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abril 2011 / Ensaios e Resenhas / S u b l i t e r

abril 2011 / Ensaios e Resenhas / Subliteratura e vingança

Subliteratura e vingança

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RODRIGO GURGEL Imprimir Enviar por email Recomendar Twittar A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma

A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma minha s conclusões de que os frutos do naturalism o brasileiro — essa “planta exótica”, segundo o sugestiv o enunciado de Lúcia Miguel-Pereira — são, em sua m aior parte, excêntric os quanto aos temas e medíocres no que se refere à forma. No caso específico de Cam inh a, contudo, há um desonroso complemento: seus principais liv ros, A normalista e Bom Crioulo, nasceram , principalmente, do rancor.

Órfão de mãe aos dez anos, Caminha, doente depois de sofrer as agruras de uma terrív el seca, é env iado a Fortaleza pelo pai. Dali, parte para o Rio de Janeiro, onde um tio o inscrev e na Escola Nav al. Republicano serv indo na Marinha, a mais monarquista das instituições militares, o escritor não se adapta à Corte e solicita o retorno ao Ceará. Aos 22 anos, apaixona-se pela esposa de um alferes; esta, para escândalo dos fortalezenses, abandona o marido e passa a v iv er com Caminha. As pressões obrigam-no a abandonar sua carreira nas forças armadas e, apesar do nov o emprego — de insignificante escriturário na Tesouraria da Fazenda —, a se transferir, em 1 893, para o Rio de Janeiro, quando publica A normalista, liv ro no qual pretendeu ajustar contas com a sociedade que praticamente o expulsara de Fortaleza. Dois anos mais tarde, surge Bom Crioulo — e desta v ez a v ingança terá como alv o a Marinha.

Certos críticos m odernos pretendem m inim izar essa característica — a do romance enquanto desforra — e, tam bém , isentar Caminha de suas responsabilidades, colocando nos

om bros das “instituições conserv adoras” a culpa pelo destino do escritor. Esquecem-se, no entanto, de que, em 1 884, quando ele discursa na Escola Nav al, diante do próprio

im perador,

(1 885) e segundo-tenente (1 888). Na v erdade, liv rar Adolfo Caminha de culpa é um a

e critica a monarquia, isso não o im pede de ser prom ov ido a guarda-marinha

O autor

ADOLFO CAMINHA

de ser prom ov ido a guarda-marinha O autor ADOLFO CAMINHA Nasceu em Aracati (CE), a

Nasceu em Aracati (CE), a 29 de maio de 1867, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 1.º de janeiro de 1897. Foi romancista, contista e poeta. Em 1886, reúne poesias sob o título de Voos incertos e, já na Marinha, faz viagem de instrução aos Estados Unidos. No ano seguinte publica o livro de contos Judite e lágrimas de um crente. Em 1891, lança A normalista e colabora nos jornais Gazeta de Notícias e O País. Publicado em 1894, No país dos yankees é o relato de sua viagem aos EUA. Um ano depois surgem Bom Crioulo (romance) e Cartas literárias (crítica). Em 1896, funda o semanário Nova Revista e publica o romance Tentação. Debilitado pela tuberculose, morre aos 29 anos. Deixa, inacabados, os romances:

Ângelo e O emigrado.

solução dev eras fácil para quem preferiu agir como se atos não produzissem conseqüências.

O arroubo im aturo cobrou seu preço — e o autor, considerando-se perseguido e injustiçado,

decidiu rev idar com a arm a que tinha à m ão.

Ressentimento

A escritora e editora Louise DeSalv o estudou, em Concebido com maldade, alguns casos

semelhantes ao de Cam inha, de autores que escrev era m m ov idos pelo desejo de v ingança. Ainda que suas reflexões sejam superficiais e discutív eis, o liv ro perm ite a abertura de um debate sobre os m otiv os éticos da produção literária. DeSalv o enaltece as obras que nascem do ressentim ento, legitimando seu raciocínio por meio de um freudismo superficial, muito dissem inado nos estudos acadêm icos, ou serv indo-se de citações genéricas, exem plos daquele beletrism o que serv e para justificar qualquer coisa. Por exemplo, a retórica da frase “Nenhuma motiv ação é demasiado v il para a arte”, de John Gardner (a pesquisadora certam ente se refere ao rom ancista e crítico norte-am ericano e não ao escritor inglês), esconde um juízo que pretende abarcar todos os comportam entos, inclusiv e os mais lev ianos. Ora, se nada é “demasiado v il para a arte”, o hom icídio praticado pelo escritor cujo objetiv o último é apenas descrev er com perfeição um assassinato seria um a motiv ação aceitáv el?

