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SUMÁRIO

Prólogo de Jacqueline Pitanguy 7


Prefácio de Eva Blay ........................ 9

• A propósito deste livro por Constância L. Duarie . 15

Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens de


Nísia Floresta

Dedicatória ...............................21
Introdução ...............................23
Capítulo 1 ................................35
Capítulo II ...............................45
Capítulo III ...............................55
Capítulo IV ...............................63
A Capítulo V ...............................67
Ana Maria de Almeida Camargo, Maria Lúcia Capítulo VI ...............................79
Mott e Maria Thereza C. Crescenti Bernardes, Conclusão ................................89
que me ajudaram na localização deste livro,
o meu agradecimento sincero.
Posfácio: Nos primórdios do feminismo brasileiro
E a Marlyse Meyer e Nádia Battella Gotlib, por Constância L. Duarte ................97
pela dedicada revisão do texto.

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PRÓLOGO

Questionamento coletivo da condição de subalter-


nidade feminina, reivindicações expressando o sonho
das mulheres por um mundo de dignidade entre os gê-
neros propagaram-se no século XX. Do Terceiro Mun-
do, em Nairobi, no encerramento da Década da Mulher,
em 1985, nossa voz transcendeu fronteiras de geografia
e de idiomas: uma rede irreversivelmente internaciona-
lizada vem sendo tecida. Os anos setenta, no Brasil,
foram decisivos.
O movimento feminista contemporâneo, entretan-
to, tem raízes históricas. A organização das mulheres e
a anunciação de nosso desejo resulta de um processo.
Dele Nísia Floresta dá testemunho, com sua intensa
atuação, no século passado.
A reedição de "Direitos das Mulheres e Injustiça
dos Homens" traduz uma disposição de conhecer essas
raízes e dar visibilidade à participação feminina na
cena histórica de nosso país.
Ao publicar este trabalho, a Cortez Editora resgata
a memória dessa brasileira que ofereceu significativa
contribuição à vida social de seu tempo, retira-a do
território da fantasia e faz justiça, trazendo-a para o
mundo da produção efetiva.

Jacqueline Pitanguy
Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

Brasília, 19 de junho de 1989


PREFÁCIO

Duas mulheres, dois mundos, um só preconceito

O Império Britânico na segunda metade do século


XVIII se consolidava, ampliava, industrializava. Em
todas as esferas do mundo sócio-econômico inglês vigo-
rava plena divisão sexual, a atuação da mulher estava
rigorosamente delimitada e vinculada à família, ao ma-
rido, aos filhos, à casa. Variavam, concretamente, os
desempenhos sociais conforme as classes mas uma gran-
de fronteira ideológica indicava "o lugar" da mulher.
Uma voz se insurge contra os limites: Mary Wolisto-
necraft.
Cinqüenta anos mais tarde, no Brasil, país que
engatinhava em sua independência da coroa portugue-
sa, os mesmos valores culturais franceses e ingleses,
aqui se fixaram com a hegemonia econômica daqueles
centros. País agrícola, latifundiário, exacerbou a divi-
são sexual em todas as atividades sócio-econômicas e
culturais. O sistema educacional mal se desenhava e
eram raras as "mulheres educadas`. No Rio Grande
do Norte, uma jovem de 22 anos, Nísia Floresta, se

1. CRESCENTI BERNARDES, Maria Thereza Caiuby. Mu-


lheres Educadas - Rio de Janeiro do Século XIX (1840-1890).
Tese de Doutorado. São Paulo, 1983. FFLCH-USP, mimeo.
insurgiu contra as limitações impostas à mulher e foi Nísia Floresta foi precursora na história do femi-
buscar, na sede do poder econômico e cultural, a cum- nismo brasileiro. Independente, viaja, funda escolas,
plicidade de Mary Wollstonecraft. escreve. Quanto terá influenciado sobre o movimento
Nísia Floresta traduz o livro de Mary, Vindication que se expande na segunda metade do século XIX?
of the Rights of Women, de forma livre. Mantendo o Esta é uma questão ainda sem resposta.
cerne do texto original em que a autora reivindicava Uma de nossas pesquisadoras, Maria Thereza
igualdade às mulheres, Nísia vai mostrar a privação Caiuby Crescenti Bernardes 3 , ao buscar elos do passa-
destes direitos e a injustiça cometida pelos homens que do, descobriu as mulheres "educadas". Encontrou entre
as impedem de se desenvolver. 1840 e 1890, cerca de 99 escritoras e tradutoras, dedi-
Para Nísia o essencial da sujeição decorre do impe- cadas à prosa e à poesia, porém, a maioria se voltava
dimento de as mulheres terem boa educação. Homens e para artigos e obras didáticas, ou, como diz Crescenti,
mulheres, afirma, são diferentes no corpo, mas isto não para "obras de reflexão".
significa diferenças na "alma". As desigualdades que Naqueles 50 anos, existiram seis jornais femininos
resultam em inferioridade, argumenta, resultam da edu- no Rio de Janeiro, dois em Alagoas e um na Província
cação e das circunstâncias de vida. As mulheres não são do Rio de Janeiro (dois dos jornais do Rio tinham antes
inferiores quanto ao "entendimento", à competência, sido editados em São Paulo, e um em Campanha, Minas
ao saber ou ao aprendizado. Desempenhando tarefas de Gerais). São todos jornais fundados e dirigidos por mu-
procriação, são essenciais ao "Estado Social". lheres. Não nos deixemos enganar pelos nomes destes
Nísia é precursora ao mostrar que a mulher foi veículos imaginando-os preocupados apenas com a apa-
envolvida em uma rede: não lhe dão educação pois elas rência, moda, normas familiares, ou romantismo. "O
não desempenham tarefas em espaços públicos, e elas Jornal das Senhoras", "A Família", "Belio Sexo", "A
não as desempenham pois não são educadas. Daí o cír- Mulher", "O Sexo Feminino", "O Quinze de Novembro
culo que só será rompido pela educação. do Sexo Feminino", ao lado de artigos sobre moda,
Nísia e Mary tiveram outra contemporânea, Flora bailes, carnaval, publicam numerosos artigos da reivin-
Tristan 2 . Três mulheres que usaram da escrita para lu- dicação dos direitos da mulher, de protesto ou mesmo
tar contra a discriminação. Nísia, uma brasileira, vai de propostas de ação concreta, informa Crescenti 4.

para a Europa onde convive com intelectuais, com posi-


tivistas. Flora faz o trajeto inverso, vem da França para Portanto, um pensamento emancipador florescia
o Peru e nos dois continentes se confronta com várias no país, durante todo o século XIX, sendo Nísia certa-
formas agudas de discriminação. mente uma das precursoras.

2. TRISTAN, Flora. Peregrinaciones de una Paria - Co- 3. CRESCENTI BERNARDES, Maria Thereza Caiuby. Op.
leccióri Nuestros Países. Casa de Ias Américas. Série Rumbos. Cuba, cit., P. 9.
1984. 4. Idem p. 152 e 177 e segs.

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Mas por que este movimento não resultou em uma mulher com coragem que a trouxesse para o cená-
emancipação já naqueles anos? As próprias jornalistas rio atual. A sensibilidade de Constância está conseguin-
respondem a esta questão revelando as enormes resis- do aquilo que todas nós aguardávamos: traçar nossa
tências que encontravam por parte de pessoas da socie- própria história através desta extraordinária precursora,
dade, escritores e mesmo jornalistas. . . A Legislação Nísia Floresta. Ao fazer-nos entender Nísia, Constância
também criava obstáculos à mulher, por exemplo impe- está explicando aos seus contemporâneos as resistên-
dindo-a de entrar para a universidade, ou de votar. cias à emancipação da mulher brasileira, mas também
O movimento de reivindicação das mulheres, ava- porque esta luta é incessante.
liado ao longo da História, tem períodos de floresci-
mento e outros de refluxo. A passagem do século parece Eva Alterman Blay
ter sido marcada por este último, reavivando-se a luta Professora Titular e Chefe do Departamento de Sociologia,
na primeira e segunda décadas do século XX, na luta Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo
pelo direito ao voto. Mais uma vez, os mesmos argu-
mentos se confrontam: entendia-se que a mulher deveria
se dedicar inteiramente à família, filhos e marido, e que São Paulo, 22 de junho de 1989.
o próprio exercício do voto trairia este destino. A luta
de Diva Nolf Nazario, por exemplo, em 1920, para
tentar, em vão, seu direito ao voto, explicita todos estes
preconceitos'. Nem mesmo o fato de ser advogada lhe
garantiu o direito à plena cidadania.
Nos anos 60 reacende-se no Brasil o movimento
feminista. Na década de 70 ele se amplia e inúmeros
temas atraem as mulheres. Emancipação, auto-estima,
superação de discriminações, propostas de alteração da
Legislação, organização política. Um novo ângulo se
soma a estes todos: a recuperação da memória feminina,
a redescoberta desta história. Ë então que Nísia Floresta
vai ser reencontrada. Constância Lima Duarte decidiu-
se por uma tarefa considerada impossível por muitos:
descobrir os traços de Nísia Floresta. Figura mítica no
imaginário do feminismo brasileiro, Nísia aguardava
5. NAZARIO, Diva Nolf. Voto Feminino e Feminismo - Um
anno de feminismo entre nós. São Paulo, 1923.

12 13
A PROPÓSITO DESTE LIVRO

Há 157 anos, quando a maioria das mulheres


brasileiras vivia enclausurada no mais recôndito dos
preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de
ceder e aquiescer sempre à vontade masculina, espar -
tilhada em estereótipos antinaturais, justo neste mo-
mento, surgia em Recife a primeira edição dos Direitos
das Mulheres e Injustiça dos Homens, uma tradução
livre do bem mais famoso Vindication of the Rights of
Woman, de Mary Wollstonecraft-Godwin, assinada por
uma jovem de vinte e dois anos do Rio Grande do Norte
- Nísia Floresta Brasileira Augusta.
No ano seguinte, 1833, nova edição deste livro
vinha à luz em Porto Alegre, para onde sua autora
havia se transferido. E em 1839, já no Rio de Janeiro,
mais outra é anunciada pela imprensa. Alguns autores,
entre eles Laurence Hallewell e Wilson Martins', duvi-
daram da existência destas duas edições. E não foram
poucos os pesquisadores que assim pensaram. Acredi-
1. In Laurence Haliewell, O livro no Brasil, São Paulo, T. A.
Queiroz; Edusp, 1985, p. 55; e Wilson Martins, História da inteli-
gência brasileira, vol. II, São Paulo, Cultrix, Edusp, 1977/78, p. 306.

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tavam que tivesse havido apenas a primeira edição e presença no acervo. Da mesma forma, os bibliófilos.
que a autora colocava os exemplares restantes à venda, Alguns sabiam de sua existência, mas nenhum dos que
à medida que se transferia de domicílio. contactei, e não foram poucos, sequer chegou a conhe-
Ora, o exemplar de que disponho é justamente o cer um só exemplar.
da segunda edição, publicado pela Typographia V. F. E quando já havia reduzido o afã da pesquisa,
de Andrade, de Porto Alegre, em 1833. Trata-se, na conformada em apenas citá-lo como uma página dis-
realidade, da única edição disponível ao leitor, pelo tante e perdida de nossa história, eis que ele, como que
menos foi esta a única que encontrei nas minhas pes- se desencanta e surge - amarelecido, sobrevivente de
quisas, aqui e no exterior. uma luta contra o tempo, roto nas margens, maltratado
Se, no ano seguinte ao da primeira, já surgia uma pelos insetos - para provar que um dia existiu e tes-
nova, o mais provável é que seis anos mais tarde, quan- temunhar o espírito pioneiro de sua autora.
do o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, em 25 de Assim, Nísia Floresta ressurge para nós, envolvida
abril de 1839, publicava o reclame da Casa do Livro ainda pelo manto de mistério que a cerca (faz tanto
Azul, anunciando a venda, por 500 réis, dos Direitos tempo!), revelando, para quem dela se aproxima, um
das Mulheres e Injustiça dos Homens, também se tra- pouco do momento em que viveu. Como todo mistério,
tasse de uma nova edição. não foram poucas as histórias que surgiram em torno
Mas apesar de três vezes impresso, a existência dessa figura feminina, e muitos foram os pesquisadores
deste pequeno/grande livro estava praticamente termi- que se deixaram envolver e seduzir, contribuindo para
nada, pela ausência mesmo de exemplares em nossas a formação do mito Nísia Floresta.
bibliotecas que pudessem atestar esta sua existência. Desde o início do século encontramos Constâncio
E, conseqüentemente, pelo desconhecimento geral do Alves, Brito Broca, Henrique Castriciano, Clementino
pensamento aí contido, que continua praticamente des- Câmara, Roberto Seidl, Oliveira Lima, Adauto da Câ-
conhecido do público leitor. mara, Gilberto Freyre, Nilo Pereira e Câmara Cascudo
Durante alguns anos percorri o país e inúmeras escrevendo páginas laudatórias, que mal escondiam a
bibliotecas à sua procura, sem sucesso. A Nacional, do admiração e o fascínio por "esta mulher mais notável
Rio de Janeiro, até 1930 possuiu dois exemplares e a de nossas letras", este "adorável mito", verdadeiro
de Porto Alegre, apenas um, que desapareceu por volta "monstro sagrado" . . . Como a maioria não conheceu
dos anos 40. As demais bibliotecas pesquisadas, nos seus escritos, o que prevalece mesmo nestas páginas é
estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, a surpresa pela coragem dessa mulher que nasceu em
Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará 1810 num sítio distante do Rio Grande do Norte, que
e Rio Grande do Norte, nunca foram honradas com sua separou-se de um marido aos quinze anos e casou-se

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com outro, que adquiriu - não se sabe como - um quiar seu texto com alterações que comprometessem a
saber surpreendente, que foi abolicionista e republica- forma primeira. Ele aí está, quase tal e qual. A orto-
na, que lutou pela melhoria da educação feminina, es- grafia está atualizada, mas foram conservadas algumas
creveu livros os mais instigantes, e finalmente, que via- palavras e expressões pouco usadas hoje, por entender
jou para a Europa e escolheu a França para viver parte que são facilmente compreendidas (como "faltos de
de sua vida, até morrer, pobre e sozinha, em 1885, em virtude", "rifão", "prejuízo". . .), bem como algumas
Rouen.2 maiúsculas (Natureza, Príncipe, Céu ...) aos nossos
Não é para menos esta admiração. Tampouco in- olhos desnecessárias, com a intenção de manter a au-
fundada sua fama de mulher inovadora e audaciosa, tenticidade e sabor do texto nisiano. Na estrutura da
como a considerou um dia Rachel de Queiroz. À me- frase não se tocou (nem quando nos parecia pouco cor-
dida que conhecemos seus escritos - e este Direitos das reta), se a clareza do pensamento não estivesse com-
Mulheres é apenas o primeiro de mais de uma dezena prometida, assim como o emprego do pronome vós na
de títulos -, a esta admiração biográfica acrescentamos "Dedicatória" e no início do Capítulo III. Apenas a
naturalmente uma outra, pelo avanço de suas idéias, pontuação teve que ser alterada, pois em muitos mo-
coerência e unidade de sua obra e clareza sinuosa do mentos dificultava a compreensão. Havia um excesso
seu pensamento. de vírgulas e ponto-e-vírgulas, comuns à língua portu-
Ao leitor desprevenido, Nísia envolve com uma guesa do século XVIII e do início do século XIX, hoje
argumentação que seduz e encanta; aos outros - os em desuso. Já as notas de pé de página pretendem es-
que se aproximam com certa prevenção - ela os sur- clarecer os critérios de atualização do texto, bem como
preende com seus volteios retóricos, seu raciocínio bri- informar sucintamente sobre os autores e personagens
lhante e, delicadamente, os conduz para onde quer, citados. Para muitos leitores, estou certa, elas serão
terminando por também envolvê-los. É difícil ler este desnecessárias, peço, então, a estes, que as ignorem.
"pequeno livro", como ela o chama, sem deixar se en- Nísia surge então para nós, jovem nos seus 157
ternecer aqui e ali por um certo tom ingênuo, que bem anos, tratando questões absurdamente avançadas para
denuncia a pouca idade da autora e a paixão que, na- sua época e que ainda hoje permanecem sem ter sido
quele momento, a dominava. equacionadas.
Por isso, para que o leitor de hoje realmente en- O pioneirismo da autora salta aos olhos do leitor
contre Nísia Floresta, tive a preocupação de não ma- mais precavido. Escapando com ousadia da mera tra-
2. A biografia de Nísia Floresta é uma outra história que en- dução literal, Nísia Floresta toma emprestadas as vin-
volve muitos detalhes. Não julgo oportuno tratar, aqui, de tais ques- dications de Mary Wollstonecraft, para enfrentar os
tões, que serão, aliás, examinadas num outro texto, em preparo. preconceitos da sociedade patriarcal brasileira e pos-
18 1 19
tular com ardor e inusitada erudição a liberdade e o i -
acesso feminino às ciências, à filosofia e aos postos de
comando. Como a feminista inglesa, que em seu texto 11
ataca os preconceitos sociais de sua época e demonstra
que as mulheres são seres humanos, com direito à mes-
ma educação que os homens recebiam, Nísia Floresta
• . 1OR
também assim o faz. Apenas à sua maneira, segundo :.
1HSTRISS GODWjN.
sua experiência e mais de acordo com as especificidades
611)0 LIÇIIEM9TE DO FR4Scmp PORTUGUZ
da mulher brasileira. t OF}Lfltcioo A ' $.
A liberdade de tradução da autora, a importância
das novidades por ela inseridas, o rico processo de ge- BRASILEIRAS*..
ração deste outro texto, bem como as repercussões que
alcançou na cultura nacional do século passado serão • .

1
POR
temas que abordarei, entre outros, no Posfácio a seguir. r STABRASILEIRA

Constância Lima Duarte


',.

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1 • Z.:...
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- A fl1'OCJ1I'fl.L •
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20
DIREITOS DAS MULHERES E
INJUSTIÇA DOS HOMENS

Por Mistriss Godwin


DEDICATÓRIA
Tradusido livremente do
Francez para Portuguez,
ÀS BRASILEIRAS
e offerecido às E ACADÊMICOS BRASILEIROS

BRASILEIRAS e ACADEMICOS BRASILEIROS


A vós, caras Patrícias e dignos filhos de Palas,
Por
ofereço este pequeno resultado de minha aplicação.
NISIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA Assaz conheço a incapacidade de meus talentos para
fazer uma tradução digna de vós: porém convencida
da indulgência e bondade, que constituem o vosso prin-
cipal caráter, não hesitei propor-me a esta tarefa na
esperança de que, desculpando benignos os meus erros,
acolhereis as minhas boas intenções. De vós, Patrícias,
espero, que longe de conceberdes qualquer sentimento
de vaidade em vossos corações com a leitura deste'pe-
queno livro, procureis ilustrar o vosso espírito com a
de outros mais interessantes, unindo sempre a este pro-
veitoso exercício a prática da virtude, a fim de que
sobressaindo essas qualidades amáveis e naturais ao
nosso sexo, que até o presente têm sido abatidas pela
desprezível ignorância em que os homens, parece de
PORTO ALEGRE
propósito, têm nos conservado, eles reconheçam que o
REIMPRESSO NA TYPOGRAPHIA DE V. F. DE ANDRADE
Céu nos há destinado para merecer na Sociedade uma
RUA DA PONTE
mais alta consideração.
E de vós, mocidade Acadêmica, em quem a Nação
1833 tem depositado as mais belas esperanças, que sabereis

21
corresponder à sua expectativa, igualmente espero, que
atendendo o estado a que nosso infeliz sexo tem sido
injustamente condenado, privado das vantagens de uma
boa educação, longe de criticardes a minha temeridade,
r. ICATORIA
AIS
lamentareis a nossa sorte, pois que até em pequenas
empresas não podemos desenvolver nossos talentos na-
RASILEIRAS,
E
turais. Assim como [espero] que, algum dia nas horas
IID
vagas de vossos altos ministérios, lançareis vistas de
justiça sobre nosso sexo em geral, se não para empreen- 1 A vós, charas Patricias, e dignos filhos e
der uma metamorfose na ordem presente das coisas, ao Pailas, offereço este pequeno resultado de mmlii
menos para conseguirmos uma melhor sorte, de que não applicação. .dssds conheeo a ica,'ach/adr de meus
talentos para faser urna traduccão digna de rãs:
duvidareis, somos dignas. Dest'arte conseguireis nossos porem convencida daindulgencia, e bondade, que
verdadeiros louvores, e vossos nomes imortalizados, re- Constituem O vosso principal caracter, não /iesi-
ceberão da Posteridade a brilhante coroa de vossas tei propor-me a esta tarefa na esperanca de que
virtudes. desculpando benignos os meus erros, acolhereis
as minhas boas intencões. !)e vós, Patricias, es-
pro, que longe de conceberdeis qualquer senti-
mento de vaidade em vossos coracões com a leilu-
São estes os ardentes e puros desejos - 'ra deste pequeno livro, procureis illtistrar o vos-
so espirito Coam a de outros mais interessantes
De vossa Patrícia sincera, unindo sempre a este proreitoso "xercieio a pra
tica da virtude, a fim de que sobresaindo essas
N.F.B.A. • qualidades amaveis, e naturues ao nosso sea, que
até o presente tem sido abatidas pela despresivel
f ignorancia, em que os homens, parece de propo-
sito teia nos conservado, elles reconlu'ção, que o
J'eo ?ias ha destinado para merecer na So'edíe
urna mais alta considerarão.
E' de Vós, mocidade Áeademica, em i m a Ir
Nacãa tem depositado as mais bel/as espera

22
INTRODUÇÃO

Se um autor célebre não tivesse proferido que


nada existe na Natureza tão admirável como ver os
homens capazes de espanto, poderia alguém, ao menos
o que não fosse inteiramente falto de bom senso, dei-
xar de admirar o poder que o prejuízo' e o costume
têm sobre o espírito humano? Era de esperar natural-
mene_qimesses ...çntes, feitos para dominar, como mo-
destamente se qua1ificani,Jssemciososcle sua pe-
rior1dãe mepenos eina conservaJÈntre-
tanto, excetuando-se a autoridade tirâça, que usurpam
sobre nós, achar-se-á, se
reduIicitar a mais baixa servidão.
Se a ambição justa, seria de
acordo consigo mesmo, e esta conseqüência os tornaria
igualmente imperiosos, em todas as ocasiões em que a
autoridade é necessária para se sustentar. Se a força
exterior do corpo fosse para eles um título suficiente
para dominar sobre nós, que somos de uma constitui-

1. "Prejuízo" aqui e em quase todo o texto possui o sentido


de "preconceito".

