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Semeando Competência Gerencial em Micro e Pequenas Empresas e Colhendo Emprego,

Renda e Inclusão Social.

Prof. Dr. Cleber Carvalho de Castro – Universidade Federal de Lavras – clebercastro@ufla.br


Andréia Candido de Mendonça – Graduanda em Administração – Universidade Federal de
Lavras – deiacmendonca@yahoo.com.br
Bruno Corrêa Fonseca – Graduando em Administração – Universidade Federal de Lavras –
brunocorreaf@hotmail.com
Prof. Dr. Joel Yutaka Sugano – Universidade Federal de Lavras – Joel.sugano@ufla.br
Prof. Bruno Tavares – Doutorando – Universidade Federal de Lavras – btavares@ufv.br

INTRODUÇÃO

Os micro e pequenos empreendimentos (MPEs) representam 98,2% do total de


estabelecimentos formais no Brasil além de, aproximadamente, 9,5 milhões de empreendedores
informais. Este total de agentes econômicos desempenham importante função econômica e social,
sendo responsáveis por quase 60% dos empregos, desempenhando importante papel no
desenvolvimento do país.
No entanto, os micro e pequenos empresários possuem carência de informação básica
sobre gerenciamento desse tipo de empresa, o que restringe a obtenção de melhorias gerenciais,
restringindo a realização do potencial sócio-econômico das MPEs (como a geração de emprego e
renda) além de contribuir para o elevado índice de mortalidade dos MPEs (CÊRA; ESCRIVÃO
FILHO, 2003; VIAPIANA, 2001). Esta realidade é agravada pelo distanciamento entre estas
organizações e as entidades de ensino e pesquisa, além da escassez de mecanismos eficientes de
incentivos e qualificação para empresas iniciantes.
Este projeto buscou atuar sobre esta realidade, buscando uma interação com empresários
locais e favorecendo o aperfeiçoamento de seus negócios. Neste sentido, este projeto teve como
objetivo principal sensibilizar micro e pequenos empresários para a aplicação de tecnologia
gerencial em seus empreendimentos.

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Os objetivos específicos foram:
a) Identificar interesses e necessidades dos micro e pequenos empresários em relação
às práticas gerenciais que possam melhorar seu desempenho;
b) Avaliar a receptividade dos micro e pequenos empresários e seus funcionários em
relação às palestras;
c) Promover palestras gratuitas focadas nos interesses e necessidades identificados.

Metodologia:

O projeto foi realizado em dois momentos. A primeira fase ocupou-se da realização de um


diagnóstico (SEIXAS; GRAVE, 2004; LIMA, 2001) da situação gerencial dos micro e pequenos
empreendimentos, a qual serviu também como um meio de aproximação dos empresários. A
segunda etapa constitui-se da apresentação dos resultados e o planejamento de um ciclo de
palestras ministradas com professores da Universidade Federal de Lavras, segundo os interesses e
carências identificadas.
Para a primeira fase, foram aplicados questionários com o objetivo de identificar os
principais interesses e dificuldades dos micro e pequenos empresários do Pequeno Varejo de
Alimentos de Lavras (mercearias, padarias, açougues e verdurões). O instrumento de coleta
continha 23 questões relativas ao perfil dos microempresários e elementos essenciais para a
gestão dos estabelecimentos, incluindo aspectos da gestão financeira, de pessoas e de de
comercialização. Ao longo do questionário havia espaços para a anotação da percepção do
pesquisador e a adição de respostas não previstas.
A área abrangida foi delimitada em 30 bairros da cidade de Lavras (MG) incluindo a
região central e o entorno limitado pela linha férrea. Desta maneira, acredita-se que a maioria dos
estabelecimentos objeto deste projeto foram contemplados, tanto em termos de número quanto
em termos de importância econômica. No total, foram entrevistados 88 estabelecimentos, sendo
52 mercearias, 12 padarias, 11 açougues, e 13 verdurões.
A partir dos resultados da primeira parte, foi planejado um ciclo de palestras com vistas a
reduzir as carências identificadas. Para ministrar as palestras, foram convidados dois professores
do Departamento de Administração e Economia.

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A realização do ciclo de palestras obedeceu a disponibilidade dos empresários, havendo
um campo no questionário que contemplava esta informação. Na semana anterior ao evento, os
empresários foram contatados via telefone, informando dia, horário, local e o tema das palestras.
Na mesma semana do evento, houve um segundo contato para lembrá-los e reforçar o convite.
Após o evento, solicitou-se aos presentes que preenchem-se um formulário de avaliação das
palestras.