A escritora Anaïs Nin também se mostra condescendente, o que, para quem conhece sua

biografia, não é nenhuma surpresa:

O péssimo Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, é obra que põe em xeque a validade do romance enquanto desforra

O escritor é o duelista que jamais luta na hora marcada, que guarda um insulto como qualquer outro objeto curioso, um item de colecionador, despeja-o mais tarde sobre sua mesa e empenha-se verbalmente num duelo com ele. Algumas pessoas chamam isso de fraqueza. Eu chamo de adiamento… Pois ele preserva, coleciona o que depois vai explodir em sua obra.

De minha parte, não considero tal atitude “fraqueza ” ou “adiam ento”, m as apenas cov ardia. E os gestos que nascem da pusilanimidade, não só no que se refere à arte,

costum am ser desprezív eis.

Se, com o afirma DeSalv o, “a obra de arte substitui uma inadequação” e é somente um “m eio infantil, regressiv o e escapista de lidar com um fracasso”, então os gênios da literatura são, necessariam ente, monstros morais ou , num a hipótese mais am ena, adultos que não am adureceram. Tais generalizações serv em ao intuito da autora, com certeza, m as fecham os olhos à com plexidade não só dos escritores, mas de todos os seres hum anos. Com o classificar, por exemplo, Tolstói, a quem Isaiah Berlin — em seu magnífico ensaio O porco- espinho e a raposa — se refere como “o mais trágico entre os grandes escritores”, que se debateu, por toda a v ida, entre “o orgulho e o ódio por si m esmo, onisciente e duv idando de tudo, frio e v iolentam ente apaixonado, desdenhoso e pronto a se hum ilhar, atormentado e desapegado, rodeado por um a família que o adorav a, por seguidores dedicados, pela admiração de todo o m undo civ ilizado e, ainda assim , quase totalmente isolado”?

Outro exem plo de DeSalv o, Henry Miller dizia que su a escrita talv ez parecesse “monstruosa (para alguns) pois era uma v iolação, porém eu me tornei um indiv íduo m ais humano depois dela. Eu retirav a o v eneno do m eu sistem a sa nguíneo”. Não sabem os o que significou para ele tornar-se “mais humano” — e desconhecemos se sua afirmação é sincera —, mas escrev er mov ido por um desejo m aléfico e distribuir o seu “v eneno” a milhares de leitores é, no mínimo, uma form a discutív el de purificar a própria consciência. De qualquer forma, se Caminha tev e oportunidade sem elhante, pôde desfrutar dela por pouco tempo, pois morreu dois anos depois de publicar Bom Crioulo. Suas tentativ as patológicas de retaliação, contudo, ficaram . Em A normalista, segundo Alfredo Bosi, “o ressentim ento do autor, apoucado pela v ida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, lev a-o a niv elar todas as personagens no sentido das pequenas v ilezas que a h ipocrisia do meio se esforça em v ão por encobrir”. Como v erem os, não será diferente no caso de Bom Crioulo.

Linguagem Se fosse possív el sintetizar, num a única expressão, esse liv ro que um a parcela da crítica endeusa pelo fato de ser o primeiro “romance homossexual” da literatura brasileira, eu

T RECHO

Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha- lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos

diria que se trata de uma cascata de adjetiv os e lu gares-comuns. Há adjetiv os às pencas. Nem José de Alencar conseguiu usar tantos. O leitor abre o Capítulo I e lá encontra esta fórmula de gosto duv idoso: “(…) o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuv a de ouro do dia”. O protagonista, marujo a quem se apelidou de Bom Crioulo, é

um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada.

Tal maçante retórica irá perseguir o leitor até a últim a linha desse conto à força estendido.

E v irá acom panhada de “horizontes cor-de-rosa”, “coragem espartana”, o espírito que se

debate “com o um pássaro agonizante”, o “azul inconsútil” do céu, a v entania que tem “a força extraordinária de titãs”, “desejos de touro”, “frenesi de gozo”, o céu “alto e imenso na eterna glória da luz”, o “silêncio infinito da noite clara”, o som da v iola que “em briaga a alma” e mais quantos lugares-comuns se possa deseja r.

O exagero das descrições é ev idente desde a prim eira linha. O ódio não permitiu ao escritor

filtrar um pouco os seus ím petos qualificativ os. A corv eta que serv irá de palco à cena inicial do liv ro é “v elha e gloriosa”, tem o “casco negro” e as “v elas encardidas de m ofo”, assemelha-se à “sombra fantástica de um barco av entureiro”, m as não passa de um a “v elha carcaça flutuante”, “esquife agourento (…) quase lúgubre na sua marcha

v agarosa” — “um grande m orcego apocalíptico de asas abertas sobre o im enso mar”. E estes

são apenas trechos selecionados dos três brev es par ágrafos que abrem o Capítulo I… Logo, logo v eremos o v ento “açoitando os cabos, fustigando a superfície da água” e, pasmem,

“gemendo tristem ente salm odias de v ioloncelo fantástico”.

