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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ - UECE

CENTRO DE HUMANIDADES - CH
TÓPICOS DE FILOSOFIA II

Fundamentos apontados por Marcuse para a


compreenão da Ciência da Lógica de Hegel

PEDRO HENRIQUE FONTENELE TELES

FORTALEZA
2011
RESUMO

Considerando a importância do pensamento de Hegel para a história da filosofia,


particularmente a obra a “Ciência da Lógica”, que constitui o núcleo sistemático de todo o
pensamento hegeliano, foi utilizado o texto de Herbert Marcuse, Razão e Revolução,
particularmente o Capítulo V, “Ciência da Lógica”, com o objetivo de extrair do texto os
fundamentos e idéias principais necessárias para uma melhor compreensão da obra em
específico, assim como de todo o sistema. Fez-se uma diferenciação entre a Lógica formal,
pertencente à tradição filosófica aristotélica, e a lógica dialética, utilizada como método no
sistema hegeliano. Em seguida foi exposto o movimento básico de todo o sistema da “Ciência
da Lógica” e apontou-se o modo como tal movimento sistemático do pensamento hegeliano
faz-se presente no curso da história. Conclui-se, assim, que a leitura do sistema hegeliano por
meio de Marcuse permitiu não somente uma leitura mais atenta da obra hegeliana, mas
também a identificação dos elementos presentes nessa que Marcuse julgou mais
fundamentais, o que viabilizou simultaneamente a identificação da influência que Hegel teve
na obra de Marcuse, assim como uma melhor compreensão de sua própria obra.

Palavras-chave: Ser; Essência; Conceito.

INTRODUÇÃO

Com o objetivo de obter a preparação teórica necessária para leitura da “Ciência da Lógica”,
ponto central do sistema hegeliano, sendo um texto de notável complexidade e riqueza de
conteúdo, utilizou-se como ponto de partida a leitura do quinto capítulo do livro de Herbert
Marcuse, Razão e Revolução, no qual são desenvolvidos os principais fundamentos
componentes do sistema construído na “Ciência da Lógica”. Os principais elementos
identificados foram as diferenças identificadas entre a Lógica formal, pertencente à tradição
filosófica aristotélica, e a lógica dialética, utilizada como método no sistema hegeliano. Por
meio dessa diferenciação foram apresentadas as característica iniciais da “Ciência da Lógica”,
importantes para a leitura e compreensão de todo o seu conteúdo, sendo ressaltada a
importância do método dialético para o pensamento filosófico como compreensão crítica da
realidade. Em seguida, foi exposto o movimento básico de todo o sistema da “Ciência da
Lógica”, que devido à natureza sistemática da obra hegeliana faz-se presente em toda a
extensão não somente da obra em específico mas de todo o sistema hegeliano, parte a parte,
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pois tal obra constitui-se no núcleo sistemático de todo o pensamento hegeliano. Concluiu-se
a exposição do texto apontando o modo como tal movimento sistemático do pensamento
hegeliano faz-se presente no curso da história, observando-se que o sistema na verdade é a
própria história exposta de modo lógico dialético. Por meio dessas observações tornou-se
possível uma leitura mais atenta não somente da obra específica, a “Ciência da Lógica”, mas
de todo o sistema hegeliano, fundamental para o estudo da história da filosofia. Além do
notável ganho filosófico obtido pela compreensão do sistema hegeliano, a leitura de tal
sistema por meio do olhar de Marcuse permite a identificação de quais dos elementos da obra
de Hegel este julgou mais importantes, o que viabiliza simultaneamente a influência que
Hegel teve na obra de Marcuse, assim como uma melhor compreensão de sua própria obra. A
leitura e compreensão deste texto possibilitam, por isso, ganho duplo.

Diferenças entre a Lógica formal e a Lógica dialética

A Lógica tradicional aristotélica possui características divergentes em relação à Lógica


dialética quanto à posição a respeito do conteúdo da realidade concreta. Tal diferença implica
em posturas completamente opostas no que se refere ao papel que cada um desses ramos
filosóficos cumpre no mundo efetivo. Para a Lógica tradicional, o conteúdo da realidade
concreta existe independente do pensamento, de modo que o desenvolvimento de um
pensamento filosófico que alcance a verdade se dá através da pura observação da natureza e
de suas leis próprias. O pensamente neste contexto também possuiria suas categorias e leis
independentes da realidade que processariam o conteúdo apreendido da natureza. Assim, para
que o conhecimento obtido possuísse caráter de veracidade bastaria que o pensamento sob o
qual se funda estivesse de acordo com as leis e categorias formais, o que significa dizer que
este fosse coerente. O princípio fundamental que governa tais leis e categorias formais é o
princípio de não-contradição: “não se pode afirmar e negar algo de alguma coisa ao mesmo
tempo e sob as mesmas condições”. Tal princípio atesta a veracidade do conhecimento
identificando a coerência ou ausência de contradição dos pensamentos que o envolvem. Há na
Lógica formal uma separação entre a forma e o conteúdo, de modo que aquela pertencesse ao
pensamento e este a realidade concreta. Esta posição filosófica implica uma resignação diante
da realidade, pois para a filosofia baseada na Lógica formal seu papel consiste em apreender o
mundo como ele é, considerando qualquer crítica ou questionamento em relação à realidade
como sendo incoerente, uma vez que divergente do dado obtido na realidade concreta.

