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¡uma análise de conjuntura!

¡AJUSTE FISCAL DO LEVY: GOVERNO NA CONTRAMÃO!

O início do segundo governo da presidenta Dilma Rousseff vem se marcando por uma nítida reorientação

quanto à política econômica que marcou o período de 2011 a

2014. A nomeação do economista neoliberal Joaquim Levy

para a chefia do Ministério da Fazenda seguida do anúncio de uma agenda ortodoxa para reequilibrar as contas da União revelam uma mudança de postura da presidenta no combate à crise desencadeada no centro do capitalismo a partir de

2008. Isso porque, em seu primeiro mandato, a gestão de

Guido Mantega na Fazenda se caracterizara por uma política fiscal expansionista com vistas a impedir que os efeitos da crise internacional chegassem ao Brasil na forma de aumento do desemprego e redução da renda da classe trabalhadora. Com efeito, o fim de seu primeiro governo registrou o menor índice de desemprego da história brasileira, com taxa de 4,8% segundo o IBGE. Vale registrar que isso ocorre em meio a uma conjuntura global marcada pela brutal elevação do número de desempregados nas economias desenvolvidas sobretudo na União Europeia em consequência da adoção de políticas de austeridade para combater a crise econômica. Além disso, o aumento do emprego brasileiro acompanha a elevação da renda do trabalhador, fruto da fundamental política de valorização real do salário mínimo. Ao longo dos últimos anos, o cenário global reverteu gravemente a tendência de valorização das commodities verificada a partir de 2004. Tal valorizaç~o criara condições ao Brasil de crescer com distribuição de renda, lançar mão de políticas anticíclicas frente à crise global e executar grandes projetos de infraestrutura, como o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). A reversão desse quadro a partir de 2011, porém, atingiu gravemente a balança comercial brasileira, afetando nossa taxa de investimentos e culminando com o crescimento próximo de zero verificado em 2014. Diante desse cenário, em seu segundo mandato a presidenta Dilma vem adotando um pacote de ajuste nas contas públicas cujo eixo principal consiste em redução de incentivos à economia, corte de despesas previdenciárias, elevação da taxa de juros e aumento de impostos. Trata-se de um direcionamento preocupante na medida em que indica efeitos temerários como o corte de direitos trabalhistas e o

resfriamento da já estagnada atividade econômica, repercutindo na elevação do desemprego. Uma das principais provisões de ajuste tomadas pelo governo corresponde às medidas provisórias 664 e 665, que impactam em direitos trabalhistas e se destinam a tornar mais rígidas as regras para o pagamento de pensão por morte, abono salarial, auxílio-doença, seguro defeso e seguro-desemprego. As novas regras do seguro-desemprego, por exemplo, elevam de seis para dezoito meses o período de carência a partir do qual o trabalhador tem acesso ao benefício. Tal mudança produz um efeito gravíssimo na realidade brasileira, cuja economia é marcada pela alta rotatividade, especialmente entre os mais jovens. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e

De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados de janeiro e novembro de

Desempregados de janeiro e novembro de 2014, a aplicação das novas regras excluiria do direito ao benefício 63,4% dos trabalhadores demitidos, ante 21,5% no cumprimento do modelo vigente. De acordo com o discurso oficial, essas medidas visam a corrigir distorções e evitar fraudes na Previdência, e gerarão uma economia de 18 bilhões de reais ao ano. No entanto, o que se vê na realidade é uma grave ameaça a conquistas históricas da classe trabalhadora. Num país que pretende promover justiça social, é inadmissível que os trabalhadores e as trabalhadoras arquem com os sacrifícios do ajuste, repetindo a velha e antipopular narrativa neoliberal. O ônus da busca pelo superávit nas contas públicas deveria ser imposto a atores privilegiados na nossa estrutura social, a partir de medidas como a instituição do Imposto sobre Grandes Fortunas, a sobretaxação de heranças, a taxação das remessas de lucros e dividendos ao

