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ESPERANDO O SENHOR

– Fundamentos da esperança teologal.

– Uma espera vigilante. O exame de consciência.

– A luta nas pequenas coisas.

I. A LITURGIA DA PALAVRA deste Domingo recorda-nos que a vida na terra


é uma espera, não muito longa, até que o Senhor venha de novo.

A fé que guia os nossos passos é precisamente o fundamento das coisas


que se esperam1, como se pode ler na segunda Leitura. Por meio dessa virtude
teologal, o cristão adquire uma firme garantia acerca das promessas do
Senhor, e uma posse antecipada dos dons divinos. A fé dá-nos a conhecer
com certeza duas verdades fundamentais da existência humana: que o nosso
destino é o Céu e, por isso, todas as outras coisas devem ordenar-se para
esse fim supremo e subordinar-se a ele; e que o Senhor deseja ajudar-nos,
com meios superabundantes, a consegui-lo2.

Nada nos deve desanimar no caminho para a santidade, porque nos


apoiamos nestas “três verdades: Deus é omnipotente, Deus ama-me
imensamente, Deus é fiel às suas promessas. E é Ele, o Deus das
misericórdias, quem acende em mim a confiança. Por isso eu não me sinto só,
nem inútil, nem abandonado, mas envolvido num destino de salvação que
desembocará um dia no Paraíso”3. A Bondade, a Sabedoria e a Omnipotência
divinas constituem o alicerce firme da esperança humana.

Deus é omnipotente. Estão-lhe submetidas todas as coisas: o vento, o mar,


a saúde, a doença, os céus, a terra... E Ele serve-se de tudo e dispõe tudo
para a salvação da minha alma e da de todos os homens. Não deixa de
empregar um único meio para o bem dos seus filhos, por mais que pareçam
estar sós e abandonados. Toda a infinita força de Deus coloca-se a serviço da
salvação e santificação dos homens. E ainda que o mau uso da nossa
liberdade possa tornar inúteis os meios divinos, sempre é possível o perdão, e
sempre é possível, portanto, conservar a esperança. Deus é omnipotente;
Deus pode tudo, é nosso Pai e é Amor4.

Deus ama- me imensamente, como se eu fosse o seu único filho. Não me


abandona nunca na minha peregrinação por esta terra; procura-me quando me
perco por minha culpa, ama-me com obras, dispondo todas as coisas para o
bem da minha alma. O amor de um pai ou de uma mãe, com todo o atractivo
que possui, é somente um pálido reflexo do amor de Deus.

Deus é fiel às suas promessas, apesar dos nossos retrocessos, traições e


deslealdades, da nossa falta de correspondência às instâncias divinas. Ele
nunca nos deixa, não se cansa, é paciente com os homens, de uma paciência
infinita. Enquanto caminhamos pela terra, não abandona ninguém, não
considera ninguém irrecuperável. Sempre encontramos a Deus de braços
abertos, como o filho pródigo encontrou seu pai.

O Senhor espera a nossa conversão sincera e uma correspondência cada


vez mais generosa: espera que estejamos vigilantes para que não
adormeçamos na tibieza, para que andemos sempre despertos. A esperança
está intimamente relacionada com um coração vigilante; depende em boa parte
do amor5.

II. JESUS EXORTA-NOS à vigilância, porque o inimigo não descansa, está


sempre à espreita6, e porque o amor nunca dorme7. O Senhor adverte-nos no
Evangelho da Missa8: Estejam cingidos os vossos rins e tende nas vossas
mãos lâmpadas acesas; fazei como os homens que esperam o seu senhor
quando volta das bodas, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram.

Os judeus costumavam usar umas túnicas folgadas e por isso cingiam-nas


com um cinturão para poderem andar e executar determinados trabalhos. “Ter
as roupas cingidas” é uma imagem expressiva utilizada para indicar que
alguém se preparava para realizar um trabalho, para empreender uma viagem,
para entrar em luta9. Do mesmo modo, “ter as lâmpadas acesas” indica a
atitude própria daquele que está de vigia ou espera a chegada de alguém10.
Quando o Senhor vier no final da nossa vida, deve encontrar-nos assim: em
estado de vigília, como quem vive o momento presente; servindo por amor e
empenhados em melhorar as realidades terrenas, mas sem perder o sentido
sobrenatural da vida, o fim para que tudo se dirige; avaliando devidamente as
coisas terrenas – a profissão, os negócios, o descanso... –, sem esquecer que
nada disso tem um valor absoluto, e que deve servir-nos para amar mais a
Deus, para ganhar o Céu e servir os homens.

Não é muito o tempo que nos separa do encontro definitivo com Cristo; cada
dia que passa aproxima-nos mais da eternidade. Pode ser neste ano, ou no
próximo, ou no seguinte... Seja como for, sempre nos parecerá que a vida
passou muito depressa. O Senhor virá na segunda ou na terceira vigília... “E
como não sabemos nem o dia nem a hora, é necessário, conforme a
advertência do Senhor, que vigiemos constantemente para que, terminado o
prazo improrrogável da nossa vida terrena (cfr. Heb 9, 27), mereçamos entrar
com Ele na festa e sermos contados entre os eleitos” 11. Para os que tiverem
vivido de costas para Deus, virá como algo completamente inesperado: como
um ladrão no meio da noite12. Sabei isto: se o dono da casa soubesse a que
horas viria o ladrão, não permitiria que lhe roubassem a casa. Estai, pois,
preparados... E São João Crisóstomo comenta que “com isto, parece confundir
aqueles que não põem tanto cuidado em guardar a sua alma como em guardar
as suas riquezas do ladrão que esperam”13.

