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TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSO TC-07919/08

Administração Direta Municipal. Prefeitura Municipal de Santa


Luzia. Licitação, modalidade pregão – Regularidade.
Recomendação.

ACÓRDÃO AC1-TC - 1209 /2010

R E L A T Ó R I O:
1. Órgão de Origem: Prefeitura Municipal de Santa Luzia.
Tipo de Procedimento Licitatório: Pregão Presencial nº 04/08, seguido do Contrato n°
079/2008, no valor total licitado de R$ 28.760,00.
2. Objeto: Aquisição de veículo automotor, tipo passeio, para atender as necessidades da
Secretaria de Ação Social.

O Órgão Auditor, em sua análise exordial, identificou as seguintes irregularidades:


1) Objeto da licitação foi discriminado com características que extrapolam o princípio da
isonomia, violando a Lei n° 10.520/02, art. 3°, II ;
2) O valor de aquisição está acima do encontrado no mercado, conforme se observa em
pesquisa acostada, onde a Auditoria encontrou o valor de R$ 22.715,00 (vinte e dois mil,
setecentos e quinze reais), e a Administração Pública adquiriu o veículo pelo valor de R$
28.760,00;
3) Excesso no valor de R$ 6.045,00 (seis mil e quarenta e cinco reais).
Em razão do óbito do ex-Gestor, Sr. Antônio Ivo de Medeiros, atendendo aos preceitos
constitucionais da ampla defesa e do contraditório, o espólio do então Alcaide foi chamado aos autos
nos termos regimentais, e apresentou esclarecimentos acompanhados de documentação pertinente
(fls. 157/303, DOC. TC 14823/09).
Em sua defesa, o espólio do falecido Prefeito; personificado na Sra. Francisca Natália Medeiros da
Nóbrega, Terezinha Medeiros (viúva) e Ivo Nóbrega de Medeiros; alegou que tal excesso não podia
ser considerado, tendo em vista que a Unidade Técnica de Instrução ao executar a pesquisa de preço,
em endereço eletrônico, não atentou para o fato de que no instante da consulta (15/12/2008) o
Governo Federal havia isentado o IPI de veículos passeio com as características do adquirido,
enquanto que na efetiva compra (23/10/2008) o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não
tinha sua alíquota alterada. Portanto, em face das razões declinadas, entendeu inexistir excesso.
Ao analisar os argumentos apresentados, a d. Auditoria informou que acerca do tópico 1 deste
relatório o interessado deu o silêncio como resposta. No tangente ao sobrepreço, reconheceu assistir
razão parcial ao espólio. Considerando o exposto, tratou de refazer os cálculos, aplicando sobre o
valor pesquisado o percentual de 7%, referente à alíquota do IPI para veículos automotores, tipo
passeio, de baixas cilindradas. Desta forma, o bem móvel, segundo a Instrução, teria seu valor
acrescido em R$ 1.590,05, totalizando a soma de R$ 24.305,05, persistindo um excesso de R$
4.454,95 (quatro mil, quatrocentos e cinquenta e quatro reais, e noventa e cinco centavos), o qual
sugeriu a devolução, sem prejuízo da aplicação das multas previstas nos art. 55 e 56, da LOTCE/PB.
Convocado para a pertinente manifestação opinativa, o Órgão Ministerial, mediante Parecer n°
208/2010 (fls. 309/312), da lavra do d. Procurador-Geral Marcílio Toscano Franca Filho, alvitrou
pela(o):
a) Irregularidade do procedimento licitatório de pregão n° 004/2008 e do consequente contrato
administrativo firmado pela edilidade de Santa Luzia com finalidade de aquisição de veículo;
b) Imputação de débito no valor de R$ 4.454,95 ao espólio do ex-gestor Sr. Antônio Ivo de
Medeiros, em razão de excesso na aquisição de veículo automotor;
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c) Aplicação de multa ao espólio do ex-gestor Sr. Antônio Ivo Medeiros, em virtude de infração
grave a norma legal, nos termos do art. 56 da LOTCE;
d) Recomendação ao atual alcaide para que tenha mais apego às premissas principiológicas e
normativas constantes no ordenamento jurídico no que tange a seara licitatória e contratual.
Com vista a melhor instruir o feito, o Relator reenviou o processo a Auditoria solicitando
informações sobre a efetiva aquisição do bem, como também, identificação da origem dos recursos
envolvidos, para fins de quantificar o excesso proporcional à contrapartida municipal.
Atendendo ao despacho do Relator, o Corpo Técnico informou a União, mediante Convênio n°
521/DEFNAS/SNAS/MDS/2007, aportou a quase totalidade dos recursos suficientes à aquisição e
que o excesso proporcional à contrapartida municipal foi calculado em R$ 129,75. Em virtude da
maior parte do montante aplicado se trata de recursos federais, sugeriu o envio de cópia do presente
almanaque ao TCU, haja vista o inexpressivo valor sob a jurisdição desta Corte de Contas.
O processo foi agendado para a presente sessão, dispensando intimações, ocasião em que o MPjTCE
opinou, oralmente, pela regularidade com ressalvas da licitação em tela, bem como dos contratos
decorrentes.

