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Sumário

Análise de Conjuntura

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Desafios da formulação estratégica do Levante Popular da Juventude

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A importância da Agitação e Propaganda para o Levante Popular da Juventude

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Por um Projeto Popular pra Educação

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Análise de Conjuntura

1- O Imperialismo Norte Americano continua sendo o principal inimigo daqueles povos e países pobres que buscam desenvolver-se com autonomia, independência e com ideários progressistas e socialistas.

2- Todos os conflitos ocorridos nos últimos anos contaram com a intervenção dos EUA e seu braço armado, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Embora neste século a polarização global não configure um Bloco Socialista e outro Capitalista ainda temos conflitos por interesses distintos. A OTAN foi criada em 1949 (Durante a Guerra Fria) como instrumento para impor, na Europa, os interesses geopolíticos dos EUA e garantir sua hegemonia, favorecendo ao mesmo tempo as classes dominantes européias ameaçadas numa ordem social dilacerada que, em muitos lugares, beirava uma situação revolucionária, mas, sobretudo, para ser um instrumento militar contra o socialismo e a União Soviética. Hoje o papel da OTAN foi ampliado, configurando a Polícia Mundial do Imperialismo.

3- Pelo Controle dos recursos naturais, em especial o petróleo, e territórios estratégicos foram desenvolvidas inúmeras táticas e verdadeiras “desculpas” para as ações militares dos EUA. Ora humanista, ora anti-terrorista. No Afeganistão (2001) o motivo anti- terrorista, com a busca por Osama Bin Laden, colocou um governo apoiado e financiado pelos EUA ao custo de 345 bilhões de dólares, 1600 militares americanos mortos e 13 mil civis. A guerra na Síria já matou 25 mil civis e apesar de nascer de um embate local ampliou-se para a disputa mundial com a tentativa de intervenção militar dos EUA, justificada pela localização estratégica da Síria (vizinha do Iraque, Turquia, Líbano, Irã e Israel) e que mantém uma reserva de 2,5 bilhões de barris de petróleo. A invasão à Líbia e assassinato do seu Líder Muammar Kadafi que historicamente manteve uma postura de autonomia com relação aos EUA, embora oscilando contraditoriamente, também é justificada pelas reservas de petróleo e, segundo o economista Samir Amim, pelo objetivo americano em estabelecer o Africom (o Comando Militar dos EUA na África), atualmente com sede em Stuttgart, Alemanha.

4- É evidente que países como Rússia e China não alcançam os EUA em termos econômicos e militares, mas produzem uma força também potente capaz de fazer qualquer outra potência sentar para negociar. Esta força junto com a habilidade do presidente Russo

Vladimir Putin foi fundamental para não intervenção militar dos EUA na Síria. Isto mostra que a sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que aponta países em desenvolvimento revela um bloco bastante desnivelado com relação ao poder de decisão e intervenção, como demosntra o economista Carlos Lessa o Brasil sequer tem Submarinos nucleares, Armas nucleares e industrias de ponta.

5- Está em curso na Ucrânia um episódio complexo para análise da política

Internacional. Três potências (União Européia, EUA e Rússia) tem participado dos conflitos que culminaram com a retirada do antigo governo (Viktor Yanukovich), colocando interinamente o opositor Oleksander Turchynov. As manifestações que depuseram Yanukovich condenavam a relação com a Rússia e associavam diversos problemas locais ao governo. É certo que a União Européia, que manobrou publicamente através da figura de Angela Merkel, foi beneficiada; e os EUA que apesar de manterem um acordo delicado com

a Russia para conter a invasão na Síria também se insere para desgastar o governo Russo e instalar suas bases na Ucrânia. O Conflito está em curso com principalidade para dois motivos: 1)A Rússia vem anunciando cortes no fornecimento de Gás para Ucrânia e Europa

e 2) O lado Leste da Ucrânia é majoritariamente composto por Russos e descendentes que

vem acirrando lutas contra a medida do atual governo em abolir a língua Russa do território. Na Criméia, ao leste, mais da metade da população fala russo. Somado a esta questão este governo interino conta com apoio de grupos fascistas declarados tanto no parlamento quanto nas ruas.

6- “En Nuestra” América as contradições com o império agravam-se crescentemente. Aqui o bloco que se articula através da ALBA, CELAC, MERCOSUL e UNASUL contraria os EUA periodicamente com a repulsa pela dependência proposta pelos planos neo-liberais. A Bolívia, Equador, Cuba, Uruguai, Brasil, Argentina, Nicarágua, El Salvador e Venezuela compõem em menor ou maior grau um bloco que configura governos progressistas e de esquerda pós neo-liberais. Entre golpes (como em Honduras e Paraguai) e tentativas de desestabilizações atua o império. Mais recentemente na Venezuela “Pós-Chávez”, onde elegeram Nicolas Maduro para Presidência, a direita conservadora apoiada pelos EUA tenta desestabilizar o governo nas ruas para produzir um clima de terror e possivelmente um motivo para intervenções e apoios internacionais golpistas.

7- É preciso destacar que a ALBA configura um pólo mais avançado na luta direta com o imperialismo, configurando não só relações comerciais como também um bloco ideológico na América Latina. Países como Venezuela, Bolívia, Cuba e Equador são os mais expressivos. A ALBA tem clara orientação de suplantar a proposta de integração dos EUA

(ALCA) que procurava associar os países Latinos de forma subalterna à sua economia. A ALCA selaria o Consenso de Washington, que foi um conjunto de medidas elaboradas em 1989 pelos EUA (FMI, Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos), com as seguintes receitas para os países sub-desenvolvidos na década de 90: Disciplina fiscal; Redução dos gastos públicos; Reforma tributária; Juros de mercado; Câmbio de mercado; Abertura comercial; Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições; Privatização das estatais; Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas) e Direito à propriedade intelectual. Para o economista coreano Ha-Joon Chang o Consenso de Washington teria sido uma espécie de "armadilha" criada, na década de 1980, pelos países desenvolvidos para impedirem que os países subdesenvolvidos e, em especial, aqueles que estavam emergindo do bloco comunista, conseguissem atingir os mesmos níveis de desenvolvimento do então Primeiro Mundo.

8- Com os exemplos de Paraguai, Honduras, Ucrânia e agora na Venezuela podemos destacar uma nova modalidade golpista para este século, não mais à bainonetas e canhões. Estratégias “subterrâneas” através da institucionalidade e a pressão dos conservadores e fascistas nas ruas afim de conclamar uma ajuda pela “democracia” através dos EUA são parte do plano. Aliado a este plano os EUA recentemente publicaram a notícia de que diminuirão seu efetivo militar de 520.000 para 440.000, apostando mais em tecnologias de inteligência-militar.

9- No Brasil após os dois anos de governo FHC (1994/1998-1998/2002) chegou a vez da esperança histórica. Pela primeira vez na história um presidente de trajetória vermelha chegara ao palácio, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O slogan Lula-lá perdurou e trouxe imensas perspectivas para a classe trabalhadora, pensamos que seria a vez da Reforma Agrária, Urbana. Educacional e também da derrota dos ideais conservadores. A pressão internacional e o pacto que Lula fez para ter força e “governabilidade” conformou um governo de “coalizão”, onde parcelas das organizações da classe trabalhadora dividem assento com parcelas da burguesia.

