1970, vinte e um são de autores
vinculados a instituições nacionais, vinte e dois de instituições internacionais e nove
são de autores sem vinculo institucional
30
. O numero de pesquisadores de
instituições internacionais sobrepuja o de instituições nacionais e os que não
possuem vínculo com qualquer instituição estão na faixa dos 17%, conforme o
gráfico abaixo.
(*G)-7+ # ÷ Produção Participação de pesquisadores vinculados à
Ìnstituições Brasileiras nas publicações da Afro-Ásia
A quantidade de artigos publicados por autores de Ìnstituições internacionais
nos leva a pensar na interação mantida pelo CEAO com diversas instituições do
mundo, mas um fato curioso é que dentre estas instituições que tiveram seus
pesquisadores publicando na Afro-Ásia, apenas três estão situadas em países do
continente africano
31
.
No que diz respeito às temáticas abordada pela revista no período
pesquisado, observamos mais uma vez o quanto a Afro-Ásia reflete as ações do
CEAO. Durante o período da edição da revista que este trabalho se propõe a
analisar, como já foi dito, é nítido que o tema mais recorrente é o "Afro¨, haja vista o
mesmo dominar 77% das publicações feitas no período.
(*G)-7+ $ ÷ Produção da Revista Afro-Ásia (1965-1970)
30
Estas informações foram coletadas nas notas contidas nos artigos publicados na Revista
Afro-Ásia. Por tanto, os artigos que não continham especificação da instituição de origem dos
autores, foram contabilizados como "sem vínculo institucional¨.
31
Ìnstitut Fondamental d'Afrique Noire em Dacar; Universidade de Ìfé na Nigéria; Centro de Estudos
de Ciências Humanas da Universidade Livre do Congo
27
Podemos observar alguns fatores além da evidência política e econômica que
estes países adquiriram durante o período. Primeiro fator determinante é que o
próprio Centro de Estudos Afro-Orientais foi pensado como um Centro dedicado ao
estudo de temáticas africanas e afro-brasileiras, e a parte Oriental foi inserida ao
projeto mais por uma questão política
32
. Além disso, muitos pesquisadores que se
dedicaram ao estudo da África foram entusiasmados pela grande influência que
estes povos tiveram, sobre as mais diversas formas, na constituição do Brasil como
um país.
A produção dos pesquisadores do CEAO na revista Afro-Ásia entre 1965 e
1970 representa 31% do total de produções no período, somando um total de 16
artigos publicados como podemos observar no gráfico 1. Dentre estas publicações
observamos que a maioria dos pesquisadores desenvolviam seus estudos tendo
como maior foco as temáticas afro-brasileiras, notando-se no gráfico a baixo que
esta parcela é maior que a soma de temáticas africanas e afro-asiáticas.
(*G)-7+ $ ÷ Artigos publicados pelos pesquisadores do CEAO (1965-
1970).
A ausência quase que total de artigos que abordem questões sobre a Ásia
entre os pesquisadores do CEAO tem lugar pela forte projeção que os países
africanos adquiriam na época, tanto no cenário político e econômico mundial, como
no meio acadêmico que começava a atrair mais pesquisadores para a temática. A
influência visível da cultura africana no Brasil, principalmente as religiões de matriz
africana atraia cada vez mais pesquisadores que se dedicavam ao estudo da África
com a intenção de entender a formação da cultura afro-brasileira.
A produção científica do período tem caráter pioneiro e trouxe importante
contribuição na divulgação do conhecimento produzido pelo CEAO e para a
consolidação do campo historiográfico no que concerne a África e ao Afro-brasileiro.
32
Ver REÌS, Luiza Nascimento. O Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da
Bahia: Ìntercâmbio acadêmico e cultural entre Brasil e África (1959-1961). 2010. 217 f. Dissertação
(Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2010.
28
#6H A R/;-,5. A)*+-Á,-. / +, IR/5+*3.8+,J6
Os retornados compuseram um fenômeno que marcou com a influência
brasileira regiões situadas no golfo de Guiné. Desde 1835, com a Revolta dos
Malês, há na Bahia uma conjuntura desfavorável para escravos e libertos. Neste
período muitos escravos e ex-escravos foram deportados para a África pelas
autoridades em decorrência da participação na insurreição. Ocorreu também a
expatriação de alguns africanos islamizados como forma preventiva. Um intenso
movimento de retorno à África se inicia e estes retornados em maioria se fixam na
costa ocidental do continente. Manuela Carneiro da Cunha
33
afirma que estes ex-
escravos vindos do Brasil passam a se fixar na chamada "costa dos escravos¨ a
partir da década de 1830.
