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Cinema e Multiculturalidade:

Viajando Até ao fim do Mundo com Wim Wenders


Paula Soares PhD
Universidade de Évora
psoares21@gmail.com

Área Temática: Cultura, Desenvolvimento e Turismo


Palavras-chave: Cinema e Multiculturalidade, Viagem Planetária, Arquétipos
Unificadores

Resumo:
Pretendemos aqui reflectir sobre a Viagem Planetária que o cineasta Wim
Wenders nos propõe na película Até ao Fim do Mundo (1991) no âmbito de
uma abordagem que liga Cinema e Multiculturalidade. Até ao Fim do Mundo
constituiu um projecto que Wenders que levou aproximadamente uma década
a realizar. Uma produção dispendiosa que implicou o recurso a várias equipas
de rodagem em múltiplos lugares do planeta. A Viagem que as personagens
efectuam em torno do Planeta remete-nos para uma Percepção de
Multiculturalidade que associa a Captação de Imagens Externas (Écran
Exterior) à Captação de Imagens Internas (Écran Interior), desencadeando
processos de Desenvolvimento Pessoal que culminam num cenário que
associa o Laboratório de Imagem de um Cientista reconhecido aos
Conhecimentos Ancestrais dos Aborígenes Australianos… Se a Era da
Globalização que caracteriza a Contemporaneidade nos aponta, entre outros,
para uma gradual aproximação das Culturas Planetárias, o Cinema, enquanto
área de estudo multidisciplinar, constitui-se, neste contexto, como um veículo
privilegiado para o estudo das Expressões da Multiculturalidade. Neste
contexto, procurar-se-á detectar elementos inerentes ao Inconsciente Colectivo
Planetário que possam conduzir à identificação de Arquétipos Unificadores no
contexto da Multiculturalidade.
Cinema e Multiculturalidade:
Viajando Até ao fim do Mundo1 com Wim Wenders
Paula Soares

Enquadramento
Este trabalho de investigação constitui uma ponte que interliga resultados de
pesquisa de doutoramento que efectuámos, entre outros, no âmbito da criação
de uma Biografia Fílmica de Wim Wenders (Soares, 2003) e o início de um
Projecto de Pós-Doutoramento em Cinema e Multiculturalidade integrado no
Centro de Investigação em Educação e Psicologia da Universidade de Évora.

Cinema e Multiculturalidade2
A área de investigação em Cinema e Multiculturalidade tem por objectivo
estudar as Percepções e Projecções da Multiculturalidade através das suas
representações em Cinema e na Cultura Visual Contemporânea. A partir dos
estudos sobre a Imaginação Criativa e a Transferência (C.G. Jung), pretende-
se analisar as Percepções e Projecções da Multiculturalidade que se
estabelecem entre o Écran Interior e o Écran Exterior (Soares, 2003), tendo por
objectivo identificar os mecanismos inerentes à construção de Identidades
Culturais e suas relações com a Percepção da Diferença. Procurar-se-á, a
partir do pressuposto da Consciência Fílmica, detectar elementos inerentes ao
Inconsciente Colectivo Planetário que possam conduzir à identificação de
Arquétipos Unificadores no contexto da Multiculturalidade. Esta área de
investigação em Cinema e Multiculturalidade pretende ainda contribuir para a
Cultura da Paz no Planeta integrando, para esse intuito, as linhas orientadoras
da UNESCO.

1
Utilizámos a versão portuguesa para o título da película Até ao fim do Mundo que no original
inglês se intitula Until the End of the World, sendo o título alemão Bis ans Ende der Welt. Esta
película estreou em 1991.
2
A primeira referência encontrada que relaciona “Cinema e Multiculturalidade” remete para o
Congresso de Cinema and Multiculturalism organizado em 1998 pelo Departamento de Línguas
da Universidade de Massachusetts-Lowell, E.U.A. As actas deste Congresso foram publicadas
por Sheryl Lynn Postman et.al. em 2001 com o título Cinema and Multiculturalism pela editora
Legas.