23
ção mais delicada, a sup erior idade da razão sobre a de exercer um império tão completo sobre nós mesmas.
paixão deveria fazê-los envergonhar de submeter esta Mas como poderíamos conceber uma tal idéia dos ho-
razão à paixão, aoprejiízosea um costume sem fun- mens vendo-os tão dominar, que não se
damento. Se este sexo altivo quer fazer-nos acreditar podem satisfa senão com im&aiitqidade absoluta,
que tem sobre nós um direito natural de superioridade, solicitar _a escravidão jyil,prostituindo sua razão
por que não nos prova o privilégio, que para isto rece- às suas paixões grosseiras, deixando cativar seu_bom
beu da Naturez wfi o-se de sua razão para se con- senso pelos prejuízos, e sacrificando a um costume pou-
vencerem? - co judicioso, a eqüidade, a verdade, e a 1wra? Quan-
Tignoramos que temos razão; esta é a única tas cousas há que estas criaturas sQfanarner sábias,
prerrogativa que a Natureza nos concedeu para elevar- têm por verdades incortestáveis, sem poderem dar a
nos acima da esfera dos animais sensitivos'; esta mes- razão de sua&opiiões? Eis a causa: é porque se dei-
ma razão que nos faz sentir a superioridade que temos xam levar por aparências; para eles tudo que tem apa-
sobre eles, nos mostraria também a dos homens sobre rência de verdade, deve ser tal, porque o ponto de vista C2"
nós, se pudéssemos desõbrir neles o menor grau de sob que descobrem as coisas, supre-lhes a--convicção.--%)
íenso acima do que temos; mas sem faltar a esta mes- Quando falta a evidênçia em seus nc1pi, o
ma razão, não poderíamos reconhecer-nos inferiores a erro supre a sua falta, e a sua conseqüência funda-se
criaturas, cujo bom senso de que fazem alarde, consiste então em pbaiidades. Em uma palavra, como eles
em entregar-se cegamente às paixões, que lhes são co- supõem sem algumas razões, e raciocinam sem funda- ?c
muns com os brutos. Se vís s emos os homens sempre mento, coëüfflemente sustentariam conr - a -mesma
senhores em ter suas inclinações brutais perfeitamente força negativa do que afirmam, se o costume ou a
subordinadas à s suas faculdades racionais, poderíamos impressão dos sentidos lhes determinasse da mema 5 çiiQ
julgar que a Natureza os destinou para serem nossos maneira. Não ha muito, que a crença dos Antípodas' -
senhores, tanto mais quanto não podemos lisonjear-nos era olhada em Filosofia como uma heresi a ignorância
adornada com as prerrogativas do costúmê, e susten-
2. Imbuída do espírito e ideais divulgados p e lo Iiuminismo, a tada com aparências de razão, justificava a opinião
autora coloca desdé o iníiõ sccéits filosóficos fundamentais
em que vai se apoiar no desenvolvimento de sua argumentação. contrária e os filósofos, os mais graves, estavam con-
Entre eles e em posição de destaque temos o "primado da razão",
isto é: a crença de que o homem tem uma vantãgeij única sobre os 3. Antípodas são os habitantes de dois lugares da Terra que
demais seres vivos, porque pode raciocinar. Para os iluministas, a ficam diametralmente opostos. A palavra vem do grego e significa
ênfase no uso da razão é o mellii niét ara se alcançar a ver- "de pé contra pé". São nossos antípodas os habitantes do Japão.
dade. Com biisia exigência - a razao Nísia vai desmontar A autora refere-se ao período histórico em que não se admitia a
toda argumentação masculina de superioridade. circularidade da Terra e o heliocentrismo.

24 1 25
vencidos, ou pelo menos afetavam, de sorte que foi a Nossos Sectários de Descartes 4 não se envergonhavam
maior das temeridades o empreender combatê-los. En- de- ter nele uma confiançiosa, e crer que toda
tretanto o fato tem sido provado tão incontestavelm
en- criação animal não é outra coisa que espécies diferen-
ou ignorância a tes de autômatos, ou monstros, que se movem por si
te, que só o excesso de urna loucura, A revolução mesmos, inda que se sabe muito bem, que seu mestre
mais cãrãcieriZã_Já ,­pode fazer duvidar.
- -- -
tinha sobeja sabedoria para não acreditar no seu pró-
constante dos tempos fez crer aos antigos Astrônomos,
Celestes - gIraani em torno da terra, prio sistema, imaginando-o só para se divertir e embair
-

sempre imperioso, obrigou a maior parte os ignorantes. Os homens, que têm grande cuidado em
C ,costum
\~_:Ué- o __è_, )~ apoderar-se dos trabalhos da religião, como de todos
dos aprendizes de nosso tempo a abraçar a mesma opi-
os outros, nio seguem os preéëifôs da razão nesta ma-
nião. Entretanto se se erni com madureza essas
pensar que a Terra é téria mais do que em outra qualquer, tanto mais se tem
fases, podemigualmente f azer-n os
--

a ventura de nascer num país onde se reconhece a ver-


um planeta que se move com os outros em roda do Sol.
dadeira religião; porque a que receberam com a edu-
Qual é pois a superioridade da razão, que têm os
0 raciocinam sobre cação é para eles a única boa e não têm outras provas
antigos acinàdmonos? de sua excelência e melhoria, senão que esta era a cre n 'V "r'&
aparências: os primeiros f{zem que, segundo as dife-
ça de seus antepassados. Além deste prejuízo eles se
rentes posições da Terra e do Sol, em um destes dois
ligam fortemente a ela como a única verdadeira, e sem
corpos há movimento, e como não sentem a agitação
se darem ao trabalho de examinar ou compará-la, con-t Dvuj
na terra, concluem que é o Sol que se move em torno denam todas as outras como errôneas. Eis aqui precisa-
deles, e não eles em torno do Sol. Os segundos não mente o caso em que se acha a maior parte dos homens:
percebendo o movimento da carroça em que estão, ima- os Judeus, os Maometanos, os Pagãos, todos se con-
ginam ser imóveis e que são as casas que passam por duzem da mesma maneira.
eles: ambos não julgam pois sobre os mesmos princí-
Nenhum país nos apraz tanto como o nosso; le-
pios? Sim, mas com a diferença que estes são menos
vamos este prejuízo tão longe, que pelo pouco que a
obstinados que aqueles, e não é tão difícil tirá-los do
erro e fazê-los tornar à verdade. 4. Renê du Perron Descartes (1596-1650): filósofo e cientista
Da mesma sorte,05 SelgS que habitam os paí- francês, considerado o pai da filosofiaia, enfatizava o uso
da razão como o principal instrumento de investigação filosófica.
ses desconhecidos das indias e quê são da mesma espé-
onhecimento do mecanis- Sua proposição básica "Penso, logo existo", permitiu que ele che-
cie que nos outros, faltos de c gasse a inúmeras conclusões. Entre seus seguidores- os Sectários,
mo de um relógio, crêem que os espíritos invisíveis como os chama Nísia - muitos tentaram levaradiante certas pro-
estão dentro dele e fazem parar todas as suas molas. posições que terminaram por se revelar absurdas e contraditórias.

27
26

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honra e o interesse de nossa nação o exija, raras vezes e que a dependência em que nos conservam é o verda-
fazemos justiça aos outros, inda mesmo que a razão deiro estado para que a Natureza nos destinou, de sorte -,...
esteja evidentemente do seu lado; é esta uma fraqueza que avançar uma doutrina contrária a um prejuízo tão
a que os homens os mais sábios estão sujeitos. Além inveterado, deve parecer um paradoxo tal, como outro-
disto, tal é a fraqueza de ambos os sexos, que até os ra, quando se afirmava que noutro hemisfério existiam
mesmos Estados são matéria de prejuízo. Um tolo da homens que andavam com as cabeças diametralmente
nossa profissão será sempre mais acolhido em nossa opostas às nossas; só um exame bem exato poderá
companhia que um sábio estrangeiro. Até mesmo a di- fazer conhecer, que uma e outra cousa são conforme a
ferença das moradas tem introduzido o temor e a con- verdade. fl
fusão entre os homens, enganado a multidão e feito Porém, a que juiz devemos recorrer?\Que provas
-

crer que esta desigualdade existe entre eles. Se nós qui- podem se admitir em um negocio tão delicado, que in-
séssemos dar ao trabalho de remontar à origem desta teressa a maior parte -do- gênero humano e em que se
diversidade de errs populares, poderíamos dar outras trata de deillual das duas partes éiiiperior à outra?
causas senão o \interesse e o costurn« Entretanto, tal é Nãõroeüis outro testemüiiEo que o da verdade
o império que o costume o mais desarrazoavelmente mais simples e sem dissimulação; se os homens tiverem
introduzido, tem adquirido sobre o espírito dos homens, a generosidade de referir-se a ela, qao temeremos o
que seria menos difícil afastá-los dos sentimentos que quantopm alegar em seu favor. Esperamos toda-
têm abraçado sobre a evidência da razão e da verdade, via, por amor deles, que qualquer que seja sua dispo
- do que tirá-los dos prejuízos inspirados pelo costume. sição a nosso respeito, não ousarão recusar um teste-\+
Eu não teria jamais pretendido falar nisto, se não en- munho tão imparcial, ci 'vv
trasse no detalhe de todas as noções absurdas em que fara Nós, interessidas na sua decisão, não
o costurneem se idioriiëns. Aindque seja podemos ser testemunhas nesta causa e muito menos
um dos maiores absur os a extrema diferença que eles Juízes; esta mesma razão impede a que os homens se-
constituem entre o seu e nosso sexo, todavia não há jam admitidos a estas mesmas funções; entretanto, te-
erro popular mais antigo e mais universalmente acre- mos tanta confiança da justiça de nossa causa, que se
ditado. os homensjossemnjais justos e seus juízos menos cor-
Potlos supõe que os homens - quer sábios, quer rompidos, nos sujeitaríamos voluntariamente a sua pró-
ignorantes - sejam realmente superiores às mulheres' piçntença. íasho estado presente das cousas, so-
mos obrigadas a procurar um Juiz menos prevenido.
Até hoje só se tem tratado superficialmente da
5. No original: "Potios, quer sábios, quer ignorantes, supõe que
os homens são realmente superiores às mulheres. diferença dos dois sexos. Todavia os homens arrasta-

28 29
~

muita certez
=
/ck~ d_~
dos pelo costume, prejuízo e interesse, sempre tiveram
ideciiraseufaàr, porque a posse 3 bem-estar' de toda espécie racional em geral, e em
particulii 7 . _-v P'-- /f
oscoloava_em estado de exercer a violência em l ugar Eis o Juiz a quem entregamos a nossa causa; es-
da justiça, e o s homenno sso tempo guiados por tamos prontas a aquiescer a sua decisão, qualquer que
eplo, tomaram a mesma liberdide sem mais seja: e se, sobre o emtmio a verdade, decidir -
algum exame, emdii julgai cordatamente se que somos inferiores aohomeniis nos submetere-
sei iiëcebeu da Natureza alguma preeminência real modb ãoasua sentença; mas que ãëõtitêcerá
sobre o nosso) se teremdespidQ inteiramen1r- se dois & um maduro exame, sua decisão nos for
cialidadeeinierçsse._e não se apoiarem sobre os "assim favorável? -

dizem", em lugar da razão, principalmente sendo auto- 'Ila autoridade que eles têm exercido sobre nós
res e ao mesmo tempo parte interessada. até o presente, não parecerá mais que umajsl.iipaão
Se um homem pudesse banir toda parcialidade e violenta de suaprte,
colocar-se por um pouco em expiar, senão restituindo-nos ao estado _Jg*ildade
eceria que, se
tralidade, estaria ao alcance etecoiiIecei•i éíiTiie a Natureza no scoocou. E nquanto eles não
-

acaso estimam-se as mulheres menos que aos homens e chegarem a esse ponto de eqüidade, as pechas imagi-
------ ----

_-que
concede-se mais excelencia e superioridacie a estes nárias com que eles tem oprimido o nosso sexo e que
s. são as únicas fguma aplicação têm, não podem recair mais que
cau a sobre um peqqe no dentre nós, oine pro-
Em uma palavra, se os homens fossem Filósofos ponho justificar, não passarão senão como pequenas
(tomando esta palavra em seu rigor) descobririam fa- sutilez a s i c uja sombra querem fazer passar as suas.
-----

ceuj4atureza constituiu uma p4çit&il- Assim, pírá õkcar iiegócio em um ponto de vista
dade entre os dois sexos. Mas como há poucos que
sejam cap azes de um pensar tão abstrato, nenhum i- 6. No original: bem-ser.
reito têm mais que nós, de serem Juízes nesta matéria, 7. Sem dúvida, o que Nísia Floresta busca é-a_impaiçalidade
e por consequ enciá, necessitamos de recorrer a um jui z-- filosófica. Só um filósofo - indivíduo..ue procede sempre com
iiexão e acerto - será capaz de t'julgar" tal questão. Ela tentará
menos parcial, afiãros priTfikóficos
- cos aos ociais, à luz da filosofia,
ireçusavel. Estas no caso a Eiloso
sofia Sial (cujos precursoreíToramTPtãtãõëXlist6-
qualidades são visivelmente inerentes à razão bem apu- teles e que teve como seguidores Rousseau e mais tarde Comte).
Em tempo: no texto original não existe em nenhum momento esta
rada, pois que uma faculdade purae intelectual sem preocupação de provar su erioridade feminina sobre os
aër_.aJgu.m sexo e igualmente interessada no que Nísia torna mesmo a grande questão do seu ivro.

30 1 31
-
/

mais claro, não será fora de propósito desenvolver nos- Kjustifiquem, pois, e podem, os procedimentos
sas idéias sobretudo no que têm de confuso, separando injustoparanãe-dzer que exer-
o ea1ecLohsçuro do evidente, o falso cem todos os dias sobre u artcda criação, de onde
do verdadeiro, a suposição do fato, a verossimilhança depii1eicidade, e queno&éJnseprave1mente
difidade, a icaeorta aÕpinião da persuasão, ligada.
aidi da certeza,práo interesse e o prejuízo da justiça
e djiiízo xato. Para istôexaminmos, por ordem,
quais são a ias gerais que os homens concebem de
nosso sexo, sobre que fun amento baseiam suas opi-
nioes e quais são para nós eles os efeitos do tratamen-
to, que f ofëëbfdo, em conseqüência desta sua opi-
nião. Examinarei de passagem no curso deste pequeno
livro, se há alguma diferença essencial entre os sexos
que possa justificar o imprio que os homens arrogam
so&re n6, quais são as causas e como se deve explicar
a diferença aparente, que forma sua pretensão.
Se, depois de um exame judicioso, não aparecer
outra diferença entre nós e eles maisqç a que sua
tirania tem imaginado, ver-se-á o quanto eles são in-
justos', recusando-nospçIer, apogativa a que
temos tanto direitõomo eles; quanto são poucõgône-
rosos disputando-nos a igualdade de estima, que nos é
devida " - pouca razãoq eimdëriunfar sobre o
fundamento da posse em que estão de uma autoridade,
quca violência eáüsurpação têm depositado em suas
mãos.

8. Daí, a segunda parte do título de seu livro: "... e_Injustiça


dos Homens". À medida que a autora prova os direitos que i mu-
lheres têm às diversas instânciaa da vida social, política e cultural,
ela enfatiza o caráter injusto dos homens em negar estes direitos.

32 33
T1
'
fl CAPÍTULO 1
Qct CASO OS HolExs FA AS MI- LITERES, 1
E SE E. ' COM J1 :A. QUE CASO OS HOMENS FAZEM DAS
- c
MULHERES, E SE É COM JUSTIÇA
SE cada homem, em particular, fosse obriga
doa declararo que sente a respeito de nosso sexo,
nós ence,ntrariamos todas de accordo em (liser,
Se cada homem, em particular, fosse obrigado a
que nós nascemos para seu uso, que iuio somos
proprias senão para procrear 1 e nutrir nosso. ti- declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encon-
lhos na infancia, reger uma casa, servir, obe- traríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos
decer, e apraser a nossos anos isto é ,a dllc,
, para seu uso, que nao somos proprias senao para pro-
hometus; tudo isto é adniiiavel, e mesmo um criar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa,
Musulmano não poderá avançar à mais n in sçvr, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a
de Uffl serralho de escravas. Entretan u a
eles homens. 'Ïiid6 isto é admirável e mesmo um mu-
posso considerar este raciocinio senão ci o grau-
djs palavras, e expressões ridiculas, erpola- çulmano não poderá avançar mais no meio de um ser-
s, que é mais facil diser, do que provar. Os ralho de escravas. Entretanto eu não posso considerar
homens parecem concluir 1 que todas as outras este raciocínio senão como grandes palavras, expressões
criaturas forão formadas para eJjes, ao iaiesmce ridículas e empoladas, que é mais fácil dizer do que
tempo, que dies não foro criados senão quar- provar. O s homens as ou-
do-tudo se achava disposto i' seu uso. Eu no
tras criaturas foram formadas para eles, ao mesmo tem-
me proporia a iser ver a futilidade deste 'racio-
cinio; mas concedezdo, que elie tei alguma po em que eles não foram criados senão quando tudo
ponderação, ou certa, que anta ovará,j isto se achava disposto para seu uso. Eu não me pro-
'ue os bomeu4oro criados para Qfl o so poria a fazer ver a ljda deste raciocínio; mas con-
o que ns para o deiles. • cedendo que ele tenha alguma ponderação, estou certa
'verdadc que oen 1m ego e *utri asçriart- que antes provará que os homens foram criados para o
e '*2 nosso uso do que nós para o deles.
. .I_.. - verdade que o emprego de nutrir as crianças
nos pertence, assim como a eles unicamente pertence o

o(J,4Lrze e-
r. -
t{ y-1JIIJj

se este último lhes dá algum direito à esti- de estima pública. Ora, as mulheres, encarregando-se
ma é respeito públicos, o primeiro nos deve merecer enerosamente e sem interesse, do cuidado de educar
uma porção igual, pois que o concurso imediato dos os homens na sua infância, são as que mais contribuem
dois sexos é tão essencialmente necessário à propagação para esta vantagem, logo são elas que merecem um
da espécie hijn, que um será absolutamente inútil maior grau de estima e respeito públicos. Partindo deste
sem ooutro. - princípio é que se olham os príncipes como as primei-
Que direito pois têm eles de nos desprezar e pre- ras pessoas do Estado. Nesta qualidade, ou grau de ele-
tender uma superioridade sobre nós, por um exercício vação, se lhes conferem as principais honras; porque
que eles partilham igualmente conosco? Todos sabem, supõe-se ao menos que eles se sobrecarregam de gran-
néuii se pode negar, que os homens olham com despre- des cuidados, vigílias e inquietações, que exige a pros-
zo para o emprego de criar filhos e que é isto, às suas peridade do bem público. Da mesma sorte tributamos
vistas, urja função baixa e desprezível; mas se consul- mais ou menos respeito àquelas pessoas que estão abai-
tassem a Nature nesta parte, sentiriam sem que fosse xo deles e que mais se lhes aproximam, porque as olha-
JpfêcisÕ&er-1hes, que não há no Estado Social um em- mos como pessoas mais úteis à sociedade, segundo
prego que mereça mais honra, onfiança e recompensa. partilham mais, ou menos, as fadigas do serviço pú-
Basta atender às vantagens que resultam ao gênero hu- blico. É pela mesma razão que preferimos os Militares
mano para convir-se nisto; eu não sei se até por esta aos Literatos; porque os olhamos como um baluarte
razão unicamente, as mulheres não mereciam o primei- entre nós e nossos inimigos. Todos concordam em res-
ro lugar na sociedadecivilT peitar as pessoas à proporção de sua utilidade; eis pois
Qual foi o fim para que os homens se reuniram a medida de seu merecimento. Ora, sendo esta regra
em sociedade, senão para terem suas vidas mais seguras aplicável a todas as circunstâncias da vida, por que não
e pacificamente gozarem tudo que lhes apraz? devem ter as mulheres, mais que todos, direito à estima
Todos aqiiélés, pois, que mais contribuem a esta pública, contribuindo mais, sem comparação, a seu
vantagem pública, devem por isso obter maior porção bem-estar? '
1. A autora apóia-se, em sua argumentação, na doutrina Utili-
Os homens podem absolutamente passar sem Prín-
tarista, uma tendência do pensamento ético, político e econ6mico cipes, Generais, Soldados e Jurisconsultos, como anti-
inglês, dos séculos XVIII e XIX. Esta doutrina vê no útil (e na gamente, e ainda hoje passam os Selvagens; mas podem
utilidade) o valor supremo da vida. A coincidência entre a utilidade
passar sem amas na sua infância? E se por si são in-
individual com a social foi um dos principais temas do Utilitarismo.
Aqui e em vários momentos que se seguem, a autora quer provar capazes de exercer este importante emprego, não pre-
que as mulheres so mais úteis que os homens e deduzir daí sua
maior importância no contexto social. 2. No original: bem-ser.

