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Polichinello nº 14 | Literatura Selvagem

COMO SE NASCE NUMA ILHA DESERTA? | Eduardo Pellejero

Tradução: Susana Guerra

…o espírito constitui uma ilha, pequena mas segura, no centro de um mar de miséria e desolação. Margarete Buber-Neumann

Esta é a hora de escrever. É a manhã. Do outro lado do mundo – me consta – existem escritores notâmbulos que habitam esta hora ímpar de costas para o dia. Não poderíamos ser mais diferentes. Posso imaginá-los em seus sótãos finisseculares, com suas queridas e seus samovares, vivendo uma vida anacrônica, mas real, porque a noite é intemporal, como a bebida. Se gabam de que Paris é uma festa, celebram o sol mediterrâneo, rebentam de tuberculose. Li- os como um insone nas horas do sonho. Pode-se dizer que os sonhei, que me sonhei entre eles, ainda que nunca tenha abandonado esta terra sem sombra. Não nos une o mar que se estende perante mim, não nos separa. O mar é a única

realidade, a realidade é a distância. Já preparei

a garrafa, que ainda me queima a garganta. Em qualquer momento começará a descer a maré, mas não tenho nenhuma mensagem para enviar. A enviarei de qualquer forma. Como se nasce numa ilha deserta?

Evidentemente, é difícil não pensar no destino

das garrafas que atiro cada tarde, quando começa

a descer a maré, e por vezes já entrada a noite,

quando a lua me obriga a aventurar-me entre as rochas da costa para cumprir com meu propósito. O ruído do vidro cortando a água, quando não o afogado arranhar do lápis sobre o papel, desperta em mim evocações de praias longínquas, de encontros improváveis, que dão sentido (um sentido necessariamente diferente) às mensagens que escrevo. Mas são as garrafas que vêm dar a mim as que desvelam minhas noites. Dia após dia vêm dar a esta costa. Por que a esta costa e não a

outra? É que todas as correntes do oceano passam

por este lugar? É que existem tantas ilhas desertas no mar, tantos náufragos? Começo a recolhê-las de madrugada, com as primeiras luzes, enquanto exploro os despojos que se acumulam do outro lado do rio. Costumam aparecer onde uma vez ao ano vêm desovar as tartarugas, e há dias que são duas e até três. É uma loucura pensar que (com uma única exceção) nunca dei com duas garrafas atiradas ao mar pela mesma pessoa. Chegam de lugares sempre diferentes, das épocas mais diversas que possam imaginar, em línguas que muitas vezes superam largamente minha competência linguística. Consomem meu tempo na ilha e já abandonei a escrita muitas manhãs para tratar de dar conta de todas (passei fome, negligenciei inclusive as tarefas diárias das que depende minha sobrevivência). Vão se acumulando a um lado da cabana e já temi que seu reflexo delate alguma vez minha presença na ilha (o que significaria isso para mim?). Mesmo quando lhes dedico todo o tempo que me resta,

a pilha não deixa de crescer. Acontecerá isso

só comigo? É extremadamente improvável que todas as marés confluam numa única ilha, mas não encontro outra explicação e começo a achar que a própria ilha é o resultado das correntes. As garrafas que vêm dar na costa são tantas que já cheguei a fantasiar que a terra que piso não seja tão firme como parece, e que debaixo do chão arenoso da ilha não exista outra coisa que uma enorme massa de garrafas entreveradas pelas algas, que nestas águas são praga. Seria

uma ironia que esta ilha deserta não fosse senão

o resultado da negligência de uma comunidade

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dispersa de náufragos, mas quem riria disso? Se leio todas as mensagens que me chegam é porque já não posso rir. Abro com cuidado as garrafas (que mais tarde reutilizarei) e extraio as mensagens com a ajuda de uma afiada agulha de madeira de buriti, para o qual desenvolvi uma grande habilidade. À luz da única lâmpada que ainda funciona neste lugar, leio pela noite dentro. É melhor assim, porque se o fizesse à luz do dia contaminaria de irrealidade a totalidade da ilha, e como poderia viver então? Nunca respondi a essas mensagens (com uma única exceção), porque não ignoro que as correntes não são circulares e que a comunicação entre nós (mas quem somos nós?) é impossível. Como é possível dialogar numa ilha deserta?

No outono a baía se enche de baleias. Durante algumas semanas deixo de atirar garrafas ao mar, desbordado por esse espetáculo inumano. Vejo as amplas caudas se agitarem sobre a superfície das águas ao ritmo do quase inaudível canto dos machos, que ensurdece as aves, que se precipitam contra as falésias. Nada sei disso. Ninguém nesta ilha (mas nesta ilha estou sozinho) é capaz de dizer uma única coisa com sentido sobre esse raro fenômeno. Se tentasse pensar sobre o assunto, acho que enlouqueceria. Como um imperativo de prudência, me proíbo aventurar-me muito além da minha cabeça, do que acontece em minha cabeça, do que penso. Escrever sobre o universo seria tão insensato como atirar pedras ao mar. Dirão: que outra coisa se pode fazer numa ilha deserta?