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Já a Lógica dialética possui uma posição completamente oposta em relação à
realidade. Para esta não seria possível ao pensamento obter um conhecimento verdadeiro da
realidade possuindo leis e categorias divergentes dele. Indo mais além, a Lógica dialética
considera que há uma identidade entre pensamento e realidade, de modo que o conteúdo de
ambas são um só, assim como as leis e categorias são os mesmos. Desse modo, o
conhecimento não existe por conta própria, mas depende do desenvolvimento do pensamento.
Há neste método filosófico uma unidade entre forma e conteúdo, pois o conhecimento é
produzido a partir do desenvolvimento do pensamento junto com a realidade, pois ambos são
um só. Assim, diferente da lógica tradicional, a lógica dialética considera o conhecimento não
como algo pronto e definitivo, mas que se constrói e muda com seu desenvolvimento. A
mudança presente no conhecimento também marca uma diferença no critério da verdade, pois
o que para a Lógica formal era o princípio de não-contradição, para a Lógica dialética não
possui mais validade. Para esta, o constante desenvolvimento em que se encontra o
conhecimento faz da contradição algo que lhe é inerente e essencial. Para a lógica dialética a
contradição não é apenas válida no conhecimento como é indispensável, pois é ela que
impulsiona o desenvolvimento do pensamento e da realidade, juntos, assim como do
conhecimento deles obtido. Isto marca uma mudança completa também em relação a postura
que tal filosofia adota diante da realidade. Como a contradição é a marca da realidade, o
pensamento filosófica com base na lógica dialética tem como papel o questionamento da
realidade e o apontamento de suas contradições para que estas sejam superadas, tornando-se
em seguida mais uma vez contraditórias e repetindo o processo permanentemente.

O Movimento lógico do Sistema

O sistema tem início com a categoria fundamental do “Ser”, que a tudo determina,
sendo determinada apenas por si mesma. A observação inicial de tal categoria a considera
como algo isolado e fixo, o que resulta na compreensão do Ser de forma totalmente
indeterminada e vazia. Tal compreensão o identifica com a categoria que lhe é imediatamente
oposta, o “Nada”. Esse fato revela que as categorias do “Ser” e do “Nada” são na verdade
uma única unidade lógica com dois momentos diferentes que se alternam numa relação
dialética. O movimento gerado por esta relação origina uma terceira categoria, o “Vir-a-Ser”,
inerente a existência de tudo o que existe.

A realidade na qual é aplicada a categoria do “Vir-a-Ser”, contudo, só possui


existência real enquanto dotada de determinação, que por sua vez consiste em diferenciar algo
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de outra coisa. Assim, a existência de algo tem como condição a existência de seu oposto. Em
termos lógicos, a existência do “ser-em-si” depende da existência do “ser-outro”, sendo
ambos os termos sub-categorias formadas das determinações da categoria inicial “Ser”. A
relação inicial entre o “ser-em-si” e o “ser-outro” é considerada como uma negação daquele
em relação a este, pois a existência do “ser-em-si” tem como fundamento não o que é próprio,
mas o que é outro, sendo dele dependente. Mas o “ser-outro”, por sua vez, também só possui
existência própria enquanto oposição ao “ser-em-si”, sendo dele igualmente dependente. O
movimento da categoria do “Vir-a-Ser”, portanto, atua sob as sub-categorias determinadas do
“ser-em-si” e do “ser-outro”, fazendo-as alternarem-se mutuamente entre si, formando, assim,
a existência de todas as coisas que compõe a realidade concreta. Desse modo, toda a realidade
é fundada sob este permanente processo de mudança, que consiste em deixar de ser o que é
para tornar-se outro.

O próximo passo do sistema consiste em integrar o “ser-em-si” ao “ser-outro”, de


modo a formar uma terceira sub-categoria lógica inerente a existência de todas as coisas e que
consiste no que é preservado das mudanças ocorridas da alternância entre “ser-em-si” e “ser-
outro”, a saber, o “ser-por-si”. A existência do “ser-por-si” nega a primeira negação entre o
“ser-em-si” e o “ser-outro”, consistindo numa negação da negação. Assim, a existência de
cada ente determinado constitui-se num processo negativo formado pela relação dialética do
seu “ser-em-si” com seu “ser-outro” através de um auto-relacionamento de si consigo mesmo,
próprio da existência de cada coisa, ou seja, seu “ser-por-si”. Esta última sub-categoria
completa o sentido lógico do movimento dialético, pois tal movimento, assim como tudo o
que existe, só tem sentido enquanto oposição a um contrário. Assim, o que permanece e o que
muda têm suas existências determinadas entre si e reciprocamente.

