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5/3/2014

O Brasil passou de prodígio a problema - Revista Exame

Em ergentes 05/03/2014 05:55

O Brasil passou de prodígio a problema
Um realinhamento da economia global está transformando o Brasil, até outro dia o
queridinho dos investidores internacionais, numa economia frágil e de perspectiva incerta.
O que aconteceu com o país que prometia tanto e agora parece não entregar nada
Fabiane Stefano, de

São Paulo - O biólogo americano Robert Trivers ficou famoso por seus estudos sobre o autoengano.
Trata-se de um conceito simples: o ser humano mente para si mesmo com o objetivo de enganar de
forma mais eficaz os outros.
A ideia de Trivers, um evolucionista que passou boa parte da carreira na Universidade Harvard e na
Universidade da Califórnia, se aplica tanto à conquista de uma companhia amorosa quanto à tentativa
de inflar ativos no mercado financeiro. No Brasil de 2014, o comportamento das autoridades tem
demonstrado outra evidência do conceito de Trivers.
Ficamos sabendo pela equipe econômica que não há má gestão das contas públicas. O governo nega
que a inflação preocupe. Nega a deterioração do ambiente de negócios. Nega que haja um desajuste
no setor elétrico. E, por fim, nega que a economia do país se fragilizou nos últimos anos.
Seria ótimo se todas essas negativas bastassem para mudar nossos graves desequilíbrios. Na vida
real, porém, elas de nada servem. O Brasil de hoje não é mais a estrela reluzente de 2010. Em janeiro,
num ensaio de crise de confiança nos mercados emergentes, fomos apontados por investidores como
uma das economias mais frágeis.
Em seguida, no começo de fevereiro, um relatório do Federal Reserve, o banco central americano,
citou 11 vezes o Brasil como uma das nações emergentes mais vulneráveis — ficamos atrás só da
Turquia, epicentro da atual turbulência. Como passamos, em tão pouco tempo, de prodígio a
problema?
Na última década, o Brasil viveu as benesses de ser alçado à condição de uma das economias mais
promissoras do século 21. Junto com China, Rússia e Índia, o país formou o Bric, grupo com potencial
capaz de compensar o baixo desempenho dos países ricos, que davam sinais de não ter mais fôlego.
De 2000 a 2007, enquanto as nações desenvolvidas cresceram em média 2,3%, o mundo emergente
avançou 6,6% ao ano. Para o Brasil, foi um pe​
río​
do especial de prosperidade. Era o auge do boom de
commodities, momento em que o país vendeu montanhas de soja e de minério de ferro para a China a
preços exorbitantes (só o minério valorizou 220% de 2003 a 2013).
Foi também a fase que apresentamos ao mundo uma riqueza inesperada, o petróleo do pré-sal. A
ascensão de uma nova classe média e o aumento do consumo completaram o quadro e ajudaram a
atrair um volume recorde de investimento estrangeiro ao país. Não havia quem não se encantasse com
a narrativa do país que fazia tudo errado e que agora dá certo.

Corrosão lenta
http://exame.abril.com.br/noticia/de-prodigio-a-problema/imprimir

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com a efetiva redução. em Berkeley. o que deverá reduzir o volume de dinheiro em circulação pelo mundo. quando o Fed deu o primeiro aviso de que iria cortar os incentivos. os Estados Unidos deverão crescer 3% em 2014. a bolsa de valores brasileira perdeu 410 bilhões de reais em valor de mercado — um terço dessa riqueza sumiu nas ações da Petrobras. diz o economista Barry Eichengreen. que deverá privilegiar o consumo em vez do investimento. a venda de automóveis e a construção de casas atingiram o maior nível desde 2007 e os lucros das empresas americanas listadas em bolsa subiram 5% em 2013. é um realinhamento de forças no cenário global.7%. professor de finanças na Universidade de Pequim e uma das maiores autoridades mundiais em China. porém. “As reformas estruturais que não foram feitas nos tempos de bonança são preo​ c upantes”. Como não é claro se essa riqueza virá. As duas maiores economias. “Sabíamos que o mundo iria passar por uma reacomodação por causa das mudanças nos Estados Unidos. Essas evidências motivaram o Fed a diminuir os estímulos monetários dados à economia americana. lentamente. Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2014. diz Michael Pettis. professor da Universidade Colúmbia. Um levantamento da Associação Latino Americana de Private Equity e Venture Capital mostra que os fundos de investimento em participações reduziram em 70% sua atuação no Brasil nos últimos dois anos. tudo ficou mais difícil. o país vem corroendo os dividendos conquistados na época em que era uma celebridade global. diz o economista Jeffrey Sachs. no ano passado o PIB do país avançou 7. “Parte do otimismo em relação ao Brasil era fruto de uma expectativa exagerada quanto ao petróleo do pré-sal. Forças contrárias A combinação dessas duas forças não parece favorável ao Brasil. da Universidade da Califórnia.br/noticia/de-prodigio-a-problema/imprimir 2/4 . em Nova York. O que motivou os mercados a rever suas posições em relação aos emergentes. viu sua economia perder gás e um déficit em conta-corrente se avolumar. As evidências estão por aí há algum tempo. há quem projete que a média de crescimento anual cairá para 6% no longo prazo. Obviamente.Revista Exame A questão é que o Brasil se agarrou apenas à parte desfrutável dessa história e deixou de lado as arrumações de casa que arrasta de longa data. a expectativa é de mais turbulência. Mas a sensação é que o Brasil deixou o tempo passar e não fez o seu dever”.” Nos últimos anos. Após cinco anos de atividade apática. diz Márcio Utsch. “Esse é apenas o começo de um processo que deve durar anos”. Após décadas crescendo à média de 10%. agora. já traçou uma estratégia preventiva de contenção de despesas caso a situação se agrave. que tinha um plano otimista para 2014. eles alocaram 2. http://exame. Estados Unidos e China. houve frustração”.com. Na outra ponta está a China. Utsch. “Agora. Com o novo direcionamento da economia chinesa.5/3/2014 O Brasil passou de prodígio a problema . Os sinais de retomada estão por toda parte: o desemprego está abaixo de 7%.3 bilhões de dólares no país — ante 8. Como resultado. que vem desacelerando. e isso deve mudar o padrão de crescimento do mundo nos próximos anos. Se em maio de 2013. Em 2013.1 bilhões em 2011. se movimentam em direções opostas.abril. essa deterioração não ocorreu de repente. presidente da fabricante de calçados Alpargatas. Em um passado não muito distante. os juros subiram e as moedas de países emergentes desvalorizaram.

