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José Gil - O homem que não procura a felicidade

Público 2010-01-03

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/03-01-2010/jose-gil-o-homem-que-nao--procura-a-felicidade-18491765.htm

Ensaísta e filósofo, nasceu em 1939 em Moçambique. Em 2004, o seu livro


Portugal, Medo de Existir tornou-se um best-seller. Pouco depois da sua publicação,
o Nouvel Observateur apontou-o como um dos 25 pensadores mais fulgurantes do
mundo contemporâneo. Em duas horas falámos de quem é, do seu percurso, dos
seus objectos de estudo. Em frente, árvores. Por perto, as cores de Ângelo de
Sousa e de Álvaro Lapa.

Onde é que nós fomos? Ao Tonio Kröger, de Thomas Mann, e ao que significava
discutir isto na adolescência. Ao Quartier Latin onde Derrida era assistente, e onde
coexistiu um grupo de excepção. À Córsega, onde a minha casa é a tua. Ao tumulto
íntimo. A Deleuze e a uma convivência decisiva. À implosão do edifício Língua
Portuguesa, há muitos anos, em Paris. À mãe, que no meio do mato, em
Moçambique, sonhava com um pouco de Paris. Ao que é ter criados e dar-lhes
ordens. Ao que constitui a identidade. Ao reconhecimento. A Portugal, onde tudo
era (ou ainda é?) interdito. Aos sonhos que não foram esquecidos. A Pessoa,
porque somos muitos. Outra vez, sempre, ao tumulto íntimo. "Eu era uma espécie
de tumultozito que andava por aí."
José Gil, o desassossegado, é muitos. Fomos a muitos.
Que importância teve na vida dele a menção do Nouvel Observateur, que o apontou
como um dos 25 pensadores mais fulgurantes do mundo contemporâneo? Foi
professor na Universidade Nova de Lisboa até ao ano passado. Dava aulas de
Estética. Nos últimos anos tem intervindo no espaço público, sobretudo nas áreas
da educação e política. Mas recusa tornar-se um comentador político. Reservado
em relação à vida privada. Irmão do filósofo Fernando Gil, falecido em 2006.
A identidade é uma questão essencial para si, é objecto do seu estudo.
Podemos começar pela descoberta e definição da sua identidade?
Nasci sem as determinações habituais - sociológicas, linguísticas - da identidade.
Se tenho hesitações quanto à minha identidade? Possivelmente. Mas a um nível
muito profundo. Sou filho de colonos. Nasci numa pequena cidade em Moçambique,
em Quelimane, onde viviam mil brancos, e ao lado vivia uma multidão de dezenas
de milhares de negros. Nós constituíamos uma ilha pequena. Não tínhamos o que
eles tinham relativamente ao espaço. Não tínhamos o nome das árvores, da terra,
das colinas.
Era uma espécie de fusão com o espaço?
Eles tinham a sua linguagem. Nós é que não tínhamos vocabulário para designar
esse espaço. Tínhamos um espaço reduzido, empobrecido. Os elementos: tudo em
África é muito forte. O calor, o sol, a chuva. Em Quelimane, lembro-me de um mês
em que choveu todos os dias, consecutivamente. O nosso vocabulário era para os
lírios do campo, que não existiam lá. Cantávamos canções na escola primária, que
eram sobre o campo, em Portugal. Portanto, vivíamos em distância.
Deslocados.
Sim. Nascemos já, de certa maneira, em estado de exílio. Mas não acho que esse
estado fosse sentido como uma falta de identidade. Compensámos isso com outras
simbolizações. Tínhamos a nossa maneira de nos sentirmos moçambicanos. Que
era à parte da maneira de um negro, um africano. Não tenho problemas de
identidade. Só tinha - só tenho - se me pergunto, semi-abstractamente, onde é que
quero ser enterrado. O ser enterrado implica um sítio a que se pertence.
Back to basics.
Exactamente. Não sei onde quero ser enterrado. Uma vez vi aqui um cemitério
lindíssimo, e pensei: gostaria de ser enterrado aqui. Mas só tem a ver com razões
estéticas, e não sentimentais. Se quis pensar o problema da identidade portuguesa
foi porque o vejo à minha volta, e ele afecta-me. Conheci bem um país pequeno
onde se discutia a questão da identidade: a Córsega. Discutiam se tinham uma
identidade própria, se tinham uma origem italiana, toscana, francesa, se tinham de
ser anexados. Li muito sobre o problema nacionalitário (é assim que se designa na
literatura). Mas essa não é para mim uma questão principal.