“À vigilância opõe-se a negligência ou falta da devida solicitude, que procede


de um certo desinteresse da vontade”14. Estamos vigilantes quando fazemos
com profundidade o exame de consciência diário. “Observa a tua conduta com
vagar. Verás que estás cheio de erros, que te prejudicam a ti e talvez também
aos que te rodeiam.

“– Lembra-te, filho, de que não são menos importantes os micróbios do que


as feras. E tu cultivas esses erros, esses desacertos – como se cultivam os
micróbios no laboratório –, com a tua falta de humildade, com a tua falta de
oração, com a tua falta de cumprimento do dever, com a tua falta de
conhecimento próprio... E, depois, esses focos infectam o ambiente.

“– Precisas de um bom exame de consciência diário, que te leve a


propósitos concretos de melhora, por sentires verdadeira dor das tuas faltas,
das tuas omissões e pecados”15.

III. ESTAREMOS VIGILANTES no amor e longe da tibieza e do pecado se


nos mantivermos fiéis a Deus nas pequenas coisas que preenchem o dia.
Quem se habitua a repassar as pequenas coisas de cada dia no seu exame de
consciência descobre com facilidade os indícios e as raízes que denunciam um
possível extravio não muito longínquo. As pequenas coisas são a antessala
das grandes, tanto no sentido negativo como positivo.

São Francisco de Sales fala-nos da necessidade de lutar nas pequenas


tentações, pois são muitas as ocasiões em que se apresentam num dia
corrente e, se se vencem, essas vitórias são mais importantes – por serem
muitas – do que se se tivesse vencido uma tentação mais grave. Além disso,
ainda que “os lobos e os ursos sejam mais perigosos do que as moscas”, no
entanto “não nos causam tantos aborrecimentos, nem provam tanto a nossa
paciência”. É fácil – ensina o Santo – “não cometer um homicídio; mas é difícil
repelir os pequenos ímpetos de cólera”, que se apresentam com bastante
facilidade. “É fácil não furtar os bens do próximo, mas é difícil não os desejar. É
fácil não levantar falsos testemunhos em juízo; mas é difícil não mentir numa
conversa; é fácil não embriagar-se, mas é difícil ser sóbrio”16.

As pequenas vitórias diárias fortalecem a vida interior e despertam a alma


para as coisas divinas. São ocasiões que se apresentam com muita frequência:
trata-se de viver a pontualidade à hora de levantar-se ou de começar o
trabalho; de deixar de lado essa revista insubstancial que pode semear
confusão na alma ou, pelo menos, supõe uma perda de tempo e, sempre, uma
boa ocasião de vencermos a curiosidade; trata-se de fazer um pequeno
sacrifício à hora das refeições; de dominar a língua num encontro de amigos ou
numa reunião social... Estamos convencidos de que “tantas vitórias quantas
obtivermos sobre esses pequenos inimigos serão outras tantas pedras
preciosas que se acrescentarão à coroa que Deus nos prepara no seu
Reino”17.

Se nos acostumarmos a fazer um ato de amor em cada tentação, em tudo


aquilo que em nós ou nos outros pode ser origem de uma ofensa a Deus,
ficaremos cheios de paz, e o que podia ter sido motivo de derrota é convertido
por nós em vitória. Além deste imenso bem para a alma, diz o mesmo Santo
que “quando o demónio vê que as suas tentações nos levam a esse amor
divino, cessa de tentar-nos”18.

Se formos fiéis nas pequenas coisas, permaneceremos cingidos, vigilantes,


à espera do Senhor que está para chegar. A nossa vida terá consistido numa
alegre espera, enquanto realizamos cheios de esperança a tarefa que o nosso
Pai-Deus nos confiou no mundo. Então compreenderemos com profundidade
as palavras de Jesus: Bem- aventurado aquele servo a quem o senhor achar
procedendo assim quando vier. Digo- vos na verdade que o constituirá
administrador de tudo o que possui. E Ele está para vir; não deixemos de
vigiar.

(1) Heb 11, 1; (2) cfr. São Tomás, Suma Teológica, II-II, q. 17, a. 5 e 7; (3) João Paulo
II, Alocução, 20-IX-1978; (4) G. Redondo, Razón de la esperanza, EUNSA, Pamplona, 1977,
pág. 79; (5) cfr. J. Pieper, Sobre la esperanza, 3ª ed., Rialp, Madrid, 1961, pág. 48; (6) 1 Pe 5,
8; (7) cfr. Cant 5, 2; (8) Lc 12, 32-48; (9) cfr. Jer 1, 17; Ef 6, 14; 1 Pe 1, 13; (10) Sagrada
Bíblia, Santos Evangelhos, notas a Lc 12, 33-39 e 35; (11) Conc. Vat. II, Const. Lumen
gentium, 48; (12) 1 Tess 6, 2; (13) São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. III, pág. 204;
(14) São Tomás, op. cit., II-II, q. 54, a. 3; (15) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 481; (16) cfr.
São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, IV, 8; (17) ib.; (18) ib., IV, 9.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)

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