36 37
cisam indispensavelmente das mulheres? Em um Esta- civil, se reduz a maus tratamentos e a um desprezo re-
do tranqüilo e bem regido, a maior parte dos homens preensível para com o nosso sexo em geral. Tais são os
são inúteis em seus ofícios e inútil toda sua autoridade, generosos ofícios que lhes prestamos; tal é a ingratidão
mas as mulheres não deixarão jamais de ser necessárias com que nos recompensam.
enquanto existirem homens e estes tiverem filhos. Sem dúvida é preciso que os homens tenham a
Para que servem os Juízes, os Magistrados e os imaginação bem corrompida para olharem um exercí-
Oficiais, que lhes são subordinados para administração cio tão importante, como baixo e desprezível e para lhe
da Justiça, senão para garantir a segurança e proprie- recusar toda estima que na realidade merece. Com que
dade dos bens daqueles, que, se não fosse proibido, liberalidade não se recompensa aquele que consegue
seriam capazes de fazer justiça a si mesmos mais exata domesticar um Tigre, um Elefante e outros semelhan-
e prontamente? Porém as mulheres, mais verdadeira- tes animais? E as mulheres, que passam seus belos anos
mente úteis, se ocupam em lhes conservar a vida para ocupadas em amansar o homem, este animal ainda
gozarem desta propriedade. Estimam-se e recompen- feroz, não serão pagas senão com desprezo?
sam-se os Soldados, porque combatem para defender Se nos remontarmos à origem desta injusta parcia-
os homens- feitos, que são tão capazes, e mesmo mais lidade, encontraremosque iiIca e verdadeira causa
que eles, de se defenderem. Com quanta maior razão do pouco reconheciment que se tem aos importantes
não merece o nosso sexo essa estima e recompensa, tra- serviosque as mulheres prestam aos homens, é que
balhando para defender os homens numa idade em que eles são comuns e ordinários. Entretanto, seja qual for
não sabem o que são, não podem distinguir os amigos a recompensa, o prazer que a generosidade de nosso
dos inimigos, e nem têm outra defesa mais, que suas sexo acha em preencher este ofício, basta para que nós
lágrimas? o desempenhemos com toda ternura e sem vistas de in-
Se os Príncipes e os Ministros, se sacrificam al- teresse. Eu não pretendo queixar-me de não recebermos
gumas vezes pelo bem público, a ambição é o único recompensa: seja-me somente permitido dizer, que por
móvel, é para adquirir poder, riquezas e esplendor, que sermos mais capazes que os homens em desempenhar
eles o fazem. Porém nossas almas mais generosas não este cargo, não se segue que não possamos também
atendem senão ao bem das crianças, que nutrimos e desempenhar outro qualquer.
educamos, pois que todos os dias experimentamos que a Na verdade os homens parecem aprovar isto taci-
recompensa que temos a esperar dessas criaturas des- tamente; mas com o seu desinteresse ordinário, preten-
naturadas, pelos trabalhos, cuidados, inquietações e in- dem restringir todos os outros talentos nossos na órbita
finitos embaraços, que nos causam e de que não se singular da obediência, da servidão e da ocupação de
acha exemplo em todos os outros estados da sociedade satisfazer a nossos amos. Eles têm como uma razão ge-

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ralmente aprovada o serem nossos amos; mas por que sentirão nisto, convindo mesmo que os homens se per-
títulos? Eis uma pergunta a que não podem responder. suadam, que é por uma pura obediência que nós con-
Entretanto, este sentimento é tão comum entre eles, que descendemos com as suas vontades. Se escolherem o
todos desde o Príncipe até o Súdito, se acham possuí- último partido, nós lhes deixaremos a inocente liber-
dos dele. Já fui testemunha da cena divertida de um dade de se sentirem senhores, enquanto que nos encan-
homem de baixa condição, pondo um sinal na testa da tamos de ver tanta autoridade do lado da razão, que é
mulher para lhe fazer ver, unicamente, dizia ele, que a sua verdadeira base, reconheceremos que ambos os
era seu senhor. sexos têm direito de se regerem reciprocamente e alter- ,
Este argumento posto que de mau exemplo e in- nativamente; porque se os homens têm bastante conhe- -.
digno de um homem virtuoso, é talvez o melhor e mais cimento para regular as ordens que derem às mulheres ? Pif
forte que o seu sexo pode produzir em seu favor. Seja sobre os preceitos da razão, também o terão para ceder
como for, ou a Natureza os tenha destinado a ser nossos a esëiiesmos preceitos quando forem impostos pelas
senhores, ou não; ou suas ordens sejam ditadas ou não mulheres, sem que importe por que boca a razão se faça
pela razão, nós acharíamos o jugo da obediência doce conhecer.
e suave, pois que obedecendo, não teríamos mais que 4 Se os homens concordam que a razão se serve
submeter nossa vontade à razão, e obraríamos como tanto deles, como de nós, está claro que ela regerá
seres inteligentes, tais quais nos conhecemos. Eis o que igualmente tanto uns como a outros; mas o caso é bem
as mulheres estariam mais dispostas a fazer do que os diferente. Os homens não podendo negar que nós so-
homens em iguais circunstâncias, e que ninguém pode 'ç mos criaturas- racionais, querem provar-nos a sua
duvidar. Mas isto equivalia a nos colocarmos ao nível nião absurda, e os tratamentos injustos que recebemos,
dos brutos, se cumpríssemos todas as suas vontades por urna condescendência cega às suas vontades; eu
indistintamente; pois que só isto nos tornaria tão des- espero, entretanto, que as mulheres de bom senso se
prezíveis como esssières injustos e extravagantes, que empenharão em fazer conhecer que elas merecem um
nos governassem. melhor tratamento e não se submeterão servilmente a -, r
Amos ou não, eles não têm mais que dois partidos um orgulho taotão mal fundado. Se não e suficiente ter
a seguir para exercer sua imaginária autoridade: ou de algumas atenções para com esses entes orgulhosos, é
continuar a regular suas ordens segundo suas paixões, muito pouco ter com eles mais condescendência, do que
sem escutar a razão; e então só as mulheres desarra- temos pelas crianças; conservando-se uma certa decên-
zoadas lhes obedecerão, porque as sensatas não lhes cia, e preciso servi-los absolutamente.
darão esta prerrogativa; ou de fazer falar a razão por Que personagens singulares! Não são eles bem
sua boca, e então todas as mulheres de bom senso con- dignos de tão alta preeminência! Exigir uma servidão

40 41
a que eles mesmos não têm coragem de se submeter, de porém, desgraçadamente, seria necessário estudar-se
um sexo fëüa vaidade qualifica com o título de - toda vida para descobrir um meio de contentar essas
vasos frágeis -, e querer que lhes sirvamos de ludí- grandes crianças, mais obstinadas que as outras.
a quem eles são obrigados a fazer a corte e Eu tenho ouvido dizer, e é um rifão antigo, que
atrjtem
brio,nós, seus laços com as submissões as mais humi- "o diabo é bom quando está satisfeito". Se este rifão é,
lhantes! Têm por ventura eles alguns títulos para jus- como os outros, fundado sobre a experiência, prova
QC,.j o direito com que reclamam os nossos serviços, que o diabo pode algumas vezes estar satisfeito: eu que-

I que nós igualmente não tenhamos contra eles? Têm um


protesto tão plausível para dominar sobre nós, como
Lsobre aqueles Selvagens, que sua inocente segurança
reria que isto se pudesse aplicar também aos homens.
Porém, tal é a constituição extravagante de sua nature-
za,e quanto mais se procura agradá-los, tanto menos
tem privado do poder de se oporem a suas violências se consegue; ou, se por acaso, se tira algum proveito,
e injustiças? Entretanto a maior parte de nosso sexo, nunca é equivalente aos seus cuidados. Certamente o
assaz frágil para se deixar vencer pela piedade, por suas Céu criou as mulheres para um melhor fim, que para
carícias e por seu desespero afetado, não tem encontra- trabalhar em vão toda suadiTã1Vee me objetará
do o despojo de sua dissimulação, o engano de sua ino- que não é trabalhar inutilmente, uma vez que com isto
cência e de seu bom coração? Quantas mulheres há, não fazem mais que preencher o seu tempo; que não
que depois de haverem confiado a sua liberdade a um tendo sido criadas senão para escravas dos homens, ac5$
esposo, encontram bem cedo o cordeiro transformado nossa única obrigação é lhes ser submissas elhes apra-
em Tigre, e então se acham no caso de invejar a sorte zer; que quando desprezamos outra qualquer coisa, não
de um escravo sujeito a um tirano sem piedade? somos nisso responsáveis, pois que Deus não nos ou-
&joiçado corpo, em que reconhecemos sua torgou outros talentos. Mas, como já tenho dito, e farei
preeminência, é um pifexto suficiente para nos calcar ver mais adiante, isto reduz-se a ter como certeza o que
aos pés, o Leão tem um direito bem fundado de preemi- ainda está em questão e supor o que deveria, porém
nência sobre eles e esta espécie de bruto é mais gene- que não pode ser provado. Entretanto, algumas pessoas
rosa que a dos homens. Ainda que um pouco mais feroz há, mais condescendentes e judiciosas, que convencem
e bravio, um Leão envergonha-se de empregar sua for- que muitas mulheres são dotadas de espírito e conduta;
/ ça quando há demasiadadëproporção entre ele e seu mas ainda assim dizem, que essas dentre nós, que são
( adversário. Na verdade, eu convenho que deveríamos mais recomendáveis por estes dois motivos, deixam es-
c- procurar satisfazê-los se houvesse alguma aparência de capar todavia alguma coisa de fraqueza do sexo. Dis-
nos resultar proveito. Seria barbaridade deixar chorar curso desprezível e cediço, que por si mesmo se acha
um menino, podendo-se acalentá-lo com um brinquedo, destruído, e cuja extrema fraqueza parece condená-lo

42 43
a um eterno esquecimento! Mas um engenhoso autor,
não tendo coisa melhor a escrever, julgou interessante
fazê-lo reviver em um dos seus escritos semanários, a
fim de que este século não ignorasse que nos séculos CAPÍTULO II
precedentes houve insensatos entre os homens. Para
nos dar um exemplo da sabedoria de seu sexo, ele nos SE AS MULHERES SÃO INFERIORES OU
diz que os mais prudentes dentre eles têm julgado não NÃO AOS HOMENS, QUANTO AO
ser preciso conceder às mulheres as doçuras da liber- ENTENDIMENTÕ
dade, mas sim conservá-las toda sua vida em um estado
de subordinação e dependência absoluta dos homens.
A razão, que ele produz para sustentar esta tese tão Em primeiro lugar, dizem eles, a maior parte do
extravagante, é que nós não somos capazes de nos go- nosso sexo tem bons intervalos, não há dúvida, mas são
vernar a nós mesmas. de pouca duração; são relâmpagos passageiros de ra-
Se não são precisas, para sustentar uma asserção zão, que desvanecem-se rapidamente; somos semelhan-
tão árdua, outras provas que a simples palavra de quem tes à Lua, que obstante por si mesma, não brilha senão
a propôs, basta ele pertencer ao sexo interessado para por uma luz emprestada; não temos mais que um falso
ser suspeito tudo quanto avança desta natureza; entre- resplendor mais próprio a surpreender a admiração do
1!
tanto como a este respeito somos tão suspeitas como que a merecê-la; nós somos inimigas da reflexão; a
eles, nenhum proveito temos em negar o fato, salvo que maior parte de nós não pensa senão por acaso, ou por
é importante para os sexos a necessidade de o provar. arrebatamento, e não falta senão por uma rotina. Eis
Sem dúvida, pessoas de uma sabedoria tão consumada, as graves acusações intentadas contra a maior parte das
se nós quiséssemos acreditá-las sob sua palavra, não mulheres; mas concedendo-se de barato, que fosse ver-
teriam a afoiteza de avançar uma coisa com tanto des- dadeiro o que eles objetam, não é incontestável que os
caramento, se não pudessem sustentá-la com as provas mesmos argumentos podem reverter-se contra a princi-
mais sóIidàe convincentes. pal parte dos homens? Entretanto, se quiséssemos con-
Vejamos, pois, sobre que fundamentos eles ba- cluir da mesma maneira, que é preciso conservá-los-
seiam as idéias extravagantes que fazem do nosso sexo perpetuamente debaixo da nossa guarda, não triunfa-
e em que fazem consistir a verdade e a razão, para qiie riam eles e não julgariam este raciocínio como uma
possamos abraçar ou rejeitar sua opinião, com conhe- prova da fraqueza de nosso espírito? - -

cimento de causa. Qualquer experiência basta para mostrar que so-


mos mais capazes de ter inspeção sobre os homens, do

44 45
7
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1 1 i­
-
que eles sobre nós. Confiam-se as donzelas ao cuidado perfeito em um como em outro sexo, então deve-se su-
de uma mãe de família e elas ficam logo senhoras de por os homens invejosos e pode-se dizer, sem temeri-
uma casa, em idade em que os homens apenas se acham dade, que a única razão porque nos fecham o caminho
em estado de ouvir os preceitos de um mestre. às ciências é temerem que nós as levemos a maior per-
O único meio de arrancar um jovem da libertina- feição que eles. Todos sabem que a diferença dos sexos
gem e torná-lo à sociedade, é dar-lhe por guarda uma só é relativa ao corpo e não existe mais que nas partes
mulher capaz de reformá-lo com seu exemplo, moderar propagadoras da espécie humana; porém, a alma que
suas paixões pela prudência e desviá-lo de seus exces- não concorre senão por sua união com o corpo, obra
sos por maneiras mais ativas. Os homens estão bem em tudo da mesma maneira sem atenção ao sexo. Ne-
longe de provar o princípio com a prática; pois que nhuma diferença existe entre a alma de um tolo e de
pelo contrário, quando há alguma questão sobre seus um homem de espírito, ou-de-um ignorante e de um
interesses, quando sua prudência consumada não basta sábio, ou a de um menino de quatro anos e um homem
para domar os mais debochados dentre eles, todo seu de quarenta. Ora, como esta diferença não é maior
recurso é submetê-los à nossa tutela. Assim pois os seus entre as almas dos homens e das mulheres, não se pode
raciocínios se acham em contradição com a sua prática. dizer que o corpo constitui alguma diferença real nas
(
Porém é o temor de nos tornar vaidosas, que os obriga almas. Toda sua diferença, pois, vem da educação, do
a sustentar que não ternos solidez, nem constância, e exercício e da impressão dos objetos externÓque nos
que estamos bem longe de ter a profundeza de juízo cercam nas diversas circunstâncias da vida.
que eles modestamente atribuem a si. Donde concluem
O Criador observa a mesma ordem ao unir as
com tanta sabedoria, que tem sido necessário que a
Providência Divina e seu senso superior concorram almas das mulheres e dos homens a seus corpos respec-
igualmente j5ãiã nos apartardas ciências, governos e tivos. Os mesmos sentimentos, as mesmas paixões, as
cargos públicos. É por uma indagação exata e sem pre- mesmas proporções firmam esta união em uns e outros;
juízo que se pode ver se este argumento tem alguma e a alma obrando da mesma maneira, em ambos os
solidez. sexos, é por conseqüência capaz das mesmas funções.
Para reconhecer, pois, se as mulheres são menos Para tornar este raciocínio mais convincente não
capazes que os homens para as ciências, é preciso aten- é preciso mais que examinar a estrutura da cabeça, a
der qual é o princípio que conduz a este conhecimento; sede das ciências e a parte onde a alma se faz melhor
se ele não existe nas mulheres, ou se existe num grau perceber. Todas as indagações da anatomia não têm
menos perfeito, não se faz necessário mais provas para ainda podido descobrir a menor diferença nesta parte
demonstrar que os homens têm razão. Porém, se ele é entre os homens e as mulheres: nosso cérebro é perfei-

47
j
tamente semelhante ao deles;' nós recebemos as impres- nisto todo mundo convém; por conseqüência, se nós
sões dos sentidos como eles; formamos e conservamos gozamos as mesmas facilidades e se nos permite, como
as idéias pela imaginação e memória, da mesma manei- a eles, entregar-nos ao estudo, não se pode duvidar que
ra que eles; temos os mesmos órgãos e os aplicamos aos nós avançássemos pelo menos em igual passo, nas ciên-
mesmos usos que eles; ouvimos pelos ouvidos, vemos cias e em todos os conhecimentos úteis.
pelos olhos e gostamos do prazer também como eles. Não pode ser, portanto, senão uma inveja baixa e
Enfim, não se pode imaginar a diferença entre nossos indigna, que os induz a privar das vantagens a que
órgãos e os deles, salvo que os nossos são muito mais temos de um direito tão natural, como eles. O pretexto
delicados e, por conseqüência, mais próprios a corres- que eles alegam é que o estudo e as ciências nos tor-
ponder às intenções para que foram formados.' nariam altivas e viciosas; mas este pretexto é tão des-
prezível e extravaganteè bem digno do seu modo de
Observa-se geralmente, mesmo entre os homens,
obrar. Não, só o falso saber e os conhecimentos super-
que os mais grosseiros e mais pesados são de ordinário ficiais são os que produzem tão mau efeito; porque o
estúpidos e que, ao contrário, os mais delicados são os verdadeiro e sólido conhecimento não pode tornar as
mais espirituosos. A razão é óbvia: a alma encerrada mulheres, assim como os homens, senão mais submis-
no corpo tem precisão de seus órgãos em todas as suas sasinais virtuosas. Ë preciso confessar que se um
operações; por conseguinte, está mais ou menos em conhecimento superficial tem tornado vaidosas algumas
liberdade de exercer suas funções, conforme seus ór- mulheres, tem igualmente feito insuportáveis muitos
gãos sejam mais livres ou mais embaraçados. Ora, não homens; mas isto não é razão para se recusar o sólido
é preciso muito trabalho para provar que nossos órgãos saber nem a uns, nem a outros. Deve-se pois procurar
são muito mais finos e delicados que os dos homens: com todo empenho aperfeiçoar as disposições que se
lhes conhece para as ciências, fazer conceber o gosto
1. Desde o início do século XIX há notícias de "experiências
científicas" que visavam "provar" a superioridade do homem bran-
para elas e ensinar-se-lhes a fundo; é preciso seguir a
co sobre a mulher, bem como sobre o negro e o índio. Apesar de opinião de um dos melhores autores, que é aplicável a
lançarem mão de verdadeiras fraudes científicas, ao final do século todas as ciências, também como à poesia.
tais experiências eram consideradas por muitos como absolutamente
corretas, reforçando a "superioridade" de sexo e a racial. Nísia Flo-
resta, já em 1832, antecipa-se a estas conclusões, ao pregar a mesma "Pouco vale sábio ser, sem ser profundo;
capacidade intelectual para mulheres e homens. Ou as letras deixai, ou ir-lhe ao fundo:
2. A autora transforma habilmente cada "desvantagem" femini- Não vos levem vontades caprichosas
na em "vantagem" diante do homem, operando uma inversão muito
interessante nas idéias, de forma a adequá-las à sua argumentação. De Hypocrene às margens perigosas; 5ç
'o'
1
48 49
Q
Seus vapores sutis toldam a mente, Além de que, a raridade desta vantagem em nosso
Cobre a razão quem bebe na corrente." sexo eas dificuldades que essas mulheres tênfih
Pope, Ensaio sobre a crítica' trado a vencer para alcançá-la, fazem a apologia da
vaidade, que elas ajuntam ao seu mérito. Acontece-lhes
Julga-se, comumente, que os homens não precisam o mesmo que a um homem de não-nada 4 , que seu mé-
de conhecimento para serernyiriosos; este prejuízo só rito e indústria têm elevado a uma dignidade muito
pode- _nãsè_è—r—i1è-- í~éssoas, cujo espírito e conduta não é acima da esfera de seus iguais: sobem-lhe à cabeça al-
regular; tem-se concluído fa1sanente, que as ciências gumas fumaradas; além de que, se isto uma falta,
são não só inúteis para a virtude, mas até prejudiciais. como não se pode duvidar, é falta em que laboram os
, Entretanto, não será difícil provar que o conhecimento homens todos os dias. Concedendo-se que os homens,
de_ nóís e de outras muitas coisas é absoluta- ou as mulheres, se tornem culpáveis, não se deve fazer
mente necessário para aumentar-nos a persuasão de recair a culpa sobre as ciências, que [a isto] deram
nossas obrigações morais. Com efeito, apinçipa1 razão lugar. "-
. c-
que se apresenta de que tantas pessoas se deixam arras- A verdadeira causa deste defeito vem de que aque-
ta TOWcIOe pelo desleixo. com tanta precipitação, les que são versados em qualquer ciência se reputam
ou de que praticam a virtude com tanta indolência, é possuidores de uma coisa, que é um mistério para a
porque não sé conhecem bem a si mesmos, nem aos maior parte do mundo. Mas seja como for, é mais pro-
objetÕ qüé õï tocam. Ora, como pretender que eles vável que a vaidade dos homens sábios exceda a das
dissipem esta ignorância, senão pelo estudo e ciências? mulheres sábias, como é fácil ver-se pelos títulos faus-
Se tem havido algumas pessoas de nosso sexo tão des- tosos que arrogam a si. Se se admitisse às mulheres uma
lumbradas de seu saber, que se possuem de vaidade, partilha igual das ciências e das vantagens que trazem,
esta falta em si mesma é desculpável; é porque para ou que delas derivam, elas seriam menos sujeitas à
aprenderem a ser humildes, não beberam no rio corren- vaidade que esses conhecimentos costumam ocasionar.
te da sabedoria, e só se demoraram em sua superfície. Ë um grande absurdo pretender que as ciências
são inúteis às mulheres, pela razão de que elas são ex-
3. Alexander Pope (1688-1744) - poeta inglês, escreveu di- cluídas dos cargos públicos, único fim a que os homem-
versos poemas satíricos em que ridicularizava a sociedade elegante
se aplicam. A virtude e a felicidadõ tão indis
de sua época. Publicou ensaios filosóficos sob a forma poética, como
Ensaio sobre o homem e Ensaio so/re a crítica. Este último foi tra- sáveis na vida privada, como na pública, e a ciência é
duzido para o português pelo Conde de Aguiar e publicado no Rio um meio necessário para se alcançar uma e outra.
de Janeiro, pela Imprensa Régia, em 1810. Talvez sejam desta tradu-
ção os versos acima citados. 4. Homem que veio do nada, o mesmo que "nonada".