2
Wim Wenders, Cidadão do Mundo
Se tivéssemos que sintetizar em poucas palavras ‘Quem é Wim Wenders?’,
diríamos que é um cineasta que contribuiu para a criação do arquétipo do
cinema europeu. Nascido na Alemanha do pós-guerra, partiu em busca de
referências que o curso da história alemã lhe tinha negado, desenvolvendo, por
isso, numa primeira fase, um cinema que retratava o arquétipo da errância e da
busca. Após uma longa caminhada que, em termos pessoais, provavelmente,
teve o seu maior impacte nas duas viagens de prospecção à volta do mundo
que fez com Solveig Dommartin aquando da preparação o seu filme projecto
Until the End of the World, encontrou a sua ‘casa’, a sua pátria como cidadão
do mundo que procura culturas e as revela, pela imagem, a quem as quiser
contemplar. De alemão com um muro para o seu passado histórico passou a
cineasta do futuro que busca imagens reveladoras numa era que caminha para
uma proliferação, não consciente, de imagens para consumo.

Até ao Fim do Mundo – Dança Planetária e Sonhos no Écran


No âmbito da Biografia Fílmica de Wenders (Soares, 2003), a película Até ao
fim do Mundo (1991) constitui o início da sua segunda fase de criação, a fase
Yin que tem como Leitmotif o Explorar do Sentir. Esta fase surge na sequência
da primeira (fase Yang) que engloba a sua filmografia de Alice nas Cidades
(1974) a Paris, Texas (1984) sob o tema da Exploração do Pensar procurando
o Sentir. Encontramos o Ponto de Viragem no âmbito da criação fílmica de
Wenders em As Asas do Desejo (1987).
Até ao Fim do Mundo (Until the End of the World, 1991), só teria sido realizável,
em nosso entender, após a criação da Mulher e a ligação do visível ao invisível
em As Asas do Desejo (1987). Estabelecem-se múltiplos fios de ligação entre
as duas películas que caracterizam o explorar do sentir pelo cineasta: a
primeira ponte estabelece-se pelo recurso humano à actriz Solveig Dommartin
que desempenha o papel feminino principal ao lado de William Hurt e Sam Neill.
Wenders enquadra Até ao Fim do Mundo, numa longa história, entre imagens
iniciais de ameaça de queda de um satélite no espaço a imagens finais,
também no espaço, mas mostrando Claire, a protagonista, numa nave
trabalhando para a Greenpeace no âmbito da protecção dos oceanos... A
metamorfose que Wenders sugere para a captação de imagens do espaço

3
transitam da ameaça da extinção do planeta para a esperança da protecção do
planeta.
A película que estreou em 1991 apresenta-se como uma abordagem de ficção
científica que decorre no ano de 2000. A ameaça de queda de um satélite
provoca distúrbios em vários sistemas electrónicos incluindo os que gerem o
tráfego. A impaciência de Claire (Solveig Dommartin) não permite que aguarde
parada numa via principal pelo que decide desviar-se do seu caminho
delineando com isso um novo curso para a sua vida. Ponto de partida para um
arquétipo que caracteriza o ser humano: o livre arbítrio.
Na sua viagem entre a Itália e a França Claire envolve-se num acidente de
viação com dois gangsters que assaltaram um banco no Sul de França. Claire
aceita fazer o transporte do dinheiro roubado para Paris e conhece Trevor
McPhee, aliás Sam, por quem se enamora. Claire apercebe-se de que Sam
está a ser seguido e segue-o também de cidade em cidade numa dança em
torno do globo.
Enquanto o planeta corre riscos devido à eminência da queda de um satélite
nuclear, Sam percorre o planeta com uma máquina, inventada pelo pai – o
cientista Dr. Faber - que permite captar imagens para serem visionadas pela
sua mãe invisual (Écran Exterior / Éran Interior). O governo americano está
interessado em capturar essa máquina pelo que Sam é perseguido por uma
crescente equipa de pessoas com os mais variados interesses económicos
naquele equipamento. Claire que vive com Gene, a quem chama
carinhosamente broken ladder não resiste ao magnetismo de Sam e passa a
viajar, inicialmente atrás dele, depois com ele, à volta do globo até à Austrália,
onde se encontra o laboratório do pai que aguarda as imagens que Sam
recolhe. Claire ajuda Sam a superar uma crise que lhe provoca cegueira
temporária e aprende a manusear o equipamento para poupar os olhos de
Sam3. A história de amor que se vai desenvolvendo, tem o seu clímax nas
montanhas japonesas, onde Sam é curado por um ancião japonês que recorre
a uma sequência de plantas para restabelecer a visão a Sam4. A perspectiva
multicultural desta película acentua-se neste arquétipo de reclusão na

