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0 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 1

Organizadoras

Maria Betânia Moreira Amador Sandra Medina Benini

A COMPLEXIDADE DO

“LUGAR” E DO “NÃO LUGAR”

numa abordagem geográfico-ambiental

1 a Edição

TUPÃ/ SP

ANAP

2016

2 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Editora

ANAP - Associação Amigos da Natureza da Alta Paulista

Pessoa de Direito Privado Sem Fins Lucrativos Fundada em 14 de setembro de 2003 Rua Bolívia, nº 88, Jardim América, Cidade de Tupã, Estado de São Paulo. CEP 17.605-31

Diretoria da ANAP

Presidente: Sandra Medina Benini Vice-Presidente: Allan Leon Casemiro da Silva 1ª Tesoureira: Maria Aparecida Alves Harada 2ª Tesoureiro: Jefferson Moreira da Silva 1ª Secretária: Rosangela Parilha Casemiro 2ª Secretária: Elisângela Medina Benini

Diretoria Executiva da Editora

Sandra Medina Benini Allan Leon Casemiro da Silva

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Suporte Jurídico

Adv. Elisângela Medina Benini Adv. Allaine Casemiro

Revisão Ortográfica

Jairo Nogueira Luna

Smirna Cavalheiro

Contato: (14) 3441-4945 www.editoraanap.org.br www.amigosdanatureza.org.br

editora@amigosdanatureza.org.br

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Organizadoras

Maria Betânia Moreira Amador

Possui Graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1986), Mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (1994), Especialização em Silvicultura pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (1995), Doutorado em Geografia (Conceito CAPES 5) pela Universidade Federal de Pernambuco (2008) e Pós-doutorado em Geografia na linha de pesquisa Ecossistemas e Impactos Ambientais, Universidade Federal de Pernambuco (2011). Professora Adjunta da Universidade de Pernambuco, Campus Garanhuns. Lider do GESSANE - Grupo de Estudos Sistêmicos do SemiArido do Nordeste e pesquisadora do GEQUA - Grupo de Estudos do Quaternario do Nordeste Brasileiro da UFPE. Além da docência, realiza pesquisas nos seguintes temas: geografia com abordagem sistêmica e interdisciplinar, sustentabilidade, agroecologia, geomorfologia, biogeografia, e educação ambiental. Experiência, também, em estudos e pesquisas sobre a algarobeira no Nordeste do Brasil.

Sandra Medina Benini

Possui Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Marília (1995), Bacharelado em Direito pela Faculdade de Direito da Alta Paulista (2005), Licenciatura em Geografia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (2014), Especialização em Administração Ambiental pela Faculdade de Ciências Contábeis e Administração de Tupã (2005), Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho (2008), Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2009), Doutorado em Geografia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2015), Doutorado em Arquitetura e Urbanismo na Mackenzie/SP (2016) e atualmente esta cursando o Pós-doutorado em Arquitetura e Urbanismo (PNPD/Capes) pela FAAC/UNESP - Câmpus de Bauru. Tem experiência na área de Planejamento e Gestão Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: Estatuto da Cidade, Planos Diretores, Políticas Públicas Urbanas, Uso e Ocupação do Solo Urbano, Áreas Verdes Públicas e Infraestrutura Verde.

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Conselho Editorial Interdisciplinar

Profª Drª Alba Regina Azevedo Arana UNOESTE Profª Drª Angélica Góis Morales UNESP Campus de Tupã Prof. Dr. Antônio Cezar Leal FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Antonio Fábio Sabbá Guimarães Vieira UFAM Prof. Dr. Antonio Fluminhan Jr. UNOESTE Prof. Dr. Arnaldo Yoso Sakamoto UFMS Prof. Dr. Daniel Dantas Moreira Gomes UPE Campus de Garanhuns Profª Drª Daniela de Souza Onça UDESC Profª Drª Danielle Gomes da Silva UFPE Recife Prof. Dr. Edson Luís Piroli UNESP Campus de Ourinhos Prof. Dr. Eraldo Medeiros Costa Neto UEFS Prof. Dr. Erich Kellner UFSCAR Profª Drª Flávia Akemi Ikuta FFMS FAENG Profª Drª Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. João Cândido André da Silva Neto UEA / CEST Prof. Dr. João Osvaldo Nunes FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Jorge Amancio Pickenhayn Universidade de San Juan Argentina Prof. Dr. José Carlos Ugeda Júnior UFMS Prof. Dr. José Manuel Mateo Rodriguez Universidade de Havana Cuba Prof. Dr. José Mariano Caccia Gouveia FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Junior Ruiz Garcia UFPR Profª Drª Jureth Couto Lemos UFU Profª Drª Kênia Rezende UFU Prof. Dr. Luciano da Fonseca Lins UPE Campus de Garanhuns Profª Drª Maira Celeiro Caple Universidade de Havana Cuba Profª Drª Marcia Eliane Silva Carvalho UFS Prof. Dr. Marcos Reigota Universidade de Sorocaba Profª Drª Maria Betânia Moreira Amador UPE Campus de Garanhuns Profª Drª Maria Helena Pereira Mirante UNOESTE Profª Drª Martha Priscila Bezerra Pereira UFCG Profª Drª Natacha Cíntia Regina Aleixo UEA Prof. Dr. Paulo Cesar Rocha FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Pedro Fernando Cataneo UNESP Campus de Tupã Prof. Dr. Rafael Montanhini Soares de Oliveira UTFPR Profª Drª Regina Célia de Castro Pereira UEMA Profª Drª Renata Ribeiro de Araújo FCT/UNESP Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Ricardo Augusto Felício USP Prof. Dr. Ricardo de Sampaio Dagnino UNICAMP Profª Drª Roberta Medeiros de Souza UFRPE Campus Garanhuns Prof. Dr. Roberto Rodrigues de Souza UFS Prof. Dr. Rodrigo José Pisani Unifal Prof. Dr. Rodrigo Simão Camacho UFGD Prof. Dr. Ronaldo Rodrigues Araújo UFMA Profª Drª Rosa Maria Barilli Nogueira UNOESTE Profª Drª Simone Valaski Universidade Federal do Paraná Profª Drª Silvia Cantoia UFMT Campus Cuiabá Profª Drª Sônia Maria Marchiorato Carneiro UFPR

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 5

A complexidade do lugar e do não lugar numa abordagem geográfica-ambiental / Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Tupã: ANAP, 2016. 141 p; il. Color. 29,7 cm

  • 1. Conceito de Lugar 2. Geografia 3. Ambiental

ISBN 978-85-68242-25-4

CDU: 911/47

CDD: 900

I. Título.

A481a

Índice para catálogo sistemático Brasil: Geografia

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Sumário

Prefácio

08

Prof. Dr. Antonio Carlos de Barros Corrêa

Apresentação

11

Capítulo 1

12

A cidade como espaço de nascimento, vida e morte

Prof. Dr. Henrique Figueiredo Carneiro

Capítulo 2 Interconexão biogeografia, biodiversidade e lugar

20

Profa. Dra. Maria Betânia Moreira Amador

Capítulo 3

30

Desastres naturais provocados por eventos extremos: uma realidade brasileira e do Estado de Pernambuco

Profa. Dra. Cristiana Coutinho Duarte

Capítulo 4

45

Lugares inovativos: cidade do conhecimento e dimensões balizadoras

Profa. Dra. Roberta Medeiros de Souza

Capítulo 5 A paisagem na escala do lugar

55

Prof. Dr. Rodrigo de Freitas Amorim Profa. Dra. Danielle Gomes da Silva

Capítulo 6

68

Onde e quando: o lugar do espaço e do tempo no Espaço-Tempo

Prof. Dr. Irami Buarque do Amazonas

Capítulo 7

83

Significado e importância ambiental dos espaços livres urbanos

Prof. Dr. Carlos Sait P. de Andrade

Capítulo 8 O lugar de todos nós como possibilidade

98

Prof. Dr. Alcindo José de Sá

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 7

Capítulo 9

108

O lugar como construto de interpretação socioespacial: um olhar para o município de Horizonte, Estado do Ceará

Prof. Dr. Emanuel Lindemberg Silva Albuquerque Prof. Dr. Daniel Dantas Moreira Gomes

Capítulo 10 O lugar geográfico como metáfora consciência

118

Prof. Dr. Luciano Lins

Capítulo 11

131

Pesquisas sobre perfis longitudinais do Estado de Pernambuco: Estado da arte e perspectivas futuras

Prof. Dr. Maurício Costa Goldfarb

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Prefácio

Prof. Dr. Antonio Carlos de Barros Corrêa 1

A geografia já foi definida como a ciência dos lugares e, se o lugar na análise geográfica não ocupou uma preeminência categórica, anterior à sistematização da própria ciência, como coube ao espaço na vetusta contraposição clássica entre choros e topos, sua aplicação atual nos remete à compreensão das várias abordagens, aplicações e tendências teóricas na geografia. De fato, a plêiade de enfoques contemporâneos sobre o lugar e seus múltiplos significados nos leva a analisar os encaminhamentos intelectuais dentro da própria ciência geográfica, sobretudo aqueles que contrapõem uma análise abstrata do espaço na qual o lugar assume a função particular de conexões e nós dentro de redes espaciais complexas e relacionais de interação, resultando apenas em uma marca visível dessas interações e aqueles que concebem o lugar a partir de sua concretude ativa, uma expressão do suporte ambiental-paisagístico que serve de elemento intermediador entre o mundo físico e os processos sociais e econômicos, afetando e sendo afetado por esses. Se o espaço e o lugar indubitavelmente encontraram uma posição de destaque na reflexão geográfica acadêmica atual, o mesmo não pode ser dito, pelo menos não com o mesmo nível de elaboração e complexidade das narrativas, em relação ao tempo. Se não há um consenso sobre a geografia conquanto ciência histórica, o tempo na geografia, sempre mediado pela história social, revela-se no lugar. Seu significado cambiante nos confronta também com as diversas matizes antropológicas e culturais inerentes à tarefa de contar o passar do tempo, além é claro das considerações ainda mais vastas que nos levam a aceitar como geográfico o tempo longo dos estudos geológicos e das ciências da natureza. O lugar como síntese do tempo e da historicidade do fenômeno geográfico vê, portanto, seu valor renovado como objeto das investigações em um momento histórico em que muitos antecipavam sua supressão como categoria analítica capaz de iluminar a complexidade dos processos espaciais.

1 Professor Associado do Departamento de Ciências Geográficas da UFPE, Pesquisador nível 1-D do Cnpq.

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Outro ponto de interseção fundamental na discussão do lugar é aquele que se estabelece entre o mundo que está imediatamente ao nosso alcance o lugar vivido e o mundo que vemos ao nosso redor, a paisagem. Essa externalidade que nos cerca é, ao mesmo tempo, concreta, física e memorial, modulada pelas diferentes formas de cognição e percepção do real. Por muito tempo a paisagem tem oferecido uma base sensorial visível na qual se ancora a observação em geografia, além de tradicionalmente servir de ponto de partida para a construção de sínteses simbióticas entre o mundo físico e o humano (cultural), a partir das quais se alicerça boa parte dos discursos sobre unicidade temática dentro dessa ciência. Nesse sentido, paisagem e lugar também nos revelam a necessidade reiterada da aplicação do tratamento escalar e de modelos em geografia, de maneira que esses nos permitam aferir e reconstruir as magnitudes dos processos, aqui e mais adiante, agora, no passado histórico e no tempo huttoniano profundo, sem perdermos a perspectiva de que cada dimensão escalar dos fenômenos geográficos define uma gramática espacial própria, com níveis inerentes de agregação e detalhamento dos elementos que lhes servem de estrutura. Assim, o lugar é o cenário da ancoragem social, do mundo culturalmente vivido, e a base do sentido de continuidade espacial da paisagem que lhe rodeia. Se a diatribe da unicidade versus o sistêmico na geografia parecia nos apontar para a obsolescência definitiva do lugar e a supremacia do espaço, a experiência recente tem evidenciado a reafirmação das concretudes geográficas sobre a abstração de um espaço cada vez mais reduzido à compressão das relações de troca e fluxos sobre superfícies teoricamente isomorfas. Inicialmente, a rejeição dos aspectos mais messiânicos da análise espacial e mais recentemente a necessidade de compreender como os processos de globalização têm repercutido de forma diferenciada sobre os diversos tecidos histórico-

geográficos, cristalizados espacialmente nos ditos “nós” das redes, têm garantido uma

posição central ao lugar no discurso geográfico atual. A partir dessa visão, os lugares adquirem e atribuem significados tanto do ponto de vista social quanto moral. Especificamente falando, os diferentes lugares são com frequência associados a certos atributos, como, por exemplo, os lugares tidos como sagrados são geralmente relacionados a certas divindades e propósitos de culto, estão organizados conforme padrões de significado ideológico, muitas vezes evidenciados por monumentos, apresentando limites bem demarcados com as áreas não sagradas ao redor. Da mesma forma, os grupos sociais

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demarcam seus terrenos e territórios de ação, o que lhes confere distinção em relação aos demais, além de estabelecer as circunscrições onde prevalecem determinados conjuntos de normas e práticas culturais. Assim, a valorização do lugar como elemento focal da análise geográfica abre a possibilidade de elucidar o papel deste tanto na modulação das relações sociais quanto na forma como essas lhe atribuem significados próprios, historicamente construídos, e de certa forma irreplicáveis. O uso corrente do lugar como elemento-chave das discussões geográficas vem transcendendo a mera idealização passageira da valorização do único pela geografia, e agregando olhares mais abrangentes e humanistas em um momento em que as metanarrativas sintetizadoras são fortemente revistas no âmbito das ciências da sociedade. O presente volume nos convida a refletir sobre alguns dos desdobramentos e implicações recentes desta epígrafe-síntese da geografia, o lugar. Alguns capítulos se debruçam sobre a discussão e reflexão conceitual e filosófica, enquanto outros seguem a rota da observação empiricamente construída e mediada pelos estudos de caso. Todos são instigantes e todos testemunham quão vital e diversa a geografia atual se nos apresenta, se não mais como a ciência dos lugares, mas como a ciência na qual o lugar continua ocupando uma posição central.

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Apresentação

O tema que se apresenta nesta modesta obra visa a preencher, em particular, uma lacuna que se verifica ao pensar sobre lugar, seja ele qual for: físico, matemático, metafísico, enfim, trata-se de uma oportunidade para todos os interessados no assunto quando da necessidade de buscar mais informação ou, simplesmente, uma contribuição para reflexões

frente as cada vez mais tangíveis preocupações ambientais. Embasar propostas teóricas e também metodológicas é tarefa árdua, e necessária em todo trabalho técnico e científico. E nesse contexto oferece-se aqui um esforço coletivo, pode-se afirmar prazeroso com certeza, que traz em sua essência o subjetivismo e objetivismo, ao mesmo tempo, dos autores envolvidos. Assim sendo, a disposição dos capítulos procura articular as concepções de ordem mais teórica com aquelas de ordem mais prática, nas quais o leitor terá a oportunidade de

perceber a aplicação dos diversos conceitos que orbitam o conceito “lugar”. Fica claro,

também, a interdisciplinaridade, tão necessária em trabalhos de cunho ambiental, visto que é no ambiente onde acontecem e interferem as ações humanas. Cabe ressaltar, ainda, que se primou pela capacitação dos autores, todos com titulação de doutorado e alguns outros também com seus pós-doutorados, ao mesmo tempo em que se teve a preocupação do pensar interdepartamentos e interinstitucional dando, assim, robustez e coesão aos parâmetros sonhados na perspectiva de obter-se um trabalho inovador e articulado com as demandas atuais nos diversos cenários que se apresentam na realidade, seja urbana, seja rural, e que, ao final, configura-se em uma preocupação local. Logo, espera-se que o conteúdo aqui apresentado contribua para um novo olhar sobre o lugar. Que se preste mais atenção no mesmo e a partir daí se possa construir e/ou reconstruir ambientes com características de sustentabilidade e, mais ainda, que se tenha mais senso de bem comum, de bem difuso.

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Capítulo 1

A CIDADE COMO ESPAÇO DE NASCIMENTO, VIDA E MORTE

Henrique Figueiredo Carneiro 2

Quer dizer que, na relação do imaginário e do real, e na constituição do mundo tal como ela resulta disso, tudo depende da situação do sujeito. E a situação do sujeito

é essencialmente caracterizada pelo seu lugar no mundo simbólico, ou, em outros termos, no mundo da palavra. (LACAN, 1994, p. 97)

[

...

]

INTRODUÇÃO

As perguntas que podemos dirigir ao cidadão sobre a noção de lugar, implica uma reflexão sobre as dimensões objetivas e subjetivas que afetam o sujeito, se o olharmos

desde uma perspectiva psíquica. Queremos abordar nesta reflexão a cidade como lócus de convivência, de redimensionamento dos laços sociais, que sempre reclamam o cerne da produção de mal-estar ou sofrimento psíquico, por colocar em cena a complexidade das relações entre as pessoas. A cidade, em termos subjetivos, convida o sujeito para o espaço da representação de determinada referência à origem, do sentimento de pertença, do deslocamento e do destino. Implica uma discussão sobre o nascer, viver, conviver e o morrer nos espaços. Em outras palavras, não há como estabelecer uma discussão sobre a cidade sem implicar no contraponto sobre os não lugares que o espaço da cidade apresenta constantemente ao cidadão, toda vez que é contrastado com as impossibilidades de desenvolver um projeto objetivo de vida, com as intempéries, e, sobretudo, com as ameaças da manutenção da vida. Em pesquisa realizada com vítimas da violência em espaços públicos em Fortaleza, no Estado do Ceará, ao longo de 2010, utilizando-se da metodologia da Pesquisa Intervenção em Psicanálise, privilegiou-se a escuta dos sujeitos, dos cidadãos, em relação a suas posições no laço social, como uma referência ao que chamamos de não lugares deflagrados sempre

2 Professor Doutor em Psicologia da UPE / Campus Garanhuns, Brasil

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que o sujeito se depara com a negação dos espaços que ocupa cotidianamente no âmbito da cidade. A intervenção se faz a partir do sofrimento psíquico que o sujeito traz à Instituição neste caso, a delegacia plantonista a qual recorre para destinar uma demanda de amparo diante do horror da cena de violência vivenciada, trata-se, portanto, uma intervenção realizada sobre a concepção do laço social (CARNEIRO, 2010). Essa perspectiva de pesquisa

implica uma dupla função: “à função constituinte do problema circunscrito às causas e

efeitos subjetivos [

...

]

e à função interventiva, entendida como uma impossibilidade de

neutralidade no espaço da transferência de trabalho constituída no ato da pesquisa” (CARNEIRO, 2010, p. 147). Teoricamente, os dispositivos sociais, seus efeitos e causas voltadas para a ressignificação do sujeito no laço social toma como apoio as diversas formas de manifestação do mal-estar na cultura (FREUD, 1996[1930]). Como aposta na reconstrução na dimensão do laço, o privilégio é dado à Função e o Campo da Palavra e da Linguagem (LACAN, 1998[1953]) como restituidora do sentido da experiência traumática, viável para o sujeito e sua relação com os discursos sociais atrelados, no contexto das novas formas de construção subjetivas. Metodologicamente, a pesquisa fundamentou-se em uma abordagem qualitativa, proporcionando a valorização dos conteúdos, discursos e significados. Nessa perspectiva, o material da pesquisa foi organizado a partir da reconstrução do plano discursivo do sujeito que, após uma experiência de ruptura simbólica vivida a partir de uma violência sofrida no espaço urbano, volta a articular pela linguagem sua posição no contexto da sociedade. No caso desta pesquisa, a intervenção se dava no momento que o sujeito recorria à lei, quando do registro do Boletim de Ocorrência. A aposta interventiva foi além do registro formal da queixa, para que o sujeito retomasse contato com o sentido de sua posição no laço social. Para isso, a passagem do relato policial para o sentido do discurso sobre as causas e os efeitos da violência servia como núcleo central da intervenção. Das categorias construídas nesta pesquisa (Figura 1), destacam-se: “Desgastes dos laços familiares”, “Subjetividade globalizada”, “Violência Sistêmica e Consumo Predatório”, “Sentidos de pertença à Cidade”, “Referência à Lei”, “O Valor da Vida”, “Causas da Violência” e “Efeitos da Violência”. A ênfase dada neste texto, recai sobre a categoria acerca dos

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sentimentos de pertencimento à cidade para destacar aí os aspectos subjetivos presentificados no laço social.

Figura 1: Categoria “Pertencimento à cidade”

Sentido de pertença à cidade
Sentido de
pertença à cidade
Cidade violenta
Cidade violenta
Assaltos frequentes Formas de (aumento da ocupação do criminalidade) espaço público
Assaltos frequentes
Formas de
(aumento da
ocupação do
criminalidade)
espaço público
Restrição da liberdade
Restrição da
liberdade
Insegurança generalizada
Insegurança
generalizada
Desterritorialização e segregação territorial
Desterritorialização
e segregação
territorial

Fonte: Extraído da pesquisa “A imagem da violência: causas e efeitos traumáticos em vítimas da violência em espaços públicos elaborada pelo autor, não publicada.

PERTENCIMENTO À CIDADE

A partir dos recortes discursivos das vítimas de violência em espaço público, são reconhecidos elementos que articulam a fala dos sujeitos à representação subjetiva que guarda o cidadão do espaço de pertencimento à cidade. Dessa forma, foram identificados os seguintes aspectos: cidade violenta; insegurança generalizada; assaltos frequentes (aumento da criminalidade); formas de ocupação do espaço público; restrição da liberdade; desterritorialização e segregação territorial. A sociedade vive sob a égide de uma insegurança planetária: desde os assaltos, sequestros, homicídios, roubos e furtos das grandes metrópoles até os homens-bomba que, paradoxalmente, encontram na morte um sentido para a vida. A sobrevivência e a proteção tornaram-se o fundamento da existência, impregnadas pela banalidade do mal (ARENDT,

1999).

A insegurança e o medo parecem ter assumido um dos fatores mais preocupantes e dilacerantes na dimensão existencial do sujeito com o seu vínculo territorial. Tais recortes discursivos transmitem essa questão:

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Em outros bairros nem se fala, acho que o policiamento tá mais focado aqui [Aldeota-Meireles]. É mais perigoso [os bairros] Barra do Ceará, Bezerra de Menezes, esses lados que são muito perigosos, e você não vê policiamento […]. Fala do Sujeito 18.

Porque [o assalto] foi justamente na esquina onde eu tenho o meu estágio. Fala do Sujeito 09.

Hoje a gente tá de carro e já param do lado com a arma na mão; quer dizer, se nem dentro do carro a gente tem segurança, imagina de moto ou a pé. Fala do Sujeito 18.

O confronto geral da subordinação dos projetos de benefícios coletivos com a busca da satisfação pessoal, segundo Bauman (2009), aciona e orienta a dinâmica do espaço público, no que o autor denomina de modernidade líquida. Essa condição na qual está inserida a cidade e sua incorporação ao processo de produção capitalista gera mudanças graduais, e produz uma espécie de privação e esvaziamento da possibilidade de integrar elementos da vida em sociedade à história subjetiva de cada um. Aspectos de uma dinâmica social que conflui para uma injunção de fatores que transportam o indivíduo para uma espécie de aprisionamento em campo aberto, em território delimitado com muros invisíveis. O que produz configurações inéditas de desterritorialização que, segundo Benasayag (2005), pretendem estabelecer um controle da vida e do seu fluir independente de cada princípio de singularidade territorial, produzindo um homem sem raízes, numa espécie de isolamento sem fronteiras. No horizonte do advento da modernidade “biocêntrica”, emerge o indivíduo adestrado para a “otimização” do seu funcionamento com o intuito de alcançar a almejada “qualidade de vida”.

Constatou-se que esses fatores discutidos nas observações feitas aos sujeitos da pesquisa quando foi analisado o sentido que atribuem ao fato e o registro subjetivo de pertencimento à cidade: uma pessoa (Sujeito 02) demonstrou-se bastante ansiosa e preocupada com a violência em Fortaleza, principalmente devido às suas experiências na condição de vítima de assaltos. Teme pela segurança da filha e sente medo de sair de casa. Ressalta que a violência está se banalizando a ponto de se achar comum esse tipo de ato no cotidiano da cidade. Refere ter passado várias vezes por assaltos à mão armada e considera

que esse é o aspecto que mais traumatiza o sujeito, pois causa medo e insegurança do que pode acontecer e da dificuldade de voltar à rotina diária da vida, blindada pelo medo de sair.

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Comenta sobre a falta de policiamento e segurança em Fortaleza, o que a faz pensar que a situação está sem controle: “todos falam a mesma coisa, foram assaltados nos mesmos lugares e nada se resolve”.

Outro sujeito considerava Fortaleza uma cidade mais tranquila que Campinas/SP, onde reside. No entanto, tem escutado constantemente durante sua permanência em férias, na cidade, insistentes advertências inclusive, pelos noticiários, para não sair com relógio ou com quaisquer objetos de valor. Fala, com pesar, de já haver presenciado roubos na cidade que considerava, até então, tranquila.

Dessa forma, esses sujeitos parecem explicitar os processos de poder que circulam e se alojam em seus discursos, desimplicados de uma possibilidade de atribuir um sentido de pertença. Bauman (2001) descreve um sujeito contemporâneo sem raízes, que segue os fluxos mercadológicos e comunicacionais, em uma infindável demanda de consumo. Implicações subjetivas de uma sociedade que, continuamente, dá indicações de

manifestações totalitárias feudalizada em “guetos” de muros invisíveis de segregação

econômica e de consequente segregação territorial (MIR, 2004).

Uma organização social fundamentada em um espaço social, denominado Mercado, que exige de cada sujeito um constante remodelamento tal qual como se faz com uma roupa, para que não fique ultrapassado e fora de moda (BAUMAN, 2009). Um sujeito sob “formatação” contínua de acordo com as exigências do Divino Mercado (DUFOUR, 2008), em que a vida e o corpo adquirem o caráter de produto. Análise que corrobora com Sennet (2008) quanto às formas de ocupação do espaço público: “a massa dos corpos que antes aglomerava-se nos centros urbanos hoje está dispersa, reunindo-se em polos comerciais, mais preocupada em consumir do que com

qualquer outro propósito mais complexo, político ou comunitário” (p. 19).

