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M´etodos de F´ısica Te´orica I Cap´ıtulo I Integra¸c˜ao Complexa

Prof. Ricardo Luiz Viana Departamento de F´ısica Universidade Federal do Paran´a Curitiba - Paran´a

3 de agosto de 2015

1 Revis˜ao de conceitos b´asicos

1.1 N´umeros complexos

Forma alg´ebrica: z = x + iy , com i = 1

x = Re { z } : parte real de z , y = Im{ z } : parte imagin´aria de z

Complexo conjugado: z = x iy

x

= z + z

2

,

y = z z ,

2

i

(1)

Forma trigonom´etrica: (r, θ ) s˜ao coordenadas polares no plano complexo

x = r cos θ,

r = x 2 + y 2 ,

y = r sin θ

y

tan θ = x

x = r (cos θ + i sin θ )

(2)

(3)

(4)

+ y 2 , y = r sin θ y tan θ = x x =

Figura 1: Plano complexo.

1

y

z

z 0

z
z

x

v

w = f(z )

0

0

w = f(z )

1

1

w
w

u

z x v w = f(z ) 0 0 w = f(z ) 1 1 w
1
1

Figura 2: Transforma¸c˜ao no plano complexo.

M´odulo quadrado: | z | = z z = x 2 + y 2 = r

Argumento: θ (nos intervalos [0 , 2 π ) ou (π, π ])

Rela¸c˜ao de Euler

e iθ =

cos θ + i sin θ.

Forma exponencial:

z

= re iθ ,

z = re iθ ,

1.2 Fun¸c˜oes anal´ıticas

(5)

(6)

Fun¸c˜ao como uma transforma¸c˜ao no plano complexo: z = x + iy [Fig. 2]

Fun¸c˜ao

w = f (z ) = u + iv,

u = u (x, y ),

v = v (x, y )

(7)

anal´ıtica: f (z ) ´e anal´ıtica em z =

a se f (z ) for diferenci´avel em

z = a e em alguma vizinhan¸ca de z = a no plano complexo.

Condi¸c˜oes de Cauchy-Riemann: condi¸c˜oes necess´arias e suficientes para que f (z ) = u + iv seja anal´ıtica [1, 2]

∂u ∂v ∂u ∂y = − ∂v ∂x = ∂y , ∂x ,
∂u
∂v
∂u
∂y = −
∂v
∂x = ∂y ,
∂x ,

(8)

Uma fun¸c˜ao ´e inteira se ela for anal´ıtica em todo o plano complexo .

Singularidade: se a derivada f (z ) n˜ao existe em z = a devido `a existˆencia de uma singularidade, ou seja, se lim z a f (z ) = , ent˜ao f (z ) n˜ao ´e anal´ıtica nesse ponto

1.3 Algumas fun¸c˜oes importantes

1.3.1

Raiz quadrada

´

E a fun¸c˜ao w = f (z ) = z , tal que

w = f (z ) = √ z, w = √ re iθ/2 .
w = f (z ) = √ z,
w = √ re iθ/2 .

2

(9)

y z v w z w 1 u x w 2
y
z v
w
z
w 1
u
x
w
2

Figura 3: Imagens do ponto z = i pelo ramo principal da fun¸c˜ao raiz quadrada.

y z v w w 1 z 1 u x z 2 w 2
y
z v
w
w
1
z
1
u
x
z 2
w
2

Figura 4: Imagens de dois pontos pr´oximos ao corte de ramo da func˜¸ ao raiz quadrada.

Se fizermos θ θ + 2 π , embora o n´umero complexo z n˜ao mude, mas o valor

de f (z ) ser´a outro:

w = re i ( θ 2 +π ) = re iθ/2 e = re iθ/2 .

Ex.: se θ = π/ 2 e r = 1, z = e iπ/2 = cos π + i sin π , cuja raiz quadrada corresponde aos seguintes valores [Fig. 3]:

2

2

w 1 = e iθ/2 = e iπ/4 = cos π + i sin π

4

= 1 + i

4

2 ,

w 2 = e i(θ/2+π) = e i5π/4 = cos 5 π

4

+ i sin 5 π

4

= 1 + i 2 ,

Logo, a fun¸c˜ao z ´e plur´ıvoca (cada ponto tem m´ultiplas imagens): em geral

w = z = re i ( θ 2 +n π )

