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Nome: Vítor Manuel Henriques da Silva Mendes Número: 1003970 e-fólio A (Introdução à Ciência Política): 41031S11_06

É sobre a política ser a arte de governar pela harmonização de contrários, através do consentimento e da

persuasão, e a relação da representação política com a democracia direta, que se baseia este comentário.

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… o poder não é conferido por direito divino, nascimento, riqueza ou saber, mas unicamente pelo consentimento dos governados” (Manin,:2). Nas sociedades contemporâneas, em democracia, como referido por Balladur (2006), o político através das armas da sedução, tem de agradar e de arrastar as pessoas, para obter o seu consentimento, ao contrário dos regimes tirânicos, em que os povos eram meros espetadores. De modo a obter este consentimento, os políticos necessitam de convencer ou persuadir os povos induzindo- os a aderir a uma ideia, a tomar uma atitude, ou a realizar uma ação, quer por vontade expressa ou tácita em que manifestam o seu consentimento, ou seja, como refere Soares (:3) “o objectivo primordial da comunicação persuasiva é transmitir informações motivadoras, quer dizer, informações capazes de mobilizar as condutas e as crenças numa direção”. Assim, através da persuasão, utilizando instrumentos de comunicação politica como, p.e., o marketing político, pretende-se modificar vontades dos indivíduos, influenciar o comportamento dos cidadãos, conduzir a opinião pública, num determinado sentido, convencendo o indivíduo a acreditar no quer que ele acredite ou a fazer o que querem que ele faça, como refere Vidal (2010). Pelo que, o consentimento e as estratégias de persuasão são exigidos para exercer o poder e a democracia, pois o poder não é exercido sozinho, dado existirem, como refere Sá (1999:70) “complexos jogos de interesse, individuais ou de grupo, de conflitos, de compromissos”, contraditórios que é necessário harmonizar, concertar. Aliás, são vários os grupos de interesse que se formam na sociedade, divergentes, opostos, concorrentes, como refere Sá (1999), que podem ser económicos, culturais, sociais, ecológicos, religiosos, entre outros. Por outro lado, em democracia o sistema político não pode ser concebido sem estes grupos que representam vontades, necessidades e valores em conflito, e que erguem ao máximo os seus interesses. Referir, que a institucionalização destes grupos acrescenta concertação, como p.e., no caso em Portugal do Conselho Económico e Social, consagrado na Constituição da República Portuguesa, “sendo, por excelência, o espaço de diálogo entre o Governo, os Parceiros Sociais e restantes representantes da sociedade civil organizada” (http://www.ces.pt/42). Por conseguinte, para governar, em democracia, a política necessita de proceder à harmonização destes contrários, através do consentimento e da persuasão, procurando ajustar os interesses dos grupos. Relativamente ao exercício do poder, e se nas monarquias absolutas o Rei era o povo, no mundo moderno, o reconhecimento da qualidade de cidadão e a sua participação nas decisões coletivas, obriga a que seja através da democracia direta ou pela via da representação política que “está atrelada à ideia de democracia, de governo do povo” (Sá,1999), tendo sido a democracia representativa que triunfou.

Nome: Vítor Manuel Henriques da Silva Mendes Número: 1003970 e-fólio A (Introdução à Ciência Política): 41031S11_06