10- O Professor Armando Boito Jr (UNICAMP) caracteriza a política aplicada por este bloco como neo-desenvolvimentista. Para o professor a burguesia interna dirige este bloco, quando no ciclo FHC o bloco de poder era dirigido pela grande burguesia associada ao capital financeiro alinhado e subalterno aos EUA. Neste Período neo-desenvolvimentista o Governo de coalizão tem margem para atender de forma insuficiente as demandas populares, para isso ele aponta que deve-se vislumbrar um caminho de avanços e rupturas para que sejam aprofundadas medidas estruturantes até então intocadas, como Reforma

Agrária, Urbana, Democratização dos meios de Comunicação e Reforma Política.

11- Durante os Gov. Lula e Dilma houveram embates fervorosos, a começar pela tentativa de acabar com o governo ainda em 2005 através do “mensalão”. A mídia golpista (Veja, Globo, etc) tratou o caso como nunca tinha tratado em toda história jornalística no Brasil, ocasionando inclusive rupturas no PT com Heloísa Helena e a criação do PSOL. Sobrevivendo aos ataques e vitimados pela própria estratégia tímida de atuar dentro da ordem com as armas da democracia burguesa o Governo do PT sobreviveu e assimilou a mensagem da direita tradicional: Nós podemos fazer mensalão todos os dias, somente nós

12- Numa luta de braço desigual o governo não avançou na política estrutural, mas conseguiu minimamente apontar para um desenvolvimento com distribuição de renda. No governo Lula em torno de 20 milhões de pessoas deixaram a classe E (renda inferior a R$ 768,00) e na classe C (renda familiar entre R$ 1.115,00 e 4.807,00) que é a maioria da população adentrou 25,9 milhões de brasileiros. No início do Governo Dilma (2012) 3,5 milhões saíram da pobreza. Além disso, comparando com o governo FHC somente no governo Lula foram gerados 12,5 milhões de empregos, contra 780 mil (FHC); o Salário mínimo foi reajustado acima da inflação; mais de 18 milhões de empregos com carteira assinada foram criados; a política de moradia de FHC contabilizou 1,7 milhões de habitações contra 4,5 apenas com Lula; a educação foi impactada com 1 milhão de prounistas, Cotas sociais e raciais, 14 universidades federais novas, 126 extensões

universitárias, 214 escolas técnicas. Mas podemos ver que estas políticas chamaram Deus e

o Diabo para festa, a saber que o chifrudo anda comendo a maior parte do bolo. Em todas as

áreas vemos um tanto para a classe trabalhadora e outro tanto enorme para os “grandes”. A exemplo da política agrária, o investimento para agricultura familiar através do PRONAF saiu de 2,5 para 12,5 bilhões e para o Latifúndio/Agronegócio 115 bilhões.

13- Inúmeros episódios podem ser retratados entre a luta interna entre as frações do governo e oposição. Mas algumas novidades fizeram a diferença para a juventude que foi criada numa geração onde a política igualava-se ao ato de votar, apenas. Em junho de 2013 milhões de jovens foram as ruas a partir de mobilizações contra o aumento das passagens de ônibus, mas que com o tempo e repressão passou a atrair mais setores dispostos à luta. Foram jovens dispersos, que marcaram a era dos “sem-partido” e “sem-bandeira”. No início

a rede globo ridicularizou as manifestações, como de costume, mas ao ver seu crescimento

partiu para disputa de maneira hipócrita ao enfatizar qualidades onde não havia. Para a

globo era importante filtrar as palavras de ordem que estavam dissolvidas, assim como exaltar bandeiras como a PEC 37 que até então era desconhecida –e ainda é-, também foi

igualmente importante ridicularizar as organizações políticas de esquerda e valorizar o elemento espontâneo e individual. Mas uma coisa não contiveram, a juventude agora conta com o elemento da mobilização para resolver seus problemas e não mais a espera eleitoral passiva. A juventude também manteve seu discurso por mais conquistas, mais direitos e mais estado para resolver os seus problemas, em desacordo com a mídia e a oposição (PSDB/DEM) e seu programa privatista.

14- O futuro está em aberto, as mobilizações estão acontecendo e a geração 2000 já não é tão previsível. As contradições geradas pelo modelo neo-desenvolvimentista está trazendo diversos desdobramentos para a luta: Os trabalhadores que adentraram o mercado de trabalho (em sua maioria recebendo em torno de R$ 1000,00) aderem a greves e rejeitam perda de direitos; os negros que não entravam em determinados ambientes (aeroportos, universidades e shoppings) estão vendo escancarar o preconceito que ficava guardado nos becos; a direita desesperada na figura de Aécio neves (PSDB) conta com divisões no bloco do governo através do PSB (Eduardo Campos) e da REDE (Marina Silva) e os partidos que optaram compor uma oposição à esquerda (PSTU, PSOL, PCB e PCO) não têm expressão para alterar a política eleitoral.

15- O próximo Período será marcado pela corrida pela conquista da juventude em movimento. Para este momento uma grande parte das organizações progressistas e de esquerda estão construindo um Plebiscito por uma Constituinte Soberana e Popular para alterar o sistema político. Esta proposta expressa o desejo destes jovens que vêem uma enorme separação entre os representantes e a vontade do povo, na medida em que denunciam um pleno domínio do poder econômico sobre o político. Esta bandeira foi “ventilada” pela presidenta Dilma ainda no calor das mobilizações, mas “retirada” pelos aliados rapidamente. A burguesia tem horror a Reforma Política, pois os meios de comunicação; a sub-representação negra, indígena e feminina no congresso; os crimes da Ditadura Militar (1964) que completa 50 anos, o financiamento de campanha; o poder judiciário e o futuro do Brasil entrará em debate!

Desafios da formulação estratégica do Levante Popular da Juventude

Introdução No dia 4 de Fevereiro de 2012, na Tranqueira do Rio Pardo nos comprometemos a construir o Levante Popular da Juventude. Inspirados no exemplo de Sepé Tiaraju, gritamos a consigna anti-imperialista de seu tempo: “Alto lá, esta terra tem dono”. Sobre o mesmo solo que os povos Guaranis enfrentaram o exército espanhol e português, em mais um capítulo da História de levantes populares que forjaram o nosso país, afirmamos a necessidade de dar continuidade à luta daqueles que nos antecederam. Desde então, viemos dando corpo àquele compromisso. O Levante se nacionalizou de fato. O que era apenas um nome virou uma identidade na qual se veem centenas de jovens. Com um ímpeto Marighellista, fomos construindo o Levante a partir de nossas ações e dos princípios que afirmamos em nossa Carta Compromisso. Este impulso foi fundamental para chegarmos até aqui. Contudo, após o segundo ano de construção nacional do Levante Popular da Juventude, precisamos avançar na formulação sobre o caráter da nossa organização, seus objetivos estratégicos e o caminho que vamos percorrer para atingi-los. É chegado o momento consolidar a nacionalização o Levante, agora indo para além dos nossos símbolos e do nosso nome, e caminhando para dar coesão em torno de uma estratégia para a organização. Este texto tem o objetivo de sistematizar os acúmulos que já temos sobre a concepção do Levante Popular da Juventude enquanto um Movimento Social e ao mesmo tempo apontar os limites da nossa formulação sobre os quais todos devemos refletir, discutir e contribuir. Deste modo, o esforço aqui empreendido é o de constituir as bases para a elaboração de um Plano Estratégico para o Levante Popular da Juventude.

