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Acadêmica

Cultura

Acadêmica C u l t u r a Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS

Acadêmica C u l t u r a Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa
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ESTRUTURAS ALGÉBRICAS

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS

Reitor Pró-Reitor de Graduação Pró-Reitor de Pós-Graduação Pró-Reitora de Pesquisa Pró-Reitora de Extensão

Reitor Pró-Reitor de Graduação Pró-Reitor de Pós-Graduação Pró-Reitora de Pesquisa Pró-Reitora de Extensão Universitária Pró-Reitor de Administração Secretária Geral Chefe de Gabinete

Universidade Estadual Paulista

Julio Cezar Durigan Laurence Duarte Colvara Eduardo Kokubun Maria José Soares Mendes Giannini Mariângela Spotti Lopes Fujita Carlos Antonio Gamero Maria Dalva Silva Pagotto Roberval Daiton Vieira

Acadêmica

Cultura

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Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS

Acadêmica C u l t u r a Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa
Acadêmica C u l t u r a Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

São Paulo

2013

Acadêmica C u l t u r a Mauri Cunha do Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

© Pró-Reitoria de Graduação, Universidade Estadual Paulista, 2013.

Ficha catalográfica elaborada pela Coordenadoria Geral de Bibliotecas da Unesp

N244e

Nascimento, Mauri Cunha do Estruturas Algébricas / Mauri Cunha do Nascimento [e] Hércules de Araujo Feitosa. – São Paulo : Cultura Acadêmica : Universidade Estadual Paulista, Pró-Reitoria de Graduação, 2013.

172 p.

Bibliografia

ISBN 978-85-7983-418-9

1. Álgebra. I. Título. II. Feitosa, Hércules de Araujo. III. Universidade Estadual Paulista. Pró-Reitoria de Graduação.

CDD 512

equipe

equipe

Pró-reitor

Laurence Duarte Colvara

Secretária

Joana Gabriela Vasconcelos Deconto

Assessoria

José Brás Barreto de Oliveira Maria de Lourdes Spazziani Valéria Nobre Leal de Souza Oliva

Técnica

Bambina Maria Migliori Camila Gomes da Silva Cecília Specian Eduardo Luis Campos Lima Gisleide Alves Anhesim Portes Ivonette de Mattos Maria Emília Araújo Gonçalves Maria Selma Souza Santos Renata Sampaio Alves de Souza Sergio Henrique Carregari

Projeto gráfico

Andrea Yanaguita

Diagramação

Mauri da Cunha Nascimento Hércules de Araujo Feitosa

Finalização

Estela Mletchol

PROGRAMA DE APOIO À PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO

Considerando a importância da produção de material didático-pedagógico dedicado ao ensino de graduação e de pós-graduação, a Reitoria da UNESP, por meio da Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD) e em parceria com a Funda- ção Editora UNESP (FEU), mantém o Programa de Apoio à Produção de Material Didático de Docentes da UNESP, que contempla textos de apoio às aulas, material audiovisual, homepages, softwares, material artístico e outras mídias, sob o selo CULTURA ACADÊMICA da Editora da UNESP, disponibi- lizando aos alunos material didático de qualidade com baixo custo e editado sob demanda. Assim, é com satisfação que colocamos à disposição da comunidade aca- dêmica mais esta obra, “Estruturas Algébricas”, de autoria dos Professores:

Dr. Mauri Cunha do Nascimento e Dr. Hércules de Araujo Feitosa, da Facul- dade de Ciências do Câmpus de Bauru, esperando que ela traga contribuição não apenas para estudantes da UNESP, mas para todos aqueles interessados no assunto abordado.

Sumário

INTRODUÇÃO

11

1 PRELIMINARES

15

1.1 Conjuntos

 

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15

1.2 Operações com conjuntos

 

17

1.3 Relações

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19

1.4 Relação de equivalência

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20

1.5 Funções

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21

1.6 Operações .

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1.7 Propriedades das operações

 

23

1.8 Os inteiros

 

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26

2 GRUPOS

35

2.1 Definições e exemplos

 

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36

2.2 Propriedades dos grupos

 

41

2.3 Produto de grupos

 

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42

2.4 Grupos de permutações

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43

2.5 Grupos de simetria

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45

2.6 Grupos cíclicos

 

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47

2.7 Subgrupos .

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49

2.8 Classes laterais

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52

2.9 Subgrupos normais .

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57

2.10 Grupo quociente

 

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59

2.11 Homomorfismo de grupos

 

63

2.12 Grupos solúveis .

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68

8

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

3

ANÉIS

73

3.1 Definições e exemplos

 

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74

3.2 Os anéis Z n

 

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3.3 Propriedades dos anéis .

