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Pensamentos de um judeu no Dia de Lembrança do Holocausto

Por Alan Stoleroff

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/29-01-2010/pensamentos-de-um-judeu-no-dia-de-lembranca-do-
holocausto-18681846.htm

É preciso reflectir sobre o racismo e a intolerância em geral, que continuam a


produzir conflitos étnicos

Enquanto judeu, não me é preciso um dia oficial para reflectir sobre o Holocausto. O extermínio
nazi está cravado na minha consciência desde criança e tem sido forçosamente objecto de
reflexão ao longo da vida.
Antes de mais, parece-me necessário, sobretudo enquanto judeu, lembrar todos os seres
inocentes, mais milhões ainda, que foram mortos - judeus, ciganos, polacos, eslavos,
homossexuais, pessoas com deficiências e outras - em nome do mito da raça suprema. É
preciso reflectir sobre o racismo e a intolerância em geral, que continuam a produzir conflitos
étnicos e a motivar os crimes que, hoje em dia, rotulamos como "genocídios".
Contudo, este ano as minhas lembranças estiveram focadas em vários temas específicos com
respeito ao conflito entre os judeus de Israel e os árabes da Palestina. Para muitos judeus, a
sobrevivência do Holocausto traduziu-se na procura de refúgio exclusivo num Estado-fortaleza
de Israel na esperança de que o que aconteceu não voltasse a acontecer. Entendo essa
procura mas não aceito a falsa segurança que se tenha obtido à custa do povo palestiniano.
Apesar de crenças bíblicas ou de estratégias sionistas, face às normas da civilização moderna
que emergiu dos escombros da Segunda Guerra Mundial a nossa procura de salvação e de
autodeterminação não nos conferiu o direito de desapropriar o povo que habitava esse território
durante a nossa longa Diáspora, facto que de algum modo foi reconhecido pelas Nações
Unidas ao dividir a Palestina, por bem ou por mal, em dois Estados para dois povos. Na guerra
que sucedeu a essa decisão da comunidade internacional, Israel ganhou a sua independência
e mais terra ainda e os palestinianos sofreram um desastre, ficando com apenas 22% da sua
Palestina. Desde a guerra de 1967, em que Israel conquistou os territórios que tinham
permanecido dos palestinianos, esse povo tem vindo a sofrer uma ocupação cruel - através da
qual Israel continua a apropriar-se ilegalmente de mais território palestiniano. Desde 1948 que
o povo da Palestina tem sido progressivamente desapossado, sofrendo o desmembramento da
sua nação. Alguns chamam a essa experiência genocídio. Os palestinianos referem-se não a
uma Shoah mas a umaNaqba. Quer concorde ou não com o rótulo, enquanto judeus temos que
ponderar a diferença aparente entre duas palavras que implicam, ambas, a destruição de um
povo.
Outro dos meus pensamentos dirigiu-se particularmente a Gaza, cujo povo está preso no que
me parece cada vez mais um campo de concentração. Acabámos de assinalar a passagem de
um ano sobre o massacre que resultou em 1400 mortos, 313 dos quais crianças e numa
destruição maciça.
Mesmo que se reconheça ao Estado de Israel o direito de se defender, como refere o Relatório
Goldstone, o direito internacional nunca poderia justificar nem a desproporcionalidade
da Operação Chumbo Fundido nem a manutenção deste cerco desumano. O direito
internacional exige que se procure esgotar todas as possibilidades de resolução pacífica da
situação antes do recurso à violência - o que Israel não fez, mantendo o cerco. Mas não se
tratou de um caso de defesa legítima. Israel procurava um pretexto para restabelecer a sua
força dissuasora na região e deliberadamente rompeu as tréguas em vigor na altura. A reacção
previsível do Hamas ao ataque israelita do dia 4 de Novembro de 2008 forneceu ao Israel um
pretexto para a sua guerra.
Por isso, Israel tem investido tanto esforço na propaganda para contrariar esse relatório
preparado para as Nações Unidas pelo judeu sionista Richard Goldstone e, por isso, Israel tem
estado na vanguarda das tentativas para mudar as leis que regulam a guerra. Mobilizando
argumentos sobre as "assimetrias" na guerra contra o terrorismo, Israel está a enfraquecer o
direito internacional, que tanto deve às lições do Holocausto, para facilitar a sua guerra contra o
povo palestiniano. A única assimetria pertinente em causa é a do poder militar de Israel em
relação a uma população sem meios eficazes para a sua defesa.
É intolerável que nada de efectivo tenha sido feito para acabar com o cerco a Gaza ou aliviá-lo.
Israel nem sequer deixa entrar cimento no território. Em contradição com os valores
humanistas que se tornaram oficiais depois do Holocausto, o mundo ocidental só permite que
esta situação (que a Amnistia Internacional apelidou de "castigo colectivo") se tenha produzido
e mantido devido à demonização racista dos árabes e dos muçulmanos em geral e dos
palestinianos em particular. Ironicamente, a ocupação e o anti-semitismo reforçam-se
mutuamente.
Para muitos judeus, cuja consciência social nasceu da nossa história de opressão e do
Holocausto, a política de Israel constitui uma mácula indelével na nossa tradição supostamente
humanista. Mas a propaganda israelita frequentemente intitula judeus que pensam como eu
"self-hating Jews", ou seja, judeus que se negam a si próprios. Esta táctica apagou a crítica da
ocupação durante muito tempo, mas está a perder eficácia depois do massacre de Gaza.
Actualmente, o alvo dessa propaganda é o próprio juiz Goldstone, tratando-o de "anti-semita"
numa campanha cujo objectivo é descredibilizar o relatório da sua comissão sobre os crimes
de guerra em Gaza.
Porém, há cada vez mais judeus que, como eu, consideram a política dos Governos de Israel
inconsistente com a sua identidade de judeu num mundo que conheceu o Holocausto.
Propomos a alternativa de uma paz justa com base no direito internacional e o fim do cerco
ilegal de Gaza e o fim da ocupação dos territórios palestinianos.

Professor universitário