3
Ver Imagem (1), em anexo, na Imagoteca.
4
Ver Imagem (2), em anexo, na Imagoteca.

4
montanha associado a um enaltecimento dos conhecimentos tradicionais e
ancestrais japoneses projectados na personagem do Ancião.
Após o rompimento da barreira do sentir em As Asas do Desejo (1987), o amor
torna-se possível no plano sensível em Até ao Fim do Mundo (1991). E no
tocante ao amor encontramos aqui pelo menos três tipos de percepção: o amor
magnético e erótico entre Claire e Sam, o amor empatia (agapé) de Sam pela
mãe, e o amor que não exige nada em troca, talvez o mais autêntico – aquele
que Gene nutre por Claire ao acompanhá-la ao lado de Sam, ao salvá-la, com
a ajuda dos nativos australianos, da sua dependência visual dos sonhos. De
novo, nesta Viagem pela Multiculturalidade do Planeta, é-nos revelado um
processo de cura que recorre a conhecimentos ancestrais, desta vez de origem
aborígene. A teia de relacionamentos que se estabelece entre as personagens
amplia-se na medida em que a Viagem em torno do Globo se projecta numa
Viagem ao Interior do Ser, num processo de auto-conhecimento que
acompanha a rotação do planeta como paisagem simultaneamente una e
multicultural que engloba a percepção do ser como parte integrante de um todo
que é a humanidade.

Percepções e Projecções: Écran Interior – Écran Exterior


Para além da temática do amor nas suas várias manifestações, para além da
dança em torno do planeta como derradeiro road movie planetário de Wenders,
encontramos outro rompimento de barreiras: a projecção da passagem de
imagens de mente humana para mente humana, para além da inovadora
conquista da dimensão dos sonhos através da percepção do écran interior para
a projecção no écran exterior. Embora Wenders tenha apresentado o
equipamento necessário para a transferência de imagens como um
equipamento integrável num domínio de ficção científica, encontramos o seu
olhar pioneiro em equipamentos que actualmente já existem, de facto, no
mercado – como por exemplo, os telemóveis que permitem a transmissão de
imagens em movimento.
No entanto, um fenómeno que acentua o nosso interesse neste tipo de
pesquisa relaciona-se com o equipamento e software desenvolvido pelo Prof.

5
Matthew Smith da Hope University que tem por nome Ganzfeld5 e que permite
medir a transferência telepática de imagens entre vários seres humanos
colocados em gabinetes diferentes6.
O fenómeno pioneiro que move Wenders facilita uma integração interessante
das inovações que vão surgindo no decurso da sua biografia fílmica. Wenders
que passara a primeira fase da sua vida em busca de raízes no passado,
acaba por encontrar uma saída para a sua criatividade ligando-se às imagens
do futuro. A temática que Wenders levanta ao abordar a possibilidade da
transmissão de imagens de mente humana para mente humana e do écran
interior para o écran exterior, toca também numa nova conceptualização do ser,
um ser que pode aceder com consciência ao domínio do subconsciente.
Wenders não deixa de alertar para os perigos que um tal acesso pode
acarretar – o perigo da dependência da visualização dos próprios sonhos em
écran exterior, exemplificado através da personagem de Claire. Gene, o seu
guia protector, surge como mestre de cerimónias nesse acto iniciático que
permite criar uma ponte entre o mundo dos sonhos, invisível aos outros,
projectado no écran exterior tornando-se visível. Wenders revela-se, mais uma
vez, como um criador que torna visível o invisível continuando a criação. Se em
As Asas do Desejo (1987), Wenders nos revelou a possibilidade de aceder e
viajar no plano do supraconsciente7, em Até ao Fim do Mundo (1991) amplia as
possibilidades do conhecimento das imagens do foro do subconsciente, criando
uma ponte entre o écran exterior e o écran interior...