51
abismo cava outro eosvícios sempre andam juntos,
- Ë por ela que se consegue a exatidão dopensa- eles não se satisfazem somente com a usurpação de
nento, apureza daeçprão, a justeza das ações; sem toda autoridade, têm mesmo a ousadia de sustentar que
( ela não se pode jamais ter um ela lhes pertence de direito, pois a Natureza nos formou
de si mesmo estado de distinguir para ser-lhes perpetuamente sujeitas, por falta de habi-
o bem doma!, o verdadeiro do falso; é ela que nos lidade necessária para partilhar com eles do governo e
tornaca az deré ular nossas paixões, niiandis cargos públicos. Para refutar este extravagante modo
que a verdadeira felicidade evirtude consiste em res- de pensar, será preciso destruir os fundamentos sobre
tringir nossos desejos, do que -e-m--aumentar o que pos- que está baseado.
suímos. Além disto, seja-me permitido notar o círculo
vicioso em que esse desprezível ipco de pensar tem
colocado os o perceberem. Por que a ciên-
cia iosjni'iti!? Porque somos excluídas dos cargos
públicos; e por que somos excluídas dos cargos públi-
cos? Porque não temos ciência.
Eles bem conhecem a injustiçaque nos fazem; e
este conhecimento os _ recurso ddiiíarçi a
reduz
má fé à custa de sua própria razão. Porém deixemos
ra1ha'ei a verdãde OF que se interessam tanto
em nos separar das ciências a iie temos tanto direito
como eles, senão pelo temor de que partilhemos com
' eles, ou mesmo os excedamos na administração dos car-
gos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente
desempenham?
O mesmo sórdido interesse que os instiga a inva-
dir todo poder e dignidades, os determina a privar-nos
denecihÏefiliïë nos tornaria suas competido-
ras. Como iNatureza parece haver destinado os ho-
mens aser nossos subalternos, eu lhes perdoaria volun-
tariamente a usurpação, pela qual nos têm tirado das
mãos o embaraço dos empregos públicos, se sua injus-
tiça ficasse satisfeita e parasse nisto, mas como um
53
52
CAPÍTULO III

SE OS HOMENS SÃO MAIS PRÓPRIOS QUE


AS MULHERES PARA GOVERNAR

Se fordes tão condizentes que acrediteis no que


dizem os homens, será preciso também conceder-lhes,
como uma coisa decidida, que as mulheres são criatu-
ras destituídas de bom senso e naturalmente incapazes
de se conduzir. Ë uma ternura cruel, dizem eles, é uma
condescendência mal-entendida abandonar o belo sexo
a sua própria conduta: tanto mais ele é formado para
aprazer e encantar, quanto mais importante é o desviá-
lo dos perigos a que essa vantagem o expõe. O que
prova bem que eles falam conforme o seu coração, é
nos supor to fracas para nos deixar privar da
nossa liberdade e de nossos legítimos direitos, por um
raciocínio tão frívolo quanto improcedente; mas que
prova têm eles apresentado, para convencer que não
seríamos tão capazes de nos preservarmos dos perigos,
como eles o são de nos guardar, se gozássemos das mes-
mas vantagens e poder? Além de que, estamos por ven-
tura mais seguras debaixo de sua direção, que da nossa
própria? Não será manifestamente cair de Sylla em

55
4
1
Carybde o recorrer à sua proteção contra os perigos? todas as vantagens necessárias para bem governarem;
Apenas achar-se-ia em um milhão, uma de capacidade mas se, apesar disto, passamos pior debaixo de seu go-
medíocre, que não quisesse ou pudesse governar-se me- verno que do nosso, a conseqüência é bem evidente: é
lhor que a maior parte dos homens em iguais circuns- porque falta-lhes ou capacidade natural, ou probidadè
tâncias, se a fraude, a triiição e a vil inveja desse sexo Se eles escolhessem destas duas imputações a que me-
não nos roubasse os meios; enquanto que, em lugar de lhor lhes conviesse, eu poderia então dizer, sem arris-
uma mulher, cujo entendimento e costumes se aperfei- car um juízo temerário, que ambas lhes são devidas.
çoam sem sua tutela, existem milhares que eles arrastam Se eles imaginam poder iludir a força destaédade,
a uma ruína inevitável. dizendo que os homens a quem toca esta acusação não
Isto é um fato incontestável; eu não preciso de têm feito uso das vantagens de seu sexo em geral e que
provas para o fortificar e nem temo que eles revertam assim ela não tem lugar senão para aqueles que as não
7 eãippbração contra nos; porque concedendo-se que
possuindo, enganam-se; isto não destrói de maneira
(um pequeno número de homens passe mal com o gover- alguma a verdade do que avancei, que a maior parte
/ no das mulheres, este número é demasiadamente pe- das mulheres se perde debaixo do seu governo, em vez
queno em comparação com os outros. Quando mesmo, de melhorar seu coração e aperfeiçoar seu espírito.
felizmente, houvesse igualdade, seria preciso lançar so- Portanto, já que não estamos mais seguras em sua
bre os homens a causa da má conduta das mulheres, guarda quê na nossa, não há razão de pretender que
pois que nos têm roubado as vantagens da educação, devamos ser-lhe s submissas. Mas parece que temos 'ido
que nos teriam posto em estado de obrar melhor, da condenadas por um Juiz de sua própria escolha, um
qual nós éramos tão capazes como eles e às quais tí- velho delirantë,muito aferrado a seu próprio pensar
nhamos um direito igual ao seu. para se deixar arrastar pelo de sua mulher. Catão, o
Não se podem empregar as mesmas razões para sábio-Catão', a queni a idade e os prejuízos não fize-
justificar o mau governo dos homens, pois eles têm ram mais que obstinar no erro, quis antes morrer mo
um furioso, segurído seus próprios ditames, que viver
1. De Cila em Caribde: na mitologia grega, Cila foi uma bela como homem sensato, pela advertência de sua mulher.
ninfa por quem Glauco se apaixona, mas que Circe, invejosa, trans-
forma em monstro marinho. Cila habita então uma caverna no
Estreito de Messina, em frente ao sorvedouro de Caribde e passa 2. Marco rcio Catão o Jovem (95-46 a.C.), bisneto de Ca-
a devorar os marinheiros que se aproximam de sua caverna. A difi- tão, o Antigo.Filósofo estóic' conservador inflexível, que conside-
culdade deles era então conseguir passar pelo Estreito, entre Cila rava os princípio-mais impo antes que os compromissos.
e Caribde, o que deu origem à expressão, usada quando alguém tem Nísia parece identificar nele o tal juiz "delirante", por suas idéias
que tomar um caminho entre dois males. Equivaleria a outra mais preconceituosas sobre amulher, muito divulgadas nos séculos passa-
nossa conhecida: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". dos. A autora discute com o filósofo, intercalando perguntas e argu-

56 57

ír79
JLQ
Esse Catão pronunciou a nossa sentença: é um Juiz tão bem que, sabendo-nos reprimir a nós mesmas, somos
desinteressado ue nãopodemos recusá-lo. Vejamos capazes de governar os outros. Além disso, a docilidade
pois o que disse esse Oráculo. "- Tratemos as mulhe- e ternura, que formam o nosso principal caráter, bas-
res como nossas iguais", diz ele, "e elas se tornarão logo tam para lhes persuadir de que nosso jugo não seria
nossas senhoras". Catão o disse, não preciso mais de pesado.
prova. Além disso, para obrigar os homens a provar - "Mas não", diz Catão, "devemos nos felicitar
com razão, seria reduzi -l o s ao silêncio; e o silêncio lhes dessa docilidade e reserva que mostram em nossa pre-
seria tão insuportável, como a nós ouvi-los falar. sença: esta sombra de virtude nasce da necessidade em -1
Mas suponhamos que Catão seja infalível em suas que as reduzimos de se contrafazerem". Eis aqui, pois, L
decisões, o que resulta daqui? Não têm as mulheres Catão confessando que a sujeição em que seu orgulhoso /
tanto direito de serem senhoras, como os homens? sexo nos tem não é mais que o efeito da violência e do
"Não", diz Catão. Mas por quê? Porque não têm argu- embuste. Ele assim disse para abonar e lisonjear o seu
mentos assaz convincentes que nos excite a curiosidade sexo, atribuindo-lhe todo o mérito.
de ouvi-los por muito tempo. Este cumprimento é bem coerente com a verdade
"- Se nós tornarmos as mulheres nossas iguais", desagradável que proferiu a seu pesar: é contra a sua
diz ele, "elas exigirão logo como tributo o que hoje re- vontade que ele reconhece em nós algum merecimento.
cebem como uma graça". Mas, qual é a graça que se Não, não temos senão sombra de virtude e não é mais
nos concede? A mesma a que temos pretensões tão jus- que a violência e o engano quem pode obrigar-nos a
tas, como elas? Não têm as mulheres tanto direito, contrafazer. Não é isto considerar seu sexo como uma
como os homens, às dignidades e ao poder? Se temos, multidão de loucos? Certamente não se poderia achar
o sábio Catão não o disse; e se não o temos ele devia maior prova da loucura dos homens que o emprego que
ter a condescendência de nos convencer. fazem da violência e do engano e a maneira porque se
• Porém, suponhamos que isto fosse uma graça como entregam a todos os trabalhos possíveis para as susten-
ele chama, os homens não tirariam a principal vanta- tar, sem outro fim mais do que fazer-nos obrar com
gem disto? A reserva particular ao nosso sexo prova dissimulação, quando muito pouco seria preciso para
nos fazer ver uma luz mais natural. É impossível gover-
mentos a cada citação que faz dele. Pode-se verificar a habilidade nar-se bem os súditos sem conhecer-se antes o que eles
de Nísia Floresta em se utilizar de trechos de Catão contra os pró- são na realidade, do que o que parecem ser.
prios homens, revertendo suas afirmações a favor da mulher. Em
outra obra, Opúsculo Humanitário, a autora também comenta tre- Ora, não se pode jamais supor que os homens
chos de Catão (Cf. Opúsculo Humanitário, p. 9; São Paulo: Ed. estejam neste caso, porque seus esforços tendem a
Cortez; Brasília: INEP, 1989). constranger as mulheres a viver em uma perpétua dis-
58 59
simulação. Logo, ou todos os homens são inteiramente zoaveimente, do que não admiramos agora em ler os
imbecis, segundo a confissão de Catão, ou este famoso seus adágios, todavia sempre pensaríamos e ram
oráculo é um ignorante e todos o devem reconhecer Lo~prios a atrair a admiração, do que a merecê-la.
como tal. Eu não me proporia a falar tanto quanto te- Tem-se tido grande cuidado em se nos transmitir
nho feito, se não estivesse convencida de que em geral somente as melhores de suas sentenças, das quais mui-
os homens são bastante fracos para se deixarem per- tas nos parecem assaz fracas; mas se houvesse o mesmo
suadir por tão maus semi-pensadores e mercadores de cuidado em conservar-se o registro de todas as suas im-
sentença. Se isto em particular valesse a pena, poder- pertinências, quanto não perderiam dos aplausos que
se-ia facilmente convencê-lo de ter errado grosseiramen- hoje se lhes tributa? Um incrédulo achando-se no Tem-
te em outras matérias, bem como nesta. pio de Netuno, o Sacerdote quis provar-lhe sua divin-
[ Portanto, quando ele chega a ter razão, é mister dade com os milagres, que aí se achavam pintados.
agradecer antes ao acaso, do que à sua própria sabedo- "- Ë verdade", diz o infiel, "que conservais os
ria, porque os maiores doidos algumas vezes tem razão quadros dos que se salvaram, mas onde estão os dos
no seu obrar; e os muito parladores devem necessaria- que morreram afogados?"
mente, entre mil absurdos, dizer também alguma coisa Mas nós nos ocupamos com inimigos muito mais
boa, inda mesmo que pensem menos. formidáveis, isto é, os homens, que pretendem apoiar
Tais são em geral as provas que se produz contra seus raciocínios sobre sólidos fundamentos e que se
nós. Os homens não querem se dar ao trabalho de pen- envergonhariam, dizem eles, de nos privar poder,
sar; olham a razão como muito inferior a si e querem das dignidades, se não tivessem em seu favor as melho-
antes prostituir, que segui Ia; eTés iêrn adquirido toda res razões.
Q(&r -

reputação por uma certa gentileza de expressão, cujo É preciso portanto ouvi-ias, antes de decidir se são
kL exame não é a justiça que sustenta, mas sim suas ca- ou não injustas.
beças, seus corações e seus rostos; eles quereriam antes,
pai me servir dos termos daquele Sábio, ver o bom
em confusão, do que uma palavra mal-arranjada
em seus discursos. Entretanto, há Sábios entre os ho-
mens cujas palavras são outros tantos oráculos divinos.
Mas se vivêssemos em seu tempo e os ouvíssemos dizer
mais absurdos, quç_coisas sensatas, os reputaríamos tão
&'
ignorantes, como os iludidos que os respeitam, e ainda,
que algumas vezes admirássemos de ouvi-los falar ra-

60 1 61
CAPITULO IV

SE AS MULHERES SÃO OU NÃO PRÓPRIAS


A PREENCHER OS CARGOS PÚBLICOS

Para que os homens creiam que uma coisa é bem


fundada, basta que a vejam estabelecida. Como nos
observam eii d jEiiütë suje e absolutamente de-
$ pendentes-dosJoiçnprivadas das vantagens das ciên-
cias e das ocasiões de fazer conhecer nossa capa Cidade
- '
para os cargos públicos, concluem daqui os homens (se-
guindo seu modo de raciocinar ordinário por verossi
milhanças) que devemos ser assim.
Mas ido
ne-
cessariamente, que isto deva ser assim? Deus tem sem-
pre encontrado mais u -meno—s resistência da parte dos
homens ingratos: não seria um absurdo concluir daqui,
que esta resistência seja justa? Mas por que se persua-
dem os homens que somos menos próprias que eles a
ocupar os empregos públicos? Podem por ventura dar
outra razão senão o costume e oprejuízo, que têm for-
mado por aparências e falta de um exame mais exato?
Se quisessem dar-se ao trabalho de remontar à origem
das coisas e julgar os
mens dos primeiros séculos, pelo que descobrem em si

63
mesmos, não se curvariam, como fazem, ao erro e
absurdo; porque, olhand as mulheres em particular, menos tão capazes como eles, de preencher aquelas
conheceriam que se temos sido sujeitas à sua autori- funções. É preciso pois convir que ver uma mulher,
dade, tem sicío somente pela lei do mais forte; e se seja qual for a sua capacidade, exercer algum desses
somos privadas do poder e privilégio, que põe seu sexo empregos no século presente, seria um objeto de tanto

fr acima do nosso, não é por falta de capacidade natural -


espanto- como se aparecesse alguém trajando agora as
e de merecimento, mas sim por falta de um igual espí- modas do tempo da Rainha Elizabeth. Entretanto, esta
rito de violência, de uma injustiça manifesta e de um adiiiirãÇaÕffi um e outro caso seria tão-somente o
opressão ilegítima, como a deles. efeito da novidade.
'

Todavia seu entendimento é tão fraco e seus ór- Se em tempos imemoriais os homens tivessem sido
gãos tão pouco dispostos a escutar a voz da razão, que menos invejosos e mais interessados em fazer justiça a
o costume os tem tornado escravos os mais decididos nossos ta erít os, deixando-nos o direito de partilhar
-

CINJ
de seuísànso, do que rião o somos por sua usurpação: com eles dos empre os públicos, estaritãüacostu-
estão tão acostumados a ver as coisas tais quais agora madõsem estamos em os
A
são, que não podem imaginá-las de outra maneira. Nada ver ejonrá-los, e uma mulher, oudãdosAdvo-
seria tão admirável para eles, que imaginar uma mu- gados, ou na Cadeira Magistral, não seria tão admirá-
lher combatendo à frente de um exército, dando leis vel coma iiiim Tzgave, languidamente rendido ao
sobre o trono, advogando causas, administrando justi- lado de--suáFâm—a—nteou um Lorde bordandoiii— vestido
ça em um Tribunal de magistratura, marchando pelas para su uler.Um Eclesiástico com uma tese na mão
ruas precedida de espadas, lança e outros sinais de au- explicando aNatureza em seus pontos mais inocentes
toridade como os Magistrados; ou ensinando Retórica, e úteis, seria um objeto t familiar como um Médico
Medicina, Filosofia, ou Teologia, na qualidade de pro- na stIãcarruagem aprendéïido de cor a arte deãr de
fessorïdeuiia Universidade. Se acaso eles descobris- Ovídio. Uma Amazona com o escudo na cabeça não
sem alguma coisa em sua natureza oposta às regras espantaria mais do que um capelista atrás do seu mos-
incontestáveis e simples do bom senso, creio que achar- trador comum dedal no dedo, ou um Par de Grã-Bre-
se-iam bem embaraçados para provar que não há nisto tanha brincando com a sua liga.
singularidade, ou que não se possa casar com a reta Não é a razão, mas sim o erroe a ignorância de-
razão; porque por um pouco que se considere as mu- generada em hábito, que faz com que essas criaturii 1/
lheres como criaturas racionais e se afaste por um mo- superficiais olhem estes objetos como extraordinários.
mento as desvantagens, que a sua usurpação injusta e Ajgjiterra é a ún ica nação que reconhece nas
tirânica tem lançado sobre elas, ver-se-á que são pelo mulheres todajIddaide para subir ao trono; ela tem
conhecido, por experiência reiterada, que um Reino é
64
65
mais feliz sendo governado por uma mulher do que por
uhfHbmem. Este efeito prova pois, claramente, o absur-
do -da opinião contrária. Quantas mulheres têm apare-
cido que merecem o primeiro lugar entre os Sábios e CAPITULO V
que são mais capazes de ensinar as ciências, do que
muitos que presentemente ocupam a maior parte das SE AS MULHERES SÃO NATURALMENTE
cadeiras das Universidades? O século presente mesmo CAPAZES DE ENSINAR AS CIÊNCIAS
tem - produzido tantas quantas apareceram nos séculos OU NÃO
passados, não obstante sua modéstia tê-las condenado
ao silêncio; e como pode-se dizer que o nosso sexo apli-
cando-se às ciêhëTs excede muito aos homens, deve-se Quanto à Retórica, é preciso convir que nós somos
por esta razão estimá-lo mais do que a eles, pois que os seus modelos e mestres avaliados.' uQncia
para chegarem a esse conhecimento, precisam calcar um
aos pés a moleza em que são criadas, renunciar aos ninguem Elas estão emest4d
prazeres e à indolência a que um bárbaro costume as persuadir tudo queJbespraz: podem ditar, defender
tem condenado e vencer os obstáculos exteriores que e distinguir o justo do injusto sem o recurso das leis.
encontram em seu caminho, destruindo as idéias desfa- Não tem havido Juiz que não tenha experimentado que
voráveis, queQ comum dos sexos tem concebido do elas são os mais esclarecidos conselheiros, e poucos li-
saber das mulheres. tigantes que não saibam por experiência, que elas são
Ou seja que por estas dificuldades aumentam Juuito retos, cujo lento éomais-ilustrado.
alguma sutileza ao seu entendimento, ou que a Natu- Quando as mulheres tratam de ei ias se
reza lhes tenha dado um gênio mais vivo e penetrante dirigem dea_mani_t ão d elicada, queQLiiomens
que aos homens, o certo é que muitas os têm excedido são reconhecer que elas lhes fazem sentir
neste gênero. Com efeito, por que não seremos tão ca-
pazes como eles, de aprender e ensinar ao menos ao 1. Pe. Miguel do Sacramento Lopes Gama (1791-1852), reda-
tor de vários jornais em Recife e conhecido como crítico social dos
nosso sexo? mais agudos, ppyária vezes em um dos seu s j ornais - O Carapu-
ceiro - defendeu a habilidade feminina para a Retórica, bem como
para exercer outras atividades mais dignas de seus talentos. Vários
biógrãf6s [eNísia, a partir de informações de Sacramento Blake,
levantam a hipótese (muito provável) de que ela tenha conhecido e
travado amizade com Pe. Lopes Gama, até porque muitas de suas
idéias sobre as mulheres eram coincidentes.

66 67
o que dizem. Toda arte oratória das escolas não é capaz sinar as ciências; e se não nos vêem nas cadeiras das
de dar a um homem esta eloquênéiae facilidade de se
Universidades, não se pode dizer queseja--por--incap&
epar, que a nós --nadacusteo que sua bai x a in-
cidade, mas sim por efeito da violêçQm_queL
veja chama em nós uma superfluidade de palavras, nJ_.
é giPas oisa-maia. que jima prontão de idéias euma homens se sustentam nesses lugares em nosso_pre;uizz
facilidade de discursos, que eles não podemdqqjrir, ou pelo menos deve-se reconhecer nisto, qutei&mais
sen ão de um 1)enível. trabalho. modéstiaue e e meno ambi . Se quiséssemos
uanto baraço e perturbação não têm eles para aplicar-nos urisprudência faríamos tantos progres-
Q sos como o hmefi
fazerem entender seus pensamentos? Se dizem alguma
coii1ho • nsiios, rç4unda~ cá- Não se nos disputa o talento natural de explicar e
renhoncas não fazem, que destroemoouco bom que desenvolver os trabalhos os mais difíceis elicr
-
dizem? Quando pelo contrário uma miullï la, seu de bem estabelecer nossas pretensões e as dos outros ,
afé&dinariamente nobre e agradável,
e cheiodedig jdade,su a õe ecentes, seus termos
dóceis e insi n u ajj tes. seu e s tilo
gesso fácil

e persjasJvo,
J de des cobrir o fundo de uma dificuldade e de pôr em
prática todos os meios capazes de nos fazer obrar jus-
tiça: isto basta, creio, para provar que, se se questiona
sua voz _melodiosa e seu tom proporcionado aoobjeto. de satisfazer as funções de Advogado, Juiz, Magistra-
Ela pode sem vaidade elevar-se ao nível da inteli- do, nós apresentaríamos uma capacidade para esses
gência mais sublime e, com uma conplacência natural
à Ícaz sua figura,..chegar sem baixeza ao aI-
4 'iiios, de que bem poucos homens são susceptíveis.
Mas a paz e a justiça são nosso único estudo; toda nossa
canRlo espírito o mais-moderado. Qual é o objeto ambição se reduz a reparar os danos que esse sexo cor-
que tratar, sem ofender decência? rompido procura fazer-nos com tanto furor.
Quando falamos do bem e do mal, sibe-se muito bem Nosso sexo parç asci arae_praticar
qu&estamos em estado de cond-u— zi r a um e desviar do oar tos d e a lhes
a medicinaJa
outro os homens os mai s ÓBi`ffiÍÜados, por pouco que ~ssei r'a prontidãØ e o cuidadofazem a
conservar.
seus espíritos sejam susceptíveis de raciocinar e capa- ëiãddeiira; e por este motivo os homens nos
zes de seguir um argumento. Esse caráter de retidão deviam adorar. Na verdade nós lhes cedemos a nosso
que tem todo nosso exterior, quando falamos, faz nosso turno a arte de inventar os termos bárbaros, de emba-
poder de persuadir inda mais vitorioso. Certamente se raçar uma cura pelo número de remédios e de aumen-
temos uma eloqüência mais comunicável que a sua, nós tar a pena de uma moléstia com as despesasgçjhes
devemos ser, ao menos como eles, tão capazes de en- causam. Mas nós podemos imaginar e temos mesmo

69
(ú- CÁ-)
V I __

inventado, sem o recurso de Galeno e Hipócrates, 2 uma de nossa imaginação é finito ou infinito; se um átomo
infinidade de remédios para as moléstias, que nem os pode tornar-se em uma infinidade de partes, ou quando
melhores autores têm podido aperfeiçoar, nem desapro- uma coluna de ar, que corresponde do Céu até quase
var: e uma recTii—curandeira -, como eles cha- sobre a cabeça de um homem, parece menos pesada que
mam, tem quase sempre destruído tal moléstia invete- um fardo sobre os ombros. Se quiséssemos exprimir o
rada, que resiste obstinadamente a toda ciência de um que concebemos de Deus, não ousaríamos representá-lo
Colégio de Graduados. como um venerável ancião. Não, nós temos uma idéia
Em uma palavra: as observações que as mulheres muito nobre para o comparar a algum ente criado.
fazem em sua prática têmie achado tão exatas e apoia- Concebemos que deve haver um Deus, pois que
das sobre razões tão sólidas, que têm demonstrado mais sentimos que nem nós, nem os objetos que nos cercam,
de uma vez a inutilidade e pedantaria da maior parte podem ser obra do acaso, nem da nossa produção. Ade-
dos sistemas das Escolas. 'u duvido que o nosso sexo mais, considerando-se todosôs dias que o sucesso de
quisesse passar tantos anos tão inutilii3ièbe, como fazem nossas empresas não é o efeito natural dos meios de
esses homens que s& oo; se quisesse que nos servimos para alcançá-lo, estamos convencidas
4 plicar-se ao estudo da Natureza, estou persuadida que que a série de nossas ocupações não é a conseqüência
acharíamos um caminho mais breve para chegarmos a de nossa prudência; e assim concluímos que isto deve
4- .-sse fim. Não faríamos, como ceriõs homens, que em- ser o efeito de uma providência superior e geral.
anos inteiros e algumas vezes mesmo toda sua Jamais imaginaríamos raciocinar sobre nossas pró-
vida,a raciocinar sobre entes de razão e bagatelas ima- prias hipóteses quiméricas e de encher um volume para
ginarias, que só existem em seus proprios cérebros. responder às impossibilidades, como se poderíamos
Nós acharíamos meios de empregar utilmente lançar uma pedra até a visão beatífica etc.
nossas indagações antes, que de aprofundar o espírito Entretanto, poderíamos sem vaidade aspirar a ser
para descobrir se além da última circunferência do uni- tão bons Filósofos e Teólogos como os homens, e tal-
verso existe algum espaço imaginário e se este parto vez melhores, se é que compreendo bem a significação
destas palavras. Certamente os Filósofos e Teólogos
2. Galeno foi um médico grego que teria vivido 200 anos a.C.,
considerado pai da filosofia experimental.
(seguindo o verdadeiro sentido das palavras) são seres
J Hipócrates (460 ? - 377 ? a.C.) é considerado o pai da medicina profundamente versados nos segredos da Natureza e
moderna. Num tempo em que a superstição dominava, Hipócrates só mistérios da Religião. Isto posto, e conhecendo-se mais
acreditava em fatos. Aplicou a lógic.a razão nos seus estudos de que o principal fruto de todo saber, é bem discernir o
medicina. Novamente a autora faz referência à utilidade social das
mulheres, ao mesmo tempo em que considera inúteis muitas das ativi- verdadeiro do falso, a evidência da obscuridade, nós
dades ou preocupações masculinas. somos igualmente capazes de uma e de outra coisa.