Tal assertiva do sociólogo citado conduz a pensar em uma organização social cujo modelo se alinha com as incursões capitalistas de adestramento ao consumo em massa, na tentativa de desarticular e tornar patética qualquer iniciativa de âmbito político que implique em direitos e deveres dos cidadãos. A segurança, assim, passa a ser presa fácil do Mercado através de produtos como os condomínios fechados, cercas elétricas, carros blindados, serviço de guardas privados,

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etc. e termina entrando na lógica de mais um serviço a ser consumido, o que para muitos é inacessível, restando uma vez mais somente a condição de excluídos nos guetos das favelas as senzalas contemporâneas (MIR, 2004). O que favorece, ainda segundo Mir, a uma segregação bem mais sofisticada, numa espécie de assepsia social e que configura a constituição das novas castas da época pós-moderna: incluídos e excluídos, instituindo, além

do preconceito racial, o “apartheid econômico” (MIR, 2004, p. 33).

CONSIDERAÇÕES

Presencia-se, cotidianamente, os efeitos da crescente banalização da violência na decomposição do sujeito contemporâneo e, consequentemente, dos laços sociais, do declínio ético das instituições, até o assassinato de um menino de 10 anos de idade numa troca de tiros com a polícia. O que nos conduz a uma interrogação intrigante: O que seria mais violento? O garoto, viciado em crack, tratado como escória da sociedade, cuja visibilidade social e como sujeito obteve somente por meio de um ato desviante, ou o político que enche meias, bolsas e cuecas de dinheiro público no conforto do seu escritório que, depois do enésimo escândalo-espetáculo, cairá no esquecimento? O que agrava o ato de corrupção é que, além de roubar o patrimônio público, destrói também as utopias, os sonhos de angariar bens simbólicos, ao convencer com a banalização desses atos, milhões de pessoas que a honestidade, a solidariedade e defesa dos interesses coletivos compõem uma patética qualidade dos fracos. Na atualidade, declina-se o exercício da ciência como busca de uma mudança de visão de mundo como verdade a ser revelada, em consequência exalta-se determinado conhecimento na sua capacidade utilitária e de proliferar produtos. O que confere à tecnologia um lugar soberano ao qual a condição humana ficou subordinada, segundo Galimberti (2006), efeito da passagem da ciência para a tecnociência, do homocentrismo ao tecnocentrismo. Segundo Agamben (2002), a lógica tecnocientífica pretende estabelecer um sujeito empírico exilado da sua condição de cidadão da pólis, tornando-o um cidadão burocratizado e obediente ao Deus Mercado (DUFOUR, 2008), cuja mediocridade se assemelha ao que Arendt (1999) se refere em Eichmann, em Jerusalém, sobre a banalidade do mal. Obra na

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qual destitui a premissa do senso comum de que a violência é movida pela conduta humana irracional e impulsiva, ao invés disso, segundo a autora, desenvolve-se nas entranhas da burocracia. Mas se o sujeito foi reduzido a um corpo-produto que deambula pela cidade como

uma imagem, pois quando cada um tenta “salvar a própria imagem", como diz o jargão

popular, quem não se salva é o próprio sujeito que se torna presa fácil do aniquilamento.

Assim, nessa lógica, a prática da violência adquire uma coerência espantosa e o ato violento uma prática banal, um contexto em que, como afirma Kristeva (2002), o sujeito foi reduzido a um aparato biológico destituído de alma. Um cenário de transformações científicas, tecnológicas e econômicas de grande complexidade produz novos modos de regulação social. Elementos tais como norma, ideal, autoridade e hierarquia tradicional vêm sendo profundamente questionados, evidenciando uma sociabilidade com vasta diversidade de referências (DUFOUR, 2008). O resultado obtido pela pesquisa evidencia uma defasagem entre a crise estabelecida pela situação de violência em Fortaleza e o fracasso no alcance das intervenções das instituições sociais que, segundo a fala dos sujeitos, sequer se aproximam da complexidade do problema e terminam se configurando paliativos para remediar uma guerra instalada nas várias dimensões da vida.

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2002.

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo:

Companhia das Letras, 1999.

BAUMAN, Z. Em busca da política: em busca do espaço público. Tradução Marcus Penchet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

______.

Confiança e medo na cidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,

2009.

BENASAYAG, M.; SCHIMIT, G. L‟epoca delle pasioni tristi. Milão: Feltrinelli, 2005.

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CARNEIRO, H. F. O sofrimento psíquico na pesquisa em psicanálise: uma forma de intervenção. In: XIII SIMPÓSIO DE PESQUISA E INTERCÂMBIO CIENTÍFICO EM PSICOLOGIA.

Anais ...

ANPEPP Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia,

Fortaleza/CE, 2010.

DUFOUR, D. R. O divino mercado: a revolução cultural liberal. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.

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20 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Capítulo 2

INTERCONEXÃO BIOGEOGRAFIA, BIODIVERSIDADE, LUGAR

Maria Betânia Moreira Amador 3

O lugar é construído a partir da experiência e dos sentidos, envolvendo sentimento e entendimento, num processo de envolvimento geográfico do corpo amalgamado com a cultura, a história, as relações sociais e a paisagem. (MARANDOLA JR., 2013, p. 7).

INTRODUÇÃO

As questões que norteiam a contemporaneidade estão permeadas de preocupações ambientais que envolvem, mais do que nunca, o lugar e sua complexidade. Embora quase sempre perceba-se que o mesmo passe despercebido para a maioria das pessoas frente à frenética dinâmica que envolve os diversos âmbitos social, econômico, cultural e ecológico. Assim o cenário que, naturalmente, é oferecido às espécies em sua diversidade, apesar dos ditames impostos ao longo da construção física da deriva dos continentes, mudanças climáticas, mais tarde associadas ao cultural entre outras variáveis, vêm apresentando em épocas relativamente recentes, uma diminuição significativa em função de necessidades básicas de sobrevivência, mas e principalmente pelo avanço sempre voraz de espaços para atividades que, para se instalarem, impõem a transformação de espaços naturais e/ou próximos ao natural. Sabe-se que a Biogeografia, enquanto ciência, tem se preocupado, principalmente, com a explicação da distribuição dos seres vivos sobre a Terra e, para isso, desde seu início tem se ancorado em outras ciências como a Biologia e a Geografia. Ambas de suma importância no mundo atual, notadamente quando se tem a preocupação com o ambiente e sua sustentabilidade. Logo, percebe-se a característica primordial da Biogeografia no que se refere à sua interdisciplinaridade.

3 Professora Doutora em Geografia da UPE / Campus Garanhuns, Brasil

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 21

Observa-se, no entanto, que a literatura sobre essa temática, interdisciplinaridade, já há algum tempo vem contribuindo para o entendimento e amalgamento de conceitos e entendimentos que permeiam a complexidade e a sua abordagem sistêmica. Nesse contexto, a Biogeografia se enquadra muito bem, além de absorver vertentes teóricas tanto de níveis mais técnicos e factíveis em suas análises, quanto os mais utópicos e ambiciosos do ponto de vista de uma ecologia profunda visando, primordialmente, a uma sustentabilidade em sua ótica mais valorativa/subjetiva. De modo que ainda se vê que quanto mais avança o desenvolvimento científico e tecnológico, mais complexa vai se tornando a Biogeografia que busca, através das sofisticações oferecidas nessas áreas, elementos argumentativos e comprobatórios de hipóteses levantadas e testadas à luz, principalmente, da Estatística, da Física, da Química e da Matemática, entre outras. Cabe considerar, em tal contexto, uma das conceituações da Biogeografia trabalhada por Brown e Lomolino:

É a ciência que se preocupa em documentar e compreender modelos espaciais de biodiversidade. É o estudo da distribuição dos organismos, tanto no passado quanto no presente, e dos padrões de variação ocorridos na Terra, relacionados à quantidade e aos tipos de seres vivos. (BROWN; LOMOLINO, 2006, p. 3).

Por esse e por outros conceitos percebe-se que a tônica inerente à Biogeografia, então, é a preocupação com o geral, sempre estudando, analisando grandes compartimentos fitogeográficos e/ou zoogeográficos associando-os com clima, solo e, assim, obter diferentes quadros explicativos da distribuição dos elementos vivos, sejam vegetais ou animais sobre a superfície da Terra. As especificidades dessas distribuições fornecem características identitárias, os chamados habitats, em sua maioria de caráter territorial, mas que, com relação ao homem, entre as espécies viventes, esse encara o território de forma diferenciada, embora o poder e suas relações sejam inerentes a qualquer ser vivo. No caso do ser humano, manifestam-se com outra conotação, ou seja, a base territorial não é apenas para sobrevivência e preservação da espécie, mas cede ao apelo da dominação em suas formas econômica, social e cultural.

22 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

O LOCAL NA BIOGEOGRAFIA

Discute-se aqui, então, a necessidade de se pensar o local à luz da Biogeografia em termos de conhecer melhor a biodiversidade e distribuição de organismos endêmicos sejam vegetais ou animais, frente à velocidade de substituição de paisagens ainda timidamente preservadas em termos de vegetação nativa por paisagens domesticadas e altamente impactantes. Observam-se processos, pelo menos, localmente, de perdas significativas de conhecimento de flora e fauna antes mesmo de se poder documentar a existência e importância em sua amplitude de utilização na dinâmica tradicional, em decadência, e utilização potencial na indústria, destacadamente de ordem vegetal, em sua vasta gama de variedades. Em termos de flora, embora tenha havido esforço concentrado em se estudar taxonomia em épocas passadas, particularmente nos séculos XIX e XX, constata-se que parece não ter havido uma divulgação suficiente para alcançar os atores interessados. Embora tenham sido realizados trabalhos por naturalistas antes do século XIX no Brasil, os quais ainda hoje são referência para os estudiosos do assunto. A literatura sobre o tema indica que as rotas naturais percorridas por esses naturalistas, em geral, seguiam os rios e/ou trilhas deixadas pelos índios, exploradores, colonizadores e raramente os mesmos se arvoravam na mata em profundidade. Ao se adentrar em leituras que versam sobre colonização, Mata Atlântica, entre outras, percebe-se aqui e acolá colocações sobre a percepção de alguns naturalistas estrangeiros, em sua maioria, que estiveram trabalhando no Brasil em diversos momentos. Percepções essas que geralmente, expressavam certo medo, receio em relação às áreas consideradas, ainda, “não civilizadas”, conforme pode ser apreciado na seguinte passagem:

É lamentável que os naturalistas de formação europeia da virada do século XIX tenham deixado apenas memórias breves e pálidas de sua experiência sob o dossel

da Mata

Atlântica. [

...

]

Apenas uma vez Saint Hílare lhes forneceu

uma pista

quando falou sobre “aquela espécie de terror religioso que normalmente inspira a

visão das florestas virgens”. Esta observação ele acompanha com uma expressão

de seu deleite, após sair da mata, ao ver o rio e a vila de São João da Barra se

espraiarem diante dele como parecia encantador, após passar diversas horas

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 23

encerrado em um túnel de árvores. James Wells confessava sentir “uma imperceptível depressão” nas “negras sombras silentes”, que era seguida de “júbilo” ao irromper nas “brisas frescas dos campos, resplandescentes de flores e pássaros de plumagens claras”. (DEAN, 1996, p. 156).

Alinhando-se à essa experiência dos naturalistas, surge aqui em particular, a experiência própria da autora desse texto, que através também de certo convívio com pessoas ligadas ao uso da terra, agropecuária especificamente, verificou ainda ser forte a evidência dessas percepções/sentimentos já assinalados, acrescidos de outros, talvez contextualizados pela modernidade, pelo avanço acelerado das necessidades de consumo que exige a moeda de troca, ou seja, o dinheiro. Assim sendo, a terra, a pouca terra entendendo-se como característica primeira da distribuição fundiária do agreste pernambucano, em geral (LINS, 1989; ANDRADE, 2009), diante à desenfreada exploração econômica, oscila entre a necessidade de permanecer provedora do sistema natureza, oportunizando o ciclo constante da vida e a ganância cada vez mais avassaladora do sistema econômico-social e cultural. Como autoinformação e referência ilustrativa, coloca-se um exemplo local, no qual se vende certa quantidade de hectares totalmente limpos de qualquer área verde, por exigência do comprador, ao invés de coberta com uma capoeira ou matinha, vegetação comum na área em apreço. O argumento levantado nessa situação é que o comprador, em geral, dado o uso que pretende, geralmente pecuária e capim plantado, prefere não ter nenhuma despesa com o processo de limpa do terreno (dados obtidos em aulas dialogadas sobre a temática em apreço com alunos oriundos do campo, 2014-2015). Frente a situações como essa, relatada apenas como exemplo, é fácil imaginar o caos que, provavelmente, ocorrerá quando as explicações biogeográficas de flora e fauna se tornarem vazias referentes a um passado sem chance de volta e um presente, quase totalmente manipulado e/ou alterado em termos de habitats e seres. Cabe salientar que, ao mesmo tempo em que ocorrem fatos descabidos como esses, também se toma conhecimento da ação positiva do Estado através de órgãos competentes e atinentes à suas responsabilidades, os quais aqui e acolá conseguem coibir essas ações (dados obtidos em aulas dialogadas sobre a temática em apreço com alunos oriundos do campo, 2014-

2015).

E, então? O lugar entendido como as áreas próximas, notadamente sítios e municípios estão tendo sua biodiversidade gradativamente perdida juntamente com toda a informação biológica, ecológica, geológica, geomorfológica, entre outras, numa rota tendencialmente sem volta. Junte-se a esse processo cada vez mais insensibilidade e/ou ignorância do ser humano em relação a

24 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

esse capital natural normalmente considerando-o, ainda, como inesgotável ou mesmo sem nenhum ou pouco valor. Embora essa questão de não haver afetividade em relação ao lugar e do desrespeito ao patrimônio vivo sejam antigas, como bem caracteriza a observação posta por um naturalista do século XIX, se referindo a um agricultor brasileiro que:

Olha para duas ou mais léguas de florestas como se elas não fossem nada, e ele mal as reduziu a cinzas e já lança seu olhar ainda mais adiante para levar a destruição a outras partes; não nutre nem afeição nem amor pela terra que cultiva, tendo plena consciência de que ela provavelmente não irá durar para seus filhos. (DEAN, 1996, p. 155).

Infelizmente, desde que o mundo tornou-se um espaço para o colonialismo e imperialismo, que as mazelas ambientais se intensificaram acelerando-se, praticamente, após a Segunda Grande Guerra. Por outro lado, coincide, concretamente, com o despertar ecológico motivando ações ora paliativas, ora restritivas, embora muitas disfarçadas, em quase todas as partes de globo. No entanto, também fica evidente que esses traumas ambientais estão atrelados, via de regra, com o descompromisso e aculturamento imposto pelos “invasores”, associados aos ditames cada vez mais sofisticados da economia, quando não da subserviência de alguns países ou culturas materializados em pequenos grupos mandatários. Mas será que se as redes de acordos, bem como a exploração dos diversos ambientes naturais se formassem através de indivíduos ou grupos da própria localidade, seria diferente?

O LOCAL E O ELO AFETIVO

Assim, a resposta talvez nunca será totalmente desvendada em sua essência. No entanto, conjecturas e a relatividade das considerações perante as diversidades de olhares permite trazer algumas referências que, possivelmente, remeterão à preocupação de que, mesmo o melhor dos sujeitos, num primeiro momento, frente a sua necessidade de viver e sobreviver não hesitará em dilapidar seu entorno numa perspectiva imediatista. A questão, então, se configura de maneira a pensar, em primeiro plano na educação, cujas repercussões ocorrem a longo prazo e, modernamente, na educação ambiental. Entram em cena, ainda, os chamados valores morais, religiosos, intelectuais entre os principais. Tudo isso envolvido, imbricado em culturas que se tornam difusas na dimensão

planetária e na velocidade das “transformações” do presente.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 25

No contexto do lugar, no entanto, faz-se necessário refletir sobre a possibilidade da decisão de alguns em exercitar seu poder de escolha na confluência das ferramentas jurídicas disponíveis nas esferas federais, estaduais e municipais para gestar espaços de uso comum como é o caso, principalmente de áreas urbanas, pelo menos em termos de Brasil. Esse fato é importante devido à significativa expansão de cidades de um lado, e expansão de atividades agropecuárias de outro, ambas as expansões pressionam fortemente os espaços de flora e fauna, ainda restantes. Talvez os estudiosos considerem suficientes os trabalhos de biogeografia empreendidos por naturalistas dos séculos passados e dos botânicos, agrônomos, ecólogos que sucederam no século XX, inclusive no nordeste. Mas torna-se preocupante a falta de catalogação, descrição e mapeamento “mais” substancial da biota e sua biodiversidade em tempos mais recentes associado a falta de interesse da população e o constante convite a novos empreendimentos que dilapidam o escasso patrimônio vegetal e, em consequência, o animal reduzindo-se drasticamente possibilidades de estudos biogeográficos e de ecologia dos lugares. Novamente pinça-se exemplo bem local para ilustrar o que está sendo tratado. Recentemente realizou-se estudos sobre determinada espécie vegetal (jurema preta) como eixo condutor de pesquisa de iniciação cientifica conduzida sob a abordagem sistêmica e seguindo-se as diretrizes da “Topofilia” entendida como afeição “pelo lugar”. Assim, o aluno pesquisador era necessariamente do lugar pesquisado e onde, naturalmente, havia a predominância dessa espécie vegetal. O resultado, então, apontou para a falta de percepção de sua importância e melhor aproveitamento econômico por parte de adultos que a conheciam, enquanto os mais jovens, mesmo convivendo com elas em suas propriedades, escolas e, também por compor, em alguns pontos a paisagem urbana do local, não a conheciam como jurema. Para esses jovens, as juremas eram simplesmente mato, árvores, praticamente sem nenhum atributo ou importância (RODRIGUES, 2014). Acredita-se, então, ser de significativa importância ter-se a consciência da essência da Geografia enquanto disciplina inserida nos diversos currículos formativos desde a infância até a universidade. Apesar da, ainda, dicotomia existente em seu âmago muitos geógrafos buscam, com auxílio da interdisciplinaridade e da complexidade pautada em Morin,

26 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

propiciar um despertar de cidadania e um olhar para o lugar e/ou a partir do lugar de cada um.

Assim, ressalta-se a necessidade de se tomar Yi Fu Tuan como referência pela defesa do lugar e da Topofilia. A sua leitura indica, claramente, que no esteio da sustentabilidade, do ambiental, é fundamental se ter conhecimento e amor pelo espaço no qual, provavelmente, se nasceu, viveu e se vivenciou. Valores como respeito não aparecem do nada, é preciso uma construção e, assim, percebe-se que projetos de caráter interventivo em dado espaço, são mais coerentes quando realizados por quem o conhece e tem a devida afeição. Projetos técnicos elaborados por profissionais que não possuem essa característica pecam muitas vezes, por desconsiderar e/ou achar irrelevante determinada ação/recurso natural.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pensar o local, então, sob a tutela da Biogeografia requer um olhar sistêmico que consiga perceber a inter-relação dos componentes da teia da vida em determinada biota. Mas compondo o entrelaçamento necessário com o geossistema na direção de, não só identificar, descrever, catalogar, aplicar teorias pertinentes à ciência biogeográfica, mas levar em conta também conceitos de sustentabilidade, complexidade, os quais compatibilizem simultaneamente interesses de ordem econômica, ambiental, social e cultural para compreender o espaço/lugar contribuindo, assim, para a minimização de problemas de variados tipos, além de harmonizar as relações inerentes a um trabalho interdisciplinar como os biogeográficos. Urge, então, priorizar trabalhos de pesquisa em lugares os mais diversos, esquecidos nos confins do país, cuja flora e fauna estão dia a dia desaparecendo sem terem tido a chance do necessário reconhecimento para a sustentabilidade em sua ampla dimensão, bem como de estudos biogeográficos de caráter interdisciplinar. Encerra-se este capítulo, pois, trazendo para reflexão palavras da Encíclica do Papa Francisco recém-publicada:

O facto de insistir na afirmação

de

que

o

ser humano é

imagem de Deus não

deveria fazer-nos esquecer que cada criatura tem uma função

e nenhuma

é

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 27

supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus. A história da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem. Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade. (C. ENCÍCLICA, 2015, p. 66).

Logo, fica evidente a deferência feita ao “lugar” como ponto de apoio a todos nós

na busca de relacionamento harmonioso com a natureza. Independentemente das escolhas filosóficas e religiosas de cada um, há de se concordar que o homem é natureza em sua mais pura essência e, portanto, deve primar por mudanças que visem à preservação e/ou

conservação de espaços que se retratam nele mesmo respeitando tudo e qualquer recurso natural materializado na biodiversidade do lugar.

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30 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Capítulo 3

DESASTRES NATURAIS PROVOCADOS POR EVENTOS EXTREMOS:

UMA REALIDADE BRASILEIRA E DO ESTADO DE PERNAMBUCO

Cristiana Coutinho Duarte 4

A gravidade dos impactos provocados pelos eventos climáticos extremos não depende apenas desses eventos em si, mas também da exposição e vulnerabilidade da sociedade a tais eventos. (IPCC, 2012)

INTRODUÇÃO

A frequência e a intensidade dos desastres naturais aumentaram de forma significativa desde a década de 1950. Alguns autores associam esse aumento à maior exposição e vulnerabilidade da sociedade contemporânea. Outros afirmam que a principal agravante tem sido as mudanças globais, principalmente a intensificação das instabilidades atmosféricas e aumento dos chamados eventos extremos, com a maior ocorrência de furacões, vendavais, tempestades e chuvas intensas, que causam grandes danos socioeconômicos (MARCELINO; NUNES; KOBIYAMA, 2006). No Brasil, como resultado do processo de desenvolvimento assimétrico, devido à rápida urbanização sem planejamento, falta de planejamento ambiental e negligência dos governos nacionais, estaduais e municipais com questões sociais e de ordenamento territorial, surgem áreas passíveis de risco a desastres naturais, como, por exemplo, favelas ou assentamentos informais instalados em áreas de encostas suscetíveis a deslizamentos ou em margens de rios, suscetíveis a inundações. Como agravante tem-se também a falta de percepção de riscos e a impossibilidade de algumas pessoas de migrarem para áreas mais seguras, tornando-se mais vulneráveis e expostas aos desastres. O extenso território brasileiro apresenta características físicas bastante diversificadas, com predominância de clima tropical, com a ocorrência de grandes índices

4 Professora Doutora em Geografia da UPE – Campus Garanhuns, Brasil

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 31

pluviométricos, e uma porção seca. Assim, os principais desastres que ocorrem no Brasil estão relacionados a enxurradas ou inundações bruscas, deslizamentos de terra, secas e a erosão. Entretanto, um fenômeno natural só é considerado como desastre quando ocorre em locais onde seres humanos vivem, resultando em danos (materiais e humanos) e prejuízos (socioeconômicos). Destacam-se, neste país, os eventos que ocorreram no final de 2008 em Santa Catarina, em junho de 2010 nos municípios dos Estados de Pernambuco e Alagoas, e em janeiro de 2011 em municípios da região serrana do Rio de Janeiro. Mesmo sabendo-se que os desastres naturais são mais significativos em áreas de maior vulnerabilidade como os assentamentos informais, os eventos que ocorreram tanto em Santa Catarina, em 2008, quanto no Rio de Janeiro, em 2011, também atingiram áreas ocupadas por residências de alto padrão. Até metade do ano de 2015 vários municípios brasileiros sofreram com as fortes chuvas, com destaque para municípios de Salvador, em que foram registradas mais de 20 mortes provocadas por deslizamentos em maio desse ano, municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina em julho e municípios da Região Metropolitana do Recife com registros de movimentos de massa, inundações e alagamentos, causando sérios transtornos à população e contabilizados dois casos de morte nessa região. Tais desastres estiveram associados a eventos climáticos e meteorológicos extremos, ou seja, aqueles em que os totais pluviométricos em certo período seja anual, sazonal, diário, seja outro apresentam desvios de chuva superiores ou inferiores ao comportamento habitual da área no período analisado. Sarewitz e Pielke Jr. (2000) os definem como uma ocorrência que apresenta uma incidência rara, distanciando-se da média, variando em sua magnitude. Pesquisas relacionadas com a ocorrência de desastres naturais no mundo e no Brasil vêm sendo desenvolvidas nos últimos anos, ajudando, portanto, na identificação das principais causas do aumento da ocorrência de desastres e as formas de mitigação e adaptação. Desse modo, este artigo tem como objetivo apresentar o resultado de uma compilação e análise dos principais desastres naturais que assolam o mundo como um todo, o Brasil, o Nordeste, o Estado de Pernambuco, até chegar à Região Metropolitana do Recife baseando-se em banco de dados de desastres internacionais, como o EM-DAT (The

32 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

International Disaster Database) e nacionais como o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) do Ministério da Integração Nacional, além de documentos como o Atlas brasileiro de desastres naturais e os volumes elaborados para todos os Estados e o Anuário brasileiro de desastres naturais (volumes para os anos 2011 e 2012), dentre outros documentos.

