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Índice

Introdução

2

Fundamentação teórica

3

A Escola enquanto reprodutora da hetero-normatividade

3

A escola e os filhos de gays e de lésbicas

4

Considerações finais

6

Referências Bibliográficas

7

Introdução

Todo preconceito impede a autonomia do [ser humano], ou seja, diminui sua liberdade relativa diante do ato de escolha, ao deformar e, consequentemente, estreitar a margem real de alternativa do indivíduo. Agnes Heller (1992, p. 59)

O presente trabalho insere-se na Unidade Curricular de Educação para a

Cidadania, do Mestrado em Ensino do 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico, tendo como tema a “Liberdade Sexual”. Numa altura em que a sociedade portuguesa permite, por lei, o casamento homossexual, em que muitas crianças e jovens já não têm a dita

“família tradicional”, em que cada vez mais estamos atentos a fenómenos de bullying e conhecemos as suas consequências, pensamos que é relevante debater esta temática junto dos jovens, nomeadamente no 2.º ciclo. O nosso tema está integrado na Educação para a Cidadania e visa sensibilizar para os Direitos Humanos e para as liberdades fundamentais de cada indivíduo, promovendo o pensamento crítico.

A educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas

responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo. Assim, a escola é fundamental para a aprendizagem e o exercício da cidadania e direitos humanos, incluindo a educação para a saúde e a sexualidade. A Educação para os Direitos Humanos incide sobre os direitos humanos e as liberdades fundamentais em todos os aspetos da vida das pessoas, a Educação para a Saúde e a Sexualidade pretende dotar as crianças e os jovens de conhecimentos, atitudes e valores que os ajudem a fazer opções e a tomar decisões adequadas à sua saúde e ao seu bem-estar físico, social e mental.

Fundamentação teórica

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda!

Cecília Meireles

A Escola enquanto reprodutora da hetero-normatividade

Perante a vontade de construir uma sociedade e uma escola mais justas, solidárias, livres de preconceito e discriminação, é necessário identificar as dificuldades que têm surgido para promover os direitos humanos e, especialmente, problematizar e erradicar a homofobia e promover a liberdade sexual (Junqueira, 2009). A homofobia tem génese social, cultural, institucional e histórica, reflete-se no nosso quotidiano e carece de atenção por parte das políticas públicas (Junqueira,

2009).

Enquanto profissionais da educação devemos estar conscientes do nosso dever de promover os direitos humanos, no entanto, esquecemo-nos por vezes de que somos também agentes sociais e que podemos, inconscientemente, promover a perpetuação de sexismos, homofobia e outras formas de discriminação. Segundo Junqueira (2009), cada vez mais, estamos conscientes de que a escola não se limita a transmitir ou construir conhecimento, mas também reproduz padrões sociais, perpetuando conceções e valores, fabricando sujeitos e identidades, legitimando hierarquias e considerando como “estranho”, “inferior”, “pecador”, “doente”, “pervertido”, “criminoso” ou “contagioso” todos aqueles e aquelas que fogem à hétero-normatividade. Na educação escolar, os sujeitos que escapam da norma em termos de sexo/género/sexualidade são tomados como minoria e colocados à margem das preocupações de um currículo ou de uma educação projetada para a maioria. Paradoxalmente, esses sujeitos marginalizados são necessários para manter os limites considerados normais, dirigindo as energias para os sujeitos que “de facto importam”. De acordo com Junqueira (2009) a escola configura-se um lugar de opressão, discriminação e preconceitos, onde existe um quadro de violência a que estão submetidos milhões de jovens e adultos (lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais - LGBT), muitos dos quais vivem situações delicadas de internalização da homofobia, negação, autoculpabilização, autoaversão e isto acontece com a participação ou a

omissão da família, da comunidade escolar, da sociedade e do Estado. Para Seffner (2009), o ingresso, o acolhimento e a efetiva inclusão de alunos LGBT exigem várias alterações na estrutura escolar. A primeira é a abolição das piadas e das manifestações sexistas, tão comuns entre professores, sobre os alunos “diferentes” dos padrões heterossexuais. Não se pode educar num ambiente com faltas de respeito e as agressões verbais e físicas têm sido uma arma de expulsão de indivíduos não heteronormativos. É necessário construir um ambiente de respeito e aceitação. Isto não significa permitir que todos os comportamentos dos alunos em relação à vida amorosa e sexual sejam admitidos na escola. Mas as regras que valem para os namoros heterossexuais devem ser as mesmas para os namoros homossexuais. Por que não se aceita que dois alunos fiquem de mãos dadas no intervalo, se aceitamos que um rapaz e uma rapariga o façam? Se a escola estabeleceu limites para os namoros em termos de contato físico (beijos, toque, etc.), estas regras devem servir para os diferentes tipos de casais que se constituem e todos devem cumpri-las (Seffner, 2009). Segundo este autor, a escola é um espaço público, é o local onde os alunos aprendem a negociar as regras de convívio em espaços públicos, o que lhes valerá até o fim da vida. O estigma e a discriminação não permitem a construção de uma cidadania plena e não devem ser admitidos no espaço escolar. Internacionalmente, há uma crescente mobilização para fazer das escolas ambientes seguros, livres e educativos para estudantes, profissionais e familiares, independentemente de suas identidades sexuais e de género (Jennings em Junqueira, 2009), promovendo o reconhecimento da diversidade sexual e da pluralidade de identidade de género, garantindo a cidadania de todos/as. Ao ser consentida e ensinada, a homofobia adquire contornos institucionais através de tratamentos preconceituosos, medidas discriminatórias, ofensas, constrangimentos, ameaças e agressões. Jovens e adultos LGBT são confrontados desde cedo com uma “pedagogia do insulto”, constituída de piadas, “brincadeiras”, alcunhas, insinuações, expressões desqualificantes que funcionam como mecanismos de silenciamento e de dominação simbólica.