Porquê?
Poderá ser por uma patologia qualquer... Serei esquizoide e não terei problemas
desses? Quem sou eu relativamente aos meus compatriotas, à minha pátria, ao sol,
à História, ao meu passado? Eu, eu, eu.
Quem sou eu, é uma questão essencial em Filosofia. Depois, pode deslocar
essa questão para diversos campos.
E até posso mostrar que "quem sou eu" pode ser uma questão subordinada a
outras, mais importantes. O que me surpreende mais - e isto não é uma glosa
snobe do Fernando Pessoa - é que somos muitos. E isso todos nós vivemos,
sentimos, experienciamos.
O tal ser múltiplo.
Somos. Estamos em transformação permanente.
O sermos muitos, a transformação, é por causa do desassossego? "José
Gil, o desassossegado": serve-lhe?
Sim, absolutamente. Isso não tem uma conotação necessariamente má.
Introduzi o desassossego como gérmen de mudança.
É isso mesmo. A transformação de nós próprios é uma riqueza fundamental em
nós. Há uma frase do Kafka que adoro: "Desgraçado daquele que perdeu o poder
de se transformar." Nós é que não olhamos, julgamos que somos sempre os
mesmos. É uma maneira de viver socialmente sem tumultos. Mas numa escala
microscópica, estamos sempre a ser outros (emocionalmente, do ponto de vista da
inteligência...). Com tudo isto, há qualquer coisa que tem de se manter; senão, há
o perigo de psicose. É a identidade.
Fale-me da descoberta de si em mutação, em desassossego.
Há pessoas que aos 15 anos têm uma instabilidade, uma condensação, uma
pluralidade de emoções, de sombras... Sei lá. Passou por tanta coisa. Desde o facto
de cada experiência mínima, desde miúdo, ser uma experiência radical, crucial.
Tenho uma certa resistência - não é pudor - em falar de mim porque começo logo a
objectivar. Posso falar-lhe daquele facto, na igreja, de quando fiz a primeira
comunhão e tive aquela visão... mas para quê?

Então, fale do que acha que importa.


Muita coisa importou. Tive uma experiência de exilado. Há vários tipos de exilados,
e não estou a contar com os emigrantes operários, lavradores portugueses. Estou a
falar de uma classe média, média-rica que podia exilar-se. Exilei-me também por
razões políticas, mas não foi sobretudo por isso. Não foi por que estivesse
ameaçado. Pertenci a uma das categorias em que se dividiam esses exilados.
Que categorias eram essas?
Uma delas eram grupos que não se abriam à sociedade francesa e europeia;
fechados sobre si, só falavam do que estava a acontecer em Portugal, da Avenida
da Liberdade, das notícias que chegavam de Portugal. Outros abriam-se malgré
eux - sem que eles o quisessem; e como não estavam preparados para isso,
perdiam-se. Entravam em loucura, em alcoolismo, as promessas de juventude de
que seriam grandes poetas iam por água abaixo, suicidavam-se. Uma terceira
categoria: rapazes e raparigas que se abriam à sociedade francesa, e que o
queriam. E aí começava um tumulto de outro tipo: não ser integrado pela
sociedade francesa, e perder todos os benefícios secundários que se tinham em
Portugal. Em Portugal, quando havia problemas emocionais, desregulamentos,
havia sempre em família.
Uma casa, uma asa.
Ali não havia asa. Se isso rebentava, ninguém estava ali para proteger. Tive
experiências desse tipo. Não há o pai e a mãe - que estão em Moçambique -, não
há o irmão, não há os amigos - que estão ali mas não servem para nada. E você
vê-se na rua, paralisado, a olhar para a esquerda e para a direita: "O que é que
vou fazer de mim agora?" São experiências borderline, que não estão longe da
psicose. Aos 20 anos tive uma experiência de meses, e veio-me uma ideia
fortíssima, que me agarrou: é preciso pensar, porque é uma questão de vida ou de
morte. Tenho de me salvar disto. Aí é que apareceu [a questão da identidade]:
saber o que sou, de onde é que venho, os pais, porque é que estou aqui, para quê.