2

(10)

onde n = 0 , 1 ,

chamado ramo principal. Se convencionarmos que π < θ π , ent˜ao o semi-eixo real negativo (Re z < 0) ´e um corte de ramo para a fun¸c˜ao z . O ramo principal re iθ/2 n˜ao ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua no semi-eixo real negativo, por isso z n˜ao ´e anal´ıtica no corte de ramo. z = 0 ´e o ponto de ramifica¸c˜ao (de onde parte o corte de ramo). Ex.: vamos considerar o ramo principal para r = 1: f (z ) = e iθ/2 e dois pontos muito pr´oximos mas separados pelo corte de ramo: z 1 = e i(π ε) e z 2 =

definem os ramos da fun¸c˜ao. O caso n = 0 corresponde ao

3

e i( π+ε) . Se ε tende a zero, os dois pontos coincidem. No entanto, suas imagens pela fun¸c˜ao s˜ao distantes, pois [Fig. 4]

w 1 = f (z 1 ) = e i(π/2 ε) ,

w 2 = f (z 2 ) = e i( π/2+ε) ,

De fato, se ε 0 ent˜ao w 1 = + i e w 2 = i .

1.3.2 Raiz n-´esima

Generalizando a defini¸c˜ao anterior, a raiz n-´esima de um n´umero complexo z , onde n ´e um inteiro positivo, ´e definida como a fun¸c˜ao plur´ıvoca:

, r 1/n cos θ + 2 kπ θ +n 2kπ w = z 1/n
,
r 1/n cos θ + 2 kπ
θ +n 2kπ
w = z 1/n = r 1/n e i (
n
n
) =
+ i sin θ + 2 kπ
n
n

(11)

onde k = 0 , 1 ,

tem cortes de ramo na forma de semi-retas partindo da origem nos ˆangulos 0, 2 π/n , 4 π/n , etc. Por exemplo, os cortes de ramo da raiz c´ubica s˜ao semi-retas em 0, 2 π/ 3 e 4 π/ 3.

n 1. A escolha z = 0 fornece o ramo principal da fun¸c˜ao, que

1.3.3 Fun¸c˜ao Argumento

O argumento de um n´umero complexo,

θ

= arctan x ,

y

(12)

tamb´em ´e uma fun¸c˜ao plur´ıvoca, pois h´a infinitos valores dos ˆangulos que cor- respondem ao mesmo ponto do plano complexo. Definimos o ramo princ ipal do argumento Arg(z ) = θ tal que π < Arg(z ) π , de modo que este seja uma fun¸c˜ao un´ıvoca. De modo geral temos

arg(z ) = Arg(z )

+ 2 nπ,

(n = 0 , ± 1 , ± 2 ,

.),

´

(13)

onde n = 0 corresponde ao ramo principal. E costume usarmos a letra min´uscula para designar a fun¸c˜ao plur´ıvoca e a letra mai´uscula para seu r amo principal.

1.3.4 Fun¸c˜ao Exponencial

Definida como

(14)

A fun¸c˜ao exponencial n˜ao tem singularidades nem cortes de ramo, portanto ela

´e inteira (anal´ıtica em todo o plano complexo). No entanto, devido `a presen¸ca

de senos e cossenos, ela ´e uma fun¸c˜ao peri´odica, com per´ıodo 2 πi :

exp(z ) = e x+iy = e x (cos y + i sin y ).

exp(z + 2 πni ) = exp(z ),

(n = 0 , ± 1 , ± 2 ,

.)

(15)

Podemos definir fun¸c˜oes trigonom´etricas de vari´aveis complex as da seguinte

forma

sin z =

e iz e iz

2

i

,

4

cos z =

e iz + e iz

2

,

(16)

y z v w π w 1 z 1 u x z 2 w 2
y
z
v
w
π
w
1
z
1
u
x
z 2
w 2
−π

Figura 5: Imagens de dois pontos pr´oximos ao corte de ramo da func˜¸ ao raiz logar´ıtmica.

e que tamb´em s˜ao fun¸c˜oes inteiras e peri´odicas (com per´ıodo 2 π ). As fun¸c˜oes hiperb´olicas s˜ao definidas como

sinh z = e z e z ,

2

cosh z = e z + e z ,

2

(17)

tais que sin z = i sinh(iz ) e cos z = cosh(iz ).

