A segunda observação é igualmente importante porque se refere às

determinações mais íntimas do sistema do capital como ordem sóciometabólica necessariamente orientada para a expansão e dirigida
para a acumulação. Ainda que o uso do poder por meio do
equipamento repressivo possa, em situações de emergência, servir ao
propósito de recompor as relações de poder a favor do capital, o facto
de que ele é extremamente perdulário mesmo nos próprios termos de
referência do sistema. É fundamental que se leve em conta ser
impossível assegurar a expansão e a acumulação necessárias de
capital com base na perpetuação da emergência economicamente
perdulária, para não mencionar os perigos políticos associados a ela e
que não são de forma alguma desprezíveis. A ideia de um "Big
Brother" permanente que domina com sucesso o trabalho já é
fantástica demais até mesmo para a ficção orwelliana, quanto mais
para a realidade do modo de reprodução sócio-metabólica do capital,
pois este estará necessariamente condenado ao desaparecimento se
não puder assegurar permanentemente a sua própria reprodução pela
apropriação dos frutos do trabalho cada vez mais produtivo e a
concomitante realização ampliada de valor, inconcebível sem um
processo dinâmico de "consumo produtivo" Contudo, nem a melhoria
da produtividade do trabalho, com o necessário crescimento da
socialização do processo de trabalho como sua condição prévia, nem
a necessária expansão do "consumo produtivo" são compatíveis com
a ideia de um estado permanente de emergência. Além disso, como
argumentou correctamente Chomsky há muitos anos atrás, o sistema
de vigilância que acompanha a manutenção bem sucedida de um
domínio autoritário permanente envolve o absurdo (e, claro, o custo
correspondente) da regressão infinita associada à obrigação de
monitorar não apenas toda a população, mas também o próprio
pessoal encarregado do monitoramento, além dos monitores dos
monitores [40] etc. Devemos acrescentar ainda que a ideia da
dominação permanente do capital pelo uso da violência como
premissa necessária à unidade total do capital global contra as forças
de trabalho nacionais que estão efectivamente sob o controlo das
unidades particulares do capital na ordem global existente (que não é
unificada). Este postulado vazio de unidade e uniformidade global do
capital ignora arbitrariamente a lei de desenvolvimento desigual. Não
só ela, mas também a evidência histórica de que o exercício da força
em grande escala — por meio da guerra — nunca prescindiu de
massas geralmente motivadas por séculos de rivalidades nacionais
para poder impor violência contra os seus iguais do lado dos inimigos.

seu antagonista. foi incentivada pela necessidade de um grau mínimo de consenso que permitisse ao capital manter o controlo sobre a força de trabalho. Certamente. é insana a ideia de projectar a dominação do capital. (De facto. longe de ser um acidente histórico. quando da irrupção da Primeira Guerra Mundial. esse objectivo fundamental não pode ser alcançado sem a conquista do controlo da esfera política.De facto. por um período de tempo mais ou menos longo. o uso da violência em massa arruína as condições objectivas do domínio do capital. não simplesmente pessoal. apesar de o único objectivo viável da sua luta transformadora ser o poder sócio-metabólico do capital — com o seu controlo estrutural/hierárquico. mas não pode evitar o esgotamento das potencialidades produtivas do capital.5. ao contrário. o próprio sistema do capital correria o perigo de ser vencido pelo trabalho. a articulação nacional do sistema global do capital. essa dificuldade é intensificada pela tentação de se acreditar que. sob as estratégias mal concebidas. sobre a esfera produtiva material. Mais do que isso. apressando o seu esgotamento. com o tempo devem) nascer —. Pois. Caso contrário.2. todos os argumentos a favor da manutenção da dominação permanente do capital pela imposição da violência em massa definem de modo auto-contraditório as suas condições de realização. a grande dificuldade do trabalho é que. Como foi mencionado na secção 18. Como antagonista do capital. alguns socialistas radicais tentaram sem sucesso combater este consenso com o programa que conclamou os trabalhadores. do qual outras formas de "personificação" podem (e. na ausência de um grau suficientemente alto de consenso entre capital e trabalho no mesmo país — geralmente presente em alto grau nos conflitos entre nações em toda a situação de significativa disputa inter-capitalista —. e necessariamente passageiro.) Em resumo. as rivalidades inter-capitalistas. na sua confrontação directa com o trabalho. inclusive as conflagrações internacionais mais abrangentes. anulando a lógica interna do sistema de intensificar ao máximo o conflito de interesses e fazer prevalecer os mais fortes no bellum omnium contra omnes hobbesiano. Além disso. ninguém duvida que o uso da violência pode adiar. passariam a ser riscos inadministráveis do ponto de vista do capital social total. "a voltar as suas armas contra as burguesias nacionais". uma . o sucesso dos esforços positivos de emancipação do trabalho. como condição permanente da sua normalidade futura. pela via de um estado de emergência completamente instável. mas objectivo.

