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1 INTRODUÇÃO

Os desafios empresariais exigem - sempre - organizações mais competitivas


e capazes de superarem, a todo instante, as suas metas de redução de custos. Ao
lado disso, torna-se igualmente imperativo racionalizar aplicações de recursos sem
perder de vista a ampliação de seu “market share”, objetivando a manutenção da
qualidade de seus produtos e serviços e, ainda, garantir remuneração cada vez
maior do capital investido por sócios e acionistas.
Pode até parecer impossível cumprir tais metas, mas, a verdade é que as
organizações acreditam tanto na possibilidade de cumpri-las que têm imprimido
esforços descomunais na procura por ferramentas e implementação de soluções de
gestão capazes de garantir tal feito.
Bem mais do que a busca pelo domínio de tecnologias - capazes de
contribuir para produzir mais com menores custos, associando mais eficiência aos
processos administrativos e de produção, melhorando assim, a capacidade de
antever os riscos e oportunidades do mercado - tem-se a necessidade de saber
planejar e administrar todo o investimento de recursos aplicados na organização de
modo que não haja desperdício ou ociosidade de capital. Esse é o papel do
orçamento. É através dele que as organizações constroem o caminho a ser
percorrido em determinado período, bem como, determinam a quantidade de
“energia” necessária para alcançar os seus objetivos. Inúmeros são os métodos de
orçamento utilizados por essas organizações, porém, a aplicação de um deles pode
ser eficaz em determinada organização e apresentar problemas em outra. Isto
acontece porque em sua grande maioria os orçamentos nascem de informações ou
orçamentos utilizados em exercícios anteriores. O Orçamento Base Zero (OBZ) é
uma ferramenta orçamentária, cuja proposta de uso é corrigir e, de forma
preventiva, evitar os problemas incorridos em métodos como o orçamento
empresarial – amplamente utilizado nas organizações brasileiras – que é elaborado,
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por projeções inspiradas no passado e a partir de orçamentos de anos anteriores,


sem levar em consideração as mudanças nos ambientes interno e externo, o que
acaba por induzir seus gestores a repetição de erros cometidos .
A primeira formalização do OBZ ocorreu em 1960, no Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos. No entanto, somente em 1969, a Texas
Instruments realizou estudos para a sua implementação, sendo,
inicialmente, utilizado na Divisão de Assessoria e Pesquisa, em 1970. A
primeira publicação foi realizada em novembro/dezembro de 1970, na
Harvard Business Review, por Peter A. Pyhrr, mentor do processo na Texas
Instruments (LUNKES, 2003, p.54).

“Orçamento Base Zero: Experiências de Aplicação no Brasil” é o tema


escolhido para o estudo desta ferramenta através do questionamento de “Como o
Orçamento Base Zero (OBZ) pode resolver as falhas encontradas em ferramentas
orçamentárias convencionais e quais as implicações de sua aplicação em
organizações brasileiras?” tendo como ponto de partida as seguintes hipóteses:
i) O OBZ reduz as despesas desnecessárias ou de pouca importância para
os objetivos da organização, independente do seu segmento de mercado,
priorizando os Pacotes de Decisão1 de maior relevância através da análise
do seu custo/benefício;
ii) O comprometimento dos administradores dos pacotes de decisão e o
apoio da direção determinam a eficácia da aplicação do OBZ nas
organizações, pois eles são os responsáveis por todo o processo de
identificação, avaliação, aprovação e monitoramento desses pacotes; e
iii) Enquanto os orçamentos convencionais surgem de dados e eventos
ocorridos no passado, o OBZ obriga todos os envolvidos no processo
orçamentário a analisarem o presente identificando as reais necessidades
das organizações de acordo com objetivos e metas traçadas pela
administração.

O Profissional Contador tem experimentado, a cada dia, novos desafios nas


organizações empresariais. A sua figura deixou de ser meramente coadjuvante para
revelar-se extremamente importante no processo de decisão, cabendo a ele fornecer
informações que levam os gestores a determinarem qual o rumo a ser tomado pela
organização, bem como, de que maneira os objetivos podem ser alcançados em
menor tempo e com maior segurança, com observação às leis e procedimentos
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Os pacotes de decisão podem ser conceituados como atividades, funções ou operações que possam ser
identificadas, avaliadas e comparadas com outras atividades para a tomada de decisão.
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comumente utilizados. Para tanto, é preciso que este profissional esteja capacitado
e consciente de sua importância no processo decisivo, participando e conhecendo
todas as atividades realizadas na organização e buscando se especializar cada vez
mais, com o intuito de contribuir positivamente para o crescimento da organização.
Diante deste cenário, a contabilidade passou a explorar campos de estudo,
anteriormente próprios da Economia e Administração, abrindo um universo de
possibilidades de atuação aos seus profissionais, transformando-os em peças-chave
nas organizações em que prestam os seus serviços.
Um dos conhecimentos abarcados pela contabilidade atual é o Orçamento.
Instrumento fundamental para a sobrevivência das organizações, o Orçamento tem
o papel de fornecer aos gestores uma “radiografia” que indica os pontos críticos e os
passos a serem seguidos para que a organização alcance as metas e objetivos
propostos para o seu desenvolvimento e perpetuação no mercado. O estudo do
orçamento habilita o Contador a monitorar a saúde da organização e, ao mesmo
tempo, avaliar o desempenho dos colaboradores, através dos demonstrativos
orçamentários, nas diversas atividades desenvolvidas para que as metas e objetivos
traçados sejam cumpridos. Por conta disso, estudar o Orçamento tornou-se
obrigatório para os profissionais Contadores que almejem um papel de destaque na
Organização em que atua.
Este projeto de pesquisa surge a partir da necessidade de se conhecer
todos os aspectos que envolvem a aplicação do Orçamento Base Zero nas
organizações brasileiras, sejam elas dos setores público ou privado, bem como,
verificar as implicações, vantagens e desvantagens desta aplicação em detrimento
de outras ferramentas orçamentárias.