BANCO DE DADOS DE DESASTRES NATURAIS

O United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNISDR) conceitua desastres como o resultado de eventos adversos, naturais e provocados pelo homem, sobre um cenário vulnerável, causando grave perturbação ao funcionamento de uma comunidade ou sociedade. Envolve extensivas perdas e danos humanos, materiais, econômicos ou ambientais, que excedem a capacidade da sociedade de lidar com o problema usando meios próprios. Os desastres podem ser divididos em dois grupos: os tecnológicos e os naturais, no entanto, serão aqui expostos somente os desastres naturais. Esses últimos, por sua vez, são divididos em cinco grupos: geofísicos, meteorológicos, hidrológicos, climatológicos e biológicos (BELOW; WIRTZ; GUHA-SAPIR, 2009). Os desastres meteorológicos, hidrológicos e climatológicos estão normalmente relacionados a eventos considerados extremos. Esses eventos extremos podem atingir de forma diferenciada determinados lugares, por estarem associados a outros fatores como a vulnerabilidade. Assim, O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2012), em seu relatório especial denominado Managing the risks of extreme events and disasters to advance climate change adaptation, traz algumas ressalvas sobre os eventos climáticos extremos. Alguns eventos climáticos e hidrológicos extremos, por exemplo, secas e inundações, podem ser o resultado de uma acumulação de eventos meteorológicos ou climáticos que, individualmente, não seriam considerados como extremos, entretanto, o acumulado pode ser. Assim como eventos meteorológicos ou climáticos, mesmo não sendo estatisticamente extremos, podem levar a condições ou a impactos extremos, quer seja por atravessar um limiar social, ecológico ou físico crítico, quer pela ocorrência simultânea de dois eventos. Por outro lado, nem todos os extremos conduzem necessariamente a um

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 33

impacto grave, haja vista o local onde ocorreu o fenômeno, por exemplo, em um ambiente natural onde não há ocupação (DUARTE, 2016). Com a intenção de tentar padronizar os diferentes conceitos sobre desastres, tipos e formas de coleta de informações para elaboração de banco de dados e estudos estatísticos, o Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED) da Universidade de Louvain, criou o EM-DAT: The International Disaster Database. Esse banco visa à coleta sistemática e análise de dados sobre desastres, fornecendo informações para governos e agências encarregados de atividades de socorro e recuperação das áreas afetadas, além de fornecer subsídios às análises estatísticas e elaboração de relatórios anuais de desastres elaborados pela UNISDR (DUARTE, 2016). O Ministério da Integração Nacional do Governo Federal do Brasil (BRASIL, 2012) adota o mesmo conceito proposto pela UNISDR e segue a Classificação Brasileira de Desastres (COBRADE) baseada na classificação utilizada pelo EM-DAT, com adaptações à realidade brasileira (Quadro 1).

Quadro 1: Síntese da Classificação e Codificação Brasileira de Desastres (COBRADE),

destacando somente os desastres naturais

GRUPO DE

   

DESASTRES

SUBGRUPO

TIPOS

 

Terremoto

Tremores de terra, tsunamis

 

Emanação vulcânica

Movimentos

Quedas, tombamentos e rolamentos (blocos, lascas, matacões e lajes);

Geológico

de Massa

deslizamentos (solo e/ou rocha); corridas de massa (solo/lama ou rocha/detritos); subsidências e colapsos

Erosão

Erosão costeira/marinha; erosão de margem fluvial; erosão continental (laminar, ravinas e boçorocas)

   

Inundações

Hidrológico

 

Enxurradas ou inundações bruscas

 

Alagamentos

 

Sistemas de

 

grande

Ciclones (ventos costeiros e marés de tempestades ressaca); frentes

escala/escala

frias/zonas de convergência

regional

Meteorológi

Tempestades

Tempestade local/concectiva (tornados, tempestades de raios, granizo, chuvas intensas e vendaval)

co

Temperaturas

Onda de calor; onda de frio (friagem e geadas)

extremas

Seca

Estiagem; seca; incêndio florestal (incêndios de parques e áreas de proteção ambiental e incêndios em áreas não protegidas)

 

Baixa umidade do ar

 

Epidemias

Doenças infecciosas virais; doenças infecciosas bacterianas; doenças infecciosas parasíticas; doenças infecciosas fúngicas)

Biológicos

Infestações /

Infestações de animais; infestações de algas (marés vermelhas,

pragas

cianobactérias em reservatórios)

Fonte: BRASIL (2012).

34 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Para que os desastres sejam registrados no banco de dados do EM-DAT, um dos critérios a seguir deve ser atingido: dez ou mais casos de morte; cem ou mais pessoas afetadas; declaração de estado de emergência e solicitação de assistência internacional. No Brasil, criou-se o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) em 2012, com o objetivo de qualificar e dar transparência à gestão de riscos e desastres no Brasil. Além desse banco de dados para consulta na internet, o Ministério da Integração Nacional/Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil/Centro Nacional de Gerenciamento de Desastres elaboraram documentos como o Atlas brasileiro de desastres naturais, também com volumes para todos os Estados e o Anuário brasileiro de desastres naturais (volumes para os anos 2011 e 2012). Os dados contidos e consolidados da ocorrência de desastres, no banco de dados e nos referidos anuários, são oriundos de documentos oficiais como os extintos Formulários de Avaliação de Danos (AVADAN), de Notificação Preliminar de Desastres (NOPRED), e o atual documento para informar ocorrência de desastres Formulário de Informação de Desastres (FIDE). Utilizam-se, também, Decretos de Declaração de Estado de Calamidade Pública (ECP) ou de Situação de Emergência (SE) e Portarias de Reconhecimento Federal, além de informações coletadas junto às Coordenadorias de Defesas Civis (CDEC). De acordo com o Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED) (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2012), a classificação de desastres é importante, primeiramente, por motivo de ordem legal, visto que as situações de anormalidade só podem ser decretadas em função de um desastre. Assim, para que seja considerado um desastre, no Brasil, determinado evento tem de estar catalogado na Cobrade. A descrição de cada desastre pode ser visualizada na Cobrade completa disponibilizada no site do Ministério da Integração Nacional (www.integração.gov.br). Torna-se mister não se deter apenas nas ocorrências que constam nos documentos expostos, visto que, como afirmam os autores desses documentos, houve limitações nas pesquisas realizadas nos Atlas de Desastres do Brasil, em Pernambuco, bem como nos demais Estados brasileiros pelas condições de acesso ao banco de imagens e referencial teórico para a caracterização geográfica de cada Estado, pelas lacunas de informações por mau preenchimento, além da armazenagem inadequada dos formulários, muitos guardados em locais sujeitos a fungos e umidade.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 35

OCORRÊNCIA DE DESASTRES NATURAIS NO MUNDO NO ANO DE 2013

Guha-Sapir, Hoyois e Below (2014) apresentam o Annual Disaster Statistical Review 2013: the numbers and trends. De acordo com esse anuário de 2013, os desastres naturais, mais uma vez, causaram impactos devastadores para a sociedade humana. Foram registrados no mundo 330 desastres naturais, causando a morte de mais de 21.610 pessoas, fazendo 95,5 milhões de vítimas e registrando danos econômicos de U$ 118,6 bilhões. Um total de 108 países sofreu com esses desastres. Em relação ao total de ocorrências, em 2013, o número de desastres foi menor que a frequência média anual observada entre 2003 e 2012, que foi de 288. Foi o menor valor dos últimos dezesseis anos. O baixo número de desastres relatados no referido ano, quando comparado com a média de ocorrência entre 2003 e 2012, foi por um menor número de desastres hidrológicos (inundações e movimentos de massa) e climatológicos (18% e 45% menor que a média de 2003 e 2012, respectivamente). Os desastres hidrológicos (159 no total) ainda foram, de longe, os que mais ocorreram em 2013 (48,2%), seguidos de desastres meteorológicos (106; 32,1%), desastres climatológicos (33; 10%) e desastres geofísicos (32;

9,7%).

China, Estados Unidos, Indonésia e Filipinas foram os países que mais sofreram com os desastres naturais em 2013. Dois desastres que ocorreram nesse ano foram mais significativos, matando mais de mil pessoas, o furacão Haiyan, nas Filipinas, em novembro, onde foram registradas 7.354 mortes, e a grande inundação no mês de junho, na Índia, com 6.054 mortes registradas. Em 2013, o número de mortes provocadas pelos desastres naturais foi menor (21.610 casos de morte), se comparado com a média anual entre 2003 e 2012 (106.654), o que pode ser explicado, principalmente, pela análise da média entre três anos, 2004, 2008 e 2010, com mais de 200 casos de morte registrados e dois anos 2003 e 2005 com registro médio em torno de 100 mil mortes, muito desses casos por terremotos (GUHA-SAPIR; HOYOIS; BELOW, 2014). A Figura 1 apresenta os dez países com maior número de eventos registrados em 2013. Percebe-se o Brasil na oitava colocação do ranking, com maior ocorrência de eventos hidrológicos.

36 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Figura 1: Gráfico representativo dos dez países com o maior número de eventos registrados em 2013

36 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Figura 1: Gráfico representativo dos

Fonte: Guha-Sapir, Hoyois e Below (2014).

OCORRÊNCIA DE DESASTRES NATURAIS NO BRASIL DE 1991 A 2010 E NOS ANOS DE 2011 E

2012

No Brasil, de acordo com o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais 1991 a 2010:

volume Brasil (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2012), contabiliza-se anualmente um aumento do número de ocorrências de desastres registrados desde a década de 2000. Os dados são comprovados também quando se observam os seguintes números: total de desastres entre 1990 a 2010 (31.909), década de 1990 (8.671/27%) e década de 2000 (23.238/73%). Entretanto, é importante chamar a atenção para o fato de que as diferenças entre os registros também podem estar ligadas à dificuldade histórica de a Defesa Civil manter os registros atualizados. Como tendência, é possível apenas afirmar que tanto os desastres têm potencial crescimento como o fortalecimento do sistema, a fidelidade aos números e o compromisso no registro também crescem com o passar dos anos (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2012).

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 37

A partir do total de afetados por tipo de desastres no Brasil (96.220.879 pessoas), a estiagem/seca é o desastre que mais afetou a população brasileira, por ser mais recorrente (50 ocorrências e 34% do total de afetados), mas as inundações bruscas, com 29 ocorrências, afetaram 56% dos brasileiros e causaram o maior número de mortes (43 casos de morte, sendo 19% do total). De acordo com o Anuário Brasileiro de Desastres Naturais (BRASIL, 2012), em 2011, os desastres tiveram impactos significativos na sociedade brasileira. Relatou-se a ocorrência de 795 desastres naturais, que causaram 1.094 óbitos e afetaram 12.535.401 pessoas. Foram 2.370 municípios afetados, sendo 65,44% deles por eventos hidrológicos. A região mais afetada nesse ano foi a Região Sul (6.855.449 afetados), no entanto, a que sofreu o maior impacto pelo poder de destruição deles foi a Região Sudeste. O número de óbitos verificados nesta última região foi 7,29 vezes maior que a verificada nas outras quatro juntas, isso justificado pelo evento que ocorreu na Região Serrana do Rio de Janeiro, representando 87,95% do total de óbitos em 2011 no Brasil, tendo como maior contribuição para o número de óbitos os deslizamentos; todavia, eles contribuíram apenas com 5,40% do total de afetados por desastre em todo o Brasil. Já em 2012 (BRASIL, 2013) relatou-se, oficialmente, a ocorrência de 376 desastres naturais, causando 93 óbitos e afetando 16.977.614 pessoas. Os municípios afetados foram 3.781, maior número do que em 2011, e 65,06% deles pela seca/estiagem. A Região Nordeste teve o maior percentual de municípios atingidos pela seca (47,16% do total de municípios), porém, os desastres que causaram maior número de mortes foram os movimentos de massa e enxurradas, ambos correspondendo a 27,96% dos óbitos. Os movimentos de massa apresentaram maior predominância nesse ano, foram 92% dos casos registrados. Em relação à erosão dos solos, classificadas pela Cobrade de Erosão Costeira/Marinha, Erosão da Margem Fluvial e Erosão Continental, quase 82% dos desastres desse tipo ocorreram nas Regiões Centro-Oeste, Norte e Sul. O Nordeste teve uma proporção de 27,27% das ocorrências totais, com 150 desalojados e um total de 14.722 afetados (BRASIL, 2012).

38 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Em 2012, a maioria dos casos de erosão ocorreu no Nordeste e Norte, com 38,46% e 46,15% dos casos, respectivamente. Predominando a erosão marinha costeira no Nordeste e erosão das margens fluviais no Norte (BRASIL, 2013). Os eventos de seca/estiagem são os que afetam o maior número de pessoas, afetando, em 2011, nas Regiões Norte, Sul/Sudeste e semiárido nordestino 1.308.873 pessoas. Em 2012, por sua vez, o número de pessoas afetadas por seca/estiagem foi de 8.956.853. Na região do semiárido nordestino foi onde os impactos foram mais perceptíveis. Esse número foi bem acima do observado em 2011 (1.308.873). Em relação aos alagamentos, em 2011, as Regiões Sudeste e Sul foram as que apresentaram o maior número de ocorrências, com 29.198 e 112.031 afetados, respectivamente. A Região Nordeste, principalmente no Estado da Bahia, teve um total de 37.904 afetados. Em 2012, ocorreram 17 desastres provocados por alagamento no Brasil, prevalecendo na Região Sudeste, seguida do Sul e Nordeste. No entanto, na totalidade do Brasil, observou-se menor frequência de alagamentos. Tal fato pode ser explicado pelo déficit de precipitação desse ano, principalmente na Região Nordeste, onde os impactos foram sentidos inclusive fora do semiárido. Mesmo assim, na Região Nordeste contaram-se 10 desabrigados, 255 desalojados e um total de 1.552 afetados. As enxurradas afetaram 7.043.989 pessoas no Brasil, em 2011, além de 518 óbitos e mais de 600 feridos. Contudo, danos humanos decorrentes de enxurradas estão relacionados, na maioria das vezes, às ocupações desordenadas nas margens dos rios ou outras áreas com alta suscetibilidade a esse tipo de desastre. O maior número de desabrigados por enxurrada foi na Região Nordeste (23.118), mas com apenas 6 casos de óbito, enquanto na Região Sudeste foram 492 casos. Em 2012, o número de ocorrências de enxurradas foi muito reduzido, se comparado com 2011 (total de 93 ocorrências), sendo a Região Sudeste a mais afetada. A Região Nordeste, por sua vez, apresentou somente 4 ocorrências. As inundações, geralmente ocasionadas por chuvas prolongadas em áreas de planícies tiveram as maiores ocorrências, em 2011, registradas nas Regiões Sul e Sudeste. O Nordeste também apresentou significativos registros, com uma distribuição esparsa desses ao longo dos meses, tendo um maior número de inundações em maio, que é um dos meses de maior precipitação na porção leste do Nordeste, onde foram afetadas 308.928 pessoas.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 39

As macrorregiões Sudeste, Nordeste e Sul do Brasil são aquelas de maior suscetibilidade às inundações; no entanto, em 2012, alterou significativamente essa predominância, já que a Região Norte foi a que contabilizou a maior parte desses desastres. Esse fato está associado ao evento extremo ocorrido na Região Norte, em que a Bacia Amazônica, como um todo, registrou cheias recordes nesse ano, provavelmente influenciado por um evento de El Niño, que está relacionado com a diminuição das chuvas no Nordeste do Brasil e aumento das chuvas na Região Norte (BRASIL, 2013).

OCORRÊNCIA DE DESASTRES NATURAIS EM PERNAMBUCO

De acordo com o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais: volume Pernambuco (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2013), esse Estado tem 70% do seu território no polígono das secas. Os fenômenos desse tipo passaram a ocorrer com mais frequência depois de 2001, o que se pode explicar pelo aumento da população ou atividades em áreas vulneráveis, aumentando a exposição a esse tipo de adversidade. Outro fator importante a ser levado em consideração é a ação do homem, pois a constante destruição da vegetação natural por meio de queimadas acarreta a expansão do clima semiárido para as áreas onde anteriormente não existiam (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2013). Ainda em Pernambuco, as inundações bruscas (enxurradas) e os alagamentos decorrentes das fortes chuvas ocasionaram 345 registros oficiais de desastres, entre os anos de 1991 a 2010. As regiões mais atingidas foram a Região Metropolitana do Recife (RMR) e a Zona da Mata. O município de Camaragibe, na RMR, registrou o maior número de desastres no período, totalizando 7 ocorrências. Houve um aumento nos registros a partir do ano 2000 que pode estar relacionado com o aumento do nível do risco da população às inundações em razão do crescimento urbano do Estado. Outro fator importante para o aumento dos desastres a partir do ano de 2000 parte do princípio de que para a RMR, apresentou para as décadas de 2000 e 2010, predominantemente, anos normais a extremamente chuvosos com destaque para os anos de 2000, 2004 que foram considerados como anos extremamente chuvosos e 2011 como ano muito chuvoso, de acordo com Duarte (2016). Já na década de 1990, predominaram os anos secos, com anomalias negativas de precipitação pluvial. Os anos de 2005 e 2010,

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segundo a autora, foram anos que apresentaram chuvas anuais dentro da normalidade, entretanto, as chuvas ocorreram de forma intensa e concentrada no mês de junho. O ano de maior número de ocorrência de enxurradas foi 2004 (95 registros), principalmente nos municípios da região semiárida. Em 2010, foram registradas 74 ocorrências, em que 65 ocorreram no mês de junho, apresentando um acumulado de 219,01 mm em 111 dias de chuva. Outro ano significativo foi o mês de junho de 2005, com 37 do total de 41 ocorrências. No ano de 2010, as fortes chuvas que ocorreram nos dias 17 e 18 de junho, que representaram 70% das chuvas esperadas para todo o mês, atingiram diretamente desde a cabeceira dos rios Una, Jaboatão e Ipojuca, até a foz, provocando enxurradas violentas, destruindo cidades inteiras como os municípios Palmares e Barreiros, afetando 67 municípios pernambucanos, dentre os quais 12 decretaram situação de calamidade pública e 30 entraram em situação de emergência. Foram registradas 20 mortes em decorrência desse evento. O referido número de mortes ainda foi menor que o esperado devido à rápida atuação do Estado, com a emissão de alertas a população, minimizando os danos humanos (BANCO MUNDIAL, 2012). Em relação aos movimentos gravitacionais de massa, a RMR é a mais atingida. Esses desastres ocorrem nas áreas de morro, onde a ocupação se deu de modo desordenado ainda havendo atributos naturais para a suscetibilidade à instabilização de encostas, como a geologia da área. Nos municípios de Recife, Olinda e Camaragibe, os principais locais de deslizamentos estão sobre a Formação Barreiras (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2013). Já nos municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, por exemplo, os deslizamentos ocorrem, predominantemente, nas áreas do embasamento cristalino ocupadas pelo cultivo da cana-de-açúcar ou por ocupação desordenada. Entre 1990 e 2010, contabilizaram-se 14 registros oficiais de movimentos de massa em Pernambuco, registrados em oito municípios na porção leste do Estado. Dentre esses, estão: Recife, Olinda, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes na RMR; Goiana, Ribeirão e Quipapá na Zona da Mata e Gravatá no Agreste de Pernambuco (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, 2013). Vale ressaltar que a magnitude dos movimentos de massa que ocorrem no Estado de Pernambuco não é tão significativa para serem classificados como desastres naturais e

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 41

cadastrados nos referidos bancos de dados, mas dados das Coordenadorias de Defesas Civis do Estado e dos municípios trazem informações mais detalhadas e problemas acarretados por esses processos, como perda de residências e, em casos mais localizados, a existência de óbitos.

Na Região Metropolitana do Recife, conforme foi visto, é constante a ocorrência de desastres geológicos (movimentos de massa e erosão continental e costeira), hidrológicos (enxurradas ou inundações bruscas, inundações e alagamentos) e meteorológicos (tempestades locais/convectiva promovendo chuvas intensas e ventos fortes). Os desastres climatológicos estão relacionados à seca, representadas pelas estiagens, as quais se referem a um período prolongado de baixa ou nenhuma pluviosidade, em que a perda da umidade do solo é superior à sua reposição. Esses eventos de estiagens acarretaram em uma escassez de água nos reservatórios levando a longos períodos de racionamento de água em toda a RMR.

Quando ocorre um evento de chuva de elevada magnitude na RMR, destacam-se a ocorrência de vários pontos de alagamentos, enxurradas e vários deslizamentos são contabilizados. Esses últimos são intensificados pela vulnerabilidade da população que ocupa as áreas de morros e pelas intervenções antrópicas. De acordo com Coutinho e Bandeira (2012) é muito comum identificar nas áreas de morro da RMR cortes verticalizados, aterros mal compactados, taludes desprovidos de cobertura superficial, lançamento de águas servidas, fossas nas bordas dos taludes, vazamento de tubulações e acúmulo de lixo. Esses são exemplos de intervenções antrópicas que funcionam como agentes preparatório ou imediato de um deslizamento. A ocorrência desses, no entanto, são intensificados quando da ocorrência de um evento de chuva de alta magnitude, uma vez que a erosão hídrica pluvial e os escorregamentos planares são os principais processos de instabilização de encosta na RMR. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (2005) contabilizou um total de 1.572 mortes por deslizamentos no Brasil no período de 1988 a 2005. O que representa um número aproximado, já que algumas ocorrências conhecidas na RMR não constam entre esses dados. Bandeira e Coutinho (2015) apresentaram um total de 214 mortes provocadas por deslizamentos entre 1984 e 2012 nessa região. Em 2011, nove vítimas fatais foram contabilizadas após as chuvas intensas que ocorreram em junho (120,3 mm/24 h).

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Infelizmente, aumentando esse total de mortes que ocorreram na RMR, em 2015, houve um registro de morte no Recife depois do acumulado apenas de 30 mm/24 h no mês de março. Com as fortes chuvas que ocorreram nos dias 24 e 25 de junho e no dia 28 de junho, houve mais dois óbitos nesse último dia. Na Região Metropolitana do Recife, a ocorrência de tempestades locais provocadas por chuvas convectivas, gerando chuvas localizadas e intensas, bem como erosão costeira/marinha e ressacas, nas porções litorâneas de municípios como Recife, Olinda e, principalmente, Jaboatão dos Guararapes. O número de pessoas afetadas nestas áreas é elevado, devido ao adensamento urbano e à forma de ocupação em toda a costa, não respeitando as margens necessárias sugeridas pela legislação, atingindo também edifícios de alto padrão.

CONCLUSÃO

Os desastres hidrológicos (alagamentos, inundações e enxurradas), geológicos (movimentos de massa e erosão) e meteorológicos (tempestades e chuvas fortes) são os que ocorrem com maior frequência no Brasil, Pernambuco e na Região Metropolitana do Recife. Tal fato é agravado pelo rápido crescimento populacional e à expansão das ocupações nos municípios, principalmente em áreas de suscetibilidade a tais eventos naturais, promovendo uma maior exposição e vulnerabilidade da população. Diante do exposto ao longo deste artigo, percebe-se a importância da realização de trabalhos que analisam o histórico dos principais desastres que ocorrem no mundo e no Brasil, identificando os tipos de desastres, sua magnitude e impactos associados, bem como a elaboração de banco de dados. Entretanto, as exigências estabelecidas para que determinado fenômeno seja considerado como desastre e cadastrado nos bancos de dados internacionais e nacional de desastres naturais estão relacionadas a eventos de grande magnitude. Os eventos de movimentos de massa (erosão e deslizamentos), por exemplo, são mais localizados e, às vezes, de pequena magnitude, a depender da intensidade das chuvas e dos eventos de chuvas antecedentes, mas que podem gerar perda de vidas ou danos às construções, estradas, etc., porém, não são cadastrados nos bancos de dados citados.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 43

Torna-se, portanto, essencial para um bom planejamento de áreas de risco e um melhor ordenamento territorial, um treinamento das defesas civis para tornar os cadastros de ocorrências mais homogêneos e recorrentes, haja vista que muitos municípios não atualizaram suas ocorrências após o ano de 2010 e outros municípios, como é o caso de Abreu e Lima, localizado na Região Metropolitana do Recife, que sofreu mais danos do que está cadastrado nesse sistema. Assim, todas as ocorrências devem ser registradas e armazenadas em um banco de dados, visando tanto à continuidade de trabalhos do nível desta pesquisa como à identificação de áreas críticas e melhor conhecimento da problemática da área para subsidiar as futuras intervenções.

REFERÊNCIAS

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44 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

DUARTE, C. C. Eventos extremos de chuva e análise da suscetibilidade a movimentos de massa no município do Ipojuca-PE. Tese (doutorado), Universidade Federal de Pernmabuco, CFCH, Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2015.

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______.

2015.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 45

Capítulo 4

LUGARES INOVATIVOS: CIDADE DO CONHECIMENTO E DIMENSÕES BALIZADORAS

Roberta Medeiros de Souza 5

Acredite que você pode, assim você já está no meio do caminho.

(THEODORE ROOSEVELT)

Alcançar um desenvolvimento sustentável é um desafio constante das cidades, tanto as cidades consideradas menores quanto outras com status de megalópole vivenciam tal desafio, independente do seu tamanho, certo é que, seja qual for a estratégia utilizada pela cidade para vencer os obstáculos e explorar as oportunidades, a mesma deve sustentar- se harmonicamente nas dimensões econômica, social e ambiental. Além dessas já conhecidas dimensões de desenvolvimento, as cidades estão se defrontando com uma estrutura produtiva, migrando da manufatura para os serviços, tal mudança trouxe ao debate urbano um movimento das cidades em direção a um desenvolvimento através da inovação resultante na chamada cidade do conhecimento. A cidade do conhecimento pode ser entendida como uma cidade cujo desenvolvimento se alicerça em sistemas produtivos baseados no conhecimento, e não na manufatura, consequentemente, a governança urbana deve prover um conjunto de condições e infraestrutura (PENCO, 2015) capaz de subsidiar tais sistemas produtivos. Cidade do conhecimento pode ainda ser vista como o capital estrutural que circunda o capital humano, mas também o capital relacional que conecta os capitais estruturais e humanos para prover um alto valor agregado para os profissionais do conhecimento (EDVINSSON, 2006).

