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PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Vistos,

relatados

ACÓRDÃO

e

discutidos

Registro:2015.0000182185

estes

autos

de

Apelação

0007291-20.2010.8.26.0481, da Comarca de Presidente Epitácio, em que são

apelantes JOÃO BATISTA FERNANDES e INES SOARES FERNANDES, é

apelado CIA ENERGÉTICA DE SÃO PAULO CESP.

ACORDAM, em 11ª Câmara de Direito Público do Tribunal de

Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "DERAM PROVIMENTO

PARCIAL AO RECURSO, NOS TERMOS QUE CONSTARÃO DO ACÓRDÃO. V.

U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores

PIRES DE ARAÚJO (Presidente) e RICARDO DIP.

São Paulo, 17 de março de 2015.

Aroldo Viotti RELATOR Assinatura Eletrônica

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO VOTO Nº 30.509 APELAÇÃO Nº

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

VOTO Nº 30.509 APELAÇÃO Nº 0007291-20.2010.8.26.0481, de Presidente Epitácio APELANTES: JOÃO BATISTA FERNANDES e OUTRO

APELADA: CESP

JUIZ 1ª INSTÂNCIA: ROGÉRIO DE CAMARGO ARRUDA

COMPANHIA ENERGÉTICA DE SÃO PAULO

Ação denominada de “Outorga de Escritura Definitiva c.c. Indenizatória por Danos Materiais e Morais”. Autores relatam que a Construção da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta ocasionou o alagamento de área por eles habitada. Visando ao reassentamento dos autores, a CESP firmou termo de cessão possessória, a título precário e gratuito, de lote localizado no imóvel denominado “Fazenda Lagoinha”, com compromisso de outorga da escritura definitiva do imóvel aos autores. Decurso de mais de quinze anos sem notícias de que a ré tenha cumprido a obrigação. A ausência de cláusula estipulando prazo certo para a outorga da escritura não pode significar inexistência de prazo, ou a consagração de condição potestativa (Código Civil, art. 122, parte final). Hipótese em que deve ser invocada a regra do art. 331 do Código Civil (“salvo disposição legal em contrário, não tendo sido ajustada época para o pagamento, pode o credor exigi-lo imediatamente”). Procedente o pedido relativo à outorga da escritura definitiva do imóvel em favor dos autores. Não procedem, contudo, os pedidos de indenização por dano moral e material, haja vista a inexistência de provas nesse sentido. Recurso parcialmente provido.

Ação denominada de “Outorga de Escritura

Definitiva c.c. Ação Indenizatória por Danos Materiais e Morais” movida por JOÃO BATISTA FERNANDES e INÊS SOARES FERNANDES contra a CESP COMPANHIA ENERGÉTICA DE SÃO PAULO, relatando em resumo que residiam na região denominada Ilha Japonesa, situada às margens do Rio Paraná, a qual fora inundada em razão do fechamento das comportas da barragem da Usina Hidroelétrica Engenheiro Sérgio Motta, em Porto Primavera/SP. Aduzem que, após o alagamento, para fins de reassentamento, a requerida cedeu a título precário, gratuito e por prazo determinado o lote nº 19, com área de 18 hectares, de um imóvel denominado “Fazenda Lagoinha”. Afirmam que a requerida também se comprometeu a fornecer subsídios para sua sobrevivência e produção agrícola (fornecimento de cestas básicas, patrulha agrícola, assistência técnica por agrônomos, correção do solo, fornecimento de sementes, venenos e adubos), bem

I.

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO como a realizar melhorias na

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como a realizar melhorias na região (construção de escolas, postos de saúde e poços semi-artesianos). A requerida se comprometeu, ainda, a outorgar a escritura definitiva do terreno em que passaram a residir, no prazo de três anos. Contudo, tais promessas não foram cumpridas, o que ensejou o ajuizamento da presente ação, na qual postulam a condenação da requerida ao pagamento de indenização por danos morais, no importe de R$ 75.000,00 (setenta e cinco mil reais), e por danos materiais, no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais). Postulam, ainda, seja a CESP compelida a outorgar a escritura definitiva da propriedade em que residem os autores, bem como condenada a fornecer os subsídios antes citados, e a construir as melhorias prometidas, pena de pagamento da indenização de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais).

A r. decisão de fls. 21/21vº indeferiu o pedido de antecipação de tutela

e a r. sentença fls. 215/226 julgou improcedentes os pedidos, condenando os

autores ao pagamento de custas, despesas processuais e honorários advocatícios fixados em 10% (dez por cento) do valor da causa, observada a gratuidade de

justiça.

