Você está na página 1de 6

ENERGIAS CONSTITUTIVAS DA PSIQUÉ - (2005.

1)
Por Elias Celso Galvêas

CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO: "AS ENERGIAS CONSTRUTIVAS DA PSIQUE", de Paul


Schilder.

- Observação importante: esse artigo é baseado nas idéias e conceitos do livro "Energias
Construtivas da Psique", escrito por Paul Schilder - que, por sua vez, foi médico e professor do
grande mestre da Bioenergia, Wilhelm Reich. E pelo simples fato de as energias pulsionais - que serão
aqui discutidas - não serem apenas de caráter construtivo (mas também destrutivo), preferi dar o seguinte
título a esse breve ensaio: "Energias Constitutivas da Psique". É importante ressaltar este detalhe, a fim
de evitar dúvidas futuras por parte dos leitores.

INTRODUÇÃO
O termo "esquema corporal", muito utilizado em conceituações (Neo)Reichina (Teoria da Bioenergia),
diz respeito à figura (ou imagem) do nosso corpo formada pela nossa mente: os registros das pulsões vitais
do organismo - captados pela mente - permite com que a mente humana seja capaz de estruturar uma forma
particular, perculiar e intangível de interpretar as representações tangíveis de nossos corpos físicos, dentro
de um dado contexto e momento de nossas vidas. Existe, portanto, muito dinamismo e plasticidade em todo
esse processo de trocas de informações entre os sistemas mental e corporal.
A percepção mental do corpo nos é transmitida continuamente através de nossos sentidos. Analisando
sob um ponto de vista do lado intangível de nossa fisiologia - resultado, por sua vez, de processos tangíveis
complexos, o "córtex sensorial" funciona como uma espécie de armazém de impressões obtidas pelos
sentidos, podendo emergir para a consciência através de imagens, ou impressões especiais – ou mesmo
sintomas - que permanecem fora da consciência central. Na consciência, elas formam seus próprios modelos
organizados - modelos estes que, por sua vez, podem ser denominados esquemas. Esquemas estes que
poderão ser reprimidos (ou sublimados), ou devidamente utilizados para gerar impulsos - que serão (ou não)
capazes de se agrupar, a fim de movimentar pulsões das mais variadas espécies (motivação, desejo, vontade
- seriam as construtivas).
Ademais, a presença de tais esquemas tendem a modificar continuamente as impressões produzidas
pelos impulsos sensoriais que atuam no sentido de definir a sensação final de localização ou posição
espacial (objetiva ou subjetiva) que irão emergir na consciência - que, por sua vez, encontrar-se-a
invariavelmente carregada de uma (ou inúmeras) relações afetivas associadas com algum aspecto (ou
experiência) acontecido no passado.
Por meio de perpétuas "alterações de posição", estamos sempre construindo um "modelo postural" de
nós mesmos: modelo este que tende a se modificar continuamente, ad eternum, perfazendo o devir. A
percepção - direta e objetiva - é sempre nosso modo mais peculiar de nos perceber (bem como aos outros)
no mundo, bem como no espaço físico que ocupamos. Somos seres emocionais constituídos por diversos
estados de humores e diferentes personalidades. No contexto desse artigo, entende-se por
"personalidade" um sistema (ou esquema pré-determinado e dinâmico) de ações, ou melhor, um
conjunto de tendências direcionadas para uma ou inúmeras ações - ou modus operandi. A "topografia
(ou topográfica) de um modelo postural do corpo" servirá de base às atitudes emocionais que tenderão a
relacionar a realidade objetiva com nossas condições corporais momentâneas, e vice-versa. As zonas
eróticas desempenharão um papel particularmente fundamental no modelo postural do corpo, pois ele se
encontra em permanente movimento de autoconstrução e autodestruição interna - através da contínua
captação de diferentes sentimentos e sensações, que resultam da sua interação com seu respectivo meio-
ambiente.