E pensar tornou-se uma forma de salvação.
Sem dúvida. Em Portugal também havia explosões. Um exemplo: vi casais que
vinham de Portugal e, passados uns meses de Paris, separavam-se. Havia um
ajustamento forçado pelas circunstâncias que fazia com que as pessoas fossem
sobrevivendo. Sem as protecções de Portugal, lá fora - como se dizia - explodiam.
Chegava-se ao osso. Essa experiência, dos jovens portugueses, artistas,
estudantes, de um certo grupo, não foi maravilhosa.
Isso que diz faz pensar em Mário de Sá-Carneiro. Exílio, desamparo,
suicídio. Os acontecimentos a que alude são coisas que nos habituámos a
ler nos livros.
Nós nascemos e vivemos sob uma ditadura. Mudava tudo: a nossa vida emocional,
intelectual, profissional, a acção, o espaço de iniciativa. Os nossos conflitos eram
todos metidos para dentro. Quando íamos para fora, e porque não havia as tais
salvaguardas, vinham para fora, e estilhaçava-nos.
A razão política não foi a fundamental que o fez exilar-se. Houve uma
razão mais forte?
A razão foi que vim de Moçambique, inscrevi-me em Matemática, tinha as coisas
bem arranjadas, e no entanto não suportava viver cá. Não reconhecia esta maneira
de viver. Em Moçambique, apesar de estar num regime político que era o mesmo,
tudo era diferente. Em Portugal, tudo estava reduzido, tudo parecia sem
possibilidades. E tem a ver com a idade: lá estava no liceu, sob a alçada dos meus
pais. Aqui, na universidade, eu queria mais do que a Matemática.
Porquê a Matemática?
Gostava. Havia um ensino, lá, que puxava pela memória. Tivemos que saber de cor
tratados de Biologia, Cristalografia. Sabe que eu gostava disso tudo? Sobretudo de
Cristalografia. Memorizei centenas de páginas. Por razões afectivas, porque estava
apaixonado, miudinho, perdi tempo... Tive só três meses para meter tudo na
memória. Saí de lá dizendo: agora quero é uma disciplina de que goste e que não
me obrigue a memorizar. A Matemática era pegar num ponto e zzzzzzzz, sem
decorar, raciocinando, chegar a outro ponto. Foi uma causa menor. A causa maior
foi gostar de Matemática.
É interessante perceber como as causas acidentais, tantas vezes, têm uma
força propulsora.
Justificam a outra... [riso]
Quando vai para Paris, ainda é para estudar Matemática. Só depois é que
muda para Filosofia. Foi a grande transformação, perceber que era por
essa via que se salvava?
Não, aí não houve crise nenhuma. Em Paris tinha de estudar seis horas por dia,
além das aulas, para fazer tudo o que nos mandavam.
Nesse percurso - Moçambique, Lisboa, França, Matemática, Filosofia - que
vida queria para si?
Não sabia. Queria rebentar uma série de amarras que sentia. Só muito mais tarde
tive consciência disso: eu era uma espécie de tumultozito que andava por aí.
Sempre insatisfeito com o que tinha, com o que me davam, com o que podia fazer.
Não queria só Matemática, queria também escrever. Queria ter uma linha em que
me reconhecesse do ponto de vista afectivo. Havia a questão do estudo, de eu
querer escrever, do meu interesse pela Filosofia, e havia a questão da vida. Eu
quero viver! A que é que chamava viver? Ter experiências que não podia ter em
Portugal. O que é ter uma experiência? É poder transformar-se de encontro a
qualquer coisa. Num encontro. Encontrar um livro, uma mulher, um homem, uma
criança, um bêbedo, um russo...
E ser tocado por isso?
Ser tocado e transformado. Há aquelas pessoas que podem ser tocadas por mil
coisas fortíssimas e não se mexem no interior. E há aquelas que são tocadas por
uma brisa, finíssima, de vento, e aquilo provoca uma revolução. Eu era um
bocadinho assim.
Já era assim em Moçambique?
