aÉe

de ler
Para escreveÍ corn
técnica, um autor precisa
criar um método de leifura
Pon BnelLro Tevlnrs
primeira metade do trabalho do es-
critor é a leitura. Ninguém é escritor
sem ler. E um vest íbulo que todo escri-
tor tem de atravessar. Digo essa obviedade g!
gântesca porque a toda hora estou conversân-
do com pes"oas que querem.er escritores ma§
dizem que "não têm tempo para ler", ou então
íolheio nas livrarias coisas escritas pcrr pesso.
as que, na melhor das hipóteses, leem livros
de receitas, guias de viagem e colunas sociais.
Ler variadarnente. Escrever literatura exi-
ge que se leia muita literatura, não somente no
sentido de grande quantidade mas no de gran.
de variedade. Romances, contos, crônicas, po,
esias: se você [ê com frequência e prazer todos
estes gêneros, são maiores as chances de que
consiga escrever bem cada um deles.
Dar Íitmo
Muitagente escreve excelentes histórias mas
tem diflculdade com as frases. Falta-lhes ritmo,
vi.ualizaçao. sonoridade. Se es.e conri\ra rivesse
o hábito de ler poesia, assimilaria técnicas que
poJeriam melhorar sua prosa e tomar mais vi-
síveis as qualidades do seu enredo. Do mesmo
modo, um romancista precisa às vezes da capaci-
dade de sintetizaç tÍpica do conto. Um romance
é cheio de pequenas cenas que exigem a lisura
e a rapidez do conto; o romancista que só 1ê ro-
mances perde isso de vista e estende desneces-
sariamente o episó-
dio, por lhe faltarem
pontos de referência
pâra uma escrita mais
compacta.
Reler prestando
aten@o.
Quando
lemos um
livro pela primeira vez nossa atenÉo está volta-
da para a assimilação da história, para o enten-
dimento dos fatos, a visualização do ambiente.
Numa segunda ieitura,

sabemos como o livro
acaba, não temos mais dúvidas quanto a uma sé-
rie de coisas, e podemos nos concentrar no exa-
me da escrita. Só nessa regunda leitura ser(rno.
capazes de perceber detalhes que o autor plan-
tou no início paÍa preparar um eíeito no Íinal.
Sabendo agora corno a hstcjria termina. per-
cebemos com mais clareza a evolu$o dos per-
sonagens, a preparação dos efeitos dramáticos.
Ilnotar
Ler um livro duas vezes é como assistir
uma peça de teatro da plateia e, noutro dia,
das coxias do teatro, vendo o vai e vem
dos técnicos, a chegada e saída dos ato-
res, as pequenas providências de úl-
tima hora. Ver o avesso da criação.
Ler anotando. Para muita gente,
o que vou dizer agora é sacrilégio,
g
mas cada um tem seus métodos, e tu- -g
32
A escultura em
bÍonze La Lecture
(1e88), do
Íran(ês Etienne;
a leitura como
um prazer
do que pos-
so íazer é
jus-
tificar os meus.
Costumo ler de ca-
neta em punho, subli-
nhando trechos importantes ou
esclarecedores, destacando o no-
me de um personagem quando
aparece pela primeira vez
(nos
ro-
mances de fantasia de 800
páginas
é fácil esquecer quem é quem), tra-
çando
um quadrado em volta de pa-
r:igraíos com rnforma@es essencia i:
que mais adiante serão necessárias.
Muita gente costumâ escrever co-
mentários nas margens; Guimarães
Rosa usava o sinal "m7o" para
dizer
"meu, cem por cento",
ou seja, algo que era
a cara dele. Tàmbérn
é muito útil, prin-
cipalmente quan-
do lemos textos de
náo flcção, textos
informativos, fa-
zer conexões en-
tre dois trechos do
livro; se algo que aparece na página
95 tem a vercom algo da página 208,
ponho em cada uma delas uma ob-
servação remetendo à outra, ou a
vairra§ oLrtras, caso haja.
lsto acaba nos levando a criar,
naquelas últimas folhas em branco
de todo livro, um índic( remir-
sivo para uso próprio. Façn is-
so sempre qtle encontro um
grande número de informa-
Ções
importantes num livro
de estudo
(sobre
cinema, his-
tória, ciência, etc.) e sei que
um dia vou precisar delas.
A cada vez que aparece
uma, anoto a página no flnal, e
vou compondo um índice que fica
mais ou menos assim: "Cinema e Sur-
realismo: pjgs. 2l 58 60 134
227 ..." Para indicar um trecho mais
longo, 125-130
(as páginas em que o
trecho começa e termina), ou, quan-
do o assunto se prolonga, 125ss
(que
signifrca "página 125 e seguintes").
Só sabe a importância disso quem,
um dia, íazendo com urgência um ar-
tigo ou uma tese, lembra que no livro
de Fulano há várias referências ao as-
sunto que lhe interessa, mas vai terde
passar uma noite inteira folheando um
volume de 400
páginas em busca de
frases específicas, sem lembran exata-
mente onrle estão-
Falei há pouco de "sacrilégio", e ex-
plico: muitos amigos meus têm honor
a riscar as páginas de um livro. Acham
que tsso estraga ., ltvru, e de íato. hoje
me arrependo de ter sublhhado com
caneta hidrocor, com o entusiasno da
lrrvenluds.
nl.r.r.mplarJa l'edigo
de Corpo de Barle, de Guinarães Rosa,
aquela em dois volumes. Hoje, guardo
intactas as edi@es rnais preciosas dos
livros importantes, e compro no sebo
uma edi6o baratinha onde possa me-
teracanetaàvontade.
Ler pensando
Sempre digo a todo mundo:
quando ler alguma coisa muito boa,
pare, volte atrás, leia de novo, e pen-
se:
"Por
que íoi que achei rsto rào
bom?" O escritor produziu urn efeito
psicológico íorte em você, pelo mero
uso de algurnas palavras. Tênte des-
cobrir como es.e eíeiro íoi produzi-
do. Pegue um caderno e tente fazer
imitaçÕes desse efeito. Imitar não é
pecado, é estudo. Imitar é tentar re-
produzir um efeito, e quando você
dominar esse pequeno truque nem
vai precisar imitar ninguém: anos
depois, no rnomento da escrita de
verdade, ele surgirá, noutro contex-
to, com outro material, para ajudá-
-lo
a resolver um prohlerna narrari-
vo. Alrás, é born íazer a mesma coi-
sa
(reler
e examinar) quando achar
algo muito ruim. "Por que não gos-
tei disso?" Responder essa pergunta
vai ajudá-lo a hcar mais ligad., e nâo
cometer o mesmo ello.
BRAULIO TAVARE§ Ê coMpostÍoR, auroR
ot Cotltttuoo Htstoxas mr Vrnsos
(Eotrona
34, 2005) amvanrsl 3@ft nnl.corú.sn
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Ano 9. N" f02
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Abril de 2014. www,revistalingua.com.bÍ
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Dicionários de sinais
.ã,s iniciativas que respondem ao crescimento da inclusão
O IDIOMA
DA ESCOLA
B regras
para melhorar o
aprendizado do
português
CAilTAR EM
ponrucuÊs
Pesquisador dos EUA defende que
idioma é o melhor para a música
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DE TEITURA
A arte de ler que ajuda
a escrever melhor

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