A unidade negativa do “ser-por-si”, originada de seu auto-relacionamento, sendo


inerente a todas as coisas que compõem a realidade concreta, consiste na “Essência”, a
categoria que dá seguimento ao movimento lógico. A “Essência” é a negação permanente de
todo ser determinado através de um movimento infinito de negação das suas determinidades.
O movimento lógico resultante da contradição entre o “ser-em-si” e o “ser-outro” realizasse
de modo a permitir o desenvolvimento dos entes, pois o que já é concreto de cada coisa
constitui-se não no seu “ser-em-si”, mas no seu “ser-outro”, de modo que as potencialidades
inerentes a cada uma das coisas são as determinidades próprias de seu “ser-em-si”. A
contradição existente entre o “ser-em-si” ainda em potência e o “ser-outro” já concretizado

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impulsiona o movimento lógico de atualização das potencialidades ainda não efetivadas. O
“ser-por-si” é um produto desse processo de aperfeiçoamento constante. Mas tal
aperfeiçoamento própria de cada um dos entes pressupõe a existência de uma auto-
consciência, bem como um auto-conhecimento, pois do contrário não seria possível aos entes
cancelar suas características não condizentes com seu “ser-em-si” e manter as que fossem
com ele coincidentes. Desse modo, a existência de uma auto-consciência própria dos entes
lhes imprime a condição de sujeito, uma vez que auto-consciência e auto-conhecimento são
características exclusivamente subjetivas. O processo de desenvolvimento do sujeito ocorre
sob determinações exclusivamente internas, inerentes ao próprio sujeito, o que significa que
ocorre com liberdade, atributo fundamental para o sujeito.

Tal processo de superação das contradições existentes entre o “ser-em-si” e o “ser-


outro”, que consiste na Essência, chega ao seu fim quando as potencialidades do “ser-em-si”
estiverem suficientemente amadurecidas. Este último momento constitui-se na passagem da
“Essência” para a última categoria lógica o “Conceito”. Assim, o movimento lógico do
sistema se conclui.

A Lógica dialética na história

O Conceito se identifica com o Universal, assim como os vários momentos que


compõem a Essência do Ser se identificam com os Particulares. Trazendo essas categorias
para a realidade histórica, tem-se que cada momento histórico realiza-se em um momento do
processo em que constitui a Essência do Ser. Desse modo, a verdade da história não pertence
a nenhum dos momentos históricos isoladamente, mas a totalidades de momentos, que por sua
vez se identifica com o Universal, ou seja, o Conceito. Assim, sabendo que o Conceito é na
verdade sujeito, já que dotado de auto-consciência e auto-conhecimento, cujo processo de
desenvolvimento trata-se de um auto-relacionamento, tem-se que o ser humano detém o papel
de sujeito histórico responsável por mover o curso da história. A realidade momentânea,
aparente realidade concreta, na verdade trata-se de uma mera etapa do processo de
desenvolvimento, que por isso se apresenta como envolta por irracionalidade. Tais
irracionalidades constituem-se nas contradições inerentes ao Ser, destinadas a serem
superadas, cujos atos sucessivos de superação movem o processo de desenvolvimento da
Essência, que constitui o próprio curso da História. Assim, o Conceito, formado pela
totalidades de momentos históricos é na verdade o que há de mais concreto e efetivo na
realidade, sendo a realidade aparente, mera etapa a ser superada. Assim, o que é real e efetivo
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não são as irracionalidades dos momentos históricos isoladamente, mas a racionalidade da
universalidade do todo.

CONCLUSÃO

A leitura do sistema hegeliano por meio de Marcuse permitiu não somente uma leitura
mais atenta da obra hegeliana, mas também a identificação dos elementos presentes nessa que
Marcuse julgou mais fundamentais, o que viabilizou simultaneamente a identificação da
influência que Hegel teve na obra de Marcuse, assim como uma melhor compreensão de sua
própria obra.

REFERÊNCIAS

▪ Marcuse, Herbert. Razão e Revolução. Capítulo V. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

▪ Hegel, Georg Wilhelm Friedrich. Enciclopédia das Ciências Filosóficas. Vol. 01: A Ciência
da Lógica. São Paulo: Loyola, 1995.

▪ Hegel, Georg Wilhelm Friedrich. Ciência da Lógica, excertos; seleção e tradução: Marco
Aurélio Werle. São Paulo: Barcarolla, 2011.