A BASE FISIOLÓGICA DA IMAGEM CORPORAL - o Narcisismo e o amor pelo próprio corpo


Freud diz que, em princípio, a libido é dada ao corpo como um todo. O feto e a criança recém-nascida
têm apenas libido narcisista, posto que ainda não mantêm contato direto com a realidade externa. Isto
significa que a criança, num primeiro momento, irá se interessar apenas por si própria, sem se preocupar com
o mundo externo.
No estágio do narcisismo primário, quando a criança ainda não desenvolveu suficientemente uma
percepção consistente da realidade exterior, segue-se uma fase auto-erótica na qual a libido é
concentrada em partes do corpo que possuem, de acordo com suas respectivas fases, significados
erógenos especiais, que, posteriormente, serão significativos para a vida psíquica do indivíduo.
Primeiro, pode ser observada uma fase oral, onde a libido encontra-se concentrada na boca da criança
e, através da qual a mesma irá experienciar irritações provenientes da boca, onde o organismo tentará
incorporar, portanto, um modelo do mundo externo através da utilização bucal. Mas como esta não é a única
via libidinal, a criança também poderá realizar esta mesma movimentação através de sua própria atividade
motora e/ou as sensações provenientes da pele.
Desta forma, existe um erotismo tanto em nível muscular quanto cutâneo. Mesmo neste período, os
próprios genitais parecem ser fonte de um prazer especial, apesar de seu sentido puramente auto-erótico,
e das sensações anais e uretrais – que também se encontram presentes. Um pouco mais tarde, as
verdadeiras sensações e influências do mundo externo começam a ser, de fato, percebidas, recebendo da
criança uma boa parcela de interesse.
Por volta do terceiro ano de idade, podem ocorrer tendências anais incitando experiências
homossexuais em relação aos objetos externos. Finalmente, o desenvolvimento libidinal deverá desembocar
no conhecido "Complexo de Édipo", onde passará a existir um amor sexual (em forma de transferência
libidinal) pelo progenitor do sexo oposto, acompanhado pelo desejo de "morte" do progenitor do mesmo sexo.
Nesta mesma fase, os objetos exteriores do afeto infantil (pessoas amadas) tendem a assumir um contorno
mais nítido e significativo.

Em Freud, na sua obra "Cinco Lições de Psicanálise - Contribuições a


Psicologia do Amor", temos:

"(...) O pensamento consciente do adulto apraz-se em considerar a


mãe como uma pessoa de pureza moral inatacável; e [por isto]
poucas idéias são para ele tão ofensivas, quando partem de outros,
ou sentem como tão atormentadoras, quando surgem de sua
própria mente, como a que põe em dúvida esse aspecto [peculiar de
pureza] de sua mãe. No entanto, exatamente essa relação do
contraste agudo [que parece existir] entre a [santidade da] "mãe"
e a [profanidade da] "prostituta" nos animará a investigar a
história do desenvolvimento [ou evolução] destes dois complexos,
bem como da relação inconsciente existente entre ambos - já que
há muito tempo descobrimos que aquilo que, no consciente se
encontra [aparentemente] dividido [de maneira dicotômica] entre
dois opostos, muitas vezes ocorre no inconsciente como uma
unidade. A investigação leva-nos, então, de volta a uma época na
vida do menino em que ele adquire conhecimento mais ou menos
completo das relações sexuais entre os adultos, aproximadamente
nos em torno dos anos da pré-puberdade. Partes brutais de
informação que são indiscriminadamente destinadas a suscitar
desprezo e rebeldia agora lhe comunicam o segredo da vida sexual
e destroem a autoridade dos adultos [ao menos, sobre estas
questões], [autoridade esta] que parece incompatível com as
revelações de suas atividades sexuais. O aspecto dessas descobertas
que afeta mais profundamente a criança recém-instruída é a
maneira como se aplicam a seus próprios pais. Essa aplicação é,
muitas vezes, francamente rejeitada por ela, mais ou menos nestas
palavras: ´Seus pais e outras pessoas podem fazer coisas como esta
entre si, mas meus pais, certamente, não podem fazê-las!´.
Como colorário praticamente invariável desse ´esclarecimento´
sexual, o menino adquire, ao mesmo tempo, o conhecimento da
existência de certas mulheres que praticam relações sexuais como
meio de vida e que, por este motivo, são alvo do desprezo geral. O
menino, ele próprio, está evidentemente longe de sentir esse
desprezo: tão logo aprende que ele também pode ser iniciado por
essas ´infelizes´ na vida sexual, que até então ele aceitava como
estando exclusivamente reservada para ´gente grande´. Ele, apenas
as considera com um misto de desejo e horror. Quando, depois
disto, já não pode mais nutrir qualquer dúvida que torne seus pais
uma exceção às normais universais e ´odiosa´ da atividade sexual,
diz-se a si próprio [ou conclui], com lógica cínica, que a diferença
entre sua mãe e uma prostituta não é afinal tão grande, visto que,
em essência, fazem a mesma coisa (sexo como meio de
sobrevivência).
A informação esclarecedora que recebeu despertou, de fato,
traços de lembrança das impressões e desejos de sua tenra infância
que, por sua vez, levaram à reativação de certos impulsos
psíquicos. Ele começa a desejar a mãe para si mesmo, no sentido
com o qual acabou de se inteirar, e a odiar, de nova forma, o pai
como um rival que impede esse desejo; cai, como dizemos, sob o
domínio do complexo de Édipo. Não perdoa a mãe por ter
concedido o privilégio da relação sexual, não a ele, mas a seu pai, e
considera o fato como um ato de [profunda] infidelidade".

