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ÁS DE OUROS

O dia ainda está longe de nascer, e a insônia já me venceu. Mais um café, mais

um chá, mais espera até todos lá fora acordarem. Hoje sei que terei clientes especiais:

ela virá, de novo, depois de tantos anos. As cartas me mostraram ela, todo seu passado, seu presente, seu futuro. Preciso me preparar, mas mais tarde. Agora só há noite, e já não enxergo muito mais. Poderia voltar ao homem em minha cama, mas dele nada mais quero. Uma cigana sabe quando a hora de cada um chega, e esse viajante precisa partir. Nessa cidade

nada mais o espera: seu corpo cumpriu suas funções no meu quarto, suas trocas foram feitas e o dinheiro o levará de volta para a casa. Não carregará consigo muitas recordações de nossa terra de barro e de nossas casas vazias já não constamos em muitos mapas. Os homens sempre esquecem. Eu lembro muito, demais. Faz bastante tempo, e, ainda assim, velha e gasta, consigo voltar àqueles momentos. Dois rapazes, como este que aqui dorme sem roupas em sono pesado,

deitaram-se também em cama de duas outras mulheres. Elas não tinham como eu o fardo de abrir e fechar destinos em cartas de baralho. Jovens, elas não viram nada além de olhos bonitos e de corpos sedentos da viagem. Eles, porém, estavam de passagem e logo após os sonhos foram embora.

A cidade não permaneceu sem seus rastros. Em poucas semanas, acordamos

com os gritos das mães das moças. Os sons vinham de direções opostas, cortantes, bravos. Invadiram minha sala e me trouxeram os nomes das duas cujas sortes eu ali soube passariam pelas minhas mãos: Ágatha e Laura estavam grávidas. Duas mulheres, duas vidas que nunca se encontraram, vieram a se cruzar na soleira da minha porta, apenas três dias depois da notícia ter se espalhado por toda essa região esquecida. Quando as vi ali, quase perdi a visão: eram brilhantes, como que iluminadas por todos os lados; grandiosas, inapreensíveis, não eram apenas quem eram, mas todas, tantas, com a mesma história. Tive receio, e dei um passo para trás, tentando apreendê-las. Não sei se disse algo estava paralisada diante do que teria de inevitavelmente ceifar , mas elas falaram juntas, ainda sem saberem que desde então nunca mais estariam separadas:

Vim para uma consulta.

Pedi que entrassem e fui preparar um chá até me acostumar com aquelas duas presenças. Aos poucos, fui notando suas faces e reparei que não carregavam um semblante de lamento. Ágatha, cabelos dourados, mantinha uma postura reta na cadeira, firme; Laura, olhos cor de água, perscrutava o aposento, atenta. No fundo, eram crianças que buscavam um futuro. Perdi o receio, recobrei meu domínio. Ofereci-lhes as xícaras: negaram ao mesmo tempo. Tinham pressa de saber.

Tomem e venham juntas para a mesa. Não se recusa nada de uma cigana.

Trocaram um olhar de estranhamento, já que sabiam que cada pessoa tem seu próprio jogo reservado. Eu agia sem sequer pensar, e tudo me dizia que elas estavam inextricavelmente unidas. Falar a uma seria falar pela metade ambas haviam sido guiadas até mim. Antes mesmo de revelar nos naipes o que levavam dentro de si, eu sabia que as notícias não eram boas. Ágatha ou Laura, não haveria felicidade para as duas.

Cortem o baralho onde vocês quiserem.

Ágatha foi a primeira e separou uma metade. Laura aproveitou quase tudo que

restara, e deixou apenas uma carta de fora de sua parte. Tivemos calafrios, nós três notamos. O amanhã de cada uma estava a poucos segundos de ser desvelado, acima das metades quase perfeitas do baralho. Abri o que estava no topo de cada uma.

Valete de ouros. Dama de espadas. Aqui estão os filhos de vocês.

A Senhora consegue ver nossos bebês?

Eu conseguia: duas crianças bonitas, sadias, mais semelhantes a elas do que poderiam imaginar. Pareciam bem à primeira vista, prontas para se refugiarem por alguns meses no útero materno até precisarem vir ao mundo. Duas sementes distintas, capazes de desfazer todos os nós passados e de refazer o mundo todo daquelas famílias. Estava pronta para negar minha primeira intuição e anunciar apenas boas novas,

um menino e uma menina. Algo ou alguém em outro plano me dizia o contrário. Ah, como eu queria ter parado ali, queimado o baralho, perdido a mim mesma para não

desvelar o mal que viria. Mas eu não me controlava, não era a minha dona, então puxei outra carta.

Ás de ouros.

O que isso significa?

Uma dessas crianças nunca irá nascer.