VOTO DO RELATOR
No âmbito da Administração Pública, licitar é regra, dispensá-la ou inexigí-la é exceção, como se
extrai do inciso XXI, art. 37, da CF, verbis:
“Art 37 (...)
XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços,
compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública
que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que
estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da
proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de
qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das
obrigações.”
Segundo Celso Antônio Bandeira de Melo1:
“Licitação é o procedimento administrativo pelo qual uma pessoa governamental,
pretendendo alienar, adquirir ou locar bens, realizar obras e serviços, outorgar
concessões, permissões de obras, serviços ou de uso exclusivo de bem público,
segundo condições por ela estipuladas previamente, convoca interessados na
apresentação de propostas,a fim de selecionar a que se revele a mais conveniente
em função de parâmetros antecipadamente estabelecidos e divulgados.”
Feitas ponderações preambulares, passo a analisar as falhas sustentadas pela Auditoria.
Quanto ao objeto a ser adquirido, entendo, à semelhança do Órgão Auditor, que a Administração
extrapolou ao discriminar as características do veículo, limitando a concorrência. Entretanto, a
falta, per si, não macula o presente pregão, porquanto, mesmo assim, ainda, oportunizou a
possibilidade de disputa, e enseja recomendações à atual Administração no sentido de se ater aos
ditames normativos da Lei de Licitações e Contratos.
No que pertine ao excesso, concessa vênia, discordo da manifestação dos Órgãos de Instrução e
Ministerial.
Em primeiro lugar, merece reparos o cálculo referente ao acréscimo da alíquota do IPI, na medida
em que a Auditoria aplicou a alíquota do Imposto sobre Produto Industrializado sobre o valor
pesquisado, olvidando-se de que montante consultado (R$ 22.715,00) representava 93% do montante
original (preço do veículo – IPI). Para se obter a quantia anterior à redução do IPI, dever-se-ia
utilizar operação aritmética diversa (regra de três simples). Desta feita, o montante a ser
incorporado ao consultado alcança a importância de R$ 1.709,73, totalizando R$ 24.424,73,
restando excedente de R$ 4.335,27, e não R$ 4.454,95.

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BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 14ª Ed. São Paulo: Malheiros, 2002.
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Outro ponto merece destaque, a consulta realizada pela Auditoria (fl. 142), junto a FIPE (Fundação
Instituto de Pesquisas Econômicas), considerou um veículo, modelo Uno Mille 1.0 Fire Economy 4p,
despido de qualquer acessório, enquanto que o automóvel adquirido, do mesmo modelo e marca,
estaria equipado com ar condicionado, conforme mapa de julgamento (fl. 124).
É despiciendo informar que a instalação de condicionadores de ar em automóveis onera,
significativamente, o bem. Consta nos autos (fls. 161/162) pesquisa feita no endereço eletrônico da
empresa FIAT, 27/10/2009, demonstrando o custo da instalação do referido opcional, no valor de R$
3.266,00.
Deduzindo-se a quantia relativa ao acessório do excesso por mim calculado, encontrar-se-á o
importe de R$ 1.069,27, correspondente a 3,71% do valor pago, que, a primeira vista, poderia ser
encarado como sobrepreço.
No mercado automobilístico, diuturnamente, verificam-se pequenas variações nos preços destes bens,
através de promoções, haja vista ser um segmento no qual a concorrência é bastante acirrada. Sendo
assim, entendo que o montante tido por excessivo encontra-se dentro da margem de variação
tolerada pelo setor, não cabendo qualquer imputação de débito.
Outrossim, nas pesquisas realizadas no endereço eletrônico da FIPE, quando o bem automotor fora
fabricado no ano corrente da busca, o universo investigado abarca tanto veículos novos quanto
seminovos, estes últimos já apresentando desvalorização natural. Por óbvio, o resultado,
provavelmente, espelhará a média dos valores encontrados no mercado, ou seja, preços inferiores
quando comparados com veículos 0Km, não podendo ser usados como parâmetro. Desta forma, a
procura, para refletir o real custo do carro novo, deveria ser desenvolvida no site do próprio
fabricante.
Com base nas exposições anteriormente ofertadas, voto pela:
- Regularidade do pregão n° 004/2008 e o seu contrato decursivo, em função da falta
observada no item 1 do relatório adrede redigido;
- Recomendação ao atual alcaide para que tenha mais apego às premissas principiológicas e
normativas constantes no ordenamento jurídico no que tange a seara licitatória e contratual.

DECISÃO DA 1ª CÂMARA DO TCE-PB


Vistos, relatados e discutidos os autos do Processo supra indicado, ACORDAM, à unanimidade, os
membros da 1ª CÂMARA DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA, na sessão
realizada nesta data, em:
- JULGAR REGULARES o procedimento licitatório em análise e os contratos dele
decorrentes;
- RECOMENDAR ao atual alcaide para que tenha mais apego às premissas principiológicas
e normativas constantes no ordenamento jurídico no que tange a seara licitatória e
contratual.

Publique-se, registre-se e cumpra-se.


Mini-Plenário Conselheiro Adailton Coelho Costa

João Pessoa, 12 de agosto de 2010

Conselheiro Umberto Silveira Porto Conselheiro Fábio Túlio Filgueiras Nogueira


Presidente Relator

Fui presente,
Representante do Ministério Público junto ao TCE

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