Plano Estratégico Formular um plano estratégico significa delimitar onde se deseja chegar e a partir disso traçar os passos do caminho que deverá ser percorrido. Nosso destino é a construção do Projeto Popular para o Brasil. No contexto atual, construir o Projeto Popular significa acumular forças sociais em torno de um programa de modificações da estrutura econômica, social e cultural do Brasil. Evidentemente que para alcançar este horizonte estratégico não bastará a atuação de uma única organização, e/ou a mobilização de apenas

um segmento do povo brasileiro. As transformações estruturais dependem da constituição de um bloco de alianças com outras organizações e movimentos que constroem o Projeto Popular, assim como de um amplo movimento de massas em torno de um programa de reformas democráticas e populares. Nos colocamos como mais uma ferramenta neste processo, cujo objetivo específico é a organização da juventude do povo brasileiro. Nesse sentido acumular força para o Projeto Popular, na perspectiva do Levante significa:

1- Organizar a juventude do povo brasileiro em seus espaços de atuação desenvolvendo formas organizativas adequadas à diversidade desses sujeitos.

2-

Formar política e ideologicamente uma nova geração de jovens lutadores.

3-

Agitar e propagandear o Projeto Popular para o Brasil.

4-

Traduzir as contradições da juventude em lutas e mobilizações que avancem na

construção do Projeto Popular, buscando desenvolver novas formas de lutas social.

Nosso caráter Partindo desta introdução podemos fazer as seguintes afirmações sobre o cárter do Levante Popular da Juventude:

1- Movimento Social – somos uma ferramenta de organização de um setor da sociedade, com pretensão de pautar politicamente os interesses desse segmento. Assim como o MST representa os sem-terra, o MAB, os atingidos por barragens, nós buscamos representar os interesses da juventude do povo brasileiro e nesse sentido nos caracterizamos como um movimento social.

2- Relação com as massas – embora o Levante não seja ainda uma organização de

massas, somos uma organização voltada para influenciar o maior número possível de pessoas. Temos a pretensão de incidir e produzir movimentações de massas. Portanto, almejamos nos tornar referência para a juventude do povo brasileiro. Isto significa, criar um vínculo orgânico nos espaços onde atuamos, deixando um exemplo de organização e referência política. Nesse sentido, tão importante quanto a quantidade de pessoas é a nossa capilaridade. 3- Forma orgânica – a questão organizativa assume centralidade, tanto para a formação dos militantes quanto para o estabelecimento da referência com as massas, reestabelcendo os laços associativos e a ação coletiva. A célula deve servir como uma escola de formação de militantes, os quais são forjados, sobretudo, no esforço organizativo de outros jovens.

4-

Sujeito – O Sujeito da organização é a juventude do povo brasileiro, em especial a)

os jovens moradores das periferias urbanas, b) os estudantes universitários e secundaristas, e c) os jovens camponeses. Nesse sentido o maior desafio do Levante é a conjugação desses distintos sujeitos na mesma organização. A formação colonial brasileira, com destaque para os séculos de escravismo, produziu um abismo dentro da própria classe trabalhadora. Em termos gerais as organizações de esquerda no Brasil tiveram muita

dificuldade para transpor este abismo, e construir ações unitárias entre diferentes setores populares. No último século o acesso a universidade foi se tornando a estratificação desse abismo, mesmo em comparação com ouros países da América Latina, tornando esse distanciamento ainda maior. Esta desigualdade cria contradições dentro da própria classe trabalhadora, ao ponto em que o jovem da periferia, ou do campo, não se reconhece no jovem universitário e vice versa. A construção de uma ponte entre esses mundos é o principal desafio do Levante, mas ao mesmo tempo é sua maior potencialidade. Construir um projeto de transformação no Brasil passa necessariamente por estabelecermos a unidade política das massas populares com a parcela mais escolarizada da classe trabalhadora.

5- Autonomia - não somos contra as organizações partidárias, mas prezamos a nossa

autônima enquanto organização. Ao mesmo tempo, estamos abertos para todos os jovens que se identificam com o projeto da organização, independentemente de suas filiações partidárias. A autonomia frente a partidos, governos e empresas é um princípio da organização. Por fim, o Levante é uma organização de jovens que deve ser protagonizada por jovens, portanto, restringindo a participação daqueles que não se enquadram nesta categoria nas instâncias decisórias da organização.

Modelo Orgânico Para dar conta dessa estratégia precisamos ter uma forma orgânica que esteja adequada ao caminho que identificamos acima. Além disso, esta organicidade deve cumprir algumas exigências para garantir a democracia interna, a coesão e a eficiência do movimento: a) a capacidade de fazer com que as ideias, discussões e orientações comuns percorram e se articulem em todo o corpo da organização; b) a necessidade de garantir a unidade de pensamento e a ação com autonomia das partes, com aplicação criativa das decisões gerais e com auto-reprodução. O principal desafio na construção da nossa organicidade consiste na capacidade de conciliar uma estrutura que promova a discussão coletiva e horizontal envolvendo todos

seus militantes nas deliberações da organização, com a necessidade de uma estrutura de tomadas de decisão frente a demandas conjunturais. Ou seja, essa ampla participação não pode paralisar a organização, ao mesmo tempo, as principais decisões não podem ser tomadas a revelia da base da organização. Para resolver esta equação é fundamental que haja a compreensão das atribuições de cada instância, bem como entender o fluxo que há entre elas. Segue abaixo um organograma da nossa estrutura organizativa:

Segue abaixo um organograma da nossa estrutura organizativa: Acampamento Nacional: é o espaço congressual da

Acampamento Nacional: é o espaço congressual da organização. Ocorrendo a cada 2

anos, o Acampamento Nacional é a nossa instância máxima. Tem por objetivo reunir, na medida do possível, o conjunto dos militantes do Levante para definir as diretrizes da organização. No entanto, deve ser compreendido como o ápice de um processo de debate no interior do movimento. Este é o espaço que legitima a indicação dos integrantes da Coordenação Nacional, que deve vigorar durante este período de 2 anos. Além disso, é também o momento de animação interna e de projeção para a sociedade. Nos estados os Acampamentos Estaduais cumprem um papel semelhante, mas de alcance regional. Coordenação Nacional (CN): esta instância é composta por uma representação de todos os estados nos quais estamos organizados, tem, portanto, um caráter federativo. Deve tomar decisões tendo como parâmetro as diretrizes definidas no Acampamento Nacional. A CN tem o desafio de socializar as experiências dos estados, ler a conjuntura e ajustar as linhas táticas da organização. No âmbito estadual devemos ter uma instância correspondente, a Coordenação Estadual, que deve conter uma representação dos municípios, avaliando e projetando ações estaduais. Bem como a Coordenação Municipal deve conter uma representação das células, avaliando e projetando ações municipais. Coordenação Executiva (CE): dentro dessa Coordenação Nacional, são indicados militantes que compõem a Coordenação Executiva. Para viabilizar uma maior periodicidade de reuniões de uma instância nacional, a Executiva deve ser um espaço mais enxuto. Suas indicações devem ser prioritariamente políticas, e não apenas representativas. Na impossibilidade da CN se reunir com maior frequência a CE deve tomar decisões no plano tático. Além disso, a CE tem o papel de desenvolver o acompanhamento político do Levante nos estados. No âmbito estadual, a instância correlata é a Coordenação Executiva Estadual, que possibilita tomar decisões de caráter estadual de forma mais ágil. Secretaria Operativa (SO): este espaço é composto por um número reduzido de membros da Executiva Nacional, contudo, não se configura como uma instância, pois suas definições são essencialmente operacionais. A SO possibilita dar consequência aos encaminhamentos tomados na CN e na CE. Em âmbito estadual a Secretaria Operativa Estadual deve situar-se prioritariamente nas capitais, reunindo-se com regularidade para viabilizar as ações definidas nas instâncias de coordenação. Em âmbito municipal, a Secretaria Operativa Municipal deve viabilizar as definições da Coordenação Municipal, bem como garantir o acompanhamento das células. É de fundamental importância que as Secretarias operativas funcionem pra que a organização não atue de forma fragmentada. Frentes (Estudantil, Camponesa e Territorial): as Frentes se diferenciam a partir dos