1.3.5 Fun¸c˜ao Logar´ıtmica

O logaritmo neperiano (base e , esque¸ca a base 10!) de uma vari´avel complexa ´e definido como

(18)

Escrevendo z = | z | e i arg(z) temos que

w = log(z )

se

exp(w ) = z.

w = log(z ) = u + iv

e u+iv = e u e iv = | z | e i arg(z) ,

(19)

donde u = ln | z | e v = arg(z ), ou seja

log(z ) = ln | z | + i arg(z ),

(20)

Mas o argumento ´e uma fun¸c˜ao plur´ıvoca, ent˜ao o logaritmo ta mb´em o ser´a. Usando (13) temos

log(z ) = ln | z | + i Arg(z ) + 2 πni,

(n = 0 , ± 1 , ± 2 ,

.),

(21)

onde o ramo principal corresponde a n = 0 (designado com letra mai´uscula):

Log(z ) = ln | z | + i Arg(z ) = ln r + iθ.

(22)

Se definirmos o ramo principal do argumento como π < Arg(z ) π ent˜ao o corte de ramo da fun¸c˜ao Log(z ) ser´a o semi-eixo real negativo. De fato, tomando dois pontos pr´oximos em lados opostos dele: z 1 = e i(π ε) e z 2 = e i(π ε) , suas imagens pelo ramo principal do logaritmo ser˜ao [Fig. 5]

w 1 = Log(z 1 ) = i (π ε ),

w 2 = Log(z 2 ) = i (π ε ) = i (π + ε )

5

Entretanto essa defini¸c˜ao ´e arbitr´aria. Se defin´ıssemos um o utro ramo principal do argumento como 0 Arg 0 (z ) < 2 π , ent˜ao o ramo principal do logaritmo a ele correspondente seria

Log 0 (z ) = ln | z | + i Arg 0 (z )

que tem um corte de ramo no semi-eixo real positivo. Dessa forma, p odemos colocar o corte de ramo onde for da nossa conveniˆencia, tal que a fun¸c˜ao seja un´ıvoca na regi˜ao do plano complexo que seja de interesse para n´os.

1.3.6 Fun¸c˜ao Potˆencia gen´erica

Se o expoente α for um n´umero complexo, a fun¸c˜ao potˆencia gen´erica ser´a

w = z α = e log z α = e α log z =

e α ln | z | +arg(z) ,

(23)

e que tamb´em ´e uma fun¸c˜ao plur´ıvoca, assim como o argumento e o logaritmo:

.) (24)

z α = e α ln | z | +Arg(z)+2πn = e αLog(z) e 2πn , (n = 0 , ± 1 , ± 2 ,

O ramo principal da fun¸c˜ao potˆencia gen´erica ser´a dado pelo c aso n = 0:

e αLog(z)

Como a fun¸c˜ao exponencial ´e inteira, o ramo principal de z α ser´a uma fun¸c˜ao anal´ıtica no mesmo dom´ınio em que Log(z ) o for. Logo, cada ramo da fun¸c˜ao logar´ıtmica corresponde a um ramo da potˆencia gen´erica. Adota ndo como corte de ramo do logaritmo o semi-eixo real positivo, este tamb´em o ser´a para a potˆencia. Esse fato ser´a utilizado mais tarde no c´alculo de integr ais.

Ex.:

i i = e i log(i) = e i( Log(i)+i2πn) = e i(iπ/2+i2πn) = e π/2 e 2πn (´e um

n´umero real!), com n = 0 , ± 1 , ± 2 ,

2 Integrais no plano complexo

Seja a fun¸c˜ao

w = f (z ) = u (x, y ) + iv (x, y ).

A integral de f (z ) entre os pontos z 1 = x 1 + iy 1 e z 2 = x 2 + iy 2 do plano

complexo depende, em geral, do caminho C de integra¸c˜ao escolhido. Como dz = dx + idy teremos

z

z

1

2

f

(z )dz =

z

=

2

z

(u + iv )(dx + idy )

1

(x 2 ,y 2 )

(x 1 ,y 1 )

(x 2 ,y 2 )

[ udx vdy ] + i (x 1 ,y 1 ) [ vdx + udy ]

a , onde C ´e um c´ırculo de raio R com centro no ponto

z = a [Fig. 6] Um ponto sobre C ´e descrito por z = a + Re iθ , onde 0 θ < 2 π

se

Ex.: Calcular C

z

dz

o c´ırculo for percorrido no sentido anti-hor´ario. Ent˜ao dz = Rie iθ e

C

dz

z

a = 2π

0

Rie iθ dθ Re iθ

= i 2π = 2 πi

0

Se

integral iria trocar de sinal.

o c´ırculo fosse percorrido no sentido anti-hor´ario, ent˜ao 2 π < θ 0, logo a

6

y z z R θ a C x
y
z
z
R
θ
a
C
x

Figura 6: Contorno circular.

