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TEMPO COMUM. VIGÉSIMA NONA SEMANA.

QUINTA-FEIRA

52. VIM TRAZER FOGO À TERRA!


– O zelo divino de Jesus por todas as almas.

– O apostolado no meio do mundo deve propagar-se como um incêndio de paz.

– A Santa Missa e o apostolado.

I. COMO AMIGO verdadeiro, o Senhor manifesta aos seus discípulos os


seus sentimentos mais íntimos. Assim, fala-lhes do zelo apostólico que o
consome, do seu amor por todas as almas: Vim trazer fogo à terra, e que quero
senão que arda? E mostra-lhes a impaciência divina com que deseja que a sua
entrega ao Pai pelos homens se consuma no Calvário: Tenho que ser
baptizado com um baptismo de sangue; e como é grande a minha ansiedade
até que ele se realize!1 Na Cruz, o amor de Deus por todos nós chegou à
plenitude, pois ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus
amigos2. Desta predilecção participamos os que o seguimos.

Santo Agostinho, comentando esta passagem do Evangelho da Missa,


ensina: “Os homens que acreditaram n’Ele começaram a arder, receberam a
chama da caridade. Esta é a razão pela qual o Espírito Santo apareceu sob
essa forma quando foi enviado aos Apóstolos: E apareceram-lhes como que
umas línguas de fogo, que pousaram repartidas sobre cada um deles (Act 2, 3).
Inflamados por este fogo, começaram a ir pelo mundo e a inflamar por sua vez
e a prender fogo entre os inimigos à sua volta. Que inimigos? Os que
abandonaram a Deus que os criara e adoravam as imagens que eles mesmos
tinham feito [...]. A fé que há neles encontra-se como que afogada pela palha.
Convém que ardam nesse fogo santo para que, uma vez consumida a palha,
resplandeça essa realidade maravilhosa redimida por Cristo”3. Agora, somos
nós que temos de ir pelo mundo com esse fogo de amor e de paz que inflame
os outros no amor de Deus e purifique os seus corações. Iremos às
Universidades, às fábricas, às tarefas públicas, ao nosso próprio lar...

“Se numa cidade se ateasse fogo em vários lugares, mesmo que fosse um
fogo modesto e pequeno, mas que resistisse a todos os embates, em pouco
tempo a cidade seria presa das chamas.

“Se numa cidade se acendesse nos pontos mais díspares o fogo que Jesus
trouxe à terra, e esse fogo resistisse ao gelo do mundo pela boa vontade dos
seus habitantes, em pouco tempo teríamos a cidade incendiada de amor de
Deus.

“O fogo que Jesus trouxe à terra é Ele próprio, é a Caridade: esse amor que
não só une a alma a Deus, mas as almas entre si [...] E em cada cidade estas
almas podem surgir nas famílias: pai e mãe, filho e pai, mãe e sogra; podem
encontrar-se também nas paróquias, nas associações, nas sociedades
humanas, nas escolas, nos escritórios, em qualquer parte [...] Cada pequena
célula acesa por Deus em qualquer ponto da terra propagar-se-á
necessariamente. Depois, a Providência distribuirá essas chamas, essas
almas-chamas, onde julgar oportuno, a fim de que em muitos lugares o mundo
seja restaurado ao calor do amor de Deus e volte a ter esperança”4.

II. O APOSTOLADO no meio do mundo propaga-se como um incêndio.


Cada cristão que viva a sua fé converte-se num ponto de ignição no meio dos
seus, no lugar de trabalho, entre os amigos e conhecidos... Mas isso só lhe
será possível se cumprir o conselho de São Paulo aos cristãos de Filipos:
Tende entre vós os mesmos sentimentos que teve Cristo Jesus5. Esta
recomendação do Apóstolo “exige que todos os cristãos reproduzam nas suas
vidas, tanto quanto é possível ao homem, aquele sentimento que o Divino
Redentor tinha quando se oferecia em Sacrifício, isto é, que imitem a sua
humildade e elevem à suma Majestade de Deus a devida adoração, honra,
louvor e acção de graças”6.

É uma oblação que se realiza principalmente na Santa Missa, renovação


incruenta do Sacrifício da Cruz, em que o cristão oferece ao Senhor as suas
obras, as suas orações e iniciativas apostólicas, a vida familiar, o trabalho de
cada jornada, o descanso e mesmo as provações da vida, que, se forem
acolhidas pacientemente, convertem-se em meio de santificação7. Ao terminar
o Sacrifício eucarístico, o cristão sai ao encontro da vida decidido a seguir os
passos de Cristo na sua existência terrena: esquecido de si próprio e disposto
a dar-se aos outros para levá-los a Deus.

