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Teorias da conspiração: não, obrigado.

Algumas vezes e a respeito da crise pela qual passamos ouve-se explica-la através de uma teoria
da conspiração. Por exemplo seria o Clube Bilderberg, o qual se reúne já há 61 anos, que teria
provocado a crise para conseguir fazer vingar um governo mundial. E apresentam facilmente a
lista dos nomes daqueles que têm passado há dezenas de anos pelas reuniões do Clube onde
constam políticos e personalidade importantes na cena mundial. E o mais interessante, ou talvez
não, é que não são só os políticos assumidamente de direita que lá vão. Políticos que se
assumem como socialistas – de nome claro está – por lá têm passado também.

Ora o que eu tenho a dizer é que se estas reuniões não deixam de ter a sua importância como
têm também as dos órgãos de coordenação europeia – da EU – ou os organismos com
importância financeira como o Banco Mundial, o FMI, ou organismos como a OCDE, talvez o
mais importante de tudo é a tela de fundo que os sustenta: serem mecanismos que organizam
e dirigem, como sabem e podem, o sistema capitalista ao nível mundial.

É preciso afirmar bem alto que as crises que têm existido desde o século XIX, não são crises de
miséria ou escassez, são crises de sobreprodução tal como Marx bem explicou. E não derivam
em primeiro lugar de decisões conscientes e voluntárias de indivíduos mas são próprias e
inerentes ao sistema capitalista e aos seus mecanismos de realização. Se no seu início o
capitalismo foi progressista e cumpriu um papel positivo no mundo derrubando o decadente e
reacionário regime feudal, desde há mais de um século e meio que se mostra como um travão
ao avanço das forças produtivas no sentido do benefício da humanidade. Hoje – mas já há muito
tempo o vem fazendo - os grandes interesses capitalistas, tudo fazem para submeter os povos,
usando mesmo as guerras imperialistas, suprema maldade contra a humanidade. O potencial
produtivo no mundo a começar nos países altamente desenvolvidos é descomunal. No entanto
o parque industrial e comercial encontra-se paralisado, utilizado apenas numa ínfima parte da
sua capacidade, votando paradoxalmente milhões de pessoas ao desemprego ou ao
subemprego degradante. Como o objetivo da produção no regime capitalista é a maximização
do lucro e não a satisfação das necessidades das populações, as pessoas, quando empregadas,
são submetidas a uma exploração desenfreada, e por outro lado, cada vez maiores contingentes
de população são remetidas para o exército de reserva.

É verdade que depois das crises se começarem a instalar ou depois de plenamente instaladas
não há quem falte para aproveitar a sua existência, dando-lhe contornos e feições mais
interessantes. Foi e é o que tem acontecido na última crise dita das dívidas soberanas. A UE e os
governos neoliberais que temos também nos países periféricos aproveitaram esta crise para
empobrecerem os seus povos, para privatizar ativos nacionais e para procederem a ditas
“reformas estruturais” que cortam salários, pensões e degradam e desestruturam os serviços
sociais do dito Estado Social que fora constituído – frise-se bem - no pós-guerra como resposta
à existência dos Estados Socialistas. Repita-se: não provocaram a crise mas aproveitaram-na no
sentido dos seus interesses. Em Portugal esta última crise foi utilizada para acelerar mais do que
nunca o ajuste de contas com as conquistas de Abril que desde 1976 têm vindo a ser
progressivamente postas em causa. Hoje em dia depois de décadas de política de direita
exponenciada neste período dito de resgate – mais correto seria chamá-lo de captura e
sequestro - os salários e pensões atingiram patamares baixíssimos, o poder de compra caiu
enormemente, empresas lucrativas e estratégicas foram praticamente todas transferidas para
o campo privado e em grande parte no domínio estrangeiro, e serviços sociais públicos
importantíssimos tais como o SNS, a Escola Pública e a Segurança Social estão a ser degradados
e escavacados por cortes orçamentais enormes e medidas legislativas ad hoc empurrando partes
significativas para o setor privado com ajuda do estado que está nas mãos dos seu inimigos
figadais.

Mas o sistema – neste caso o capitalista - tem os seus mecanismos e lei inexoráveis. Se
funcionasse de acordo com a vontade dos capitalistas as crises não existiriam, ou pelo menos
não teriam o caráter que hoje e já desde há dois séculos têm. Tudo se resolveria de uma forma
mais suave. Só que o sistema é que manda e a desorganização que lhe é inerente como um todo
leva a que as crises ocorram. Só um sistema com outros objetivos, que ponha o ser humano no
centro do seu interesse, que saiba planificar o desenvolvimento e que adote os meios
necessários e suficientes para que isso aconteça pode evitar estas crises. Para isso é preciso que
ocorra uma rutura, de caráter revolucionário, que mude radicalmente a base económica do
sistema e que política e culturalmente tenha a força suficiente para se aguentar. O que não é
fácil convenhamos. A última grande tentativa para que isso acontecesse falhou, por motivos
internos e externos que devemos estudar para evitar cair nos mesmos erros.