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81

3.4 Subanéis

 

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83

3.5

Ideais

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86

3.6 Homomorfismo de anéis

 

89

3.7 Anel quociente

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3.8 O teorema do isomorfismo

 

94

3.9 Característica de um anel

 

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98

3.10 O corpo de frações de um domínio de integridade

 

100

3.11 Sobre um corpo ordenado e completo

 

102

4 POLINÔMIOS

 

111

 

4.1 Anel de polinômios .

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111

4.2 Ideais principais e máximo divisor comum

 

117

4.3 Polinômios irredutíveis

 

121

4.4 Fatoração em polinômios irredutíveis

 

123

4.5 Polinômios sobre os inteiros

 

126

5 CORPOS

 

131

 

5.1 Extensões algébricas

 

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132

5.2 Imersão

 

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140

5.3 Extensões de Galois

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144

5.4 Elementos da Teoria de Galois

 

148

5.5 Construções com régua e compasso

 

155

5.6 Resolução de equações com radicais

162

5.7 Polinômios Solúveis

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164

BIBLIOGRAFIA

 

169

ÍNDICE REMISSIVO

 

171

NOTAÇÕES

A[x] - anel de polinômios com coeficientes em A - pag.111

[L : K] - grau da extensão de L sobre K - pag.134

∂p(x) - grau do polinômio p(x) - pag.113

[a 1 , a 2 ,

, a n ] espaço vetorial gerado por {a 1 , a 2 ,

, a n }

K(a 1 , a 2 ,

, a n ) -

o menor corpo que contém K e {a 1 , a 2 ,

, a n }

Im(h) - a imagem da função h

N (h) - o núcleo do homomorfismo h

Gal(f (x), K) - o corpo de decomposição de f (x) sobre K - pag.144

K G - o corpo fixo de K por G - pag.145

G(L, K) - o grupo dos K -automorfismos de L - pag.146

H

< G - H subgrupo de G

H

G - H subgrupo normal de G

L H - o corpo fixo de L por H - pag.151

I(K, L) - conjunto dos corpos intermediários entre K e L - pag.151

S n - grupo de permutações - pag.56

G(f (x), K) - o grupo de Galois de f(x) - pag.148

N , Z , Q , R , C - conjuntos numéricos - pag.15.

X - X − {0}

- conjunto vazio

A B - A subconjunto de B

A B - A é subconjunto próprio de B

A B - conjunto dos elementos de A que não estão em B

P(E) - o conjunto das partes de E

i A - a função identidade de A em A

a | b - a divide b

mdc(a, b) - o máximo divisor comum de a e b

mmc(a, b) - o mínimo múltiplo comum de a e b

M m×n (R) - conjunto das matrizes m × n

M n (R) - conjunto das matrizes quadradas de ordem n

I n - matriz identidade n × n

a- grupo cíclico gerado por a

S- subgrupo gerado por S

10

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

a 1 , a 2 ,

|G| - ordem do grupo G |a| - ordem do elemento a (G : H) - índice do subgrupo H em G

,

a n - subgrupo gerado por {a 1 , a 2 ,

,

a n }

Introdução

Uma parte significativa do trabalho matemático consiste em com- preender e desenvolver estruturas matemáticas. De um modo geral, uma estrutura matemática é determinada por um conjunto universo de objetos matemáticos, por operações que envolvem estes objetos e tam- bém por relações entre esses elementos do universo. Um exemplo bastante simples e que está na experiência mate- mática de todo estudante é a estrutura matemática determinada por (N, 0, 1, +, ·, s, ) , em que N é o conjunto dos números naturais, 0 e 1 são dois números naturais particulares, s é a operação (função) suces- sor, que a cada número natural n atribui o seu sucessor n + 1 , + é a operação de adição de números naturais, · é a operação de multiplica- ção de números naturais e é a relação usual de ordem de números naturais. Para certas estruturas, tratamos e quantificamos sobre operações e relações com conjuntos de conjuntos do universo. São estruturas de segunda ordem, importantes e corriqueiras no contexto matemático. Por exemplos, estruturas topológicas são deste tipo. Podemos destacar alguns aspectos de uma estrutura e nos debruçar- mos apenas sobre este quesito. Por exemplo, podemos estudar apenas (N, ) , isto é, o conjunto dos números naturais com sua usual relação de ordem, mas sem operações. Uma estrutura matemática sem opera- ções é chamada estrutura relacional . Por outro lado, podemos esquecer as relações da estrutura matemática e nos concentrarmos nas suas ope- rações, de modo a caracterizar quais propriedades as operações daquela