complementados pela dimensão coesiva do poder de controlo da "mão invisível". A incontrolabilidade do sistema reprodutivo pós-capitalista manifestou-se pela incapacidade crónica de alcançar os objectivos económicos. assim. nem mesmo como um primeiro passo a caminho da prometida transformação socialista. a simples remoção das personificações privadas capitalistas do capital não poderia cumprir esse papel. O fracasso das sociedades pós-capitalistas está no facto de terem se oposto à determinação centrífuga do sistema herdado sobrepondo aos seus elementos particulares conflituantes a estrutura de comando extremamente centralizada de um Estado político autoritário. O sistema sócio-metabólico tornou-se. às vezes. Elas. Isso selou o seu destino ao privá-lo da sua alegada legitimidade e fazer do seu colapso uma simples questão de tempo. pois a natureza contraditória e centrífuga do sistema herdado foi de facto mantida pela imposição da política de controlo centralizada em prejuízo do trabalho. e das funções legal e política do Estado moderno. as personificações pós-revolucionárias do capital tentaram desesperadamente contrabandear a "mão invisível" para dentro das suas sociedades. isso provocou a crescente hostilidade dos castigados sujeitos do trabalho excedente politicamente extraído contra a ordem pósrevolucionária. ao contrário. Como vimos no capítulo 2. deveriam ter atacado o problema crucial de como solucionar — por meio da reestruturação interna e da instituição do controlo democrático substantivo — o carácter contraditório e o correspondente modo centrífugo de funcionamento das unidades reprodutivas e distributivas particulares. até à desumana disciplina dos campos de trabalho das massas não significou que as personificações do capital de tipo soviético estivessem no controlo do sistema. . Portanto. mais incontrolável do que antes. o sistema do capital é composto de elementos incorrigivelmente centrífugos. o poder do capital estaria firmemente sob controlo.vez neutralizadas as instituições políticas do sistema capitalista herdado. escarnecendo das decantadas vantagens da "economia planejada". devido à incapacidade de substituir produtivamente a "mão invisível" da antiga ordem reprodutiva pelo autoritarismo voluntarista das novas personificações "visíveis" do capital pós-capitalista. Nos estágios finais de existência do sistema de tipo soviético. uma crença fatal que só poderia acabar nas conhecidas derrotas históricas do passado. Inevitavelmente. O facto de a força de trabalho ter sido submetida a um cruel controlo político e.