No fragmento de texto acima selecionado, Freud tenta demonstrar


categoricamente, com todo vigor de sua teoria, como uma posterior
fixação causada pelo complexo de Édipo - que é uma fase peculiar ao
desenvolvimento psíquico de crianças a partir de três anos de idade -,
pode influenciar nas escolhas do objeto que o indivíduo adulto
escolherá para depositar sua libido.
Como já foi mencionado, em todas as crianças, o período de
“atividade sexual” – em relação ao deslocamento libidinal por
diferentes zonas erógenas – só é finalizado com o desenvolvimento
do "Complexo de Édipo" que, por sua vez, é capaz de provocar o
surgimento de uma nova instância moral mediadora: o “Superego” (ou
ideal do Ego). A partir dos três ou quatro anos, a criança enfrenta um
período de latência na qual permanece quase que totalmente
“assexuada”. Com isto, num desenvolvimento edipiano “normal”
(ou, se preferirem, "clássico"), a criança passa a realizar importantes
transferências libidinais, direcionando-as a seus progenitores: passa a
desejar a mãe – de sexo oposto ao seu; repudiando, paralelamente, a
figura paterna, de mesmo sexo.
É exatamente neste ponto que começa a acontecer o gradual
desvelamento das realidades externas, seguido pelo desejo – até certo
ponto natural - de conquista dos novos aspectos e percepções do
mundo exterior, recém descoberto pela criança. Portanto, a conquista
pelo mundo externo já começou, os genitais adquirem nova
significação e se tornam a principal zona de referência libidinal do
corpo.
A partir desta fase, a criança - em permanente desenvolvimento –
também começa a ter uma impressão mais clara do mundo exterior a
ela, abrindo caminho para o surgimento de uma compreensão global e
integral de seu próprio corpo, como sendo algo exposto e em oposição
ao mundo externo. A figura do corpo é reestruturada e, desta forma,
temos à nossa frente o quadro do narcisismo secundário.
Para a psicanálise, os “impulsos sádicos” são aqueles que tentam
dominar o objeto de amor, subjugando-o ao lhe infligir dor (teste
supremo de poder sobre ele). O indivíduo se identifica com o objeto,
podendo se tornar sádico contra si próprio e, neste caso, terá se tornado
também um “masoquista”. De qualquer forma, o sadismo é um desejo
parcial, um componente da sexualidade.
Na fase narcisista, quando não há a percepção de um mundo
externo real, o sadismo e o masoquismo não têm significado
psicológico para o ser. Na fase da libido oral, há uma enorme
agressividade que não se importa com a existência do objeto, existindo,
praticamente, somente o objetivo de destruí-lo. A fase anal e
homossexual também é caracterizada por uma agressividade bastante
acentuada e a destruição do objeto não tem importância - ou pode até
mesmo ser intensamente desejada.
Do ponto de vista do pensamento adulto, o corpo será projetado no
mundo que, por sua vez, será introjetado no corpo – num permanente
movimento de interação mútua e recíproca. Também no adulto, corpo e
mundo estão em constante intercâmbio. É possível que grande parte
das experiências não possa ser inteiramente atribuída nem ao corpo
nem ao mundo – vistos de maneira isolada.
É muito importante observar que grande parte do processo
exploratório corporal é realizado pelo tato, ou seja, pelo contato
manual direto com as diferentes partes do corpo. Para as partes do
corpo tocadas pelas mãos, estas mesmas partes representam – num
sentido de decodificação sensorial – o todo interior e o próprio mundo
exterior.