12

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

estrutura partilham. Uma estrutura matemática fundada em operações é uma estrutura algébrica .

Como indica o título deste texto, trataremos das estruturas algébri- cas. Motivados pelas estruturas algébricas dadas por diversos conjuntos numéricos, matemáticos perceberam que há alguns aspectos comuns em muitas dessas estruturas e também diferenças substanciais. Então, identificar o que seria comum e abstrair tais aspectos levou-os ao es- tudo das estruturas algébricas.

Diante disso, escolhemos alguns princípios básicos, ou axiomas al- gébricos, e determinamos uma teoria específica. Desenvolvemos esta particular teoria em seus aspectos gerais e depois identificamos estru- turas matemáticas que são modelos daquela teoria - os exemplos, isto é, estruturas que fazem os axiomas serem sempre válidos. Este é o ca- minhar das investigações sobre estruturas algébricas.

Há uma tradição importante dos algebristas que destacam o estudo das seguintes teorias algébricas: Grupos, Anéis, Corpos e Anéis de Po- linômios. Em muitos cursos de matemática pelo mundo há alguma dis- ciplina que trata destas teorias. Neste texto nos propomos a fazer exa- tamente isto.

Existem muitos e bons textos sobre este assunto, como indicados na bibliografia. Segundo o nosso entendimento, o nosso livro não é me- lhor, mas também não é pior que os outros textos. Ele apenas explicita as nossas escolhas, as quais fizemos ao longo de muitos anos dando au- las de estruturas algébricas, e também sugere um encadeamento para a formação dos nossos alunos. Corresponde a nossas notas de aulas, revistas e dimensionadas para a nossa realidade.

Reunimos os exercícios ao final de cada seção.

No primeiro capítulo apresentamos, de forma bem resumida, alguns conceitos importantes para os desdobramentos posteriores. Tais con- teúdos são desenvolvidos em alguns textos da Bibliografia, especial- mente em [3], [5] e [16].

No capítulo seguinte, tratamos dos Grupos. Cada grupo é uma es- trutura algébrica determinada por uma única operação e um elemento

| INTRODUÇÃO

13

neutro para aquela operação, com algumas poucas propriedades. Numa estrutura de grupo já podemos resolver algumas simples equações de primeiro grau. No terceiro capítulo, adicionamos uma operação à estrutura de gru- pos e ampliamos o conjunto de axiomas para obtermos uma nova estru- tura algébrica denominada Anel. Definimos muitos casos particulares de anéis, damos inúmeros exemplos e mostramos muitas propriedades. O próximo capítulo é destinado aos polinômios. Daremos grande ênfase a polinômios sobre anéis. O último capítulo é destinado a elementos da Teoria de Galois. Trata-se de uma teoria belíssima, fundamental para os estudos algébri- cos, de surgimento relativamente recente e que permitiu comprovar a impossibilidade de alguns anseios matemáticos, por muito tempo per- seguidos, como: a trissecção de um ângulo, dividir um ângulo qualquer em três ângulos de mesma medida; a quadratura do círculo, determinar um quadrado com área idêntica a de um círculo dado; a duplicação do cubo, a determinação de um cubo cujo volume é exatamente o dobro do volume de um cubo dado; e a determinação de um método que en- volvesse apenas radicais dos coeficiente de uma equação qualquer para a obtenção de suas raízes. Temos soluções para equações de graus até quatro, mas não há método geral para equações de graus superiores a quatro.

Capítulo 1

Preliminares

Neste capítulo inicial, faremos uma rápida apresentação sobre

alguns conceitos matemáticos necessários para o desenvolvimento dos

tópicos que surgirão no texto. Todos estes temas são usualmente vis-

tos em momentos anteriores ao estudo das estruturas algébricas como

desenvolvidos nos capítulos seguintes.