2.1 Teoremas importantes

2.1.1 Teorema ML

Seja C um caminho no plano complexo. Ent˜ao

C f (z )dz ML,

(25)

onde M ´e o valor m´aximo de f (z ) ao longo de C , e L ´e o comprimento de C . Prova: descreveremos a curva C no plano complexo usando as seguintes equa¸c˜oes param´etricas

x = φ(t ),

y = ψ (t ),

onde a t b ´e um parˆametro, do qual φ, ψ s˜ao fun¸c˜oes cont´ınuas. Logo

dz = dx + idy = φ (t )dt + ψ (t )dt,

donde

| dz | 2 = (dx) 2 + (dy ) 2 = (φ ) 2

+ (ψ ) 2 (dt ) 2 .

Portanto, o comprimento do segmento da curva C entre os pontos z 0 e z 1 ´e dado por

L =

z

z

0

1

Seja, ent˜ao, a integral

b

| dz | = (φ ) 2 + (ψ ) 2 dt.

a

I

b

= C f (z )dz = f (φ + )(φ + )dt.

a

Usando a propriedade geral

a

temos que

b

f (t )dt

a

b

| f (t )| dt,

| I | ≤ C | f (z )|| dz | .

7

y z C z R θ R R x Figura 7: Contorno semi-circular.
y
z
C
z
R
θ
R
R
x
Figura 7: Contorno semi-circular.

Chamando de M o valor m´aximo do m´odulo da fun¸c˜ao ao longo da curva C ,

ent˜ao | f (z )| ≤ M , donde

| I | ≤ M C | dz | = ML,

como quer´ıamos demonstrar.

Ex.: seja C o semi-c´ırculo de raio R com centro na origem [Fig. 7]. Ent˜ao

C

dz z 2 + 4

πR R 2 + 4

2.1.2 Teorema de Cauchy-Goursat

Se f (z ) ´e anal´ıtica e as suas derivadas parciais s˜ao cont´ınuas numa re gi˜ao sim- plesmente conexa R 1 ent˜ao, para todo o caminho fechado C contido em R temos que

(26)

C

f

(z )dz = 0 .

Prova:

de modo que

Para demonstrar este teorema, escrevemos z = x + iy e f (z ) = u + iv ,

C f (z )dz = C (udx vdy ) + i C (vdx + udy ).

Usando o teorema de Green no plano (visto no curso de c´alculo veto rial)

teremos

C (udx vdy ) = dx dy

∂v

∂x + ∂u

,

∂y

∂v ∂y ,

C (vdx + udy ) = dx dy u ∂x

C f (z )dz = dx dy

∂v

∂x + ∂u

∂y

=0

1 ou seja, n˜ao existem “buracos” na regi˜ao R

= 0 ,

+ i u ∂x

=0

∂y

∂v

8

Figura 8: Contorno semi-circular. onde usamos as condi¸c˜oes de Cauchy-Riemann (8), j´a que f (

Figura 8: Contorno semi-circular.

onde usamos as condi¸c˜oes de Cauchy-Riemann (8), j´a que f (z ) ´e anal´ıtica por hip´otese do teorema, como quer´ıamos demonstrar.

a = 0, pois a

fun¸c˜ao f (z ) = z a ´e anal´ıtica para todos os pontos de C e no interior de C . Caso z = a esteja sobre a curva C ou em seu interior o teorema n˜ao se aplica.

Ex.: Se o ponto z = a for exterior `a curva C , ent˜ao C

1

z

dz

2.1.3 F´ormula Integral de Cauchy

Se f (z ) ´e anal´ıtica em todos os pontos de um caminho fechado C bem como da regi˜ao interior a C , e se z 0 ´e um ponto dessa regi˜ao, ent˜ao

1 f 2 πi C z − (z z ) 0 dz = f (z
1
f
2 πi C z − (z z ) 0 dz = f (z 0 ).