70 - 71
F

Se quiséssemos ser Filósofas e Teólogas, nos pro- elas têm abraçado a religião e se conservam firmemen-
poríamos a formar idéias da Divindade e das revela- te ligadas, apesar de tantas desvantagens com que se
ções, tão justas, quanto a fraqueza da Natureza humana lhes representa - que elas teriam se ligado com mais
pode permitir, e seguiríamos a Natureza em todos os firmeza à verdadeira piedade, se lha tivessem feito co-
seus efeitos, remontando-nos à sua origem: mas como nhecer debaixo de um ponto de vista mais justo.
sabemos que o conhecimento de nós mesmas e dos obje- Quem poderá pois nos impedir de nos reger sobre
tos que nos cercam é absolutamente necessário para a fé e disciplina de Jesus Cristo e da Igreja? Se possuí-
tornar úteis os conhecimentos de que vimos de falar, mos os fundamentos da Filosofia e Teologia Escolásti-
em lugar de perder o tempo em bagatelas que ocupam ca, não seremos tão capazes, como os homens, no curso
o estudo da maior parte dos maus Filósofos, nos apli- de nossos estudos, de entender, conferir e interpretar as
caríamos a refletir sobre nós mesmas e sobre os'diver- Santas Escrituras, as obras dos Santos Padres e os Sa-
grados Cânones? Não poderemos tirar dos nossos espí-

p
sos objetos que nos cercam, a fim de descobrir que
relações ou diferenças eles tem conosco, e por que apli- ritos e corações as obras de piedade, pregar, refutar as
cações podem ser vantajosos, e corresponder ao fim inovações, conduzir-nos mesmas e aos outros, &S_Íruir
, .4 para que nos foram dados.--N~^-ao poderiamos pois por os escrúpulos mal fundados e decidir os casos de cons-
,J1'V J estë ÍÍÔiëi Filósofas tão sábias e Teólogas tão capa- ciência tão bem como os mais hábeis casuístas que te-
zes como os homens e em estado de aprender e mesmo mos? Eu digo mais, não há ciência, nem cargo público
de ensinar, pelo menos tanto quanto eles são? no Estado, que as mulheres não sejam naturalmente
A prática prova uficientemente que não somos própi a ptenchê-los tanto/ eomo os homens.
`menos boas Cristãs que eles; recebemos o Evangelho Ë portanto verdadeiro que, quanto à Teologia,
com respeito e humildade e nos submetemos à sua dou- Deus tem restringido nossos talentos naturais por uma
trina de uma maneira mais exemplar, mesmo, que a lei positiva.' Assim, nós não temos de reclamar o que
maior parte dos homens. Eu confesso que algumas pes- não poderíamos praticar, senão por uma intrusão sa-
soas de nosso sexo têm levado o culto religioso a uma crílega. Entretanto, pode-se observar de passagem que
espécie de superstição, mas o mesmo não se observa a proibição que nos fez nosso Divino Salvador, de exer-
em muitos homens? Entretanto, eles são muito mais cer algumas funções religiosas, não nos proíbe de ou-
culpáveis que elas, pois que ajporância em que têm
sido criadas faz cair toda cii1isobre eles, que lhes não 3. Nísia não se dá conta aqui, de que essa "lei positiva" que
impede as mulheres de preencher algumas funções da hierarquia
têm dado os meios de a evitar. Assim, se seu zelo tem eclesiástica, foi também feita pelos homens. Mesmo assim, quando
sido indiscreto, sua intenção tem sido boa e podemos aceita a restrição "divina", inverte o raciocínio usual e tira partido
assegurar com certeza - visto a facilidade com que para seu sexo.

72 73
IJ
/

tros ofícios públicos. Ela nem mesmo prova que seja- que não é absolutamente impossível que eles sejam ai-
mos indignas ou naturalmente incapazes de exercer gumas vezes justos, sem milagre. Na verdade, seria pre-
aqueles mesmos. Proibir-nos destas funções é concor- ciso recorrer a tantos países, como um judeu errante,
dar que nós poderíamos preenchê-las. Mas por que nos para achar nesse sexo invejoso e pouco generoso, alguns
proibiu Ele? Somente por uma presunção se poderá outros exemplos de uma semelhante eqüidade a nosso
penetrar. Entretanto, se é permitido raciocinar sobre respeito. Mas para encontrar muitas mulheres, cujo me-
os preceitos Divinos, nós poderíamos dar uma razão, recimento não cede ao daquela italiana, não é preciso
que seria em honra e não em desvantagem de nosso recorrer-se à antiguidade, nem mesmo fazer a despesa
sexo. Deus sabe incontestavelmente a inclinação geral de uma viagem a países estrangeiros. Nosso próprio
que os homens têm à impiedade e à irreligião, por con- século e nossa Pátria pode gabar-se de ter tido mais
seguinte não devia reservar as funções religiosas a esse de uma Safo, de uma CornéliáiiiWaiSTa
sexo para atrair ao menos uma parte dele aos deveres, Dacieres.4 Se eu quisesse escolher uma que ajunta em
para que têm urna oposição tão geral? Além disso, si só os diversos talentos de todos esses nomes ilustres,
nosso sexo tendo uriii inclinação natural a praticar a poderia citar uma Elizabeth, tão estimável pela alta
virtude e a religião, não era necessário ajuntar mais superioridade de seu gênio e de seu juízo e tão célebre
recursos féfifes à sua graça divina, para nos atrair pelo uso que lhes deu. Seus progressos nas ciências an-
a um caminho, para o qual nossos corações nos con- tigas e modernas em geral a têm elevado tanto acima
duzem. dos homens, que as mais excelentes virtudes juntas a
Se, pois, se destruísse o prejuízo e o costume,
4. Safo: poetisa grega, do séc. VI a.C., natural de Lesbos. Sua
nenhuma surprea...haveria em nos ver dar lições públi- 1 obra, da qual só restam fragmentos, teria sido composta de 9 livros.
cas de ciências em uma cadeira de Universidade, pois Cornélia: matrona romana do segundo século a.C. Tornou-se
que para trazer, entre mil, um exemplo, certa moça conhecida por sua renúncia a cargos públicos, para dedicar-se à
estrangeira, cujo mérito e capacidade extraordinária educação dos seus filhos.
Clara Wieck Schumann: pianista alemã, casada com Robert
têm obrigado a muito tempo uma Universidade da Itá Schumann. Era considerada - desde quando solteira - uma das
lia a se apartar, em seu favor, das regras da parciali- mais brilhantes pianistas de seu tempo e muito contribuiu para di-
dade, do costume e do prejuízo, para lhe conferir o vulgar a obra do marido. Era também compositora, mas suas com-
posições foram incluídas entre as dele, por isso hoje é pouco conhe-
grau de Doutor; é uma prova evidente dos grandes pro- cida. Só para se ter uma idéia dessa apropriação, no ano de seu
gressos que poderíamos fazer nas ciências, se se nos casamento, Robert Schmann aparecia com mais de cem novas
fizesse justiça.
Não é tanto para justificar meu sexo que cito este
3 composições. .
Ana Lefèvre Dacier (1651-1720): escritora francesa, helenista
e latinista, traduziu a luada e a Odisséia, de Homero. Foi casada
exemplo, e sim para favorecer os homens e fazer ver com o filólogo André Dacier (1651-1722).

74 75
seus profundos conhecimentos lhe têm atraído a estima eas dignidades, elas são igualmente capazes de reduzir
das mulheres; não é admirável que nos pertença a li- seu saber à prática no exercício de seu poder e digni-
berdade de fazer justiça a este mérito, sem temer os dades; pois que esta Nação tem mostrado, como aca-
reproches de parcialidade, pois que os homens mesmos bamos de dizer, muitos exemplos gloriosos de mulheres
são obrigados a admirá-la, a despeito de sua inveja. que têm todas as qualidades e requisitos para exercer
Entretanto, como sua excelência tem arrancado os jus- toda autoridade pública, reunidos em suas pessoas. Por
tos louvores da boca mesmo do prejuízo, eu me dispen- que, pois, o nosso sexo não será ao menos capaz de
sarei de a pintar, contente de ver que esse sexo lhe tem preencher os postos subordinados de Ministros de Es-
feito o mesmo também, como eu não poderia fazer; e tado, Vice-Rei, Governadores, Secretários, Conselhei-
é porque remeto os meus leitores ao que tem dito sobre ros privados e Tesoureiros? Ou por que não poderão
o caráter desta mulher o célebre Birch 5, na história das elas, sem ser admirável, ser Generais de Exército, ou
Obras dos Sábios. Este elogio é tanto menos suspeito Almirantes de Esquadra?
por ter sido tecido por um homem, e por um homem Porém isto é um ponto que vale bem a pena ser
que parece alardear de não ter mais que a eqüidade examinado separadamente.
precisa para louvar uma mulher acima de seu mérito.
Se a comparação que faz este homem sincero dos ta-
lentos de nosso sexo com os do seu, ofende a inveja
natural dos homens, eles o devem escusar e perdoar.
Devem-lhe pelo menos a obrigação de nos ter provado
com seu exemplo, que não é impossível encontrar-se
um homem capaz de sacudir o jugo da paixão e do
prejuízo, em favor da verdade e boa fé.
Nós podemos, pois, facilmente concluir que, se
nosso sexo, como se tem visto até o presente, tem todos
os talentos e requisitos para aprender e ensinar as ciên-
cias, que põem os homens em estado de possuir o poder

5. Thomas Birch (1705-1766): historiador e biógrafo inglês.


Autor de quase todas as biografias do General Dictionary, Histori-
cal and Critica! (1743-1745). Compilou ainda Memory o/ the reign
o! Queen Elisabeth (1754). Infelizmente não foi possível localizar
o livro citado.

76 1 77
CAPÍTULO VI

SE AS MULHERES SÃO NATURALMENTE


PRÓPRIAS, OU NÃO, PARA OS EMPREGOS

Eu não sei por que razão é mais admirável ver


uma mulher com a lança na mão, do que com uma
coroa sobre a cabeça; assistindo a um Conselho de
Guerra do que a um Conselho de Estado? Por que não
poderá ela aparecer na frente de um exército, assim
como presidir a um Parlamento, ou comandar sobre o
mar, assim como reinar sobre a terra? Quem poderia
impedi-Ia de tomar o governo de uma armada com tan-
ta firmeza e segurança, como o de uma Nação? Por
que não poderia exercitar os seus soldados, pôr as suas
tropas em ordem de batalha, dividir as suas forças em
batalhões e esquadrões na terra e no mar? A arte mili-
tar não tem mistérios particulares que as mulheres não
possam penetrar: uma mulher é tão capaz como um
homem de se instruir por meio de um mapa dos bons
e maus caminhos, dos rumos seguros ou perigosos e das
posições próprias para um acampamento. Quem poderá
impedi-Ia de se pôr a par de todos os estratagemas da
guerra; da maneira de bater o inimigo, de retirar, me-
ditar uma surpr&si formar emboscadas, fingir avança-
' falsos ataqueustentar os bons,
das e retiradas, dar

79
porém, e outras semelhantes, sendo puramente arbitrá-
animar os soldados e de ajuntar o exemplo à persuasão?
rias, e um puro cumprimento que eles fazem, não es-
A persuasão, a coragem e o exemplo são a alma da vi-
tabelecem a verdade: a exata verdade é que a huma-
tória. Ora, quando sua honra se interessa, as mulheres
nTãã doçura que formam o principal caráter de
fazem ver tanta intrepidez e valor, quanta é precisa
nosso sexo, nos fazem horrorizar pelos homicídios ile-
para atacar ou defender uma praça. Não se acha dife-
gítimos e preferir uma paz honrosa a uma guerra in-
rença real na constituição interna e externa dos homens
justa. Eis porque (para ligar as idéias exatas a estas
e das mulheres, senão pela parte dos membros desti-
expressões) seria preciso dizer que um homem que pos-
nados à geração. As diferenças que aí se encontram
sui nossas virtudes, é efeminado, para exaltar seu bom
não são suficientes para concluir que um sexo seja na-
natural e sua eqüidade; e que uma mulher, que se de-
turalmente mais forte que o outro e mais capaz de su-
grada do caráter de seu sexo para abraçar a injustiça e
portar as fadigas da guerra. Não há entre as mulheres
a crueldade da natureza dos homens, é um homem, isto
diferentes graus de força, assim como entre os homens?
é, uma criatura que os vínculos os mais sagrados não
Não se encontram fortes e fracos em ambos os sexos?
podem ligar à observação dos tratados justos; e que a
Os homens educados na ociosidade e moleza são mais
efusão do sangue não pode desviar da violência a mais
fracos que as mulheres; e estas, endurecidas pela ne-
cruel e injusta.
cessidade são freqüentemente mais fortes do que eles.
Diga-se pois o que quiser, a verdade é, como já
Basta ir a Chelsey para convencer-se que as mulheres
tenho observado, que a força só não dá aos homens
podem melhor acostumar-se às fadigas de uma campa-
alguma superioridade sobre nós; se isto assim fosse os
nha, e suportar todo o horror da guerra, do que os
brutos deveriam ter a preeminência sobre eles, e entre
homens os mais bravos.
aqueles, o mais forte deveria ser o mais elevado em
O que tem contribuído muito a confirmar nos
dignidade. Não só vemos claramente que em geral os
homens o prejuízo em que estão da fraqueza natural
mais fortes são próprios para servir aos outros, mas até
das mulheres, é o modo ordinário de falar, a que este
se observa, principalmente nos exércitos, que os mais
erro vulgar tem dado lugar. Quando se pretende expro-
robustos são sempre empregados em fazer as faxinas,
bar a um homem a falta de coragem, chama-se-lhe enquanto que os mais fracos sobem à brecha. De outra
"afeminado"; quando se pretende exaltar a coragem de
parte, observa-se que os homens mais fracos são quase
uma mulher, diz-se "é um homem".' Essas expressões,
to temos em português o trabalho de Eliane Vasconcelos Leitão,
1. Nísia Floresta surpreende ao leitor com a perspicácia de seu A mulher na língua do povo, publicado no Rio de Janeiro, em 1981;
raciocínio. Antecipando-se aos debates sobre a arbitrariedade do sig- uma pesquisa séria sobre o fenômeno do rebaixamento da mulher
no lingüístico corrente neste século, a autora avança no desvenda- a partir das formulações lingüísticas.
mento dos esquemas sexistas presentes na linguagem. Sobre o assun-
M
.
sempre as melhores cabeças. Os Filósofos os mais sá-
O temor é companheiro inseparável da virtude.
bios, os Poetas os mais célebres e os Príncipes os mais
As pessoas virtuosas são quase sempre tímidas; umas
prudentes não têm sempre sido dotados de uma cons-
mais, outras menos.
tituição física vigorosa.
A antipatia que elas têm a ofender e o conheci-
Henrique era muito menos forte que João Falstaff, mento dos vícios que reinam no meio dos homens, bas-
e Marlborough 2 teria talvez posto um exército em der-
tam para as fazer temer a menor aparência de perigo.
rota com mais facilidade do que em levar a punhadas E esta uma paixão natural a todo mundo. Os Príncipes
o último de seus soldados. E, pois, inútil insistir tanto temem a revolta dos seus vassalos, os Generais a sur -
sobre a força do corpo como uma qualidade exigida presa de seus inimigos; o homem mesmo, que toma a
para os empregos militares. espada para vingar um insulto, receia a vergonha que
Na verdade se nos acusa a todas, sem exceção, de resulta; ele teme o seu inimigo e a severidade das leis.
sermos covardes e incapazes de nos defender; de ter- Mas o temor é sempre muito maior quando se conhece
mos medo de nossa própria sombra, de nos atemori- que não se pode resistir e não se deve repreender se-
zarmos com os gritos de uma criança, aos latidos de um não aqueles que têm a força na mão para repelir os
cão, ao bruído do vento e a uma história de visão etc. males que os ameaçam.
Mas será isto universalmente verdadeiro? Não existem Um Jurisconsulto, que tem passado toda sua vida
homens faltos de coragem, como a mais fraca de nosso em folhear Coke e Litleton, 3 não pode ser tão injusta-
sexo? Além de que, não se sabe que as mulheres, as mente argüído de falta de coragem por ter recusado o
mais timoratas, têm necessariamente quase sempre vir- desafio que lhe faz um Oficial do Exército, como será
tude e sacrificam seus próprios temores à segurança de argüido de fraco um soldado que recusa arriscar sua
fortuna na quadrilha contra a mulher de um Lorde.
um marido, de um filho e de um irmão? Por muito fra-
A maneira por que as mulheres são educadas as auto-
cas e medrosas que elas sejam, sofrem quase sempre
riza a toda sorte de temor; não lhes é permitido fazer
mais corajosamente que os homens, as penas, a molés-
os exercícios que põem os homens em estado de atacar
tia, as prisões e mesmo os terrores da morte. e de se defender. Elas se acham sem socorro expostas
2. Sir John Falstaff é um personagem jovial e astuto que apa-
rece nas peças de Henry VI e The merry wives o/ Windsor, de 3. Thomas Coke: nobre inglês do final do século XVIII. Inven-
Shakespeare. Há ainda quatro óperas com este título, mas apenas tou um método de rotação de colheitas que ficou conhecido com o
uma é anterior a este livro: a de Saltieri, de 1798. nome de "sistema Norfolk".
Duque de Marlborough (1650-1722) foi um dos maiores generais Litleton: jurisconsulto inglês, do século XV. Seu tratado sobre as
ingleses, vencedor das campanhas da guerra da sucessão espanhola. enfiteusis é considerado como a base da legislação inglesa sobre a
propriedade.