Nos anos seguintes diversos indivíduos que haviam sido arrancados da
África há vários anos e alguns outros que haviam nascido no Brasil, por motivos
diversos, retornavam ao continente africano e lá procuravam reestabelecer suas
vidas. Seguindo caminhos diferentes, alguns se aventuravam à procura de seu
local de origem, mas a maioria permaneceu na costa e formaram comunidades
"brasileiras¨. O intenso comércio na costa e a possibilidade de ascender
economicamente são alguns dos elementos que explicam a opção pela costa.
Muito raramente algum indivíduo que retornava do Brasil se reincorporava
à sua terra natal e aos seus ascendentes, a maioria chegava à África e se sentia
um estrangeiro.
Viveram assim duas vezes a condição de expatriados: a
primeira, como escravos africanos no Brasil; a segunda,
como ex-escravos brasileiros na África. Como se estivessem
para sempre fadados a estar no exílio em casa. [...]
Discriminados de início pelos demais africanos por serem
ex-escravos ou descendentes de escravos, transformaram
habilmente o opróbio em marca de prestígio, e o cativeiro
num exílio enriquecedor, que os tornara íntimos dos valores,
das técnicas e dos modos de vidas que os europeus
estavam trazendo para a África. [...] Como defesa,
desenvolveram o orgulho da diferença. E
surpreendentemente transformaram o Brasil onde tinham
33
CUNHA, Manuela Carneiro da. %egros, estrangeiros: os escravos li&ertos e sa volta ' África,
São Paulo, Companhia das Letras. 2012.
29
sido maltratados e humilhados num ícone grupal e na mais
importante referência da memória coletiva.
34
Os motivos que levaram os retornados a constituírem comunidades
brasileiras são bem explicados por Cunha. Alguns dos integrantes dessa
comunidade viriam a se tornar importantes agentes do tráfico de escravos na
região, e assim acumular grandes fortunas. Outros tendo aprendido quando
escravos ofícios como pedreiros, carpinteiros, ourives, alfaiates, doceiras, etc.
passavam a desenvolver uma mão de obra valorizada pelos europeus instalados
no continente africano.
No pós-escravidão muitos ex-cativos também embarcaram de volta para a
África em busca do sonho de regressar às suas origens, mas ao chegarem,
acabava possuindo alternativas limitadas, e basicamente optavam por também
permanecer na costa da África.
Os "retornados¨, como ficaram conhecidos, são objeto de pesquisa há
muito tempo. Já existia referência deles em obras de Nina Rodrigues e nas
reportagens de Gilberto Freyre, entre outros. Entre os intelectuais do CEAO Yêda
Pessoa Castro (do Setor de Estudos Linguísticos) e Júlio Santana Braga (Do
Setor de Estudos Sociológicos e Antropológicos) se destacam por suas pesquisas
voltadas para a observância de traços da cultura brasileira mantidos nas
comunidades de "brasileiros¨ na África. Estas pesquisas foram incentivadas por
Pierre Verger que era um grande colaborador do centro e já nutria interesse pela
pesquisa do assunto.
Na primeira edição da revista Afro-Ásia, em 1965, Yeda Pessoa Castro
publica o artigo "Notícia de uma pesquisa em África¨, este artigo divulga alguns
resultados de uma pesquisa iniciada em 1962 quando a pesquisadora viaja para a
cidade de Lagos
35
na Nigéria onde, por meio do etnólogo Pierre Verger, conhece a
"Brazilian Community¨
36
.
Yeda Pessoa de Castro é linguista por formação, e se interessa intensamente
as temáticas afro-brasileiras ao qual dedica sua carreira. Através dos estudos da
língua ela procurava entender os aspectos culturais da comunidade que tanto se
34
Ìbid., p. 10-12.
35
Antiga capital da Nigéria.
36
Comunidade constituída em sua quase totalidade por descendentes de brasileiros. Em 1962 Yeda
conheceu alguns brasileiros natos que retornaram à Nigeria nos fins do século XÌX.
30
aproximava do Brasil. A primeira observação da pesquisadora sobre o contato com
aquele povo, foi de como o português por eles falado era um português arcaico,
cristalizado, do século XÌX.