(27)

Obs.: se z = z 0 estiver fora da regi˜ao limitada por C , ent˜ao o teorema de Cauchy-Goursat se aplica e

C

z f (z ) a dz = 0

Para demonstrar esta express˜ao, vamos considerar o caminho fechado C = C 0 C ǫ , onde C 0 ´e um caminho que circunda o ponto z 0 e C ǫ ´e um c´ırculo de raio ǫ centrado em z 0 [Fig. 8]. O canal com os segmentos retos ´e infinitamente estreito, de tal modo que as contribui¸c˜oes nos dois sentidos de percurso c ancelam-se mutuamente. Temos, assim,

C

f (z z ) 0 dz = C 0 z

f (z )

z z 0

dz

=0

+ C ǫ

f (z z ) 0 dz, z

(28)

onde a integral em C 0 anula-se devido ao teorema de Cauchy-Goursat, j´a que a singularidade em z 0 est´a fora de C 0 . Sobre o c´ırculo C ǫ escrevemos z = z 0 + ǫe iθ , donde dz = ǫie iθ e, portanto,

C ǫ

f (z z ) 0 dz = 2π z

0

f (z 0 + ǫe iθ )ǫie iθ

ǫe

iθ

=

i 2π f (z 0 + ǫe iθ )dθ.

0

Substituindo em (28) e tomando o limite ǫ 0 ´e

C

z f (z z ) 0 dz = i 2π f (z 0 )= if (z 0 )2 π,

0

como quer´ıamos demonstrar.

9

y z a C x
y
z
a
C
x

Figura 9: Contorno arbitr´ario.

a , onde C ´e um caminho fechado qualquer que envolve

o ponto z = a [Fig. 9] Comparando com (27) temos que

Esse resultado est´a de acordo com o c´alculo expl´ıcito feito ante riormente para

um caminho circular com centro em z = a .

a = 2 πi .

Ex.: Calcular C

z

dz

f (z ) = 1, donde f (a ) = 1 e C

z

dz

2.1.4 Derivadas de fun¸c˜oes anal´ıticas

Fazendo as mudan¸cas de vari´aveis z ζ e a z reescrevemos a f´ormula integral de Cauchy como

(29)

f (ζ ) 2 πi C ζ

1

z = f (z ).

Se C ´e fixo

dz C ζ

d

f (ζ )

z = C

f ( ζ )

f (ζ )

d

ζ

z

dz

= C

f (ζ )

(ζ

z ) 2 dζ,

ent˜ao, derivando (29), temos

df

dz = 2 πi C

1

f (ζ )2 ,

(ζ z )

(30)

que pode ser generalizada para a derivada n-´esima:

d n f dz n = 2 πi C n ! f (ζ )dζ n+1
d n f
dz n = 2 πi C
n
!
f (ζ )dζ
n+1 .
(ζ − z )

10

(31)

2.2 S´eries de Taylor e de Laurent

2.2.1 S´eries infinitas

Algumas s´eries de potˆencias bem conhecidas do c´alculo (McLaurin) s˜ao muito uteis:´

e z =

sin z =

cos z =

log(1 + z ) =

n=0

n=1

n=1

n=1

n

z

n ! = 1 + z +

2! z 2 + 3! z 3 +

1

1

,

1

z 2n1

(

1)

n

(2 n 1)! = z 3! z 3 + 5! z 5

1

+ 4! z 4

(2 n 2)!

1

1

1

2! z 2

(1) n 1 z 2n2

= 1

(1) n 1 z n = z 1

n

2 z 2 + 3 z 3 +

1

,

 

(32)

+

.

.

.

,

(33)

+

.

.

.

,

(34)

 

(35)

No ultimo´ caso, como a fun¸c˜ao logar´ıtmo ´e plur´ıvoca, subente nde-se que a expans˜ao refere-se ao seu ramo principal. Finalmente, temos a ex pans˜ao do binˆomio de Newton

(1 + z ) p =

n=1

p (p 1)

(p n + 1)

 

n

!

z n = 1+ pz + p (p 2! 1)

z 2 + p (p 1)(p 2)

3!

z 3 +

(36)

Seja 0 < | z | < 1, ent˜ao a s´erie geom´etrica complexa

∞ 1 1 − z = 1 + z + z 2 + z 3
1
1 − z = 1 + z + z 2 + z 3 +
=
z n
n=0

(37)

´e uniformemente convergente, ou seja, pode ser diferenciada e integrada termo- a-termo.