1.1 Conjuntos

O conceito de conjunto é fundamental para os desenvolvimentos

deste texto e também da Matemática de um modo geral. Faremos uma

abordagem rápida em que apresentaremos aspectos da álgebra dos

conjuntos. Detalhes sobre tratamento mais cuidadoso e axiomático

dos conjuntos podem ser encontrados em [5].

As notações abaixo são as usuais para os conjuntos numéricos:

N = {0, 1, 2, 3, 4, 5, 6,

}

Q

R

Z = {

} o conjunto dos números naturais;

3, 2, 1, 0, 1, 2, 3,

o conjunto dos números inteiros;

= { a : a, b Z e b ̸= 0} o conjunto dos números racionais;

b

o conjunto dos números reais, que consiste dos números racionais

e dos irracionais;

16

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

Denotamos, em geral, os conjuntos por letras maiúsculas e seus elementos por letras minúsculas. O símbolo : entre chaves deve ser lido como “tal que”.

Se A é um conjunto de números, denotamos por A o conjunto A

sem o zero. Assim, N = {1, 2, 3,

}

Representamos um conjunto dispondo seus elementos entre cha-

} e

ves, como nos seguintes casos, A = {a, b, c} , B = {0, 2, 4,

,

2n,

P = {x B

:

x > 5} .

Escrevemos a A para indicar que o elemento a pertence ao

conjunto A e escrevemos a / A para denotar que o elemento a não pertence ao conjunto A . Para o conjunto A = {−1, 0, 1} , temos

1 A, 2 / A, 0 A,

.

O conjunto vazio é o único conjunto que não contém elementos.

Denotamos o conjunto vazio por { } ou, da maneira mais usual, por .

Um conjunto é unitário quando possui apenas um elemento. Por exemplo, A = {a} e B = {x Z : x 2 = 0} são conjuntos unitários.

O conjunto universo V é constituído por todos os elementos que es-

tão em consideração. Por isso, muitas vezes, é chamado de universo de discurso. Como exemplo, na Geometria Euclidiana Plana, o conjunto universo é o plano euclidiano.

Um conjunto A é subconjunto de um conjunto B quando todos os elementos de A são também elementos de B . Nesse caso, dizemos também que A está contido em B ou que B contém A . Denotamos a inclusão de conjuntos por: A B .

Para qualquer conjunto A , temos A e A A . Estes dois

| PRELIMINARES

17

subconjuntos são chamados de subconjuntos triviais de A .

O conjunto A é um subconjunto próprio de B se A B e A ̸= B .

Denotamos a inclusão própria por: A B .

Se A = {−1, 0, 1}

e B = {−3, 2, 1, 0, 1, 2} , então temos A B .

Neste caso também é correto escrever A B .

Dois conjuntos A e B são iguais quando têm exatamente os mesmos elementos. A igualdade de conjuntos é denotada por A = B .

Os conjuntos A = {0, 1, 2} e B = {x N : x 2} possuem os mesmos elementos e, deste modo, A = B .

1.2 Operações com conjuntos

As operações com conjuntos nos ensinam como operar com conjuntos e obtermos novos conjuntos a partir de conjuntos dados. Introduzimos, a seguir, as operações de união, intersecção, comple- mentação e diferença de conjuntos.

Sejam A e B dois conjuntos dados:

A união de A e B é o conjunto A B dos elementos que pertencem

a A ou a B .

A intersecção de A e B é o conjunto A B dos elementos que per-

tencem a A e a B .

A diferença entre A e B é o conjunto AB formado pelos elementos

que pertencem a A, mas não pertencem a B .

O complementar de A relativo ao universo V é o conjunto A formado

pelos elementos que pertencem a V , mas não pertencem a A .

Dois conjuntos A e B são disjuntos quando A B = .

Dessas operações entre conjuntos seguem as seguintes proprieda-

18

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

des das operações com conjuntos:

Propriedades da união:

A A = A [Idempotência]

A B = B A [Comutatividade]

(A B) C = A (B C) [Associatividade]

A = A [Elemento neutro]

A V = V [Elemento absorvente]

A A B [Disjunção]

Propriedades da intersecção:

A A = A [Idempotência]

A B = B A [Comutatividade]

(A B) C = A (B C) [Associatividade]

A = [Elemento absorvente]

A V = A [Elemento neutro]

A B A [Conjunção]

Propriedades distributivas:

A C) = (A B) (A C)

(B

A C) = (A B) (A C)

(B

Propriedades do complementar:

(A ) = A [Duplo complementar]

A A =

A A = V

Propriedades de absorção e diferença:

A (A B) = A

A (A B) = A

A B = A B .