exterior e a revisão das desonerações, por exemplo. É lamentável que essas propostas sequer sejam apresentadas ao debate, o que faz com que se crie na opinião pública o falso consenso de que a retirada de direitos dos trabalhadores seja um caminho inevitável que devemos atravessar em nome de uma economia saudável. Como parte do pacote de ajuste fiscal, além das medidas de repercussão nos direitos trabalhistas o governo federal elevou a taxa de juros SELIC ao maior patamar desde 2009, equivalente a 12,75%. No cenário atual de estagnação, o aumento dos juros representa mais um sinal de freio à atividade econômica, donde surgem novas pressões de aumento do desemprego bem caras ao povo brasileiro. As ações adotadas pelo governo federal para combater a crise vigente ignoram o centro do desafio brasileiro, isto é, a indústria nacional. Desde a década de 1980, com a crise da dívida externa e suas implicações nos déficits fiscais, inflaç~o e generalizaç~o das indexações, o desenvolvimento industrial vem atravessando graves dificuldades. A partir do Plano Real, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a manutenção permanente do binômio de juros altos e câmbio valorizado atacou violentamente nossa indústria na medida em que inviabilizou investimentos e deteriorou sua competitividade. Isso explica o porquê da dependência do Brasil sobre a exportação de matérias-primas no contexto atual, haja vista da redução da participação da indústria no nosso comércio exterior. Tal aspecto nos torna mais vulneráveis às flutuações internacionais – sobretudo a desvalorização das

commodities , uma vez que estamos muito dependentes de um único setor para o equilíbrio da balança comercial. Nesse sentido, as medidas defendidas pela equipe econômica representada por Joaquim Levy não oferecem a resposta que o momento brasileiro exige. Pelo contrário: ao reproduzir políticas ortodoxas, gelando a atividade econômica e atacando conquistas consagradas da classe trabalhadora, Levy parte da concepção equivocada de que simplesmente o equilíbrio fiscal j| seria suficiente para a promoção do crescimento econômico a partir da ação natural do mercado. Ou seja, insiste-se numa política que já se mostrou fracassada e possui como símbolo na atualidade a crise abismal do continente europeu. O pacote econômico adotado até agora pelo segun- do governo Dilma sinaliza contrariamente aos interesses populares que a elegeram. É inaceitável que a questão das contas públicas se equilibre a partir da retirada de direitos trabalhistas historicamente conquistados, fazendo com que a classe trabalhadora pague a conta pelo ajuste. Uma reforma tributária com taxação progressiva se coloca como única alternativa a seguir para que se promova equilíbrio fiscal com justiça social, fazendo jus ao programa político eleito em outubro de 2014. Ademais, cabe ao governo federal formular uma estratégia de desenvolvimento nacional de longo prazo que encontre na indústria brasileira o caminho para a superação dos nossos desafios, de maneira que o Brasil cresça de maneira sólida gerando empregos e elevando a renda da classe trabalhadora.

¡POR TRÁS DA LAVA JATO: A PETROBRÁS É NOSSA! O PRÉ-SAL É NOSSO!

A sociedade brasileira vem assistindo, há mais de um ano, à imensa escandalização da Operação Lava Jato pelos meios de comunicação do nosso país. É preciso, pois - compreendendo o papel geopolítico estratégico da Petrobrás e a grande cobiça internacional sobre as reservas brasileiras de petróleo na camada pré-sal - encarar tal processo com olhos muito críticos e atentos aos interesses que se movem por trás da Lava Jato e de sua instrumentalização por setores da elite política brasileira. Não se buscam defender, evidentemente, autores de eventuais desmandos na administração da estatal - pelo contrário, as irregularidades devem ser investigadas e os

culpados, responsabilizados. No entanto, é impossível deixar de observar a tática adotada por estratos da direita brasileira - alinhados a interesses privados estrangeiros - de desmoralização da Petrobrás e de demonização do seu caráter público, de modo a abrir as portas da opinião pública para uma campanha privatizante que realize o desejo das grandes petrolíferas globais: o apoderamento do nosso gigantesco pré-sal. Desde 2007, com a descoberta de imensas jazidas de petróleo na camada brasileira do pré-sal, países centrais do capitalismo têm voltado seus olhos para o Brasil com o interesse de assumir o controle de nossas riquezas minerais.