2.2.2 S´erie de Taylor

Se f (z ) ´e anal´ıtica no ponto z = a , ent˜ao existe uma regi˜ao (vizinhan¸ca) R centrada em z = a , tal que podemos encontrar um caminho circular C , intei- ramente contido em R , para o qual aplica-se a f´ormula integral de Cauchy na forma (29) [Fig. 10]

(38)

2 πi C ζ

1

f (ζ )

f (z ) =

z dζ.

Escrevemos

1

1

1

1

1

ζ z =

z

a

ζ a+a z ζ a

=

ζ a

z a 1 z a

Da figura 10, | z a | < | ζ a | , de modo que a raz˜ao | (z a )/ (ζ a )| < 1 e podemos usar a s´erie geom´etrica complexa (37):

1

1 z a

ζ a

=

n=0 z

ζ

a a n

11

,

y z a C R ζ x
y
z
a
C
R
ζ
x

Figura 10: Vizinhan¸ca de um ponto z = a .

y R R 1 a C R 2 x
y
R
R
1
a
C
R
2
x

Figura 11: Vizinhan¸ca de um ponto z = a .

que, substituida em (38),

f (z ) = 1 n=0 (z a ) n C

2

πi

f (ζ )

(ζ a ) n+1 .

Usando (31), a integral acima reduz-se `a n-´esima derivada da fun¸c˜ao f , o que leva `a s´erie de Taylor de f (z ) em torno do ponto z = a :

∞ f (z ) = 1 d n f n ! dz n (z −
f (z ) =
1 d n f
n ! dz n
(z − a ) n .
z=a
n=0

(39)

2.2.3 S´erie de Laurent

Ela aparece quando a fun¸c˜ao f (z ) n˜ao ´e anal´ıtica em z = a , mas o seja num anel de raio interno R 1 e raio externo R 2 [Fig. 11]. Nesse caso ´e poss´ıvel ainda desenvolver f (z ) em s´erie de potˆencias de (z a ), dita “s´erie de Laurent”, mas

12

agora poderemos ter tanto potˆencias positivas como negativas:

f (z ) =

n= −∞

c n (z a ) n ,

onde os coeficientes s˜ao dados por

1 f (ζ )dζ c n = n+1 , 2 πi C (ζ − a
1
f (ζ )dζ
c n =
n+1 ,
2 πi C
(ζ − a )

(40)

(41)

e C ´e um caminho fechado pertencente `a regi˜ao anular R . Podemos dividir a s´erie de Laurent em duas partes:

Parte regular: compreende os termos de (40) com expoentes pos itivos. No entanto c n n˜ao ´e igual a (1 /n !)(d f /dz n ) z=0 como na s´erie de Taylor porque f (z ) n˜ao ´e diferenci´avel em z = a ;

Parte principal: formada pelos termos com expoentes negativos.

Ex.: f (z ) = e 2z 1) 3 ´e singular em z = 1. Fazendo a transforma¸c˜ao u = z 1

(z

jogamos a singularidade para a origem u = 0, e podemos usar a s´erie (32) para escrever

f (u ) =

=

e

2(1+u)

= e 2

u

3

u

3

n=0

(2 u ) n

n !

=

e

2

3 + 2 e 2 + 4 e 2 + 8 e 2 + 16 e 2 u + 32 e 2 u 2

u

u 2

2

u

6

24

120

+

,

Voltando `a vari´avel original:

f (z ) =

e

2

2

e 2

2 e 2 + 4 e 2

z 1

3

2 e 2 (z 1) + 4 e 2 (z 1) 2

3

15

parte regular

(z 1) 3 + (z 1) 2 +

parte principal

+

+

(42)

2.3 Polos e Res´ıduos

2.3.1 Classifica¸c˜ao das singularidades

Se f (z ) for anal´ıtica na vizinhan¸ca do ponto z = a , com exce¸c˜ao do pr´oprio ponto, ent˜ao z = a ´e uma singularidade isolada de f (z ). Ex.: A fun¸c˜ao f (z ) = sin z tem uma singularidade n˜ao-isolada em z = 0 pois n˜ao existe uma vizinhan¸ca de z = 0 onde f (z ) seja anal´ıtica, o que pode ser visualizado no gr´afico da fun¸c˜ao real sin(1 /x) [Fig. 12]. As singularidades isoladas s˜ao classificadas como

1

Singularidades Remov´ıveis: elas desaparecem quando se toma o limite apropriado. Por exemplo, a fun¸c˜ao f (z ) = sin z tem uma singularidade remov´ıvel em z = 0 pois

sin z

z

lim

= 1

z

0

z

13

Figura 12: Gr´afico da fun¸c˜ao f ( x ) = sin(1 /x ). • Polos:

Figura 12: Gr´afico da fun¸c˜ao f (x) = sin(1 /x).