Exercícios 1. Verificar a validade das propriedades das operações com conjuntos.

| PRELIMINARES

19

1.3 Relações

No contexto matemático é usual tomarmos dois elementos e compararmos um com outro. Observar que um é maior que o outro, que são iguais, que guardam algum tipo de propriedade ou relação. A abstração algébrica destas situações nos remetem ao conceito de relações, como veremos agora.

O produto cartesiano de um conjunto A por um conjunto B , que é denotado por A × B , é o conjunto de todos os pares ordenados (a, b) tais que a A e b B . Deste modo, A × B = {(a, b) : a A e b B} .

Também dizemos que este é um produto cartesiano binário, mo- tivado pelo estudo do plano cartesiano, inicialmente investigado por Rene Descartes, mas que pode ser generalizado para uma coleção de conjuntos, do seguinte modo:

A 1 × A 2 ×

×

A n = {(a 1 , a 2 ,

,

a n ) : a i A i } .

Uma relação binária de A em B é qualquer subconjunto de A × B .

Em geral trataremos de relações binárias e diremos apenas rela- ção. Se R é uma relação, algumas vezes escrevemos xRy ao invés de (x, y) R . Vejamos que isto é o que ocorre com a usual re- lação de ordem no conjunto dos números reais R . Temos que R = {(x, y) R × R : x é menor ou igual a y} , contudo, corriqueira- mente denotamos esta relação por “ x y ” e não por “ (x, y) R ”.

Uma relação em um conjunto A (ou sobre um conjunto A ) é um subconjunto R do produto cartesiano A × A .

Seja R uma relação sobre A. Dizemos que R é:

(i) reflexiva quando, para todo a A , ocorre aRa ; (ii) simétrica quando, para todos a, b A , se aRb , então bRa ; (iii) transitiva quando, para todos a, b, c A , se aRb e bRc , então

20

ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

aRc; (iv) anti-simétrica quando, para todos a, b A , se aRb e bRa , então a = b . (v) linear quando, para todos a, b A , ocorre aRb ou bRa .

Uma relação de ordem sobre um conjunto A é uma relação reflexiva, anti-simétrica e transitiva. Uma relação de ordem total sobre A é uma relação de ordem linear.

Exemplo 1.1. Se E é um conjunto qualquer, o conjunto das partes de E é o conjunto P(E) = {X : X E} . Então (P(E), ) é uma relação de ordem, mas não é uma ordem total.

Exemplo 1.2. A relação R = {(a, b) R : a b} é uma ordem linear.

Exercícios 1. Justificar a ordem da inclusão de conjuntos acima e mostrar porque ela não é total.

1.4 Relação de equivalência

As relações de equivalência são importantes para os desdobra- mentos algébricos que planejamos encaminhar. De certo modo, elas generalizam uma relação de igualdade.

Uma relação de equivalência sobre um conjunto A é uma relação re- flexiva, simétrica e transitiva.

Exemplo 1.3. A relação de igualdade em qualquer conjunto é sempre uma relação de equivalência.

Exemplo 1.4. A semelhança de triângulos é uma relação de equivalência.

Dada uma uma relação de equivalência R em um conjunto A e a A , a classe de equivalência de a segundo a relação R é o conjunto [a] = {x A : xRa} .

| PRELIMINARES

21

Exemplo 1.5. Se A = {1, 2, 3} e R = {(1, 1), (2, 2), (3, 3), (1, 2), (2, 1)} , então R é uma relação de equivalência e as suas classes de equivalência

são dadas por: [1] =

Teorema 1.1. Seja R uma relação de equivalência em um conjunto A . Então:

(i) duas classes de equivalência de R são iguais ou disjuntas e (ii) o conjunto A é a união de todas as classes de equivalência. Demonstração: (i) Sejam [a] e [b] duas classes. Se [a] e [b] são disjuntas,

nada há para verificar. Agora, se [a] [b] ̸= , então deve ser o caso que [a] = [b] . Se [a] [b] ̸= , então existe c [a] [b] e, daí, cRa e cRb . Portanto, aRc , cRb e, assim, aRb . Se d [a] , então dRa , e como aRb , então dRb, ou seja, d [b] , o que mostra que [a] [b] . De modo análogo, verifica-se que [b] [a] . Portanto, [a] = [b] . (ii) Como [a] A, então ∪{[a] : a A} ⊆ A . Por outro lado,