Sabendo-se ser a língua um fato social, um instrumento de
intercâmbio humano, como tal sujeita às modificações trazidas
por influências externas, pelo contato, a falta deste,
consequentemente, provoca um isolamento maior que
condiciona uma vida arcaizante e uma linguagem mais
conservadora.
37

Logo após sua chegada Castro se dedica ao levantamento do vocabulário da
língua portuguesa falada por aquele povo, principalmente por considerar que os
"brasileiros¨ estavam desaparecendo gradativamente, e que o português estava
perdendo as suas características brasileiras devido ao contato frequente com outras
culturas. Castro lamenta não poder estender a sua pesquisa às demais
comunidades "brasileiras¨ ao longo da costa ocidental africana. A pesquisadora nota
que os agudá
38
formavam uma "burguesia intelectual¨ pois conheciam as letras e
eram em maioria católicos. Além disso muitos dominavam técnicas de mão de obra
importante para os ingleses que desejavam reconstruir uma nova cidade.
Após a aplicação de um extenso questionário para o levantamento e coleta de
dados para a pesquisa, Castro observou diversas semelhanças culturais mantidas
entre aquelas pessoas e o Brasil, mais especificamente a Bahia. Exemplo disso
foram as cantigas populares e brincadeiras muito semelhantes às baianas, salvo
pequenas alterações.
Concluindo seu texto Yeda Pessoa de Castro ressalta o que considera
importante na pesquisa dos retornados.
Resta-nos esperar que esta notícia possa atrair a atenção dos
estudiosos de Cultura Brasileira para pesquisas dessa natureza
em África, e, acima de tudo, mostrar a importância da
comunidade brasileira de Lagos como fonte válida de
informações para o Folclore e a Dialetologia Brasileira, em
particular, que merece ser tratada não como assunto de
simples curiosidade jornalística, mas como documento ainda
vivo do Brasil passado.
37
CASTRO, Yeda Pessoa de. Notícia de uma pesquisa em África. Afro-Ásia, 1 (1965). P. 42.
38
Castro define agudá como nome que são conhecidos na Nigéria os brasileiros e os católicos.
31
Os demais textos
39
de Yeda Pessoa de Castro publicados entre 1965 e 1970
não se debruçam sobre o estudo dos retornados, mas seguem o mesmo objetivo de
descobrir laços culturais, e neste caso linguísticos, entre a África e o Brasil.
Júlio Santana Braga, pesquisador também vinculado ao CEAO, se dedica aos
retornados mas sobre uma abordagem sócio-antropológica. Publica o seu primeiro
texto, nas edições 6ª e7ª da Afro-Ásia data de 1968 intitulada de "Notas sobre o
"Quartier Brésil" no Daomé¨, já inicia o texto lastreando-se em Verger, como forma
de embasar o seu pensamento sobre a figura do "retornado¨ e seu enquadramento
no cenário da época.
O retorno dos africanos, escravos e emancipados, à sua terra
de origem explica-nos "Pierre Verger: foi o resultado de uma
dupla influência: uma voluntária e outra espontânea, causada
pela fidelidade a terra de onde tinha sido arrancados contra a
sua vontade; a outra passivamente sofrida e involuntária foi
provocada por medidas tomadas pela policia, após revoltas e
agitações, dos africanos, escravos emancipados¨.
40
Logo na primeira página Braga faz referência a três autores que exercem
grande influência sobre os pesquisadores vinculados ao Centro e que foram
pioneiros em falar dos retornados no Brasil: Nina Rogrigues, Gilberto Freyre e Pierre
Verger.
Diferente de Yeda Pessoa Castro que pesquisou os retornados do "Brazilian
Quartier¨ na Nigéria, Braga focou sua pesquisa na cidade Uidá no Daomé
41
. O
trabalho realizado sobre os agd(s, ressalta a postura de superioridade mantida por
eles frente aos demais moradores do local. Almejando ainda maior status lograram
êxito temporário no tráfico negreiro e acabaram por formar uma espécie de
burguesia em fase embrionária.
Adiante, o autor suscita a questão de que paralelamente aos retornados que
desenvolviam atividade escravagista, existiam aqueles que dominavam certo tipo de
ofício, estabelecendo-se como pedreiros, artesãos, barbeiros, entre outros.
39
"A sobrevivência das línguas africanas no Brasil: sua influência na linguagem popular da Bahia¨;
"Etnônimos africanos e formas ocorrentes no Brasil¨
40
BRAGA, Júlio Santana. Notas Sobre o "Quartier Brésil¨ no Daomé. Afro-Ásia, 6/7. (1968) p. 55
41
Atual Benin.