Neurastenia e Hipocondria: neuroses causadas pela criação


Segundo o dicionário Aurélio:
1. Neurastenia: neuro = relativo ao sistema neural; + asthenia =
“fraqueza” (vocábulo grego). Portanto, neuroastenia = "Afecção mental
caracterizada por astenia física ou psíquica, preocupações [excessivas e
descabidas] com a saúde, grande irritabilidade, cefaléia e alterações de
sono".
2. Hipocondria: "Patologia – afecção mental onde há depressão e
preocupação obsessiva com o próprio estado de saúde: o doente, por
efeito de sensações subjetivas, julga-se preso a condições mórbidas -
na realidade, existentes – e passa a procurar, permanentemente,
tratamentos que, além de descabidos, são muitas vezes perigosos
(medicações, cirurgias, etc.)".

De maneira simplificada, podemos considerar - tanto a neurastenia


quanto a hipocondria – duas modalidades de neuroses (afecção
psíquicas) provocadas principalmente por complicações nas relações
parentais do indivíduo, ou seja, neuroses causadas por relações ruins,
inadequadas ou complicadas estabelecidas entre pais e filhos – no
decor-rer da criação (ou educação) dos mesmos.
Tanto o ego quanto o superego (formado durante o
desenvolvimento do "Complexo de Édipo"), não desejam mais seguir
os esquemas de da sexualidade pré-genital e, por isto, lutam contra a
satisfação oriunda de órgãos sobrecarregados de sexualidade infantil. O
resultado desta luta conflituosa entre instância psíquicas é a necessária
transformações das tendências libidinais infantis em esquemas mais
adequados e socialmente aceitáveis de obtenção de prazer. A
intelectualização, por exemplo, é vista como uma tentativa de
transferência dos impulsos libidinais infantis excessivos para a via do
intelecto.
Os sintomas de uma neurose representam o produto de uma luta
conflituosa entre a sexualidade infantil - que insiste em ser revivida
pelo indivíduo - e os padrões de conduta atualmente exigidos pelos
impulsos do ideal do ego (superego) que, por algum motivo, precisam -
num dado momento da vida do indivíduo - emergir proeminentes.
Naturalmente, numa situação de neurose, o aparelho psíquico se vê
numa situação onde não encontra mais força suficiente para reprimir
de maneira eficaz esquemas primitivos de organização mental e
corporal - que insistem, por sua vez, em se instalar no lugar daqueles
que são realmente adequados e necessários para determinada fase da
vida levada pelo indivíduo, dentro de seu contexto civilizatório e
cultural. Tal situação acaba gerando, com o tempo, um conflito
gradativo e progressivo, onde sintomas desagradáveis acabarão por
emergir, como um resultado do embate de pulsões conflitantes:
provenientes do "ego" e do supergo" - e que tentam conter
desesperadamente a inchente de pulsões libidinais em descontrole
oriundas do "id". O resultado deste processo conflituoso é a
SUBLIMAÇÃO dos instinto que insistem em emergir e aflorar: o ego
e o superego frente ao problema, encontrando, por algum motivo,
dificuldades em imprimir os usuais mecanismos alternativos de defesa,
o ego acaba por "ceder" às pulsões primitivas, retornando ao passado
sob forma que remete a algum modelo (ou esquema mental) relativo ao
estado infantil, ou seja: os sintomas neuróticos recorrem a vias
libidinais que, outrora, dera ao indivíduo, em sua infância, algum
prazer sexual exagerado, que acarretam na fixação à fase oral, anal,
genital, etc., que, por sua vez, acabarão por se manifestar,
posteriormente, em sintomas altamente negativos e inadequados para a
vida do indivíduo em estado civilizatório, especialmente em sua fase
adulta.

Referências Bibliográficas:
- SHILDER, R. - "A imagem do corpo: as energias construtivas da
Psique", Editora Martins Fontes, São Paulo, 1981.
- Freud, Sigmund - "Cinco Lições de Psicanálise: Contribuições à
Psicologia do Amor", Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro, 1997.
- Novo “Dicionário” da Língua Portuguesa – “Aurélio” Buarque da
Holanda, 1999.