A ⊆ ∪{[a] : a A} . Portando, A = ∪{[a]

Se R é uma relação de equivalência sobre o conjunto A , então o con- junto quociente de A pela relação R é o conjunto das classes de equi- valência de R , isto é, A/ R = {[a] : a A} = {B P(A) : B = [a], para algum a A} .

{1, 2}, [2] = {1, 2} e [3] = {3} .

:

a A} .

} , [2] = { 1 , 2 } e [3] = { 3 } .

Exemplo 1.6. No exemplo anterior, A/ R = {[1], [3]} .

1.5 Funções

Naturalmente reconhecemos que o conceito de função é central para quase tudo em Matemática. Apenas recordaremos algumas definições.

Uma função f de A em B é uma relação de A em B tal que para cada

x A existe um único y que satisfaz (x, y) f .

Em geral, denotamos uma função f de A em B por f : A B e (x, y) f por y = f (x) .

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ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

Quando f : A B é uma função de A em B , então dizemos que A é o domínio de f , B é o contradomínio de f e a imagem de f é o conjunto Im(f ) = {b B : b = f (a), para algum a A} .

Exemplo 1.7. Para um conjunto A , i A : A A é a função identidade em A que é definida por i A (x) = x , para todo x A .

Uma função f : A B é sobrejetiva quando Im(f ) = B . Ela é injetiva quando, para x, y A, se x ̸= y , então f (x) ̸= f (y) e é bijetiva se é injetiva e sobrejetiva.

1.6 Operações

São as operações e as propriedades partilhadas pelas operações que determinam as estruturas algébricas. Recordemos então alguns aspectos das operações, que são casos particulares de funções.

Uma operação binária sobre um conjunto A é uma função : A × A A .

Assim, uma operação binária em A associa a cada par de elementos de A um outro elemento de A .

Exemplo 1.8. A adição é uma operação em R , pois a soma de números reais é ainda um número real.

Exemplo 1.9. Do mesmo modo, a adição é uma operação em N , Z , Q , R e C.

Exemplo 1.10. A multiplicação também é uma operação em N , Z , Q , R e

C .

Exemplo 1.11. A subtração não é uma operação N , pois 0 N e 1 N , mas 0 1 / N . Mas a subtração é uma operação nos conjuntos Z , Q , R e

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Exemplo 1.12. No conjunto das matrizes reais quadradas de ordem n , a adição e o produto de matrizes são operações.

Assim como na adição + e na multiplicação · , indicamos cada ope- ração genérica por um símbolo específico para aquela operação.

Exemplo 1.13. Em N a operação sucessor definida por s(n) = n + 1 é uma operação de aridade 1 ou unária.

Uma estrutura algébrica é determinada por um par (A, {i } iI ) , em que A é um conjunto não vazio e {i } é um conjunto de operações de aridades finitas sobre A .

Exemplo 1.14. (N, s, +, ·) é uma estrutura algébrica determinada pelo conjunto dos números naturais N , munido das operações sucessor s , adição + e multiplicação · .

Veremos, posteriormente, que as propriedades partilhadas pelas operações de cada estrutura algébrica é que caracterizarão as particu- lares estruturas que investigaremos no texto.

1.7 Propriedades das operações

Sejam e # operações sobre um conjunto A .

Propriedade associativa: a operação é associativa se para todos x, y, z A , tem-se: x (y z) = (x y) z .

Propriedade comutativa : a operação é comutativa quando para todos x, y A , tem-se: x y = y x .

Elemento Neutro : a operação admite um elemento neutro e A se para todo x A tem-se: x e = x = e x .

Elemento Inverso ou Simétrico : um elemento x de A tem um inverso segundo a operação , quando existe x A tal que x x = e = x x ,

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ESTRUTURAS ALGÉBRICAS |

em que e é o elemento neutro de A em relação à operação .

Se o elemento tem um inverso (ou simétrico) ele é chamado de

inversível (ou simetrizável). Algumas vezes o elemento simétrico de

um elemento segundo uma operação de adição é chamado de oposto ;

e o elemento simétrico segundo uma operação de multiplicação é

chamado de inverso .

