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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS


DEPARTAMENTO DE DIREITO
DISCIPLINA: Direito Processual Penal II
DOCENTE: Shirley Silveira Andrade
DISCENTE: Dalyne Fiel Santos

AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA

1. Fundamentação teórica:

Segundo LIMA, a audiência de custódia trata-se de uma audiência sem demora


realizada após a prisão em flagrante possibilitando o contato imediato do preso com o
juiz, um defensor (público, dativo ou constituído) e o Ministério Público.
Esse autor elenca três objetivos da audiência de custódia. O primeiro é a
averiguação da legalidade da prisão em flagrante para fins de possível relaxamento. O
segundo consistiria em servir como um instrumento mais eficaz para aferir a necessidade
da decretação da prisão preventiva (temporária) ou a imposição isolada ou cumulativa das
medidas cautelares diversas da prisão, ou ainda de possível substituição da prisão
preventiva pela prisão domiciliar se presentes os requisitos do art. 318 do CPP. O terceiro
é a diminuição da população carcerária.
Pontua também que a importância da audiência de custódia é evitar que o juízo de
convalidação judicial da prisão em flagrante não seja influenciado unicamente pela
opinião da autoridade policial e do órgão ministerial que, em regra, se manifestam pela
conversão em prisão preventiva (ou temporária). Segundo LOPES JUNIOR esse contato
pessoal entre o juiz e o detido cria condições para permitir uma análise sobre o periculum
libertatis e sobre a suficiência e a adequação das medidas cautelares diversas da prisão.
LIMA esclarece também que é defeso na audiência de custódia inquirir o preso
sobre o mérito da imputação (autoria e materialidade), ou seja, o juiz não pode formular
perguntas com finalidade de produzir provas para a investigação ou ação penal relativas
aos fatos objeto do auto de prisão em flagrante. Essa vedação também alcança o
Ministério Público e a defesa técnica. Quanto a essa limitação no nível de cognição do
juiz, LOPES JUNIOR diz que na entrevista o juiz, com base na situação fática e nas
condições pessoais do preso, deverá avaliar a possibilidade e adequação das medidas
cautelares diversas (art. 319, CPP). Uma vez que para este doutrinador, a audiência de
conciliação limita-se a verificar a legalidade da prisão em flagrante e a presença ou não
dos requisitos da prisão preventiva, bem como permitir uma melhor análise das medidas
cautelares adequadas ao caso.
Vale pontuar que existe uma controvérsia quanto ao entendimento da expressão
sem demora. Tanto LIMA quanto LOPES JUNIOR apontam como prazo de apresentação
do detido como sendo 24 horas contado da comunicação do flagrante à autoridade judicial
(art. 1º da Resolução 213 do CNJ de 2015). No entanto, LIMA entende que deveria ser
realizada a audiência de custódia em um prazo mais compatível com a realidade brasileira
que seria em até 72 horas.
Quanto à eficácia do instituto da audiência de custódia, parte da doutrina tece
críticas. NUCCI informa que o sistema penal brasileiro havia adotado o critério de
apresentar o preso ao delegado para que, em 24 horas, fosse avaliado o auto de prisão em
flagrante por magistrado togado. Ele diz que esse sistema nunca se revelou como causa
ou fundamento de desrespeito aos direitos humanos, pois a atividade do delegado que
primeiro toma contato com o preso era devidamente fiscalizada por um juiz no máximo
de 24 horas. As ilegalidades percebidas eram sanadas com a simples leitura do auto de
prisão em flagrante. De acordo com esse doutrinador conversar com o preso não altera a
convicção do juízo de convalidar a prisão ou de relaxá-la.
NUCCI refuta a tese de a audiência ser direito humano fundamental, pois, na visão
dele se assim fosse, em todos os lugares onde não há audiência de custodia, os flagrantes
deveriam ser imediatamente relaxados independente do caso concreto.
Outra crítica por ele apresentada é que não há um contingente de policiais
necessário para transportar todos os dias os réus para as audiências. Com relação a escolta
do custodiado PELLEGRINI corrobora ao reafirmar que o efetivo policial é escasso para
atender todas as demandas, e na área federal essa situação é mais crítica pois o setor de
planejamento operacional acumulou a função de execução da audiência de custódia com
cumprimento de capturas, mandado de intimações e escoltas regulares de presos para as
audiências comuns.
NUCCI pontua também que essa obrigatoriedade de realizar a entrevista pessoal
do preso perante o juiz torna o auto de prisão em flagrante algo inútil.
Em contrapartida, existe outra parte da doutrina que defende a audiência de
custódia. SOUZA diz que esse instituto garante o contraditório e a ampla defesa ao
permitir que o preso preste a sua versão dos fatos bem como informe acerca dos possíveis
abusos policiais ou torturas que por ventura veio a sofrer ao ser decretada a prisão em
flagrante.
FREITAS e FRANÇA acrescenta que a audiência confere segurança ao controle
judicial ao evitar que sejam feitas prisões de modo ilegal além de garantir os direitos à
liberdade, vida e integridade física ao preso. Esses doutrinadores afirmam ainda que esse
instituto trouxe uma diminuição significativa de presos em situação de cárcere, ou seja,
teve reflexos no problema da superlotação carcerária. Quanto a essa questão eles dizem
que “metade dos presos que foram submetidos à audiência de apresentação tiveram suas
prisões relaxadas, obedecidos os requisitos para concessão, como a conduta de menor
potencial ofensivo”.
Em relação a essa questão da superlotação carcerária, MESQUITA e PEREIRA
entendem que a apresentação imediata do detido ao juiz minimiza a possibilidade de
ocorrência de prisões ilegais ou mesmo ocorrência de prisões cautelares desnecessárias.
Acreditam também que a realização da audiência de custódia seria o momento de se
analisar com mais celeridade e eficácia a viabilidade da aplicação de uma medida cautelar
diversa da prisão.
Assim, os argumentos contrários à audiência de conciliação centram-se na
ineficácia dessa medida no juízo de convicção do magistrado e na insuficiência de
contingente policial para deslocar o detido para as audiências. Enquanto que os
argumentos favoráveis ao instituto focam na garantia da ampla defesa do preso e da
incolumidade física do detento, bem como na análise imediata da possibilidade de
aplicação de medida cautelar diversa da prisão.