Sim. Por causa do meu irmão e dos amigos do meu irmão, que eram todos
marxistas, comecei a ler o Marx, sem perceber nada, muito jovem. A partir dos 15
anos comecei a perceber mais dos autores marxistas, que eram importados
clandestinamente para Moçambique, e comecei a ser iniciado a outras coisas. Uma
dessas iniciações foi ao jazz. Tinha 15 anos e adorava jazz! O jazz era classificado
pela vulgata marxista como um produto da decadência burguesa americana. Uma
estupidez completa. Isso chocava com o meu gosto. Se larguei brutalmente o
marxismo, aos 17 anos, foi em parte porque muitos dos meus gostos, sobretudo o
jazz, não me eram admitidos. Não podia despegar-me daquilo em nome de uma
ideologia.
Era também a recusa de uma formatação?
Isso mesmo. Está a ver, é uma experienciazinha pequena em que se jogam muitas
coisas, muitas coisas mesmo.
Naquela altura, ser de esquerda, ser da oposição, era ser comunista.
Sim. No entanto, enquanto fui próximo deles, ia a reuniões de associações
marxistas, de grupos como o MUD juvenil, a que nunca aderi. Fazia-me muita coisa
culturalmente.
Explique melhor do desejo de pertença a um grupo. Ou da confiança que
tinha em si para viver à margem dos grupos. Flirtando com eles, mas
nunca se comprometendo.
Isso tem a ver com a tal inquietação. Não me reconhecia neles. Eles não tinham as
minhas preocupações, que eram de outra ordem e que não via formuladas na
doutrina. Os meus gostos em literatura não eram os clássicos que anunciavam o
realismo socialista. Eu gostava era de autores como Beckett. Aí não havia
referências marxistas.
E aí joga-se num plano individual. Numa altura em que tudo se jogava num
plano colectivo.
Absolutamente. Eu não tinha consciência disto. Agia como uma criança, que sabe
por instinto, numa sala, a quem se dirigir. Porquê? Porque temos ali forças do
mesmo ritmo. Eu estava com essas pessoas, mas eles não eram do meu mundo.
Que eu não tinha feito, que eu não tinha formado. Mas não eram.
Havia algum interlocutor preferencial? Podiam ser os livros.
Havia um amigo em Moçambique, António Paulo de Sousa Santos. Fizemos o liceu
juntos. É hoje arquitecto em New Jersey. Discutíamos ao telefone durante uma
hora (ele vivia na Baixa e eu na Ponta Vermelha, em Lourenço Marques), os
problemas do Tonio Kröger do Thomas Mann. Problemas vitais, para nós! Isto aos
16 anos. Em Moçambique, Tonio Kröger? Está a ver, dá-lhe todo um mundo.
Se pensarmos naquele que foi professor de liceu na Córsega, parece outra
vida, outro sujeito.
É verdade. Não sei se já viveu numa ilha... Ou se é apanhado ou não se é
apanhado. A Córsega é uma ilha onde a violência de tudo (dos afectos, sobretudo)
é concreta. Se alguém gostou de si, como amigo, e lhe diz: "A minha casa é tua",
isto significa literalmente que se você tiver problemas de dinheiro, vai falar com
essa pessoa, diz-lhe: "Preciso de vender a casa", e ela deixa-a vender a casa.
Aconteceu-me isso. Era uma violência que a Máfia ainda não tinha corrompido. No
meu tempo não havia Máfia.
Um carácter vulcânico? O seu relato coincide com a violência de Stromboli,
como a retratou Rossellini.
Vulcânico. A ilha era, ela toda, uma espécie de interioridade exterioridade. Senti-
me assim lá. Quer dizer, eu não vivia para dentro de mim, como em geral vivem os
insulares. Tudo o que se fazia era intenso, tudo o que se podia escrever era
intenso. Na relação com a terra, as pessoas. E o ódio. E o amor, a amizade. Era
uma sociedade violenta e cruel, ao mesmo tempo. Era o que me convinha.
O mundo que se passava dentro de si, afinal estava por todo o lado...
Sim. [Essa afinidade] traduziu-se numa aproximação política que tive com os
independentistas. Que punham bombas, mas que avisavam as pessoas para
retirarem tudo, os seus cães, e só faziam atentados às instituições. Era outra coisa.
Tudo aquilo se passava em família - eram 150 mil pessoas. Depois descambou.
Assistiu ao declínio?