Viajando com Wim Wenders Até ao fim do Mundo


Em suma, viajar com Wenders Até ao fim do Mundo, constitui simultaneamente
um transpor das fronteiras planetárias numa viagem multicultural, bem como
um transpor das fronteiras de percepção proposto aqui a partir do plano

5
Ver imagem (3), em aenxo, na Imagoteca.
6
O pioneiro método Ganzfeld, cuja pesquisa tem sido financiada pela prestigiada Fundação
BIAL com sede no Porto, permite captar e registar as alterações fisiológicas que surgem em
estados modificados de consciência ou planos de percepção (Soares, 2003), incidindo,
sobretudo, no âmbito da transmissão de imagens e sons por telepatia. O equipamento que é
usado para tal assemelha-se, em muito, àquele apresentado por Wim Wenders em Até ao Fim
do Mundo no laboratório do pai de Sam construído no centro da Austrália com a ajuda dos
residentes nativos.
7
Referimo-nos à inovadora projecção do pensamento no écran a partir do plano de percepção
imaterial dos anjos que revolucionou a percepção do invisível no final dos anos 80 no mundo
ocidental. O sucesso do remake de Brad Silberling The City of Angels (1998) é disso exemplo.

6
cinematográfico como possibilidade de auto-conhecimento e auto-revelação
que encontra ressonância científica no foro dos Estudos da Consciência, uma
das áreas de excelência a desbravar ao longo do Século 21… Viajando Até ao
fim do Mundo, desbravando os Oceanos da Consciência…

Referências bibliográficas
Agel, Henri, (1952), Le Cinéma a-t-il une Âme?, Paris, Editions du Cerf.
Arnheim, Rudolf, (1954), Art and Visual Perception. A Psychology of the
Creative Eye, Berkeley, Los Angeles, University of California Press.
Hubbell, Joan (1992), “Until the End of the World. Wim Wenders’ Dance Around
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London, New York, Wallflowers Press.
Jung, Carl Gustav, (2002/1959), Archetypes and the Collective Unconscious,
London, Routledge.
Jung, Carl Gustav, (1989/1946), The Psychology of Transference, London, Ark
Paperbacks.
Postman, Sheryl Lynn (et.al.), (2001), Cinema and Multiculturalism, Ottawa,
Legas Publishing.
Soares, Paula, (2004), As Asas, o Amor e os Anjos em Wim Wenders,
Universidade de Évora, Curso Livre de Literatura Comparada.
Soares, Paula, (2003), Teoria da Integração: Uma Poética da Alma.
Criatividade e Auto-conhecimento. Para uma Biografia Fílmica de Wim
Wenders, Universidade de Évora, Edição Policopiada. (Tese de doutoramento).
Weil, Pierre, (2002), The Art of Living in Peace. Guide to Education for a
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Wenders, Wim (2001), On Film. Essays and Conversations, London, Faber and
Faber.
Wenders, Wim “I’m at Home Nowhere”, in Roger Cook (et.al), (org.) (1997), The
Cinema of Wim Wenders. Image, Narrative and the Postmodern Condition,
Detroit, Wayne State University, pp.49-50.
Wenders, Wim (1991), Until the End of the World , DVD.
Wenders, Wim, (1996/1987), Written in the West, Munique, Schirmer Art Books.

7
Imagoteca
Imagem (1)
Claire com Câmara de Captação de Imagens para visionamento de invisuais:

Imagem (2)
Cura dos Olhos de Sam pelo Ancião Japonês:

Imagem (3)
Laboratório de Experiência Ganzfeld