5 Professora Doutora em Geografia da UFRPE, Campus Garanhuns.

46 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

A inovação, por sua vez, pode ser entendida, conforme Katz e Wagner (2014), como a criação de novas demandas de mercado ou de soluções mais adequadas aos desafios econômicos, sociais e ambientais, através de ideias, produtos, serviços, tecnologias ou processos, novos ou melhorados. Os arranjos institucionais e as estruturas físicas existentes para apoiar a inovação têm passado por alterações ao longo do tempo e, mais recentemente, os lugares começaram a ser destacados como fundamentais para o estabelecimento da dinâmica inovativa. De forma a ilustrar a tendência dessa abordagem de valorização dos lugares, Katz e Wagner (2014) definem tais lugares como innovation districts, os quais são áreas geográficas onde se ancoram instituições líderes e cluster de empresas e conexões com startups, incubadoras de negócios e aceleradoras, com estrutura física compacta, trânsito acessível e tecnicamente ligadas, e, ainda, com oferta de múltiplos usos de moradia, escritórios e amenidades. Vale mencionar que esta abordagem é possível tanto para cidades maiores quanto menores uma vez que os componentes essenciais para nutrir os innovation districts são os recursos econômicos, mais os recursos físicos, mais os recursos relacionais, ou seja, uma sinergia entre empresas, lugar e pessoas. Na busca por resultados econômicos positivos, as indústrias e empresas da economia tradicional buscam lugares onde os custos de suas instalações são menores, o que naturalmente as levam para cidades onde o valor da terra, da mão de obra, dos insumos e demais fatores de produção são mais baratos, fato que geralmente não ocorre em cidades do conhecimento. No âmbito da economia do conhecimento, as cidades do conhecimento competem por firmas e pessoas criativas e inovadoras, consumidoras de produtos e serviços diferenciados dentro de uma dinâmica socialmente justa e ambientalmente sustentável. Nesse cenário de diferentes ambientes para a economia tradicional e para a economia do conhecimento, ao mesmo tempo em que a competitividade dos agentes econômicos em ambas as economias demanda constante postura empreendedora e inovadora, percebe-se que lugares mais inovativos decorrem de uma rede de estruturas físicas e fluxos intangíveis mantidos por uma governança cuja estratégia de desenvolvimento se baseia em elementos que, quando aglomerados, favorecem a novidade.

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Não é atraente às firmas e aos trabalhadores empreendedores e inovadores se estabelecerem num lugar com degradação ambiental e desigualdade social. Portanto, a postura estratégica do agente público é essencial para a construção da cidade do conhecimento, seja explorando os recursos intrínsecos ao lugar, facilitadores dessa construção, seja direcionando a dinâmica de seus elementos constituintes de tal construção. Estudos internacionais demonstram que firmas de alta tecnologia escolheram locais onde as amenidades e qualidade de vida são abundantes e elevada (MALECKY; BRADBURY, 1992 apud PENCO, 2015; FRENKELL; BENDIT; KAPLAN, 2013). Uma vez que este tipo de firma necessita de trabalhadores diferenciados, é compreensível que tais trabalhadores escolham lugares onde encontrem diferenciados serviços e produtos, de modo que o lugar também se torna diferenciado ao ativar um círculo virtuoso de atração de talentos (EDVINSSON, 2006 apud PENCO, 2015), ao ser a escolha de muitos trabalhadores com esse perfil. Embora cidades com mais histórico de aglomeração de serviços fortemente baseados em conhecimento já detenham importantes empresas/negócios nesta área, também cidades em crescimento podem explorar as oportunidades deste novo ambiente como forma de alcançar um desenvolvimento sustentável. As cidades onde empresas baseadas em conhecimento buscam se estabelecer oferecem tanto oportunidades para produção de conhecimento quanto para consumo de conhecimento (PENCO, 2015), então é uma via de mão dupla que atrai talentos, ou seja, pessoas com perfil para este mundo de trabalho, sem perder de vista todo o conjunto de serviços agregados atrelados a esta dinâmica econômica, tais como serviços financeiros, logísticos, entretenimento, educação, moradia, lazer, etc. As preocupações relativas à melhoria da qualidade de vida em ambientes urbanos incluem uma gama de proposições tais como direcionamentos científicos e inovação tecnológica, construção de uma sociedade com informação acessível e inteligente, estabelecimento de comunidades amigáveis e boas para se viver, promoção de um equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e rural (JONG et al., 2015) dentre outros. Alinhados a esta perspectiva, os discursos dos gestores políticos passaram a incorporar diversos termos, tais como cidades sustentáveis, cidades verdes, cidades digitais, cidades inteligentes, cidades do conhecimento, cidades da informação, cidades resilientes, eco cidades, cidades de baixo carbono, ou até algumas combinações de dois ou mais termos (JONG et al., 2015).

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Enquanto academicamente os conceitos e abordagens utilizadas nas diferentes tipologias de cidade façam menção à tríade social-econômico-ambiental, uma questão permanece pairando alguns debates: Como este conjunto de conhecimento está sendo traduzido em políticas públicas de tal forma que tais teorias cheguem ao dia a dia dos cidadãos? Independente de qual seja a categoria em que uma cidade se disponha a conduzir, seu progresso às questões ambientais precisam ser explicitadas bem como a inovação não pode ficar subentendida. Jong et al. (2015) analisaram seis categorias de cidades (knowledge city, smart city, resilient city, low carbon city, eco city e sustainable city) selecionadas em vários estudos e todas elas, em maior ou menor grau de influência em suas abordagens, consideram as variáveis ambientais e inovativas fundamentos em suas estratégias de desenvolvimento para a cidade. Ainda no estudo de Jong et al. (2015), cidade do conhecimento congrega fundamentos tais como capital humano, diversidade sociocultural, equidade social e conservação do ambiente natural, dentre outros, visando a um desenvolvimento sustentável através de um processo inovativo coletivo, sobretudo entre o público e o privado, dando maior ênfase à inovação. A cidade, portanto, é o meio através do qual a sociedade alcançará seu bem-estar, daí a importância de planejar seu crescimento e desenvolvimento. Para Edvinsson (2006), cidade do conhecimento é propositalmente desenhada para encorajar e florescer o conhecimento coletivo, ou seja, o capital intelectual, as capacidades para esculpir ações eficientes e sustentáveis de bem-estar ao longo do tempo. E isso se alcança com trabalho conjunto de diferentes condutores da cidade, tais como, sociedade empreendedora, universidades, infraestrutura para trocas de conhecimento, dentre outros. A Figura 1 ilustra as relações consideradas importantes para Edvinsson (2006).

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 49

Figura 1: Relações importantes para a construção da cidade do conhecimento

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico -ambiental - 49 Figura 1:

Fonte: Da autora, adaptado de Edvinsson (2014).

Embora a evolução dos meios de comunicação tenha permitido o contato virtual entre pessoas distantes geograficamente, o contato pessoal é essencial para a transferência de conhecimento (PENCO, 2015). Os encontros não programados, os trabalhos conjuntos oriundos das dificuldades inesperadas, a aprendizagem por observação, dentre outras características dos contatos pessoais, favorecem maior intensidade das relações pessoais e, em consequência, seus conhecimentos e experiências. Há que se considerar os recursos necessários para alcançar os objetivos de uma cidade do conhecimento, mais ainda os recursos já existentes ou aqueles que precisam ser obtidos ou melhorados. Porumb e Ivanova (2014) contribuem para este olhar sobre as pessoas ao considerarem a tipologia de smart city como uma complexa rede de conexões em constante movimento e evolução influenciada pelo fluxo de um conjunto de capitais para atender necessidades de uma comunidade inovativa, cujo desenvolvimento ampara-se no conhecimento de seus recursos humanos e criatividade de sua população. Porumb e Ivanova (2014) alertam que o conhecimento precisa ser efetivamente um recurso circulante, ou seja, é necessário que ele seja repassado de um ponto a outro. Às vezes, essa circulação não acontece nem entre os atores desejados nem num tempo desejado, consequentemente, a figura de um facilitador nesse processo é bastante útil, daí a proposição do modelo Knowledge Broker Intervention Model (KBIM) para implementação

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de uma cidade mais sustentável, focando o desenvolvimento das relações entre seus componentes. A Figura 2 ilustra o modelo de Porumb e Ivanova (2014).

Figura 2: Modelo Knowledge Broker Intervention Model (KBIM)

50 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) de uma cidade mais sustentável,

Fonte: Da autora, adaptado de Porumb e Ivanova (2014).

Lugares inovativos possuem uma relação direta com sua capacidade de usufruir do conhecimento que as pessoas, bem como as organizações ali instaladas (públicas, privadas, com fins lucrativos, sem fins lucrativos, empresariais ou governamentais) possuem. Além disso, lugares inovativos também contam com diversificação econômica e atração de investimentos externos, ambas mantenedoras de processos inovadores, resultando em um clima de negócios mais vibrante (YIGITCANLAR; LÖNNQVIST, 2013). Cidade do conhecimento pode ser tomada como a institucionalização dos processos de crescimento e desenvolvimento de uma cidade, ou seja, a orientação para todos os seus componentes é de que, majoritariamente, o conhecimento será o combustível que abastecerá as relações dos seus atores sociais, cujos resultados devem refletir uma cultura de inovação embasada em sustentabilidade social, econômica e ambiental. Desde os anos 1960, muitos esforços têm sido empregados por vários países em favor de um melhor ambiente urbano, porém seus resultados e impactos não ocorreram na mesma proporção e suas limitações ainda se constituem desafios para o desenvolvimento sustentável das cidades. Diversos projetos de demonstração de desenvolvimento urbano

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foram postos em marcha especialmente a partir dos anos 1990 sob termos como eco-town, eco-cities, smart cities, dentre outros, que integram um conjunto de múltiplos usos a fim de proporcionar melhor qualidade de vida aos cidadãos por meio de planejamento e implementação ambiental com introdução de sistemas urbanos inovativos, tecnologias e governança mais adequadas. Não apenas os usos dos termos, mas principalmente seus significados, variam de acordo com os contextos geográficos e culturais, e, consequentemente, sua integração com políticas, iniciativas e programas de cada lugar (BAYULKEN; HUISINGH, 2015). Uma visão mais sistêmica na qual um conjunto de aspectos devem ser observados e trabalhados em prol do desenvolvimento urbano parece ser unânime entre os diversos estudos realizados sobre esta temática. Mais uma contribuição neste sentido é a de Yigitcanlar e Lönnqvist (2013), que estudaram as performances de nove cidades (Helsinki, Boston, San Francisco, Birmingham, Manchester, Melburne, Sydney, Toronto e Vancouver) tendo como modelo o Knowledge Based Urban Development (KBUD) (Figura 3). Neste modelo o objetivo é obter prosperidade econômica, ordem socioespacial, sustentabilidade ambiental e boa governança para as cidades, para tal consideram-se quatro dimensões:

(i) Desenvolvimento econômico, enfatiza os recursos de conhecimento endógeno como o coração das atividades econômicas; (ii) Desenvolvimento sociocultural, focado na valorização das habilidades e conhecimentos dos cidadãos para incrementar a evolução individual e coletiva de suas conquistas; (iii) Desenvolvimento urbano e ambiental, visa à conservação, desenvolvimento e integração dos ambientes naturais e construídos com vistas à construção de relações espaciais entre eles e os aglomerados de conhecimento de modo que suas consequências sejam ecologicamente adequadas, de alta qualidade, únicas e sustentáveis; (iv) Desenvolvimento institucional, voltado para os processos de aprendizagem coletiva interdisciplinar das organizações, bem como união dos atores da sociedade em prol de um planejamento que organize e facilite as bases e atividades intensivas em conhecimento.

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Figura 3: Modelo Knowledge Based Urban Development

52 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Figura 3: Modelo Knowledge Based

Fonte: Da autora, adaptado de Yigitcanlar e Lönnqvist (2013).

Campbell (2009) apresenta também uma abordagem sobre estratégia de desenvolvimento para as cidades baseadas em conhecimento, qual seja, as learning cities. A capacidade de aprendizagem das cidades reside em duas principais formas, uma delas é a informação organizada em repositórios formais acessíveis publicamente, a outra é a informação circulante contida nas relações sociais e profissionais dos atores constituintes da cidade. Destaque deve ser dado ao processo de aprendizagem, que, segundo o autor, é tão importante quanto o produto final de competitividade, e complementarmente, também merece destaque o papel do governo ao estabelecer políticas que facilitem a aprendizagem. Características associadas a lugares inovativos, tais como conhecimento, aprendizagem e criatividade, compõem uma estrutura chamada soft infrastructure (PINCH et al., 2003), atrelada também a relações de confiança, colaboração e cooperação, essas por sua vez, também se apresentam como elementos encontrados em ambientes inovativos. Segundo Campbell (2009), cidades consideradas learning cities possuem em comum a

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valorização do conhecimento e informação, por isso tais cidades criam mecanismos capazes de obtê-los para alimentar internamente seu planejamento de desenvolvimento. Diante desse contexto, cabe a todos nós pensarmos sobre o lugar onde vivemos, trabalhamos, relaxamos, enfim, nos relacionamos, tanto com os outros indivíduos quanto com o ambiente físico, e então escolhermos e estabelecermos os caminhos para nosso desenvolvimento sustentável. Todos esses estudos e debates mostram que lugares inovativos são fortemente subsidiados por sociedades intensivas em conhecimento, que, por sua vez, possuem dimensões balizadoras de múltiplos usos, tais como a econômica, a social e a ambiental, mas que também encontram alicerces mais aderentes a esta abordagem em aspectos como sua história, cultura, geografia, crenças religiosas, etnias, dentre outros. Esse conjunto delineador das características próprias do lugar proporciona maior ou menor facilidade para o que Jong et al. (2015) chamam de compreensão baseada no ser humano, nas intervenções tecnológicas beneficiadoras do bem-estar social, no crescimento econômico e na regeneração ecológica do lugar.

REFERÊNCIAS

BAYULKEN, B.; HUISINGH, D. Are lessons from eco-towns helping planners make mor effective progress in transforming cities into sustainable urban systems: a literature review (part 2 of 2). Journal of Cleaner Production, n. 109, p. 152-165, 2015.

CAMPBELL, T. Learning cities: knowledge, capacity and competitiveness. Habitat International, n. 33, p. 195-201, 2009.

EDVINSSON, L. Aspectos on the city as a knowledge tool. Journal of Knowledge Management, v. 10, n. 5, p. 6-13, 2006.

FRENKEL, A.; BENDIT, E.; KAPLAN S. Residential location choice of knowledge-workers: the role of amenities, workplace and lifestyle. Cities, n. 35, p. 33-41, 2013.

JONG, M. de; JOSS, S.; SCHRAVEN, D. et al. Sustainable-smarter-silient-low carbon-eco- knowledge cities; making sense of a multitude of concepts promoting sustainable urbanization. Journal of Cleaner Production, v. 109, p. 25-38, 2015.

KATZ, B.; WAGNER, J. The rise of innovation districts: a new geography of innovation in America. [s/l]: Brooking, 2014.

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PENCO, L. The development of the successful city in the knowledge economy: toward the dual role of consumer hub and knowledge hub. Journal of Knowledge Economy, n. 6, p. 818- 837, Springer 2015.

PINCH, S., HENRY, N., Jenkins, M. et al. From ‘industrial districts’ to ‘knowledge clusters’: a model of knowledge dissemination and competition in industrial agglomerations. Journal of Economic Geography, n. 3, p. 373-398, 2003.

PORUMB, E. M.; IVANOVA, N. V. Development through knowledge economy: Cluj-Napoca a european smart city. Management Dynamics in the Knowledge Economy, v. 2, n. 3, p. 453- 461, 2014.

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Capítulo 5

A PAISAGEM NA ESCALA DO LUGAR

Rodrigo de Freitas Amorim 6 Danielle Gomes da Silva 7

Toda a variedade de formas da paisagem é dependente de três variáveis quantitativas: estrutura, processo e tempo. (DAVIS, 1899).

INTRODUÇÃO

A busca pela individualização e entendimento dos arranjos naturais tem sua origem vinculada ao naturalista russo Dokuchaev no final do século XIX, passando, posteriormente, a ser tratada em diversos trabalhos com terminologias distintas (CAVALCANTI, 2013). No decorrer do século XX, a introdução da perspectiva dinâmica no entendimento dos processos naturais, notadamente, na Geomorfologia, passa a introduzir uma nova concepção de entendimento da unidade paisagem. Esta agora passa a ser compreendida como o resultado de um conjunto de processos ao longo de um intervalo de tempo. Sem querer adentrar em detalhes na teoria e método da Geografia, ao mesmo tempo buscando situar a presente discussão, percebe-se que quando se examinam as categorias de análises é consenso que a paisagem é uma delas e esta é a única que abrange a Geografia física. Portanto, é indispensável posicionar o estudo dos processos físicos e os ramos científicos que os examinam dentro de uma categoria de análise, tendo como base uma visão integrada. Seguindo essa linha de raciocínio, a paisagem constitui, por essência, uma categoria de análise da geografia, permitindo uma visão sistêmica da relação sociedade-natureza, seja pela intervenção humana no meio natural, seja na própria leitura e interpretação da representação dos arranjos naturais, por sobre a superfície terrestre em seus processos

  • 6 Professor Doutor do Departamento de Geografia, UFRN, Brasil

  • 7 Professora Doutora do Departamento de Ciências Geográficas, UFPE, Brasil

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dinâmicos. Todavia, a compreensão do conceito de paisagem não é consenso e diverge conforme a abordagem geográfica (SCHIER, 2003). Uma das primeiras atividades que se imputa a um iniciante na ciência geográfica, ou nas ciências ambientais de forma geral, é a leitura dentro de parâmetros científicos dos arranjos espaciais que estruturam a paisagem. Entretanto, para que a compreensão seja bem executada, exige-se uma base de conhecimento da estrutura física, incluindo o meio abiótico e biótico dos lugares, tendo como referência delineações espaciais e temporais, visualizando os processos que atuaram para a edificação da paisagem. Por ser uma ciência escalar, a Geografia está sempre exigindo o emprego da escala na leitura e compreensão de seus objetos de análises, sendo necessária a definição da escala de análise para o entendimento da paisagem. Ao pensar as paisagens como indivíduos

geográficos, elas “agregam elementos e processos com diferentes naturezas, dimensões e

durações que, relacionando-se numa determinada área da superfície terrestre, dão origem a uma unidade visível” (CAVALCANTI, 2014). Aplicando a perspectiva da escala na compreensão da paisagem, pode-se pensar desde de o global até o local. Apesar de ser um conceito basilar para o estudo da Geografia,

o conceito de lugar só passou a ter relevância para os geógrafos após a década de 1980 (HOLZER, 1999). Essa conjuntura pode estar relacionada à grande influência dos estudos regionais, já consolidados na Geografia. A sociedade cria laços com o lugar através da apropriação e identidade, sendo a paisagem um dos principais componentes de referência dessa relação de pertencimento que as pessoas têm com o meio natural. Essa relação é principalmente expressa pela denominação dos lugares, em uma leitura direta do arranjo natural, devendo ser compreendida sempre de forma não unívoca, uma vez que a sociedade também cria modificações no meio natural, especialmente na escala do lugar. Não se pretende discutir aqui o conceito de lugar tal como ele é teorizado e percebido no âmbito da Geografia humana, mas sim compreendê-lo dentro da perspectiva da Geografia física, especialmente tendo a paisagem como a categoria a ser apreendida e individualizada. Ao mesmo tempo, não constitui mister deste texto discutir a epistemologia das sínteses naturalistas conforme trabalhado por Cavalcanti (2013). Mas busca-se refletir

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sobre a forma geográfica de leitura da paisagem, tendo como critério basilar as unidades de relevo, os processos morfogenéticos e as formas de apropriação por parte da sociedade. Na mesma direção, não se busca aqui realizar uma análise em torno dos diferentes termos usados nas ciências da natureza, como fizeram Bertrand (1971) e Cavalcanti (2013), uma vez que o objetivo proposto é tentar compreender como é possível visualmente em campo tentar compreender a paisagem na escala do lugar, enfatizando seus processos genéticos e as escalas de tempo envolvidas. Ao mesmo tempo, tenta-se estabelecer uma estrutura lógica de análise visual básica para, em campo, identificar os compartimentos que não são percebidos se compreendidos no contexto regional. Para tanto, tem-se na compartimentação geomorfológica um critério-chave para a individualização da paisagem na escala do lugar, uma vez que esses compartimentos apresentam histórias de evolução particulares no que tange à sua formação como um todo no contexto regional, bem como são usados de forma diferenciada pela sociedade. Assim, almeja-se uma compreensão do lugar dentro de uma perspectiva da dinâmica geomorfológica, vista dentro da ideia de estabilidade e instabilidade da paisagem, empregando-se as escalas de espaço e tempo. Se a paisagem muda dentro de intervalos de tempo e a magnitude dos processos está associada à dimensão espacial (AMORIM et al., 2016), o lugar vai apresentar perspectivas de evolução condizentes com os processos que atuam no contexto regional. Nesse contexto, o foco deste capítulo é discutir como a paisagem pode ser compreendida na escala do lugar, tendo a compartimentação das unidades de relevo como a condicionante basilar para delimitação do critério de lugar. Para se chegar aos objetivos discutir-se-ão as dinâmicas geomorfológicas que atuam nas unidades na escala do lugar, bem como se faz uma análise rápida da importância do emprego das escalas de tempo e espaço no entendimento da discussão. Concomitantemente, vão sendo agregadas as classificações que o senso comum tem nos arranjos naturais.

A ESCALA NA ANÁLISE DA PAISAGEM

Para Castro (2010, p. 118), “a abordagem geográfica do real enfrenta o problema básico do tamanho, que varia do espaço local ao planetário”. A autora destaca que para

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resolver esse problema é necessário lançar uso do conceito de escala, não apenas como medida de proporção entre o real e sua representação, mas sim como um conceito que proporciona visibilidade ao fenômeno. Seguindo essa mesma perspectiva, toda paisagem é o resultado da atuação de diferentes processos morfodinâmicos ao longo do tempo, entretanto, sua compreensão só é possível se forem visualizadas as diferentes escalas de tempo que envolve os processos geomorfológicos. Ou seja, o que se observa é fruto de processos de esculturação do relevo que atuaram com intensidade em múltiplos intervalos de tempo. O tempo passa a ser uma variável dependente quando se pretende compreender a noção de equilíbrio nos balanços de trocas de massa e energia entre os compartimentos da paisagem (BRUNSDEN, 2001; BRACKEN, 2008). A escolha da escala é fundamental quando se faz uma ponte com o conceito de unidade-área proposto por Hartshorne, onde essa seria uma porção do território, com características próprias, cabendo ao pesquisador demarcar o melhor recorte em função do objetivo em estudo e temática analisada (FERREIRA, 2010). Esse viés demonstra bem os modelados agradacionais de encostas na região do semiárido brasileiro, onde o contexto local, morfoestrutural e microclimático, controlam a existência ou não de depósitos sedimentares. O tempo prevalece em todos os campos da geomorfologia (THORNES; BRUNSDEN, 1977) sendo responsável por obliterar e edificar novas paisagens em diferentes escalas de tempo. Por sua vez, considera-se que na escala do lugar, tomando como base formação de colúvios na região do Maciço da Baixa Verde-PE/PB, o intervalo de elaboração dos modelados de encosta opere na escala de milhares de anos e menores (CORRÊA, 2001; AMORIM, 2015).

O HOLOCENO E A EDIFICAÇÃO DE PAISAGEM NA ESCALA DO LUGAR

Dentre todos os períodos geológicos o Quaternário, e dentro deste o Holoceno, tem uma importância singular na construção de paisagens na escala local, uma vez que após o fim da última era glacial, tem-se o clima passando a se estabilizar para condições médias bem próximas da que se tem hodiernamente. É durante o Quaternário que as mudanças

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climáticas vão imprimir na superfície da terra um conjunto de modificação as quais estão hoje em evidência, as quais são apropriadas das mais diferentes formas pela sociedade. O Holoceno compreende a atual época iniciada com o fim da última era glacial, ou seja, a passagem de uma condição climática global mais fria para uma condição interglacial (mais quente). As mudanças dessa época promoveram uma significativa alteração na estrutura superficial da paisagem no planeta como um todo, especialmente no que tange ao aprofundamento dos mantos de intemperismo, erosão e formação de depósitos de encosta e planícies aluviais na região intertropical. Em diferentes regiões do Brasil é possível encontrar evidências que, ao se tentar compreender a evolução da paisagem na escala do lugar, é necessário aprofundar os estudos sobre o Holoceno. Dias e Perez Filho (2015) demonstraram que a compartimentação e a evolução dos níveis de terraços fluviais encontrados na bacia hidrográfica do rio Corumbataí/SP é o resultado de oscilações climáticas do Holoceno, evidenciando a importância dessa época para edificação da paisagem na escala do lugar. Buscando compreender melhor os eventos desencadeadores das dinâmicas geomorfológicas em escala local, Amorim (2015) agrupou as mudanças climáticas na escala 1ka como sendo de curto prazo. Para tanto, o autor identificou no Maciço da Serra da Baixa Verde, região do semiárido brasileiro, que desde o início do Holoceno, sedimentos têm sido gerados e evacuados das encostas, gerando depósitos coluviais e aluviais, desde finas camadas a pacotes de 5 m de espessura, por vezes intercalados por cascalheiras matriz suportadas.

UMA APLICAÇÃO DO CONCEITO

Partindo de uma perspectiva da geografia regional, buscar-se-á enquadrar a concepção da paisagem na escala do lugar de forma prática. E para se chegar a resultados satisfatórios, começa-se pelo entendimento do semiárido nordestino, marcado por uma estação seca dilatada e precipitações espasmódicas, com alta magnitude e baixa recorrência; em um quadro natural com grande variedade de feições geomorfológicas que se justificam pela atuação do binômio dos fatores estrutura-clima.

60 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Em toda a região, maciços cristalinos se ressaltam na superfície quebrando a monotonia da paisagem. Destacadamente o Planalto da Borborema constituído de maciços arqueanos remobilizados, sistemas de dobramentos brasilianos e intrusões ígneas neoproterozaicassin-tardie pós-orogênicas (CORRÊA et al., 2010), configura-se como o principal compartimento geomorfológico do Nordeste brasileiro. Dentro do Planalto da Borborema, os maciços residuais apresentam uma condição microclimática diferenciada, criando pequenos espaços com precipitações mais elevadas e uma diminuição da temperatura, destoando do entorno semiárido. Dentre as áreas mais elevadas destaca-se o Maciço da Serra da Baixa Verde (Figura 1) entre os Estados de Pernambuco e Paraíba, configurando-se como uma superfície topograficamente elevada cujos componentes naturais mantêm uma relação mútua muito característica do clima tropical subúmido. Trata-se de uma área com níveis superiores a 850 m onde a altitude, conjugada com os ventos alísios do anticiclone subtropical do Atlântico Sul, resultam em núcleos de temperaturas mais baixas (CORRÊA, 2001; AMORIM, 2015).