Resultados e discussões:

Nesta seção serão apresentados os principais resultados do projeto. Inicialmente são


discutidos os resultados da primeira fase e, posteriormente, os da segunda fase.
O primeiro fator pesquisado na etapa de diagnóstico das pequenas empresas refere-se às
principais dificuldades cotidianas de gestão que são enfrentadas pelos empresários. O Tabela 1
apresenta os resultados. Como pode ser observado, o principal fator mencionado é o pagamento
de impostos, o qual foi indicado por quase 50% dos entrevistados. Portanto, conclui-se que este
elemento deveria ser considerado na formação dos pequenos empresários e fazer parte do
conteúdo do treinamento, na segunda fase do projeto.

Freqüência Absoluta
Mercearia Padaria Açougue Verdurão Total
Falta de capital para investir 8 0 0 2 10
Controle financeiro 3 1 1 0 5
Controle de estoque 2 0 2 0 4
Pagamento de impostos 26 6 5 5 42
Falta de capital de giro 2 1 1 1 5
Conquista de novos clientes 4 2 1 1 8
Outro 7 2 1 4 14
Total 52 12 11 13 88
Tabela 1: Quais são as principais dificuldades de gestão que você encontra no dia-a-dia?
Fonte: Dados da pesquisa

Outro ponto pesquisado foi quanto ao modo de pagamento dos clientes. A tabela 2 demonstra que
mais de 70% das mercearias tem como principal modo de pagamentos dos clientes através da

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venda a prazo com anotação em cadernetas, o que representa uma dificuldade na formação do
capital de giro da empresa. Os setores de padarias, açougues e verdurões, apresentaram resultado
inverso. Nestes, a grande maioria das vendas é realizada a vista e em dinheiro, favorecendo a
formação do capital disponível para o curtíssimo prazo.

Freqüência Absoluta
Mercearia Padaria Açougue Verdurão Total
À vista, em dinheiro 14 7 10 8 39
À prazo, na caderneta 38 4 1 5 48
Cheque à vista 0 0 0 0 0
Cheque pré-datado 0 1 0 0 1
Cartão de crédito 0 0 0 0 0
Cartão de débito 0 0 0 0 0
Outro 0 0 0 0 0
Total 52 12 11 13 88
Tabela 2: Qual o principal modo de pagamento dos clientes?
Fonte: Dados da pesquisa

Os efeitos da inadimplência, além de logicamente consistentes com a teoria, são


verificados pelos empresários. Pode-se constatar que nos setores de mercearias e verdurões a
inadimplência é considerada como um dos principais fatores que atrapalham o desenvolvimento
dos negócios. Outro fator destacado na tabela 3 refere-se a elevada concorrência, o que diz
respeito à área de marketing. Nesta área é desenvolvido o diferencial de cada empresa no
mercado de modo a obter uma vantagem competitiva o que envolve uma analise da concorrência.

Freqüência Absoluta
Mercearia Padaria Açougue Verdurão Total
Falta de recursos para investir 3 0 2 3 8
Inadimplência dos clientes 18 2 1 4 25
Alta concorrência 20 8 3 3 34
Localização ruim 3 0 0 1 4
Outros 8 2 5 2 17
Total 52 12 11 13 88
Tabela 3: Quais os principais motivos dessa situação não estar melhor?
Fonte: Dados da pesquisa

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Na tabela 4 pode-se observar que a maioria dos respondentes afirmaram que “prestam
atenção” na concorrência. No entanto, por meio da observação durante a pesquisa de campo,
notou-se que os empresários dos setores de mercearias e verdurões não fazem uma analise
sistemática concentrando-se apenas no elemento preço. Conclui-se que os conhecimentos de
marketing constituem uma carência gerencial e, portanto, foi incluída no ciclo de palestras.

Freqüência Absoluta
Mercearia Padaria Açougue Verdurão Total
Sim 27 7 6 6 46
Não 18 5 2 6 31
Às vezes 7 0 3 1 11
Total 52 12 11 13 88
Tabela 4: Você presta atenção nos seus principais concorrentes para tomar medidas que posam
lhe favorecer da concorrência?
Fonte: Dados da pesquisa

A tabela 5 demonstra que os empresários não relataram grandes dificuldades na gestão de


pessoas. A categoria “outros” inclui as respostas dos casos nos quais a empresa não possui
funcionário ou relatou não haver problemas. Especialmente nos setores de açougues e de
padarias, houve relatos de dificuldades de encontrar profissionais qualificados para a área de
produção. Todavia, conforme percebido na tabela 5, esta realidade parece não provocar
problemas de falta de treinamento ou de experiência. Por decorrência a área de gestão de pessoas
não foi contemplada no ciclo de palestras.