Ágatha e Laura permaneceram caladas. Não precisaria de dons maiores para saber o que pensavam: não será a minha criança a ficar pelo caminho. Em tempos como os de hoje, teriam destruído o baralho e saído enfurecidas, sem querer acreditar. Aquela, porém, era a época em que ninguém poderia viver sem saber de mim, sem

conhecer por exato o seu futuro. Elas temiam perante minhas cartas porque sabiam do poder que continham. Eu também temia.

A Senhora pode nos dizer mais alguma coisa?

Puxei mais uma carta do baralho: ás de ouros, de novo. Era um aviso, e eu aprendera há muitos anos com as que vieram antes de mim que nessa tarefa havia limites ao que conseguíamos ver e ao que poderíamos dizer. Mesmo se soubesse mais,

se tivesse certeza de qual criança não veria o sol, ainda assim, talvez nada dissesse. Há verdades que têm hora própria e só surgem quando bem querem.

Sinto muito, mas não é possível ir além.

Mas não há nada que possamos fazer para mudar isso?

Essa é a pergunta que todos que se sentam nessa cadeira me fazem. Algumas vezes, os destinos mudam de rota, pegam outros ventos, por assim dizer.

Então não há como ser diferente?

Na maior parte das vezes só há um caminho, e somos empurrados até ele por

coisas que superam nosso entendimento. Talvez eu esteja errada, e suas crianças nasçam bem. Só o tempo pode me confirmar ou desmentir. Hoje é este o Destino. Laura foi a primeira a se levantar, com revolta, sem nada me dizer. Passou pela casa como o mar em correnteza. Ágatha ainda ficou mais alguns minutos, olhos fixados em mim. Não queria acreditar em nada do que havia dito, mas sabia como minhas palavras tinham valor. Tentavam manter algum controle sobre si mesma, e era admirável em sua inútil tentativa de enfrentamento.

A Senhora sabe bem o que acaba de fazer comigo e com aquela outra moça,

não sabe?

Eu apenas leio a mensagem das cartas. Não faço nada. Sou apenas isso que está vendo.

Parece mais o diabo agora.

Não parecemos todos, minha filha?

Quando chegamos a esse ponto, Ágatha também se levantou irritada, quase igual à Laura. Sua partida revelou, porém, mais medo que ódio. Acompanhei pela janela os vestidos daquelas duas garotas desaparecerem ao pouco pelas curvas da cidade. Fiquei novamente sozinha na casa. Elas talvez tenham chorado assim que encontraram um lugar vazio, exatamente como eu naquela tarde. Talvez tenham mentido às suas famílias e dito que o futuro reservava grandes feitos para suas crianças. Certamente me detestaram por toda a vida, mas eu não tinha culpa: nunca fui a juíza, nunca fui a lei. Fui eu a quebrar, contudo, os mandamentos que me haviam sido transmitidos ainda quando menina. Segui Ágatha e Laura por vários meses para saber como se concluía minha previsão. Admito o quão egoísta fui, apenas por saber que muitos fariam exatamente o mesmo. Precisamos conhecer o restante da história, ir até o fim, por mais que nossa vontade de saber possa significar a tragédia alheia. Especialmente quando significa a tragédia alheia, com todas as emoções que nos fazem sentir. Sim, eu era só isto, apenas uma mulher, alguém que precisava saber. Espreitei Laura ajudando a mãe, a melhor parteira da região, enquanto seu próprio ventre crescia. A cada bebê que ajudava a colocar no mundo deveria sentir um medo terrível pela criança que ela mesma carregava. Apesar de querer, eu não deixava

que me vissem uma cigana sabe quando se deixar observar. Os relatos do nosso povoado

reforçavam minha percepção mesmo à distância: muitas outras mulheres comentavam o quanto a jovem parecia frágil e emotiva. Efeitos da barriga, diziam. Concordavam, porém, que ela era uma flor em forma de menina. Ágatha, por sua vez, exibia orgulhosa a gravidez na pequena escola em que dava aulas. Seu dia a dia também era cercado por crianças, que clamavam urgentemente pela atenção da tia. Eu via de longe a entrada e a saída dos meninas e meninas, e cada um era abraçado carinhosamente por ela. Seu afeto pelos pequenos era tão notável e tão espontâneo que doía imaginá-la sem o próprio bebê. Não raras vezes me peguei contendo lágrimas enquanto acompanhava a trajetória dessas duas mulheres. Passaram-se nove meses, a expectativa aumentou, a resposta para o enigma estava mais próxima. Ágatha e Laura exibiam seus ventres enormes, imponentes e a poucos passos de dar à luz. Nada, porém, aconteceu. Os nove meses tornaram-se dez, tornaram-se onze, tornaram-se doze. Ambas já não saíam mais de casa e pareciam em trabalho de parto eterno. Presas à cama, só tinham força para perguntar:

O filho dela já nasceu?