uma alternativa ao controlo sócio-metabólico do capital deve abranger todos os aspectos complementares do processo de reprodução social. Assim. o capital deve ser complementado pelo seu próprio modo de controlo político.rebaptizando-a — para torná-la aceitável — de "socialismo de mercado". É claro que a reconstituição e a substantiva democratização da esfera política são a condição necessária para uma intervenção sobre o controlo sócio-metabólico do capital. limitado a estritas funções produtivas. e nunca estará. É característica singular do sistema do capital que. isso apenas acentuou o facto de que. sob uma estrutura de comando substancialmente diferente da ampla estrutura de comando político do capital corporificada no Estado moderno. as personificações económico-gerenciais do capital podem exercer a sua autoridade sobre as unidades reprodutivas particulares. pois a instituição de uma ordem sócio-metabólica alternativa só será viável pela articulação da democracia substantiva. como real antagonista do capital existente. constituídas ao longo da supremacia histórica do capital dirigida para a auto-expansão do valor de troca. pode apenas condenar-se à permanente impotência. Isso significa que a estrutura material de comando do capital não pode afirmar-se sem a estrutura de comando político global do sistema. as funções materiais reprodutivas sejam executadas num compartimento separado. na sua normalidade. definida como actividade autodeterminada dos produtores associados tanto na política como na produção material e cultural. o trabalho. a priori. e absolutamente incapaz de produzir um controlo de democrático substantivo das suas unidades produtivas e distributivas. a possibilidade de ser legitimamente contestado na sua esfera de acção substantiva. Como está no controlo real de todos os aspectos vitais do sócio-metabolismo. desde as funções estritamente produtivas e distributivas até às dimensões mais amplas da direcção política. pois o poder do capital não está. Ao contrário. Ao dobrar-se a tais determinações. de modo algum são desvantajosas para o próprio sistema. Essa separação e essa "disjunção". o capital pode dar-se ao luxo de definir a esfera de legitimação política como questão estritamente formal. o sistema pós-capitalista permanecia irremediavelmente incontrolável. Para controlálas. mesmo depois de sete décadas de "controlo socialista". antecipando um feedback do mercado a ser convertido no devido tempo em acção . eliminando desse modo.

Foi nesse sentido. contrariando o que diz a teoria apologética do "nível mais alto do comunismo". portanto. coesiva/planeável das unidades produtivas e distributivas particulares pela auto-administração dos produtores associados. que o sistema soviético. pois. um modo de controlo reprodutivo alternativo — socialista — é inimaginável sem que ocorra a superação da disjunção e da alienação existentes. em parte diante de uma força de trabalho potencial ou realmente recalcitrante. e o Estado cumpre as suas funções complementares. O "fenecimento do Estado" não se refere a algo misterioso ou remoto. em vez de . o antagonista estrutural do capital é firmemente mantido sob controlo pela compartimentação e pela radical alienação dos produtores do poder de tomar decisões — em todas as esferas — num sistema ajustado às necessidades da reprodução e da acumulação ampliada do capital. Conservar a dimensão política sob uma autoridade separada. E na transição para a genuína sociedade socialista é necessária a progressiva reaquisição dos poderes alienados de decisão política pelos indivíduos. nos dois casos. A reconstituição da unidade das esferas de reprodução material e política é a característica definidora essencial do modo socialista de controlo sócio-metabólico. eles nunca serão dados. desde os empreendimentos locais até ao mais amplo intercâmbio internacional. Assim. se não forem dados imediatamente os primeiros passos como parte orgânica da estratégia transformadora. é inimaginável o novo modo de controlo político total da sociedade pelos seus indivíduos. divorciada das funções reprodutivas materiais da força de trabalho significa manter a dependência e a subordinação estrutural do trabalho e consequentemente impossibilitar a tomada de medidas subsequentes em direcção a uma transformação socialista sustentável. A condição necessária para realizar as funções da reprodução directamente material de um sistema socialista é a restituição do poder de tomar decisões aos produtores associados — em todas as esferas de actividade e em todos os níveis e coordenação. A criação das suas mediações necessárias não pode ser deixada para um futuro distante.correctiva. tão revelador quanto fatal. mas a um processo perfeitamente tangível que precisa de ser iniciado ainda no presente. Em completo contraste. em parte na esfera internacional do mercado mundial (inclusive a garantia dos interesses do capital em guerras se necessário for). Sem a reaquisição desses poderes. assim como a operação quotidiana não contraditória e.

reforçou a disjunção entre as funções do Estado e a força de trabalho sob o seu controlo. .activar o poder de decisão autónomo dos produtores. impondo. sob o pretexto de "planeamento". Nem mesmo a eternidade poderia transformar em sistema socialista autoadministrado uma ordem sócio-metabólica aprisionada por determinações estruturais tão irremediavelmente alienadas. as ordens do seu aparato político sobre os processos produtivos directos.

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