Entretanto, a decisão do governo Dilma de adotar o regime de partilha na exploração do pré-sal - isto é, sustentando a soberania brasileira sobre as reservas e garantindo que grande parte de seus rendimentos se voltasse ao interesse nacional - frustrou o imperialismo petrolífero, repercutindo inclusive nas eleições presidenciais que se sucederam. As eleições de 2014 ilustraram claramente essa disputa. Por um lado, as candidaturas liberais de Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) defendiam incisivamente que o governo brasileiro abrisse suas reservas petrolíferas para exploração por empresas estrangeiras mediante o regime de concessão - em que companhias privadas assumem o controle das jazidas e extraem todo o petróleo para si. A candidatura de Dilma Rousseff (PT), por outro lado, insistia no regime de partilha como condição para que as riquezas oriundas do pré-sal se revertessem em recursos para investimentos sociais do governo federal, sobretudo em educação e saúde. O resultado do pleito indica que o povo brasileiro optou democraticamente pela segunda opção. Apesar disso, nota-se a partir da reeleição de Dilma Rousseff uma intensa campanha patrocinada pela mídia oligopolista brasileira e pelos partidos de oposição neoliberal com a finalidade de enfraquecer a Petrobrás e inviabilizar seu controle sobre os poços de petróleo nacional. Dentro desse processo, a Operação Lava Jato é colocada como ferramenta central capaz de convencer a opinião pública de que a participação estatal na exploração do petróleo é necessariamente prejudicial ao país, uma vez que a Petrobrás seria dominada pela corrupção. Além disso, a presença do Estado tornaria a empresa ineficiente e incapaz de explorar o pré-sal de maneira satisfatória. Para tanto, ignoram-se todos os resultados recentes da companhia, que revelam recordes sucessivos na extração e produção de petróleo.

É certo que se trata de grande equívoco a construção de imagem negativa da estatal, haja vista dos números que vêm sendo apresentados sobre sua eficiência: a Petrobrás encerrou o ano de 2014 com a maior produção mundial entre as empresas petrolíferas de capital aberto, ultrapassando a norte-americana ExxonMobil com a marca de 2,209 milhões de barris de petróleo por dia. Há três meses, bateu seu próprio recorde de produção diária de petróleo e gás natural com quase 2,3 milhões de barris. Há poucas semanas, bateu o recorde diário de produção de derivados em suas refinarias ao atingir 2,17 milhões de barris. Além disso, hoje a empresa emprega diretamente mais de 86 mil trabalhadores e trabalhadoras, com investimentos importantes por todo o Brasil. Logo se vê que a Petrobrás conserva sua pujança e seu grande valor real, sendo o maior patrimônio do povo brasileiro. Cabe analisar que, historicamente, o petróleo brasileiro é colocado como objeto de disputa entre interesses nacionalistas e entre- guistas. A história nos mostra que nos momentos em que houve mobilização popular os interesses nacionalistas lograram êxito - o que se constata na própria origem da Petrobrás, na década de 1950. Dessa maneira, é imprescindível que os setores progressistas da sociedade se organizem para impedir que essa gigantesca riqueza do povo brasileiro seja entregue às forças imperialistas globais. Para isso, é fundamental que tenhamos espírito militante e consciência política do momento histórico que vivemos. A campanha "O petróleo é nosso!" não pode ser enterrada no século passado - afinal, são as reservas petrolíferas brasileiras que devem determinar o futuro do desenvolvimento social econômico do Brasil.

o futuro do desenvolvimento social econômico do Brasil. ¡AS AMEAÇAS DE UM CONGRESSO REACIONÁRIO: REFORMA

¡AS AMEAÇAS DE UM CONGRESSO REACIONÁRIO: REFORMA POLÍTICA JÁ!