Polos: s˜ao tais que podemos desenvolver f (z ) na vizinhan¸ca de z = a em s´erie de Laurent com parte principal finita. A ordem m do polo ´e o maior expoente negativo da s´erie. Um polo de ordem m = 1 ´e chamado polo

simples, se m = 2 de polo duplo, etc. Ex.: f (z ) = e 2z 1) 3 tem um polo de

(z

ordem m = 3 no ponto z = 1, pois este ´e o maior expoente negativo da parte principal da respectiva s´erie de Laurent, como vimos em (42 ).

Singularidades Essenciais: quando a parte principal da s´erie de Laurent for infinita. Ex.: f (z ) = e 1/z tem uma singularidade essencial em z = 0. Usando (32) expandimos em torno de z = 0:

e 1/z =

1

parte regular

+

1

1

1

1

1

z + 2! z 2 + 3! z 3 +

parte principal

Uma forma pr´atica de determinar a ordem m de um polo ´e determinando o menor valor do expoente n tal que exista 2 o seguinte limite

a (z a ) n f (z ),

lim

(n = 1 , 2 ,

.).

z

(43)

Ex.: Na fun¸c˜ao f (z ) =

e 2z 1) 3 o ponto z = 1 ´e um polo de ordem m = 3 porque

(z

lim 1 (z

z

1) 1 f (z ) =

lim

z

1

e

1) 2 = ,

2z

(z

lim 1 (z 1) 2 f (z ) =

z

lim

z

1

e

2z

(z

1) = ,

lim 1 (z 1) 3 f (z ) = lim 1 e 2z = e 2 < .

z

z

2.3.2 Res´ıduos

Seja f (z ) anal´ıtica numa vizinhan¸ca de z = a . O res´ıduo de f (z ) no ponto z = a ´e definido como

(44)

1 Res { f (z = a )} = 2 πi C f (z )dz,
1
Res { f (z
= a )} = 2 πi C f (z )dz,

onde C ´e um caminho fechado envolvendo z = a . Observe que, se f (z ) fosse anal´ıtica tamb´em no ponto z = a ent˜ao o res´ıduo seria nulo, pois C f (z )dz = 0 pelo teorema de Cauchy-Goursat.

2 ou seja, que o limite n˜ao seja infinito

14

Desenvolvendo f (z ) em s´erie de Laurent (40) em torno de z = a ent˜ao o res´ıduo no ponto z = a ´e igual ao coeficiente do termo da s´erie com expoente n = 1 j´a que, de (41), temos que

1 f (z )dz 0 = c − 1 . Res { f (z =
1
f
(z )dz 0 = c − 1 .
Res { f (z = a )} =
2 πi C
(z − a )

(45)

H´a alguns m´etodos pr´aticos para o c´alculo de res´ıduos, a sabe r:

2.3.3

Se z = a ´e um polo simples (de ordem m = 1) o res´ıduo de f (z ) nesse ponto ´e

(46)

Res{ f (a )} = lim

a (z a )f (z ).

z

Ex.: f (z ) = z

z 1 tem um polo simples em z = 1.

Res{ f (z = 1)} = lim 1 (z 1)

z

z

z 1 = 1 .

Se z = a for um polo de ordem m

m − 1 1 d Res { f (a )} = [(z − a )
m − 1
1
d
Res { f (a )} =
[(z − a ) m f (z )] .
lim dz m − 1
(m − 1)!
z
→a

Ex.:

f (z ) = e z 4 tem um polo de ordem m = 4 em z = 0.

z

z 0

Res { f (z = 0)} = 1 lim

3!

3 z 4 e z

d

dz

z

3

4 = 1

6

z 0 e z = 1

lim

6 .

(47)

ϕ(z)

Se z = a ´e uma singularidade de f (z ) = ψ(z) , com ϕ(a ) = 0, ψ (a ) = 0 e ψ (a ) = 0 (ou seja, ψ (z ) tem um zero simples em z = a ), ent˜ao:

Res { f (a )} = ψ ϕ(a ′ (a ) ) .
Res { f (a )} = ψ ϕ(a ′ (a ) ) .