Figura 1: Localização do maciço da Baixa Verde PE/PB

60 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Em toda a região, maciços

Fonte: Autores.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 61

As áreas elevadas do domínio da Borborema e cimeiras dos maciços antigos,

formam uma paisagem de exceção, também conhecida como brejos de altitude, na forma de

ilhas de umidade que se inserem no conjunto do semiárido nordestino (AB’SÁBER, 1974). A

exceção se dá pelo aumento da pluviosidade e temperaturas mais baixas que o entorno, cobertura vegetal mais desenvolvida e nos usos do solo. A partir do exposto, foi elaborado um transecto A-B (Figura 2) abrangendo os principais compartimentos geomorfológicos do Maciço da Serra da Baixa Verde, com o propósito de especificar quais os compartimentos podem ser discernidos na escala do lugar. Ao todo foram identificados seis compartimentos geomorfológicos, os quais apresentam uma morfodinâmica superficial própria, distinta das unidades lindeiras.

Figura 2: Transecto do Maciço da Baixa Verde representando seus principais compartimentos geomorfológicos

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico -ambiental - 61 As áreas

A) Pedimentos; B) Encostas sem cobertura coluvial; C) e D) Cimeira; E) Encosta rochosa com inclinação acima de 40%, e F) Encostas com cobertura coluvial e planícies.

Fonte: Autores.

62 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Utilizando o perfil topográfico (Figura 2) dividiu-se o mesmo em diferentes compartimentos, empregando o conceito de paisagem na escala do lugar. No primeiro compartimento (Figura 2A), tem-se a visualização bem delimitada entre o pedimento e as encostas com cobertura coluvial, cujo jargão sertanejo classifica como “pé da serra”. Essa é uma unidade muito utilizada para agricultura de sequeiro, onde os pequenos agricultores aproveitam o manto de intemperismo mais aprofundo e uma amenização das temperaturas para o plantio de milho e feijão, principalmente. À medida que se afasta do maciço há uma diminuição na profundidade das coberturas intempéricas e, ao mesmo tempo, vai ocorrendo a aridificação do clima. O pedimento caracteriza-se pela presença de solos do tipo Neossolos Litólicos, por vezes recobertos por mantos detrítico intercalados por afloramentos de rochas. Apresenta baixa variação topográfica com interflúvios, de feições predominantemente colinosas e truncamentos indistintos de origem litoestrutural, retrabalhados pela erosão aerolar, com desenvolvimento de superfícies pediplanisadas (AMORIM, 2015). As encostas variam de retas a convexas e em menor número côncavas, com processos erosivos do tipo laminar e linear, porém, as feições lineares são pouco significativas em razão da baixa profundidade do solo.

No segundo compartimento (Figura 2B) tem-se a unidade encosta sem cobertura coluvial, nela a junção entre o clima semiárido e a elevada declividade não possibilita o desenvolvimento do manto de intemperismo. Predominam os processos erosionais, com queda de blocos e remoção contínua do material desagregado. Como consequência, a cobertura vegetal é dominada pelas gramíneas, com presenças isoladas de arbustos e algumas árvores, onde o controle estrutural permite maior retenção dos sedimentos. Regionalmente utiliza-se o termo aba da serrapara denominar esse compartimento. A origem do termo muito provavelmente é vinculada a uma analogia com a aba de um chapéu, uma alusão direta entre os formatos da serra e do chapéu. Entre a cimeira e as encostas sem cobertura coluvial a declividade do terreno diminui e as encostas passam a ser recobertas por mantos de intemperismo mais espessos, por vezes é possível encontrar depósitos de colúvio (Figura 2C). Essa unidade comporta uma vegetação mais densa, com a presença de árvores bem desenvolvidas. O processo de ocupação do maciço tem influenciado na construção de residências nessa unidade,

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 63

especialmente aproveitando a vista da paisagem e a ventilação direta dos ventos alísios. O sertanejo designa essa parte como sendo a “aba da serra”, tal como na unidade anterior. O quarto compartimento, a cimeira (Figura 2D), compreende o topo do maciço, nele há uma diversidade de compartimento menores especialmente controlados pela estrutura de falhas do maciço. Situada acima dos 900 m de altitude, apresenta uma superfície variando de suavemente ondulada a ondulada, com topos concordantes e blocos rochosos formando matacões, o que causa a falsa impressão da existência de uma superfície plana. As encostas são, em sua maioria, desprovidas de cobertura sedimentar, e apresentam formato convexo (AMORIM, 2015). Para Corrêa et al. (2010), as cimeiras são classificadas com unidades micromorfoestruturas, enquadrando-se nessa classe também os grábens de expressão local. Trata-se de uma superfície que tem passado por intenso processo de dissecação nas diferentes épocas do cenozoico. Popularmente conhecida como “chã” ou “topo da serra”, apresenta o maior volume de precipitação e as menores temperaturas, favorecendo o desenvolvimento de atividades agrícolas que não são possíveis no entorno, tais como plantações de café. No que tange aos usos, as cimeiras são as áreas onde se encontra maior complexidade, típica do ambiente serrano do “brejo” com predomínio das propriedades produtoras de subsistência, construção de moradias e segunda residência (AMORIM, 2015). Os interflúvios tabulares estão genericamente recobertos pela cana-de-açúcar e os estreitos vales que os separam, às vezes com encostas recobertas pelos preenchimentos coluvionares, são intensamente ocupados por sítios policultores. Como forma de barrar a acelerada perda de solo, os agricultores têm construído muros de pedras acompanhando as curvas de nível na tentativa reter os sedimentos e conter a erosão. A Figura 2E mostra uma quebra abrupta entre a cimeira e as encostas com cobertura coluvial. Popularmente esse compartimento é conhecido como quebrada da serra”, é nele que se localizam as incisões verticais da drenagem que vão dissecando o maciço. Esses canais de primeira ordem, hollows, ocorrem principalmente em falhas o que promove um aumento do aprofundamento vertical. As incisões da drenagem são conhecidas regionalmente como “grotas”.

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O último compartimento, as encostas com cobertura coluvial (Figura 2F), ocorrem circundando a unidade de cimeira, apresentando modelado variando de retilíneo a convexo, resultando em superfícies transitando de suaves a onduladas. A presença de cobertura sedimentar está relacionada à influência da pluviometria das áreas de cimeira, contudo, os depósitos de colúvios apresentam-se mais delgados do que os depósitos existentes na unidade imediatamente superior. Na base dessa unidade ocorrem áreas rebaixadas por onde corre a drenagem. Tavares (2015) destaca que o rebaixamento dessa área está compreendido em uma depressão interplanáltica, cuja origem tectônica é apresentada devido à presença de uma falha transcorrente dextral. Popularmente esse compartimento é conhecido como área de brejo, especialmente pela existência de nascente que vertem água ao longo do período seco. A substituição da vegetação natural por plantios de cana-de-açúcar tem promovido um intenso processo de voçorocamento e secagem das nascentes. As unidades geomorfológicas acima descritas fornecem uma ideia dos processos funcionais que ocorrem em áreas elevadas do Planalto da Borborema no semiárido nordestino. Cada unidade identificada apresenta um conjunto de relações entre os componentes da paisagem, mas isso não significa que os limites entre os regimes climáticos semiárido e subúmido atuais são limites para os processos naturais de superfície terrestre, tendo em vista que as interações entre as mudanças temporais de longo e curto prazo nos processos geomorfológicos no Quaternário tardio na região são visíveis ainda hoje na paisagem. Cada unidade apresenta processos morfodinâmicos distintos que as individualizam e por sua vez são apropriadas de formas distintas pela sociedade. Essas formas de apropriação criam vínculos os quais são principalmente expressados nas formas de denominação dessas unidades. Ou seja, o conhecimento popular também individualiza a paisagem criando laços afetivos, que estão na base da construção do lugar. Esse é agora social, uma vez que os processos físicos passam a ser vistos dentro de uma perspectiva de uso e apropriação simbólica. Ressalta-se ainda que há necessidade dos textos que versam sobre a discussão ambiental apresentarem uma percepção maior da leitura da compartimentação geomorfológica na escala do lugar, e consequentemente, quando inseridos os demais

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componentes da paisagem, uma leitura dos arranjos naturais e sociais em uma escala adequada.

POSSÍVEIS DESDOBRAMENTOS DA DISCUSSÃO

Quando se busca compreender os arranjos naturais em escalas adequadas aos diferentes tipos de uso, empregando a relação entre os conceitos de lugar, paisagem e escala, observa-se que só quando dominamos esses conceitos é possível perceber as sensíveis nuances na estrutura da paisagem na escala do lugar. É imprescindível perceber que as formas e estrutura que compõem a paisagem são resultados de processos, e esses têm, obrigatoriamente, de serem interpretados, sob pena de se estar trabalhando dentro de uma perspectiva meramente descritiva. Ou seja, a simples descrição de um compartimento geomorfológico: forma, textura e profundidade dos sedimentos não permite identificar qual unidade está sujeita aos tipos de processos morfodinâmicos, tais como erosão e deposição. A leitura da paisagem na escala do lugar se aplica perfeitamente no zoneamento ecológico-econômico, o qual muitas vezes ressente-se de uma discussão teórica mais aprofundada dos critérios que foram empregados na individualização das unidades estabelecidas. Não apenas no que tange às variáveis que foram agrupadas para se chegar a determinada unidade, mas em compreender dentro de uma perspectiva geomorfológica que tipo de dinâmica atuou e tem atuado naquele compartimento, sempre destacando as escalas dos processos envolvidos. A leitura e compreensão da paisagem na escala do lugar atende a um conjunto de finalidades, seja na gestão do território (dentre as suas várias modalidades, notadamente a de caráter ambiental), bem como na docência, a partir da percepção e integração de um conjunto de elementos, que juntos criam uma unidade passível de individualização, possibilitando infinitas aplicações práticas de ensino, como a identificação de como a sociedade se apropria de forma diferenciada dos compartimentos do relevo. Para um professor de Geografia, que leva os seus alunos a conhecer determinada região, ter um conjunto de parâmetros estabelecidos voltados ao reconhecimento das diferentes escalas espaço-temporais, que formam a paisagem, possibilita estabelecer uma

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estratégia de ensino mais didática aos alunos. Ou seja, sempre que ouvimos uma história bem contada com início meio e fim, temos maior capacidade de compreender todos os fatos narrados, ao passo que nos afastamos das meras descrições de personagens na aludida história.

É importante que a leitura que se faz da paisagem na escala do lugar não seja centrada em uma análise per se, é preciso ir além e estabelecer relações hierárquicas crescentes de decrescentes com o contexto maior, até se chegar a uma compreensão da forma atual, buscando identificar o encadeamento de processos que concorreram para construção do que hoje está em evidência, deixando de lado análises meramente classificatórias da paisagem.

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Capítulo 6

ONDE E QUANDO: O LUGAR DO ESPAÇO E DO TEMPO NO ESPAÇO-TEMPO

Irami Buarque do Amazonas 8

O idioma da natureza é a matemática. As letras desta língua são círculos, triângulos e outras figuras geométricas. (GALILEU GALILEI).

Clouds are not spheres, mountains are not cones, coastlines are not circles, and bark is not smooth, nor does lightning travel in a straight line. (MANDELBROT, 1982).

INTRODUÇÃO

Os dois pensamentos que iniciam esse capítulo refletem três características básicas da evolução do pensamento científico no campo das ciências ditas naturais, quanto à forma correta de descrever o espaço e às formas que nos rodeiam: a primeira é que a matemática sempre esteve presente na tentativa de compreender e/ou descrever a natureza. A segunda é que a matemática, apesar de historicamente já ter sido considerada distinta da geometria, não prescinde desta a ponto de confundirem-se uma com a outra. Não há geometria sem matemática e matemática é uma geometria. Finalmente, como seria de esperar, mostram que as ideias evoluem. Não necessariamente se contradizendo, senão se complementando ou aprimorando. A geometria utilizada no século XIV pelo filósofo (Filosofia da Natureza era como se chamava a Física à época) italiano Galileu Galilei, para representar seu sistema de mundo, foi a geometria euclidiana. O curioso, então, é observarmos como um dos maiores matemáticos do século XX, principal criador da Geometria Fractal, uma das vertentes das ditas geometrias não euclidianas, faz referência claramente discordante ao pensamento galileano ao sugerir que

na natureza não existem as figuras geométricas “perfeitas” de que Euclides falava.

8 Professor Doutor em Tecnologias Energéticas e Nucleares da UPE / Campus Garanhuns

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Neste capítulo pretendemos discorrer brevemente sobre as diversas formas pelas quais o homem tem entendido e mensurado o espaço desde suas concepções mais mecanicistas explicitadas pela visão aristotélica de mundo. Evoluímos para uma concepção filosófica de implicações científico-tecnológicas, no que se convencionou chamar de continuum espaço-tempo, passando por aplicações práticas, como nas curvas geodésicas que motivaram a definição de coordenadas geográficas e no sistema de localização no globo terrestre, o GPS (Global Positioning Sistem). Finalmente, discorreremos sobre o papel holístico que exercemos enquanto espécie topo da cadeia alimentar, frente à presença e ocupação humana do meio ambiente de todos os ecossistemas deste planeta vivo Gaia, o único até agora descoberto, nossa aldeia global, nosso lugar, nosso lar, mas também o hábitat de incontáveis espécies de seres cuja real interdependência talvez ainda não tenhamos tomado a devida e completa consciência. O grande desafio aqui consiste, portanto, em expressar essas ideias de forma compreensível e sem perda de rigor conceitual, ou com alguma limitação tolerável, sem lançar mão da linguagem mais correta para tal, que é a linguagem matemática. Por outro lado, tratando-se de um texto de caráter geral e assumindo-se uma abordagem inicial do tema, podemos prescindir das equações, ficando apenas com as ideias que, apesar da não matematização, podem e devem ser abordadas a título de informação, erudição e motivação para aprofundamentos ulteriores. Nesse sentido, cremos lograr êxito em dialogar com o leitor sobre o tema do espaço (e do tempo) que, a despeito da aparência de trivialidade, dado estar intuitivamente presente em nosso quotidiano, está muito longe do lugar comum, tendo profundas implicações filosóficas, científicas e tecnológicas, o que gera dificuldades conceituais contundentes, haja vista que certas situações práticas decorrentes da tecnologia atual, a noção de espaço-tempo mostra-se completamente contraintuitiva. Eis que o desafio está posto à mesa! Sirvamo-nos e degustemos deste prato de entrada, na convicção que o leitor seja despertado (se já não o foi) para estudos mais avançados rumo a outras dimensões.

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O ONDE E O QUANDO INTER-RELACIONADOS

É bem provável que, anteriormente à questão da forma do meio ambiente, o interesse do pensamento humano tenha recaído sobre a noção do lócus, um dos primeiros problemas de sobrevivência de nossa espécie e um dos conceitos fundamentais da ciência do movimento, a Mecânica. A filosofia grega tem nos legado contribuições em todos os ramos do saber, mesmo quando suas concepções foram superadas por estarem incorretas. É o caso da concepção aristotélica de mundo, a respeito do lugar natural das coisas. Segundo sua filosofia natural, haveria duas físicas ou mecânicas: a terrestre e a celeste. Assim, explicava que o lugar natural dos graves (corpos pesados) era a terra, por isso caíam. E também que os corpos mais pesados eram mais propensos a cair mais rápido, a fim de voltar ao seu lugar natural, pois tinham maior propensão devido à massa maior. Essas concepções foram refutadas com os experimentos de Galileu sobre a queda dos corpos, inaugurando o chamado método científico, do qual o método experimental constitui uma parte expressiva. A velha concepção grega dos quatro elementos: terra, fogo, água e o ar como constituintes de todas as substâncias do universo, estão no bojo da noção de lugar dos gregos. A água e a terra, por serem elementos telúricos, tinham seu lugar natural na terra. Já o fogo e o ar, por serem elementos celestes, etéreos, tinham como lugar natural na esfera celeste e, por isso, tenderiam a subir para ocupar essas instâncias. Foram necessários séculos para que a humanidade conseguisse acabar com essa distinção entre o lugar celeste e o lugar telúrico, tendo o católico italiano Galileu Galilei e o protestante anglicano Isaac Newton contribuído decisivamente para unificar as mecânicas celeste e terrestre, de modo que as leis da natureza pudessem ser compreendidas como as mesmas em todo o universo. Portanto, segundo a nova visão não aristotélica de mundo, o lugar celeste e o lugar terrestre poderiam ser pensados, tratados e mensurados pelos mesmos métodos, quer fossem medidos sob o ponto de vista de um observador na Terra, quer observados de algum outro lugar, mesmo no céu. Como as leis da mecânica, que descrevem as posições, os deslocamentos e

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durações dos eventos são as mesmas, independente dos observadores, dizemos que tais leis da mecânica são invariantes por uma transformação de coordenadas. Aqui devemos avaliar que a localização é algo que não está, como à primeira vista possa parecer, restrito apenas à uma referência espacial; a localização deve se referir também ao momento temporal em que o posicionamento de um corpo é identificado. Saber onde estamos (o lócus) é a informação mais básica para saber para onde vamos e, subjacente à problemática de estabelecer o lugar, implicitamente estão postas as questões relativas ao quando (o cronos). Mas o fato é que estamos não apenas onde, mas também quando estamos, quando vamos e quando chegaremos. Atrelada a essas questões de ordem mais prática, está uma problemática teórico-metodológica, que é a descoberta ou criação de um método capaz de resolver o problema da localização e, posteriormente, da demarcação dos espaços. Dado um espaço temporal, como reconhecer formas e mensurar espaços é a questão central no bojo da presença humana no meio ambiente do qual faz parte, exercendo o papel de ator e expectador, simultaneamente. Assim, com ajuda da Física Clássica, galileana/newtoniana, o problema de se especificar o lugar e posteriormente os deslocamentos, ocupações e delimitações espaciais e temporais, foi bem resolvido até o século XIX, considerando, para isso, a métrica do espaço euclidiano, cuja Geometria serviu de base para toda nossa Geografia, Engenharia e diversas outras áreas do conhecimento. Com auxílio da ciência das medidas da Terra, cujas leis foram axiomatizadas na famosa obra Os Elementos, de Euclides, legado de dois milênios, foi equacionado o problema de localizar os corpos em algum lugar no espaço, feito que teve grande influência no desenvolvimento da chamada Mecânica Newtoniana, que considera o tempo como um ente absoluto, invariável, transcorrendo sempre em um único sentido, do passado para o futuro. Foi utilizando este conceito de tempo absoluto que Newton acabou por formalizar o que matematicamente é conhecido por transformações de Galileu, que permitem localizar, deterministicamente, a posição de um corpo em um sistema de referência (S’), comparando- o a outro referencial (S), em repouso ou em movimento, relativo a este, em linha reta e com velocidade de magnitude constante. Tais referenciais, nos quais os eventos mecânicos ocorrem no espaço e no tempo absoluto e nos quais são válidas as leis da mecânica, são

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chamados de inerciais ou galileanos. No final do século XIX para o começo do século XX a humanidade vivenciou um verdadeiro renascimento de ideias, crenças, evoluções e amadurecimento em uma escala global, de tal magnitude que muitos dogmas solidamente estabelecidos, até os de natureza científica, foram postos à prova. Assim também ocorreu com os métodos de mensuração dos espaços por meio das transformações de Galileu. Nomes com o do famoso físico alemão, naturalizado americano, Albert Einstein entram em cena, ao questionar alguns desses “dogmas” e ajudar a criar a chamada Teoria da Relatividade, em dois momentos: a relatividade restrita, em 1905, e a relatividade geral, em 1915. Na ciência em geral ninguém faz tudo sozinho, de modo que o postulado einsteiniano, nada intuitivo, de que a luz viaja com a mesma velocidade em qualquer direção, independentemente do referencial adotado e, portanto, contrariando o princípio da relatividade de Galileu expresso pelas suas famosas transformações de Galileu, era um fato experimental que já havia sido descoberto de maneira independente e anteriormente, pelos americanos Michelson e Morley. Um resultado impactante neste contexto foram as chamadas transformações de Lorentz que substituem as transformações de Galileu como as formas corrigidas de mensurar os espaços e os tempos, agora ditos relativísticos, quando do domínio das grandes velocidades, comparáveis à da luz. Aqui nascem as ideias acerca do chamado espaço quadridimensional. A Física clássica, de Galileu e Newton, concebe o espaço como sendo tridimensional, no sentido de que são necessárias três coordenadas espaciais, comprimento, largura e altura, para descrevê-lo completamente. Independentemente destas, existe o tempo absoluto que transcorre simultaneamente em todos os lugares e constitui a quarta dimensão. Entretanto, as pesquisas que culminaram com a proposição, e ulteriores comprovações experimentais diretas e indiretas, da teoria da relatividade levaram a crer que o que entendemos por espaço é uma entidade quadridimensional, do qual o tempo, a quarta dimensão, não apenas está relacionado, mas faz parte íntima e indissociável deste tecido contínuo quadridimensional chamado, então, de espaço-tempo. Assim é que, a partir do estabelecimento das transformações de Lorentz

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verificaram-se fenômenos estranhos à experiência intuitiva da contagem da passagem do tempo e da localização e medida dos espaços. O tempo e o espaço absolutos newtonianos são apenas boas aproximações quando mensurados em referenciais inerciais (galileanos) no domínio das baixas velocidades relativas. Porém, quando essas grandezas são tomadas em referenciais que se movem a grandes velocidades relativas um ao outro, não há simultaneidade dos relógios em ambos os referenciais, os comprimentos sofrem contração (de Lorentz) quando medidos na mesma direção do movimento, o tempo se dilata ... Apesar de estranhas, essas ideias encontraram rapidamente, desde os primórdios de seu nascimento, fartas comprovações experimentais diretas e embasamento lógico- teórico consistentes, além das comprovações indiretas decorrentes dos resultados tecnológicos, alguns já comuns em nossos dias, que se baseiam nas chamadas correções relativísticas do espaço e do tempo. Tanto que produtos tecnológicos, como, por exemplo, o chamado relógio atômico, que é usado para definir a hora universal, só foi possível a partir da correção relativística do atraso decorrente do seu movimento relativo, haja vista os espaços serem relativos e sua medida dependente das velocidades. Outra aplicação do conceito de um espaço-tempo contínuo e acoplado que afeta o nosso cotidiano é a precisão do GPS, Sistema de Posicionamento Global, que necessita além de três coordenadas espaciais de mais uma temporal, todas corrigidas pela contração dos espaços e dilatação dos tempos relativísticos. E a aventura humana no campo do saber não para por aí, de modo que novas incursões existem, procurando entender como se dá a própria criação do espaço (e do tempo), à medida que o Universo se expande! Qual é o nosso lugar no espaço (e no tempo)? O quando é, portanto, imprescindível para entendermos o onde, o nosso lugar no espaço- tempo.

GEOMETRIAS PARA NATUREZA

Talvez o leitor já tenha conhecimento do clássico problema da “cor do urso”.

Consiste na seguinte descrição de uma viajem hipotética, que versa sobre os conceitos de

localização, georreferenciamento, coordenadas esféricas, geodésicas.

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Um urso saiu de sua casa e caminhou 1000 km ao sul. Depois virou ao oeste e caminhou por 1000 km. Então virou novamente e caminhou 1000 km ao norte. Qual não foi a sua surpresa quando achou que voltara novamente para a sua casa. Qual é a cor do urso?

Imaginando como poderia ser possível ao urso retornar à sua casa (local de partida = local de chegada) seguindo os movimentos descritos no problema, chegamos a um impasse na Geometria Euclidiana. O problema em questão é insolúvel nos moldes do pensamento cartesiano e está em desacordo com o 5º postulado de Euclides, também chamado de axioma das retas paralelas que, dentre outras formas, pode ser enunciado em linguagem mais fiel à original e de outra forma mais atual como (AMAZONAS, 2011).

Se uma reta cortar duas outras retas de modo que a soma dos dois ângulos internos de um mesmo lado seja menor do que dois ângulos retos (180 o ), então os prolongamentos dessas duas retas cruzam-se do mesmo lado em que estão esses dois ângulos.

Ou, ainda,

Por um dado ponto do plano, fora de uma reta, passa uma única reta paralela a essa reta dada (ou, retas paralelas em um plano são tais que seus prolongamentos não se cruzam). (Idem).

Uma consequência desse postulado é que em um triângulo, a soma dos ângulos internos dá exatamente 180 o . Como no caso do problema da cor do urso a trajetória sugere que a área percorrida é triangular, temos a seguinte incompatibilidade: Se ele saiu de um lugar mais ao norte, desceu para um ponto mais ao sul quando tornou para o oeste, então essas duas trajetórias são perpendiculares, ou seja, suas direções formam um ângulo de 90 o entre si.

Ora, neste caso, temos duas conclusões possíveis: (i) ou ele volta ao ponto de partida, formando a trajetória triangular, por uma direção não perpendicular à leste-oeste ou, (ii) ele tenta (mas não consegue) voltar por um trajeto sul-norte e, neste caso não volta ao ponto de partida, pois os caminhos de ida e de volta são paralelos, conforme ilustrado na Figura 1a. A parte b da Figura 1 mostra que, se o urso volta ao ponto de partida, em uma geometria plana o caminho de volta não pode ser para o Norte, mas na direção nordeste.

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Haveria uma forma de contornar este problema? Como se poderia modificar o postulado das paralelas, de tal maneira que o problema do urso tivesse solução? Em um contexto real isto poderia ocorrer. Então, a que “geometria” devemos nos reportar para explicar este fato? Qual a representação geometricamente mais correta para a trajetória do urso?

Figura 1: Ilustração do problema do urso

N N N Chegada Partida Partida = Chegada O S O S a) b)
N
N
N
Chegada
Partida
Partida = Chegada
O
S
O
S
a)
b)

Fonte: Autor, 2016.