Saí quando isso começou. Houve divisões entre o movimento independentista, e
começou a haver uma violência real. Ou seja, começaram a matar. Ao mesmo
tempo, entrou a Máfia. A Máfia corsa, dizem, é pior do que a siciliana. É uma ilha,
hoje, corrupta. Quando o aparelho judiciário passa a ser corrompido, a sociedade
deixa de funcionar. Foi o que aconteceu.
Como foi lá parar?
Por amor por uma corsa, por uma mulher.
Mais uma vez, tudo se decide na petite histoire.
La petite histoire qui amène une grande histoire. [A pequena história que comporta
uma grande história.] Só ensinei um mês e meio no liceu. Queriam escapar à
segurança social no colégio onde estava, e puseram-me fora. Fiz queixa. Estive dois
anos na Córsega, apanhei o cume dos movimentos autonomistas. Em Aléria, houve
um assalto a caves de vinho, tiroteios, muita coisa.
Estamos outra vez dentro da literatura. São os episódios que poderiam
estar num livro de Lampedusa. Que lia nos livros e queria experimentar na
sua vida cá fora.
Mas não era por causa dos livros! Ou talvez fosse. Os livros, o que é que fazem?
Eles induzem, reactivam qualquer coisa que está em si em ebulição ou adormecido.
A personagem tutelar de tudo isto é uma mulher: a minha mãe. Que era explosiva!
Era uma mulher à parte. Um dia, hei-de procurar compreendê-la. Ela estava no
meio do mato, onde só havia dois brancos, e recebia revistas de moda de Paris. O
seu universo era uma casa. O meu pai criava crocodilos, pequenos leões. Tenho
fotografias minhas e do meu irmão com leõezinhos pequeninos. No meio do mato, a
minha mãe aprendeu a fazer vestidos como se faziam em Paris. Aprendeu joalharia.
Dava indicações aos criados para fazerem casacos de pele de leopardo. Os criados
são muito importantes.
A sua aproximação à estética, ao belo, pode ter que ver com este
comportamento da sua mãe? Um desejo de se manter ligada à sofisticação,
à beleza, no meio do mato.
É possível. A minha mãe era poeta. Publicava. Era jornalista, dirigiu uma página.
Uma boa, média poetisa. Ela considerava-se e era considerada assim.
Porque é que os criados eram importantes?
O facto de existirem criados cria nos filhos de colonos uma horrível noção de se
julgarem eleitos. Os jovens saídos de lá não são como os outros: são de eleição.
Tenho horror a isso! Se me livrei disso, demorei anos. Sabe o que é ter cinco
criados, alguns deles com barbas brancas (um para fazer a roupa, outro é o
cozinheiro), e você, com três, quatro anos, dá-lhes ordens? Fica julgando que é o
rei do mundo. E isso continua. Isso forma-o. É um estrato que lhe provoca o pior.
Uma consciência de uma superioridade que não tem. Nada lhe permite esse
sentimento de superioridade. Não tinha esta consciência, mas tinha este
sentimento. Como todos os brancos.
Alguma vez se sentiu proscrito? E abaixo, numa determinada escala?
Invertendo a situação da infância.
Socialmente, nunca. É essa a perversão desse estrato inconsciente. Pode ser
miserável, minable, nunca fez nada na vida, anda para aí a vegetar; mas tem
consciência superior. De onde é que lhe vem isso? Dessa relação.
Apesar de ter estado muito tempo exilado, foi sempre um exílio voluntário.
O que faz toda a diferença.
É. Quando fui para a Córsega, esse estrato tinha sido bem estilhaçado, em Paris.
Portanto, já tinha o meu narcisismo muito podado... [riso]
Quis escrever. Escreveu de facto?
Aconteceu-me uma coisa muito esquisita aos 24 anos. Escrevia português, lá. Peças
de teatro, contos. E falava francês desde os dez anos; não era bilingue, mas falava
bem. De repente, senti que um edifício, que era a língua portuguesa, implodiu.
Caiu! Uma semana depois, já não podia escrever em português e pus-me a
escrever em francês. Foi um acontecimento dramático porque nunca consegui
escrever em francês como já na altura escrevia em português. Hoje escrevo muito
pior em português do que quando tinha 24 anos.
O que terá acontecido?
Não sei. Contei isto a um filósofo que tive a sorte de conhecer, e de quem gosto
muito, o Deleuze. Abriu os olhos e disse: "Ah, muito interessante!" Mas não me
disse mais nada! [riso] O que perdi foi a capacidade que tinha de inventar em
português. Desde os 19 anos, eu inventava. Perder essa capacidade, para mim, era
o fim. Nunca tive essa capacidade em francês, em ficção. E aí se vê a língua
materna.