(48)

Ex.:

ψ (z ) = sin z tem um zero simples em z = 0, j´a que ψ (0) = cos 0 = 1 = 0,

z tem uma singularidade em z = 0. Como ϕ(z ) = e z e

f (z ) =

e

z

sin

sin

ent˜ao Res { f (z = 0)} =

ϕ(0)

(0) = 1.

ψ

Teorema dos res´ıduos

Se f (z ) for anal´ıtica na regi˜ao envolvida por C e sobre C , exceto por um n´umero

finito de singularidades isoladas nos pontos z = z 1 ,z 2 , [Fig. 13], ent˜ao

n no interior de C

z

C f (z )dz = 2 πi

n

Res{ f (z k )} .

k+1

(49)

Prova: Consideremos inicialmente uma unica´

singularidade isolada z 0 . Po-

demos expandir f (z ) em torno de z 0 em s´erie de Laurent:

f (z ) =

n= −∞

c n (z z 0 ) n .

15

Figura 13: Singularidades isoladas dentro de um caminho fechado. Integrando termo-a-termo esta expans˜ao ao longo

Figura 13: Singularidades isoladas dentro de um caminho fechado.

Integrando termo-a-termo esta expans˜ao ao longo de um conto rno fechado C que envolve z 0 :

C f (z )dz =

=

−∞ c n (z z 0 ) n dz =

n=

n=

−∞ c n (z z 0 ) n dz

2

=0

+ c 1 C

dz z z 0

+ n=0 c n (z z 0 ) n dz

=0

onde n´os usamos o teorema de Cauchy-Goursat para anular as integrais da fun¸c˜ao anal´ıtica (z z 0 ) n . Como c 1 ´e o res´ıduo de f (z ) no ponto z 0 temos que

C f (z )dz = Res { f (z 0 )} C

z dz z 0 = Res{ f (z 0 )} 2 πi,

(50)

onde usamos a f´ormula integral de Cauchy (27). Vamos, agora, considerar o caso de haver v´arias singularidades is oladas dentro de C . Podemos deformar C de modo a envolver cada uma

z 1 ,z 2 , delas, usando canais infinitamente estreitos [Fig. 13]. Como o caminho defor- mado n˜ao envolve mais nenhuma singularidade o teorema de Cauchy- Goursat nos diz que

C f (x)dz + C 1 f (z )dz

= 2πiRes { f (z 1 ) }

+

C 2

f

(z )dz

= 2πiRes{ f (z 2 ) }

+

C 3

f

(z )dz

+

= 2πiRes { f (z 3 ) }

= 0 ,

onde usamos (50), os sinais negativos aparecendo pois os percurs os s˜ao feitos no sentido hor´ario. Teremos, portanto, que

C f (x)dz = 2 πi (Res { f (z 1 )} + Res{ f (z 2 )} + Res { f (z 3 )} +

como quer´ıamos demonstrar. Exemplo: Seja a integral

e z dz

C (z 1)(z + 3) 2 ,

16

) ,

onde C ´e o c´ırculo de raio 10 e centro na origem, cuja equa¸c˜ao ´e | z | = 10. As singularidades do integrando

f (z ) =

e z

(z 1)(z + 3) 2

s˜ao z 1 = 0, que ´e um polo simples (e est´a dentro de C ), e z 2 = 3, que ´e um polo duplo (e tamb´em no interior de C ). Calculando os res´ıduos correspondentes:

Res { f (z 1 )} = lim 1 (z 1)f (z )

z

= lim 1 (z 1)

z

(z 1)(z + 3) 2 = 16 e ,

e

z

Res { f (z 2 )} = lim

z

→− 3

1! 1 dz d (z + 3) 2 f (z )

=

=

z

lim

→− 3

dz z 1 ,

d

e

z

z →− 3

lim

e

z

(z 1) 2 = 5

e

z

16 e 3 .

z 1

Logo, pelo teorema dos res´ıduos,

C f (z )dz = 2 πi [Res{ f (z 1 )} + Res { f (z 2 )} ] = πi e 5 e 3 ≈ − 10 , 16 i.

8

3 Integra¸c˜ao por res´ıduos

3.1 Integrais de fun¸c˜oes trigonom´etricas