A vida do cristão deve ser uma imitação da vida de Cristo, uma participação
no modo de ser do Filho de Deus. Isto nos leva a pensar, olhar, sentir, actuar e
reagir como Ele diante das pessoas. Jesus via as multidões e compadecia-se
delas, porque eram como ovelhas sem pastor8, com uma vida sem rumo nem
sentido. Jesus compadecia-se delas; o seu amor era tão grande que não se
deu por satisfeito enquanto não entregou a sua vida na Cruz. Este amor deve
apossar-se dos nossos corações: então compadecer-nos-emos de todos
aqueles que andam afastados do Senhor e procuraremos colocar-nos ao seu
lado para que, com a ajuda da graça, conheçam o Mestre.

Na Santa Missa, estabelece-se uma corrente de amor divino a partir do Filho


que se oferece ao Pai no Espírito Santo. O cristão, incorporado a Cristo,
participa desse amor e chega a impregnar dele até as realidades terrenas mais
corriqueiras, que ficam assim santificadas e purificadas, e se tornam mais
aptas para serem oferecidas ao Pai pelo Filho, num novo Sacrifício eucarístico.

A acção apostólica está especialmente enraizada na Santa Missa, da qual


recebe a sua eficácia, pois não é mais do que a realização da Redenção no
tempo através dos cristãos: Jesus Cristo “veio à terra para redimir o mundo
inteiro, porque quer que os homens se salvem (1 Tim 2, 4). Não há alma que
não interesse a Cristo. Cada uma delas custou-lhe o preço do seu sangue (cfr.
1 Pe 1, 18-19)”9. Quando se quer imitar verdadeiramente o Senhor, deixa de
haver almas diante das quais se possa encolher os ombros.

III. QUANDO O CRISTÃO participa conscientemente da Santa Missa, pensa


em primeiro lugar nos seus irmãos na fé, com quem se sentirá cada vez mais
unido por partilhar com eles do pão da vida e do cálice da salvação eterna. É
um momento oportuno para pedir por todos, especialmente pelos mais
necessitados. Encher-nos-emos assim de sentimentos de caridade e de
fraternidade, “porque, se a Eucaristia faz que sejamos uma só coisa, é lógico
que cada um trate os outros como irmãos. A Eucaristia forma a família dos
filhos de Deus, irmãos de Jesus e irmãos entre si”10.

Mas depois desse encontro único com o Senhor e com os nossos irmãos na
fé, acontecerá connosco o mesmo que aconteceu àqueles homens e mulheres
que eram curados das suas doenças nalguma cidade ou caminho da Palestina:
ficavam tão alegres que não cessavam de apregoar por toda a parte o que
tinham visto e ouvido, o que o Mestre tinha levado a cabo nas suas almas ou
nos seus corpos.

Quando o cristão sai da Missa tendo recebido a Comunhão, sabe que já não
pode ser feliz sozinho, que deve comunicar aos outros essa maravilha que é
Cristo. Cada encontro com o Senhor conduz à alegria e à necessidade de
comunicar aos outros esse tesouro. Foi assim que o cristianismo se propagou
nos primeiros séculos: como um incêndio de paz e de amor que ninguém pôde
deter.

Se conseguirmos que a nossa vida gire em torno da Santa Missa, veremos


crescer em nós um desejo impetuoso de que Cristo seja conhecido, pois “se
vivemos bem a Santa Missa, como não havemos de continuar depois o resto
da jornada com o pensamento no Senhor, com o desejo irreprimível de não nos
afastarmos da sua presença, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como
Ele amava?”11

Além disso, saberemos apreciar o dom que representa a permanência do


Senhor no Sacrário, “o lugar tranquilo e aprazível onde está Cristo, onde lhe
podemos contar as nossas preocupações, os nossos sofrimentos, os nossos
anseios e as nossas alegrias, com a mesma simplicidade e naturalidade com
que lhe falavam aqueles seus amigos Marta, Maria e Lázaro”12. Nessa
confidência íntima, ouviremos o Senhor repetir-nos com a mesma impaciência
santa com que se dirigia aos Apóstolos: Vim trazer fogo à terra; e que quero
senão que arda? E animar-nos a meter ombros à tarefa, pois é urgente: Não
dizeis vós: Ainda há quatro meses até vir a ceifa? Pois bem, eu vos digo:
Erguei os olhos e vede; os campos estão brancos para a ceifa13.

E nós diremos ao Senhor, em resposta, que pode contar connosco, que


queremos imolar-nos como Ele no Sacrifício eucarístico, numa acção
apostólica silenciosa e eficaz como é a sua presença nos nossos Sacrários.
(1) Lc 12, 49; (2) Jo 15, 13; (3) Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 96, 6; (4) Chiara Lubich,
Meditações; (5) Fil 2, 5; (6) Pio XII, Carta Encíclica Mediator Dei, 20.11.47, 22; (7) cfr. Concílio
Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 34; (8) Mt 9, 36; (9) Bem-aventurado Josemaría
Escrivá, Amigos de Deus, n. 256; (10) Chiara Lubich, A Eucaristia; (11) Bem-aventurado
Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 154; (12) ibid.; (13) Jo 4, 35.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)