Sobreveio apelação dos Autores, que, nas razões de fls. 230/244, buscam a reforma do julgado, reiterando os termos da inaugural, no sentido de que:

a) a Cesp se comprometeu, verbalmente, a outorgar a escritura definitiva do terreno, no prazo de 03 (três) anos, conforme atestam os depoimentos constantes nos autos

às fls. 150/152; b) a requerida age com descaso quanto à obrigação de regularizar o

loteamento, pois, embora os autores tenham sido transferidos para aquele local em 1998, somente em 2008, a Cesp dirigiu-se ao Cartório de Presidente Epitácio com o intuito de regularizar o imóvel, e, ainda, quedou-se inerte frente às exigências feitas

pelo Oficial do Cartório, tudo a demonstrar que realmente vem se omitindo na regularização do loteamento; c) de início, a Cesp fornecia aos apelantes cestas básicas, donde se pode inferir que a requerida havia se comprometido a fazê-lo, assim como a fornecer patrulha agrícola, sementes, venenos, adubos, além da preparação e correção de solo, construção de escola e posto de saúde tudo confirmado pelos depoimentos das testemunhas; d) a inadimplência, o abandono e a indiferença da apelada causaram aos autores “sofrimento íntimo” que abalou “suas estruturas morais”, caracterizando dano moral; e) o instrumento de quitação de benfeitorias e cultura, de fls. 104/106, não obsta o presente pedido indenizatório,

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO uma vez que “se refere

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uma vez que “se refere a fato pretérito, não podendo interferir em direitos futuros, que não fez (sic) parte do referido instrumento”, e que nada têm a ver com o pedido inicial; f) não ocorreu a prescrição afirmada na sentença.

O recurso foi respondido a fls. 250/254, subindo os autos. Este em síntese o relatório.

II.

O recurso comporta parcial acolhida.

Ao que consta dos autos, a construção da “Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta” ocasionou o alagamento das áreas adjacentes ao Rio Paraná, no Município de Presidente Epitácio/SP, atingindo imóveis ocupados por diversas famílias, dentre elas, a dos apelantes. Assim, em 13 de maio de 1998, conforme “Instrumento Particular de Cessão Possessória e Quitação de Benfeitorias e Cultura” de fls. 104/106, os autores desocuparam voluntariamente o imóvel, mediante ressarcimento pelas benfeitorias e culturas ali realizadas, no valor total de R$ 1.159,56 (um mil cento e cinquenta e nove reais e cinquenta e seis centavos).

Ainda, na realização de Projeto de Reassentamento, a ré cedeu voluntária e gratuitamente às pessoas atingidas pela construção da Usina, lotes do imóvel denominado “Fazenda Lagoinha”, objeto da matrícula nº 10.300, do Cartório de Registros de Imóveis local. Os autores foram, assim, contemplados com lote nº 19, com área total de 18 hectares, de acordo com o “Termo de Cessão Possessória a Título Precário e Gratuito”, copiado às fls. 18/20. A teor do referido documento, a requerida cedeu o mencionado lote “a título precário, gratuito e por prazo indeterminado”, assumindo porém o compromisso de outorgar a escritura definitiva do imóvel “assim que a CESP providenciar a regularização do respectivo loteamento, junto aos órgãos Públicos competentes” (literal fls. 19, cláusula 4).

Ocorre que, passados mais de 15 (quinze) anos da data em que os autores receberam o imóvel (07.06.1999 cfr. fls. 19, cláusula 6), não se tem notícia de que a ré tenha cumprido tal obrigação, com a prévia regularização do loteamento.

Argumenta a CESP em sua defesa que não há prazo determinado, no termo de cessão possessória, para a outorga definitiva da escritura, bem assim que

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO a referida outorga esta sujeita

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a referida outorga esta sujeita à regularização do loteamento, a qual, por sua vez, “depende de outros órgãos, como o INCRA que é competente para homologar a unificação e o georreferenciamento da área em tela” (fls. 35).

Em suma, a apelada justifica o descumprimento da obrigação assumida com os autores com a circunstância de que a regularização do loteamento dependeria de fatos alheios à sua vontade, e de que é moroso o procedimento necessário àquela regularização e à subsequente outorga da escritura definitiva.

Sem razão, porém.

A ausência de cláusula estipulando prazo certo para a outorga da escritura não pode significar inexistência de prazo, ou a consagração de condição potestativa (Código Civil, art. 122, parte final). Não existindo estipulação de prazo, invocável a regra do art. 331 do Código Civil, segundo o qual “salvo disposição legal em contrário, não tendo sido ajustada época para o pagamento, pode o credor exigi- lo imediatamente.”.