Com isso, pretende-se alcançar alguns objetivos, quais sejam:


i) realizar um estudo aprofundado sobre o OBZ, vislumbrando aspectos relevantes a
serem observados quando da sua aplicação em organizações brasileiras;
ii) identificar vantagens e desvantagens de sua aplicação, bem como, a importância
da participação da organização como um todo para o seu sucesso;
iii) avaliar experiências de implantação no Brasil procurando evidenciar as melhorias
alcançadas com a utilização do OBZ.
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2 REFERENCIAL TEÓRICO

Muito mais do que uma peça essencialmente financeira, o orçamento é uma


ferramenta capaz de antever as demandas dos ambientes interno e externo à
organização subsidiando os gestores para a tomada de decisão. A sua correta
utilização advém da escolha de um método ou conceito de gestão que melhor se
adapte às necessidades da organização, seja ela pública ou privada.
No setor público, o maior problema reside no fato de que todas as rubricas
do orçamento devem ser cumpridas em função de previsão legal. Giambiagi (2000)
diz que a forma tradicional de fazer o orçamento acarreta vícios administrativos que
resultam em perda de funcionalidade; engessamento dos organismos; inchamento
das despesas; escassez de recursos em programas considerados prioritários para a
população, entre outros. Já no setor privado, redução de custos é a pedra no sapato
dos gestores e da alta direção. Para Lunkes e Vertuoso (2003), pela falta de êxito no
processo orçamentário ou mesmo pela necessidade de melhorar o seu
desempenho, as empresas costumam mudar de ferramenta a cada ciclo
orçamentário. Essa busca, além de ser onerosa para a organização, impacta
negativamente no clima organizacional. A cada novo método utilizado, novos
procedimentos e, naturalmente, mudança na cultura.
Dentre os métodos orçamentários mais conhecidos no meio empresarial,
destacam-se: orçamento empresarial, orçamento flexível, orçamento perpétuo e o
orçamento por atividades, sendo o orçamento empresarial o mais utilizado nas
organizações brasileiras por conta da praticidade de sua aplicação. Tais métodos
possuem a característica de utilizarem informações de orçamentos anteriores na
elaboração do atual, sendo, por esse motivo, conhecidos como orçamentos de base
histórica (OBH). De acordo com Gomes (2000), a ausência de metas bem definidas,
a falta de participação dos funcionários da empresa e a perpetuação de erros
cometidos em orçamentos anteriores, características desses métodos considerados
tradicionais, torna o processo orçamentário ineficaz. Para ela, um orçamento deve
fornecer à Direção da empresa elementos importantíssimos para a organização,
como por exemplo: informações detalhadas sobre a quantidade de dinheiro
necessária para realizar os fins desejados; as prioridades de realização de acordo
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com as metas e objetivos traçados; o desempenho dos empregados e o


envolvimento dos gestores de todos os níveis da organização, etc.
O Orçamento Base Zero (OBZ), ferramenta proposta por Peter A. Pyhrr no
início dos anos 70, além responder a essas demandas, possui, segundo Carvalho
(2002, p.5), as seguintes características:
- analisar o custo-benefício de todos os projetos, processos e atividades,
partindo de uma base zero;
- focalizar objetivos e metas das unidades de negócio cujos recursos são
conseqüência do caminho ou direção planejada;
- assegurar a correta alocação de recursos com base no foco e nos fatores-
chave do negócio;
- aprovar o nível de gastos após elaboração com base em critérios
previamente definidos;
- desenvolver forma participativa, com intensa comunicação entre as áreas;
e
- fornecer subsídios decisórios inteligentes para a gestão.