32
Ao se radicarem na costa da África, precisamente em Uidá, formaram uma
comunidade, um conglomerado de indivíduos que acabou por ser batizado de
)artier !resil (Bairro Brasil), lá os mesmos buscaram manter as tradições e
experiências oriundas do Brasil, estas que acabaram se misturando de maneira
indissolúvel com a cultura desses indivíduos.
Observamos que muitas características ressaltadas por Yeda P. Castro sobre
a "Brazilian Community¨ e por Braga sobre o "Quartier Brésil¨ são semelhantes.
Mencionando J. Duncan, Júlio Santana Braga (1968 pg. 57) traz a lume a
superioridade em alguns aspectos dos "brésiliens¨ recém-chegados.
A parte portuguesa de Uidá, onde estão estabelecidos os
"brésiliens¨, escreve esse autor, ultrapassa em toda acepção
do termo a parte inglesa e a parte francesa Ìsto pode ser
atribuído à superioridade de seus conhecimentos em
agricultura e em economia doméstica e conforto. Eles possuem
um grande número de pequenas fazendas muito bem
cuidadas; são muito mais asseados em suas vestimentas e em
aparência física do que aqueles que jamais deixaram a sua
pátria na condição de escravos.
42
.
Por meio desta observação a cerca do estabelecimento e alguns costumes
dos retornados daquela região, podemos perceber que o fato de terem permanecido
no Brasil por um longo período, e tendo desenvolvidos técnicas e conhecimentos
mais distintos, acabou por facilitar aos agudás a autoafirmação de superioridade
frente aos outros membros da comunidade local.
Apesar dessa pujança eles viviam em uma situação peculiar, pois almejavam
cargos políticos importantes e não apenas se tornar uma burguesia agrícola, mas ao
contrario, os mesmos tiveram as suas expectativas frustradas haja vista serem
considerados apenas negros pelos ingleses e serem vistos como brancos pelos
africanos.
Ao final de seu texto Júlio Santana Braga, realiza um balanço da ocupação
dos retornados em Uidá e acaba por, também suscitar que o progresso daquela
região da Costa Ocidental da África em muito se deve aos retornados, que além de
42
BRAGA, Júlio Santana. Notas Sobre o "Quartier Brésil¨ no Daomé. Afro-Ásia, 6/7. (1968) p. 57
33
seus costumes abrasileirados, trouxeram também certa bagagem de conhecimento
e novas formas de pensar.
Como quer que tenha sido Uidá foi a cidade que mais sentiu a
influência da cultura brasileira, resultante do prolongado
comércio existente entre esta cidade e a Bahia de Todos os
Santos, desta Bahia que aos olhos dos ex-escravos era a mais
importante das cidades brasileiras e lhe servia a designar de
uma maneira geral todos os países situados fora da África, lá
se fixaram levando consigo traços da cultura brasileira já
africanizada e que, em contato com a cultura daomeana se
reafricanizariam, se daomeanizariam. Traços que continuam a
ser, como nos dizeres de Paulo Mercier, sinais destes laços
profundos e complexos, que tantos homens hoje, de um lado e
outro do oceano, desejariam ver revividos.
43
A questão que Braga levanta no paragrafo final do seu texto é que a cultura
africana ao ser transportada para o Brasil sofre grandes alterações tornando-se uma
cultura dita afro-brasileira, e retornando à África esta cultura é novamente
remodelada sendo reafricanizada, ou mais especificamente no caso dos fixados em
Uidá, se daomeanizaram. Sobre estes complexos processos identitarios, Manuela
Carneiro da Cunha faz um importante questionamento.
Escravos libertos de origem africana voltam do Brasil para as
suas regiões de origem. Lá chegados, concebem-se
brasileiros, são vistos como "brancos negros¨. Apesar de
muitos serem mulçumanos, apesar de no Brasil a religião dos
orixás se ter mantido em vigor, na África a comunidade se
agrega em torno do catolicismo. Qual a identidade dessa gente
e o sentido dessa história?
44
Concluindo o seu texto Manuela afirma ainda que:
A identidade é construída de forma situacional e contrativa, ou
seja, que ela constitui resposta política a uma conjuntura,
resposta articulada com as outras identidades em jogo, com as
quais forma um sistema. É uma estratégia de diferenças. [...]
