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ESCOLA SUPERIOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS (ESO/UEA).

DISCIPLINA: DIREITO TRIBUTÁRIO II.


PROFESSOR: PAULO VICTOR VIEIRA DA ROCHA.
NOME:KELVIN WILLIAM DA SILVA DIAS. TURNO: VESPERTINO.

Caso 05

RELATÓRIO

Em razão do estado de calamidade pública provocado por enchentes em diversos


municípios do Estado de São Paulo, a União aprovou e publicou a Lei 15.947/07, conferindo
extraordinariamente a moratória de um ano em relação aos tributos e às obrigações de direito
privado federais, ao ICMS e ao ISS para os contribuintes localizados nos municípios afetados,
entre os quais o Município de Águas do Tietê. No entanto, a Lei nº 15.947/07 excepcionou da
referida moratória o ITR, nas hipóteses em que este imposto é cobrado e fiscalizado pelos
municípios, conforme previsão do artigo 153, § 4º, III, da CF/88.

Isto posto, a controvérsia, no presente caso, cinge-se em torno da constitucionalidade e


validade da moratória concedida pela União, que atesta a plena legalidade e validade na instituição
da moratória, e do outro lado, aduz a Municipalidade que, por estar enquadrada nos requisitos para
a concessão moratória, o Município de Águas do Tietê, que possui parte substancial de suas receitas
proveniente da arrecadação do ISS e repasse de receitas, questiona e impugna a constitucionalidade
e validade da referida medida em relação àquela Municipalidade, aduzindo em seu favor que, caso o
Município não venha a contar com os recursos provenientes da arrecadação dos tributos referidos,
não haverão os recursos necessários para a recuperação da infraestrutura do Município, bem como
para dar assistência aos munícipes vitimados pela enchente.

O Município de Águas do Tietê, que cobra o ITR, foi afetado pela enchente e enquadrou-se na
moratória da Lei nº 15.947/07. Contudo, não concorda com a concessão de tal moratória, já que tem
parte substancial de suas receitas decorrente da arrecadação do ISS e de repasse de receitas e, uma
vez concedida a moratória, o Município se verá desprovido de recursos que são fundamentais para a
recuperação de sua infra-estrutura, bem como para dar apoio à população vitimada pelas enchentes.

É o relatório.
VOTO.

- FISCO MUNICIPAL

De maneira sucinta, é importante expor que a moratória pode ser concedida em caráter individual
ou geral, e esta última encontra-se subdividida nas espécies autônoma e heterônoma., a última é
alvo de grandes divergências doutrinárias, possuindo correntes que defendem sua
inconstitucionalidade, enquanto outras defendem a constitucionalidade do referido dispositivo.

Neste sentido, o Fisco Municipal entende ser inconstitucional a moratória heterônoma, tal qual a
realizada nos moldes da Lei nº15.947/07, posto que a moratória heterônoma (a qual é a prevista
no art. 152, I, “b”): aquela concedida pela União quanto a tributos de competência dos Estados,
Distrito Federal e Municípios, pois se está retirando o minorando a autonomia dos munícipios, e, tal
possibilidade não foi excepcionada pela Constituição, ferindo de morte o pacto federativo.

Outrossim, o ISS é um imposto de competência municipal (tanto para instituir quanto cobrar o
Imposto), diferindo do ITR e demais impostos abrangidos pela moratória que são federais ou
estaduais. Ademais, o Fisco Municipal entende que no momento em que a União concedeu a
moratória com relação ao ISS, ela invadiu a competência do município de Águas do Tietê,
prejudicando inclusive a arrecadação do Município, que tem no ISS a maior parcela de sua receita.

Corroborando o entendimento, ressalte-se que seria mais danoso ao contribuinte o fato de o


Município não ter condições de arcar com as despesas para a recuperação dos danos causados pelas
enchentes em seu território, desta forma, a concessão da moratória deve ser revogada em relação ao
Município de Águas do Tietê, tornando novamente exigível o crédito tributário decorrente dos
tributos abrangidos pela moratória.

FISCO FEDERAL

Na qualidade de Fisco Federal, a União sustenta a legalidade da concessão da moratória,


reafirmando o entendimento de que a Lei nº 15.947/07 da União Federal agiu dentro de sua
Competência, possui caráter social e humanitário a medida, haja vista que a renda e sustento de
grande parte dos municípes, incluindo os que realizam atividade comercial fora deveras
prejudicado, sendo concedida a moratória pelo prazo de 1 (um) ano com o intuito de possibilitar a
recuperação da economia do referido Município.

O conceito de moratória pode ser definido como uma modalidade de suspensão da


exigibilidade do crédito tributário, é a prorrogação ou a concessão de novo prazo para o
cumprimento da obrigação tributária. Isso porque a moratória não é uma dispensa do pagamento do
tributo; é apenas uma dilação de prazo, ao contrário da isenção que implica o afastamento da
pretensão tributária. Concedida a isenção, o ente federativo já não mais receberá o crédito (ou
melhor: não surgirá o crédito); a moratória, ao contrário, apenas implica uma dilação no prazo do
tributo, o qual continua devido.
Conforme leciona SHOUERI: “A concessão do prazo permite, justamente, a recuperação do
sujeito passivo em dificuldades. Em outras palavras: ao conceder uma moratória, o legislador
federal possibilita que o sujeito passivo tenha condições de, no futuro, adimplir a obrigação que, no
presente, implicaria sacrifício exagerado.”. A moratória sucede a existência de uma catástrofe, que
justifica novos prazos para diminuir o sofrimento das vítimas, ou seja, só é concedida em situações
excepcionais.

O CTN regula a concessão de moratória.


Art. 152. A moratória somente pode ser concedida:
I – em caráter geral:
a) pela pessoa jurídica de direito público competente para instituir o
tributo a que se refira;
b) pela União, quando a tributos de competência dos Estados, do
Distrito Federal ou dos Municípios, quando simultaneamente
concedida quanto aos tributos de competência federal e às
obrigações de direito privado;

A moratória em questão é heterônoma e de caráter geral.


Heterônoma porque é a concedida pela União, quanto a tributos de competência da
Federação, dos Estados, Distrito Federal ou dos Municípios.
De caráter geral porque é concedida de maneira genérica e abstrata e que alcança todos os
contribuintes, por exemplo, situados em uma mesma região.
Além disso, a Lei nº 15.947/07 (do caso em questão) deve ser considerada constitucional,
pois atende ao princípio da legalidade e cumpre os requisitos legais, do art.153, do CTN, ao
definir o prazo e duração da moratória (um ano), e os tributos a que se aplica simultaneamente
(tributos federais, ICMS, ISS, e as obrigações de direito privado federal).
Por fim, é importante que se rebata o conceito de autonomia Municipal defendido pelo Fisco
do Município não merece prosperar, posto que vislumbra o Município como soberano dentro da
estrutura do pacto federativo, tendo agido a União em caráter de excepcional interesse público ( da
coletividade de munícipes daquela localidade).