setores da sociedade nos quais o Levante atua. Dentro do nosso modelo orgânico há 3 Frentes de atuação prioritárias: Estudantil (Trabalho de base em Universidades, Institutos técnicos e Escolas); Camponesa (Trabalho de base com jovens moradores de áreas rurais) e Territorial (Trabalho de base com jovens urbanos nos seus territórios de moradia, comunidades, bairros). Cada segmento desses é um universo que tem um conjunto de desafios bastante específicos. Para aprofundar a nossa atuação política nestes setores é necessário que haja pessoas responsáveis por aprofundar a elaboração e o acompanhamento político desse trabalho. Portanto, para cada Frente dessas deve haver um grupo de militantes responsáveis nas coordenações. Não deve ser entendido como uma instância. Setores (Mulheres, Negros e Negras, Diversidade Sexual): entendendo que a superação da opressão passa pela auto-organização dos oprimidos, os setores constituem um espaço de aprofundamento do debate feminista, anti-racista, anti-homofóbico, protagonizado pelos próprios sujeitos dessas opressões. Os setores devem ter uma atuação tanto de âmbito interno à organização, no sentido de afirmar as pautas referidas no interior do movimento, como de âmbito externo, ou seja, voltada para incidir na sociedade através dessas bandeiras de lutas. Os setores devem estar vinculados às coordenações e não devem ser entendido como instâncias. Coletivos (Comunicação, Formação, Finanças e Agit Prop): Os coletivos reúnem os militantes responsáveis por determinadas tarefas estruturais e transversais que demandam certa especialização, tais como a Comunicação, a Formação, as Finanças e a Agitação e Propaganda. Tais coletivos tem a responsabilidade de avaliar e planejar ações nos seus eixos de atuação. Os coletivos devem estar vinculados às coordenações e não devem ser entendido como instâncias. Células: São o cerne da organização, portanto, nossa prioridade organizativa. A partir delas se estruturam as demais instâncias. É formada por um grupo de militantes, enraizados em um campo de atuação (universidade, comunidade, assentamento, etc). O principal objetivo da célula é se reproduzir, criar novos grupos de jovens lutadores. Por isso a utilização do termo “célula”, ou seja, a unidade elementar de um organismo vivo, com capacidade de multiplicação, a partir dela se pode reconstruir todo o corpo orgânico novamente. As principais atribuições das células são: a) constituir-se como um grupo de vivência, fortalecendo os laços de amizade entre seus membros; b) atividades de formação para os seus militantes; c) ações de agitação e propaganda no seu campo de atuação; d) desenvolver experiências de mobilização e luta. O trabalho de base é atividade permanente

e transversal, as quais todas as demais estão submetidas. Apesar de serem espaços abertos a participação de novas pessoas, as células devem ser espaços orgânicos, com periodicidade definida de reuniões e coordenadas por uma jovem e um jovem. Coordenadores: em um movimento como o nosso todos os militantes são responsáveis pela organização. Os coordenadores tem uma dupla responsabilidade, como militantes e como coordenadores, ou seja, recai sobre eles uma delegação coletiva de acompanhar o andamento de um grupo ou de uma determinada tarefa. Este papel não deve ser entendido como um privilégio ou como o de um “chefe”. Todos devem passar pelo exercício de coordenação, e todos devem ser avaliados ao exercer esta tarefa, e inclusive destituídos se não corresponderem, por aqueles que lhe atribuíram esta responsabilidade. Evidentemente que alguns militantes têm mais experiência do que outros, portanto, tem mais condições de desempenhar determinadas tarefas.

Critérios para indicação: Nesse sentido devemos ter bastante cuidado ao fazermos as indicações dos coordenadores e das coordenadoras das instâncias do Levante. Este cuidado deve ser em dois sentidos, primeiro para que não haja uma relação de disputa neste processo e se preze pela coesão da organização. O segundo é que devemos levar em consideração um conjunto de critérios para escolhermos uma coordenação bastante representativa. São eles: a) capacidade política; b) gênero; c) dedicação à organização; d) contemplar militantes que atuam em diferentes frentes. O processo de renovação das coordenações deve ser feito, desde que não prejudique o acúmulo de experiência do coletivo. Renovar toda a coordenação significa desprezar todo o acúmulo que a coordenação anterior teve.

Desafios Assim como afirmamos na introdução, este texto não tem por objetivo cristalizar o entendimento sobre o caráter e o modelo orgânico do Levante Popular da Juventude, pelo contrário, nossa intenção é que esta reflexão sirva de subsídio para o debate em todos os âmbitos da organização. Ou seja, este texto deve ser lido como uma ferramenta para instrumentalizar a formulação da nossa concepção de movimento. Além disso, é um primeiro exercício para a formulação do nosso Plano de Construção Nacional. Ainda há um conjunto de lacunas que devemos coletivamente ir elaborando, tais como o debate sobre a nossa Identidade; Mensagem Política; Setores estratégicos; Plano de Formação Política; Plano de auto-sustentação; Plano de auto-defesa; Política de Alianças; e

o nosso Sistema de comunicação. Diante desses desafios devemos ter serenidade para compreender que somos um movimento em processo de maturação e, portanto, levaremos um bom tempo para preencher essas lacunas de formulação. Ao mesmo tempo, não podemos esperar passivamente esse processo ocorrer espontaneamente, devemos assim enfrentar progressivamente esses desafios. O período que se aproximam será vital para avançarmos na nossa compreensão do que deve ser o Levante Popular da Juventude, e para tanto, todos os militantes estão convocados a participar desse debate.

A importância da Agitação e Propaganda para o Levante Popular da Juventude

Dias da Comuna - Bertolt Brecht

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram

Suas leis, para nos escravizarem.

As leis não mais serão respeitadas

Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que ficaremos famintos

Se suportarmos que continuem nos roubando

Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças

Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que existem grandes mansões

Enquanto os senhores nos deixam sem teto

Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos

Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que está sobrando carvão

Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão

Nós decidimos que vamos tomá-lo

Considerando que ele nos aquecerá

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que para os senhores não é possível

Nos pagarem um salário justo

Tomaremos nós mesmos as fábricas

Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que o que o governo nos promete sempre

Está muito longe de nos inspirar confiança

Nós decidimos tomar o poder

Para poder levar uma vida melhor.

Considerando: vocês escutam os canhões –

Outra linguagem não conseguem compreender –

Deveremos então, sim, isso valerá a pena

Apontar os canhões contra os senhores!

O texto que segue é uma tentativa de sistematizar o acumulo de debates coletivos dentro do Levante Popular da Juventude, bem como do material já produzido sobre a agitação e propaganda. Para isso foram utilizados os textos: Sistematização do I Curso Nacional de Agitprop do Levante Popular da Juventude; AGITPROP: sobre a experiência de nossas organizações, de Rafael Villas Bôas e Agitação e Propaganda no processo de transformação social, da Via Campesina.