N S O c)
N
S
O
c)

Finalmente, a solução correta exige a adoção de uma geometria esférica, como ilustrado na Figura 1c. Ou seja, se o urso realmente volta para casa, é um urso polar e sua cor é branca. Essa seria a solução da charada, mas persiste o problema de como é possível o urso ter voltado ao ponto de partida (desconsiderando tanto as questões biológicas da resistência real do animal e as escalas de medida!) seguindo a trajetória proposta. A única solução para resolver tal impasse é nos desvencilharmos das amarras da geometria plana, vinculada ao clássico postulado, e pensarmos em termos de uma Geometria não-euclidiana ou pseudo-euclidiana, como fez Bernhard Riemann (1826-1866). Fundador da chamada Geometria Elíptica, Riemann contraria o axioma das paralelas ao estabelecer a não existência de retas paralelas a uma reta dada. A nova geometria riemanniana parte da superfície de uma esfera como plano e

define os pontos como as posições nesta superfície em que se cruzam as “retas”, que são os

círculos máximos chamados geodésicas sobre a esfera e a dividem em duas partes iguais, o que equivale às coordenadas de latitude e longitude.

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Tais círculos máximos traçados na esfera são os caminhos de menor curvatura possível e comparam-se às retas do plano euclidiano, onde a menor distância entre é uma reta.

A história da matemática demonstra que é devida à Gauss (1777-1855) a primazia de registrar a não universalidade do postulado das paralelas segundo o qual, dado um ponto (lugar) não pertencente (fora de) a uma reta (trajetória), existe única reta paralela à reta dada.

Este fato, segundo observado por Gauss, é restrito às superfícies planas, enquanto para o espaço tridimensional pode não existir nenhuma (Superfície de Riemann) ou infinitas paralelas (geometria de Lobachevisky).

GEOMETRIA FRACTAL: A VERDADEIRA MEDIDA DA NATUREZA?

Vimos que o entendimento humano acerca do lugar e das formas corretas de caracterizá-lo evoluiu desde a concepção filosófica aristotélica de lugar telúrico e lugar celeste, passando pela axiomatização euclidiana e sofrendo, desde então, uma ruptura com as geometrias as geometrias elíptica (de Gauss-Riemann) e hiperbólica (de Lobatchevski- Bolyai), inaugurando o que se convencionou denominar de geometrias não euclidianas. Acontece que há outras formas de pensar forma e lugar, sendo que a geometria euclidiana não é a mais próxima da representação das reais nuances das formas geográficas, biológicas, enfim naturais. Como podemos, então, caracterizar a geometria real, dos objetos encontrados na natureza? Na Geometria (a euclidiana), com a qual estamos familiarizados, temos formas simples e bem conhecidas, como: retas, quadrados, círculos, cones, paralelepípedos, pirâmides, sólidos poliédricos de diversas formas e propriedades. Calculamos suas medidas de comprimento, área e volume, diversas propriedades e relações entre suas partes constituintes. Mas ela completa-se em si própria e permite uma real descrição do espaço em nossa volta? Desde a publicação da obra Elementos, os matemáticos procuraram, sempre frustrados, demonstrar o quinto postulado por meio dos quatro anteriores, transformando-o em teorema, sob argumentação de não ser intuitivo, por exemplo.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 77

Apenas sob a negação deste postulado foi que se chegou ao desenvolvimento da primeira Geometria não euclidiana, uma nova geometria cuja descoberta é atribuída principalmente a três grandes matemáticos: ao alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855), o russo Nicola Ivanovich Lobachevsky (1793-1853) e ao húngaro, Janos Bolyai (1802-1860). Entretanto, muitos problemas tanto do cotidiano quanto do mundo científico e tecnológico não podem ser resolvidos pela geometria euclidiana, apenas com o uso de geometrias que não satisfazem um ou mais dos postulados de Euclides. Dentre as chamadas geometrias não euclidianas, podemos citar a Hiperbólica, a Elíptica, a Geometria Projetiva, a Topologia e a Geometria dos Fractais, esta última baseada não na questão das paralelas, mas na ideia de dimensão já bastante sedimentada em nossas mentes devido ao modo euclidiano/cartesiano de pensar o espaço e sua caracterização. As formas de dimensão fracionária ou fractais apresentam características especiais que as definem e distinguem das formas euclidianas, como a autossimilaridade em diferentes níveis de escala (embora não aplicável a todos os fractais). Atualmente, a ideia de dimensão fractal vem sendo utilizada em diversas áreas do conhecimento, em especial no estudo de sistemas caóticos (padrão de formações de nuvens, p. ex.); representação de lugares geográficos, como montanhas e contornos de continentes e até análise e reconhecimento de padrões em imagens (e rostos) etc. Como mencionado no início deste capítulo, não há como chegar a qualquer forma de descrever a natureza sem lançar mão da matemática e, como não poderia deixar de ser, no estudo dos fractais surgem nomes de grandes matemáticos como Cantor, Koch, Sierpinski, Menger, Júlia e, é claro, o próprio Mandelbrot, principal expoente dessa nova geometria. As representações de lugar, forma, interações sociais e ecológicas podem seguir diversos modelos, desde imagens nascidas puramente na psique humana, traduzidas em conceitos e ideias filosóficas até as pictóricas materializações de modelos matemáticos que pretendem representar o lócus ambiental da forma o mais fidedigna e realística possível. Assim ocorre, por exemplo, com a chamada geometria fractal, de Mandelbrot, como ilustrada na Figura 2.

78 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Figura 2: Ilustração de um mapa e uma ilha fractais

78 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Figura 2: Ilustração de um
78 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Figura 2: Ilustração de um

Em a) temos um conjunto de Julia, e na parte b) Mandelbrot, construídos com o software Fractive. Fonte: Autor, 2016.

A Figura 2a) ilustra uma aplicação do Conjunto Fractal tipo Julia com parâmetros X= 0,1 Y=0,7, na variante normal de expoente real = 2,6. Observe a verossimilhança com um mapa de uma possível ilha real, com seus contornos, tonalidades e acidentes geográficos. Trata-se de uma modelagem realizada pelo autor com auxílio de um código de computador. A parte 2b) mostra o correspondente fractal tipo Mandelbrot na variante absoluta de expoente Real = 1,9, reproduzindo uma ilha ou um banco de areia.

O ESPAÇO E O TEMPO COMO UM CONTINUUM INDISSOCIÁVEL

O filósofo Immanuel Kant justificou que o espaço que podemos investigar por meio de experiências não metafísicas tem apenas três dimensões espaciais basicamente devido à lei da gravitação universal que prevê um campo de forças central atrativo entre os corpos, cuja magnitude é proporcional ao inverso do quadrado da distância que os separa. Apesar da importância histórica, tal argumento troca a causa pelo efeito, à medida que é lei da gravitação que resulta da tridimensionalidade do espaço e não o contrário. Assim, de uma forma mais genérica, um espaço quadridimensional teria uma atração gravitacional variando com o inverso do cubo da distância. É claro que o modo cartesiano de entender e mensurar o espaço, tridimensional, continua válido e é de uso corrente em nosso dia a dia, como um paradigma que, a despeito de talvez não poder ser quebrado, poderá ser aprimorado, evoluído. E essa evolução pressupõe o reconhecimento da dimensão temporal como integrante do lócus das nossas experiências em termos de realidade objetiva.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 79

Com efeito, define-se o continuum espaço-tempo como um ente que é constituído pelas três dimensões do espaço juntamente com a única dimensão temporal tendo, portanto, uma estrutura quadridimensional. Este novo e surpreendente conceito de espaço e do tempo como duas propriedades físicas unificadas é devido ao físico Hermann Minkowski (1908), surgido após apresentação da teoria da relatividade restrita por Poincaré e Einstein em 1905. Aqui é importante salientar que a nossa experiência imediata não parece gritantemente afetada por essa característica fundamental da natureza, que se torna evidente apenas no domínio de grande velocidade (relatividade restrita) ou numa escala espacial perceptível em termos astronômicos (relatividade geral). Nesses casos, não é possível distinguir o espaço do tempo como ocorre na teoria galileana e newtoniana.

O HOMEM, SEU PAPEL E SEU LUGAR NO ESPAÇO E NO TEMPO

Neste tópico, para além dos conceitos e definições técnico-científicas de espaço (e tempo), pretendemos discutir um pouco acerca do significado de lugar numa perspectiva mais holística, integrada, apontando que a relação homem-natureza, assim como a concepção moderna de espaço-tempo, é algo altamente interdependente e, como tal, deve ser entendida de maneira integrada. Existe um texto indiano do 5º século chamado Vissudhimagga que ilustra bem a ideia de que todas as partes são, em seu conjunto localizado e funcional, efetivamente o todo. O texto propõe o seguinte enigma: "Onde, exatamente, fica aquilo que chamamos de 'carruagem'? Nos eixos, nas rodas, na estrutura? Ou seria nas hastes que a conectam ao

cavalo?" É claro que não é necessário muito tempo para perceber que a resposta é que a

“carruagem” não está em lugar algum, no sentido de que não está localizada em algum

ponto ou parte específica, mas é o conjunto de elementos harmonicamente ajustados em determinados lugares específicos, a partir de e durante certo tempo. Trata-se de uma metáfora aplicável não apenas às coisas, mas também às pessoas e suas relações, tanto interpessoais quanto entre nós e a natureza de uma maneira mais global. A compreensão holística desta completude, de que o que chamamos de “natureza” não reside em algum lugar lá fora, na floresta, no oceano ou nas montanhas, mas em todos

80 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

os lugares tomados em seu conjunto, é fundamental para a tomada de consciência ecológica do nosso próprio lugar e papel na “carruagem” da qual fazemos parte como uma peça das mais importantes. A existência de inteligências múltiplas, proposta por Howard Gardner, revolucionou a velha forma de quantificar a inteligência por meio do QI (Quociente de Inteligência). Segundo seu modelo, as múltiplas formas de inteligência comum a todos os seres humanos,

estando uma forma ou outra mais ou menos desenvolvida neste ou naquele indivíduo, são responsáveis pela expressão das habilidades adaptativas que sempre estiveram presentes ao logo da nossa história evolutiva o que nos permite ainda nos dias atuais, encontrar soluções otimizadas para todos os tipos de problemas que enfrentamos ontológico (do indivíduo) quanto filológico (da espécie). Assim, devido à nossa grande capacidade de nos adaptar, sobreviver e progredir praticamente em todos os ecossistemas da Terra, independentemente dos rigores extremos do clima e da geografia do lugar, podemos pensar que a tomada de consciência ecológica e a mudança de estilo de vida dela decorrente pode constituir-se em uma forma de inteligência ou consciência ecológica. Ao pensamento cartesiano, analítico deve-se somar, portanto, essa capacidade intelectiva inata no ser humano de perceber as inter-relações de tudo com o todo, a capacidade de reconhecer a existência, tanto sob o ponto de vista micro e local como macro global, do acoplamento ecológico dos fenômenos estudados de forma estanque pelas ciências naturais, a física, a química, a biologia. Desse modo, podemos pensar que o papel do ser humano, uma vez parte integrante e funcional em cada mecanismo da nossa “carruagem”, consiste em alcançar esse entendimento global da funcionalidade da natureza (“carruagem”), entendida como as

interações entre os seus diversos sistemas constituintes. É essa tal consciência ecológica, integrante de nossas múltiplas inteligências, que nos permite tomar nosso lugar em meio a todas as formas de vida do planeta, perceber as interconexões entre nosso modo de vida e os impactos causados nos ecossistemas, bem como esse acoplamento retroage e influencia nossa própria sociedade.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 81

Nossos pais viveram aqui, tiveram seu tempo. Nossos filhos, do futuro, terão seu tempo e espaço, deixarmos algo para eles. Nós somos a bola da vez. A culpa não é de nossos ancestrais e, talvez, nossos descendentes não tenham do que serem culpados. Eis uma boa hora e lugar para fazermos um mea culpa! O aqui-agora, o espaço- tempo, este continuum presente-localizado é a nossa realidade objetiva e as nossas atitudes não modificarão o passado, que não existe mais, nem (talvez) definirão o futuro, que não existe ainda. Mas é o que temos, o que somos, onde e quando é o imperativo moral acerca de nosso papel nas engrenagens desta carruagem. E os frutos, bons ou ruins, serão (estão) sentidos por nós mesmos. E temos sim consciência, não verbal, da realidade e “a mesa está posta”. Qual lugar escolhemos?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As diversas percepções do lugar, não apenas sob o ponto de vista geográfico ou ambiental, mas sob o ponto de vista físico-matemático, biológico, antropológico, filosófico e até metafísico, dão conta de uma tal complexidade que transcende à mera análise materialista-mecanicista do pensamento cartesiano. O lugar, numa cosmovisão espaço-temporal, está sujeito à uma abordagem holística, ecológica, de tal completude, que evidencia um caráter transcendente, espiritual até, da nossa intuição do lugar em que existimos no espaço e no tempo. Nossa relação com o lugar espaço-tempo geográfico, espaço-tempo ecológico, antropológico, pressupõe um importante e nem sempre aceito, embora claro, papel de protagonista ator-espectador de seu status quo e de sua mudança, para o bem e para o mal. O imperativo moral que temos, devido ao nosso lugar no topo dos ecossistemas, nos leva a uma reflexão sobre como vivemos e nos movemos em Gaia, este planeta/organismo vivo, que encontra ressonância até nos ensinamentos religiosos, como na cultura judaico-cristã, ilustrada nos versículos da Bíblia a seguir.

1. Senhor, tu me sondas, e me conheces. [ ... ] 3. [ ... ] conheces
1. Senhor, tu me sondas, e me conheces. [
...
]
3. [
...
]
conheces todos os meus
caminhos. [
...
]
5. Tu me cercaste em volta [
...
]
7. Para onde me irei do teu
Espírito [
...
]?
8. Se subir ao céu [
...
que foram ordenados para mim, quando
...
]
ali estás também. [
]
16. [
...
]
no teu
livro foram escritos os dias [
]

82 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

ainda não havia nem um deles. (Bíblia JFA Offline Versão 5.7.5. Salmos 139, v. 1, 3, 5,7-8,16 fragmentos).

Estamos todos envolvidos em atividades que inexoravelmente ameaçam o nicho ecológico que abriga a vida humana. O momentum contínuo de nossas ações passadas se desdobrará ao longo de décadas ou séculos; substâncias químicas tóxicas que permeiam nossa água e nosso solo e o acúmulo de gases de efeito estufa cobrarão seu preço nos próximos anos. Esse cenário catastrófico pode gerar em nós uma sensação de desesperança, até mesmo de desespero. Afinal, como reverter o gigantesco tsunami da atividade humana?

REFERÊNCIAS

AMAZONAS, I. B. do. Tópicos de geometria. Recife: EDUPE, 2011.

BRENNAN, R. Gigantes da física: uma história da física moderna através de oito biografias. São Paulo: Jorge Zahar, 2000.

CREASE, R. P. A medida do mundo: a busca por um sistema mundial de pesos e medidas. São Paulo: Jorge Zahar, 2013.

GOLEMAN, D. Inteligência ecológica: o impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

HAWKING, S.; MLODINOW, L. Uma nova história do tempo. Rio de Janeiro: Pocket, 2008.

LIGHTMAN, A. As descobertas: os grandes avanços da ciência no século XX. São Paulo: Cia das Letras, 2005.

MANDELBROT, B. The fractal geometry of nature. Nova York: W. H. Freeman, 1982.

POINCARÉ, H. O valor da ciência. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.

STEWART, I. Em busca do infinito: uma história da matemática dos primeiros números à teoria do caos. São Paulo: Jorge Zahar, 2014.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 83

Capítulo 7

SIGNIFICADO E IMPORTÂNCIA AMBIENTAL DOS ESPAÇOS LIVRES URBANOS 9

Carlos Sait P. de Andrade 10

A consciência e o sentimento de pertencermos à Terra e de nossa identidade são vitais atualmente. A progressão e o enraizamento desta consciência de pertencer a nossa pátria terrena é que permitirão o desenvolvimento, por múltiplos canais e em diversas regiões do globo, de um sentimento de religação e intersolidariedade, imprescindível para civilizar as relações humanas. (MORIN, 2004).

INTRODUÇÃO: PENSANDO A CIDADE, O TEMPO E OUTROS NEXOS

O homem, ao longo de sua trajetória evolutiva, sempre procurou contornar os efeitos adversos do clima em favor de suas necessidades físicas e biológicas. De maneira geral, as formas e características dos abrigos humanos, em cada tempo da história, sempre estiveram ligadas às necessidades biológicas, às necessidades de defesa e à capacidade técnica de auto-organização do homem. Em 1956, Landsberg (2006) escreveu que “um dos principais propósitos dos abrigos humanos é a proteção contra as influências climáticas

biologicamente adversas”.

Os abrigos humanos organizados de maneira aglomerada, nas diversas experiências culturais distribuídas pelo planeta, são resultantes das suas necessidades de defesa e de sobrevivência frente às adversidades naturais, econômicas e culturais. As práticas da organização da habitação em aglomerados levaram ao nascimento das cidades e, muitas, por sua vez, se impuseram ao clima e o transformaram na escala local à medida que seus contingentes populacionais foram sendo ampliados e as superfícies naturais transformadas

em nome do desenvolvimento e do progresso das mesmas. O estudo da cidade e relações com a natureza deve ser concebido a partir das ligações complexas que compõem a realidade urbana como construção humana, e a realidade da natureza nas formas do relevo, da hidrografia, da vegetação e demais

9 Texto retirado e adaptado da tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação da UFPE. 10 Professor Doutor em Geografia da UFPI, Brasil .

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características geoecológicas manifestas no seu sítio. Muitas são as possibilidades de análise

e essas “exigem que o investigador assuma como inevitável a necessidade de decompor

analiticamente as partes da cidade”, para, em seguida “articular cada parte em si, e com o todo do processo histórico sobre a qual se consolidou” (GOMES, 2002). O tempo é, assim, um aspecto importante a ser considerado. No âmbito da climatologia, as discussões acerca da importância do tempo têm sido

tradicionalmente valorizadas. Nas suas diversas subdivisões, a categoria tempo se configura como uma condição relevante no momento da abordagem do clima de um dado lugar. O tempo, inclusive, está no cerne de um grande debate desenvolvido no âmbito da climatologia: tempo como duração e tempo como estado médio da atmosfera. Essas duas perspectivas de abordagem do tempo, no campo da climatologia, desdobram questões fundamentais. A primeira reside na necessidade de diferenciação entre clima e tempo; e a segunda, na diferenciação entre tempo atmosférico e tempo cronológico e a importância dessas duas perspectivas para a climatologia. Sorre, em seu Traité de Climatologie Biologique et Médicae, escrito em 1934, utiliza expressões como interações e conexões, para tratar dos estudos sobre clima. Defendia, já

nessa época, que “os elementos climáticos devem ser considerados em suas interações”

(SORRE, 2006) entre si e com as características do lugar, do ambiente onde se realizam. Para Sorre (2006), a ideia de clima não pode ser concebida sem as suas conexões necessárias entre os seus elementos. Aqui, complementa-se aludindo para a questão de que o clima não pode ser concebido sem as conexões necessárias com o tempo e com o espaço. A duração da cidade contemporânea que se transforma fugazmente com o

assentamento de elevados índices populacionais, comandados pelos ditames da técnica e do

consumo não pode ser considerada sob o mesmo ângulo e “olhar” de tempos mais

longínquos. Como no sítio urbano, clima e cidade não se separam, exceto quando tratados com esse objetivo, a duração do clima acompanha uma trajetória similar à duração da cidade, ainda que possuam tempos distintos. Dessa forma, alguns conceitos básicos devem ser repensados. Um dos conceitos

mais emblemáticos e reveladores da ausência do tempo e do espaço no estudo do clima é o

de atmosfera. As concepções predominantes para o termo a definem “como uma camada fina de gases, sem cheiro, sem cor, e sem gosto, presa à Terra pela força da gravidade”

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 85

(AYOADE, 1986). Esta ideia de atmosfera propõe uma condição de imutabilidade, desprovida de conexões com os modos de vida das populações atuais, que são marcadas pela urbanidade e, assim, pelas transformações da natureza e da atmosfera sobre as cidades. Como pode ser pensada, hoje, uma atmosfera isenta de cheiro, de cor e de gosto se não a relativizamos no tempo e no espaço? As atmosferas urbanas, por exemplo, são dotadas de cores, cheiros e gostos particulares ao tamanho, padrão e tipo de urbanização. Assim, não se deve generalizar um conceito em que sua compreensão passa pelas características, particularidades dos lugares em que está sendo considerado e suas conexões com os lugares imediatos e mais distantes. O conceito de clima não é menos polêmico, tampouco menos emblemático no estudo da climatologia, seja urbana ou não. Uma das definições mais clássicas é a do meteorologista austríaco Julius Hann, que considera clima como “o conjunto dos fenômenos meteorológicos que caracterizam a condição média da atmosfera em cada lugar da terra” (SORRE, 2006). Essa concepção, tradicional como é, apresenta o clima como uma condição estática determinada pelas médias de seus elementos, desprovidos de interações com o meio.

A ideia de Hann, distante da climatologia contemporânea, deve ser compreendida e rebatida no tempo de sua formulação. Por muitas décadas, essa concepção serviu como fundamento para as formulações conceituais em climatologia e para fomentar a obtenção de arranjos de climas e de diversas classificações climáticas formuladas e apresentadas à comunidade científica. No entanto, como a natureza climática é muito dinâmica, as formulações de Hann logo se tornaram obsoletas para os objetivos de uma ciência e de uma climatologia mais preocupada com os nexos entre os elementos do clima, fatores do clima e, seguramente, o papel do homem como agente de modificação do conteúdo e da forma da atmosfera nas diversas escalas do planeta. Como exemplos, tem-se a problemática do aumento dos gases do efeito estufa na atmosfera, do aquecimento global e da consequente mudança climática no Globo. Um grande avanço em relação à importância do tempo na definição do clima de um dado lugar pode ser observado a partir das contribuições de Sorre (2006), quando o mesmo

se propôs a discutir tal temática e a considerar clima como “à série de estados atmosféricos

86 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

sobre um determinado lugar em sua sucessão habitual”. A “série de estados atmosféricos”

citada corresponde aos sucessivos tempos meteorológicos em um determinado lugar da Terra. Essa concepção de clima proporcionou um salto significativo nas reflexões conceituais da climatologia e impulsionou o desenvolvimento da climatologia dinâmica. Contudo, as formulações de Sorre (2006) estão contextualizadas em uma temporalidade caracterizada por uma organização social, no globo, muito distinta da que encontramos no cenário da

atualidade. Isso implica dizer que o critério das séries temporais ou estatísticas, e convencionais, de dados meteorológicos utilizados na climatologia para definir a ocorrência do clima em uma dada região ou lugar não deve ser necessariamente a mesma para todos os casos a série de trinta anos. Entende-se, dessa forma, que há uma necessidade de hierarquização das ordens de grandeza dos dados espaciais e temporais no estudo da climatologia, e que esta hierarquização deve ser determinada a partir dos objetivos do pesquisador e do tipo de informações que esta pretenda levantar. Mesmo assim, insiste-se na ideia de que a convencionalização da série de trinta anos para determinar a ocorrência de um determinado tipo de clima em um dado lugar deve ser ponderada em razão da velocidade com a qual a técnica e a exploração da natureza chegaram ao início do século XXI, propiciando (re)definições no âmago da realidade climática, nas diversas escalas do globo.

Assim, melhor será entender o clima como “a soma de todas as condições

meteorológicas ao longo de certo período, para uma região ou para o planeta como um todo” (FLANNERY, 2007), observando as dinâmicas, a velocidade das séries dos estados atmosféricos e as leis termodinâmicas que regem esses fragmentos. Esta compreensão deve encontrar seus fundamentos na ideia de que este, o clima, deve ser entendido como um todo dotado de propriedades que nenhuma das suas partes, tomadas isoladamente, possui. Isso porque o todo é resultado da interação e das relações recíprocas existentes entre ele e

as suas partes. Essa maneira de compreender o clima pressupõe a substituição de um pensamento fundado nos princípios de uma ciência cartesiana, que marcou a ciência moderna, para uma outra que valoriza uma nova maneira de pensar e refletir a realidade, pautada nos fundamentos da conexidade, das relações, do contexto e chamada de sistêmica.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 87

A discussão sobre cidade, tempo e clima levanta a importância também da reflexão sobre a durabilidade das cidades associada às manifestações da natureza sobre a mesma. Na cidade, encontramos em todos os seus ângulos as marcas da natureza da força do seu clima. A cidade dura, em parte, até o momento em que as forças da natureza permitem. O

caráter de imutabilidade da cidade e/ou irreversibilidade do tempo assumem, assim, uma nova ordem. Como afirma Morin (2003), “a eternidade das Leis da Natureza foi assim liquidada”. O que nos propõe entender à luz do mesmo autor que não há cidade, clima e tempo congelados. “Tudo nasceu, tudo apareceu, tudo surgiu, uma vez. A matéria tem uma

história(MORIN, 2003). A cidade como artífice humano não se encontra isolada, tampouco pode ser entendida fora do contexto ou do sistema natural e cultural que se encontra. Assim, os produtos resultantes do trabalho humano a cidade por exemplo não estão isentos das intempéries e das dinâmicas produzidas, no tempo, pelo conjunto das forças naturais sobre os mesmos. A cidade dura até o momento em que a resistência do que fora construído torna-se inferior às forças atuantes sobre a mesma. O clima, por sua vez, consubstancia-se como um fator de grande impacto sobre as “obras” humanas no sítio da cidade. No entanto, o que é mais significativo explicitar é que a lógica da durabilidade é a mesma tanto para a cidade quanto para o clima, quando analisados a partir de suas relações e interconexidade. Se a cidade é movida, em parte, pelas forças da natureza e do clima, para este, a realidade em tela não é menos verdadeira. Assim, o que é pertinente avaliar, em relação às diferenças de duração do clima e da cidade, talvez sejam as escalas de grandeza das modificações e suas velocidades correspondentes da mutabilidade atribuída a cada um.

CIDADE, ESPAÇOS LIVRES E COMPLEXIDADE

Pensar a espacialidade da cidade, na perspectiva da complexidade com a qual se apresenta, exige o estabelecimento de critérios e recortes apriorísticos de análise para tal finalidade. Cada parte da cidade está composta por um conjunto de características, de papéis e significados próprios, mas devido às relações de reciprocidade que desenvolvem com as demais partes, cada uma reflete na sua unidade a realidade total do sistema.