Nova celebridade emergente. anunciou um corte orçamentário de 44 bilhões de reais. disse Dilma. “Flutuação do câmbio não deve ser confundida com vulnerabilidade”. não dos problemas. Dilma voltou à Europa.abril. tendem a ser menos afetados em tempos de escassez de divisas. http://exame. Dos 242 bilhões de dólares exportados pelo Brasil em 2013. cada país emergente tenta agora mostrar que pertence à turma dos prodígios. Embora nas primeiras semanas de 2014 os investidores tenham nivelado por baixo todos os emergentes sem lá muito critério.​ Nestlé e Pepsico para seu país. Já os emergentes que têm déficit em conta-corrente e exportam sobretudo commodities são os que concentram mais risco — grupo do qual o Brasil faz parte. Guido Mantega. “Os americanos não compram nossas commodities e acabam atuando mais como nossos concorrentes no mercado internacional de manufaturados”. Um levantamento da gestora de recursos sul-africana Investec mostrou que os países que registram superávit nas contas externas e exportam manufaturados. A estreia de Dilma em Davos foi até bem recebida. equivalente a 1. Índia e Chile acabaram de elevar suas taxas de juro. “O fato de o Brasil ser classificado como problemático é resultado da adoção de políticas ruins e de má gestão”. ex-sócio do megainvestidor Geor​ ge Soros.9% do PIB.Revista Exame a perspectiva de melhora da economia americana era suficiente para garantir maior crescimento das exportações brasileiras. Dilma não trouxe nada na bagagem. Hoje. hoje cotado a 140 dólares. Aparentemente. em 20 de fevereiro. podemos. O Brasil já vinha fazendo isso.com. 19% seguiram para a China — 85% disso em commodities. Diante desse quadro. Um dos itens da pauta que mais podem ser afetados é o minério de ferro. essa correlação é menor. pode chegar a 108 no fim do ano e a 80 dólares em 2015. a vida ficou mais dura para os emergentes em geral — e para o Brasil em particular. O ministro da Fazenda. caso da China e da Coreia do Sul. Em Bruxelas. mas não causou o mesmo impacto que outro novato por ali: o presidente mexicano Enrique Peña Nieto. a presidente Dilma Rousseff tentou reconquistar a confiança dos investidores no Fórum Econômico Mundial. Nesse novo cenário global. Se não seremos muito beneficiados pelo crescimento americano. na Suíça. Apenas 10% dos produtos exportados daqui seguem para os Estados Unidos — já foram 25% no início da década passada. reiterou que tem compromisso com o equilíbrio das contas públicas e tentou minimizar a volatilidade da moeda brasileira. Em janeiro.br/noticia/de-prodigio-a-problema/imprimir 3/4 .5/3/2014 O Brasil passou de prodígio a problema . pouco depois os analistas passaram a reconhecer diferenças entre eles. especialista em comércio exterior. Nieto angariou em Davos 7. Quase um mês depois de ir a Davos. diz o investidor americano Jim Rogers. ser prejudicados com a desaceleração chinesa. A tentativa mais relevante de conter a crise de imagem brasileira veio com a divulgação da meta de superávit. cuja demanda deve cair na China nos próximos anos.7 bilhões de dólares em anúncios de projetos das multinacionais Cisco. Um relatório do banco americano Goldman Sachs aponta que o preço da tonelada do minério de ferro. desta vez para tentar destravar um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. sim. com um discurso em que tratava da importância do controle da inflação e do equilíbrio das contas públicas. Turquia. diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca. para entregar um superávit primário de 99 bilhões.

http://exame. Sim. O governo previu gastos de 9 bilhões de reais. O desemprego continua baixo. Um bom começo seria justamente parar de se enganar e enfrentar a realidade. o mercado interno é forte e grandes riquezas esperam por ser exploradas. de novo. De acordo com o Boletim Focus. o autoengano.9%.5/3/2014 O Brasil passou de prodígio a problema . o país não está à beira do precipício.3% em 2014. é bom ressaltar. o mercado projeta crescimento de 1. enfim. a situação não é um primor.br/noticia/de-prodigio-a-problema/imprimir 4/4 .com. Os números foram calculados tendo como base um crescimento econômico de 2. A consultoria Tendências estima que a conta possa chegar a 22 bilhões.Revista Exame Escondido nesse número está. Podemos. Porém. “O crescimento do Brasil depende da adoção de boas políticas e da recuperação da confiança na estratégia econômica”.8% e alta de preços de 5. do Banco Central. voltar a brilhar. Além disso.5% e inflação de 5. Mas para isso é preciso agir. o cálculo ignora gastos com o setor elétrico (veja reportagem na pág. diz Jeffrey Sachs. 44).abril.