As eleições parlamentares de 2014 resultaram no Congresso mais reacionário desde 1964, com a ascensão de

forças

religioso

ligadas

e

o

ao

empresariado

das

enxugamento

e

bancadas

ao

fundamentalismo

do

próximas

sindicalismo e defensoras dos direitos humanos. Esse cenário oferece uma perspectiva temerária para os setores progressistas da sociedade brasileira, haja vista das ameaças de retrocessos civilizatórios que vêm avançando sobretudo na Câmara dos Deputados e da grave conjuntura política imposta pela crise econômica internacional. A guinada à direita do Congresso Nacional já se mostra perceptível com menos de três meses de legislatura. Projetos como a redução da maioridade penal e uma contrarreforma do sistema político, por exemplo, têm ganhado força entre os parlamentares substantivamente. Há de se reconhecer que o grande símbolo dessa ascensão conservadora no Congresso Nacional é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), eleito para o biênio 2015-16. Eduardo Cunha é um dos mais importantes líderes da bancada evangélica a partir da qual, com grande frequência, atua contra os direitos de mulheres e LGBTs. Para

atua contra os direitos de mulheres e LGBTs. Para se ter alguma noção de seus propósitos

se ter alguma noção de seus propósitos políticos, basta lembrar que Cunha é relator do famigerado “Estatuto do Nascituro”, que busca oferecer proteç~o jurídica ao feto e impedir a realização de aborto em casos já permitidos no Brasil, como gestação fruto de estupro e feto anencefálico o deputado também é autor de projeto que tipifica o aborto como crime hediondo, indo na absoluta contramão da luta histórica dos movimentos feministas. Além disso, Cunha propôs projeto de lei que visa a criminalizar a “heterofobia” e instituir o “Dia do Orgulho Heterossexual”, em algo que se assemelha a um deboche { luta dos movimentos LGBTs que reivindicam o combate do Estado à violência homofóbica. O deputado fluminense também se tornou conhecido pela estreita relação com lobistas que buscam influenciar votações na C}mara em prol de interesses privados. Tal característica se mostrou aberrante durante a votação do Marco Civil da Internet em 2014, na qual,

representando interesses de grandes empresas de telecomunicação, Cunha combateu fortemente a aprovação da neutralidade da rede – chegando a afirmar que se tratava de “comunizar a internet”. A defesa dos interesses das grandes teles também se mostra no veemente combate que o deputado faz a qualquer proposta de regulamentação dos artigos constitucionais referentes à democratização dos meios de comunicação, o que afetaria interesses econômicos dos oligopólios midiáticos. A grande influência de Eduardo Cunha entre colegas parlamentares se verifica a partir da proximidade do deputado com empresas privadas que, por seu intermédio, financiam as campanhas de seus pares em diversas legendas partidárias, proporcionando-lhe praticamente uma bancada própria. A campanha de Cunha em 2014, para se ter uma ideia, declarou arrecadação de R$ 6,8 milhões, oriundos de empresas como Telemont (do ramo das comunicações), Santander, Bradesco, BTG Pactual, AmBev, entre outras. Tal fato é sintoma da urgência de se promover no nosso país uma reforma do sistema político que extinga o financiamento empresarial das campanhas eleitorais – à qual, inclusive, o deputado é franco opositor. O modelo vigente permite que empresas privadas patrocinem as campanhas de candidatos, o que necessariamente cria um vínculo que, após eleitos, submete-os aos interesses de suas financiadoras, a despeito da votação popular que lhes foi depositada. Isso amplia o fosso existente entre o representante e a população que o elegeu, contribuindo para a intensificaç~o da crise institucional de representatividade e de desvalorização da luta política que vivemos atualmente. Somando-se a isso, o financiamento empresarial das campanhas inviabiliza candidaturas de natureza popular, as quais não dispõem de grandes somas de capital e acabam sufocadas pelas milionárias campanhas eleitorais adversárias o que ajuda a explicar o padrão elitista do Parlamento brasileiro. Na Câmara que assumiu em 2015, por exemplo, 70% dos deputados eleitos receberam recursos de pelo menos uma das dez empresas que mais doaram sobretudo empreiteiras, bancos, mineradoras e agroempresas. Esses números ilustram a completa capitulação do poder político em relação ao poder econômico no sistema atual, o que só pode ser revertido por meio de uma reforma política. Uma reforma que democratize nosso sistema político deve abarcar, ainda, a votação em lista nas eleições

parlamentares. Isso necessariamente levará ao

fortalecimento programático dos partidos políticos, de modo

a valorizar o debate de ideias com a sociedade sem a

preponderância dos usuais personalismos nas campanhas eleitorais. As listas, definidas em convenções partidárias, devem contar com paridade de gênero, acabando com a histórica subrepresentatividade das mulheres no Legislativo. Basta observar que, embora representem mais de 50% da população brasileira segundo o IBGE, as mulheres são menos de 10% na atual composição da Câmara dos Deputados e menos de 14% no Senado Federal.