83
Lo' '
i t'fL7 Lri/y,
própria para animar seu marido que fraquejava, a se- '
aos ultrajes de um sexo entregue aos transportes os guir seu exemplo: teria ela temor de subir a uma trin-
mais brutais, vítimas do desprezo de uma gente bárba- cheira? Uma mulher, que teve a coragem de arrancar
ra, que se vale algumas vezes contra elas de sua supe- o punhal de seu seio e apresentá-lo com firmeza a Pétus
rioridade de forças com mais raiva e crueldade, do que dizendo - fere, isto não faz mal -, não teria sido
exercem os brutos uns para com os outros. igualmente capaz de animar um exército, com a per-
Pode-se pois imputar o nosso medo à falta de co- suasão e exemplo, em defesa de seu país? Felicite-se a
ragem? Será isto um defeito? Não será antes um resul- França com a sua Donzela de Orleans 6 e glorifiquem-
tado de nosso bom senso e não seria uma loucura e se as outras nações de haverem produzido um grande
temeridade resistir a furiosos que não têm eqüidade número de mulheres guerreiras; nós não precisamos
para escutar a razão, não tendo nós o vigor necessário sair da Inglaterra para acharmos heroínas, cujas ações
para os repelir por meio das armas? Não se deve supor têm imortalizado seus ilustres nomes. A quem deve a
que todas as mulheres sejam faltas de força, coragem Inglaterra sua liberdade do jugo tirânico dos daneses?
e conduta necessária para guiar um exército à vitória e Mas para não lembrarmos muitos outros exemplos de
que os homens somente tenham estas qualidades. bravura em nosso sexo, contentamo-nos em citar Boadí-
Muitas mulheres são intrépidas como os homens; cia 7 que opôs aos Romanos em defesa da sua Pátria, a
e falando de mim, eu afrontaria mais facilmente, e com mais vigorosa resistência, que esse grande império ja-
menos repugnância, o furor de uma armada vitoriosa, mais viu.
a que teria valor de resistir, do que a solicitar a bene-
volência de um Ministro corrompido, que com razão eu
6. Donzela de Orleans: nome pelo qual ficou conhecida a he-
desprezaria. roína francesa Joana D'Arc (1412-1431), por ter vencido os ingleses
Que precisão temos de ir procurar na Cytia as no cerco de Orleans, em 1429. Símbolo de luta pela liberdade, inspi-
Amazonas' para provar a coragem das mulheres? Para rou muitos escritores, como Schiller, dramaturgo e poeta alemão,
autor da peça A donzela de Orleans.
que ir à Itália procurar em Camila um exemplo de vir-
7. Boadícia: mulher de Prasutagus, rei dos Icenos, na Grã-
tude guerreira? A mulher de Pétus se apunhalou a si Bretanha. Ao morrer, o rei deixa seus estados para Nero, com a
condição de que sua viúva o sucedesse no trono. O imperador aceita
4. Cítia: antiga região do norte do Mar Negro e a este do a herança, mas em vez de proteger a rainha, abandona-a, com suas
Mar Cáspio, povoada outrora pelos citas. A autora situa as Amazo- terras e riquezas, às violências dos generais e soldados romanos.
nas, mulheres guerreiras da mitologia greco-romana, nesta região. A nação, liderada por Boadícia, tenta resistir, mas termina venci-
5. Pétus: personagem romano do séc. 1 de nossa era. Conspirou da após uma batalha sangrenta que teria deixado mais de 50 mil
contra o imperador Cláudio e por isso foi condenado à morte. Ao mortos. Com a derrota, Boadícia toma um veneno e o oferece tam-
tentar se matar faltou-lhe ânimo para o ato, mas sua esposa - bém aos filhos, dizendo: "Beba, o veneno é menos cruel que a
Arria - tomou o punhal, feriu-se para dar o exemplo, e disse: tirania".
"Paete, non dolet". Só então ele teve coragem de se matar.
85
84
Se seus esforços não tiveram os mesmos efeitos uma tempestade lançam ao mar as cargas, que mais
que as proezas de Alexandre, de César, ou de Carlos impedem, e menos úteis ao navio, da mesma sorte é
da Suécia' em seus dias felizes, ao menos sua coragem muito justo que os homens sejam expostos aos perigos
e conduta tem sido digna de ser posta em paralelo com e desgostos da guerra, enquanto que nós ficamos em
eles, para não dizer que os excedeu em bravura, pru- segurança em nossas casas. .7_fAA_t .Y 'r('.ÁT4A-,
dência, e que suas intenções eram muito mais justas. Geralmente falando, eles não são próprios que a
Julgo, pois, ter provado de uma maneira evidente, serem nossos defensores e nossas ternuras são as mais
que não há ciência, empregos e dignidades, a que as belas recompensas que podem desejar ou merecer, os
mulheres não tenham tanto direito de pretender como mais bravos dentre eles, para os indenizar dos perigos
os homens; pois que eles não podem alegar outra supe- que correram e dos trabalhos que empreenderam por
rioridade que a força do corpo, para justificar o cui- nossa guerras as mais dilatadas.
dado que têm de arrogar a si toda autoridade e prer-
rogativas e que não provam outra incapacidade nas
mulheres, que possa privá-las de seu direito, senão a
que resulta da injusta opressão dos homens, que é fácil
refutar. Y>çj'4\
Parece, entretanto, quanto aos empregos militares,
ser por uma disposição da Providência, que o costume
nos tem isentado. Assim como os marinheiros durante

8. Alexandre Magno: rei da Macedônia (356-323 a.C.) edu-


cado por Aristóteles, submeteu a Grécia, a Pérsia, a Síria e o Egito,
onde fundou a Alexandria. Deixou obra civilizadora de incalculável
valor pelo desenvolvimento e intercâmbio das ciências, comércio,
indústria e navegação.
Caio Júlio César (102-44 a.C.): grande general e ditador ro-
mano. Governou com justiça, demência e tolerância. Restabeleceu
a ordem na Itália e favoreceu a democracia.
Carlos da Suécia: a história da Suécia registra diversos reis com
o nome Carlos. Dois, que se tornaram conhecidos, foram: Carlos XI
(1655-1697), absolutista que obteve duas vitórias sobre a Dinamar-
ca e a Holanda; e Carlos XII (1682-1718), que teve um reinado
de muitas batalhas contra a Rússia, os saxões, a Polônia e a Dina-
marca.

86 1 87
CONCLUSÃO

De quanto tenhoT até o presente não tem sido


com a intenção droltar pessoa alguma de meu sexo
contra o_$_bjnens, nem ordçm~en-
te ds coisas, relativamente, aoGoverno e autoridade.
Não, fiquem as coisas no seu mesmo estado:' eu pre-
tendo somente fazer ver, ciuç meu siião é tão des-
prezível como os homens querem fazer crer. e que nós
soçpes de tanta
-- granaeza d alma -como os me-
lhores desse sexo orgulhoso; e estou mesmo convencida
dois sexos pensar desta ma-
neira. Esta verdade se prova pelas más conseqüências
que resultam do erro contrário. Crendo-se-nos incapa-

1. Após haver "provado" asuperioridaLl&.kwinipa, Nísia Flo-


resta recua e afirma nã:er incitar o seu sexo à revolta ou pro-
vocar grandes alterações na sua cõiidçii neste aspecto
ela nãsegui o texto original de Ï TWllstonecraft que, pelo
contrário, declara que só uma REVOLUÇÃO) (assim com maiúscu-
las) seria capaz de alterar o qoadio_-prese[nte das mulheres. Esta
posição cautelosa de Nísia Floresta também está presente no Opús-
culo Humanitário, obra em que, após traçar um drástico panorama
da situação feminina, declara ficar satisfeita apenas com o acesso
L das meninas à instrução.

89
zes de aperfeiçoar o nosso entendimento, os homens justo desprezo; elas estarão em estado de dar aos ho-
nos têm inteiramente privado de todas as vantagens da mens uma melhor opinião da capacidade de seu enge-
educação e, por este meio, têm contribuído tanto nho e da disposição do seu coração, e os homens
quanto lhes é possível a fazer-nos criaturas destituídas diminuirão e reformarão gradualmente seus maus pro-
de senso, tais quais eles nos têm figurado. Assim, faltas cedimentos, à proporção da estima que lhes inspirarmos.
de educação, somos entregues a todas as extravagâncias Elas capricharão em apertejr seus talentos, melhor
nos tornamos d yjç temos ãTaído sobre adquirirão os conhecimentos, 0c r - é--ãoaentreter
' os
nós seus maus tratamentos por faltas de que eles têm homens instrutivamente e ajuntar a solidez aos seus
sido os autores, tirando-nos os meios de evitá-las. encantosT - -
Qual é Q resultado desse tratamento iirnico que Por este meio os dois sexos viverão felizes e não
eles nos fazem experimentar? Recai por último sobre si terão m6fÍvos de e acusarem mutuamente; mas en-
mesmo. lidaber e educação, que arrasta as quanto os homens nos fecharem toda a entrada às ciên-
miEères às açõesque os1otiens reprovam, as priva cias, eles não poderão, sem fazer recair sobre si toda
das virtudes que poderiam sust iaããntra os maus a repreensão, lançar-nos ao rosto as faltas de conduta
tratamentos que eles imprudentemente lhes fazem so- que a ignorância nos faz cometer e nós acusaremos sem-
frer; faltas destas virtudes elas imaginam os meios os pre de injustiça e crueldade os desprezos e maus trata-
mais condenáveis para se vingarem de seus tiranos. mentos que eles têm para conosco, por faltas que não
Donde resulta que em geral os homens e mulheres têm, está em nos mãos remediar. Não seria mais neces-
uns para com os outros, um-soberano desprezo e com- sário falar neste objeto senão para responder a algumas
batem à porfia quem trata pior o outro; quando, pelo pessoas fracas, que se persuadem indevidamente exis-
contrário, deveriam viver felizes, se ambos os sexos se tir, relativamente à virtude, diferenças reais entre nós
resolvessem a tomar um pelo outro os sentimentos de e os homens; entretanto não há maior absurdo, pois
estima, que se devem reciprocamente. existem muitos bons e maus em ambos os sexos e, mes-
Entretanto, se quiséssemos falar a verdade, é fora mo supondo-se que algumas mulheres têm levado a
de toda a dúvida que o vitupério recai principal e ori- maldade além dos homens, isto não pode desonrar o
ginariamente sobre os homens: porque se -se quiser so- sexo em geral. Os bons que se corrompem, tornam-se
mente conceder às mulheres as vantagens da educação sempre os mais malvados; e quando reconhecêssemos
e do saber, elas aprenderão a desprezar estas loucuras que algunms de nosso sexo têm excedido aos homens
e bagatelas, que lhes granjeiam presentemente um in- nos vícios, seria preciso necessariamente confessar, que

UNICAMP
estes as excedem em número.' Eu creio e ninguém du- fazer-nos um crime daquilo que possuímos menos que
vidará, que falando de maus, há mil homens maus para eles? Se há mais bondade nas mulheres que nos ho-
haver urna mulher má e ainda assim.julgando as mens, não se deve taxá-los de ignorantes e invejosos por
coisas muito favoravelmente aos homens. Mas para sa- não quererem convir nisto?
ber-se se uns são naturalmente mais viciosos que os ou- Quando uma mulher tem mais virtudes que vícios,
tros, é preciso ateiidque só a ã1ueiiüiceptivel não devem—umas---fazer çlespççrs outros? Isto é
de vfrÜide consiste em uma resolução firme tanto verdade, quanto nossos defeitos são insuperáveis
de fazer-se o que se julga mais conforme às regras da e se nos negam os meios de nos corrigir. Eis aqui pre-
razão, nas diferentes circunstâncias da vida. cisamente o caso de quase todas as faltas de nosso sexo
Ora, a alma das mulheres não é menos susceptível e porque merecem mais compaixão quedesprezo. En-
que a dos homens, desta resolução - firme q ue constitui fim, se nossas faltas não são tais senão em aparência,
a virtude, e elas sabem também, como eles, as ocasiões ou pelo menos são por si mesmas muito ligeiras, não
deprem prática. Inda que fracas se julguem as mu- se podem supor duráveis nelas sem muita imprudência
lher em geral, nós sabemos reger também nossas pai- e maldade de sua parte.
xões, como os homens, e não temos mais que eles pro- Ora, é muito fácil provar que •estas são a maior
pensão ao 'kiõ. Nós podemos mesmo fazer inclinar parte das faltas que se nos dprobáin, as quais são co-
aqui a balança em nosso favor, sem ofender a justiça muns a todo nosso sexo de uma ou deoutra maneira.
e a verdade; entretanto, suposto mesmo que houvesse Eu julgo ter Suficientemente demonstrado que injusta-
lugar de achar-se os dois sexos igualmente em falta, mente os homens nos acusam de não ter aquela solidez
aquele que acusa o outro peca contra a eqüidade natu- de raciocínio, que atribuem a si com tanta confiança;
ral. Se existe mais maldade nos homens que em nós e nós temos o mesmo direito q- ue eles, aos empregos pú-
são tão cegos para percebê-la, são bastante temerários blicos: a Natureza nos deu um gênio como a eles, tão
em achar o que repreender em nosso sexo; e se desco- capaz de os preencher e nossos corações são tão sus-
brem nossas faltas e ocultam maliciosamente as suas, ceptWeis dé virtudes, como nossas cabeças o são de
que são mais condenáveis, não é isto uma baixeza neles, aprender as ciências: nós temos espírito, força e cora-
gem para defender um País e bastante prudência para
2. Também o Padre Lopes Gama, já citado, era dessa opinião. governá-lo. Nós temos em geral os órgãos mais delica-
Em O Carapuceiro (Recife, 30-5-1838) ele escrevia: . . na verda-
".

de, raro é o defeito na mulher que não seja mui ordinário e comezi-
dos. Se se comparar a estrutura dos corpos para decidir
nho nos homens, de sorte que se por um milagre o sexo masculino o grau de excelência dos dois sexos, não haverá mais
seIiansmudasse em feminino, e viceisi, teríamos o universo po- contestação: eu julgo que os homens mesmos não terão
vóado de homens muito mais virtuosos, do que são os atuais". dificuldade em nos ceder a este respeito: eles não po-
92 1 93
dem negar que temos sobre si toda vantagem pelo me-
a envergonhara si mesmos, se éppíyeI, à vista de
canismo interno dos nossos corpos, pois que é em nós
tãifinjiïstiças que praticam, conosco, e façamo-los
que se produz a mais bela e a mais considerável de
enfim confessar que a menor—clãs mulheres merece um
todas as criaturas. Que superioridade não temos sobre
melhor tratamento de sua parte, do que o que hoje pro-
eles pela forma externa? Que belezas, que ar, que gra-
digalizam a mais digna dentre nós.
ças a Natureza não tem juntado aos nossos corpos e
r- privado aos seus? Eu me envergonharia somente de
falar, se não pensasse que há uma xzãoa maispara
-------- : -

crer que nossas almas sao tanto mais delicadas, porque


não posso deixar de pensar que o Sábio Autor da Na-
tureza proporcionou nossas almas aos corpos que nos
deu: certamente a elicadezà de nosso espírito e a fi-
nura do que se passa no interior de nossas cabeças de-
vem pelo menos tornar-nos iguais aos homens, que
nosso exterior raras vezes deixa de nos fazer suas se-
nhoras absolutas.
Eu não quererei, entretanto, que pessoa alguma
.1 r C'J' de meu sexo apóie sua autoridade sobre um alicerce
tão frágil. Não, o bom senso deve sempre exceder à
beleza do rosto, porque o ascendente, que a razão tem
sobre os corações, é mais durável. Eis porque exorto a
todas as mulheres a desprezar os vãos divertimentos e
a aplicar-se à cultura de suas almas, a fim-- sëlõfna-
rem capazes de obrar com toda dignidade a que a Na-
tureza nos destinoisem procurarmos elevar-nosen-
grandecer-nos, façamos ver que merecemos dos homens
tanta parte de sua estima, quanto arrogam a si além
de nós.
Em uma palavra, mostremos-lhes, pelo pouco que
fazemos sem o socorro da educação, de quanto sería-
mos capazes se se nos fizessem justiça. Obriguemo-los

94
95
POSFÁCIO

NOS PRIMÓRDIOS
DO FEMINISMO BRASILEIRO
"As mães, hs filhas, as irmãs, represen-
tantes da nação, solicitam ser constituídas em
Assembléia Nacional. Considerando que a igno-
rância, o esquecimento e o desinteresse dos
direitos da mulher são as únicas causas das
calamidades públicas e da corrupção dos gover-
nos, estas decidiram expor em uma declaração
solene os direitos naturais, inalienáveis e sa-
grados da mulher, com o fim de que esta de-
claração, constantemente presente na mente de
todos os membros do corpo social, lhes recor-
de sempre de seus direitos e suas obrigações;
com o fim de que os atos de poder das mulhe-
res e os de poder dos homens, que podem ser
em qualquer momento comparados com a meta
de toda instituição política, adquiram maior
consideração; com o fim de que as reivindica-
ções das cidadãs, baseadas de agora em diante
em princípios singelos e incontrovertidos, apon-
tem sempre em prol da manutenção da consti-
tuição, dos bons costumes, da felicidade de to-
dos os cidadãos."
Olympe de Gouges - Preâmbulo dos:
Les Droits de Ia Femme et de Ia Citoyenne,
1791.
Se folhearmos a história da conquista dos direitos
da mulher no Brasil - história ainda tão pouco con-
tada e em que faltam tantas páginas - entre inúmeros
nomes femininos, quando recuamos em seus primór-
- dios, um nome se destaca. Todos os estudiosos e pes-
quisadoras o citam, alguns com mais, outros com menos
e até com equivocadas informações, mas é sempre nele
que esbarram. Um nome sonoro, com jeito de pseudô-
nimo imediatamente se impõe: Nísia Floresta Brasileira
Augusta. E nem podia deixar de ser assim.
A esta mulher devemos nada mais nada menos
que urna das primeiras páginas desta história. História
que começa nem sabemos como e onde ao certo, é ver-
dade, mas que tem em Nísia Floresta um dos seus mais
ççuados e importantes momentos, pela coragem reve-
l ad a em seus escritos e pelo ineditismo e ousadia de
suas idéias.
E quanto mais temos consciência de seu impor-
tante papel, maior é a curiosidade e interesse por esta
figura que se sobressaiu à enorme maioria de seu sexo,
que alcançou uma visão tão acima dide seus contem-

101
porâneos, os mais ilustres. Como isto foi possível, não para a crítica dos costumes e da política imperial, como
deixa também de ser uma grande questão. Bússola da Liberdade, Sentinela da Liberdade, Diário
Se nos remontamos até Recife, às primeiras déca- dos Pobres, Voz do Povo Pernambucano, O Sete de
das do século passado, surpreendemos um cenário con- Setembro, O Diabo, Cova da Onça, para só citar alguns.
turbado, onde os sentimentos nacionalistas explodiam Impossível deixar de mencionar o Padre do Sacra-
em revoltas a todo instante, e em que idéias separatis- mento Lopes Gama, uma figura extremamente impor-
tas fervilhavam. Percebemos facilmente que o terreno tante em todo este contexto. Lopes Gama foi um cari-
ali era fértil e o clima extremamente favorável à pro- caturista e crítico social dos mais argutos, que em seus
pagação de concepções de reforma social, que uma elite jornais - políticos ou satíricos - participava e incen-
intelectual se incumbia de divulgar. tivava os debates, assumindo uma postura liberal e até
Os ideais de justiça e liberdade europeus atraves- revolucionária. Através do jornal O Carapuceiro, tor-
savam o oceano e parece que primeiro aportavam na- nou-se conhecido pela virulência de seus ataques aos
quelas praias, insuflando ainda mais os espíritos per- "maus costumes", pelas críticas que fazia à sociedade
nanïhticanos. Se nesta época outras cidades brasileiras de seu tempo, não perdoando nem autoridades e muito
competiam com Recife em desenvolvimento (ou atraso), menos às mulheres que se desviassem de suas "virtu-
como Vila Rica, Salvador e o próprio Rio de Janeiro, des" e se deixassem levar por uma vida mais fútil e
nenhuma delas, porém, rivalizava com a pernambucana descomprometida.
na prolongada ênfase de seus movimentos revolucioná- Entre outras, a prioridade na extinção do tráfico
rios, nem tremulou tão alto a bandeira do liberalismo de escravos cabe a Pernambuco, que se antecipou em
e antilusitanismo. sete anos (1824) ao decreto real. E, em 1831, os padres
Em 1820 Pernambuco destacava-se como o mais do Mosteiro de São Bento de Olinda, num gesto inédi-
importante mercado açucareiro do Império, com uma to, concederam liberdade a todos os escravos dos mos-
produção por volta de dez mil toneladas; e as recepções teiros de Pernambuco e Paraíba, "por ser a escravidão
no Palácio do Governo tinham tal brilho, que por pou- oposta à razão, à consciência e à religião".'
co não ofuscavam as da Corte. Durante a maior parte Estêvão Pinto, em Pernambuco no século XIX,
do século XIX, Recife foi o mais importante centro enumera a série de melhoramentos por que passa Re-
impressor e editorial do país, atividade essa impulsio- cife: a reforma do Trem Militar, novas estradas, o te-
nada justamente pelas revoluções de 17, 20, 24 légrafo semafórico da Torre do Espírito Santo, cujo
que se sucediam e necessitavam divulgar seus propósi-
tos. Inúmeros foram os jornais de inspiração liberal/ 1. In Anais Pernambucanos, F. A. Pereira da Costa, 2.a ed.
republicana, bem como os de feição satírica voltados Recife, FUNDARPE, 1983, p. 387.

102 1 103
farol acendeu-se em 1822, a criação de um gabinete cia a relação das obras estrangeiras - principalmente
topográfico, reformas de edifícios públicos, a constru- francesas e inglesas - recém-chegadas.
/
ção do Theatro de Santa Isabel, a ponte pênsil de Ca- Apesar de todo esse cosmopolitismo (para a época)
xangá, a inauguração do cemitério de Santo Amaro e e do avanço liberal, não tenhamos ilusões no que toca
da pequena linha férrea do Cabo. E conclui: à situa ção g eral d as mulheres. Muitas são —asdirições
de seu estado de submissão e do isolamento em que
"Paira no ar, o que quer que seja de revolucioná-
rio, de transcendente, de nativista - este 'espíritu viviam. GilbiF b'a que:
dei siglo' de que nos fala Martinez de Ia Rosa."'
"Nísia Floresta surgiu - repita-se -, como uma
Recife era porto obrigatório dos estrangeiros que exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as
visitavam o país, naquele início de século. Foram mui- sinhazinhas dengosas do meado do século XIX
tos os que lá estiveram, como Koster, Darwin, Water- No meio de homens a dominarem sozinhos todas
ton, Maria Graham, Vauthier, com certeza atraídos pela as atividades extradomésticas, as próprias baro-
opulência dos habitantes de Olinda e Recife que alguns nesas e viscondessas mal sabendo escrever, as se-
registraram em seus diários ou por suas construções nhoras mais finas soletrando apenas livros devotos
arrojadas que já utilizavam os materiais em voga na e novelas que eram quase histórias do Troncoso,
Europa, como o ferro e o vidro, com seus jardins afran- causa pasmo ver uma figura como a de Nísia" 3 .

cesados (que tanto encantaram Maria Graham), ou ain-


da porque se tratasse de um importante centro daquele E é ainda hoje fazendo eco a este sentimento de
país exótico, que todos desejavam conhecer. pasmo de Gilberto Freyre que tentamos entender como
Naquelas plagas, o analfabetismo feminino deixa-
surgiu, naquela época, uma figura tão singular.
va aos poucos de ser encarado como sinal de nobreza.
E já em 1830 a cidade contava cõmiJatro escolas de Nísia não ficou indiferente às influências revolu-
primeiras letras para meninas, contava com o Recolhi- cionja4_seu tempo. Provavelmente sua própria
mento da Glória, para as mais abastadas, e com um casa era um centro de debate e propagação das novas
sem número de mestres estrangeiros que anunciavam idéias, pois vivia com um jovem acadêmico de Olinda
nos jornais para ensinar nas casas. Nesta época havia Manuel Augusto - e privava da amizade fraterna
pelo menos três livrarias que divulgavam com freqüên-
3. In Sobrados e Mocambos, 1.0 tomo, 7•a edição, Rio de Ja-
2. Op. cit. Ilustrações de Henrique Moser e Baithasar da Ca- neiro, José Olympio Editora, INL, Fund. Nacional Pró-Memória,
mara, Recife, Imprensa Industrial, 1922, p. 10. 1985, p. 109.

