AULA DE GEOGRAFIA: 2 ANO

As sociedades, ao longo do tempo, passaram por muitas mudanças, sobretudo nas formas
de organização espacial. Quando o ser humano deixou de se nômade para se tornar sedentário,
as primeiras terras ocupadas foram às margens de rios. Nestes locais, houve os primeiros sinais
de modificação das estruturas naturais, ou seja, as primeiras tentativas de adaptar à natureza aos
interesses humanos.
Os elementos naturais em conjunto, a natureza, começou a sofrer intervenções humanas.
No entanto, o ser humano viveu em “harmonia” com o meio ecológico até meados do século XV,
quando as relações comerciais promovidas por uma Divisão Internacional do Trabalho exigiam
um saque maior de recursos naturais; produzia-se não mais para subsistência, o que estava em
jogo era a acumulação de capitais advindo do capitalismo comercial. Com isso, as estruturas
espaciais sofriam intensas modificações e as cidades eram os exemplos mais genuínos das
transformações naturais.
O espaço construído, neste instante, atendia aos interesses de uma nova classe social,
totalmente adaptado às necessidades econômicas e sociais da época. É interessante lembrar que
o espaço em sua essência é dinâmico e vive num processo contínuo de mudanças. Por isso, as
paisagens, os reflexos superficiais do espaço, se mostram diferentes em cada época.
É como se o espaço fosse a essência das relações sociais e a paisagem a aparência
dessas relações. Neste contexto, podemos definir de forma temporária o espaço como o
resultado de ações sociais, econômicas e culturais, que determinam o nível de transformação da
natureza. Desta forma, os estágios das modificações naturais e criação de estruturas sociais
dependem do nível técnico do qual dispõe o grupo social.
É muitas vezes a técnica o fator chave que determina o grau de mudanças para criação ou
recriação do espaço. Pode-se até estabelecer uma análise comparativa entre os grupos
indígenas que habitavam as terras da América nos séculos XV e XVI com os europeus
colonizadores. Os primeiros não detinham o controle de técnicas que permitissem grandes
mudanças nas estruturas naturais ou, por outro lado, suas relações com o habitat natural eram
mais culturais do que econômicas. As possibilidades de modificar a natureza não eram nenhum
atrativo para esses grupos sociais, totalmente dependentes do meio ambiente.
Talvez eles vivessem intensamente o Possibilismo de Paul Vidal de La Blach, ou seja,
interviessem apenas nos elementos essenciais que permitira a construção dos gêneros de vida.
Noutro sentido, os europeus, detentores de técnicas modernas para aquele período, já haviam
transformado de forma intensa os seus ambientes. As metrópoles européias eram, sem dúvida,
os maiores símbolos da influência e poder de transformação do capitalismo. Independente do tipo
de relação do homem com o meio, do nível tecnológico que dispõe os mais diversos grupos
sociais, as ações humanas sempre se revelam no espaço. Muitas vezes, essas ações são de
ordem essencialmente cultural. Quando analisamos a forma de cultivo do sistema de roça no
Brasil, logo percebemos que de maneira inconsciente os pequenos agricultores praticam a
queimada para fortalecer o solo. Degradam em dois ou três anos o solo porque aprenderam com
os mais antigos, pais, avós, etc. que essa técnica aumenta a produção. Essa herança que
degrada o solo rural além de ter um objetivo econômico, revela a cultura que se propaga de