Não desconheço as emoções às quais um homem está exposto. A ausência de qualquer contato me queima a pele como a qualquer besta. O peso morto do meu corpo sobre a areia é a única sensação de alteridade física que me depara a ilha. Anulado pelo estrondo do mar, costumo deixar-me estar durante horas, até ficar coberto de areia pelo vento do sul; é uma sensação intensa, mas incômoda, que me incomoda durante dias depois de que a experimento. Os animais que nos meses mais quentes do ano se adentram na selva procuram o mesmo que eu, mas eu não estou feito para a selva, e permaneço entre os homens (só que não há homens, apenas uma ilha

deserta). Quando o desespero me ganha, prefiro correr pela costa até cair esgotado, ou adentrar- me nas águas até à linha da rompente, ainda a consciência de que apenas uma onda poderia arrastar-me para sempre. Cheguei a imaginar no entressonho (e não me envergonho) que outros corpos se confundiam com o meu, mas à medida que passa o tempo esses devaneios são cada vez mais abstratos, uma fria geometria de corpos no espaço, e não são sequer capazes de mover minha mão até a entreperna. Que mais pode sentir um homem numa ilha deserta?

É certo que disponho de todas as comodidades imagináveis da vida moderna. Não me falta a minha dose diária de aguardente nem um punhado de tabaco. Sentado no meu cadeirão Voltaire posso ler mensagens durante horas sem consequências físicas para minhas costas, que por outra parte ressentem cada vez mais a umidade do ambiente. A fauna autóctone é mansa e diversa, e sacia largamente meu frugal apetite. Se estivesse ao meu alcance um mercado, poderia me agenciar o suficiente para uma semana com um punhado de moedas; em lugar disso devo caminhar diariamente longas distâncias para fornecer-me de tudo o que necessito. O papel é escasso, e talvez por isso meço tanto as minhas palavras, mesmo quando há dias que tenho vontade de escrever como se gritasse (quem poderia ouvir-me, de qualquer modo?). Um catre de ferro forjado (enferrujado até ao ponto de ter perdido toda e qualquer aparência metálica), uma mesa de madeira nobre e uma desengonçada cadeira de cânhamo completam meu patrimônio. Acredito que seria capaz de defender cada um desses objetos com a minha vida (exceção feita ao catre, dado que prefiro dormir na rede que pende entre os tirantes do beiral), mas não posso dizer que encontre um gosto especial em seu trato, em sua possessão ou em seu desfrute. De que servem todas essas coisas numa ilha deserta?

A princípio escrevia para salvar-me. Procurava ajuda. Me movia a saudade de um continente que desconheço, mas que apesar de tudo consigo imaginar com alguma riqueza de detalhes: urbes agitadas pela oscilação dos mercados, multidões levantadas em protesto ou mobilizadas para a

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guerra, causas perdidas e empresas pelo bem comum. Não ignoro o encanto desses mundos compartilhados, mesmo se não foi deles que naufraguei (meu naufrágio é mais universal e mais íntimo). Deixei de procurar a salvação, de pedir socorro. Só então comecei a escrever em sentido próprio, o que se diz escrever. Quem encontrasse uma de minhas garrafas não poderia fazer nada por mim e seria injusto que eu se o exigisse. Prefiro pensar a revelação modesta de minhas palavras como uma interrupção, um parêntese, uma brecha. Sei que representam isso para mim. A fantasia de um mundo compartilhado é enganosa. Nesses desertos sobrepovoados eu seria um estranho, um estranho para mim mesmo. Me conformo por ser essa estranheza para os demais. Quem poderia deixar atrás uma ilha deserta?

Nunca consegui dar a volta à ilha. Dez, quinze, trinta jornadas de intensa marcha seguindo a linha da costa não me devolveram às paisagens conhecidas, não denunciaram sequer a curvatura mínima que se espera destes acidentes geográficos. Rigorosamente o sol se põe no mesmo lugar do mar, vinte graus ao norte da praia, rigorosamente nasce entre as montanhas que velam desde o alto o sonho da ilha. Tenho dado mil voltas a esse fenômeno sem encontrar uma explicação lógica. Como pode ser que esteja certo de que se trata de uma ilha deserta quando nem sequer sou capaz de explorar uma porção mínima do seu território? Porém, tenho a certeza absoluta de que estou só. Se fosse de outra forma, e existissem outros náufragos sobre esta mesma terra que piso, deveria assumir que não estou só, mas maldito, e não acredito ter forças para viver com isso. Não com isso. Com isso não.