A ficção radica no medo, na inveja, na dúvida? Tudo isso é primário,
infantil, e aconteceu em português.
Pois. Eu tinha uma inveja portuguesa, uma dúvida portuguesa, os meus amores
eram portugueses... Há uma identificação da vida emotiva com o português.
Porque é que as emoções não hão-de ser as de um país? Há uma maneira
portuguesa de ter medo, diferente da maneira francesa. Foi isso que fez barreira.
Todo o seu trabalho a seguir é, não de invenção, mas de dissecação e
análise.
Excepto um livro de ficção que escrevi em francês, La crucifiée.
Que importância tinha para si a confirmação que vinha do exterior?
A confirmação é fundamental. Não é bem confirmação, é o reconhecimento. Hesitei
até muito tarde entre duas linhas. Uma era ser escritor, a outra era pensar
filosoficamente. Não se pode fazer uma com a outra. Para não me dividir, segui a
linha do pensamento. Talvez tenha feito mal.
Por isso é tão importante o que lhe aconteceu aos 24 anos. Sem esse
acontecimento, a linha da escrita...
Teria continuado. Tenho textos, que nunca publicarei, dos 19 anos. Era capaz de
uma plasticidade no português de que nunca mais fui capaz. Não publicarei porque
são coisinhas sem interesse.
De quem esperava esse reconhecimento? Trabalhar com Deleuze foi
importante a esse nível? Foi importante o reconhecimento da Nouvel
Observateur, que o apontou como um dos 25 maiores pensadores vivos?
Não passa por aí. Tenho consciência de que há milhares de indivíduos hiper-
dotados, e outros milhões que são mais inteligentes do que eu. Se tenho alguma
coisa a dizer, se disse qualquer coisa, foi no espaço de uma singularidade que não
foi ocupada por ninguém. O espaço de singularidade é um espaço de risco. Estou a
falar-lhe como não tenho o hábito de falar... Em Portugal não se fala assim. Tudo é
um bocado interdito de ser dito.
Porque é que decidiu voltar, apesar de tudo?
Não decidi. Fui mais ou menos entalado. Em França, fiz o doutoramento, fui falar
com o meu orientador, que me disse: "Você chega num mau momento." Fechou-se
tudo, não se recrutava ninguém. Entretanto, tinham-me convidado para a
Universidade Nova. Pensei: "Vou, fico um, dois anos, e depois volto." Estou em
Portugal porque era o único sítio onde podia ganhar dinheiro ensinando, fazendo
aquilo que sabia.
Em 1976, esteve em Portugal onde foi adjunto do secretário de Estado do
Ensino Superior. Era a curiosidade em ver de perto a revolução? Ou havia
um amor por este país?
Havia. Porque eu tive sonhos de que não me esqueci. O [António] Brotas mandou-
me um telegrama convidando-me para adjunto. "Estás a fazer uma tese sobre
poder? Vem ver o poder, de dentro." Hesitei um, dois dias. Peguei no carro e vim.
Foi uma experiência extraordinária! Saí de lá diferente. Saía do ministério, olhava
para as ruas e tinha uma percepção diferente das coisas.
O que muda tanto assim quando se vê o poder por dentro?
Que o poder não é piramidal. Que o poder da instituição governativa, nesse período
tumultuoso, não era o verdadeiro poder. Que os governantes governam segundo as
forças que atravessam o campo social. Que batem na mesa como Napoleões -
estou a contar coisas que vi - e tudo aquilo é bggggg! Eles não têm poder nenhum.
Diz no seu livro Portugal, Medo de Existir que o espaço público deixou de
existir e que foi substituído pela comunicação social. É esta que dita que o
movimento se faça numa direcção ou noutra.
Acho que é cada vez mais isso. A comunicação social suga essas pequenas forças,
que não estão ainda institucionalizadas.
Que importância teve para si a convivência com Deleuze?
Decisiva. Para mim e para muitos outros. A minha geração teve grandes mestres. O
período que se viveu ali foi único, daqueles que existem uma vez em cada século.
