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andra Cavalcanti

Em 14 de de abril de 1930, aos 36 anos, Vladimir Maiakóvski, o maior poeta russo da


era contemporânea, deu um fim trágico à sua atormentada vida. Matou-se porque perdeu
toda a esperança e se viu diante de uma estrada sem saída. (...)
A brutalidade crescia. A impunidade era a regra. O desrespeito às criaturas era a norma
geral. Toda e qualquer reação resultava em mais iniqüidades, em mais violência.(...)
Em 1936, escreveu Eduardo Alves da Costa o poema No caminho com Maiakóvski, que
resume sua desoladora tragédia. "... Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma
flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/
pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais frágil
deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo nosso medo,/
arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada." (...)
Nestes tristes tempos, muitos estão vivendo as angústias desabafadas neste poema. (...)
. Os que chegaram ao poder, sem nenhuma noção de servir ao povo, logo revelaram a
sua verdadeira face. (...) O País está vivendo uma fase de completo e total desrespeito às
leis.(...) Roubaram uma flor de nosso jardim, a flor da decência, da dignidade, da ética,
e nós não dissemos nada! (...)
Será que vamos aceitar? Não vamos dizer nada? Será que o povo brasileiro perdeu de
vez a sua capacidade de se indignar? A sua capacidade de discernir? A sua capacidade
de punir? (...)
O que vai hoje na alma das pessoas é o corajoso sentimento de que é preciso vencer o
pavor e o pânico diante da audácia dessa gente, não permitindo que eles nos calem para
sempre.(...) E já não poderemos dizer nada.

Texto completo
-Já não podemos dizer nada!
* Sandra Cavalcanti
Em 14 de de abril de 1930, aos 36 anos, Vladimir Maiakóvski, o maior poeta russo da
era contemporânea, deu um fim trágico à sua atormentada vida. Matou-se porque perdeu
toda a esperança e se viu diante de uma estrada sem saída.
Sua obra é absolutamente revolucionária, como revolucionárias eram as suas idéias.
Mas o poeta, dizia ele, por mais revolucionário que seja, não pode perder a alma!
Ele acreditou piamente na Revolução Russa e pensou que um mundo melhor surgiria de
toda aquela brusca e violenta transformação. Aos poucos, porém, foi percebendo que
seus líderes haviam perdido a alma.
A brutalidade crescia. A impunidade era a regra. O desrespeito às criaturas era a norma
geral. Toda e qualquer reação resultava em mais iniqüidades, em mais violência. Um
stalinismo brutal assolou a pátria russa. Uma onda avassaladora de horror e impotência
tomou conta de seu espírito, embora ainda tentasse protestar. Mas foi em vão. Rendeu-
se e saiu de cena.
Em 1936, escreveu Eduardo Alves da Costa o poema No caminho com Maiakóvski, que
resume sua desoladora tragédia. "... Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma
flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/
pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais frágil
deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo nosso medo,/
arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada."
Nestes tristes tempos, muitos estão vivendo as angústias desabafadas neste poema.
Também acreditaram em líderes milagrosos, tiveram esperanças em dias mais serenos,
esperaram por oportunidades melhores e sonharam com paz e alegria. Nunca
imaginaram que, em seu lugar, viriam a impunidade, a violência, o rancor e a cobiça. Os
que chegaram ao poder, sem nenhuma noção de servir ao povo, logo revelaram a sua
verdadeira face.
O País está vivendo uma fase de completo e total desrespeito às leis. A Lei Maior,
aquela que o País aprovou por meio de seus representantes, não existe. Para uns, todas
as leniências. Para outros, todos as violências. Nas grandes cidades, dois governos, duas
autoridades: a tradicional e a dos marginais. No campo, ausência de direitos e deveres.
Uma malta de desocupados, chefiados por líderes atrevidos e até debochados, está
conseguindo levar o desassossego e a insegurança aos milhões de trabalhadores rurais
que ali se esforçam para sobreviver. Isso já vem acontecendo há muito tempo e não há
sinal de que alguma autoridade pretenda submetê-los às penas da lei. Ao contrário. Eles
gozam de imenso prestígio junto ao presidente, que não se acanha em lhes dar cobertura
e agir com a maior cumplicidade.
A ausência das autoridades tem sido o grande estímulo para que esses grupos, e outros
que vão surgindo, venham conseguindo, num crescendo de audácia e desrespeito, levar
o pânico aos que vivem do trabalho no campo. A mesma audácia impune garante
também a expansão das quadrilhas de narcotraficantes em todo o País. A cada dia que
passa eles chegam mais perto de nós. Se examinarmos com atenção os acontecimentos
destes últimos dois anos, dá para entender o nosso medo.
Quando explodiu o caso do Waldomiro Diniz, as autoridades estavam na obrigação de
investigar tudo e dar uma punição exemplar. O que se viu? Uma porção de manobras
para encobrir os fatos e manter os esquemas intocáveis. E qual foi a reação do povo?
Nenhuma.
Roubaram uma flor de nosso jardim, a flor da decência, da dignidade, da ética, e nós
não dissemos nada!
Quando, da noite para o dia, dezenas de deputados largaram suas legendas e se
bandearam para as hostes do governo, era preciso explicar tão misteriosa adesão. O que
se viu? Uma descarada e desafiadora alegria no alto comando do País! E qual foi a
reação do povo? Nenhuma.
Eles nem se esconderam. Pisaram em nossas flores, mataram o cão que nos podia
defender. E nós não dissemos nada!
Quando um parlamentar, que integrava a tal maioria, veio denunciar o uso de recursos
públicos, desviados de forma indecente, com a conivência dos altos ocupantes do
governo, provando que a direção do PT e do governo sabiam de tudo e de tudo se
haviam aproveitado, qual foi a reação do povo? Nenhuma.
Eles nem se importaram com o fato de terem sido descobertos. O mais frágil deles
entrou em nossa vida, roubou a luz de nossas esperanças e, conhecendo o nosso medo,
ainda se deu ao luxo de arrancar a nossa voz da garganta!
Será que vamos aceitar? Não vamos dizer nada? Será que o povo brasileiro perdeu de
vez a sua capacidade de se indignar? A sua capacidade de discernir? A sua capacidade
de punir?
Acho que não. Torço para que isso não esteja acontecendo. Sinto, por onde ando e por
onde vou, que lá no mar alto uma onda de nojo está crescendo, avolumando-se,
preparando-se para chegar e afogar esses aventureiros. Não se trata, simplesmente, de
uma questão eleitoral. Não se cuida apenas de ganhar uma eleição. O importante é não
perder a alma. O direito de sonhar. A vontade de viver melhor.
Colocar este momento como uma simples luta entre governo e oposição é muito pouco.
E derrotá-los, simplesmente, também é muito pouco, diante do crime que eles
praticaram contra as esperanças de um povo de boa-fé.
O que vai hoje na alma das pessoas é o corajoso sentimento de que é preciso vencer o
pavor e o pânico diante da audácia dessa gente, não permitindo que eles nos calem para
sempre. Se não forem enfrentados, se não forem punidos, se seus métodos e processos
não forem repudiados, nosso futuro terá sido roubado. Nossa voz terá sido arrancada de
nossa garganta.
E já não poderemos dizer nada.