A escola e os filhos de gays e de lésbicas

Para Mello, Grossi e Uziel (2009), o ambiente escolar ainda é um espaço de muitos preconceitos e discriminações contra os filhos de gays e lésbicas, vistos como

perigosos para as outras crianças, particularmente em escolas religiosas. As instituições escolares parecem não estar preparadas para lidar com a diversidade da organização familiar e da sexualidade. Por um lado, os estudantes de estruturas familiares não-convencionais são frequentemente submetidos a situações embaraçosas, por outro, muitas vezes a família da criança omite da escola que é uma família homoparental. Nestes casos, a criança vê-se presa entre o segredo das suas origens e o receio da homofobia dirigida aos seus pais e mães. De acordo com Mello, Grossi e Uziel (2009), o ambiente familiar destas crianças é muitas vezes condenado, considerado “moralmente insalubre” e socialmente desadequado. Às vezes, sob aparente aceitação, os educadores excluem estas crianças e as suas famílias de atividades coletivas da escola, alegando estar a protegê-las do preconceito e da discriminação. Segundo estes autores, a escola pode contribuir para maior aceitação social da diversidade familiar começando por criar condições para que estas famílias sejam visíveis no contexto escolar. Por exemplo:

os formulários com informações sobre a família devem ser amplos e permitir que casais do mesmo sexo possam preencher dados sobre paternidade e maternidade. Itens como nome da mãe e do pai devem ter em conta a inclusão de outras pessoas que “cuidem” da criança, até mesmo nos casos de monoparentalidade, como avós e tios;

parceiros do mesmo sexo devem poder participar nas reuniões de pais e nas festas dos dias das mães e dos pais sendo reconhecidos como um casal homoparental;

a temática da homossexualidade e das famílias homoparentais deve ser incluída no currículo da escola.

Abordar a “orientação sexual” na escola permite que alunos e professores reconheçam a diversidade humana, incluindo o campo da sexualidade (Mello, Grossi e Uziel, 2009). No entanto, nas disciplinas de educação sexual, a homossexualidade, bissexualidade e transexualidade são quase exclusivamente abordadas apenas quando se debate os temas da prevenção de doenças sexualmente transmissíveis - DST/ SIDA e da gravidez na adolescência. Tal como Mello, Grossi e Uziel (2009) afirmam, a escola é uma instituição fundamental para a mudança, pode ser um espaço de abertura para novos valores, oferecendo a crianças e a jovens uma pluralidade de pensamentos, além de informações importantes para o seu crescimento e o convívio social. Filhos gays,

lésbicas ou transexuais têm o direito de falar sobre as suas família, de convidá-las a frequentar a escola, de receber colegas em casa sem medo de preconceitos. Os atores escolares como professores e auxiliares de ação educativa são fundamentais para desmistificar a aparente incompatibilidade entre homossexualidade e família. A qualidade da relação entre pais e filhos não depende da orientação sexual de nenhum dos envolvidos (Mello, Grossi e Uziel, 2009). Importa referir que o crescente número de pesquisas realizadas sobre juventudes LGBT em diversos países oferece informações e metodologias de investigação e de atuação (Junqueira, 2009). Em muitos países, organizam-se, cada vez mais, redes de ativistas e educadores e implementam-se políticas públicas antidiscriminatórias, na prossecução dos direitos humanos. Tal como afirma Seffner (2009) o movimento social pela diversidade sexual beneficia se tiver a escola como um dos seus aliados, em particular, os professores e as professoras responsáveis pela formação de crianças e adolescentes.

Considerações finais

Consideramos que escolhemos um tema controverso. Hoje em dia a liberdade sexual ainda está comprometida, não é generalizada a aceitação da diferença em termos de sexualidade. Sentimos assim vontade de desmistificar preconceitos e fazê- lo de uma forma correta. Nem sempre é fácil promover o espírito crítico, nos alunos, face à aceitação da Liberdade Sexual e esperamos que o possamos fazer durante o estágio em 2.º ciclo, este semestre.

Referências Bibliográficas

Heller, Agnes (1992). O cotidiano e a história. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Junqueira, R. et al. (2009). Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO.

Junqueira, R. (2009). Homofobia nas Escolas: um problema de todos. In Diversidade Sexual na Educação. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO. (pp. 13-52).

Mello, L.; Grossi, M.; e Uziel, A. (2009). A Escola e @s Filh@s de Lésbicas e Gays:

reflexões sobre conjugalidade e parentalidade no Brasil. In Diversidade Sexual na Educação. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO. (pp. 159-181).

Seffner, F. (2009). Equívocos e Armadilhas na Articulação entre Diversidade Sexual e Políticas de Inclusão Escolar. In Diversidade Sexual na Educação. Brasília:

Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO. (pp. 125-140).

Ministério da Educação (2012). Educação para a Cidadania Linhas Orientadoras.

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