Em suma, a identidade era necessária para tornar significativa
a história pessoal (que era desinteressante). Sem esse
43
BRAGA, Júlio Santana. Notas Sobre o "Quartier Brésil¨ no Daomé. Afro-Ásia, 6/7. (1968) p. 61
44
CUNHA, Manuela Carneiro da. %egros, estrangeiros: os escravos li&ertos e sa volta ' África, São
Paulo, Companhia das Letras. 2012. P.19.
34
pressuposto a história não fazia sentido. A questão interessante
é que talvez a história não faça sentido e que a identidade seja
uma condição supérflua.
45
Muitos trabalhos se dedicaram e avançaram nos estudos sobre os retornados
nas ultimas décadas, acreditamos que as publicações na revista Afro-Ásia
contribuíram significativamente para o alargamento das discussões sobre este tema,
e também das diversas outras temáticas trazidas pela revista no que se refere ao
campo de estudos africanos e afro-brasileiros.
Mesmo sendo criticada por não conter discussões políticas, e priorizar uma
abordagem cultural a revista dá conta do que foi proposto no momento de sua
criação, que seria a divulgação do conhecimento adquirido pelos pesquisadores do
CEAO nos seus estudos na África, ou sobre suas relações com o Brasil. Assim,
como afirma Luiza Reis
46
, "Evidenciar a riqueza cultural africana e afro-brasileira foi,
portanto, a contribuição da Afro-Ásia.¨
45
Ìbid., p 242-244.
46
REÌS, Luiza Nascimento dos. O que a Afro - Ásia tem? África na revista do Centro de Estudos Afro-
Orientais (1965-1995). Simpósio Nacional de História. 25. 2009. Fortaleza. ANPUH. Universidade
Federal do Ceará. 2009
35
$6 CONCLUS&O
Conclui-se por meio deste trabalho que as publicações da revista Afro-Ásia,
muito contribuíram para a sintetização do conhecimento sobre os povos e culturas
africanas e sua cultura influencia no Brasil. Realizando uma observação dos anos
iniciais do Centro de Estudos Afro-Orientais, no que se referem as suas ações de
intercambio com diversos países do continente africano, conseguimos ver como a
sua organização institucional que culmina com a edição da Revista, está ligado aos
acontecimentos políticos e econômicos no cenário nacional e internacional.
* apoio institucional, ofertado pela +niversidade da ,a%ia na -poca da funda&'o do
$E)*, teve grande import.ncia para as bases da revista, /ustamente por ter sido
imprescind0vel para a reali1a&'o das atividades previstas por )gostin%o da 2ilva e efetivada
pelos pes3uisadores vinculados ao $entro, atividades essas 3ue culminaram mais tarde no
advento do peri4dico.
O CEAO tinha como um de seus objetivos a consolidação e perpetuação dos
conhecimentos obtidos por seus pesquisadores, muitos deles em solo Africano, dai
então a necessidade da elaboração de um periódico de natureza, histórico-
antropológico sem precedentes na América Latina.
A Afro-Ásia vincula-se ao CEAO sendo criada como revista acadêmica no ano
de 1965, voltando-se para pesquisas e estudos que se relacionassem com à África,
o periódico é editado ainda hoje estando em atividade e sempre fomentando novas
perspectivas sobre os mais diversos aspectos da cultura, linguagem e históricos dos
povos a que se propõe analisar.
O periódico foi marcado pelas mais diversas situações históricas, como na
década de 60, pela independência política de grande parte das nações africanas que
ainda eram colônias e foi nesse cenário que a mesma surgiu, com a finalidade de
alcançar um conhecimento mais amplo da realidade africana e asiática e,
essencialmente com relação destes povos ao povo brasileiro.
Ìnúmeros destes pesquisadores que são vinculados ao CEAO se interessam
prioritariamente pela cultura afro-brasileira e a procura por raízes culturais e
históricas do seu objeto de pesquisa em solo africano. Podemos dizer que a maior
parte deste interesse pela cultura africana, em especial na Bahia era motivado pela
enorme influência da religião afro-brasileira.
36
Este dado ainda se torna mais nítido, pois todas as revistas à exceção da
primeira procuram traçar com seus estudos um cenário que seja propicio ao
entendimento da religião e da cultura afro-brasileira.
Ao longo da elaboração deste trabalho acabou-se por perceber que os
pesquisadores se direcionavam ao continente negro, buscando entende-lo, por
acreditar que existem diversas semelhanças culturais entre os países da África,
principalmente nos da Costa Ocidental, com o Brasil.