104 1 105
de Nunes Machado, outro acadêmico, futuro deputado
liberal, que seria em 1849 um dos líderes da Revolução
Praieira -4

Nossa autora abr ~ç9 __Iiberalismo__


Com toda, sua-
DAS
oo s
forçade mulher, no momento em que realiza a sua tra- - ma
ojtheRights of Woman, de Mary
dio do Vindication 1XJUSTJC1I DOS ILOJ1VS.
Wollstonecaftxt0 revl iiiàtt surgido em
Londres em 1792, foi imediatamente traduzido para o INTRODUC C AO.
francês e repercutiu como uma bomba por toda a Euro- o
SE um auctor celebre não tivesse proferido
pa e até nos Estados Unidos. Neste mesmo ano ele foi que nada existe na Natureza tão admiravel co-
,

também editado em Paris, Boston e Filadélfia e teve ino ver os homens capases de espanto, poderia
ainda sua segunda edição em Londres. Em Dublin foi alguem ao menos o que não fosse inteiramente
editado em 1793 e, na Filadélfia, duas novas edições falto de bom senso, deixar de admirar o poder,
surgiram no ano de 1794. No curto espaço de dez anos, que os prejniso , e o Costume tem sobre ocspi..
o livro foi reeditado sete vezes, na França, Inglaterra, rito humano? Era de esperar naturalmente, que
esses entes feitos para dominar, como modes-
Estados Unidos e Escócia.' tamente se qualiíicão, fosseinciosos de sua su-
erioridade, e muita ernpeaJados em a conser-
var. hutretanto exceptuando-se a auctoridade
tyrannica, que usurpão sobre nós, achar-se-:
que todos os seus esforços se reduseu] a soili-
citar a mais baixa servidão.
Se sua anibicão fosse louvayd e justa seria
, .

de accordo com Sj!o mesmo e esta Cousquerr-


,

cia os tornaria alrncnte igu


imperiosos em todas
as OccsiÕes cm que a auctoiide é flcccssaiia '

* r para se sustentar. 5e a força exterior d


orpo
fosse para elies um titulo suficiente par
nar sobre nós, que somos uma cori içãdÇ
Em 1849, já morando no Rio de Janeiro, Nísia Floresta de-
4. um caeté, onde lamenta a mais delicada a superioridade da rasão brea
dica-lhe um belo poema: A lágrima de
sua morte na Revolução Praieira e exalta seu espírito nativista.
Mary Woilsionecraffo (1 n1
5. Cf. Paute PenigaultDuhet,
-

(1759-1797); Lute: Atelier National, Reproduction des Theses, Uni-


versité Lute III; Paris: DiffusiOfl DidierErUditi0n, 1984, p. 647 e s.

106
A tradução

Mas não foi uma edição inglesa que Nísia Floresta


conheceu. Na capa de seu livro ela declara ter "tradu-
zido livremente do francês para o português", pois essa
era a língua estrangeira mais difundida e eram france-
ses a grande maioria dos livros que aqui chegavam.
Também Byron, podemos lembrar, tornou-se conhecido
dos nossos românticos através de versões francesas.
E aí está a grande questão. Na verdade - e quem
conhece o original já percebeu - Nísia não realiza
propriamente uma tradução do texto da feminista. Ela
realiza, sim, um outro texto, o seu texto sobre os direi-
tos das mulheres. Mary Wollstonecraft lhe dá a moti-
vação ao colocar em letra impressa questões pertinentes
à mulher inglesa, voltadas naturalmente para o público
de seu país. Nísia como que realiza uma "antropofagia
libertária". E poderíamos ainda acrescentar: não como
opção, mas até como fatalidade histórica. Na degluti-
ção geral das idéias estrangeiras, era praxe promover-se
uma acomodação de tais idéias ao cenário nacional.
Ë o que ela faz. Assimila as concepções de Mary

107
Wollstonecraft e devolve um outro produto, pessoal, Francisco da Silva sugere que o Padre Lopes Gama
em que cada palavra é vivida, em que os conceitos sur- teria sido o revisor desta tradução de Nísia Floresta.
gem das páginas como algo visceral, extraído da pró- Pode ser. Não encontramos nem em seus jornais, nem
pria experiência e mediatizados pelo intelecto. na obra nisiana, qualquer indício que nos permitisse
Não é, portanto, o texto inglês que se conhece, ao afirmar até mesmo que eles se conheceram. Provavel-
mente sim, não só pelas dimensões da cidade na época,
ler estes Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. como também porque Lopes Gama expressa algumas
Ainda está por ser feita a sua tradução em língua por-
idéias sobre as mulheres semelhantes às de Nísia Flo-
tuguesa. Temos sim, nesta "tradução livre", talvez o resta, no jornal O Carapuceiro. A partir desta sugestão
texto fundante do feminismo brasileiro, se o vemos de Inocêncio, inúmeros foram os escritores que afir-
como uma nova escritura, ainda que inspirado na lei- maram esta aproximação, dando-a como certa e com-
tura de outro. Vejo-o como uma resposta brasileira ao provada.
texto inglês; nossa autora se colocando em pé de igual-
dade com Wollstonecraft e até com o pensamento euro-
peu, estabelecendo, assim, o elo entre as idéias euro- Mary Wollstonecraft e seus Rights of Woman
péias e o público nacional.
Em sua essência, os Direitos das Mulheres de Nísia A história do Vindication of the Rights of Woman 7
Floresta se encontra com os Rights of Woman de Mary está relacionada à trajetória política e literária de sua
Wollstonecraft, tanto na denúncia da mulher como autora, que anteriormente já havia publicado vários en-
classe oprimida como na reivindicação de uma socie- saios e outros livros, como Thoughts on lhe Education
dade mais justa, em que ela seja respeitada e tenha os of Daughters (de 1786, que antecipa algumas das idéias
mesmos direitos. Também são pontos comuns as denún-
cias da superioridade masculina apoiada na força física, 6. Obra citada: Estudos de Innocencio Francisco da Silva, Apli-
cáveis a Portugal e ao Brasil, Tomo 6, Lisboa, Imprensa Nacional,
a educação como o meio eficaz de promoção feminina 1862.
e o aparato filosófico de feição iluminista. No mais, os 7. Para efeito desta leitura foram utilizadas três edições. São
elas: Vindicatjon of lhe Rights of Woman, London, J. M. Dent &
textos se distanciam tomando cada qual o seu rumo,
Sons Ltd.; New York: E. P. Dutton & Co. Inc., 1929.
segundo as motivações das autoras, o público a que se Défense des Droifs de Ia Femme, préface et traduction de Marie-
destinavam e as peculiaridades da condição feminina Françoise Cachin. Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1976.
Vjndjcación de los Derechos de Ia Mujer, Madrid, Tribuna Femi-
num e noutro lugar. nista, Editorial Debate, 1977. Por isso serão indicados os capítulos
No Dicionário Bibliográfico Português, Inocêncio e não as páginas, quando for necessário.

108 1 109
do livro em questão), e A Vindication of the Rights of ne a audácia do seu pensamento. Em 3 de novembro
Men (de 1790), só para lembrar dois de uma produção de 1793, foi guilhotinada e sua sentença acusava-a de
intensa e toda voltada para questões de direitos políti- "ter querido ser homem de Estado e ter esquecido as
cos, educação feminina e independência econômica. virtudes próprias do seu sexo".'
O novo conceito político que agitava e transfor-
Se Mary Wollstonecraft conheceu ou não estes
mava o pensamento liberal europeu era o dos direitos
textos, não se sabe. Não foi encontrada nenhuma refe-
do homem, cujas principais referências foram a "De-
rência a eles em sua correspondência, tampouco em sua
claração de Independência", votada pelo Congresso
obra, por nenhum de seus muitos biógrafos.' O que é
Americano em 4/7/1776 e a "Declaração dos Direitos
certo e conhecido é que em seus livros anteriores ela já
do Homem e do Cidadão", adotados pela Assembléia
tratava da questão da igualdade natural da mulher e do
Nacional Francesa, em 26/8/1789. Mary Wolistone-
homem, apoiada na razão. Mas isso não vem ao caso
craft utiliza como ponto de partida em sua obra as duas
agora. O que nos interessa, no momento, é estabelecer
declarações, junto ao conceito de direitos individuais,
os pontos de aproximação e distanciamento entre esta
inalienáveis e universais, ainda desconhecido na Ingla-
autora e a brasileira.
terra de seu tempo.
Logo ela deve ter percebido que os "rights of men" A feminista inglesa dedica seu livro ao senhor
(utilizados no sentido de gênero humano) destinavam- Talleyron-Périgord - o antigo bispo de Autun - não
se realmente apenas aos homens. Os clichês sociais re- exatamente para homenageá-lo, mas como forma de lhe
servavam a estes a dignidade e os direitos humanos, responder e contestar as idéias sobre educação femini-
isolando as mulheres em um grupo distinto, bem mar- na, expostas em seu Rapport sur l'Instruction Publique,
de 1791, que serviram de base ao projeto que ele apre-
cado por sua especificidade biológica. Daí a necessida-
de de outra reivindicação, que precisava ser bem clara: sentou ao governo francês, sobre a educação das jovens.
Vindication of the Rights of Woman, para não haver Para Mary eram ainda muito tímidos os avanços
dúvidas. por ele propostos e eram necessárias mudanças drásti-
Na França, Condorcet já havia aberto o debate a cas no quadro educacional que realmente alterassem a
esse respeito e publicado em 1790 seu Essai sur l'ad- situação feminina. No penúltimo capítulo do Rights 0/
mission des Femmes au droit de cité. E Olympe de
Gouges contribuiu para esquentar o debate ainda mais 8. Cf. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, vol. 1, Ia edição,
com sua Déclaration des Droits de Ia Femme et de Ia Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, p. 34. Citado também por
Branca Moreira Alves/Jaqueline Pitanguy, O Que é Feminismo,
Citoyenne, em 1791. Ambos os textos tinham o mesmo São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 34.
objetivo, mas apenas Olympe de Gouges sofreu na car- 9. Cf. Paule Penigault-Duhet, op. cit.

110
•IH
Woman, ela, inclusive, traça um audacioso plano de Nos capítulos que se seguem, no total de treze, ela
educação nacional, em muito diferente do que Talley- desenvolve suas opiniões, refuta acusações, discorre
ron havia proposto. Sua dedicatória teve então um sabor longamente sobre conceitos morais, sobre as formas so-
de provocação e de contra-projeto, além de ser, ela mes- ciais de opressão que a sociedade exerce sobre as mu-
ma, uma resposta para o legislador e líder moderado da lheres; denuncia autores - Milton, Lord Chesterfield,
Revolução Francesa. Pope, Mrs. Barbauldt e especialmente Rousseau -
Na Introdução, a autora afirma que, após ter que em suas obras colaboraram para manter tal situa-
observado o mundo, interrogado a história, consultado ção de opressão; faz a reivindicação propriamente dita,
inúmeras obras de educação, o comportamento dos ao mesmo tempo que propõe uma redefinição das rela-
pais, o funcionamento das escolas, chegou à convicção ções humanas (amor paterno, deveres para com os
de que a "miséria das mulheres provém de sua descui- pais); apresenta sua proposta de educação feminina a
dada educação". Isto porque os homens estão habitua- nível nacional e, finalmente, termina com exemplos dos
dos a considerar as mulheres mais como fêmeas do que erros que as mulheres cometem provocados por sua
como seres humanos, antes como amantes sedutoras, ignorância, fazendo considerações acerca da melhoria
que como esposas afetuosas e mães criteriosas. O único moral que, naturalmente, resultaria numa revolução
objetivo - ela conclui - que os leva a se empenharem dos modelos femininos.
tanto em rebaixar as mulheres é o de torná-las objetos
O capítulo em que trata de Rousseau '°, um autor
sedutores.
de sólida reputação e dos mais conhecidos pelo público
Daí as críticas que eles fazem às mulheres "mas-
feminino, demonstra bem o poder de argumentação da
culinas" porque, na verdade, são contra a aquisição de
talentos e qualidades, cujo exercício enobreceria o ca- autora e o conhecimento que tem da obra deste autor.
ráter e elevaria as mulheres à condição de seres huma- Ela já inicia dizendo que a "indignação supera a admi-
nos, no sentido amplo do termo. Deste ponto de vista ração". Como a maioria dos escritores, Rousseau exigia
filosófico, claro, ela afirma que todas as mulheres deve- com veemência que a educação feminina se orientasse
riam ser cada vez mais masculinas. para um único objetivo: fazer da mulher um objeto de
Com ironia, Mary pede desculpas às mulheres por prazer. Sua personagem, Sofia, representaria o ideal
não falar neste livro de suas "graças fascinantes" e por feminino dos sonhos masculinos: submissa, "coquete",
não tratá-las como crianças; ela as considera, e é assim superficial, em tudo inferior a Emílio. Sendo assim, a
que as tratará, como criaturas racionais. Tudo isso por-
que deseja que as pessoas de seu sexo sejam "os mem- 10. Cf. Capítulo V: "Críticas de certos autores que têm consi-
bros mais respeitáveis da sociedade". derado a mulher um objeto de piedade, quase de menosprezo".

112 1 113
autora pergunta: "como purificar seu coração, se a in- Segundo esta autora, "a melhor educação será a
teligência permanece inativa, e não tem nenhum ideal que consiste em exercitar a inteligência de tal modo que
que a eleve acima das futilidades cotidianas?" Mary fortaleça o corpo e desenvolva o coração, ou em outras
Wollstonecraft passa a questionar e toca fundo o pre- palavras, permite a cada indivíduo adquirir tal costume
conceito, jogando por terra os belos discursos masculi- na virtude, que seja independente"."
nos. As mulheres não teriam uma alma imortal, para Estas são, em linhas bem gerais, apenas algumas
poderem passar toda a vida na ociosidade, se enfeitan- das questões que trata a feminista inglesa, em seu
do, sem praticar as virtudes que dignificam o ser huma- Vindication 0/. .. Meu objetivo em apresentá-las aqui
no? As melhores esposas, são as mulheres passivas e foi simplesmente o de facilitar as comparações que faço
indolentes? E estas mulheres teriam personalidade su- e tornar mais claras outras questões que tenho levan-
ficiente para dirigir uma família e educar os filhos? tado, sobre as diferenças entre os dois textos.
Se as mulheres não são um "enxame de seres frí-
volos e efêmeros", por que mantê-las em ignorância?
Para que sacrificar sua inteligência? Enquanto os ho- Nísia Floresta e os Direitos da Mulher
mens se preocupam com a vida futura, afirma, às mu-
lheres basta preocuparem-se com a presente, na opinião Nísia Floresta vai dedicar seus "Direitos" às mu-
desses autores. lheres brasileiras e aos jovens acadêmicos de seu tempo.
Se as mulheres são realmente capazes de atuar
Às primeiras, porque é delas que trata e por elas es-
como criaturas racionais, então que não as tratem mais
creve. Aliás, perpassa por todo o livro uma solidarie-
como escravas ou animais domésticos, submetidas à
dade bem feminista, visível no empenho em justificar
razão do homem. Que lhes ofereçam os "princípios su-
suas faltas e destacar cada um de seus méritos. E aos
blimes e saudáveis" e que tomem consciência de sua
dignidade, reconhecendo-se a si mesmas como seres que acadêmicos brasileiros porque, afinal de contas, eram
só dependem de Deus. eles os representantes legítimos da elite pensante do
Em sua crítica, Mary Wollstonecraft enumera iro- país, aqueles que poderiam, se quisessem, mudar os
nicamente algumas das expressões empregadas na li- rumos dos acontecimentos. Foi desta geração que saí-
sonja feminina para enganá-las: "virtudes delicadas do ram os futuros abolicionistas, os republicanos e também
encanto", "temperamento dócil", e aponta para algumas uns bem poucos - muito poucos - defensores dos
expressões contraditórias, fartamente empregadas pelos direitos da mulher.
escritores, como: "amáveis defeitos" e "encantadoras
debilidades". 11. Cf. Capítulo II.

114 e 115
A Introdução contém algumas das questões que no texto nisiano, assim como a pregação da doutrina
serão desenvolvidas nos capítulos seguintes. Nísia iden- utilitarista, muito cara aos ilustrados.
tifica no costume e no preconceito o cerne do problema A escola filosófica conhecida por este nome -
e procura atacá-lo de todas as formas, utilizando todos Utilitarismo - fundada por Jeremy Bentham, acredi-
os argumentos de que é capaz. Os homens são de ime- tava que as idéias, instituições e atos deveriam ser
diato identificados como os manipuladores desta tira- julgados com base em sua utilidade. Por utilidade, en-
nia, esses "entes feitos para dominar", até porque tiram tendia a capacidade de produzir felicidade, que deve-
proveito da situação e temem ter as mulheres como suas ria, por sua vez, alcançar o maior número de pessoas.
iguais. A autora exige que eles apresentem as "provas" Muitos foram os filósofos, críticos da ordem estabele-
de sua superioridade. cida, que contribuíram para o avanço das idéias pro-
Extrapolando o raciocínio de Mary Wollstone- gressistas. Voltaire, Diderot, D'Alembert, Helvetius e o
craft, Nísia Floresta tenta inverter a relação: de mulhe- Barão de Holbach foram alguns desses, e é a essência
res inferiores socialmente, ela acredita e quer provar, mesmo do seu pensamento que encontramos tanto nos
a superioridade feminina frente aos homens. Superio- discursos de nossos revolucionários do início do século
ridade essa, diga-se de passagem, que o "sexo invejoso XIX, como nos textos de Nísia Floresta. Afinal, o que
e pouco generoso" oculta, para melhor dominar através mais ela pretendia, se não tornar a sociedade mais justa
da força física e do despreparo intelectual feminino e naturalmente mais feliz?
("Não ignoramos que temos razão; ( ... ) esta mesma Será, então, imbuída destes conceitos filosóficos
razão nos faz sentir a superioridade que temos sobre de cunho iluminista que Nísia Floresta buscará o juiz
eles. . capaz de "julgar" se as mulheres são ou não superiores.
Descendente intelectual do século das luzes, a Um juiz neutro e irrecusável, que só a filosofia poderá
autora lança mão de conceitos e doutrinas iluministas lhe fornecer.
- tão difundidas em Pernambuco de seu tempo - A autora coloca numa "balança utilitarista" as
para melhor fundamentar seus argumentos e construir ações masculinas e femininas e passa a medir o valor
sua coerência. de umas e outras. Iniciando com a função de cuidar de
Vemos, então, em seu texto, desfilarem inúmeros crianças, entendida como absolutamente necessária e
conceitos como moral, verdade, virtude, modéstia, en- útil à sociedade, mas desvalorizada pelos homens, Nísia
tendidos conforme os estóicos os definiram, bem como passa, a partir daí, a computar pontos a favor da mu-
a ênfase no uso da razão como o melhor método para lher, a mostrar que ela tem mais virtudes e capacidades
se chegar à verdade. Os ideais de dignidade e valor que os homens, para qualquer função. A evolução de
humano, formulados pelos iluministas, estão presentes seu pensamento chega a um ponto em que não só a

116 E 117
mulher é útil à sociedade, como a maioria das funções "pureza de expressão", "justeza das ações", às mulhe-
exercidas pelos homens, suas preocupações e até eles res. Muitos ilustrados já haviam dito antes dela: "A
próprios, são considerados inúteis. Não deixa de ser virtude e a felicidade são tão indispensáveis na vida
ingenuamente cômica a explicação que encontra do por- privada como na pública e a ciência é um meio neces-
quê as mulheres não irem para a guerra: "Assim como sário para se alcançar uma e Daí a urgência
os marinheiros durante uma tempestade lançam ao mar imperiosa de as mulheres terem acesso à ciência e o
as cargas, que mais impedem e menos úteis ao navio, empenho da autora em convencer os homens.
da mesma sorte é muito justo que os homens sejam A pouca experiência de vida não a impede de fazer
expostos aos perigos e desgostos da guerra, enquanto uma importante dedução: "Por que a ciência nos é inú-
que nós ficamos em segurança em nossas casas. — ` til? Porque somos excluídas dos cargos públicos; e por
Nísia como que arma um jogo: MULHER X HO- que somos excluídas dos cargos públicos? Porque não
MEM (a partir mesmo do título: Direitos das Mulhe- temos ciência." O círculo vicioso que prendeu e estag-
res X Injustiça dos Homens) e joga por nós. Lançando nou as mulheres por séculos, é denunciado pela autora,
mão de verdadeiros passes de mágica, transforma cada que vai além e identifica nos homens o "sórdido inte-
"desvantagem" em "vantagem" para a mulher, e até a resse" e o "temor" de que elas, partilhando as ciências
"delicadeza" em "superioridade". A mágica que utiliza (e as vantagens que delas derivam) os excedam na
tem um nome: Retórica, que praticada com incomum administração dos cargos públicos. Segundo Nísia, seria
habilidade, inverte e subverte tudo, desmontando aos por medo de competição, a causa do banimento femi-
poucos as argumentações e as acusações masculinas. nino do estudo, e não por incapacidade de seu cérebro,
Até a "lei divina" que proibiria às mulheres exercer por possuir "órgãos imperfeitos", ou pelo sentimento
funções na hierarquia eclesiástica, é interpretada como de altivez e vaidade que as dominaria . . . Se elas es-
sendo não uma impossibilidade, mas um "elogio". tivessem em igualdade de condições, se partilhassem
Praticando a arte da persuasão e do convencimen- dos conhecimentos científicos, poderiam realizar tanto
to, a autora responsabiliza os homens por cada erro ou quanto eles e até bem mais, pois empregariam seus co-
fraqueza que admite nas mulheres. Afinal, ela conclui, nhecimentos de uma maneira mais organizada e útil à
foram eles que as deixaram propositadamente na igno- sociedade.
rância. O texto de Nísia Floresta oscila constantemente
Opondo-se à ignorância, do outro lado da moeda entre a ironia com que trata os homens - "persona-
está a ciência, a que daria "exatidão de pensamento", gens singulares", "grandes crianças mais obstinadas" -

12. Cf. Capítulo VI. 13. Cf. Capítulo II.

118 1 119
e uma certa ternura com que se refere aos afazeres fe- ná-lo", ela recua e afirma não prçender com seu livro
mininos e às próprias mulheres. Mas é nu Capítulo III, "revoltar as mulheres contra os hom is, nem "de
em que analisa "se os homens são mais próprios que transformar a ordem presWdas coisas , -relativamente
as mulheres para governar", e trata de Catão, que mais ao governo e autoridade". Pretendia apenas, afirma,
pode ser percebida sua irritação com os argumentos fazer ver que seu sexo "não é tão desprezível como os
masculinos e a profunda ironia para com o "primeiro homen ~ fazer crer" fiiicapazes de
sexo". tanta-gr deza d'alma", como eles. Em outra obra,
-

Catão é identificado ao "tal juiz" parcial, aquele Opúsculo Humanitário j, e 1853, emque trata da edu-
que "pronunciou nossa sentença". Tecendo com habi- cação feminina, Nísia Floresta distingue educação de
o
lidade um diálogo com o filósofo, cita trechos seus e emancipação, como se uma não fizesse parte da outra.
vai lendo-os como deseja. A magia de sua retórica con- Logo -no início ela estabelece a diferença:
segue interpretar ao contrário do entendimento usual "Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando
e provar com suas próprias palavras - dele, Catão
-
o brado - emancipação da mulher nossa débil
-

a superioridade feminina. Neste jogo intertextual ela voz se levanta, na capitaf do Império de Santa
realiza um diálogo filosófico também com outros auto- C ru z, imando - educai às mulheres!"
res que o repetiram. O raciocínio de Nísia Floresta Mais adiante, ao rebater a apreciação que Montes-
aqui, mais ainda surpreende o leitor, por sua eloqüên- quieu faz da mulher, novamente afirma:
cia retórica. Ë difícil não se deixar seduzir por ele. ("Mas deixemos à Wollstonecraft, Condorcet,
Se no texto de Mary a autora dialoga com Rous- '.Sièyés, Legouvé, etc., a defesa dos direitos do sexo.
seau e, por seu intermédio, com diversos outros escri- JA nossa tarefa é outra, e cremos que mais conve-
tores, neste, Nísia elege Catão, um filósofo bem divul- niente será às sociedades modernas a educação da
gado no Brasil, via cultura portuguesa, e através dele mulher".
alcança outros filósofos e um sem número de contem- Como interpretar tal postura? Se tentamos justi-
porâneos que endossavam seu pensamento. ficá-la teiido eiiiTiÏi a situação de nossas mulheres na
Mas é na Conclusão que vamos encontrar o maior época, que tornava, antes de tudo, a educação absoluta-
desvio para com o texto original. Não deve ter passa- mente imperiosa e já uma grande conquista, ou ainda
do despercebido, aos leitores, o recuo no raciocínio de atribuindo-lhe um laivo de modéstia "nossa débil
-

Nísia. Após ter "provado" que as mulheres têm tanto voz" -, sua afirmativa seguinte desmonta esta defesa.
direito quanto os homens e são capazes de aprender as
14. Cf. Opúsculo Humanitário, Rio de Janeiro, Typographia
ciências e ocupar empregos públicos, que têm coragem de M. A. Silva Lima, p. 27-8, 1853. Reeditado por Cortez Editora /
de defender um país e "prudência bastante para gover- INEP, 1989. Nesta edição, a citação encontra-se na p. 2 e 29.