Apaixonado por Aleixo, um grum ete de 1 5 anos, Bom Crioulo sofre o “forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega”, seja lá o que isso for. Sempre a acompanhar o casal de

namorados, lá está, “no alto do grande hem isfério que a luz do m eio-dia incendiav a”, nada

m ais que “o azul, sem pre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito

e misterioso”. E à noite, é claro, não falta a lua, eterna protetora dos apaixonados, que necessariam ente surge, primeiro, “cor de fogo”, par a depois se tornar “fria e opalescente,

m isto de név oa e luz, alma da solidão”, “derram ando sobre o m ar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do m arinheiro” e atormenta os leitores que conserv aram um

m ínim o de bom senso.

poros numa

hemorragia formidável ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; — não podia fechar os olhos, nem tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doido por ali fora, meter-se num banho e ficar na água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava com aquilo. Talvez alguma praga

Era

horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa coisa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!

injusta

Bom Crioulo não se excita, apenas, m as sente “uma febre extraordinária de erotism o, um delírio inv encív el de gozo pederasta” — por um mom ento, o leitor tem a clara impressão de que ele se jogará pela amurada. Já em terra, no aconchego de uma “triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia”, o negro v enera as “formas roliças de calipígio” do seu amante. Os dois v iv em num a suja água-furtada, “espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico”, mas que apresenta “som bra v oluptuosa”, “penum bra acariciadora” e, graças aos rabiscos do escritor, se transforma num “ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáv eis”. E se não estamos satisfeitos com o palav rório, ainda podem os saber que Aleixo é um “belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talv ez im ortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”. Conv enham os, nem o pior dos românticos produziria uma frase tão afetada.

Mas v amos em frente. Bom Crioulo, lev ado ao hospital da Marinha depois de receber chibatadas — punição habitual à época —, chega aos estertores da saudade:

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom Crioulo.

Como v emos, o hiperbolism o causa efeito oposto àquele que o autor busca. Depois de

algum as páginas abarrotadas de adjetiv os que preten dem , repetidam ente, construir a

m esma ênfase expressiv a, o recurso começa a produzir incredibilidade e, logo depois,

av ersão. No caso acim a, não basta que o “desespero” seja “surdo” e “incrív el” — ele também precisa ser “fantástico”, além de v ir acompanhado de indescritív eis “acidentes patológicos”

e de “uma espécie de lepra contagiosa”. Não é só a cena que desm orona diante do olhar

saturado do leitor, mas a própria v erossim ilhança da história fica comprometida, principalmente quando sabemos que, poucos parágrafos à frente, o personagem — que há dias sangra no seu leito — agirá como um super-herói: saltará janela e muros, fugirá da ilha em que o hospital está instalado e, chegando ao continente, cam inhará longos quarteirões em busca de sua paixão.

Ao dedicar-se com tal empenho à sua v ingança, Adolfo Caminha seguiu os passos de Aluísio Azev edo, e aprendeu com seu mestre a importância de coalhar o texto de imagens

m órbidas. Assim , lá estão os “ím petos v orazes de nov ilho solto” — ou, se preferirem, o “grande ím peto selv agem de nov ilho insaciáv el” —, a s “incongruências de macho em cio”, as “nostalgias de libertino fogoso”, a m ulher masculinizada, de “pernas gordas e penugentas”, que se transforma num a “v aca do cam po extraordinariamente excitada” e, “segurando os seios m oles”, traz “um estranho fulgor no olhar de basilisco”. Tudo se animaliza, tudo se degrada, a fim de corroborar, à força, as teorias determ inistas. Do “bodum africano”, passando pelo “hermafroditismo agudo”, chega-se às “sucções

v iolentas”. E quando Bom Crioulo, fugido do hospital, percorre as ruas em busca de Aleixo,

“pairav a um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiv a de m ictório público, env enenando a atm osfera, intoxicando a respiração”. É pena que, no final, quando

o negro salta de nav alha em punho sobre o amante, apresente, além do ciúme, o raríssim o

sintom a de “estrabism o nerv oso de alucinado”… Esse problema não poderia tê-lo im pedido de acertar o alv o?

Toda a conhecida ladainha biologista do naturalismo polui a obra: como v imos, Bom Crioulo é o m elhor contraponto à suposta “morbidez patológica de toda um a geração decadente e enerv ada”; certo personagem traz “no rosto im berbe de adolescente (…) uma precoce morbidez sintomática”; o grumete tem uma “v ontade ingênita de ceder aos caprichos do negro”; a natureza não só “im põe castigos”, m as “pode m ais que a v ontade

humana”. Não estam os diante de afetos passív eis de serem controlados pela razão ou, ao m enos, capazes de prov ocar dúv idas de ordem existen cial ou m oral, mas de um a “obsessão doentia” que “redobra com uma força prodigiosa”, “acorda zelos que pareciam estagnados”

e “com ov e fibras que já tinham perdido antigas ener gias”. A luta de Bom Crioulo contra os seus instintos, anunciada com fanfarras no Capítulo III, não dura poucos parágrafos, de m aneira que a homossexualidade se apresenta como um “ideal genésico” cuja força obriga o “selv agem de Zanzibar” a “cair em êxtase (…) diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano”.