Um dado importante é a percepção de que esta busca intentada
constantemente acabou por contribuir de certo modo para a modificação do conceito
de cultura que antes era entendida como algo estático e hoje é relativizada de
acordo com os diferentes povos, espaços e situações.
A revista, neste período buscou estabelecer um referencial acadêmico, não
apenas das colônias portuguesas, como era a ideia inicial de Agostinho da Silva,
mas essencialmente dos demais países africanos e esta mudança na posição em
muito se deu pela influência do grande colaborador do CEAO, Pierre Verger, que
almejava estabelecer contatos mais efetivos com os países da Costa Ocidental e
tinha grande interesse nos "retornados¨.
A troca de informações constantes, fomentadas inicialmente por Agostinho da
Silva e posteriormente pelos demais pesquisadores do CEAO, acabou por oferecer à
"Afro-Ásia¨ um caráter inovador, fazendo jus ao seu pioneirismo. Mesmo tendo como
referências para as suas pesquisas intelectuais de fins do século XÌX e início do XX,
os pesquisadores vinculados ao CEAO deram conta de tratar, com as ferramentas
que lhes eram disponibilizadas, desta "nova África¨ que surgia com toda força no
cenário mundial. Assim, diversos temas foram trabalhados sobre as mais diversas
abordagens, e por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, conferindo ao
CEAO e também a Afro-Ásia o aspecto plural e multidisciplinar que até hoje é
marcante em suas ações e publicações.
$omo foi visto no decorrer deste trabal%o, 3uando do surgimento do peri4dico o
$E)* /á possu0a seis anos de e5ist6ncia, sempre marcado por iniciativas pioneiras de
con%ecer mel%or a cultura de povos africanos bem como a sua dissemina&'o cultural em solo
brasileiro e suas áreas de maior impacto.
37
7esde o in0cio de sua tra/et4ria a revista sempre foi mais “Afro” do 3ue “Ásia”. )s
pes3uisas sobre temáticas africanas e afro8brasileiras foram divulgadas muito mais
intensamente do 3ue as temáticas asiáticas o 3ue de certo modo reflete a tra/et4ria do centro
3ue sempre se dedicou com maior afinco aos estudos relacionados à África. Este fato pode ser
observado desde o primeiro momento do centro, 3uando se deu o interc.mbio acad6mico
entre ,rasil e África.
O destaque no cenário mundial que adquiria os países africanos após o início
da década de 1960 se justificava pelo alcance da autonomia política destes países,
antes mantidas sobre o jugo colonial. No Brasil o interesse pela realidade africana se
intensifica não só no cenário político nacional, mas também no meio acadêmico.
Vários pesquisadores que tiveram a oportunidade de elaborar estudos de
campo em diferentes países do continente africano, ao retornar para o Brasil,
puderam tornar públicas as suas pesquisas por meio de artigos divulgados na
revista Afro-Ásia a partir de 1965. Vale lembrar que a divulgação do conhecimento
interno, era o principal objetivo da revista quando da sua fundação. Esta finalidade
daria mais visibilidade aos trabalhos dos pesquisadores e, por consequência, ao
CEAO.
9odemos afirmar 3ue parte dos ob/etivos alme/ados pelo $E)* e pela Afro-Ásia
foram alme/ados. * $E)* cresceu, se diversificou e se consolidou no cenário nacional
mesmo enfrentando graves crises. )inda vinculado à +niversidade :ederal da ,a%ia, %o/e
mant-m uma estrutura pr4pria e conta com um ;useu )fro8,rasileiro (;):<*#, biblioteca,
diversos pro/etos, cursos, oficinas e seminários abertos à comunidade em geral, al-m de, mais
recentemente, abrigar um programa de p4s8gradua&'o voltado para os Estudos =tnicos. 2em
es3uecer uma das mais antigas e efetivas a&(es do $E)*: a publica&'o da revista Afro-Ásia.
* peri4dico > apesar de tamb-m enfrentar grandes dificuldades e c%egar a sair de circula&'o8
%o/e - publicado semestralmente e mant-m a regularmente sua publica&'o desde 1".
)pesar de suas limita&(es, tendo focado principalmente as 3uest(es culturais em
detrimento de outras abordagens, a Afro-Ásia nos seus seis primeiros, deu conta da sua
proposta inicial de fa1er com 3ue mel%or se con%e&a e compreenda os pa0ses e as diferentes
realidades africanas.
38
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