Aliás, como refere Sá (1999:66), “A teoria da representação política está na base da construção do “Estado representativo moderno” e no centro da polémica acerca da sua natureza, sentido e limites.” De referir que, no totalitarismo, o exercício do poder também ocorre por representantes do povo, sendo a representação, no entanto, do tipo simbólico, como referido por Balladur (2006). Por um lado, como refere Urbinati (2006:218) “A representação política transforma e expande a política na medida em que não apenas permite que o social seja traduzido no político; ela também promove a formação de grupos e identidades políticas.”. Além disso, é também um reconhecimento da cidadania e da participação dos cidadãos na escolha dos que os governam, ou como referido por Montesquieu citado por Sá (1999), de que os representantes é que são capazes de discutir questões, que o povo não seria capaz de fazer, com os inconvenientes, daí resultantes, para a democracia. Mas, mesmo assim, Montesquieu refere que os poderes da assembleia representativa deveriam ser limitados. Por outro lado, Silva e Amorim (2006) referem que o representante é somente o senhor dos seus eleitores, não o seu servidor, ou como referido por Sá (1999) de que é um reconhecimento de que existem os que governam e os que são governados. Acresce, que nas sociedades contemporâneas a representação política não pode ser expressa sem os partidos políticos, e mesmo que juridicamente os representantes não representem o partido nos parlamentos, de facto, o deputado está obrigado a uma disciplina partidária, que o torna sua propriedade. Ainda, no mesmo sentido, as relações dos representantes com o seu partido e com interesses organizados, que os deputados sabem seguir o seu trabalho com mais atenção do que os eleitores vulgares, são, por regra, de maior importância do que as que têm com os seus eleitores. E, sendo a legitimidade da representação conferida por eleições, existe no entanto, como referido por Sá (1999:81), uma certa crise do parlamentarismo, dado o eleitor secundarizar a escolha dos deputados, dada a sua preocupação, maioritariamente, estar centrada na escolha do governo e do primeiro-ministro. Ainda, e em sentido contrário à representação, Jean Jacques Rousseau citado por Sá (1999:67), afirma que “a soberania não pode ser representada, pela mesma razão que não pode ser alienada.” Pelo que, no lugar da representação política e de ser o eleitorado a decidir no lugar dos parlamentos ou dos governos, em democracias diretas ou semidiretas, existem os instrumentos do referendo e do plebiscito. Por um lado, existem autores que assemelham os conceitos de referendo e de plebiscito como Gladio Gemma referido por Sá (1999:87), e por outro lado, quem os distinga referindo que o referendo se destina a apreciar pessoas ou acontecimentos e tem a ver com a apreciação de problemas, e o plebiscito destina-se a apreciar normas e tem a ver com o Homem. No entanto, e como refere Sá (1999:88), o critério preferível “é o de caracterizar o referendo e o plebiscito como representando um apelo ao voto dos eleitores inscritos. Sendo o referendo num quadro de um sistema constitucional e uma ordem constitucional vigente com uma disciplina previamente definida, e o plebiscito tem caráter excecional e rompe em geral com a ordem constitucional.”

Nome: Vítor Manuel Henriques da Silva Mendes Número: 1003970 e-fólio A (Introdução à Ciência Política): 41031S11_06

- * - Concluindo, nas sociedades contemporâneas e democráticas, a representação política é a forma triunfante legitimada por eleições, permitindo que o social seja traduzido no político e promovendo a formação de grupos. Os diferentes, divergentes e por vezes contrários interesses, quer individuais, quer de grupo, necessitam de ser harmonizados, o que fazem da política a arte de governar pelo consentimento e pela persuasão, para fazer convergir grupos em conflito.

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Universidade Aberta, 13 de abril de 2012. Redigido segundo a nova norma ortográfica da Língua Portuguesa Bibliografia

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Sá, Luís. 1999. Introdução à Ciência política. Lisboa. Universidade Aberta. ISSN 978-972-674-289-0

Silva, Lílian e Amorim, Wellington. 2006. Política, Democracia e o Conceito de “Representação Política” em Weber. Aracaju, 1 (2) (p.3-20) jan-jun 2006. São Paulo. [Consultado em 11.4.2012]. Disponível em

http://pt.scribd.com/doc/3805795/Politica-Democracia-e-o-Conceito-de-Representacao-Politica-em-Weber

Soares, Marcos António. Prestação de Contas e Propaganda: A Persuasão para Construir as Maravilhas do Governo. [Consultado em 11.4.2012]. Disponível em

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Urbinati, Nadia. 2005. O que torna a representação democrática?. [Consultado em 11.4.2012]. Disponível em

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Vidal, Maria José. 2010. Éthos e Política segundo Maquiavel. Saberes: Revista Interdisciplinar de Filosofia e Educação, No Esp. (dez.2010) ISSN 1984-3879 [Consultado em 11.4.2012]. Disponível em http://www.periodicos.ufrn.br/ojs/index.php/saberes/search/results Young, Iris Marion. 2006. Representação Política, Identidade e Minorias. Revista Lua Nova online, 67 (139-190). São Paulo. ISSN 0102-6445 [Consultado em 11.4.2012]. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0102-

64452006000200006