Sem dúvidas, a depender somente do atual Congresso comprado pelo grande capital mediante o financiamento empresarial de campanhas , jamais será aprovada uma reforma política com viés democratizante que amplie minimamente a voz popular no processo político decisório. Dessa maneira, é fundamental que os estratos progressistas da sociedade brasileira se organizem em prol da transformação do sistema político brasileiro, de maneira que o interesse público assuma o protagonismo na nossa vida política e o povo brasileiro passe a enxergar, nas instituições, a representatividade que uma democracia material deve proporcionar.

¡GLOBO 50 ANOS: A URGENTE REGULAÇÃO DA MÍDIA!

Em 2015, a Rede Globo completa cinquenta anos de existência. Surgida na esteira do golpe empresarial militar de 1964 ao qual dera pleno apoio , logo a empresa se tornaria um dos principais órgãos de sustentação política e ideológica da ditadura que o sucedeu. Mesmo após o fim do regime ditatorial, a Globo manteve-se como grande porta-voz de setores reacionários e antidemocráticos da sociedade brasileira, cumprindo o papel de combate a qualquer ameaça

de avanço das forças progressistas no nosso país.

É bem verdade que o Grupo Globo contou com o maciço apoio dos governos militares para sua expansão mercadológica pelo país, assim como são graves as suspeitas presentes até hoje de a empresa ser grande sonegadora de impostos não é surpreendente, pois, que se trate da principal empresa de comunicação do Brasil. Para além da questão do controle do mercado midiático nacional por meio de um verdadeiro oligopólio, deve-se atentar aos riscos que a Rede Globo oferece à democracia brasileira na medida em que se trata de potencial

democracia brasileira na medida em que se trata de potencial manipuladora da opinião pública, podendo direcioná-la

manipuladora da opinião pública, podendo direcioná-la a qualquer tempo de acordo com seus interesses políticos e

empresariais. Nossa história recente mostra que tal condição

já produziu efeitos graves sobre os rumos do país, desde a

eleição de presidentes da República até a criminalização da militância dos movimentos sociais. Nesse sentido, é importante constatar que o sistema de meios de comunicação do Brasil é caracterizado por uma brutal concentração que possibilita o surgimento de verdadeiros oligopólios da mídia. As várias formas de manifestação dessa concentração seja horizontal, a partir da própria criação do oligopólio, seja a propriedade cruzada, em que um mesmo grupo controla diferentes ramos das comunicações etc. repercutem numa mídia antidemocrática incapaz de expressar a pluralidade cultural do povo brasileiro, além de entregar a um pequeno grupo de empresários o poder de manipular a informação a que o cidadão e a cidadã brasileira têm o direito de ter acesso.

A consequência dessa oligopolização da mídia para

a sociedade é a criação de uma nova forma de censura

imposta pelo mercado, a qual sufoca a expressão das diversas vozes originais do povo brasileiro ao lhes submeter a um mesmo padrão cultural produzido no eixo Rio-São Paulo, incapaz de sintetizar a diversidade nacional. Essa distorção é bem grave para o desenvolvimento cultural do Brasil, na medida em que marginaliza expressões populares legítimas e as leva à afirmação de identidades culturais padronizadas, afetando a forma como nos relacionamos e nos enxergamos no nosso meio.

Diante de tudo isso, é urgente que a sociedade debata com clareza a regulação da mídia, a fim de reverter os pilares do sistema atual antidemocrático e singular. Tal regulação deve levar em conta a própria Constituição Federal de 1988 a qual, em seus artigos 5, 21 e 220 a 223, traçou um sistema de comunicações democrático que nunca foi regulamentado pelas sucessivas legislaturas do Congresso Nacional.