Raza (2006) aduz que, pelas características apresentadas pelo OBZ, fazer
um Orçamento Base Histórica (OBH) é muito mais rápido e cômodo, mas serve de
pouca coisa; pois você estará repetindo uma previsão sem levar em conta um
Planejamento Estratégico para o exercício em questão ou sem analisar a
concorrência, os novos produtos a serem lançados e demais aspectos que
influenciam o seu negócio. Já para Lunkes e Vertuoso (2003), o OBZ é a resposta
para esta deficiência – utilização de informações desatualizadas - porque não utiliza
o ano anterior como ponto de partida para a elaboração do atual. O OBZ rejeita a
visão tradicional do orçamento requerendo que todas as atividades estejam
justificadas e priorizadas como se estivessem sendo compiladas pela primeira vez.
Por outro lado, alguns autores, dentre os quais Lunkes e Vertuoso (2003),
consideram o OBZ muito complexo e burocrático, motivo pelo qual, dificilmente
apresenta resultados satisfatórios nos primeiros anos de sua implantação.
Analisando esse aspecto, Gomes (2000) diz que este é um dos fatores que
impedem a implantação do OBZ. Ela aduz que qualquer processo que obrigue à
tomada de decisão e que exija exame detalhado de suas funções/atividades, exame
este que pode ser visto por todos, deixam os administradores apreensivos. Isso se
justifica pela deficiência de comunicação por parte da Direção encontrada na maioria
das organizações. Pyhrr (1981) considera que o sucesso da implantação do OBZ
decorre do entendimento por parte dos envolvidos de que a proposta real da
ferramenta não é comprometer as pessoas e seus cargos mas, tão somente,
disseminar na organização uma cultura que consiste em reexame de todas as
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atividades realizadas pela organização, de modo que sejam priorizadas aquelas que
apresentem maior relevância em relação aos objetivos requeridos pela Direção.
Tendo em vista o posicionamento dos autores sobre o orçamento e a sua
importância estratégica para as organizações, fica evidente que este processo deve
estar alinhado à política e visão estratégicas das organizações, visando o ambiente
em que atua, a demanda de seus clientes e fornecedores e as exigências do
mercado, de maneira que qualquer mudança no cenário mercadológico seja
identificada e tratada sem que haja comprometimento das metas e objetivos
requeridos. Assim, Gomes (2000) afirma que nenhum sistema de orçamento ou de
planejamento pode resolver todos os problemas das organizações, mas o OBZ
pode, de fato, fornecer todas as informações necessárias para a análise desses
problemas e a tomada de decisão no curtíssimo prazo, preservando assim o
planejamento como um todo e monitorando o desempenho da organização e de
seus colaboradores, principais responsáveis pelo êxito do processo.
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3 METODOLOGIA

Será utilizado o método dedutivo, fazendo uso da pesquisa bibliográfico-


documental através da revisão de literatura acerca dos conceitos e descrevendo
experiências de aplicação da ferramenta em empresas brasileiras. E por conta da
escassez de bibliografia sobre o tema, necessário se faz o exame de planilhas de
controle orçamentário, tabelas e gráficos de desempenho operacional e relatórios
gerenciais compreendendo os 24 meses anteriores e posteriores à implantação do
Orçamento Base Zero em organizações das cidades de Salvador e Camaçari,
buscando evidenciar a melhoria alcançada com a adoção do método.
A partir desta análise, pretende-se avaliar as vantagens e desvantagens da
implantação do OBZ em organizações brasileiras, colhendo, através de
questionários, informações sobre as dificuldades encontradas na implantação, os
resultados aferidos, a participação da organização como um todo, entre outras
relevantes para o aprofundamento no estudo da ferramenta.
Para proporcionar maior embasamento ao trabalho, as referências
documentais utilizadas serão: livros, artigos, periódicos e trabalhos científicos, de
onde serão extraídos conceitos e observações de seus autores.
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REFERÊNCIAS

CARVALHO, José R.S. Orçamento Base Zero na Eletrolux. São Paulo: IBC-
Internacional Business Communications, 2002.

LUNKES, Rogério J. Manual de Orçamento. São Paulo: Atlas, 2003.

PYHRR, Peter A. Orçamento Base Zero – Um instrumento Administrativo


Prático para Avaliação das Despesas. São Paulo: Interciência, 1981.

GOMES, Regina Celi Vidal. O Orçamento Base Zero como Técnica de


Planejamento Financeiro. 2000. 25 f. Monografia (MBA em Finanças e
Contabilidade) – Departamento de Economia, Contabilidade e Administração de
Empresas, Universidade de Taubaté, Taubaté.

Controle e Administração de Gastos. Rio de Janeiro: IOB - Informações Objetivas


Publicações Jurídicas Ltda, 2005- Mensal.

LUNKES, R. J.; VERTUOSO, O. M. Orçamento de Base Zero – OBZ. REVISTA


BRASILEIRA DE CONTABILIDADE. Brasília: Conselho Federal de Contabilidade, p.
53-65, 2003- Bimestral.

RAZA, Cláudio. Orçamento Base Zero – Modismo ou Necessidade. Rio de


Janeiro, fev. 2006. Disponível em: http://www.classecontabil.com.br. Acesso em: 18
mar 2006.

GIAMBIAGI, Fabio. Uma Proposta de Política Fiscal: O Orçamento Base Zero.


Salvador, mar.2000. Disponível em: http://federativo.bndes.gov.br Acesso em: 18
mar 2006.