88 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

A cidade, caracteriza-se por uma teia complexa de espaços urbanos que, no âmbito da análise, tem nos espaços livres uma das variadas opções de seu entendimento. Espaços livres, expressão amplamente utilizada nas pesquisas e projetos de intervenções sobre os espaços urbanos, comporta uma diversidade de entendimentos. Assim, não existe uma padronização consensual sobre a classificação dos espaços livres. Classificação e tipos devem ser definidos a partir dos diferentes parâmetros econômicos, sociais, ambientais e culturais assumidos e tornados benefícios para cada cidade. Dessa forma, os significados e as classificações de espaços livres variam de acordo com a materialidade e com a funcionalidade dos mesmos, assim como de acordo com os objetivos de cada investigador e os critérios de tratamento, que cada espaço livre necessita, no contexto da cidade onde está inscrito.

Para Cavalheiro e Del Picchia (1992), um espaço livre deve ser entendido como espaços livres de construções urbanas e dotados de funções ecológica, estética e de lazer. Assim, espaços livres como realidade objetiva devem possuir rebatimento na espacialidade urbana, configurando-se como uma realidade mais abrangente que uma área verde, porque contemplam, também, as águas superficiais. Preocupados com a polêmica derivada do entendimento múltiplo dos termos

“espaço livre, área verde, parque urbano e praça, dentre outros, Cavalheiro et al. (1994)

levantaram uma importante discussão a partir de consultas feitas a órgãos e pesquisadores ligados à Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, Regional Sudeste. O objetivo da consulta foi o de estabelecer uma proposta de classificação e conceitualização dos referidos termos, e sugerir o uso uma linguagem comum no âmbito da Sociedade Brasileira de Arborização. Os resultados obtidos com a referida pesquisa indicaram que o conceito de espaços livres é o mais abrangente, deve ser compreendido através da contraposição ao espaço construído na cidade e integra os demais, tais como: área verde, parque urbano, praça e arborização urbana (CAVALHEIRO et al., 1994). Para os autores, o conceito de espaço livre deve, ainda, ser concebido a partir do uso, escala e da função que o mesmo possui, devendo também satisfazer os objetivos ecológicos, estético e de lazer.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 89

Espaços livres, conceitos e problemas na definição dos índices

Barbin et al. (2008) discutem o significado de espaços livres a partir da necessidade de uma definição de parâmetros ambientais e sociais para subsidiar o planejamento urbano.

Através da aplicação de índices de espaços livres, fundamentais e capazes de sintetizarem a “diversidade de características urbanísticas” derivadas do padrão de ocupação do solo urbano, propuseram três índices de espaços livres: Índice de Espaços Livres de Uso Público (IELUP), Índice de Cobertura Vegetal em Área Urbana (ICVAU) e Índice de Verde por Habitante (IVH). Esses índices foram aplicados em um bairro da cidade de Piracicaba-SP, sendo que, para os autores, os resultados propiciaram práticas de otimização do verde no bairro em relação aos bairros adjacentes. Quanto a esta prática o da definição de índices de espaços livres como espaços de proporção entre área verde e população muitas discussões, polêmicas e dissonâncias têm sido aventadas. “É importante que se ressalte que os índices existentes não são receitas a serem seguidas, antes eles servem como apoio científico para o planejamento”

(CAVALHEIRO; DEL PICCHIA, 1992). A importância do estabelecimento desses índices está, assim, ligada às necessidades de cada cidade, especialmente, para efeito de planejamento dos espaços livres públicos existentes na malha urbana. Esses índices, inscritos como indicadores socioambientais, devem ser ponderados a partir das singularidades urbanas e das necessidades populacionais da cidade e dos bairros onde estão espacializados. Guzzo e Cavalheiro (2000), tratando dos índices de espaços livres de uso público na cidade de Ribeirão Preto-SP, apresentaram importante tabela com as terminologias empregadas para espaços livres, a partir de diferentes autores em diferentes cidades brasileiras (Quadro 1). No quadro em questão, os índices de espaços livres obtidos por cada autor são díspares e revelam as especificidades de cada lugar, determinadas em grande parte pelas práticas ligadas ao planejamento e gestão urbanos.

90 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Quadro 1: Espaços livres públicos: terminologias e índices para algumas cidades brasileiras

Cidade

Autor

Ano da

Terminologia empregada

Índice

Publicação

São J. dos Campos SP

Escada

1987

Espaços Livres Urbanos

 

1,89 m 2 /hab

Bauru SP

Goya

1990

Áreas

Públicas

Livres

de

1,94 m 2 /hab

Edificação

Porto Alegre RS

Sanchotene

1990

Áreas Verdes Públicas

 

3,08 m 2 /hab

Maringá PR

Milano

1992

Áreas Verdes Públicas

 

6,70 m 2 /hab

São Carlos SP

Henke-Oliveira

1996

Áreas Verdes Coletivas

 

2,65 m 2 /hab

Santa Cecília Distrito de

Nucci

1996

Espaços

Livres

de

Uso

0,92 m 2 /hab

São Paulo

Público

Porto Alegre RS

Prefeitura

1998

Área

verde

para

lazer

13,62 m 2 /hab

Municipal

público

Ribeirão Preto SP

Guzzo

e

1998

Espaços

Livres

de

Uso

2,38 m 2 /hab

Cavalheiro

Público

Fonte: Guzzo e Cavalheiro (1998; 2000).

Para Macedo (1995), os espaços livres, entendidos no contexto da cidade e da

urbanização, são “aqueles não contidos entre as paredes e tetos dos edifícios construídos

pela sociedade para sua moradia e trabalho”. Esse conceito, apesar de amplamente aceito por geógrafos, arquitetos e demais estudiosos da cidade, deve ser refletido com as necessárias observações que o termo exige. Uma primeira questão a considerar deve ser a de que os espaços livres podem ocorrer para além das fronteiras espaciais da urbanização. Esta ideia fundamenta uma classificação genérica para os espaços livres. Esses podem ser livres de edificação e/ou livres de urbanização, segundo Macedo (1995). Contudo, a condição de ser livre propõe uma reflexão importante para este contexto. Livre para que, para quem? Para circulação humana? Para o desenvolvimento variado de fluxos de matérias e de energia? Liberdade de acesso e de uso? Eis algumas das interrogações que o termo sugere e impõe reflexão.

POLÊMICAS E DISSONÂNCIAS CONCEITUAIS SOBRE ESPAÇOS LIVRES

Este conceito, portanto, carrega consigo polêmicas, dissonâncias e ambiguidades apresentadas em razão, principalmente, de sugerir liberdade de acesso e de uso, o que implica um outro aspecto importante: o adjetivo livre propõe ao espaço a existência do sentido do público. Os espaços livres devem ser, assim, pensados a partir das esferas do

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 91

público e do privado. Aliás, Costa (2008) discute o significado de espaços livres e suas tipologias a partir do estatuto da propriedade em público e privado, como pode ser conferido no Quadro 2. O termo público que parece tão simples, carrega, por sua vez, incompreensões que calcadas em um uso cotidiano, sedimentam incongruências e esconde, na espacialidade da cidade, o papel de igualdade, de liberdade e de isonomia entre as pessoas que coabitam o mesmo espaço.

Quadro 2: Conceitos e classificações de espaços livres

Autor (es)

Significado de espaço

Critério de

Classificação

livre

classificação

Cavalheiro e Del

Espaços livres de

 

Função ecológica,

Área verde, parque urbano, praça e

Picchia

construções urbanas

 

estética e de lazer

arborização urbana, águas superficiais

Costa, Carlos

Espaços livres urbanos

A propriedade

Público, privado, cívico

Smaniotto

conforme a propriedade,

as atividades e os tipos

As atividades exercidas

Necessárias, opcionais sociais

Tipologia de espaços

Sistema viário, áreas de recreação e esportes, praças, áreas verdes, cursos de água, áreas de preservação ambiental

Macedo, Silvio

Espaços não contidos

moradia e trabalho.

Urbanização

Livre de edificação

Soares

entre as paredes e tetos

Livre de urbanização

dos edifícios construídos pela sociedade para sua

Sá Carneiro e Mesquita

Áreas parcialmente edificadas com nula ou mínima proporção de elementos construídos

 

Regime Jurídico

Espaços livres públicos (nacional, estadual e municipal)

De equilíbrio ambiental De recreação

e/ou de vegetação [

...

]

De circulação

ou com presença efetiva

Espaços livres privados

de vegetação [

]

com

 

Espaços livres públicos e/ou privados

circulação, recreação, composição paisagística e de equilíbrio ambiental.

Espaços livres potenciais: de valor paisagístico, campos de pelada, recantos, margens de rios e canais, terrenos vazios.

Fonte: Elaboração do autor.

Algumas dessas incompreensões foram discutidas por Gomes (2002) e será oportuno expô-las como balizamento para as reflexões que aqui prosseguem. Para ele, “a forma negativa de definição largamente utilizada, ou seja, é público aquilo que não é privado, não parece ser muito apropriada” (GOMES, 2002), isso porque essa significação acompanha ambiguidades acerca do estatuto espacial e de seu uso comum.

92 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Outra incompreensão observada pelo autor está relacionada à consideração do espaço público a partir do seu status jurídico. Para Gomes (2002) “apelar para o texto legal que regulamenta a existência desses espaços, significa inverter os procedimentos”, pois a

fenomenalidade estabelecida neles não deve ser demarcada exclusivamente pela perspectiva jurídica. Por fim, uma terceira concepção de espaço público que obstaculiza a sua real compreensão está ligada à ideia do termo definido simplesmente pela qualidade de

livre acesso (GOMES, 2002). Esse significado é limitado, segundo o autor, porque o fato de ser público não garante o acesso irrestrito e livre. Para Gomes (2002), “o espaço público é simultaneamente o lugar onde os problemas se apresentam tomam forma, ganham uma dimensão pública e,

simultaneamente, são resolvidos”. Esta concepção assume um caráter mais aprofundado

para o termo porque implica uma base territorial que é também física, para o espaço público, e uma teia de relações demarcadas por conflitos e acertos sociais nesse espaço. O pensamento de valorização do espaço público, a partir da sua concepção como base física onde os eventos e relações se desenvolvem, é muito importante para esta

pesquisa porque o viés de análise caminha pelas coordenadas da ciência geográfica, que têm no espaço, também físico, a sua grande orientação para desvendá-lo, da fenomenalidade da realidade e de sua complexidade. As palavras de Gomes (2002) desenham com mais objetividade esta ideia, como pode ser observado a seguir:

O lugar físico orienta as práticas, guia os comportamentos, e estes por sua vez reafirmam o estatuto público desse espaço, e dessa dinâmica surge uma forma- conteúdo, núcleo de uma sociabilidade normatizada, o espaço público. Ele também é lugar de conflitos, de problematização da vida social, mas sobretudo é o terreno onde esses problemas são assinalados e significados. (GOMES, 2002).

Insistir na importância da imbricação da natureza física e social do espaço público e no status outorgado a ele pela ciência geográfica, a partir dessas relações, não significa abster-se de reafirmar que a compreensão do espaço, como espaço público, interessa à medida que esta noção possa ser qualificada a partir dos atributos anteriormente mencionados. Assim, “um olhar geográfico sobre o espaço público deve considerar, por um lado, sua configuração física e, por outro, o tipo de práticas e dinâmicas sociais que aí se desenvolvem” (GOMES, 2002).

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 93

Para Bustos Romero (2001), fundamentada no pensamento de Muret (1987), os espaços livres são espaços abertos exteriores Open spaces, que são “os espaços não construídos, não afetados pelas grandes infraestruturas no interior ou nas proximidades dos setores reservados das construções”. Segundo a mesma autora, “eles podem ser pequenos ou grandes, urbanos ou rurais, permanentes ou temporários, públicos ou privados” (BUSTOS

ROMERO, 2001). No contexto urbano, os espaços livres quase sempre estiveram associados às ruas

de pedestres, praças e vias de circulação automotora, os quais são concebidos como espaços monofuncionais. Bustos Romero (2001) afirma que esses são denominados de espaços livres/exteriores, diferentemente dos espaços livres/abertos que possuem caracterizações diferentes. O debate sobre as diversas concepções de espaços livres é polêmico, devido às múltiplas significações impostas a eles. Moura (2002), por exemplo, tratando dos espaços

livres afirma que são “entidades urbanísticas receptoras de mobilidade, o que possibilita o uso coletivo da cidade construída”. Dando continuidade à reflexão do significado de espaços livres, o referido autor entende como sendo aqueles espaços

[

...

]

não-construídos’, cuja lógica interna determina a presença de uma vasta

estrutura que se estende à toda a cidade dispondo de capacidade de organizar o que representa seu aspecto mais especifico e mais concreto: a existência do fato público. (MOURA, 2002).

Os recortes preferenciais para o entendimento do conceito de espaços livres, conforme o referido autor, passam pelos critérios da dimensão do uso coletivo e público, destes, no cenário das cidades. No entanto, a cidade com seus espaços livres, seus climas e tantos outros recortes é, assim, caleidoscópica, repleta de complexidades, visto que elementos naturais versus elementos construídos se relacionam em uma trama que só é possível de ser lida se o “olhar” estiver atento a tais complexidades. Por isso, em nossas reflexões, elegeu-se o conceito de espaços livres. Esses, compreendidos como espaços que, dotados de características naturais, relacionam-se, muitas vezes, a características de construções humanas, no atendimento às demandas variadas de funções, tais como ecológica, estética e de lazer.

94 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Como a natureza é uma realidade complexa e os fenômenos atmosféricos não menos, as condições do clima de uma cidade e dos espaços livres, em particular, só podem ser bem compreendidas e explicadas se a abordagem primar por um viés que considere importante as interações, ligações e nexos entre todos os fatores de intervenção na qualidade ambiental e climatológica daqueles espaços. Em se tratando do clima da cidade, a condição para seu entendimento com o aporte

da teoria da complexidade se fortalece, pois o mesmo “é a maior expressão do poder de decisão do homem sobre a atmosfera e a ecologia de um determinado local” (MONTEIRO, 1977) e, assim, resultante das mais variadas facetas da realidade, das ações humanas às ações e respostas da natureza. Por isso, o clima, para ser abarcado pelo conhecimento, precisa ser decomposto através de um método que busque o entendimento e explicação, para as interrogações

necessárias através de uma postura interdisciplinar. Nesse sentido, “a pesquisa científica

dirigida, interdisciplinarmente, a esses problemas, oferece os subsídios sob formas de soluções alternativas apresentadas ao poder público, a quem competem as decisões e mudança deliberada” (MONTEIRO, 1976). Assim, a interdisciplinaridade está sendo aqui considerada importante porque comunga com os princípios que valorizam a explicação da cidade através dos nexos existentes entre as dimensões da natureza e os da realidade urbana.

A questão climática, por exemplo, local ou global, é sempre algo complexo e exige uma postura interdisciplinar para a sua análise. Isso porque “o mundo torna-se cada vez mais um todo. Cada parte do mundo faz, mais e mais, parte do mundo e o mundo, como um todo, está cada vez mais presente em cada uma de suas partes” (MORIN, 2004). A complexidade da análise da mudança climática se justifica também porque o que ocorre, tanto em relação ao local quanto ao global, tem “profundas implicações políticas e industriais e porque surge dos processos que estão no âmago do sucesso de nossa civilização” (FLLANERY, 2007). Esses imperativos são reais em todas as escalas espaciais e, por isso, as medidas deverão ser pensadas também nas diversas escalas. No âmbito do clima da cidade, a imparcialidade da análise não deve ser menos difícil e complexa. As forças que movem a realidade urbana caminham sempre na direção do “progresso” e do desenvolvimento que, por sua vez, são movidas pela lógica da reprodução

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 95

e acumulação do capital. Assim sendo, a possibilidade de desenvolvimento das cidades e da

produção de um ambiente ecologicamente mais equilibrado “chega a um ponto

insustentável, inclusive o chamado desenvolvimento sustentável” (MORIN, 2004). A cidade brasileira que cresce e se movimenta sob a impulsão de uma ordem

chamada progresso substitui, fugazmente, as superfícies naturais de seu sítio pelas coberturas densas e compactas de concreto e outros atributos urbanos fomentadores do desequilíbrio ambiental e climático.

CONCLUSÃO

As reflexões aqui desenvolvidas sobre a cidade e a complexidade de seus espaços espaços livres , apontaram para a importância da leitura da cidade a partir de três ideias fundamentais, que guardam entre si importantes aproximações conceituais. A primeira, nos remete à necessidade de compreensão da cidade e sua ambiência fundada na perspectiva sistêmica e complexa propugnada por Morin em seu método, especialmente no Método 1 a natureza da natureza. Isso porque, cada espaço livre considerado, corresponde a um jogo complexo de ligações e interações existentes entre tudo o que compõe e caracteriza simultaneamente cada espaço, em cada escala e as ligações interescalares. Os espaços livres estão, assim, interconectados na cidade através dos fluxos de energia e de matéria existentes na ambiência citadina. A segunda ideia, advinda da anterior, considera que os espaços livres se apresentam como importantes ecossistemas urbanos capazes de gerar, por exemplo, amenidades térmicas. Nesse caso, tanto a matéria quanto a energia fluem em ciclos através desses ecossistemas urbanos, ligando o ar, o solo, a água e todos os organismos vivos em forma de rede (SPIRN, 1995, p. 269). Esses fluxos ligam todos os subsistemas do sistema urbano. Assim, a energia em trânsito na cidade é constantemente transformada pelas influências das características naturais, tais como as de vegetação, de relevo e dos corpos d’água devido às particulares propriedades térmicas. A transferência horizontal, por advecção, dessas propriedades dos elementos naturais de cada espaço livre, como os parques ambientais, poderá, por sua vez, aquecer ou resfriar as superfícies do seu entorno, conforme sejam suas características originais.

96 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

A terceira ideia está ligada aos princípios sistêmicos presentes na realidade urbana e a ausência da consideração dos mesmos no tratamento da gestão urbana. As transformações do sítio da cidade associadas ao processo de urbanização têm levado, na maioria dos casos, ao enfrentamento humano de severos problemas de ordem ambiental como resposta às suas práticas de impermeabilização das superfícies. A supressão da vegetação nativa do espaço da cidade, o aplainamentos das superfícies e a substituição das coberturas naturais pelas pavimentadas e, ainda, a ausência de investimentos no planejamento urbano e na engenharia de drenagem têm produzido problemas relacionados às inundações frequentes no interior das cidades, desabamentos de encostas e formação de ilhas de calor urbanas, dentre outros. Considerando, então, que os espaços da cidade, incluindo aí os espaços livres, estão todos conectados pelos fluxos de matéria e energia, não podemos tratá-los senão como espaços holísticos e integrados. Assim, todas as intervenções urbanas precisam considerar os princípios sistêmicos que regem a vida da cidade.

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98 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Capítulo 8

O LUGAR DE TODOS NÓS COMO POSSIBILIDADE

Alcindo José de Sá 11

O homem contemporâneo saiu de um quadro natural limitado e personalizado e, ao mesmo tempo, de uma sociedade fechada e hierarquizada. Adquiriu a liberdade, perdendo as vantagens da solidariedade. Está só no espaço fechado dos quadros orgânicos multidimensionais, o prédio, o bairro, a cidade ou o aglomerado, a aldeia de férias, a estrada, os transportes públicos, a fábrica, o grande armazém. E, institivamente, é aí que busca o significado do mundo e, ao mesmo tempo, o sentido da vida. (GEORGE, 1993, p. 173).

Muito se fala de lugar, pois essa terminologia é polissêmica, dota-se de inúmeras significações abrangentes de todas as áreas do conhecimento humano. Todavia, geograficamente é um termo de grande valia, já que baliza, digamos, muitas categorias analíticas dos fenômenos socioespaciais ou socioterritoriais de nossa disciplina (a Geografia).

Assim, indagamos, como aflora o seu sentido, ou o seu peso analítico, na existência “dos

homens na terra e a Geografia em ação” (GEORGE, 1993). Inicialmente, cremos que se torna pertinente resgatarmos a sua etimologia, já que este termo lugar tem as suas raízes no latim, traduzida como localis, relativo a lugar e de lócus, como o mesmo sentido. Assim, evidencia-se que a sociedade em seu processo histórico e os indivíduos constituintes desse processo, as materialidades animadas e inanimadas, ou seja, todas as matérias que são permutadas em objetos socialmente

transformados, ocupam um determinado lugar. Mas para irmos além dessa “tautologia”, dessa obviedade redundante, geograficamente se exige, como destacado no início, situar “o lugar de todos nós”, nas diversas categorias analíticas da Geografia. Nesse sentido, é pertinente levantarmos algumas assertivas “filosóficas/geográficas” básicas: Quem eu sou, onde estou e para onde vou? No quem eu sou permeiam-se elementos existenciais/históricos, visto que a Geografia em ação abarca processos sociais em que “o eu” é por demais mutante. Porém, este eu sempre demandou

11 Professor Doutor em Geografia da UFPE, Brasil

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 99

um lugar que lhe propiciasse um senso de pertencimento ao mesmo, bem como de direção, frente a um mundo complexo e diverso. Daí ser quase que natural para todas as civilizações, das mais remotas até o mundo presente, a necessidade de confecção e uso de mapas, de pontos referenciais, desembocando hoje, nesta sociedade da informação e das redes digitais, nos mais sofisticados aparelhos de localização, como os famosos GPS. Ou seja, independente dos estágios históricos vivenciados pelas mais diversas civilizações, o sentido de lugar, de “situação” e direção são elementos fundamentais para a mobilidade dos seus seres em suas diversas atividades produtivas ou não. Tratando do senso comum, não há nada mais desesperador do que se sentir

“perdido no espaço”; viajar e não saber situar minimamente o lugar buscado. Portanto, o

aporte racional/matemático embutido nas diversas escalas de mapas, bem como dos instrumentos informacionais geoprocessadores de diversas representações cartográficas, nos propiciam uma escala de mundo extremamente macro, que nos ajudam permutar do macro mundo ao micro e vice-versa. Assim, nesta escala, hoje virtual, o lugar pode ser o mundo, mas apenas virtualmente. Um dos elementos mais representativos é o sistema de imagens terrestres propiciadas pelo google earth pro, uma mediação de representativa do mundo, na qual podemos navegar em todas as escalas, de acordo com as demanda do nosso objeto a ser estudado. Nos assevera P. George (1993, p. 156),

[

...

]

o

objetivo do

mapa

é

dar, uma escala acessível

ao

olhar, uma imagem

geográfica que os homens desejam conhecer, quer a título de curiosidade, que a título de utilidade. Curiosidade filosófica: o conhecimento do espaço do humano que se identifica com o planeta no seu universo estelar; curiosidade prática, a representação das costas nos portulanos ou o traçado das fronteiras e os limites das províncias no mapa do ´reino´, o plano da sociedade fortificada com a projeção das suas obras, predominando sobre o país humilde.

Já no mundo moderno,

[

]

a leitura das mensagens por teledetecção, compara-se a uma radiografia, cuja

... interpretação pressupõe o conhecimento do funcionamento dos órgãos [lugares]. Terá de ser decodificada para se tornar num documento geográfico. O interesse deste documento está na sua riqueza enciclopédica, respeitante, quer aos dados perenes, quer aos estados temporários da atmosfera, da vegetação, etc. (GEORGE, 1993, p. 157).

100 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Enfim, a cartografia é um elemento indispensável ao entendimento do mundo

“enciclopédico” nas suas diversas geografias em ação pelas ações humanas manifestas nos

lugares, quer nos seus estados de perenidade ou de grandes mutações. Mas a Geografia em ação pelo trabalho e vivência do homem, molda configurações

espaciais/territoriais concretas e abstratas que transcendem o “mero” situar matemático.

Sob o peso da fenomenologia, uma corrente de pensamento que é marcada pela percepção

dos lugares, das coisas e dos objetos que os constituem, significativos dos fenômenos da consciência, devendo os mesmos serem estudados em si, como objetos ideais, desponta a Geografia da percepção. Neste viés, o sentir e viver paisagístico do lugar, é algo marcante para o eu subjetivo, pois nele ficam depositados lembranças, sentimentos de apego ou não, cheiros, amores, carinhos, somente existentes como objetos ideais. Daí não ser estranho contemplarmos lugares paisagísticos e marcarmos como deslumbrantes; vivermos os nossos territórios de nascimento, muitas vezes apenas em fotografias ou lembranças, como algo eterno e de pertencimento ao nosso cotidiano; lugares que estão muito marcados nas profundezas das nossas almas. Todavia, não é incomum nos depararmos com pessoas que, por diversos motivos, idealizam, enxergam e não vivenciam, ou vivenciam à força lugares como feios, hostis, repugnantes, repelentes, a ponto de muitas vezes evitarem olhares e passagens pelos mesmos. Lugares que estão muito distantes ou inexistentes dos seus mapas mentais e espirituais; lugares idealizados como deprimentes e, portanto, longe de serem

partilhados por todos os homens numa “Geografia Ideal” em ação. Reforçando esses princípios fenomenológicos, Gaston Bachelart, no livro A Poética do Espaço, assevera que

[

...

]

a metafísica consciente

que toma seu

lugar no momento

em

que

o

ser

é

‘atirado no mundo’, é uma metafísica de segunda categoria. Ela passa

superficialmente pelas preliminares onde o ser é o estar-bem, onde o ser humano é colocado num estar-bem no bem-estar associado primitivamente ao ser. Para ilustrar a metafísica da consciência, será preciso esperar as experiências em que o ser é atirado fora, isto é, no estilo de imagem que estudávamos: posto na porta, fora do ser da casa, circunstância em que se acumulam a hostilidade dos homens e a hostilidade do universo. Mas uma metafísica completa, que englobe a consciência e o inconsciente, deve deixar no interior o privilégio de seus valores. No interior do ser, no ser interior, um calor acolhe o ser, envolve o ser. O ser reina numa espécie de paraíso terrestre da matéria, fundido na doçura de uma matéria adequada. Parece que, nesse paraíso material, o ser mergulha na fartura, é cumulado de todos

os bens essenciais. Quando se sonha com a casa natal, na profundidade extrema do devaneio, participa-se desse calor primeiro, dessa matéria bem temperada do paraíso material. É nesse ambiente que vivem os seres protetores. Teremos que

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 101

voltar a falar sobre a maternidade da casa. No momento, gostaríamos de indicar a

plenitude essencial do ser da casa. Nossos devaneios nos levam até aí. E o poeta

bem sabe que a casa mantém a infância imóvel 'em seus braços´

Bem entendido,

... é graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. (BACHELART, 2013, p.