Lei do Cancelamento : a lei do cancelamento vale para a operação

e

se para todos x, y, z A tem-se: x y = x z y = z

y x = z x y = z .

Propriedade Distributiva: a operação # é distributiva em relação à

operação quando, para todos x, y, z A, valem:

(z#x) .

x#(y z) = (x#y) (x#z)

e

(y z)#x = (y#x)

Exemplo 1.15. As operações usuais de adição e multiplicação de números

reais são associativas e comutativas.

Exemplo 1.16. A subtração sobre Z não é associativa nem comutativa,

pois: (9 3) 5 = 1 ̸= 7 = 9 (5 3) e 4 2 = 2 ̸= 2 = 2 4 .

Exemplo 1.17. A adição e a multiplicação de matrizes reais n × n

são associativas. A adição é comutativa, mas a multiplicação não. Por

exemplo, no caso de matrizes 2 × 2 :

(

1

0

0 )( 1

1

1

2

0 ) = ( 0

0

0 ) e ( 1

0

1

1

0 )( 0

0

0 ) = ( 1

1

1

1

1 ) .

Exemplo 1.18. Os números 0 e 1 são respectivamente os elementos neu-

tros para a adição e multiplicação em N, Z , Q , R e C.

Exemplo 1.19. A adição de matrizes em M m×n (R) tem como elemento

neutro a matriz nula m × n.

Exemplo 1.20. A subtração não tem elemento neutro em Z , pois: 2 a =

| PRELIMINARES

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Exemplo 1.21. Todo número inteiro tem seu oposto em Z , pois: n + (n) = 0 = n + n.

Exemplo 1.22. O número 2 não é um elemento inversível para a multipli- cação em Z , pois não existe n Z tal que 2n = 1 .

Exemplo 1.23. Para a multiplicação em R , não vale a lei do cancela- mento, pois 0.3 = 0.4 , contudo 3 ̸= 4 .

Observar que em R, a multiplicação é distributiva em relação à adi- ção e em M n (R) , a multiplicação é distributiva em relação à adição.

Exercícios

1. Verificar que:

(a)

A composição de funções de R em R é associativa.

(b)

A potenciação em N não é associativa, nem comutativa.

(c)

A divisão em R não é associativa, nem comutativa.

2.

Mostrar que se uma operação admite elemento neutro, então ele é

único.

3. Indicar os elementos neutros para a adição e para a multiplicação de

matrizes reais de ordem 2 isto é, matrizes de ordem 2 × 2 .

4. Seja uma operação associativa e com elemento neutro. Mostrar que

se x tem um simétrico segundo , então ele é único.

5. Seja uma operação com elemento neutro. Mostrar que:

(a) se x é simetrizável, então o seu simétrico x também é simetrizável

e (x ) = x ;

(b) se é associativa e x, y A são simetrizáveis, então (x y) é sime-

trizável e (x y) = y x .

6. Seja uma operação com elemento neutro num conjunto A . Mostrar

que A tem pelo menos um elemento simetrizável.

7. Mostrar que para a adição em Z vale a lei do cancelamento.

8. Seja uma operação associativa e com elemento neutro. Mostrar que

se x é simetrizável, então podemos cancelar x , isto é, podemos mostrar que a x = b x a = b .

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1.8 Os inteiros

Não pretendemos aqui fazer um desenvolvimento da Teoria dos Números como seria desejável em um curso de graduação. Nosso objetivo é apenas apresentar alguns conceitos e resultados necessários para tópicos que virão mais adiante. Esses resultados e conceitos podem ser encontrados em textos de Teoria dos Números, como por exemplo em [16].

Consideraremos o conjunto dos números inteiros Z , com as suas operações usuais de adição + e multiplicação · que satisfazem as propriedades:

Adição: Para todos a, b, c Z valem:

A 1 Associatividade: a + (b + c) = (a + b) + c ; A 2 Comutatividade: a + b = b + a ; A 3 Elemento neutro: para todo a existe o 0 tal que a + 0 = 0+ a = a ; A 4 Elemento oposto: para todo a existe a Z tal que (a) + a = a + (a) = 0 ;

Multiplicação: Para todos a, b, c Z valem:

M 1 Associatividade: a · (b · c) = (a · b) · c ;