Coexistiam Sartre, Merleau-Ponty, Lacan, Lévi-Strauss, Barthes, Althusser. Ali, no
Quartier Latin. Víamos passar o Lacan e o Merleau-Ponty em grande conversa. 300
pessoas enchiam o auditório Descartes na Sorbonne para ouvir Deleuze falar da
linguagem em Husserl. Estava tudo colonizado pela fenomenologia, por Heidegger,
por Husserl. Ao mesmo tempo, já não podíamos ouvir mais daquilo! Era tão
desajustado da vida que vivíamos... Decidi: rebento com tudo.
O que fez, concretamente?
Vendi a minha biblioteca - uma estupidez imensa - na Feira da Ladra, belos livros
que eu tinha. A seguir ao Maio de 68, na rentrée, ouviu-se um rumor: o Deleuze
está em Vincennes a dar um curso fabuloso sobre desejo. Eu nunca tinha ouvido
falar assim. Aquilo tinha a ver connosco, com aquilo que queríamos. Com a vida.
Não por acaso, ele é vitalista. Havia loucos lá dentro, psicanalistas, estudantes,
uma fumarada enorme, um tipo tímido que falava lá no meio, de uma luminosidade
e intensidade extremas. Reconciliei-me com o pensamento filosófico.
Encontrou-se. Deu-lhe um novo fulgor.
Absolutamente. Aí, comecei a escreveu ensaios, que mostrei ao Deleuze. Só depois
do meu doutoramento, de que foi júri, comecei a dar-me com ele. Ia vê-lo a casa.
Sempre na perspectiva aluno-mestre? Ou era um encontro de iguais?
Ele não era um mestre, sabe? Abandonei os cursos do Deleuze porque senti que
estava a pensar demasiadamente como ele. Cortei. Foi no tempo em que ele
publicou o Mille Plateaux. Mas tudo começou com o Anti-Édipo. Frequentar o
Deleuze impedia essa fascinação pelo mestre. Era um tipo extraordinário. Nunca
conheci ninguém que entrasse tão bem no pensamento do outro.
Um exemplo.
Uma vez, eu vinha de Portugal, e tinha uma muito má relação com Portugal. Quis
explicar isso ao Deleuze. Sei que lhe falei de artigos do Gaspar Simões, do
ambiente, da universidade, do que era a Filosofia aqui. Ele ouvia, atentamente. Às
tantas, tive a impressão: "Mas o que é que estou a dizer? Este tipo não pode
compreender, é de outro universo." E calei-me. O que é que ele faz? Continua o
meu discurso. Continua ele a falar-me de Portugal, e era Portugal.
Tinha também a capacidade de sair dele. Rara, num homem assim.
É. Aprendi uma frase com ele: "A partir daqui, põe-se este problema. Mas este, só
você pode resolver. Já não o posso ajudar." Muito pedagógico. Satisfazia a sua
necessidade narcísica de acreditar em si. E mostrava-lhe a originalidade do que
poderia fazer.
É um homem feliz? Há uma frase no seu último livro, Em Busca da
Identidade, em que se fala da possibilidade de sonhar, até de sonhar com a
felicidade.
Não é a felicidade que procuro. Nem sei mesmo dizer-lhe se sou feliz - não é o que
me interessa. Há um estado a que o Espinosa chama "beatitude" e que se define
por imanência. O que é estar num estado de imanência? Podemos ter uma ideia
pensando em como as crianças estão: quando está a brincar, ela é o mundo, ela
confunde-se e não se confunde com as coisas com que brinca. Sabe perfeitamente
que não é o avião que está a fazer aterrar, mas é ao mesmo tempo o avião.
Acontece que eu já vivi isso, todos já vivemos.
Num estado de paixão?
Um estado de paixão é um estado de imanência. Em que não há diferença entre
sujeito e objecto. O mundo passa e nada pode quebrar a continuidade do seu
tempo, interno e externo. E isso é que lhe permite viver num mundo
profundamente quebrado pelo mal, pela guerra, pela infelicidade. Não quero ser
grandiloquente nem demagógico, mas não é possível ser feliz quando crianças,
como ontem no Iraque, rebentam, explodem. O Iraque somos nós. Mas é possível
estar em estado de beatitude e saber que há esse mal no mundo. Ser feliz? Não
sou. Não sou infeliz. Procuro outra coisa.
anabela.mota.ribeiro@publico.pt