202).

Subentende-se, assim, que a metafísica primeira, “ideal”, ainda não totalmente

consciente, tem a sua maternidade calcada na casa primeva, nessa matéria cheia de fartura

“de bens essenciais”, onde nossas “lembranças estão guardadas”, das mais leves às mais

complexas. Não devemos esquecer que por influência G. Bachelart (francês e fenomenólogo), Carl Sauer (americano estudioso das culturas paisagísticas), Yi-Fi Tuan (japonês) “propõe uma geografia dedicada ao estudo do amor do homem pela natureza, denominado por ele de topofilia. A geografia se dedicaria ao estudo das vivências, que se expandem do lar para paisagens mais amplas, da paisagem humanizada para os cenários mais selvagens”, aliás, bases conceituais para o que chamamos de Geografia Humanista, “Geografia Cultural”). Enfim, uma Geografia que, de certa forma, foge dos grandes enredos históricos/sociais de transformação revolucionária do mundo, para um eu interior, subjetivo e existencial, também moldadores dos seus habitats e formatadores de novos mundos. Evidencia-se, assim, que tratarmos de lugares, é atinarmos sempre a escalas micros e macros. Nesse sentido, tanto como ponto de referência, ou sítio perceptivo idealizado, os mesmos carregam também muito embasamento sócio-histórico, objetivo, bem como acumulação de tempos longos naturais imprescindíveis à vivência humana na Terra. Assim, em um tempo mais curto, não meramente naturalizado, poderíamos considerar que no medievo, os feudos constituíam lugares de fazeres e viveres sob a égide de relações sociais de suserania e vassalagem; o relógio do tempo natural a monitorar os processos produtivos lastreados no campo, e os ritos tradicionais da nobreza e do catolicismo a disciplinar esses

lócus de vivência. Com a ascensão “do dinheiro e da razão” (SÁBATO, 1993) desponta a base do capitalismo que, por sua vez, “destroça” o lugar feudal, pois o mesmo passou a

demandar, por intermédio da abstração do dinheiro como meio de troca, de escalas produtivas maiores e mais racionais, ou seja, o uso intensivo de técnicas absorvedoras de ciência, tornando o espaço “desacoplado” dos saberes e viveres tradicionais e novo lucus monitorado pelo relógio maquínico, assim como doutrinado e gerenciado pelo Estado racional e todas as suas instituições concretas e simbólicas; isto é, dos exércitos, dos poderes

102 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

judiciais, reis absolutistas ou não, com suas bandeiras, hinos, moedas, enfim, um lugar funcional de uma nação. Nessa perspectiva, cremos que não há contradição em encaramos a escala nacional como um lugar portador de sentido de pertencimento, tanto quanto a uma escala menor, seja o Estado Federado, o Município, uma fazenda, ou mesmo o interior profundo de uma casa. Para Milton Santos (2004, p. 315),

a história concreta do nosso tempo repõe a questão do lugar numa posição central, conforme, aliás, assinalado por diversos geógrafos. A. Fischer (1994, p. 73),

[

...

]

por exemplo, refere-se ´a redescoberta da dimensão local´

impõe-se,

... tempo, a necessidade de, revisitando o lugar no mundo atual, encontrar os seus

ao mesmo

novos significados. Uma possibilidade nos é dada através da consideração do cotidiano (BUTTTIMER, 1976; GARCIA, 1992; DAMIANI, 1994). Esta categoria da

existência presta-se a um tratamento geográfico do mundo vivido que leve em

conta as variáveis de que nos estamos ocupando o tempo.

...

:

os objetos, as ações, a técnica,

Reforçando as supracitadas premissas, numa assertiva provocante pelo menos para nós geógrafos, Bauman (2006, p. 100) diz que uma “insólita aventura aconteceu com o espaço geográfico: ele perdeu importância, mas ganhou significação”. Ou seja, mesmo deixando de ser essencial, indispensável, de apreço às forças hegemônicas produtivas e especulativas do capital dominante, o espaço, seus lugares e suas coisas passam a significar mais; dizer mais. Ou seja, por não ser valorizado na sua plenitude pelo mundo das trocas (ele ainda carrega o privilégio de ser ente de mero valor de uso e não somente de troca), pelo escorregadio e líquido mundo da economia software globalizada (BAUMAN, 2001), o espaço banal, geográfico, adquire, ascende em significância, justamente porque abarca outros valores,

[

...

]

pois como as instituições cambiantes da economia diminuem a experiência de

pertencer a algum lugar especial

...

os

compromissos das pessoas com os lugares

geográficos como nações, cidades e localidades, aumentam

O

sentido de lugar se

... baseia na necessidade de pertencer não a uma ´sociedade´ em abstrato, mas a algum lugar em particular; satisfazendo essa necessidade, as pessoas desenvolvem o compromisso de lealdade. (BAUMAN, 2006, p. 100).

Como a sociedade se torna um dado cada vez mais “abstrato” nesta era do “semiocapitalismo” (BIFO, 2008) sem lógica espacial, os territórios situados locacionalmente, de maneira dialética, parecem convidar a referida sociedade a um exercício constante de

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 103

resgate de uma razão histórica concreta e abstrata (onde estou, quem sou e para onde vou, como ressaltado no início do texto). Outro elemento importante a caracterizar e concretar a noção de lugar, segundo Raffestan (1993, p. 186), é “o poder”, pois

antes de se difundir e antes de se esgotar, se cristaliza num lugar, em lugares que com frequência ele marca profundamente, às vezes até de uma forma

[

...

]

indelével: ‘há por que pensar que a verdade está inscrita na própria estrutura das comunidades, nos lugares centrais, a partir dos quais tudo se irradia e que quase sempre constituem locais simbólicos de uma unidade coletiva cujo caráter original não devemos suspeitar a priori, pois em geral é confirmado, ao menos em parte, pelas escavações arqueológicas’.

O referido autor indaga se não seriam os lugares “momentos sagrados de um plano” constituidor que funda a diferenciação dos espaços. E buscando reforçar essa tese, ele menciona a cidade como elemento quase religioso, bem como certos lugares sagrados

inerentes à própria cidade. “Na Grécia, esses lugares são o túmulo de certos heróis, o ônfalo, a pedra da ara e, enfim, o símbolo por excelência da pólis, do centro comum, da Hertia”

(GIRARD, in C. RAFFESTIN, p. 186). Nesses espaços sob o peso da política, segundo Raffestin (1993, p. 187), os lugares não se tornavam privilegiados a priori, mas centros de “reunião, nodosidades”, condensadores de temporalidades históricas diversas e, por conseguinte,

fatores de diferentes densidades populacionais e de poder. E se tem poder a monitorar essas nodosidades localistas, tem-se, além do simbólico e do político, as bases econômicas dissimétricas na infraestrutura produtiva, bem como nas supraestruturas políticas e jurídicas que municiam as bases do capital. Portanto, fica evidente os diferenciais de lugar como um dado a posteriori, como uma instrumentalização intencional dos objetos pelas ações sociais diferenciadas, na lógica de um desenvolvimento sempre desigual e combinado, hoje, de um capitalismo globalizado. Por isso, ainda segundo Raffestin (1993, p. 187), assinalar que

[

...

]

apesar

de

a

teoria

dos

lugares centrais em geral

ser expressa por outros

conceitos, não deixa de se fundamentar nos mesmos dados: um sistema de lugares e um sistema de relações, sendo que as últimas não têm a mesma probabilidade de

realização no espaço. A aparente geometria de Chistaller e Lösch não passa de uma modalidade que permite uma formulação facilitada de uma realidade complexa. Entretanto, essa geometria é uma ilusão que dissimula a ligação fundamental que se estabelece entre um lugar e uma relação ou, se preferirmos, uma função. Os lugares centrais, tais como são definidos pela geometria, escondem uma realidade

104 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

mais profunda: resultam da probabilidade diferencial das nodosidades humanas que fazem emergir uma relação de poder com o local.

Ora, a teoria dos lugares centrais foi de grande validade, digamos, quando da

ascensão do capitalismo fordista/keinesiano, quando, como bem afirma Harvey (2002), predominou uma economia de escala e não como hoje, uma economia de escopo. Ou seja, numa economia de escala, havia grandes conglomerados produtivos, nodosidades, com fortes atividades complementares bem concentradas. Já numa economia de escopo, os

lugares centrais, as nodosidades, são resultados de “uma probabilidade diferencial” em que

as atividades humanas “fazem uma relação de poder com o local”, mas a mando de grandes corporações globais produtivas espraiadas pelo mundo, pois nesse novo capitalismo em rede, as gigantes corporações produtivas, de serviços, e do capital financeiro, apesar de bem concentradas, não demandam mais atividades complementares locais, e sim locais que demandam produtos complementares também locais, mas na escala do mundo. Ou seja, as

novas nodosidades humanas fazem emergir uma relação de poder “com o local”, mas a

reboque, digamos, do lugar mundo (grifo nosso), visto que na economia de escopo, grandes

centros produtivos dependem dos lotes de equipamentos e informações produzidos em outras nodosidades, outros locais, nos quais as vantagens comparativas ou competitivas são mais vantajosas, a serem remontados nos lugares probabilísticos desvantajosos. É assim que parece se configurar essa globalização que Milton Santos (2004), de uma maneira perspicaz,

atribui de perversa, já que tem levado os lugares cada vez mais a se submeterem aos poderes globalistas cada vez mais dissimétricos e socialmente injustos, ou seja, “um sistema

de lugares e um sistema de relações, sendo que as últimas não têm a mesma probabilidade

de realização no espaço” (RAFFESTIN, 1993, p. 137). Daí ser pertinente asseverarmos algumas assertivas de M. Santos (2004, p. 337), quando ele frisa: “a utilização pelas empresas, sobretudo das firmas gigantes, depende desses dois lados e não apenas de um deles. Formas e normas, pois trabalham como um conjunto indissociável”. Em suma, nos sistemas relacionais dissimétricos (as normas) não há as mesmas probabilidades do espaço, ou seja, nos lugares territorialmente com funcionalidades e possibilidades diferenciadas. Ainda, segundo Santos (2004, p. 337), “não existe um espaço global, mas espaços da globalização”, ou melhor, numa economia flexível

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 105

de escopo, de lotes produzidos em diversos lugares, o espaço global pode existir como possibilidade de um dia as normas e formas serem simétricas. Já os espaços da globalização, acata as normas globais dissimétricas imbuídas de probabilidades de realização localmente desiguais. Seguindo suas assertivas (SANTOS, 2004, p. 337), “o mundo se dá, sobretudo como norma, ensejando a espacialização, em diversos pontos, dos seus vetores técnicos, informacionais, econômicos, sociais, políticos e culturais. São ações ´desterritorializadas´, no sentido de teleguiadas, separando, geograficamente, a

causa eficiente e o efeito final”, isto é, no bojo dos sistemas de relações de lugares

sobressai-se a norma como regulação dominante, lastreando a técnica, a informação, a economia, as relações sociais, políticas e culturais, enfim, as normas diferenciam probabilisticamente a realização funcional do espaço como lugar do viver, fazer e acontecer. Ainda segundo M. Santos (2004, p. 337),

[

...

]

o mundo é um conjunto de possibilidades, cuja efetivação depende das oportunidades

pelos lugares. Esse dado, hoje, é fundamental, já que o imperativo da competitividade exige que os lugares da ação sejam global e previamente escolhidos entre aqueles capazes de atribuir a uma dada produção uma produtividade maior. Nesse sentido, o exercício desta ou

daquela ação passa a depender da existência, neste ou naquele lugar, das condições locais que garantam eficácia aos respectivos processos.

Neste prisma, fica patente, no contexto de uma sociedade em rede, que os lugares (que para muitos antropólogos, são não lugares) adquirem uma proeminência geográfica, ou de uma geografia econômica de grade valia, pois são os lugares do fazer acontecer a dinâmica produtiva ou não das incidências das flechas das ações, das normatividades, sobre e com os objetos inteligentes fixados nos mesmos, ou seus imperativos materiais passíveis de se tornarem objetos de troca. Assim, em um prisma no campo da geografia, jamais existirá um não lugar, pois nos mesmos as formas e as normas serão sempre dissimétricas, já que cada lugar responde às demandas probabilísticas relacionais com outros lugares, de acordo com as suas potencialidades. Desse modo, poderíamos ousar asseverar que, economicamente, os lugares são um conjunto de possibilidades para a efetivação das oportunidades que o capital desigual e combinado demanda para suas realizações várias: produtivas, financeiras, de serviços variados, etc. Todavia, ao mirarmos o mapa terrestre, as diversas escalas de lugares, em especial das cidades, do campo, dos municípios, das províncias, das federações, dos Estados, nunca foram tão dissimétricas e as fronteiras cada vez mais fortes, visíveis e vivíveis. No

106 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Brasil, se lançarmos mão das estatísticas, os desníveis de inclusão e exclusão social são gritantes. Paisagens estampam, em um mesmo bairro, favelas e condomínios de luxo, com indicadores de perspectiva de vida gritantemente desiguais; lugares insalubres versus lugares assépticos a qualquer lixo, inclusive o humano, barrados pelos muros e guaritas, como fala Z. Bauman (2005). É neste prisma que o lugar densifica sentidos: ele é um espaço do fazer e do viver; potencial de possibilidades e de oportunidades; de sentir e de amar; de atrair e de repelir, porém e acima de tudo, um campo de forças a ser um espaço de todos nós, não mais como possibilidades várias, mas um nó que irmane verdadeiramente um mundo de todos nós, em um contexto de diferenças locacionais. Verdadeiramente o todo na parte e a parte no todo, dentro de uma consciência humana universal diferenciada. Para finalizar este artigo, ressaltamos mais uma assertiva de Santos (2004, p. 338), quando afirma:

[

...

]

o universal é o Mundo como Norma, uma situação não-espacial, mas que cria e

recria espaços locais; particular é dado pelo país, isto é, o território normado; e o individual é o lugar, o território como norma. A situação intermediária entre o mundo e o país é dada pelas regiões supranacionais, e a situação intermediária entre o país e lugar são as regiões infranacionais, subespaços legais e históricos ...

[

].

Enfim, é nos lugares que se comungam, se entrelaçam todas categorias ou subcategorias de análise dos fenômenos socioespaciais que se espraiam na horizontalidade do espaço: as normas do mundo, do país, das regiões supranacionais (blocos econômicos), mas, e acima de tudo, os seus valores identitários e históricos.

REFERÊNCIAS

BACHELARD, G. A poética do espaço. Traduçao de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal. Disponível em:

espaco.pdf>. Acesso em: 16 jun. 2016.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

________.

Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

________.

Europa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 107

BIFO, F. B. A fábrica da infelicidade. Rio de janeiro: DP&A, 2005.

GEORGE, P. O homem na terra. A geografia em ação. Lisboa: Edições 70, 1993.

HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

SÁBATO, E. Homens e engrenagens. Campinas-SP: Papirus, 1993.

SANTOS, M. A natureza do espaço. Razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2004. (Coleção Milton Santos; 1)

108 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Capítulo 9

O LUGAR COMO CONSTRUTO DE INTERPRETAÇÃO SOCIO-ESPACIAL:

UM OLHAR PARA O MUNICÍPIO DE HORIZONTE, ESTADO DO CEARÁ

Emanuel Lindemberg Silva Albuquerque 12 Daniel Dantas Moreira Gomes 13

O espaço que se estende sobre um reticulado de pontos cardeais torna nítida a idéia de lugar, porém não transforma nenhuma determinada localidade geográfica no lugar. (TUAN).

INTRODUÇÃO

Em virtude de ser o lugar um construto que é derivado de ações indissociáveis entre a natureza e a sociedade, na percepção de espaço/tempo, torna-se necessário compreender que o pensamento geográfico que materializou o conceito de lugar vincula-se essencialmente à geografia humana, da qual derivaram dois ramos de pesquisa, ou seja, a geografia humanista e a geografia radical (FERREIRA, 2000). Na perspectiva de corroborar esta assertiva, Lopes menciona que,

é consenso que as concepções da categoria lugar para a ciência geográfica estão atreladas com as discussões travadas pela Geografia humana, sendo que essa categoria tem dois lastros de acepção principais: a geografia fenomênica/humanista (geografia cultural) e a geografia crítica (marxista materialismo/histórico/dialético). (LOPES, 2012, p. 26).

Nesse sentido, destaca-se que o cerne da Geografia (como ciência) é abordar de forma pormenorizada a espacialidade social e os condicionantes ambientais de forma integrada, independentemente do conceito e/ou categoria a ser adotada, tendo em vista

12 Professor Doutor em Geografia da UFPI, Brasil 13 Professor Doutor em Geologia da UPE / Campus Garanhuns, Brasil

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 109

que o espaço geográfico é concebido por realidades inseparáveis entre a sociedade e a natureza (ALBUQUERQUE, 2014). Portanto, partindo deste viés de análise e reflexão, objetiva-se delimitar o escopo da categoria geográfica lugar, no presente estudo, como um constructo de interpretação socioespacial, tendo como recorte espacial o município de Horizonte, localizado no Estado do Ceará, a partir do viés e da percepção ambiental. Ao considerar o exposto, adota-se no estudo em pauta uma postura tanto fenomênica/humanista quanto marxista (por meio de uma reflexão epistemológica), em virtude de que o cenário concebido e percebido para o recorte espacial adotado é fruto de um construto socioespacial que permeia, de forma imbricada, a relação sociedade/natureza. Por sua vez, esta é resultante de um conjunto de fatores que são estruturadas pelo homem e que são condicionadas pelos fatores naturais. Portanto, este estudo visa a contribuir com reflexões salutares para a temática em epígrafe, na perspectiva de perceber o lugar como uma categoria que materializa no espaço concreto da vivência à realidade socioespacial presente na sociedade. Salienta-se que não é pretensão dos autores a extinção dos debates, tampouco a definição categórica/verdadeira do lugar como construto de interpretação socioespacial, mas apenas um elo de discussão e pensamento a respeito da categoria espacial que delimita o assunto em mote no presente texto.

LUGAR: ESPAÇO CONCRETO DE VIVÊNCIA

Na perspectiva de identificar e apreender a realidade socioespacial (geográfico- ambiental) a partir do conceito de lugar, torna-se necessário a utilização de categorias espaciais auxiliares que perpassam o espaço concreto de vivência, tendo em vista que

“trabalhar com conceito é bem mais complexo que cravar um sentido único para o mesmo,

visto que dependendo da posição epistemológica com que se trate o conceito, o mesmo terá

esse ou aquele maior destaque” (LOPES, 2012, p. 24).

De acordo com Tuan (1983), o espaço e o lugar são expressões interligadas em que atribuímos alguma importância, sendo que os lugares encontram-se em articulações com o

espaço. Portanto, “[

...

]

o sentido de lugar não está limitado ao nível pragmático da ação e da

110 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

percepção e que sua experiência (direta ou simbólica) se constitui em diversas escalas [ ]” ... (CABRAL, 2007). Dentre esses níveis escalares encontra-se o município como recorte espacial.

Santos (1997) corrobora que o lugar constitui a dimensão da existência que se manifesta através do cotidiano entre as mais diversas pessoas e instituições em diversos níveis escalares. Não obstante, esta categoria espacial, a nosso ver, materializa as ações

interligadas entre sociedade e natureza, pois é neste nível de análise que se constrói a noção de identidade e de pertencimento. De acordo com Holzer (2003), o lugar encontra-se para além do espaço cartesiano ou euclidiano, tendo em vista que o mesmo se traduz em experiência contínua, egocêntrica e social, num espaço de movimento (espaço-tempo vivido), ou seja, uma categoria que não se reduz, exclusivamente, ao espaço delimitado territorialmente, mas também se refere à categoria do afetivo, do mágico e do imaginário. Destarte, o espaço e o lugar são conceitos importantes não só para sabermos “mais sobre a nossa própria natureza nossa potencialidade para experimentar mas também como arrendatários da Terra, preocupados na prática com o projeto de um habitat mais

humano” (TUAN, 1983, p. 8).

Conforme pontua Santos (2010), é no lugar que a história é socialmente construída, pois os sujeitos (sociedade) são elementos vivos que, por meio de suas mais diversas

atividades e relações, entram diretamente na dinâmica da (re)produção do lugar onde vivem (natureza). Portanto, a prática cotidiana dá sentido aos lugares, produzindo no indivíduo o sentimento de pertencimento, referência e identidade, pois o lugar.

[

...

]

é

a

base de reprodução

da

vida

[

...

].

É o espaço passível de ser sentido,

pensado, apropriado e vivido através do corpo [

...

].

As relações que os indivíduos

mantêm com os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos de uso,

nas condições mais banais, no secundário, no acidental [

...

].

São os lugares que o

homem habita dentro da cidade que dizem respeito a seu cotidiano, e a seu modo

de vida onde se locomove, passeia, flana, isto é, pelas formas através das quais o

homem se apropria e que vão ganhando o significado dado pelo uso [

].

Os

... percursos realizados pelos habitantes ligam o lugar de domicílio aos lugares de

lazer, de comunicação, mas o importante é que essas mediações espaciais são ordenadas segundo as propriedades do tempo vivido. (CARLOS, 2007, p. 20-22).

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 111

Diante deste aporte teórico, menciona-se que o caminho metodológico do conceito de lugar é adotado no presente estudo como uma categoria operacional de percepção do espaço geográfico, tendo em vista que o lugar é produto das atividades e das relações dos sujeitos sociais entre si e entre estes e o meio (sociedade/natureza).

ANÁLISE SOCIOESPACIAL DO MUNICÍPIO DE HORIZONTE/CE: O LUGAR NA PERSPECTIVA AMBIENTAL

A importância de se compreender o lugar em que se habita e de como se dão as relações socioespaciais, por meio do viés ambiental, faz o homem efetivamente participar do espaço social, ou seja, aquele habitado e transformado pelo homem. Por sua vez, o lugar pode trazer reveladoras informações sobre a sociedade que nele habita, como, por exemplo, sua formação histórica, cultural e econômica (SANTOS, 2010), incluindo aqui o viés ambiental. Nessa perspectiva, o recorte espacial adotado no estudo em epígrafe compreende o município de Horizonte (FIGURA 1), localizado na Região Metropolitana de Fortaleza RMF, Estado do Ceará, Região Nordeste do Brasil. Possui extensão territorial de aproximadamente 160,77 km² e dista 40 km de Fortaleza. O acesso principal à cidade se dá pela BR-116 (Rodovia Federal Santos Dumont).

112 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.)

Figura 1: Mapa de localização do município de Horizonte, Estado do Ceará

112 - Maria Betânia Moreira Amador e Sandra Medina Benini (Orgs.) Figura 1: Mapa de localização

Fonte: Elaboração dos autores (2016).

Ao compreender que o lugar encontra-se para além do espaço cartesiano ou euclidiano (HOLZER, 2003), conforme apresentado acima, o lugar é também espaço concreto de vivência, em que há a predominância da identidade, tendo em vista que o mesmo se traduz em experiência em sociedade, pois.

Um lugar não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço exerce um papel revelador sobre o mundo. (SANTOS, 2000, p. 114).

Não obstante, para alcançar este nível de análise e reflexão, não se pode desconsiderar, de forma alguma, o fator histórico, cultural, econômico e ambiental do lugar. No caso específico em questão, o município de Horizonte merece destaque, pois em virtude de sua localização geográfica (proximidade da capital cearense), de seus condicionantes ambientais favoráveis e atrelada a uma lógica mercadológica (econômica) inserida numa região metropolitana, transformou à realidade local num curto intervalo de espaço/tempo. De acordo com Albuquerque (2012), o município de Horizonte teve um acréscimo significativo em sua população, principalmente, no perímetro urbano, onde não houve, por

A complexidade do “lugar” e do “não lugar” numa abordagem geográfico-ambiental - 113

parte dos gestores públicos e dos atores sociais, nenhuma e/ou escassa preocupação com as características geoambientais do local frente às suas potencialidades e limitações de uso. Todavia, o sentido de lugar, na perspectiva retromencionada, não está circunscrito apenas ao espaço nucleado (área urbana), podendo também estar associado a espaços maiores e distantes do núcleo sede, com o qual não mantém laços afetivos e de identidade. No entanto, não é foco do presente trabalho constatar as nuanças entre urbano e rural. Por sua vez, o estudo visualiza o lugar por meio da experiência e do conhecimento dos indivíduos, pois, de acordo com Albuquerque (2012), mais de 80% da população horizontina é migrante, o que corrobora a existência de uma miscelânea de culturas e identidades que são (re)construídas a partir da vivência cotidiana no lugar (origem/destino). Do ponto de vista demográfico, a taxa geométrica de crescimento populacional do município nas últimas décadas (1991-2000) e (2000-2010) alcançou um crescimento da ordem de 7,06% e de 5,02%, respectivamente, sendo a maior taxa de crescimento populacional entre os municípios cearenses, e bem superior à registrada para o Estado, que foi de 1,3% (ALBUQUERQUE, 2012). Dessa forma, verifica-se ainda que a população deste município vem crescendo notadamente na área urbana. Em termos percentuais, no ano de 1991, a população urbana correspondia a 58,99%, passando para 59,30% no ano de 1996 e alcançando 83,23% no ano 2000. Destaca-se que na última década (2000-2010), diagnosticou-se um aumento ainda mais expressivo, apresentando um somatório de 92,49% da população horizontina inserida no perímetro urbano, conforme pode ser visualizado na Tabela 1.

Tabela 1: Evolução da população do município de Horizonte, Ceará: 1991-2010

   

População

Ano

 

Urbana

Rural

Total

 

%

%

 
 
  • 1991 58,99

18.283

10.786

 

7.497

41,01

  • 1996 59,30

25.382

15.051

10.331

40,70

  • 2000 83,23

33.790

28.122