120 E 121
Acompanhando seu raciocínio e entendendo que atra- Ë o conhecimento verdadeiro da missão da mu-
vés do acesso
1
a mu er a tur 'm da lher naõciedade Justo gozo do&i direitos,
di nidade tornar-se-ia capa de eu- que o brutal egoísmo
in_riiçp,
adversa, como enender edu- quais a deserda, porque tem em mate-
fre lqur situa ãod
searada de emancipação? Outra pergunta: o que rial, e porque ainda se não convenceu que um anjo
cação
signi icava para s e segundo termo? Ao lutar pelo lhe será mais útil quüiiãbÕiêa" -
acesso feminino à escola, não entendiqçjutava-tam- (Joana PiilMaiiso de Noronha,
bém por sua, emancipaÃo? Emancipação moral da mulher)`
Mary Wollstonecraft, ao contrário, fala em RE-
VOLUÇÃO — assim com maiúsculas —, e emjç. "A inteligência, a modéstia e a economia devem
pendência econômica, co1gabsohitamenteneces- presidir a todos os atos de tua vida. Sobretudo a
sário iü as mulheres _possam se encontrar como economia bem entendida e não ridícula, acumu-
1 serem_xespeitadisda4. lará capitais no erário do futuro." ( ... ) "Quem te
in
Este recuo, ou esta contradição presente no texto dirige estas linhas játçyealguma prática da vida
ão de-um comportamen- de casada e te assegurque_nunca, nunca se arre-
nisiano, é como um pendeu de ter cumprido à risca o que a moralidade
to os recon ecer e na Paula
aula Ma
Júlia Lopes de Almeid, Inês Sabino,) do lar impõe nesta simples palavra: devef
de Noronl
omar Torr ão--e4anla rmt1heres, e mesni6
ne_os (Inês Sabino, Conselhos a uma
% homens que trataram da questão. Ë uma pos- noiva) 17
tura ambígua de conciliar o inconciliável: querem–e
"Nem a mulher--que vota, nem mulher que mata!
pregam a emancipação feminina desde que não inter-
NemTiIsaichel, nem Carlota Corday!
fira nos a eis estab lher e esta possa ... (...)

.is Detesto tanto a mulher que vota, como a mulher


permanecer a mãe" irtuosa' e "rainha do'I5'.
que mata... O meujdealéCornélia mãe dos.
". . . o que vem a ser essa tal emancipação moral Cracos! A regeneração social depende da influên-
da mulher? Eu vo-lo digo. cia da mulher brasileira, deve promanar diir
doméstico! ( ...
15. Cf. Maria Thereza C. Crescenti Bernardes, Mulheres edu- (J. Vieira de Almeida)"
cadas — Rio de Janeiro do Século XIX (1840-1890). Tese de Dou- 16. Jornal das Senhoras, Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1852.
toramento de Ciências Sociais, São Paulo, USP, 1983, p. 217 e s. A 17. In A Família, Rio de Janeiro, 23 de março de 1890.
autora dá vários exemplos de textos femininos deste período, onde
18. In A Mensageira, São Paulo, 15 de novembro de 1897.
podem ser observadas estas ambigüidades.

122 1 123
Este recuo que apontamos, em última instância, é tica do presente, o ineditismo e ousadia que tanto "pas-
uma conciliação com as práticas dominantes, ou um mou" os que dela tiveram nólfcia. Se, 2e7Eiziünte para
ceder às forças da hegemonia ideológica da elite pa- nós, a tradutora ficou aquém do original, é preciso ter
triarcal. consciência que também, tivemos a nossa Mary Wolisto-
Por que o recuo? Não se pode deixar de pensar necraft - a--possivel, dentro dqqitadro social e ideolo
-

nisto. Já foi dito que a escritora inglesa tinha não só gico que a realidade brasileira permitia.
experiência literária como uma vivência maior que a
de Nísia. Mary Wollstonecraft tinha 33 anos ao publi-
car seus Rights of Woman e vários outros livros, além Repercussão da obra
de ter sofrido na pele a experiência de um pai bruto,
dominador, que tiranizou sua mãe (epossivelménte as
filhas) em toda sua infância. Nísia apenas estreava na Muitos foram os ecos deste seu trabalho, apesar
literatura, e contava onze anos a menos. Contra ela pe- das limitações da época concernentes à distribuição de
savam a força da tradição nordestina e a hegemonia do livros e divulgação das idéias. Sem contar o quanto ele
patriarcalismo. As lutas revoftidnárias de seu tempo deve ter sido boicotado pelos homens de letras que se
e o massacre que delas decorriam (Frei Caneca e tan- sentiram atingidos na veemência de suas palavras e pela
tos outros foram bons exemplos), estavam bem nítidos imprensa, quase toda dominada por eles.
à sua volta, como para provar o quanto era difí cil alte- Em Recife não foram localizadas ainda reper-
rar esta realidade. cussões nem a favor nem contra suas idéias, apesar de
Nísiã dá - sem dúvida - um grande passo para pesquisas em arquivos e jornais da cidade. Acredita-
frente. Mais que um passo: um salto. Mas dá um pe- mos que devem ter existido, pois tal livro não podia
queno para trás, quando recua seu raciocínio. O tama- passar incólume junto ao pensamento contemporâneo.
nho do salto poderia estar na exata medida da corre- Mas em Porto Alegre, onde aliás Nísia Floresta é nome
lação de forças existentes na sociedade de sua época. de uma rua e patrona da Cadeira número 17, da Aca-
Ideais de liberdade a empurraram, mas ela estava à demia Feminina do Rio Grande do Sul, encontramos
mercê de forças antagônicas, é preciso sempre lembrar, uma mulher, dona de um belo nome também - Ana
e o conservadorismo a puxa para trás. Nísia, realmente, Eurídice Eufrosina de Barandas -, que escreveu, em
é em todos os sentidos, fruto de seu tempo. 1836, um opúsculo intitulado Diálogos. Este texto está
Mas não é esse "passo atrás" o mais importante. incluído no livro que é considerado o primeiro de ficção
Considero importante sim o seu salto, a sua visão crí- publicado nesta cidade. Trata-se de: O Ramalhete ou

124 1 125
Flores escolhidas no Jardim da Imaginação, impresso rável presente que recebemos da mão do Criador!
em 1845.' Não: também temos um alvedrio, bem apesar
No Diálogos, a personagem Mariana discute com vosso, pois que tendes querido fazer mais que o
o primo Alfredo e com seu pai Humberto, a respeito do Onipotente... Sujeitá-lo ao vosso poder e às vos-
direito de participação das mulheres na vida política, sas fantasias!! Porém a vossa mesma injustiça nos
bem como nas demais instâncias da vida social, ao in- sugere armas para combater-vos. Insensatos! Em
vés de ficarem em casa cosendo, como ela diz. Afinal, vão forcejais fascinar-nos; em vão pretendeis des-
o Rio Grande do Sul vivia a Revolução Farroupilha e pojar-nos desse dom! ... Eis os nossos pulsos,
este era o tema do momento. Com habilidade, Mariana agrilhoai-nos, arrastai-nos, matai-nos: é o poder do
rebate a argumentação masculina, aponta os prejuízos mais forte; mas nunca levareis a palma de dominar
de tal pensamento e termina vitoriosa na contenda as ações e movimentos interiores da nossa alma.
verbal. Ela é independente ao vosso orgulhoso império."
Muitos são os pontos que poderiam ser identifica-
dos às idéias nisianas, a respeito dos direitos das mu- Pedro Soares, que "descobriu" a feminista gaúcha,
lheres. defende a inclusão do nome de Ana de Barandas para
"o primeiro capítulo da história do feminismo brasilei-
"- Tendo nós os mesmos atributos, os mesmos ro, ao lado da grande precursora que foi a riograndense
sentidos; (sim, não podeis negar-nos o tato, ol- do norte Nísia Floresta Brasileira Augusta". E pergun-
fato, vista, etc.) e igualmente uma alma espiri- ta: "não teria Ana Eurídice lido o panfleto da revolu-
tual, uma voz, por uma autoridade haveis de pen- cionária inglesa na versão de Nísia Floresta? Não te-
sar, amar, aborrecer, desejar, temer, e seguir a riam as duas moças se conhecido e trocado idéias na
vossa vontade, como bem vos parece, e não haveis pequena Porto Alegre, conturbada pela Revolução Far-
roupilha?" 2 '

de querer que nós outras façamos uso desse admi-


Creio que sim. As duas jovens devem ter trocado
19. Cf. Pedro Maia Soares, Descobrindo o Feminismo Gaúcho, experiências pois tinham muito em comum e, com cer-
in Correio do Povo, 19 de maio de 1979, Porto Alegre. Do mesmo teza, a gaúcha conheceu o livro de Nísia Floresta, em
autor, Feminismo no Rio Grande do Sul, primeiros apontamentos sua edição de Porto Alegre, anterior apenas em três
(1835-1945), in Vivência, vol. 1, São Paulo, Fundação Carlos Cha-
gas, Brasiliense, 1980. anos aos seus escritos.
O Ramalhete ou Flores escolhidas no Jardim da Imaginação, livro
praticamente inexistente nas bibliotecas gaúchas, foi localizado pelo 20. Op. cit., Porto Alegre, Typographia de Isidoro José Lopes,
pesquisador Pedro Maia Soares, que gentilmente me cedeu uma fo- 1845, p. 63.
tocópia do mesmo. 21. Op. cit., in Correio do Povo, 19 de maio de 1979.

126 1 127
Voltando nossa atenção para a Corte, encontra-
mos, no Rio de Janeiro de 1844, a publicação daquele cussão de uma mensagem ao Governo Geral em
que seria o primeiro romance brasileiro de sucesso. O prol dos tais direitos das mulheres. .
autor, Joaquim Manuel de Macedo, conhece a fama e
conquista os leitores com as artimanhas de sua perso- Ora, são com certeza dos Direitos das Mulheres e
nagem A Moreninha, com a hábil fixação de costumes, Injustiça dos Homens, as idéias aí expressas, pois no
tipos humanos e da vida social de seu tempo. Conside- original inglês não encontramos esta ênfase na ocupa-
rado pela crítica uma obra de valor documental pelos ção feminina de cargos políticos ou comando de tropas
registros aí contidos, tal texto é ainda visto como militares. Manuel de Macedo colocou nas mãos de sua
uma autêntica crônica da sociedade fluminense do II personagem um livro que ele conhecia e provavelmente
Reinado. era conhecido pelas leitoras de seu tempo, pois não
Pois bem. Carolina, a moreninha, escapa em parte precisou explicar, nem em nota de pé de página, quem
ao estereótipo feminino dominante (e presente nas de- seria a Mary Wollstonecraft citada. Apesar de ser um
mais personagens) e é justamente isso que atrai Augus- pequeno trecho e não haver outras referências explíci-
to. A "interessante moreninha", "a travessa, a inquieta, tas das idéias feministas de Carolina, se nos atentarmos
a buliçosa, a tentaçãozinha", dona de um "sorriso feiti- para seu comportamento e para as "provações" que ela
ceiro e irresistível", "o prazer em ebulição", tinha submete o enamorado Augusto, vingando o seu sexo
qualquer coisa que a distinguia das demais figuras de zombarias, verificaremos que esta passagem é fun-
femininas. A explicação nos chega através de um diá- damental para explicar seu temperamento "vivo" e
logo do próprio Augusto com um amigo: "curioso", que tanto sucesso fez, no próprio livro e en-
tre os leitores.
". . . a bela senhora é filósofal. . . faze idéia! São dela, Carolina, estas palavras:
Já leu a Mary de Wollstonecraft e, como esta de-
fende o direito das mulheres, agastou-se comigo, "Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher se-
porque lhe pedi uma comenda para quando fosse ria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por
ministra de Estado, e a patente de cirurgião de mais de três dias, e desejei vingar a injúria feita
exército, no caso de chegar a ser general; mas, ao meu sexo. Trabalhei, confesso que trabalhei
enfim, fez as pazes, pois lhe prometi que, apenas para prendê-lo; fiz talvez mais do que devia, só
me formasse, trabalharia para encartar-me na
Assembléia Provincial e lá, em lugar das maçadas 22. A Moreninha, 17.a edição, São Paulo, Ática, Série Bom
de pontes, estradas e canais, promoveria a dis- Livro, 1989, p. 58. As citações relativas à personagem encontram-
se entre as páginas 73 e 79, desta edição.

128
129
para ter a glória de perguntar-lhe uma vez, como época: O Voto Feminino, que lhe valeu elogios na re-
agora o faço: 'Então, senhor, quem venceu: o ho- vista francesa Le Droit des Femmes. 24
mem ou a mulher?... ' O tema da emancipação feminina passou a render
cada vez mais ensaios e artigos na imprensa carioca, a
partir da década de 1850. O Diário do Rio de Janeiro,
Naturalmente, foi ela. Nem era preciso responder
em 18 de novembro de 1853, trazia um artigo assinado
tal questão.
por J. B. Pinto Júnior, intitulado: "Da Mulher e dos
Não deixa de ser interessante saber que a heroína seus deveres na sociedade". Vejamos:
do livro surgiu como uma homenagem do autor à sua
futura esposa, Maria Catarina de Abreu Sodré, prima- ( ... ) "Desde que o mundo é mundo, da mulher
irmã de Álvares de Azevedo. O poeta romântico, Ma- se há falado bem diversamente; uns a tem exal-
nuel de Álvares de Azevedo, em sua curta vida, nem tado quanto é possível; outros a tem deprimido
conheceu uma irmã que nasceria no ano de sua morte além das raias da verossimilhança. Uns dela tem
- 1852 - e que seria uma jornalista e também escri- feito um ídolo; outros dela tem feito um objeto
tora de renome, preocupada com a problemática femi- de zombaria." ( ... ) "À Mulher, na qualidade
nina. Josefina Álvares de Azevedo era o seu nome e de mãe, depois da criação e da educação física,
em sua militância fundou o jornal A Família, voltado toca a preparar seus filhos, com os primeiros ru-
para a educação da mulher. dimentos da educação religiosa e moral; para mais
Se Josefina Álvares de Azevedo conheceu um dia tarde poderem a par das ciências e das artes, de-
senvolver os princípios que com a criação rece-
o livro de Nísia Floresta, provavelmente foi através de
beram." ( ...
bibliotecas da família, pois muitos anos haviam se pas-
sado desde a sua publicação. E por que não a que Ma- Alguns meses mais tarde, o mesmo Diário do Rio
cedo e sua Carolina deveriam possuir? Naturalmente, de Janeiro publicava em 21 de janeiro de 1854, um
trata-se de conjecturas, mas com algumas possibilidades artigo anônimo e extremamente irônico, que critica as
de serem verdadeiras. mulheres que não mais cuidam da casa e dos filhos,
Como jornalista Josefina viajou pelo norte e nor- porque são "emancipadas" e só vivem em teatros e fes-
deste do país divulgando seu jornal e publicou, em tas. Todo o artigo tem um só objetivo, o de criticar e
1890, entre outros livros, uma comédia de sucesso na condenar a novidade do século: a emancipação.

23. Op. cit., p. 115. Grifos meus. 24. Cf. Maria Thereza C. Crescenti Bernardes, op. cit., p. 161.

130 131
Na época em que Nísia Floresta residia no Rio de Ainda neste ano de 1853, já para concluir, encon-
Janeiro, uma argentina que também aí vivia, Zaira tramos no Diário do Rio de Janeiro, do dia 23 de ou-
Americana, publicava, em 1853, seus Pensamentos e tubro, um domingo, o anúncio de uma comédia que
um extenso texto em que mostrava as vantagens da estreava no Theatro de São Pedro de Alcântara. Seu
educação da mulher para a sociedade, enfatizando suas título era precisamente A emancipação das mulheres,
funções de esposa e mãe. 25 uma composição de três atos, de Antônio de Castro
Lopes, e ensaiada por João Caetano dos Santos. A úni-
"Que necessidade temos nós outras dos talentos ca informação que existe é que a "cena passa-se no Rio
do Homem? Somos por ventura inferiores a ele de Janeiro, em 1852". Qual foi a repercussão de tal
em alguma coisa? Em nada . . . Afastemos para comédia junto ao público não se sabe, pois não há in-
longe de nós tão mesquinha idéia. . ." ( ... ) "E dícios dela nos jornais dos dias que se seguem. Apenas
não é tão louvável aspirarmos às coisas superio- é possível deduzir que não deve ter agradado muito,
res? A mulher não tem iguais direitos que o ho- pois o mesmo jornal, no sábado de 5 de novembro,
mem quanto às aspirações e ambições sublimes anunciava A emancipação das mulheres, "com um final
que enobrecem a nossa alma, e elevam o nosso novo arranjado pelo autor" ... E como depois deste
espírito e coração? Por que razão querer-nos pri- anúncio não existem outros, podemos concluir o pouco
var de sentir e pensar condignamente?" 26 sucesso de tal comédia, ou mesmo pelo fracasso de pú-
blico, já que sua representação deu-se apenas por duas
Se Zaira Americana conheceu o livro de Nísia vezes.
Floresta não há como afirmar. Apenas mostramos como Realmente, este é um tema polêmico em que não
as idéias de emancipação tomam novo impulso nos anos só as mulheres, mas também os homens se envolveram,
seguintes às três edições dos Direitos das Mulheres e a maioria deles posicionando-se contra, ou limitando
Injustiça dos Homens e que, aqui e ali, encontram-se as conquistas femininas à esfera doméstica. Só bem
mais tarde, a partir da década de 1880, encontraremos
ressonâncias do mesmo pensamento expressado por
a questão de direitos e emancipação sendo debatida nos
Nísia.
jornais femininos de todo país, com mais propriedade
e consistência, tendo em vista conquistas objetivas,
25. Zaira Americana. Mostra as Vantagens que a Sociedade como o voto, ainda que enfrentando as oposições pre-
inteira obtém da Ilustração, Virtudes e Perfeita educação da Mulher,
como mãe, e esposa do Homem. Rio de Janeiro, Typographia Dous visíveis de toda ordem.
de Dezembro, 1853.
26. Op. cit., p. 24 e 119.

132 1 133
TL

LEIA TAMBÉM
Palavras finais
Assim, à medida que refazemos a história da con- OPÚSCULO HUMANITÁRIO
quista dos direitos das mulheres, mais reconhecemos o NÍsIA FLORESTA
valor do texto de Nísia Floresta, a importância que ele Introdução e Notas de PEGGY SHARPE- VALADARES
teve no cenário nacional e na formação de uma cons- Série Mulher Tempo, v. 1
ciência feminista. "O Opúsculo Humanitário retorna à sua segunda edição nada menos
Se considerarmos a contribuição nisiana a esse que 136 anos depois de ter escandalizado as brasileiras e brasileiros dos
processo, seu papel de fundadora e sua trajetória mili- tempos imperiais. Nele está contida, em sua forma mais elaborada, a
tese de Nísia Floresta como educadora feminista e reformadora social.
tante, num momento histórico de verdadeiro obscuran- Indiscutivelmente também - descontado o encantamento romântico
tismo em relação aos direitos femininos, seus vacilos e próprio de seu estilo, a sedução de que era possuído todo o romantismo
brasileiro, privilegiadamente coevo de um país que construía, também
contradições e certas posturas que hoje podemos inter- de forma romântica, o seu sonho de independência - o arcabouço das
pretar como ingênuas e mesmo pueris, afiguram-se me- idéias de Nísia Floresta será ainda um desafio à contemporaneidade
nores diante do aspecto pioneiro de sua obra. nacional."
PEGG Y SHARPE- VALADARES
F fácil para nós agora compreender por que Nísia
Floresta foi um "escândalo" na sua época, o esqueci-
mento a que foi relegada e a resistência dos próprios O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA MULHER
contemporâneos em considerá-la uma escritora e de MOEMA VIEZZER
valor.
No momento em que se pesquisa e se constrói a Série Mulher Tempo, v. 2
história intelectual da mulher brasileira, é hora de dar "O livro faz a abordagem de um tema que comumente não tem
a Nísia Floresta o lugar de destaque que ela de fato despertado o interesse dos movimentos de mulheres, como é o caso da
atuação das mulheres do setor popular urbano nos Clubes da Mães, seus
merece e reconhecer o ineditismo de seus escritos. A anseios e perspectivas.
autora - que tão longe iria em sua trajetória de vida Convidada para prefaciar esta publicação, senti-me muito prestigiada,
- foi sim uma mulher educada entre as que surgiram pois a militância de base nas comunidades de bairros representou minha
estréia na vida política.
no Brasil patriarcal e também uma das raras mulheres Os depoimentos colhidos e analisados por Moema Viezzer têm a
de letras de seu tempo. Mas foi mais ainda. Nísia Flo- importante função de resgatar para o movimento de mulheres o papel
histórico e revolucionário dessa militância, como contribuição para o
resta foi também uma brasileira erudita e "ilustrada", processo de libertação da mulher. Demonstra como esse é um
como bem poucas em nossa história. movimento transformador na medida em que desperta na mulher da
classe popular, na dona-de-casa, a necessidade de mudanças sociais."
Constância Lima Duarte BENEDITA DA SILVA
São Paulo, abril/1989.

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