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Freqüência Absoluta
Mercearia Padaria Açougue Verdurão Total
Faltas freqüentes 0 1 0 0 1
Falta de treinamento 6 0 1 0 7
Falta de experiência 1 2 2 3 8
Rotatividade 0 5 1 1 7
Outros 45 3 7 9 64
Total 52 12 11 13 88
Tabela 5: Quais os principais problemas que você tem com os funcionários?
Fonte: Dados da pesquisa

A partir dos resultados da fase 1 conclui-se que os principais elementos a serem


considerados no treinamento deveria ser marketing e controle financeiro. Dando seqüência ao
projeto deu-se inicio a promoção ao ciclo de palestras.
A segunda fase iniciou-se com o convite aos professores do Departamento de
Administração e Economia das respectivas áreas identificadas na primeira fase. Definimos a data
e o local das palestras de acordo com informações da disponibilidade obtidos na pesquisa. Após
essa definição passamos para a fase de divulgação que foi feita através de telefonemas para todos
os empresários entrevistados.
As palestras foram executadas de maneira informal com linguagem e conteúdo adequada
ao publico, com duração aproximada de 2 horas e meia cada palestra. As palestras iniciaram com
o esclarecimento geral do assunto, seguido de sugestões de soluções para os problemas em
comum apresentados pelos empresários, ao se encerrar a palestra iniciou-se um espaço para
dúvidas e discussões.
Ao final das palestras foi aplicado um questionário para os micro empresários de
satisfação para identificar o aproveitamento e a qualidade das palestras ministradas.

Conclusão
Dentre os principais resultados do projeto, pode-se afirmar que os principais interesses e
necessidade dos pequenos empresários em relação às práticas gerenciais foram controle
financeiro e marketing. Outro ponto importante detectado na pesquisa foi a diferença entre as
formas de pagamento dos clientes, segundo os setores pesquisados. No setor de mercearia, o
principal modo de pagamento é a prazo, com anotação em cadernetas. Nos setores de padarias,

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açougues e verdurões é a vista e em dinheiro. Um outro ponto detectado é que umas das maiores
fontes de informação para os micro e pequenos empresários são os seus contadores e amigos. Isto
condiz com pesquisas anteriores (LEONE, 1999; LIMA, 2000) e destaca a importância dos
contadores e das relações sociais para a tomada de decisão nos micro e pequenos negócios.
Destaca-se, também, que não obstante o esforço realizado para adequação às necessidades
e disponibilidade dos empresários, e muitos terem afirmado possuir grande interesse em
participar de palestras e mini-cursos, participação na segunda fase do projeto foi baixa. Isto
demonstra que existem barreiras entre instituições de ensino e pesquisa que não foram
eliminadas. Esta afirmação é corroborada pelos resultados da avaliação dos presentes no cilco de
palestras, os quais avaliaram as palestras como proveitosas e úteis para a gestão cotidiana e para a
sobrevivência e prosperidade dos seus negócios.
Por fim, sugere-se a continuidade do projeto, incorporando novas metodologias de
sensibilização e aprendizagem para melhorar a interação com os pequenos empresários.
Podemos concluir com este trabalho que apesar das poucas políticas públicas de apoio aos
micro e pequenos empresários e a dificuldade de acesso à informação, o interesse apresentado
pelos micro e pequenos empresários do pequeno varejo de alimentos de Lavras foi aquém do
esperado.

Referencias Bibliográficas

SEBRAE. Lei geral das micro e pequenas empresas: com a pequena empresa forte se constrói
um Brasil mais justo. Brasília: SEBRAE, 2005.

SEBRAE. Estudos e pesquisas. [online]. Disponível em:


http://www.sebrae.com.br/br/aprendasebrae/estudosepesquisas.asp. Acesso em: 11 de novembro
de 2004.

CÊRA, Kristiane e ESCRIVÃO FILHO, Edmundo. Particularidades de gestão da pequena


empresa: condicionantes ambientais, organizacionais e comportamentais do dirigente. In: EGEPE
– ENCONTRO DE ESTUDOS SOBRE EMPREENDEDORISMO E GESTÃO DE PEQUENAS
EMPRESAS. 3., 2003, Brasília. Anais... Brasília: UEM/UEL/UnB, 2003, p. 796-812.

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LEONE, Nilda Maria de C. P. G. As especificidades das pequenas e médias empresas. Revista
de Administração, São Paulo, v. 34, n. 2, p.91-94, abril/junho 1999.

LIMA, A. A. T. de F. de C.; Meta-modelo de diagnóstico para pequenas empresas.


Florianópolis, 2001. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina.

LIMA, J.B.,Temas de Pesquisa e Desafios da Produção Cientifica sobre a PME ANAIS DO I


IGEPE, out./2000 p. 92-111

SEIXAS, R.A.; GRAVE, P.S. Diagnóstico organizacional: elementar, meu caro


administrador!. Disponível em:
http://www.angrad.com/cientifica/artigos/artigos_enangrad/enangrad_9.asp Acesso em: 11 de
novembro de 2004.

VIAPIANA, C. Fatores de sucesso e fracasso na micro e pequena empresa. In: ENCONTRO DE


ESTUDOS SOBRE EMPREENDEDORISMO E GESTÃO DE PEQUENAS EMPRESAS, 2.,
2001, Londrina. Anais... Londrina: UEL/UEM, 2001. p 505-525. CD ROM.

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