Que livros levaria com você a uma ilha deserta? A pergunta é estúpida porque desconhece que não se faz turismo numa ilha deserta, não se prepara uma mala, não se marca uma data para a partida (nem muito menos para o regresso: ninguém regressa nunca). Somos idiotas, mas não até esse ponto. Qualquer ilha deserta é o produto de um naufrágio. Qualquer naufrágio é uma sucessão de desencontros, de mal-entendidos e de indecisões. Os livros podem formar parte disso, ser um lastro ou uma tormenta; em todo o caso, algo que

inevitavelmente carregamos conosco. Ninguém escolhe seus livros numa ilha deserta. Vão dar com você à praia e com o tempo passam a formar

parte da ilha, como os recifes e as palmeiras (a minha ilha tem coqueiros, não palmeiras). É uma experiência difícil essa dos livros numa ilha deserta. Um homem se desconhece neles, se pergunta: por que estes livros e não outros? Em vão repassei as páginas das quinze ou vinte dezenas de volumes que conseguira resgatar entre os despojos à procura de respostas. Os livros são parte do naufrágio, não um plano de evasão. Lendo me perco cada dia um pouco mais, como se o naufrágio não tivesse terminado ainda

e a própria ilha se encontrasse à deriva. Por que

estes livros e não outros? Que é que dizem estes livros daquilo que sou? É possível que tenha fantasiado que meu destino teria sido outro se a maré tivesse me deparado outros livros. Acaso não estaria aqui, pelo menos não deste modo. Ou melhor: nenhum livro. Transfigurado pela bebida posso ter queimado não poucas páginas num frenesi purificador. Só que a memória elusiva de um livro pode assombrar um homem mais do que a experiência diurna de sua estudiosa leitura. Qualquer ilha deserta está povoada desses fantasmas. Nos falam continuamente, e algumas vezes, algumas raras vezes, nos ouvem. Não lhes deem ouvidos, não se confiem: estão tão perdidos como todos. Que livros atiraria pela borda antes de naufragar numa ilha deserta?

Não há tesouros nesta ilha. Não existem tesouros, só mapas do tesouro. Guardo comigo dúzias dessas cartas fraguadas para a ilusão. Chegam com mais frequência que nenhuma outra coisa em garrafas adornadas com signos que estão cheios de presságios. Não conduzem a parte nenhuma. É claro que há muita gente que espera ser descoberta desse modo. Perdem

o tempo: os piratas e os aventureiros são homens

gregários, que não reconheceriam a solidão nem que a tivessem à frente. A mim, que desconheço voluntariosamente a geografia da minha ilha, o esforço de fazer esse levantamento excede em muito as minhas forças. A ilha se estende perante mim (se oculta nas minhas contas) como uma verdadeira terra incógnita. Nem os resplendores que ritmam a noite, nem os tambores que

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iluminam o silêncio, comovem meu espírito, que se mantém indiferente ao seu coração secreto. Nada de valor se esconde numa ilha deserta. Quem, em seu perfeito juízo, esconderia um tesouro numa ilha deserta?

É a hora de escrever. É a manhã. O bonde das seis já passou e agora se sucederá como uma premonição cada quinze minutos. A natureza

e a humanidade não são tão diferentes, mas a humanidade é muito mais predizível. Quando

saia à rua poderei evitar qualquer encontro com

a facilidade com que se evitam os carros numa

corrida de videojogo jogada vezes demais. Só

a solidão é impredizível. Chegarei à praia antes

dos turistas e poderei atirar minha garrafa sem ser incomodado (há dias em que me incomodam com suas fotos, alborotados por minha presença,

que os arranca dos seus rituais sazonais. A solidão só é possível entre os outros e não conhece outras formas humanas. Se pudesse tocá-los de alguma forma, não estaria só, mas se não pudesse tocá- los de nenhum modo, que sentido teria falar de solidão? Os turistas olham para mim com incredulidade, mesmo quando cuido de manter

o rosto limpo de qualquer sombra de barba e minhas roupas se encontram em impecável

estado. Acompanham com a vista o breve arco que traça a garrafa no ar, e uma ou outra vez um deles se adentra ao mar tentando apanhá-la. Me preocupa que arrisquem suas vidas dessa forma. Ainda quando o mar é tranquilo nestas latitudes, aqueles que alcançam uma garrafa antes de que seja arrastada pela corrente estão preparando, sem compreendê-lo, seus próprios naufrágios. Sei que nunca voltarei a vê-los entre os turistas que povoam a costa e que não

poderei reconhecê-los se alguma vez der entre as rochas com uma de suas garrafas atiradas ao mar. Mudaria alguma coisa se quebrássemos a regras

e intercambiássemos uma que outra palavra

antes de desaparecer? Já não procuro respostas

às perguntas que faço. Cansado, distante, mas

sobretudo indiferente, os vejo nadar mar adentro com uma vitalidade que alguma vez conheci na intensidade dos meus punhos fechados, e pescar a garrafa entre as ondas e, por vezes, dar um grito de triunfo e olhar atrás, procurando a minha figura entre as rochas da costa. Então já não estou aí. Está o vazio. Com mais ou menos esforço empreendem seu regresso à praia. Não compreendem. Quanto abrirem a garrafa, estarão sós. Como se importar com isso numa ilha deserta?

Eduardo Pellejero. Argentina, 1966. Autor de A postulação da realidade: filosofia, literatura, politica (Lisboa: Vendaval. 2009) e Deleuze y la redefinición de la filosofía (México: Jitanjáfora, 2007).

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