O QUE É AGITAÇÃO E PROPAGANDA? Primeiramente, é importante situar o que entendemos por agitação e propaganda, seu papel e a que ela serve a um movimento social de massas. É importante compreendermos o agitprop como um método, que reúne um conjunto de formas e táticas que podem ser utilizadas conforme as opções demandadas pela estratégia. Nesse sentido a agitação e propaganda são mais do que técnicas ou estéticas políticas e seus militantes, devem ser mais do que meros grupos artísticos, animadores de atos ou panfleteiros (que muitas vezes são até terceirizados por organizações que resumem a sua agitação ao convencimento eleitoral), mas a sua produção deve estar ligada ao todo da organização, a sua estratégia e a leitura constante da conjuntura. Os/as agitadores/as e propagandistas devem se formar político e ideologicamente de acordo com as necessidades impostas pela vida política e pelos objetivos da organização. Ou seja, para que a agitação e propaganda seja eficaz ela precisa fazer a conexão entre a estratégia da organização e os pontos centrais das contradições que emergem na conjuntura. É isso que permite o ataque às estruturas de poder, e a ação contra-hegemônica, fortalecendo o poder e o protagonismo popular, formando a partir da realidade e do exemplo pedagógico. É fundamental que as ações de agitprop articulem permanentemente elementos da conjuntura e da base estrutural do sistema que criticamos. Nossa tarefa é ligar a “parte” ao “todo”, fazer com que a partir dos problemas imediatos e cotidianos se possa compreender o sistema e suas contradições mais profundas, seu funcionamento. Quando construímos ações nessa perspectiva, podemos causar um efeito permanente de estranhamento das relações de poder que a classe dominante naturalizou em séculos de sistemática violência do Estado e da burguesia contra a população pobre. Isso possibilita elevarmos o nível de consciência da classe e construirmos experiências organizativas mais prolongadas e sólidas. Podemos nos utilizar de várias táticas de agitação e propaganda como as escritas

(panfletos, jornais, revistas, boletins) audio-visuais (cartazes, vídeos, rádios, canais de TV, muralismos) teatrais, marchas, ações diretas, musicais, ou mesmo o conjunto de várias técnicas. O importante é ter em mente qual o objetivo da intervenção, isso define a forma, a duração e a eficácia da intervenção. Sistematicamente, trabalhemos com duas formas gerais de agitação e propaganda: 1) intervenções radicalizadas, que pretendem ferir de forma a expor uma grande contradição e enfraquecer o inimigo, nos projetando e alterando o nível do debate político na sociedade. Um exemplo disso foram os escrachos, ações de grande impacto, que incidiram fortemente na pauta. Essas intervenções são de caráter mais imediato e de desestabilização do inimigo. 2) Agitação e propaganda construídas de forma cotidiana e territorializada no nosso trabalho de base; ações que devem ser pensadas de forma prolongada e permitem uma maior emulação orgânica. Demos aprender a fazer a leitura de quando utilizar cada uma, podendo uma mesma pauta ou bandeira ser trabalhada nessas duas perspectivas, como estamos fazendo com a Democratização dos Meios de Comunicação.

AGITAÇÃO E PROPAGANDA NA ATUAL CONJUNTURA

Passamos por um momento impar na recente história da política brasileira, vendo milhões de pessoas, principalmente jovens, irem às ruas de forma mais ou menos espontânea, reivindicar uma série de “direitos sociais” e outras demandas. Assistimos e participamos de uma série de protestos massivos, com um sujeito central que nos coloca imensos desafios, dentre eles o de como nos colocar como uma referência organizativa para essa multidão de jovens que foi desacreditada da política e das organizações tradicionais. É necessário construir formas de agitação e propaganda de massas que até então a realidade histórica não havia nos permitido experimentar. Houve uma série de avaliações nesse sentido e temos alguns consensos em torno principalmente de algumas ferramentas no âmbito da agitação: a bateria e grandes faixas, com mensagens claras que possam ser vistas em imagem aérea e a agitação via redes sociais; e no âmbito da propaganda: a construção de aulas públicas; panfletagem nas concentrações dos grandes atos e a panfletagem do Jornal Brasil de Fato. Mas ainda precisamos qualificar nossa intervenção para esse novo cenário político, para que seja capaz de nos projetar, fortalecer nossa organicidade e elevar o nível de consciência das massas. Com o seguinte refluxo das grandes mobilizações que já estamos vivenciando, teremos algum tempo para nos formar, impulsionar nossas brigadas de agitprop, crescer

no trabalho de base, nos enraizar e nos armar, pois sabemos que muito ainda está por vir. E

o cenário nos impõe táticas ainda mais radicalizadas, com uma mensagem clara capaz de

colocar o Projeto Popular em cena e de uma estética inovadora e provocadora, que consiga cativar a juventude que vai às ruas. É hora de construirmos a contra-hegemonia e pendermos a balança para as forças populares, obtermos conquistas e ceifar o inimigo o máximo que pudermos, para alterar a correlação de forças que ainda nos é desfavorável.

DESAFIOS E PRESSUPOSTOS PARA AS BRIGADAS DE AGITPROP

Nossa agitprop deve fomentar a formação política e ideológica dos nossos militantes e da nossa base. É fundamental articular agitação e propaganda com a estratégia de trabalho de base. A Agitprop não é um fim em si, mas está relacionada com a política mais ampla de cada organização e com sua estratégia e mensagem. Construção do poder popular, pela crítica contra-hegemônica e empoderamento da juventude e da classe trabalhadora. Construção dos valores socialistas de solidariedade e coletividade, principalmente através do exemplo pedagógico, da disciplina e do compromisso com a vida do povo.

“É PRECISO QUE A AGITAÇÃO E PROPAGANDA ESTEJA VINCULADA À ESTRATÉGIA,

PARA QUE NÃO SE TORNE SOMENTE UM GRUPO ARTÍSTICO, UM APÊNDICE DA

ORGANIZAÇÃO, E SIM ALGO QUE PERPASSA A ESTRUTURA. A AGITAÇÃO E PROPAGANDA

É TAREFA DA ORGANIZAÇÃO, E NÃO DE UM GRUPO AUTÔNOMO, COM LINHA POLÍTICA

PRÓPRIA. ELA TEM QUE SE TERRITORIALIZAR, TEM QUE SERVIR PARA POTENCIALIZAR

O TRABALHO DE BASE, PARA CRESCER, PARA MULTIPLICAR O GRUPO, PARA FAZER

ARTICULAÇÕES.” (Sistematização do I Curso Nacional de Agitprop)

Por um Projeto Popular para a Educação

Paula Zugaib, militante da célula Sanfran em São Paulo (SP)

A luta por um Projeto Popular para a Educação é um importante legado histórico que assumimos enquanto um movimento social de juventude, contudo, formular uma boa política para obter vitórias concretas pressupõe conhecer em detalhes a realidade à qual ela se aplica. Nessa contribuição, busco contribuir algumas questões sobre o financiamento público da educação, desde sua estrutura até sua atual condição na cidade, reforçando a importância da nossa bandeira central de “10% do PIB para Educação”.