2. QUESTIONAMENTO

O art. 8, VIII da Resolução 213 do CNJ traz uma limitação no nível de cognição
do juiz sobre o caso penal ao estipular a vedação aos questionamentos acerca do mérito,
ou seja, que tenha a finalidade de produzir provas para a investigação ou ação penal
relativas ao fato objeto do auto de prisão em flagrante. Como é possível o magistrado não
adentrar no mérito diante da alegação feita pelo preso de não ter sido o autor ou de
inexistir o fato?
BIBLIOGRAFIA:

FREITAS, Maria Victória Pasquoto de; FRANÇA, Rafael Francisco. Audiência de


custódia e duas consequências no sistema processual penal. XIII Mostra Internacional
de Trabalhos Científicos – Demandas Sociais e Políticas Públicas na Sociedade
Contemporânea. 2016.

LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal: volume único. 4 ed. ver. ampl.
e atual. Salvador: Ed. JusPodvim, 2016.

LOPES JUNIOR, Aury. Direito processual penal. 14 ed. São Paulo: Sraiva, 2017.

MESQUITA, Ivonaldo da Silva; PEREIRA, Natália Ila Veras.A audiência de custódia


como direito humano fundamental à luz das garantias constitucionais e
internacionais. XXIV Congresso Nacional do CONPEDI/ FUMEC/ Dom Helder
Câmara – Direitos humanos e efetividade: fundamentação e processos participativos.
Florianópolis: CONPEDI, 2015.

NUCCI, Guilherme. Os mitos da audiência de custódia. 2015. Disponível em:


http://www.guilhermenucci.com.br/artigo/os-mitos-da-audiencia-de-custodia-2
PELLEGRINI, Carlos Eduardo. Pontos emblemáticos da aplicação da audiência de
custódia. Revista Consultor Jurídico, 2016. Disponível em site:
https://www.conjur.com.br/2016-mai-09/carlos-pellegrini-pontos-emblematicos-
audiencia-custodia

SOUZA, Rodrigo Darela de. A audiência de custódia e a problemática policial.


Disponível em: https://rodrigodarela.jusbrasil.com.br/artigos/365250041/a-audiencia-de-
custodia-e-a-problematica-policial