É certo que a luta pela regulação da mídia encontrará diversos focos de resistência. Isso se deve à oposição histórica com que os grandes meios de comunicação, encabeçados pelo Grupo Globo, lidam com o assunto, inviabilizando que a sociedade discuta puramente as vantagens e desvantagens oferecidas por um modelo diferente. Não bastasse essa postura, é notória a maneira como esses veículos tratam os movimentos defensores da democratização da mídia, tachando-os de autoritários por supostamente defenderem a imposição de censura e a restrição à liberdade de expressão. Trata-se, evidentemente, de uma maneira de confundir o interlocutor e interditar qualquer debate que ameace romper com o sistema atual. Isso porque defender a regulação da mídia não possui qualquer relação lógica com a ideia da censura e, principalmente, caminha no perfeito sentido de proporcionar uma verdadeira liberdade de expressão à sociedade. Regular o conteúdo dos meios de comunicação é uma prática já existente no Brasil de diversas formas. Na televisão aberta, por exemplo, a exigência de um mínimo da grade voltada a programas jornalísticos, a regulação de um máximo de tempo permitido à publicidade e a proibição da transmissão de programas adultos em certos horários, entre outras, consistem em maneiras de regular o conteúdo para atender ao interesse público o que não significa absolutamente que o Estado esteja interferindo na liberdade de imprensa. Nesse sentido, com a mesma finalidade, é fundamental que se afirmem novas formas de regulação, como, por exemplo, a regionalização do conteúdo produzido. Faz-se necessária, também, a regulação econômica da mídia. Atualmente, o sistema de meios de comunicação brasileiro consiste num mercado dominado por poucas empresas as quais controlam diferentes ramos e fechado ao surgimento de novas. Pegue-se o exemplo do próprio

Grupo Globo: esta empresa detém a Rede Globo de Televisão,

a Rádio Globo, o jornal O Globo e a revista Época, entre

outros veículos trata-se do caso de “propriedade cruzada”.

É sensato afirmar que isso gera um verdadeiro oligopólio

prejudicial à população, na medida em que promove a concentração de mercados e gera um controle da qualidade de oferta por poucos agentes econômicos, além de desmotivar a inovação. Vale lembrar que a Constituição de 1988 vedou a formação de oligopólios; como tal matéria nunca foi regulamentada, porém, hoje não passa de letra morta.

O debate da regulação da mídia já avançou mais em outros países do que no Brasil sem que caíssem em ditaduras como as prognosticadas pelos defensores do atual modelo. Os EUA, por exemplo, criaram em 1934 uma agência reguladora independente do governo que proibiu a propriedade cruzada

ou seja, uma mesma empresa não poderia ter controle

sobre dois ramos das comunicações numa mesma cidade. Na Argentina, a “Ley de Medios” de 2009 limitou a propriedade

cruzada, estabeleceu limites de audiência para os veículos privados e determinou um mínimo de produção nacional a ser transmitida. No Reino Unido, criou-se em 2014 um sistema que busca impor correções e direito de resposta às empresas de comunicação ao qual não são obrigadas a se filiar, mas recebem incentivos para tal. A regulação da mídia no Brasil, pois, coloca-se como prioridade para que se aprofunde nossa democracia e

se promova maior liberdade de expressão ao povo brasileiro,

permitindo o surgimento de novos veículos e desconcentrando a produção concentrada na região Sudeste. Tal medida deve vir acompanhada da transparência nas concessões públicas de canais de televisão e rádio, além do fortalecimento da comunicação pública e comunitária. Por isso, é importante esclarecer à população

brasileira o real significado da regulação da mídia e a sintonia que ela mantém com a democracia socialmente justa que almejamos. O cinquentenário da Rede Globo de Televisão

um dos maiores entulhos antidemocráticos herdados do

período ditatorial brasileiro deve ser encarado como o ponto de partida para uma discussão franca e aberta sobre a regulação dos meios de comunicação a fim de se promover uma efetiva democratização da nossa mídia.