Ademais, não parece razoável atribuir a culpa pela demora na regularização do loteamento exclusivamente ao INCRA ou a qualquer outra autoridade competente a tanto, como parece pretender a apelada. Isso porque, ao que se colhe destes autos, a requerida deu início ao procedimento de regularização do loteamento apenas em meados de 2008, com a apresentação do Mandado Translativo de Domínio, para registro, apenas em 08.09.2008, como confirmado na própria contestação, a fls. 45.

De todo modo, os alegados óbices à regularização do loteamento e outorga da escritura definitiva ainda que porventura presentes - não eximem a requerida da obrigação assumida com os autores, na medida em que, na hipótese de recusa ou inviabilidade do cumprimento da obrigação de fazer, esta deverá ser convertida em perdas e danos, nos termos dos artigos 247 e 248 do Código Civil, a seguir transcritos:

“Art. 247. Incorre na obrigação de indenizar perdas e danos o devedor que recusar a prestação a ele só imposta, ou só por ele

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO exeqüível. Art. 248. Se a

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exeqüível.

Art. 248. Se a prestação do fato tornar-se impossível sem culpa do devedor, resolver-se-á a obrigação; se por culpa dele, responderá por perdas e danos.”

A pretensão é de ser acolhida nessa parte, ou seja, naquilo em que colima tutela específica para que a CESP cumpra a obrigação de fazer que assumiu.

No entanto, não se afigura razoável que a situação retratada tenha causado aos autores danos de natureza moral, não havendo ademais prova alguma nesse sentido. Com razão a r. sentença quanto ao ponto, assinalando que eram os autores meros “posseiros”, titulares de “jus possessionis”, e, além de virem ocupando sem nenhuma contrapartida pecuniária o imóvel em questão há mais de uma década, credenciam-se agora à obtenção de título de domínio. Não se cogita de dano moral.

Sem razão, também, no que tange à pretendida indenização por danos materiais. Nenhuma a prova de que a CESP firmara o compromisso de fornecer cestas básicas e subsídios para a produção agrícola, e de construção de escola, posto de saúde e poços semi-artesianos. Nem mesmo a prova emprestada, consistente nos depoimentos copiados a fls. 149/154, corrobora as afirmações dos requerentes. Dos depoimentos, conclui-se apenas que havia rumores de que a requerida teria afirmado que forneceria subsídios e realizaria melhorias na região, sem que houvesse compromisso formal nesse sentido, de modo que a concretização se daria por mera liberalidade da CESP. Mesmo assim (para argumentar) não fosse, esse pedido estaria atingido pela prescrição, como observa o Des. MOACIR PERES em precedente cônsono da C. 7ª Câmara de Direito Público (Apelação Cível nº 0007287-80.2010.8.26.0481, de Presidente Epitácio, j. 25.11.2013, v.u.).

Convergente a jurisprudência desta Corte a propósito do cabimento, em casos da espécie, da obrigação de fazer consistente na outorga da escritura definitiva: Apel. Cível nº 0007696-56.2010.8.26.0481, 7ª Câmara de Direito Público, Rel. o Des. MAGALHÃES COELHO, j. 25.06.2012; Apel. Cível nº 0007300-79.2010.8.26.0481, 10ª Câmara de Direito Privado, Rel. o Des. ROBERTO MAIA, j. 21.08.2012.

PODER JUDICIARIO TRIBUNAL DE JUSTICA DO ESTADO DE SÃO PAULO a requerida a outorgar aos

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a

requerida a outorgar aos autores a escritura definitiva do lote nº 19, com área total de 18 hectares, integrante do imóvel denominado “Fazenda Lagoinha”, descrito no instrumento de fls. 18/20, no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias, pena de incidência de multa diária no valor de R$ 1.000,00 (um mil reais), limitada ao valor do

bem, anotando-se que, na hipótese de impossibilidade do cumprimento da tutela específica, a obrigação será convertida em indenização por perdas e danos, a ser apurada em sede de liquidação de sentença.

Portanto,

dá-se

parcial

provimento

ao

recurso

para

condenar

Com tal solução, ficam compensados integralmente entre as partes as custas e despesas processuais e os honorários advocatícios (CPC, art. 21, “caput”).

III.

Por todo o exposto, dão parcial provimento ao

recurso, nos termos acima explicitados.

AROLDO VIOTTI