1. Por um ensino público, gratuito e de qualidade?

Antes de entramos em detalhes, alguns mitos em torno dessa pauta política devem ser desfeitos. Todos Já estamos acostumados com o velho mote “por um ensino público, gratuito e de qualidade”, mas o que significa essa tríade de princípios? O direito à educação gratuita e de qualidade é previsto no art. 208 da CF de 88, em correspondência à obrigatoriedade legal da matrícula escolar, porém essas bases não tem completo fundamento lógico. Primeiramente é preciso entender que as políticas públicas de educação são financiadas através dos tributos, em especial os impostos que representam 90% da receita estatal. Sabemos que a carga tributária brasileira é extremamente injusta, sobrecarregando principalmente a população mais pobre, pois é aplicada de forma indireta, sobre serviços e mercadorias, e regressiva, para todos na mesma proporção. No Brasil, a taxação de fatores como o patrimônio, a propriedade, as grandes fortunas, a chamada tributação direita, é ínfima, e os mecanismos de progressão, “quem tem mais, paga mais”, inoperantes, reforçando um quadro de concentração de renda e exclusão. Estima-se que o sistema público de arrecadação comprometa hoje cerca de 29% da renda dos mais pobres em contrapartida a 19% dos mais ricos. Assim, não podemos dizer que a educação é gratuita, pois pagamos por ela por meio dos impostos, de forma que ao nos matricularmos no ensino privado, estamos simplesmente pagando duas vezes. Por isso que, quando falamos em ensino gratuito, estamos nos referimos ao direito de obter do Estado – e por isso público – uma contrapartida de uma obrigação que já cumprimos, o pagamento de impostos. Outra questão é o que está implícito no termo “qualidade”. Evidente que um debate

sobre a qualidade da educação pode se estender pela eternidade, mas fiquem tranquilos esse não é o objetivo aqui; basta colocar que, apesar a CF falar em formação de cidadãos e “ensino propedêutico”, a qualidade da educação nos marcos do capitalismo não significa outra coisa senão preparar a mão-de-obra para o mercado de trabalho, constituir tecnologia e reproduzir valores hegemônicos. Vale ressaltar também que a educação não é garantia de uma sociedade mais igualitária, essa é uma concepção completamente liberal, para que se alcance um mundo justo são necessárias reformas estruturais em todos os setores da sociedade. Esses objetivos ficam ainda mais distorcidos no contexto do capitalismo periférico no qual a demanda por mão-de-obra qualificada é muito menor, a divisão internacional do trabalho nos previne de alcançar autonomia tecnológica (progresso técnico adentra o país pelo consumo e não pelo sistema educacional), e o sistema de ensino tende a replicar os padrões ideológicos do centro, daí a origem de escolas sociológicas como “das ideias fora do lugar”. Nesse sentido, os valores passados nas escolas e universidades se afastam progressivamente daqueles forjados no seio do povo, o que gera, consequentemente, uma produção de conhecimento descolada da realidade social e sem a menor intenção de transformá-la. Quando NÓS pensamos em qualidade, pensamos em uma educação voltada para as necessidades do povo, calcadas em seus valores e traços culturais, por isso lutamos por uma educação popular, porque entendemos que essa perspectiva só pode ser formada pelos agentes diretamente interessados nela. O caráter público do ensino, aliás, é uma reivindicação um pouco ligada a esse recorte ideológico da educação capitalista. Sabemos que o Estado é um dos maiores agentes ideológicos ativos dentro do capitalismo e uma de suas formas de incidir na sociedade é por meio da educação, contudo, o pensamento dentro de instituições públicas ainda tem muito mais liberdade – podendo até ser contra hegemônico – do que dentro de espaços privados nos quais o capital não é mediado por nenhum outro conjunto de interesses senão o próprio. Daí o fato de nas escolas públicas se garantir, por exemplo, a laicidade, fundamental para debates tão queridos para nós como o feminismo. Dadas essas ressalvas, devemos entender como o direito à educação com seus pilares se implementam na prática, fundamentando nossa tática que disputa parte do orçamento público, porque se já avançamos no sentido de tornar esses direitos judicialmente exigíveis, agora é preciso que eles se tornem coletivamente materiais.

2. De onde vem e para onde vai o dinheiro que queremos para a Educação?

Quanto à regulamentação do direito à educação, três diplomas legais definem o que, na teoria, deve compor o financiamento do sistema de ensino: a CF de 1988, realizada em uma conjuntura de muita mobilização social e intensa luta de direitos, o que faz com que seja considerada a “constituição cidadã”; a Emenda Constitucional 14 e a Lei de Diretrizes para a educação de 1996 que buscaram regulamentar a implementação dos direitos assegurados pela carta maior, mas devido ao contexto de descenso das lutas populares e ascensão do neoliberalismo não apresentaram avanços além da criação do FUNDEF, fundo supostamente de cooperação dos entes federativos para o financiamento do ensino fundamental; o Plano Nacional de Educação de 2001 cujos objetivos ligados ao aumento de investimentos na área foram vetados pelo então presidente da república com base na lei de responsabilidade fiscal de 2000; e as atualizações desse plano (2003 e 2007), que apresentaram algumas modificações significativas transformando Fundef em Fundeb, fundo que ampliou de ensino fundamental para básico, abarcando outros direitos como creches, garantiu os repasses da União e equalizou a importância de todos os níveis de ensino.

Independentemente do que a lei assegura ao não, o importante é dizer que a maioria dos avanços legais não teve correspondência prática, enquanto os retrocessos, esse sim tiveram pé, isso porque a lei é um instrumento vivo: a conquista de direitos não os insere na realidade per se, a disputa de interesses em torno deles é constante, portanto é sempre necessário lutar pela sua implementação. Considerando então todas as atualizações legislativas, o quadro de responsabilidades é estabelecido da seguinte forma: a união é responsável pela rede de ensino federal e por atender os outros entes federativos de forma redistributiva e supletiva – equalizando diferenças regionais – com 18% das verbas vinculadas; aos estados cabe o ensino fundamental e médio e o município é competente frente às creches e à educação infantil, esses últimos com 25% das verbas vinculadas. Vale ressaltar que a vinculação é um mecanismo fundamental que devemos proteger porque ele articula verbas públicas a objetivos democraticamente estabelecidos. Esse cenário que parece adequado na verdade é uma grade bomba. Os debates na CF sobre a ordem econômica e a distribuição de recursos entre as instâncias governamentais foram muito contraditórios e influenciados pela conjuntura de crise econômica dos anos 80, o que permitiu que muitos interesses da frente neoliberal que se instalava fossem consagrados. Por pressão dos credores da dívida pública externa, que se internalizou com o plano real, a maioria dos recursos públicos se concentrou na esfera da União, única

pagadora, enquanto a responsabilidade pelas principais políticas públicas recaiu sobre os municípios. Esse arranjo legal significou uma limitação material da formação de um ensino público de qualidade e um verdadeiro funil ao contrário, ou seja, quanto mais básico o nível da educação, menor a disponibilidade de recursos para ele. No fundo, a divisão constitucional das verbas representou a submissão de todos os direitos da “constituição cidadã”, à ordem econômica neoliberal, inclusive do direito à educação. Para piorar, durante muito tempo incidia sobre os recursos públicos o DRU, instituto que impunha que pelo menos 20% das receitas da União não fossem vinculadas, fazendo com que os 18% da educação se aplicasse sobre 80% dos recursos, e não sobre 100%. Em 2009 o parlamento retirou o ensino da abrangência do DRU, mas os efeitos só cessaram efetivamente em 2011, o que significou que, depois de duas décadas da CF, bilhões deixaram de ser investidos. Sobre esses movimentos que afetam nossos direitos ainda temos que ficar atentos, as novas reformas ficais propostas no senado apresentam mais obstáculos, inclusive da abolição do salário-educação, tributo pago pelas empresas e redirecionado para fundos de ensino público. O novo PNE chega agora ao senado em dezembro, e não parece ter boas surpresas. Assim, é necessário uma nova forma de pensar o financiamento da educação, o que no fundo é pensar a efetividade dos direitos pelo quais lutaram historicamente os movimentos sociais.