Uma resposta afirmativa significaria o fim de uma vida que sequer começara de fato. Ágatha e Laura disputavam entre si a possibilidade de serem chamadas de mãe, de receberam no colo um pequeno embrulho humano com todo amor e medo que poderiam sentir. Rezas, rituais e promessas já haviam se esgotado, quando um choro de bebê foi ouvido.

Nasceu! Um menino!

Ágatha gritou ao ver o rosto do próprio filho. Era um grito de amor, de alívio, mas, sobretudo, de vitória. Não vencia em relação à Laura, mas ao Destino, a uma possibilidade de perder o que ainda nem era totalmente seu. O clamor de mulher em êxtase cortou a tudo pela cidade, chegou até mim e eu sabia que aquilo era ao mesmo tempo uma bênção e uma desgraça e também chegou até Laura.

Ela teve o filho, mãe? Mãe, me ajuda a tirar esse de mim! Ela não podia, não era ela

que merecia, mãe. Não era ela. A mãe paralisara-se à beira da cama. Era mulher por demais experimentada no mundo para ignorar o que aquilo significava. Sua própria vida parecia ter sido interrompida naquele instante. Ajudara a colocar tantas crianças no mundo, mas não veria o próprio neto nascer. No seu íntimo, trocaria cada bebê que passara por suas mãos pela filha da própria filha. Daquela casa nada mais sairia Laura era a última de uma família que desaparecia. Poucas semanas depois, a mãe morreu: afogara-se em um dos rios que cortam nosso povoado. Sem filha, sem mãe, Laura ficara. Ela, contudo, nunca deixou de estar grávida. Se a criança não havia nascido, tampouco deixara de habitar o seu corpo. Levava o ventre carregado, gigante, como marca de seu Destino. Grávida para sempre; mãe de nada, de nunca. Nada que fizesse ou vivesse conseguiria modificar

aquela história pela metade. Por onde andava, todos sabiam, todos viam, todos comentavam:

era Laura, a sozinha, a sem cria. Decidiu se isolar na casa e abdicou de tentar qualquer outro trabalho, já que ninguém mais a desejava como parteira.

O menino de Ágatha cresceu normalmente, sem nada saber sobre antes de sua existência. Seus aniversários se sucederam sem surpresas para além das reservadas pelo crescimento normal de uma criança em um povoado como o nosso. Cheguei a observá- lo de longe, algumas vezes, e me espantei com os mesmos cabelos dourados de sua mãe. Apesar de nunca mais ter ouvido notícias suas, sei que o Destino o levou para longe da mãe: todos os homens são viajantes. Tudo isso foi há muito tempo. Ágatha continuou na cidade. Laura também

ainda, eternamente, grávida. Eu sei: ela virá hoje, depois de tantos anos: as cartas me mostraram. Já escuto novamente seus passos até a soleira da porta; já vejo sua face envelhecida

me amaldiçoando mudamente e o ventre disforme irrompendo pela porta. Já a sinto entrar pela sala, sentar-se à mesa em que cortou o próprio Destino e tocar o baralho eu que lhe ofereci.

Vim para uma consulta.

O que gostaria de saber?

Ainda sobra algo para mim?

É isso mesmo o que quer de verdade?

Laura fez silêncio, pôs as duas mãos sobre a própria barriga, como quem tenta sentir

alguma vida dentro de si. Depois olhou para os cantos da casa, espreitando os meus porta- retratos.

A Senhora nunca teve filhos?

Também não.

Ninguém nunca quis te amar?

Encarei-a sem sobressaltos. De fato, havia sido pouco amada ao longo da vida, ainda que nunca o prazer do corpo masculino tenha me faltado. Essa não tinha sido a razão para não ter filhos. Cortei o baralho pela metade e retirei a primeira carta do topo.

Ás de ouros.

Os olhos cor de água exibiram uma luz que nunca havia encontrado. Laura surgia como um deboche, um desafio. Ninguém jamais me enxergara daquela forma eu falhara como cigana.

Até com a Senhora?

Desse Destino nós compartilhamos.

Não, não como eu.

É verdade, mas agora já é tarde para se esperar por uma vida nova.

Fizemos silêncio novamente. Talvez longe daquela cidade houvesse alguma existência melhor, algum sinal de que o futuro pudesse ser diferente. Não para nós.

Minha filha nunca virá, não é mesmo?

Nunca. E, no entanto, também nunca partirá.

Como antever tudo isto tanto cansa, e sempre nos momentos em que eu deveria estar apagada, largada aos sonhos. Laura virá mais tarde, eu sei. Ainda faltam horas, e ninguém na cidade se levantou. Minha cama continua a envolver o rapaz eu poderia voltar a seu toque firme, mas ele precisa partir, eu sei. De qualquer jeito, a insônia também não me deixaria. É um grande fardo saber. Laura virá, preciso estar pronta. O dia, contudo, ainda não nasceu.