Composição Mas os defeitos de Bom Crioulo não se restringem à linguagem . O liv ro é com posto sobre esquem atism os e obv iedades. Logo no início, à calma ria enfrentada pela corv eta corresponde, evidentemente, a preguiça dos marujos. O oficial que preza a obediência da m arujada precisa ser um disciplinador arrogante. Agostinho, um guardião tam bém responsáv el por aplicar as chibatadas, não pode desaprov ar o que é obrigado a fazer por ordens superiores, mas dev e, necessariamente, ter a personalidade de um sádico. O feliz casal de hom ossexuais carece de um antagonista — e, claro, nada melhor do que o elemento feminino, a portuguesa Carolina, para assumir o posto, formando o trio de personagens a partir do qual se construirá a trama corriqueira: encontro — sedução — posse do objeto amoroso — separação mom entânea — sedução do antagonista — ciúm e descontrolado — tragédia/m orte.

A história é tão prev isív el, que se cortássem os, além dos trechos de retórica v azia, as

digressões que só reiteram as qualidades físicas dos m arinheiros enamorados e seus repetitiv os sentim entos, recíprocos ou não, o liv ro poderia perder dois terços de gordura e se transformar num conto de v inte ou trinta páginas.

Há tam bém sérios problem as de passagem

Crioulo se encontra no hospital, Aleixo se torna “gordo, forte, sadio (…), m úsculos

do tempo. Em m enos de um m ês, enquanto Bom

desenv olv idos como os de um acrobata (…), expressão adm iráv el de robustez física” — e a única razão apresentada para essa m udança são os cu idados de Carolina. Antes, sem que se cumpra sequer um ano de conv iv ência, Bom Crioulo consegue v er “crescer a seu lado Aleixo, assistindo-lhe o desenv olv imento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade”. Próximo do fim do liv ro, passadas as poucas sem anas em que permaneceu no hospital, o protagonista já não sabe ao certo on de é a residência de Carolina, lugar no qual v iv ia m uito antes de conhecer Aleixo — e age como se sua últim a noite ali tiv esse ocorrido há décadas. Finalm ente, parado defronte à casa, conv ersa com o funcionário da padaria e este lhe diz que o grum ete e a portuguesa acordam tarde; o dia m al amanheceu, m as, surpresa!, Aleixo sai para a rua.

A vertigem do Mal Enquanto relia Bom Crioulo, lembrei-me do ensaio — elogioso e dem oníaco — de Georges Bataille sobre Jules Michelet e seu La sorcière (A feiticeira). Do princípio ao fim, Caminha parece guiado pela mesma paixão que, segundo Bataille, comandav a Michelet: “a v ertigem do Mal”. Entregue ao seu desejo de v ingança, enquanto escrev ia Adolfo Caminha talv ez repetisse o gesto de Michelet: “No decurso do seu trabalho, acontecia faltar-lhe a inspiração: descia então de sua casa, dirigia-se a um mictório cujo cheiro era sufocante. Aspirav a profundamente e, tendo-se assim ‘aproxim ado, o mais perto que podia, do objeto do seu horror’, v oltav a ao trabalho”.

Encontrar quem elogie tal subliteratura é uma ev idência de quanto a nossa episteme se encontra deteriorada, subm etida à m ais ordinária doxa. Realm ente, uma parcela da crítica literária abdicou do seu papel, preferindo destruir a autonom ia da literatura e sujeitar a arte à deploráv el ditadura do politicamente correto. Harold Bloom está certo quando diz que todos os padrões estéticos e a maior ia dos padrões intelectuais estão sendo abandonados em nom e de uma falsa e forçada harmonia social. E, completo, com um agrav ante: mente-se descaradam ente aos jov ens, lev ando-os a v alorizar uma ficção m edíocre. Tal obsessão significa, na prática, a renúncia à autonomia de pensam ento — um desatino frente ao qual muitos se mostram indefesos.

NOTA Desde a edição 1 22 do Rascunho (junho de 201 0), o crítico Rodrigo Gurgel escrev e a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxim a edição, Dom ingos Olímpio e Luzia-Homem.

RODRIGO GURGEL

É escritor, editor e crítico literário. Vive em São Paulo (SP).

editor e crítico literário. Vive em São Paulo (SP). Voltar ao topo Veja também: [+] Do

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