3. Como pensar um novo padrão de financiamento?

Insatisfeitos com essa forma neoliberal de pensar a disposição de recursos para educação, entidades de base, movimentos sociais e sindicatos formaram um índice para medir a qualidade do ensino baseado em demandas específicas (realidade urbana ou rural, distinções de gênero e raça etc.) e gerais para a educação, chamado Custo-Aluno-Qualidade. Sem entrar em detalhes esse índice busca apontar o quanto custa uma educação de qualidade para os alunos, para que a partir dessa propositiva se estabeleça o quanto será gasto com educação, ou seja, estabelecer a educação como prioridade de investimento como hoje se estabelece o pagamento dos juros da dívida pública interna. A elaboração desse mecanismo está ligada ao desmonte de argumentos que afirmam que já investíamos muito em educação se comparado a outros países se considerarmos a nossa fração do PIB. A questão no fundo é que o PIB de cada país varia e a população também, assim é necessário pensar um mecanismo melhor de comparação e de acordo com ele o Brasil não investe nem 1/3 do recomendado por instituições internacionais. Foi a

partir desse índice que o INEP (instituto de pesquisa sobre educação) chegou à conclusão que 8% do PIB até 2011 seria um montante adequado, evidente que nosso padrão é mais alto e por isso exigimos 10%. Entendemos que a educação deve ser pensada de forma sistêmica e para todas as faixas etárias, o custo por aluno não pode impedir que gerações mais velhas tenham acesso à educação. O grande problema é que entre nossa meta e a realidade ainda existe um abismo cuja profundidade ainda não conhecemos muito bem.

4. E hoje, em que pé estamos?

Depois da LDB que criou o Fundef em 1996 parecia que esse negócio da educação para todos iria sair, mas não foi isso que aconteceu. Até a entrada em vigor dessa lei, os municípios arrecadavam muito menos do que os Estados, investindo menos por aluno e oferecendo educação de menor qualidade. Com a criação do fundo entendia-se que os vícios seriam solucionados, mas tudo dependia de um ente federativo não comprometido: a União. A União ao invés de repassar as verbas vinculadas aos outros entes da federação como deveria, estabeleceu custos por alunos a partir do orçamento dos estados, abaixo do garantido por lei, implicando em um passivo de 25 bilhões com os fundos estaduais ao longo dos anos e gerando uma realidade em que as crianças continuavam a sair do ensino fundamental sem saber ler, escrever ou calcular. Em 2003, o projeto para educação do Partido dos Trabalhadores, que há muito tramitava no parlamento, foi aprovado apresentando avanços e passou a ter vigência em 2006, com a criação do Fundeb em 2007 via emenda constitucional. Esse novo fundo garante que o governo federal repasse as verbas, pois o custo aluno é calculado pela somatória dos recursos dos Estados e da União, quase dobrando de valor. Além disso, o Fundeb trouxe avanços no sentido de tutelar um nível de qualidade adequado para todas as fases do sistema básico de educação, não apenas o ensino fundamental, evitando distorções geracionais e diminuindo o “funil ao contrário”, até mesmo por incluir creches com um dos destinos de suas verbas. Na última década, então, os recursos para a educação de fato aumentaram em termos de porcentagem do PIB, em 2013 foram investidos 6,1% de acordo com dados oficiais, mas ainda é muito pouco. Apesar do valor ter crescido, o número do alunos também aumentou, sem contar que o montante leva em consideração programas como o PROUNI e o FIES, voltados à instituições privadas cuja qualidade, em sua maioria, fica longe do desejado. De acordo com os estudos da OCDE, Organização para a cooperação e o

Desenvolvimento Econômico da ONU (cujos critérios são questionáveis) a qualidade do ensino fundamental e médio melhorou, mas não a do ensino superior. Esse quadro se deve em grande parte à rápida expansão do ensino universitário dados as políticas sociais de inclusão da última década, em particular o REUNI que afeta as instituições avaliadas pela organização. Os investimentos nas instituições de ensino superior cresceram de forma absoluta com o aumento de vagas, mas não de forma relativa, ou seja, a quantidade de investimento subiu, mas o custo gasto por aluno decresceu, em números tem-se 3 vezes mais vagas, mas cada uma com um custo 2% menor. Cabe ressaltar também que a expansão não é nem de perto suficiente, atualmente, na faixa entre os 15 e 29 anos, mais de um a cada 5 jovens (9,6 milhões) ainda estão no bloco “nem, nem”, a saber, nem trabalham, nem estudam. Esse quadro é muito problemático, pois a falta de inserção no ensino e no mercado de trabalho impede que esse contingente se insira em outros empregos no futuro (ainda que a economia melhore), pois não tem capacitação prática ou teórica. A situação da política para ensino infantil é outra que se mantém muito precária, apesar da elevação em 20 pontos percentuais, o Brasil atende hoje somente 55% da demanda por vagas em creche nos municípios, o que é extremamente prejudicial já que grande parte da capacidade cognitiva de uma pessoa é desenvolvida logo nos primeiros anos de vida, de forma que os obstáculos para o desenvolvimento de um ensino de qualidade começam logo na base. Outro ponto importante é a relação investimento-qualidade, o fato das verbas terem aumentado não implicou diretamente na elevação da qualidade em geral por dois motivos:

primeiro porque investimos mal, damos prioridade a elementos que não são centrais ao invés de, por exemplo, investir em capacitação profissional de professores; segundo, uma porção significativa dos recursos não chega ao destino planejado, não apenas porque se perde na corrupção, mas principalmente porque é gasto com a burocracia.

5. Onde entra o ensino privado em tudo isso?

O debate sobre ensino privado é em geral bastante inflamado na esquerda brasileira. Depois da universalização do ensino básico, exceto no nível médio, as polêmicas passaram a se concentrar nas universidades, às quais somente 12% dos jovens brasileiros tem acesso. O ensino superior privado abriga hoje cerca de 5 milhões de alunos, enquanto o público somente 1,5 milhão, isso retrata o fato de que 98% das universidades no Brasil são privadas. Muitas vezes, quando avaliando políticas como o PROUNI e o FIES, as opiniões

são colocadas como se inclusão e qualidade fossem elementos contraditórios em sua essência, mas podemos ver que não é bem por aí. Como todos sabemos, no capitalismo o trabalhador vende sua força de trabalho e a quantidade de trabalho agregada a uma mercadoria durante sua produção estabelece o valor desta. Assim o trabalho é em si a mercadoria basilar do mercado, pois serve de

critério equitativo entre todas as outras existentes, possibilitando a troca. A educação se insere nessa lógica como a principal forma de agregar valor ao trabalho, elevando seu preço no mercado.

É a partir dessa perspectiva que se instala a expansão do ensino privado que

estamos assistindo nas últimas décadas, processo este que se reforça proporcionalmente à rigidez dos requisitos para a conquista de um emprego. A educação, em um cenário de

intensa competição, passa a ser vista mais como uma mercadoria que agrega valor à força de trabalho, ainda que não o qualifique propriamente, do que como um direito que possibilita uma democracia consistente e uma sociedade cidadã.