vale ressaltar que cultura por si só não determina grandes transformações espaciais.geração em geração. No entanto. Podemos perceber claramente. os movimentos. construções de gerações ultrapassadas. então. Por isso. por sua vez. Ideologias dominantes estavam associadas aos elementos naturais para determinar a subordinação social. uma parcela considerável da sociedade está margeada dessa globalização. nas formas de organização social para produzir. ou seja. neste caso cultural. global. Pensando mesmo nos modos de produção. há sempre um objetivo econômico. impérios artificiais se formavam graças a submissão forçada do homem. é que temos sociedades com níveis de desenvolvimento diferentes. econômicas e também culturais. Neste contexto. aquele onde as relações se mostraram mais intensas e que. a cultura tem um peso fundamental para a definição das identidades nacionais. aquela que surge na Europa por volta de 1870 o conceito de espaço está mais ligado a descrição. Contudo. sem dúvida. fluxos como trata Milton Santos (2009). o espaço tem funções sociais. Este. Por outro lado. podemos usá-las para entender as transformações espaciais. Desta forma. os grupos humanos não dominavam técnicas capazes de causar mudanças significativas no meio ecológico. nesta mesma corrente geográfica. as lembranças de culturas antigas. inicio mesmo das transformações naturais. são as heranças. uma mercadoria exclusiva para quem detém o capital. Só em observar Mathu Pichu (cidade de pedra localizada no Peru) percebemos que sua arquitetura explica muito sobre a forma de vida e produção dos Incas. mas heterogêneo. conhecer todos os componentes da Terra e descrevê-los. neste período. Interessa mais. de produção ou acumulação de capitais que integradas às formas de vida das sociedades moldam o seu espaço. globalizado. Apesar de habitarmos um espaço global. No entanto. faz parte de uma sociedade integrada. 39) complementa: “Só o estudo da história dos modos de produção e das formações sociais nos permitirá reconhecer o valor real de cada coisa no interior da totalidade”. no período histórico conhecido como escravismo. no futuro. Cada fase ou período da geografia é marcado por uma concepção espacial diferente. quase indivisível para o homem. Para ele. já na Europa. usava-se o espaço natural como fator determinante da exploração do homem pelo homem. constroem momentaneamente novos espaços e os reconstroem. Santos (2009 p. No neolítico. Ásia e África. O comunismo primitivo era mais uma organização social de sobrevivência do que mesmo de produção acumulativa. Correia (2009) em seu texto “Espaço: um conceito chave da geografia propõe uma análise diferenciada do espaço. suas diferenciações se mostram por meio da relação do homem com o seu meio. É a cultura o fator primordial da pouca transformação espacial. agora numa ótica cultural. Talvez por meio de uma relação mais verdadeira com o meio. Na geografia moderna. Na geografia tradicional. Milton Santos (2009) analisa o espaço como construção humana que é capaz de interferir na própria forma de vida dos grupos que o constroem e o reconstroem. Sabe-se que na história humana. . o espaço era apenas um objeto que reproduzia a desigualdade. Sobre este assunto.) onde não são os elementos naturais que impedem uma ocidentalização do país. Podemos até justificar exemplificando os povos de algumas regiões da Ásia (Tibet. transformam o espaço geográfico num todo. as sociedades se organizaram de diferentes maneiras para satisfazer as necessidades individuais e coletivas. O espaço vivido é. direcionam novas mudanças. que estes subespaços são construções culturais. O espaço torna-se. O que fica. e não apenas por meio de elementos naturais é que temos um espaço integrado.

trocar por moeda. estabelecida entre as metrópoles européias e suas colônias fortalecia o comércio europeu e criava novos hábitos. Quase todos os lugares do mundo foram parcialmente mexidos. nas suas particularidades. . Mas é bom saber que cultura. de colher. de trabalho. percebe-se que a construção de uma segunda natureza. totalmente urbanos. as ferramentas rudimentares pouco interferiam na natureza. de relação afetiva. já não tem tanto foco. marcado pelo consumo exacerbado interligou os diversos países deixando-os interdependentes. após a segunda revolução industrial. no qual as pessoas vivem e produzem para consumir e. Não cabe. não alimenta o povo. e não apenas num sentido histórico. A divisão internacional do trabalho. a imitação do modo de vida europeu. pois mesmo estabelecendo relações produtivas. dizer que o espaço geográfico. é mesmo resultado de relações produtivas e culturais dos homens. a colheita e etc. tem apenas um sentido econômico. de venda e de consumo tem um significado cultural. Esses laços culturais se desenvolvem até mesmo nas relações destes homens com os seus meios. A busca de matérias primas para as indústrias que já se expandira para os chamados periféricos forçava a criação de novos espaços artificiais. de produção. é necessário produzir.Mesmo com o surgimento dos impérios. se comparada a sua extensão. de esperar o período natural propício para realizar a plantação. ou seja. A ocidentalização do mundo. maneiras de trabalhar a terra. com uma visão acumulativa e exploratória desenvolvesse técnicas capazes de causar transformações irreversíveis na natureza. por si só. em alguns casos. desta vez. onde elementos artificiais e naturais se interligam. O termo primeira natureza. Toda e qualquer forma de vida. neste sentido. Neste contexto. Em outras palavras se faz necessário desenvolver economicamente a cultura e empregar valor de troca às produções para que haja satisfação social. os homens criam laços culturais que explicam o seu comportamento. Mais de 8 000 anos se passaram para que o homem europeu.

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