As universidades privadas tem origem na ditadura militar, durante a qual instituições de ensino sem fins lucrativos tiveram permissão de operar. Na década de 90, especialmente com a LDB de 1996, essas mesmas instituições passaram a ter permissão para obter lucros por suas atividades e assim se expandiram rapidamente. De forma estrutural, é possível dizer que as universidades privadas são como uma indústria cujo produto é de grande interesse social, e como qualquer outro poder econômico, tem um lobby, financia campanhas, compra bancadas no parlamento, tem um projeto político para a educação.

A formação desse agente econômico implicou em mais um obstáculo político, e dos

grandes, no avanço do direito à educação. Com a expansão do setor privado, o setor público foi paulatinamente sendo sucateado e as universidades privadas se organizaram de forma a

disputar os recursos vinculados à concretização de direitos e políticas públicas. A cada programa de expansão do ensino superior público, o REUNI e seus irmãos, o setor privado exigia mais. O projeto do FIES, por exemplo, se fortaleceu em uma dessas negociações, ele foi uma resposta direta dos agentes privados à expansão das federais.

O FIES, cujas raízes remetem a ditadura militar, é hoje um dos principais responsáveis pela expansão das universidades privadas que, tendo um parceiro “risco zero” – o governo –, fazem até mesmo operações arriscadas no mercado financeiro, haja à vista o grupo Kroton-Anhanguera que conta com 32% de recursos públicos, para além de isenções fiscais. Criado formalmente em 1999, o auxílio possibilita que o estudante pague o

curso no final da sua graduação, com juros de 3,4% ao ano e um prazo de carência de 18 meses, mas isso representa um início de carreira endividado para os mais de 871 mil beneficiados que não gozam de descontos em matrículas e muitas vezes são proibidos de participar de organizações estudantis.

O PROUNI criado em 2004, por outro lado, veio no sentido contrário do FIES (porque toda política é contraditória), o de permitir que o governo detivesse maior

controle sobre as operações nas universidades privadas, e por isso incluiu 1,5 milhões de jovens do ensino superior, permitindo a recuperação de verbas que há muito tempo eram sonegadas. Evidente que os problemas fundamentais não foram eliminados: a política contribuiu para a expansão das universidades de logo, não garantiu ensino de qualidade e reforçou uma lógica mercantilizada do ensino superior, voltada a exclusivamente à qualificação profissional, ainda assim houve alguns avanços. Cabe ressaltar o desserviço que cumpriram os empresários da educação: o PROUNI previa reverter 25% dos passivos fiscais em vagas, mas por pressões de agentes econômicos esse número diminui para 10%

e depois para 4,5%, sendo que da parte deles não houve nenhuma promessa de

contrapartida em termos de qualidade, de modo que o MEC fecha não apenas 200 cursos todos os anos (270 em 2013), como se formou a concepção social que pessoas de baixa renda não tem direito a ensino superior de qualidade.

Dentre os principais efeitos da expansão do ensino superior privado tem-se: (1) o

sucateamento e a desvalorização do ensino público, ou seja, o direito a educação pelo qual pagamos é retirado de nós como se ao estado coubesse somente garantir que alguma educação seja oferecida, assim as universidades federais e estaduais passam a ter infraestrutura precária, professores mal remunerados e poucos recursos para permanência

e pesquisa, decaindo de qualidade; (2) instaura-se uma concepção de ensino voltada ao

mercado de trabalho, desprovida de historicidade e crítica, voltada somete à valorização financeiro-profissional.

Como já vimos, o ensino superior cumpre um papel importante no capitalismo como gerador de tecnologia, mas como essa função não cabe à periferia, é muito mais fácil que se deteriore nossas possibilidades de pesquisa e produção de conhecimento em detrimento

da formação de uma maior quantidade de profissionais com nível superior, mas nada disso

é excludente. O que devemos fazer é lutar por mais recursos na educação e um maior

investimento por aluno que seja traduzido em qualidade, não se contentar com a mera abertura de vagas como se isso fosse resolver os obstáculos colocados para nosso

desenvolvimento.

6. São Paulo fica como?

O estado e a cidade de São Paulo sempre foram um caso particular no âmbito da educação. Da população brasileira em fase escolar 21,2% estavam em São Paulo, a taxa de analfabetismo na faixa de 10 a 14 anos é de 0.8% da população e a cima de 15 é de 3,7%. Antes da criação do Fundef (ver seção 4) os municípios investiam muito menos em educação do que os Estados por questões de debilidade financeira e entre os próprios estados havia disparidades brutais por conta da omissão da União quanto à transferência de recursos (ver seção 2 e 4). A cidade de São Paulo, contudo, era a única exceção nesse cenário, pois os recursos arrecadados, principalmente o IPTU, permitiam que o sistema educacional municipal fosse melhor do que o estadual. Além disso, o estado de São Paulo, por causa da maior quantidade de verbas, detinha um rede de escolas precárias, mas muito melhor do que de outras regiões, inclusive porque no Sul e no Sudeste a remuneração dos professores era muito superior. Assim, do ponto de vista do Estado, a criação do Fundef e do Fundeb afetou muito pouco. A transferência de recursos da união para políticas públicas estatuais e municipais, que só adquiriu efetividade depois de 2006, nunca foi significativa para São Paulo, já que o estado era muito bem capaz de arcar com o custo-aluno estabelecido a partir de verbas próprias. Isso não significa que não houve avanços. Os fundos permitiram que mais verbas fossem investidas em números absoluto, o que implicou não apenas em aumento do número de vagas, mas também em maior qualidade no ensino. Em termos nacionais não é nem preciso dizer o quanto a vinculação efetiva das receitas da União foi positiva, principalmente no Nordeste, os avanços em relação a educação foram surpreendentes. Apesar dos avanços o quadro da cidade ainda é crítico. No que se refere ao ensino infantil, o atendimento de creches subiu de 16% em 2007 para 22% em 2009, muito longe ainda do esperado pelo PNE cuja meta era de pelo menos 30% (ainda não alcançada). No ensino fundamental o quadro melhora bastante, mas é claro que sem o preparo necessário do ensino infantil a qualidade dificilmente pode ser assegurada. As estatísticas são confusas porque a alteração do PNE em 2007 implementou um ano a mais a ser efetivado a partir de 2010, mas de forma geral pode-se dizer que o atendimento, apesar de ter caído, é superior à 85%. No ensino médio o número de vagas atendem cerca de 72% da demanda, mas o problema principal reside a taxa de evasão, hoje em dia em média de 15% se somarmos as escolas municipais e estaduais.

Os índices abrangem escolas públicas e privadas, mas ao contrário do ensino universitário, no ensino básico o setor público é maioria, com cerca de 67% das escolas, o que vem decrescendo. Essa diferença se dá principalmente porque no ensino básico 80% das crianças são atendidas, enquanto no superior somente 12% dos jovens. A particularidade do estado de São Paulo está também na concentração de estudantes universitários. Dos alunos no ensino superior, mais de 75% estão no Estado de São Paulo e se considerarmos as instituições, teremos mais de 80%. É curioso que o movimento estudantil com o qual estamos acostumados seja tão distante dessa realidade numérica, sendo majoritariamente composto por estudantes de escolas públicas, mais preocupados com a própria educação do que com os outros níveis de escolaridade e com o ensino privado. Nós do Levante temos um importante papel de alargarmos esse debate e dialogarmos com o perfil majoritário dos estudantes universitários, o aluno das escolas privadas, devemos saber lutar pelo investimento eficaz não apenas nas universidades, mas na educação como um todo e para o povo.

Bibliografia

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